Declaração de Amor – parte 5 de 5

Encerradas as férias, Marta, no início do ano letivo, retomou as aulas e as suas atividades profissionais, e Dálton redobrou os seus esforços no trabalho e adicionou centenas de reais ao seu salário mensal.

A carreira de Dálton seguia em franca ascensão. Ele arrancava elogios de Durval e olhares hostis de vendedores e desafetos.

Na faculdade, Marta apreendia as lições ministradas pelos professores; no escritório, Floriano e Lucrécia ministravam-lhe lições, práticas estas, que davam suporte àquelas. Com tal auxílio, valioso, indispensável, ela avantajava-se aos seus condiscípulos; e muitos dentre eles a consultavam em busca de esclarecimentos para certas lições que não haviam assimilado na sala de aula.

Numa sexta-feira chuvosa, séries intermináveis de raios rasgavam o céu – e seguiam-se estrondos assustadores. Os ventos fustigavam as árvores, cujos galhos e tronco vergavam-se. Dálton, preocupado, telefonou para Marta, no horário de intervalo entre duas aulas, e disse-lhe que a buscaria na faculdade. Retirou-se do carro, à frente da faculdade, duas horas depois de encerrado o telefonema. Empunhava dois guardas-chuva; com a mão direita, o armado; e com a esquerda o desarmado. Andou, passos firmes e cuidadosos, pelo piso molhado, a cabeça ligeiramente inclinada, até os degraus que davam acesso ao prédio da faculdade. Ao abrigo da laje, girou o cabo do guarda-chuva aberto, de cuja capa, com a força centrífuga, removeu a água, e o desarmou. Deteve-se ao limiar da porta ampla. Não entrou no prédio. Esperaria por Marta, próximo à porta. Olhou ao redor à procura de uma pessoa conhecida. Assistiu à tempestade arrefecer. Cessaram os raios. Amainaram os ventos. Um grupo de universitários – duas mulheres e três homens, dois desleixados e um de postura formal, de terno e gravata, óculos de lentes grossas escanchados no nariz achatado de abas largas. Este era alvo de piadas. Com emprego inapropriado do jargão jurídico, tratavam-no por juiz; e ele, representando o papel que lhe atribuíam, emprestou entonação férrea à voz, e, empunhando um martelo imaginário, sentenciou um ladrão-de-galinhas à prisão perpétua, exortando-o a viver até a data aprazada para a sua soltura. Os outros alunos gargalharam. Um dos que integravam este grupo mambembe, fazendo a vez de réu, súplice, declarou-se inocente e disse que não roubara uma galinha, mas, sim, um galo, um predador sexual. A moça que se fez de advogada de defesa pediu a comutação da pena. O homem que fazia a vez de advogado de acusação declarou que o réu não roubara uma galinha qualquer, mas uma galinha preta, que seria imolada num ritual de magia negra, à luz de uma vela vermelha, numa linha de trem, numa região baldia, sob o viaduto, à meia-noite de uma sexta-feira de lua cheia. E o que interpretava o juiz adicionou mais duzentos anos à sentença de prisão perpétua e enfatizou a exortação: que o réu não morresse antes de cumprir integralmente a pena; se ele morresse, outros duzentos anos seriam adicionados à condenação; e encerrou a peroração com uma série de interjeições recheadas de latim macarrônico e elogios à obra do Mestre Janotus de Bragmardo, êmulo de Cícero, e cuja oratória está bem documentada no livro do ilustríssimo Alcofribas, abstrator de quintessência. Dálton sorriu. Divertiu-se com a caricatura grotesca que os alunos representaram, surpreso com as alusões a casos famosos, popularizados pela imprensa sensacionalista e às obras clássicas da literatura e da filosofia. Os alunos entremeavam os discursos com observações sobre a tempestade, a fúria dos ventos, que retornaram com vigor redobrado, e os raios, que rasgavam o céu escuro. Todos foram ao pátio. No pátio, Dálton estudou os detalhes das estátuas que o adornavam. Um dos alunos, o que representara o papel de advogado de acusação, citou o nome do professor Basílio, e o classificou como um predador sexual, um sedutor de alunas incautas. Uma aluna e um aluno exortaram-no a não dar ouvidos aos boateiros; e ele afirmou não se tratar de boato, e disse que o professor Basílio estava arrastando as asas para uma aluna do segundo ano, e citou o nome: Marta. Dálton, ao ouvi-lo, apurou os ouvidos, e, simulando interesse pelo alto-relevo incrustado na parede, aproximou-se do grupo.

– Que Marta? – perguntou uma das moças.

O aluno descreveu-a, nos pormenores. Dálton reconheceu Marta na descrição, e seu sangue borbulhou. Fungou, furioso, e expeliu, pelas narinas, o seu furor. Cruzou os braços ao tórax, e pôs-se a ouvir, atentamente, os comentários dos alunos, sem deixar de si escapar uma palavra sequer. Mordia os lábios, ora o superior, ora o inferior. Os detalhes que os alunos forneciam eram reveladores. Ninguém conceberia tantos pormenores para uma história inventada. Dálton acolheu como verdadeiros os relatos. A temperatura de seu corpo elevava-se à medida que os alunos adicionavam detalhes à narrativa.

Arrefeceram-se os ventos. Raios cortavam o céu a intervalos maiores. A água despencava, agora, calma e ritmada.

Dispersaram-se os alunos. As duas moças e um dos moços que haviam participado da representação teatral de um julgamento disseram que iriam embora, e retiraram-se; os outros dois alunos rumaram para a biblioteca.

Dálton remoeu os seus pensamentos. Indagou-se da veracidade dos relatos que ouvira. Marta, então, era a aluna predileta do professor Basílio? De Marta Dálton exigiria explicações; não admitiria tergiversações. O seu furor exacerbou-se ao ouvir, atrás de si, o nome de Basílio pronunciado pela voz suave de uma aluna, aluna morena de longos cabelos pretos, sorridente, de olhos radiantes. Dálton deparou-se com um homem de um metro e oitenta, ombros largos, esbelto, cabelos compridos presos num rabo-de-cavalo, barba e bigode rapados. Então, este é o professor Basílio, pensou Dálton, rilhando os dentes, fuzilando-o com os olhos injetados de cólera. A aluna desmanchava-se diante do professor Basílio, que, com um sorriso encantador, covinhas sedutoras nas laterais dos lábios e um olhar irresistível, elogiou-lhe o novo penteado, que lhe realçava a beleza natural. Ela derreteu-se, e disse-lhe que, no escritório em que trabalhava, conhecera uma ex-aluna dele: Luana. Ele puxou pela memória, para se lembrar da figura dela. A moça descreveu-lha: baixa, de cabelos alaranjados, sardenta. Ele exultou de alegria. Recordava-se de Luana, a Laranjinha – à ela se referiu – e a moça confirmou: o apelido dela era Laranjinha; e algumas pessoas chamavam-na de Narizinho devido ao minúsculo e gracioso narizinho arrebitado que ela trazia consigo desde que dera o ar de sua graça ao mundo. Dálton ouvia tais futilidades e abanava a cabeça. O professor Basílio anunciou à aluna a ida para outra sala-de-aula, e estendeu-lhe a mão. E a aluna retirou-se. Neste mesmo instante, Dálton viu Marta, Mariana e um homem indo na direção do professor Basílio, e seus pés enterraram-se no piso, e concentrou em Marta o seu olhar como se projetasse sobre ela um foco de luz, isolando-a do ambiente. O professor Basílio viu-os e saudou-os, sorridente. Dálton viu Marta, que trazia os cadernos e os livros ao busto, abrir um sorriso de orelha a orelha e estender a mão direita para o professor Basílio. Não lhe passaram despercebidos os gestos dela: o de remexer os cabelos e ajeitá-los às costas; o de empinar o corpo; o de ajeitar a camisa. No seu campo de visão, entrou a mão esquerda do professor Basílio, que tocou, suavemente, o ombro direito de Marta, o suficiente para arrancar de Marta suspiros. Sobrepujando as forças que o imobilizavam e enraizavam-lhe os pés no piso, Dálton andou, crispados os músculos, franzido o cenho, pesados os passos e cerrados os punhos, na direção de Marta, que, pressentindo-lhe, dir-se-ia, a aproximação, voltou-se para ele, viu-o, e abriu um largo sorriso. Dálton ampliou o seu campo de visão, para abranger Marta, Mariana, o aluno e o professor Basílio. Estava a um metro deles, quando Marta apresentou-o ao professor Basílio e este a ele. E o professor Basílio estendeu-lhe a mão direita, e disse-lhe:

– A Marta disse-me que tu e ela estão noivos. Parabéns.

Dálton sorriu e se disse um felizardo. Com o braço direito, Marta enlaçou Dálton pela cintura, e encostou-lhe no tórax a cabeça. O professor Basílio exigiu, deles, um convite para o casamento, consultou o relógio, e anunciou, em suas palavras, a sua retirada estratégica, pela esquerda, rumo à sala-de-aula, despediu-se deles, e deles afastou-se, a passos acelerados. Pouco tempo depois, Marta e Dálton despediram-se de Mariana e do outro aluno.

Raios e trovões anunciavam tempestade, que se precipitaria em poucos minutos. Uma série de raios seguidos de trovões persuadiram Dálton e Marta a acelerarem os passos até o carro. Grossos pingos de água os atingiram. Ao abrigo dos guarda-chuvas chegaram ao carro.

Dálton inseriu, na conversa, que principiara com observações de Marta a respeito das provas, o professor Basílio, teceu comentários favoráveis a ele e estudou a reação de Marta, que dele deu muitas informações.

Notou que ela se continha ao elogiar o professor Basílio. Enquanto a ouvia, estreitou os olhos, que quase desapareceram sob as sobrancelhas. Crispou as mãos ao volante, e acelerou o carro. Marta pediu-lhe que reduzisse a velocidade. Ele ignorou-a. Ela se lhe mostrou preocupada. Ele executou manobras arriscadas, contornou um carro, pela direita, atravessou um cruzamento com o semáforo aceso no vermelho, entrou na contramão, por uma rua de mão única, atravessou um cruzamento, sem atentar para o semáforo, e acelerou o carro. O motorista de um carro, que vinha na perpendicular, freou a tempo de evitar a colisão, e, esgoelando-se, disparou uma saraivada de obscenidades. Marta berrava, dava tapas no ombro e no braço de Dálton, e ordenava-lhe que parasse o carro. Seu coração quase foi à boca quando ele executou, em alta velocidade, uma manobra, num cruzamento, numa pista escorregadia, com poças de água estagnada e areia, para a esquerda. O carro subiu na calçada, tangenciou o muro de uma casa e resvalou um poste. Marta desmanchava-se em prantos e berros ensandecidos. Chorava. Seu rosto, deformado pelo medo. Viu a morte diante de si. Inspirava e expirava rapidamente. Arregalava os olhos. Cerrava as pálpebras. As lágrimas escapavam-se-lhe, copiosas, e escorriam-se-lhe pelo rosto deformado pelo terror que a afligia. Dálton ofendeu-a. Ela desfazia-se em prantos, tensa, apreensiva. Ele não parou o carro. Ensandecido, disparou contra Marta uma série de ofensas atordoantes, que dela extraíram o vigor e pulverizaram-lhe o espírito. Encarnava a personalidade de um alter-ego monstruoso. Seus olhos refletiam a fúria que se lhe apossara do espírito. Inclinado sobre o volante, rilhava os dentes a ponto de ferir as gengivas; quando conservava a boca aberta, pronunciava, com rictus animalesco, voz cavernosa, vaticínios lúgubres. Marta perdeu a voz quando ele manobrou, no cruzamento seguinte, para a direita, subiu com o carro na calçada, no lado oposto da rua, tangenciou uma árvore, perdeu o governo do carro – o volante escapando-se-lhe das mãos, moveu-se como se houvesse adquirido vontade própria -, que atravessou a rua, subiu na calçada, e ia colidir com o muro, mas, no último instante, Dálton recuperou-lhe o controle, e, com um brusco movimento do volante para a esquerda, direcionou-o de modo a passar entre o muro e o poste, e desceu da calçada à rua trinta metros depois, rua inclinada num ângulo de quarenta e cinco graus. Dálton acelerou o carro. A velocidade vertiginosa dava a impressão de que o carro caía em um abismo. Marta sentiu o coração subir-lhe à boca. Ao atingir o nível mais baixo da rua, Dálton afundou o pé no freio, e girou o volante. A manobra, de tão arriscada, lançou Marta para a frente, e sacudiu-a, roubando-lhe a respiração. A pressão do cinto de segurança fê-la perder os sentidos. O carro deu solavancos e quase tombou. A cabeça inerte de Marta, pendendo sobre o peito, oscilava de um lado para o outro como se fosse um pêndulo invertido. Dálton esgoelava-se em maldições e protestos, rilhava os dentes, num rictus macabro, como se houvesse coberto o rosto com uma máscara ritualística demoníaca. Berrou perguntas insanas. Não obteve resposta. Deu um tapa em Marta, ao mesmo tempo que a insultava e a ameaçava. Ela recuperou a consciência. Entontecida, alheada, com olhar vazio, indagava-se o que ocorrera e onde se encontrava. Dálton berrava-lhe insultos. Ela não compreendia as palavras, que lhes chegavam, distorcidas, aos ouvidos, como se cada uma delas lhe chegasse numa freqüência, como se uma lha invadisse o cérebro numa velocidade, e outra em outra velocidade, como se a última sílaba de uma palavra lhe chegasse antes da primeira sílaba, que tardava a chegar, ou não lhe chegava, aos ouvidos. Após passar por três cruzamentos, executar outras manobras arriscadas e dobrar duas esquinas, Dálton parou o carro, e deu socos no volante. E cuspiu obscenidades no rosto de Marta, que, com os lábios separados um do outro e a cabeça repousada no encosto do banco, fitava-o, apática, a escaparem-se-lhe dos olhos lágrimas cristalinas. Arrostava-a, esmagava-a sob uma torrente infindável de insultos e acusações; ilustrava a sua narrativa com gestos obscenos. Disse-lhe que ela protagonizava orgias sexuais e submetia-se aos caprichos de Wesley, do professor Basílio, de Lauro, de outros homens, e de Mariana, e de outras mulheres. Disse saber que ela era uma depravada. Marta soluçou, engasgou-se com a saliva. Arfava. As lágrimas não cessavam; avolumavam-se-lhe, e, escorrendo, contornavam-lhe o nariz e a boca, e despencavam-lhe do queixo para o peito. A sua postura irritou Dálton. Moveu Marta a cabeça, lentamente, para o outro lado, olhou através da janela, e cerrou as pálpebras. Uma onda de lágrimas escapou-lhe dos olhos, deslizou-lhe, como um rio em correnteza, pelo rosto, e despencou, do queixo para o peito, como uma cachoeira. Marta rogava aos céus o envio de um anjo. O olhar e as ameaças de Dálton inspiraram-lhe cenas de horror. Visualizou a sua morte nas mãos de Dálton, que a sufocaria até exaurir-lhe a energia vital e o sopro divino se lhe escapar do corpo. Estava à mercê dele. Ele ordenou-a se retirasse do carro e desatou-lhe o cinto de segurança. Ela não se mexeu. E ele berrou-lhe aos ouvidos e espargiu-lhe perdigotos corrosivos. Ela mordeu o lábio inferior, petrificada. Dálton desvencilhou-se do cinto de segurança, curvou-se sobre ela, agarrou-a pelo queixo, voltou-a para si, cravou seus olhos nos olhos dela, e gritou-lhe que saísse do carro. Ela não se mexeu. E ele passou o braço por sobre ela, destravou a porta, abriu-a. E com brutalidade empurrou Marta para fora do carro. Ao cair na calçada, ela esfolou os cotovelos. Dálton arremessou-lhe os livros, os cadernos e a bolsa. Um livro atingiu-lhe o nariz. Dálton fechou, violentamente, a porta do carro, pisou no acelerador, imprimindo, no asfalto, a marca dos pneus, e foi-se embora.

Marta precisou de um bom tempo para se restabelecer. Ao emergir do alheamento, arfando, soluçando, chorando convulsivamente, lágrimas se lhe escorrendo pelo rosto deformado pelo medo, olhou ao redor, e só então se deu conta de onde se encontrava: numa rua deserta e mal iluminada. As lâmpadas dos postes piscapiscavam, sinistras. Com as mãos trêmulas, abriu a bolsa, e procurou pelo telefone celular; ao achá-lo, sôfrega, pegou-o, telefonou para seu pai; tensa, num choro convulsivo, aguardou-o atender a chamada. Recolheu os livros, os cadernos e a bolsa. Acocorou-se, com a bolsa a tiracolo, e olhou em torno. A rua não lhe era desconhecida; todavia, não soube dizer para si mesma em qual bairro localizava-se. Andou, cambaleando, a mente entorpecida, até os degraus que davam acesso a um estabelecimento comercial – um bar (leu o letreiro) com as portas cerradas; as letras do letreiro, aos seus olhos imbricadas, ampliavam-se e reduziam-se. Sentou-se no degrau superior, e pousou os pés no degrau logo abaixo, conservando, entre as coxas e a barriga, os livros e os cadernos. Não afastou o telefone celular da orelha direita. Inclinada sobre a coxa, as costas abauladas, enterrou os cotovelos nos joelhos. Roeu as unhas dos dedos da mão esquerda. Ninguém lhe atendia ao telefone. Olhou em redor. Vislumbrou, à sua direita, próximo ao cruzamento, um vulto. Removeu, com a palma e as costas da mão esquerda, as lágrimas que lhe prejudicavam a visão, e focalizou-o. Ora arregalava os olhos, ora os comprimia cobrindo-os quase que completamente com as pálpebras e as sobrancelhas. Franzia os músculos circunvizinhos aos olhos de modo a apurar a visão, para distinguir o vulto, que, parecia-lhe, ou era um corcunda, ou um homem carregando um fardo grande e pesado às costas. Ninguém atendeu ao telefone. Repetiu a ligação. De sobreaviso, fitava o vulto aproximando-se de si. Encolheu-se. Abraçou as pernas com o braço esquerdo, abaixou a cabeça, curvou as costas, de modo a pousar o queixo sobre os joelhos; assim, pensou, sem tomar consciência dos seus pensamentos, reduzia-se aos olhos da pessoa que se aproximava; e deslocou-se um pouco para a direita, quase se encostando ao batente da porta, onde uma sombra se projetava. Um pensamento iluminou-lhe o cérebro: à sombra passaria despercebida aos olhos da pessoa que se aproximava. O vulto, cujos contornos se lhe definiram, era o de um homem, que arrastava os pés, o corpo curvado para a frente, carregando às costas uma sacola de plástico; tinha ele aparência grotesca, cabelos e barbas desgrenhados, e ele trajava calça e camisa amarfanhadas e rasgadas em vários pontos. Ele passou pelo meio da rua, sem tomar conhecimento de Marta, que o comparou a um ogro repulsivo. Floriano, enfim, atendeu ao telefonema. Marta desfez-se, de imediato, em lágrimas, e sussurrou, para não atrair a atenção do homem que passara por ela. Alarmou-se Floriano. Alterou-se. Pediu à sua filha a localização dela e aconselhou-a a acalmar-se. Ela fitava o homem, que se afastava lentamente. Era perceptível a mudança do timbre da voz de Floriano. Marta não disse coisa com coisa, não completou uma frase, abandonou inúmeras reticências, solicitou ajuda, disse que não sabia onde estava, falou de Dálton. Floriano pediu-lhe a localização. Ela não soube dizer-lha, preocupando-o. Ele, depois de alguns minutos, logrou acalmá-la o suficiente para ela lhe dar o nome do estabelecimento à porta do qual se encontrava, e perguntou-lhe se havia outro estabelecimento comercial, nas proximidades; não conhecia aquele, e pediu-lhe que fosse até a esquina, e, na placa afixada, ou na parede, ou no muro, ou sustentada por um poste de metal, ou por um poste, lesse o nome da rua. Marta intensificou o choro. Disse que estava com medo. Floriano disse-lhe que não poderia ajudá-la, se ela não lhe dissesse o nome da rua onde se encontrava. A muito custo, ela se levantou. Enquanto andava até a esquina, falava, sem dar ao seu pai um relato pormenorizado e objetivo do que a ela ocorrera. Repetia-se. Confundia-se na cronologia; aos poucos, recuperava-se – sempre que ela parava de falar, Floriano fazia-lhe uma pergunta qualquer, para que ela falasse qualquer coisa. Na esquina, ela procurou pela placa indicativa do nome da rua; não a encontrou, nem no poste, nem na parede do estabelecimento comercial. Olhou para o outro lado da rua. Viu uma placa metálica afixada no muro. Olhou em torno, e atravessou a rua, cujo nome ela o leu na placa. Floriano disse conhecê-la; iria até lá, e pediu a Marta que ela não desligasse o telefone, e passou o telefone para Lucrécia, foi ao telefone sem fio, telefonou para a delegacia de polícia, e forneceu uma síntese do episódio e o nome da rua na qual Marta estava. A telefonista prometeu providenciar, imediatamente, uma viatura, e desligou o telefone. Marta e Lucrécia conversavam. Lucrécia, de camisola, a respiração suspensa, roendo as unhas, sentada no sofá, ouvindo a narrativa caótica de sua filha, levou a mão ao peito esquerdo, para impedir que o coração abrisse caminho para fora do corpo. Floriano foi ao quarto trocar de roupas. Regressou, logo depois, trajando tênis, bermuda e camisa, e pediu à Lucrécia o telefone, e disse-lhe que fosse ao quarto, substituísse a camisola por uma roupa adequada, para ir até onde Marta estava. Lucrécia passou-lhe o telefone, retirou-se, açodada, para o quarto, do qual regressou em menos de um minuto, com chinelos nos pés, uma calça e uma camisa larga. Neste momento, Floriano já estava, na varanda, dentro do carro. Assim que Lucrécia entrou no carro, passou-lhe o telefone, e retirou da garagem o carro, retirou-se do carro, fechou a porta, e regressou ao carro, enquanto Lucrécia, ao telefone, conversava com Marta. Rumou para a rua em que Marta encontrava-se. Transcorreram-se oito minutos. Marta disse que aproximava-se de si uma viatura policial; e que da viatura retirou-se um policial, que foi até ela. Lucrécia pediu-lhe que passasse o telefone a ele; e disse ao policial que chegariam, ela, Lucrécia, e Floriano, até ele e Marta em dois ou três minutos, e que, depois, iriam à delegacia denunciar Dálton, cujos nome completo e endereço forneceu-lhe. O policial comprometeu-se a providenciar uma viatura para ir à casa de Dálton; Lucrécia agradeceu, e pediu-lhe que passasse o telefone para Marta. Ele lho passou; e ato contínuo comunicou à delegacia o ocorrido, e solicitou uma viatura policial no endereço que Lucrécia lhe fornecera e a condução de Dálton à delegacia. Transcorreram-se cinco minutos. Chegaram Lucrécia e Floriano onde Marta estava. Lucrécia desceu, açodada, do carro, correu até ela, envolveu-a com os braços, protetora. Marta chorava, convulsivamente. Os policiais afastaram-se delas, foram até Floriano, e relataram-lhe o que presenciaram desde o instante em que se depararam com Marta. Em seguida, Floriano foi até ela, e atraiu-a para si e ela aninhou-lhe ao tórax a cabeça. E deu-lhe um beijo, na metade superior da testa. Comovido, a voz trêmula, disse-lhe que se acalmasse, que logo iriam para casa.

Chegaram na delegacia vinte minutos depois.

Marta não deu um relato objetivo dos eventos, desde o início, logo após retirarem-se ela e Dálton da faculdade. Falou, como pôde – e mal pôde falar – das perguntas que Dálton lhe fizera, da postura dele, e de como ele se transtornara, e acelerara o carro, e atravessara cruzamentos, desrespeitando semáforos, e quase colidira com um carro, com postes, com o muro de uma casa; falou das manobras arriscadas, do tapa que ele lhe dera, e do empurrão, jogando-a para fora do carro. A policial que colheu o depoimento de Marta, para dar-lhe coerência a certos trechos e estabelecer uma cronologia, instou-lhe que recontasse a história uma dezena de vezes, até eliminar as incongruências. Marta soluçava; debulhava-se em prantos. Seu pai evocou o evento sucedido dias antes, em frente à sua casa, numa certa noite: ouvira Dálton ofender Marta; observara-os, e anunciara-se; Dálton, então, afastara-se, e fôra-se embora e dias depois pedira-lhe desculpas, num tom tão cândido, tão compungido, tão sincero, que, não lhe duvidando da sinceridade, dera-lhe acesso à casa. Em seguida, declarou que gostava de Dálton, que é trabalhador e estudioso, e preocupava-se com o estado dele. Marta e Lucrécia subscreveram-lhe as palavras e adicionaram argumentos favoráveis a Dálton. Floriano disse que o ciúme possessivo de Dálton vinha num crescendo desde o ano anterior. Marta falou do que se sucedera num clube e de outros episódios, corriqueiros, disse, mas que, agora, avaliados em retrospectiva, assumiam outra dimensão. Salientou Floriano: se os policiais colherem informações, na loja na qual Dálton trabalhava, a respeito dele, saberão que a reputação dele é a de um homem dedicado ao trabalho e dotado de rara inteligência. E disse que era seu desejo vê-lo bem, mas temia pela vida de Marta. Dálton apertara o pulso de Marta, imprimindo-lhe marcas, na discussão anterior. E agora poderia tê-la matado. Não o detestava, disse; afastava, no entanto, de si, os sentimentos de carinho que nutria por ele; iria, todavia, conservá-lo a uma distância da qual poderia, ao estender-lhe os braços, acolhê-lo, num abraço fraternal, e atraí-lo para o seio de sua família. Sentimentos incompatíveis colidiam-se na alma de Floriano, e repeliam-se.

Havia mais de uma hora que estavam na delegacia quando se retiraram. No corredor do térreo, cruzaram o caminho de Dálton, Ulisses e Vilma Helena. Nuvens soturnas desceram sobre todos eles. Dálton, com o olhar, fuzilou Marta, que virou o rosto e cruzou os braços ao peito. Lucrécia enlaçou-a pelos ombros, estreitando-a a si. Entreolharam-se Ulisses, Vilma Helena, Floriano e Lucrécia. Eles não articularam nenhuma palavra, e nenhum gesto esboçaram.

Marta, Floriano e Lucrécia retiraram-se da delegacia, e rumaram para casa.

Marta caiu em sono profundo assim que sua mãe cobriu-a com o lençol, e antes de ela lhe dar um beijo, na testa, e desejar-lhe boa noite.

Ulisses e Vilma Helena, e Floriano e Lucrécia conversaram, em duas ocasiões, a respeito de Dálton. Na primeira, Ulisses e Vilma Helena pediram desculpas, constrangidos, a Floriano e Lucrécia, e disseram-lhe, compungidos, que não sabiam porque Dálton agia com tão brutal violência, e que haviam contratado um psicólogo para estudar o caso dele; na segunda, renovaram os pedidos de desculpas, e disseram que Dálton havia se consultado três vezes com o psicólogo e mostrava-se arrependido do que fizera, mas era prematuro conceder-lhe permissão para encontrar-se com Marta.

Cabisbaixo, desanimado, Dálton agia com indiferença e desinteresse ao que lhe sucedia ao redor, na sua casa e na loja; na loja, o seu desempenho diminuíra, e muitas pessoas com quem trabalhava notaram-lhe a mudança de comportamento, e muitas dentre elas, ao tomarem conhecimento do que se dera entre ele e Marta, afastaram-se dele; evitavam-no, e, desconfiados, observavam-no com o canto dos olhos.

Floriano e Lucrécia consultaram Marta, dias depois, a respeito do seu noivado com Dálton. Ela lhes disse que não se casaria com ele. E tal notícia foi dada a Ulisses e Vilma Helena, que a passaram para Dálton, que a ouviu, em silêncio, inexpressivo, resignado.

Um dia, à noite, Dálton foi à faculdade, e abordou Marta, que se pôs a tremer. Mariana e dois amigos não se afastaram dela quando Dálton lhes pedira uma conversa a sós com Marta, que, com o olhar, suplicava-lhes ajuda. Constrangido, com voz aveludada, ele lhe disse que estava arrependido, e que a amava, e que lhe escreveria um soneto de amor, e lho recitaria. Ela se conservou calada, fitando o vazio, o olhar alheado. Cabisbaixo, ele se despediu, e retirou-se da faculdade.

Assim que chegou à sua casa, Marta narrou o episódio para seus pais. Floriano telefonou para Ulisses e comunicou-lhe o ocorrido.

Dias depois, na praça Santo Antonio, Dálton abordou Marta, e disse-lhe que lhe escrevera um soneto de amor, e que lho declamaria, na casa dela, se ela quisesse. Ela pediu-lhe que se afastasse. Ele renovou, numa voz pungente, os seus pedidos de desculpas, disse-lhe que estava arrependido, e que a amava, e que ela foi a única mulher que ele amou, e suplicou-lhe que reconsiderasse a decisão de romper o noivado e cancelar o casamento, e que o perdoasse; com as mãos justapostas, genuflexionou os joelhos perante ela, na frente de curiosos. Marta deteve-se, constrangida, irritada, nervosa, apreensiva; ameaçou chamar a polícia, e apontou, para a outra extremidade da praça, para uma viatura policial e dois policiais. Dálton calou-se, e enraizou os pés no chão. Marta afastou-se dele.

Floriano e Lucrécia, e Ulisses e Vilma Helena reuniram-se, num restaurante, no dia seguinte. Expuseram as suas preocupações. Em certo momento, Vilma Helena, compungida, voz sussurrante, levou as mãos aos olhos, que se marejaram de lágrimas, e falou das suas preocupações, temerosa do que Dálton poderia fazer e do bem-estar e da saúde mental dele. Aquele Dálton de quem falavam não era o Dálton que ela conhecia, seu filho, que ela amamentou, embalou, aninhou ao colo; não era o Dálton, criança traquinas, que lhe deu muitas preocupações e que não ficava um dia sem se envolver em algum ato reprovável; não era o Dálton, jovem que, como muitos jovens, contestou a autoridade paterna, transgrediu regras de convivência social e envolveu-se em atos de vandalismo e em brigas; não era o Dálton, que, apesar de todos os seus defeitos, tinha os seus pendores intelectuais, os quais ele os exibiu na escola, em casa, na loja; não era o Dálton que, apaixonado por Marta, havia se tornado um homem gentil, trabalhador, generoso, abnegado, suscetível às influências benévolas, a felicidade encarnada, construtor de castelos no ar, e que, nos paroxismos da euforia, compartilhava sua felicidade com todas as pessoas. Aquele homem de quem falavam, homem que vivia recolhido em si, tristonho, ensimesmado, andando de um lado para o outro, indiferente ao que ocorria ao redor, desinteressado da família, dos amigos, e do trabalho, e dos estudos, não era o Dálton, seu filho. Vilma Helena desejava o seu filho, Dálton, aquele moço que lhe inspirou muitos cuidados, muitas preocupações, e muita alegria, e não aquele que via, há dias, calado, taciturno, de olhar lúgubre.

Ouviram-na, respeitosos. Enquanto ela falava, Ulisses, carinhoso, passeava-lhe as mãos pelos cabelos.

Nos dias seguintes, Dálton abordou Marta à porta e nas proximidades do escritório de advocacia, e falou-lhe do seu amor por ela. Sem olhar para ele, ela acelerava os passos, até o estacionamento, entrava no carro, e abandonava Dálton em seu solilóquio angustiante.

Certo dia, ao anoitecer, Dálton abordou Marta quando ela entrava no banco para fazer um saque de trezentos reais e pagar a mensalidade da faculdade, e falou-lhe, num tom meigo, que lhe inspirou compaixão. Ela, todavia, não o fitou; limitou-se a ouvi-lo. Quando ele a tocou no ombro, recolheu-se, em sinal de repulsa. Ele lhe pediu desculpas, impressionado com os esgares que ela imprimira no rosto tão logo ele a tocara, renovou o pedido de desculpas, disse-lhe que não a incomodaria, e solicitou-lhe uma conversa; queria recitar-lhe um soneto escrito em homenagem a ela. Marta nada lhe disse. Sem obter uma resposta, ele anunciou a sua retirada, despediu-se, e foi-se embora. Marta, então, respirou, aliviada, e executou as operações bancárias.

Dálton ia ao consultório do psicólogo duas vezes por semana. Recuperava o seu gosto pelo trabalho, pelos estudos, pelas relações familiares, pelos eventos festivos e pelos amigos. Sempre que encontrava Marta, saudava-a, sem constrangê-la, e ela, que por esta época estreitava os seus laços com Tucídides, que a conhecera na faculdade, ficou insegura, indecisa. Queria namorar Tucídides, moço educado, charmoso, inteligente, de sorriso encantador, mas a figura de Dálton invadia-lhe os pensamentos, dividia-lhe a atenção e interpunha-se entre ela e Tucídides.

Um dia, Marta e Tucídides, na praça Dom Pedro II, conversavam, animadamente. De repente, Marta emudeceu, empalideceu e suspendeu a respiração ao ver Dálton indo em sua direção. Ele abriu um largo sorriso, saudou-a, e estendeu a mão direita para Tucídides, que o saudou, cauteloso, constrangido. Apertaram-se as mãos Dálton e Tucídides. Dálton apresentou-se-lhe. Entabulou conversa com ele. Confessou-lhe a felicidade, entusiasmado, com sua transferência para São Paulo. Fôra promovido a sub-gerente de vendas. Falou-lhe de seu plano de passar as férias, no mês seguinte, nos Estados Unidos, em visita à Flórida, ao Texas e à Califórnia. O seu entusiasmo, contagioso. Arrancou sorrisos de Tucídides, e de Marta, que, no início da conversa, conservara-se acanhada e acuada, mas, assim que afugentara de si os pensamentos negativos que a incomodavam, abriu-se, espontânea. Dálton, enfim, despediu-se de Marta e Tucídides, e seguiu rumo contrário ao que eles seguiram. Após andar uns dez metros, Marta olhou por sobre o ombro, e viu, já distante de si uns trinta metros, Dálton, a passos apressados e firmes, galgando as escadarias de acesso à prefeitura municipal, e sorriu.

Dias depois, Marta chegou, apressada, à sua casa, às dezenove e vinte. Açodada, ia enfiar a chave na fechadura, para entrar na casa, pegar dos livros e do caderno, e, de carro, rumar para a faculdade, quando ouviu seu nome. Era Dálton que a chamava. Ela sorriu. Saudou-o. Ele lhe falou do soneto que lhe escrevera: perfeitamente metrificado, como aprendeu a compor ao ler os de Camões. Marta sorriu, encantada.

– Quer ouvir-me recitá-lo? – perguntou-lhe Dálton. Marta sorriu, acanhada, ruborizada. Assentiu. Dálton, o rosto a reluzir alegria indizível, enfiou a mão direita sob a fímbria da camisa, e retirou um revólver de sob o cós da calça. Marta arregalou os olhos e escancarou a boca; e Dálton, inexpressivo, apontou-lhe o cano do revólver para o peito esquerdo, e apertou o gatilho. Marta caiu, sob soluços agonizantes, nos braços de Dálton, que apontou o cano do revólver para si mesmo, colou seus lábios aos de Marta, e declamou, para dentro dela, o soneto dedicado ao amor eterno, e apertou o gatilho.

Declaração de Amor – parte 4 de 5

Dias depois, Marta convidou Dálton para irem à uma festa que alunos da universidade promoveram. Disse-lhe que iria à festa, mesmo que ele não fosse, pois era a última festa do ano, e muitos dos alunos ela os veria apenas no ano seguinte, e pediu-lhe, encarecidamente, que à festa a acompanhasse. Disse-lhe, também, que muitos amigos regressariam à cidade na qual suas respectivas famílias moravam, e alguns dentre eles talvez se transferissem para faculdades situadas em outra cidade. Ele anuiu, a contragosto, ocultando-lhe os seus sentimentos e sonegando-lhe os seus pensamentos. Evocou, em pensamento, cenas que presenciara no clube. Sondou Marta à procura de pensamentos secretos, a mente a corroer-se de suspeitas que, ele queria acreditar, eram infundadas. Na tentativa, frutífera, de detectar-lhe sutis alterações na modulação da voz, verificou que ela estava eufórica. De ouvido atento, ouviu-a. E acolheu-lhe a sugestão de irem no carro de Floriano.

Rumaram para o clube.

Na metade do trajeto, um carro azul, em alta velocidade, em sentido contrário, ultrapassou um carro preto e invadiu a pista contrária. Apavorada, Marta moveu, com brusquidão, o volante, empinou o corpo, arregalou os olhos, escancarou a boca, emitiu um berro surdo, que lhe ficou travado na boca, e desviou-se do carro azul, evitando a colisão. Seu coração palpitou, descompassado. Dálton, igualmente apavorado, recompôs-se antes dela, voltou-se para ela, e passou-lhe a mão esquerda sobre a mão direita; com voz entrecortada, perguntou-lhe como ela se sentia. Lívida, ela nada lhe disse. E ele lhe perguntou se ela queria que ele dirigisse o carro dali em diante; ela inspirou, pelo nariz, em haustos vigorosos, e expirou, pela boca, várias vezes, sob o olhar atento e preocupado dele, e recomposta, deu sequência à viagem até o clube.

Luzes de lâmpadas caleidoscópicas coloriam todos os recantos do salão. E a música preenchia-lhe todo o espaço. Dálton divisou, em meio a um grupo, Wesley e Carlos Roberto, franziu o cenho, e desviou, de imediato, o olhar.

Uma universitária, Larissa, cuja reputação inspirava comentários deselegantes, cuja figura inspirava olhares cobiçosos e pensamentos lúbricos e cuja presença exercia influência em todas as pessoas, de vestido cintilante decotado, cujas fímbrias mal lhe cobriam a metade superior das coxas, e colares e pulseiras radiantes, aproximou-se de Dálton, e saudou-o. Impressionado com a beleza ofuscante – e os cabelos dela, sedosos, emolduravam-lhe o rosto belíssimo, sublimando-lhe a beleza – e a sem-cerimônia dela, ele, visivelmente embasbacado, se voltou para Marta, que o fitava com olhar reprovador, e emudeceu. Larissa passeou as mãos pelos cabelos, olhou para Marta, sorriu, e, desdenhosa, perguntou para Dálton:

– Tu estás acompanhado dela?

E Dálton disse-lhe que Marta era sua namorada. Larissa, cujas palavras, sorriso insinuante e olhar estavam repletos de sugestões, desculpou-se, disse-lhes que foi ao clube para se divertir e estabelecer novas amizades, e afastou-se de Marta e Dálton; poucos passos depois, olhou por sobre o ombro esquerdo, e, com olhar cobiçoso, fitou Dálton, então sob o olhar severo de Marta, que desviou o olhar, dele para Larissa – e os olhares delas encontraram-se no meio do caminho. Ato contínuo, Larissa fitou Dálton, e tornou a fitar Marta, e voltou a sua atenção para a direção para a qual seguia. E Marta e Dálton entreolharam-se. Intimidado, ele desviou o olhar, e fitou, por sobre o ombro dela, o vazio.

O salão encheu-se de gente. Dálton e Marta encontraram, em um canto, um sofá desocupado, e nele sentaram-se. Ela acenou para um casal de amigos, Lauro e Rúbia. Saudaram-se. Entabularam conversa. Marta apresentou Dálton para eles. Rúbia, vinte e dois anos de idade, morena, bonita, musculosa, trajava um vestido branco de alças finas e exibia os seus atributos físicos; seu esposo, Lauro, de cabeça coberta por cabelos esparsos, um pouco mais baixo do que ela, estava na idade de trinta anos. Ambos, elegantes. Lauro conduziu a conversa. Falou, com desembaraço e vocabulário sofisticado, do envolvimento de magistrados em esquemas fraudulentos e do apoio de juristas a políticas nocivas ao estado de direito. Sempre após um dos seus três interlocutores fazer-lhe uma ressalva, apresentava argumentos irreplicáveis, e dizia que, se houvesse vontade política e desejo de justiça – sentimentos dos quais careciam muitas autoridades brasileiras -, poder-se-ia preencher inúmeros buracos do queijo suíço que é o sistema legal brasileiro. Dálton aquilatou-lhe o vigor intelectual, e o de Rúbia, não tão poderoso quanto o de seu marido, mas também incomum. Regozijou-se ao ver que, na faculdade, havia alunos interessados no conhecimento, e não apenas em diversões fúteis. Lauro, apegado às minúcias, estendeu a conversa e por ela conservou o interesse dos seus interlocutores, entremeando os seus comentários com anedotas hilárias – e ele possuía um bom sortimento delas. Extraiu gargalhadas sonoras de Dálton, Marta, e Rúbia, que lhe dava pancadinhas nos braços e nos ombros, inofensivas.

Outras pessoas os saudaram e com eles estabeleceram conversa. Uma delas, Paulo Tarcísio, movia os braços ao falar, incessantemente. E mordia o lábio inferior e movia as mãos, involuntária, e ininterruptamente, e segurava o queixo, e olhava, fixo, para quem lhe falava, numa visível demonstração de impaciência, sempre que tinha de ouvir um relato extenso.

Encerrada a música, Washington, no palco, atraiu a atenção de todos para si. Era Washington um moço bem apessoado. De terno e gravata impecáveis, barba e bigode rapados, cabelos curtos penteados para trás, ele proclamou a nova era, jocoso. Declarou que, naquele recinto, encontravam-se os futuros benfeitores da humanidade. Ovacionaram-lo. A sua oratória, sedutora. Imodesto, declarou que hauriu, nos clássicos gregos, romanos, britânicos, portugueses e brasileiros, a quintessência da arte oratória. O seu discurso foi pontuado por aplausos ensurdecedores. Citou expoentes das ciências jurídicas. Interromperam-no eclosão de rajadas de assobios e aplausos estrondejantes. Cessados os assobios e os aplausos, desejou aos alunos festas animadas, felicidade e muito dinheiro no bolso. Ovacionaram-lo.

Washington afastou-se do microfone, ao qual regressou, minutos depois, com passos apressados, e anunciou o professor Josué. Seguiram-se aplausos estrondejantes, vivas estrepitosos, assobios estridentes. O professor Josué, mirrado, acenou para os alunos, com as duas mãos dançando acima de sua cabeça, e saudou Washington, que sorriu e retirou-se do palco. Seguindo à risca o figurino que concebeu para si, com acenos, pediu silêncio. Atenderam-no prontamente. Após desobstruir o esôfago, pronunciou o seu discurso, cujo teor inspirou risos de galhofa em certos alunos, que repudiaram o professor, que, para eles, era pernóstico, enfadonho, desprezível, moralista presunçoso, defensor de idéias antiquadas.

Mauro, aluno da faculdade, baixo, de rosto descarnado, cabelos encarapinhados, aproximou-se de Marta, Dálton, Rúbia e Lauro, e atormentou-os com comentários depreciativos, e esgares, arremedando, de modo caricatural, o professor Josué:

– Professorzinho ridículo. De tagarelice proverbial e idealismo irrealista. É um embusteiro, o sentinela da justiça, o guardião do cálice sagrado, o protetor dos fracos e oprimidos. Professorzinho patético! Até hoje ninguém lhe disse que o mundo pertence aos espíritos fortes. Não quero exercer a advocacia para viver na miséria. Quero viver na abastança, no luxo. Quero riqueza! Quero poder! Terei um emprego rendoso. Não rezo pela cartilha do professorzinho de araque, sujeitinho burlesco, ermitão misantropo, misógino, que enfia a mão na cornucópia de frases feitas edificantes e de lá extrai idéias irrealistas para com elas edificar uma sociedade utópica, perfeita, isto é, habitada, única e exclusivamente, por covardes samaritanos. Quero riqueza! Quero poder! O professorzinho de meia-tigela arrefece, com as suas aulas moralistas antiquadas, o ânimo dos espíritos fortes. O professorzinho bestalhão, ermitão antiquado, coroou o seu discurso com exortações à justiça, que, segundo ele, está impregnada de sabedoria eterna. Não sei quanto a vocês, mas eu quero, com a advocacia, arranjar a minha vida. Não viverei a vida de misérias de um advogadozinho debruçado sobre calhamaços, perdendo noites de sono e os prazeres que a vida proporciona. Quero riqueza! Quero poder! Viverei rodeado de mulheres estonteantes. Lograrei sucesso, poder, riqueza. Lograrei os tolos e os ignorantes. Calcarei aos pés o espírito dos pobres e beneficiarei os pobres de espírito. Jamais defenderei idéias contrárias aos meus interesses. Quero riqueza! Quero poder! Defenderei os meus interesses, egoístas, sim, mas os únicos que me interessam. Aniquilarei os justos. Que os apedeutas espumem, nas Gulags, pelos cantos da boca! Digo, sem papas na língua: me unirei aos de alto calibre. Não viverei na miséria. Bem aquinhoado, viverei a vida que desejo. Os fins justificam os meios. E as vítimas de crimes? Não me preocuparei com elas. Cada pessoa que cuide de si. Que os pobres comam o pão que o diabo amassou. Que eles se danem! Quero riqueza! Quero poder! Viverei rodeado de mulheres irresistíveis! Toda manhã, acordarei, e ao meu lado, na cama, terei uma mulher farta de atrativos. A riqueza e o poder são os pré-requisitos para uma vida feliz. Trajarei roupas de seda! Comerei caviar e filé mignon, todos os dias. Filé mignon! Caviar! Scargot! Carros luxuosos! Mansão! Mulheres belíssimas! Ilhas paradisíacas! Quero riqueza! Quero poder!

Enquanto perdia-se na sua euforia, Mauro, sem dar ouvidos aos apartes e sem atentar para o desconforto dos que o ouviam, além de constrangê-los com a defesa, sincera, de idéias que eles repudiavam, irritou-os com o estribilho, proferido num tom de voz mais elevado do que o tom de voz alterado que usava. Não passou despercebido de todos que o ouviram que ele, ao discorrer com tanta eloqüência, estava sóbrio, de posse, presumiam, de todas as suas faculdades mentais. Constataram a sua personalidade leviana, o seu temperamento hedonista, a sua devassidão moral, e abismaram-se com tanta desfaçatez, tão aberta, e tão abjeta, que os constrangeu. Boquiabriram-se, incrédulos, diante de tal ostentação de depravação moral. Aqueles que o conheciam, e dele haviam ouvido tais demonstrações de descaso à justiça, não se admiraram, tampouco se surpreenderam. Dálton, Marta, Lauro e Rúbia afastaram-se dele, mas ele, querendo por eles se fazer ouvir, não os abandonou; palrador, como de hábito, discorreu, abertamente, sobre as suas idéias. Contradisseram-no Lauro e Marta; Lauro, com vigor redobrado, quando, estupefato, ouviu-o defender, sem papas na língua, as atrocidades perpetradas por nazistas e comunistas e declarar que os nazistas são piores do que os comunistas, pois estes matam os escritores críticos do seu sistema de governo após os interrogarem, e aqueles os matam sem ler-lhes os livros.

Os alunos dispersaram-se em meio à multidão, que enchia todos os espaços do salão; muitos dentre eles exibiram, desajeitados, as suas evoluções de dança; raros, os exímios dançarinos. O professor Josué, a professora Cátia, a professora Susana, o professor Gustavo e o professor Daniel foram, pelos alunos, solicitados a dançar.

Marta dançou com o professor Daniel, com o professor Josué e com o professor Gustavo.

Mariana puxou Dálton para dançar, sob os olhares de Walter, namorado dela, e de Marta, que lhes disse, sorrindo, que se comportassem. E Marta dançou com Lauro. Dálton conservou-os sob olhares perscrutadores e cenho franzido. Não passou despercebido de Mariana o olhar dele e os traços firmes de seu rosto. Para desanuviar-lhe a mente, teceu comentários jocosos sobre a atitude de Mauro, protótipo de ditador-de-araque. Dálton sorriu, fitou-a, disse-lhe qualquer coisa, conservando, o tempo todo, Marta e Lauro sob o seu olhar vigilante.

Ao entrever Rúbia, livre, andando na direção de Lauro, Dálton soltou Mariana, ofereceu-a para Walter, afastou-se, foi até Rúbia, abordou-a, e pediu-lhe a dança. Ela o aceitou; ele pousou-lhe as mãos na cintura, e conduziu-a até Lauro, e Marta, que olhou para ele e Rúbia de modo significativo. Pouco tempo depois, Dálton entregou Rúbia para Lauro, e pediu a este, encarecidamente, uma dança com Marta, e assim que a acolheu em suas mãos, enlaçou-a pela cintura, e colou seus lábios aos dela.

A festa prosseguia animada. Dálton e Marta, enfim, encerraram a dança. Ela puxava-o, segurando-o pela mão, quando Larissa abordou-o, ignorando-a, como se ela não estivesse lá, e pediu-lhe uma dança. Dálton estacou, emudecido. Recompôs-se, rapidamente. Disse-lhe que iria descansar um pouco. Larissa insistiu, com voz açucarada e olhar meigo. Não havia como Dálton negar-lhe a dança pedida. E ele voltou-se para Marta, solicitando-lhe auxílio, ou para afastá-lo de Larissa, ou para dar-lhe permissão para dançar com ela. A contragosto, ela soltou-lhe a mão, sorriu, e disse-lhe, com voz inaudível, e sorriso amigável, que dançasse com Larissa. Dálton e Larissa afastaram-se de Marta, que andou até os bancos à parede, voltou-se e viu Dálton e Larissa, na pista de dança, ela a enlaçá-lo pelo pescoço, a tocar-lhe, com a ponta do dedo indicador esquerdo, a ponta do nariz, e a sorrir, encantada. Marta ia sentar-se, mas conservou-se de pé, e o seu olhar encontrou-se com o de Larissa.

Larissa, sorrindo, disse para Dálton que Marta mordia-se de ciúmes. Ele nada disse. Ela perguntou-lhe há quanto tempo eles namoravam, e se ele gostava dela. Ele respondeu-lhe às perguntas, e adicionou a informação de que ele e Marta se casariam em julho do ano seguinte. Larissa não se mostrou animada com a notícia; ao contrário, exibiu-lhe a sua frustração, e disse, sem meias palavras, que os frutos proibidos são os mais saborosos.

Larissa e Dálton sincronizaram os movimentos. Marta olhou os circunstantes, para verificar se alguém a fitava, e, intrigado, indagava-se porque ela permitia que Dálton dançasse com Larissa. Sentiu-se objeto da curiosidade de todos os presentes, certa de que todos eles a observavam, intrigados. Tinha a sensação de que farpas penetravam-lhe em todos os poros do corpo. Os seus pensamentos cabriolaram ao ver Larissa falar ao ouvido de Dálton, e sorrir. Pensou em ir até ela, puxá-la, dar-lhe um tapa, esganá-la, e expô-la ao ridículo. Queria humilhá-la. Conteve-se, no entanto. Roeu as unhas e rilhou os dentes, Dálton e Larissa sob o seu olhar perscrutador.

Dálton visualizou Marta, um espectro que lhe ocupou a mente, e comparou a figura dela com a de Larissa, cujos atrativos salientaram-se-lhe à mente. Larissa era mais bonita e mais atraente do que Marta. Aquele sorriso… Marta era incapaz de exibir um sorriso tão belo. Dálton pensou qual havia sido a sua intenção ao solicitar à Marta permissão para dançar com Larissa. Não queria descontentar Marta; também não desejava descontentar Larissa. Confessou, para si mesmo, que, com desinteresse, e sem esforço, apresentou resistência débil ao pedido de Larissa, porém, assim que ela lhe segurou as mãos, e suplicou-lhe, com voz veludosa e olhar suplicante, uma dança, aquele corpo mesmerizador sugando-lhe todas as faculdades intelectuais, drenando-lhe a alma, e rebaixando-o, ao extrair-lhe o espírito divino, à condição animalesca, decidiu que dançaria com ela mesmo que Marta tal não aprovasse. Autômato de cérebro positrônico, revogou as três leis da robótica, e, em prejuízo do seu relacionamento com Marta, deixou-se conduzir pelo seu desejo de conservar consigo o belo corpo de Larissa.

Dálton e Larissa falavam futilidades, provocavam-se, alheios ao que se dava ao redor. De repente, ele, ao olhar, involuntariamente, por sobre o ombro direito dela, viu Marta e Wesley conversando, e suprimiu, de imediato, o sorriso do rosto. Larissa notou-lhe a brusca alteração dos traços do rosto e os dedos crisparem-se-lhe, voltou-se, viu Marta e Wesley, e, compreendendo a razão da alteração do humor de Dálton, procurou, em vão, atrair-lhe a atenção. Pousou-lhe as mãos no rosto, e voltou-o para si. Intimidou-a o olhar dele. Larissa procurou infundir-lhe serenidade. Ele ignorou-a. Para acalmá-lo, ela disse-lhe que não queria ver derramamento de sangue, naquela festa, e que ele postergasse a decisão de triturar Wesley. Ele não a ouviu. Com os olhos, ele tentou decodificar os movimentos dos lábios e as expressões faciais de Marta e Wesley. Não detectou, no rosto dela, nenhuma evidência de sentimento de repulsa por Wesley. Viu Wesley olhando-o de relance e interpondo-se entre ele e Marta, de costas para ele. No paroxismo da fúria, abandonou Larissa, que, contendo-o, temendo que ele perdesse o controle de si, pediu-lhe serenidade e fê-lo olhar para ela. Aos poucos, ele recobrou a presença de espírito, mas parecia às tontas. Larissa notou-lhe a respiração ofegante. Dálton disse que Wesley era canalha e a ele se referiu com expressões rasteiras. Larissa concordou, sem ressalvas. Ele declarou que Wesley suscitava-lhe repulsa, e aludiu ao que ocorrera, no clube, não muitos meses antes. Ela disse que ouvira falar de tal episódio, e sabia que Wesley era um cafajeste, e que tinham de amordaçá-lo, e arremessá-lo numa masmorra fétida, e encarcerá-lo por todos os dias que lhe restavam de vida. Dálton aspirava em fortes haustos. Enchia os pulmões, inflava o tórax, e esvaziava-os, num ritmo acelerado. Cerrou as pálpebras. Enfim, levou os dedos indicador e polegar direitos aos olhos, massageou-os, abaixou a cabeça, afrouxou os músculos, exibiu um sorriso misto de irritação e ódio, meneou a cabeça, e articulou, sussurrando, no início, sílabas desconexas, depois, num timbre metálico, ameaças veladas a Wesley.

Larissa reteve Dálton consigo o quanto pôde. Ele, aparentemente sereno, disse-lhe que iria até Marta. Prometeu-lhe que não daria escândalo, e, sob o olhar preocupado dela, andou na direção de Marta e Wesley; deteve-se à direita dele, de frente para ela. Wesley saudou-o. O olhar de Dálton não era ambíguo. Expressava o que ele sentia. Uma onda de calafrio percorreu a espinha de Marta, que empalideceu. Wesley não cessou a fingida bajulação. Marta interpôs-se entre eles. De frente para Dálton, disse-lhe que queria dançar com ele. Ele conservou Wesley sob o seu olhar ameaçador. Wesley encarou-o, exibiu sorriso de deboche e, movendo os lábios, sem emitir nenhum som, quando Marta não olhava para ele, pronunciou ofensa que Dálton pensou ouvir. Wesley alcunhava-o corno. Dálton livrou-se das mãos de Marta, e antes que ela percebesse o que se passava, foi, com passos firmes e pesados, na direção de Wesley, e empurrou-o. Àquela altura, os circundantes não ignoravam o que se sucedia. Dálton encarava Wesley e tocava-lhe o peito com o dedo indicador direito. Wesley recuava, com ar de vítima injustiçada. Marta segurou Dálton pelo antebraço e suplicou-lhe paciência. As suas palavras o chamaram à razão. Ele olhou para ela, que o puxou para si e, segurando-o pelo pulso, com força incomum, afastou-o de Wesley, para quem ele olhava, ameaçador. Pouco tempo depois, Marta e Dálton trocaram palavras ferinas. E ele virou-lhe as costas, dela afastou-se, e retirou-se do salão. Ela seguiu-o. Reunidos no estacionamento, discutiram. Ele prometeu regressar ao salão e escorraçar Wesley a socos e pontapés. No decurso de meia hora, ela aplacou-lhe a raiva. A fraca claridade permitia-lhe notar as modificações do semblante de Dálton, o desanuviar-lhe dos pensamentos e a transfiguração da figura dele, então sentimentos negativos a deformá-lo, para a de um homem sereno. Ao voltar-se para trás ao ouvir passos, viu Wesley, o seu sorriso debochado, e ouviu os insultos que ele cuspiu contra Dálton. Não obstante o seu esforço para manter Wesley e Dálton distantes um do outro, eles se atracaram. Com um golpe traiçoeiro, Carlos Roberto, até então oculto aos olhos de Marta e Dálton, correu na direção de Dálton, e com um salto, as pernas e os pés justapostos, encaixou-lhe, sem lhe dar tempo para reagir, uma pancada no tórax, e caiu no chão no mesmo instante em que ele caiu sobre o capô de um carro. Wesley e Carlos Roberto, movimentos sincronizados, acercaram-se de Dálton, que, perdido, via-se defrontando-se com dois oponentes, que, unidos, o superavam em força. Estava Dálton acuado. Wesley disparou-lhe um soco; ele se esquivou, travou-lhe do braço esquerdo, arremessou-o contra uma árvore, e, ato contínuo, desajeitado e desequilibrado, disparou um soco contra Carlos Roberto, que o aparou e deu-lhe um pontapé nas costas. Recomposto, Dálton preparou um soco contra Wesley, que o neutralizou ao mesmo tempo que lhe encaixou um soco no nariz. Wesley e Carlos Roberto desancariam Dálton, se ninguém interviesse. Os gritos de Marta, histéricos, atraíram a atenção de várias pessoas. Do nariz de Dálton escorria um fio de sangue. Vários rapazes intervieram na luta e enxotaram Wesley e Carlos Roberto, que, numa saraivada de insultos, os maldisseram, difamaram Marta, insultaram Dálton, e prometeram quebrá-lo ao meio na próxima vez que o encontrassem.

Dálton disparou saraivadas de olhares penetrantes contra Wesley e desafiou-o para uma luta. Wesley exibiu-lhe gestos obscenos. Marta e outras pessoas contiveram Dálton, que delas tentou desvencilhar-se. Afastaram-se de todos Wesley e Carlos Roberto. Mariana, informada, por uma amiga, do sucedido, rumou ao estacionamento; à porta do salão, viu a pequena multidão, e a passos largos, apressados, foi até ela. Marta afastou-se de Dálton, mas conservou-o sob o seu olhar. Continham-no três rapazes e duas moças. Mariana não se surpreendeu quando lhe disseram que Wesley e Carlos Roberto brigaram com Dálton. Recomposto, aparentemente sereno, Dálton recusou o pedido de Marta para regressarem ao salão. Afastaram-se de Marta e Dálton as outras pessoas. Mariana foi a última pessoa a deixá-los a sós, e com relutância, a pedido de Marta. Voltava-se para trás, olhava para eles, detinha-se a curtos intervalos, e observava-os. Ao se convencer de que eles se entenderiam, foi até o salão à porta do qual deteve-se, voltou-se, viu-os de mãos dadas, sorriu, e entrou no salão.

Larissa fitava Dálton, de distância respeitosa. Cobiçava-o, mas não se atreveu a se aproximar dele. Aplacou os seus desejos dizendo para si mesma que não queria provocá-lo, e tampouco provocar Marta – ambos muito suscetíveis, naquele momento. Marta viu-a à porta do salão. Num monólogo silencioso, disse para si mesma que lhe daria uma lição inesquecível, se ela ousasse aproximar-se de Dálton.

Encerrou-se a festa às quatro horas da madrugada. Algumas pessoas declararam que iriam a outro clube, em busca de diversão, e lá permaneceriam até o raiar do dia. Marta deu carona para Mariana e um casal de amigos. Deixou, primeiro, os amigos na casa deles, depois, Mariana na casa dos pais dela, e rumou para a sua casa. Dálton conservou-se calado durante toda a viagem de regresso.

O carro disposto sobre a calçada, o portão fechado, Marta pediu para Dálton que ele abrisse o portão. Ele se recusou a fazê-lo e, fisionomia carregada, disse-lhe para ela abri-lo. Ela cruzou os braços à frente do peito, e, calada, ficou a olhar para a frente. Ele crispou os músculos. Com os dentes rangendo, num tom cavernoso, aludiu-lhe à conversa dela com Wesley, no salão. Ela, conservando o olhar fixo no vazio à sua frente, com voz balbuciante, disse que Wesley a convidara para dançar, e ela recusara o convite e pedira-lhe que não insistisse, mas ele persistira. Intimidaram-na o olhar sombrio e o rosto convulsionado de Dálton. Dálton, sorrindo, desdenhoso, fez-lhe implacáveis referências ao que testemunhara e às suspeitas que alimentava desde a festa, no clube, ao ouvir Wesley insinuar que ela era mais interessante quando ele, Dálton, não estava por perto, e perguntou-lhe em que pessoa ela se transformou durante um ano de convívio com aqueles universitários depravados, e evocou as cenas da festa, no clube, a tia Luiza e seus comentários a respeito da devassidão dos universitários. Gaguejando, Marta repudiou os comentários e as alusões difamatórias. Zombeteiro, Dálton afinou a voz, arremedou Marta, e fez, com esgares caricaturais, um discurso, para ele hilariante, de um advogado de defesa, espargindo respingos de saliva sobre Marta, que os removeu, enojada. Marta disse-lhe que ele, movido pelo ciúme e por desejos mórbidos, tecia, num tom agressivo, comentários maldosos que ela não merecia ouvir, e que pensamentos de desconfiança tangeram a sua mente ao vê-lo dançando com Larissa, a quem ela se referiu como sirigaita e depravada. De imediato, os olhos de Dálton dançaram nas órbitas. Marta sentiu-se recompensada ao vê-lo na defensiva, justificando-se, alegando inocência, Ele repetiu as perguntas a respeito dela e de Wesley e disse que queria saber o que eles conversavam. Ela sorriu, perguntou-lhe se estavam num tribunal, participando de um interrogatório, e se ela estava sentada no banco dos réus. Ele escrutinou-lhe a fisionomia, sondou-lhe a mente; enquanto ela falava, estudava-a, desconfiado, como se lhe auscultasse o cérebro. E ela, uma vez mais, tratando da conversa dele com Larissa, perguntou-lhe se ele apreciara o contato de seu corpo com o formoso, estonteante, luxurioso corpo dela. Dálton pôs-lhe o dedo indicador esquerdo em riste, ergueu o tom de voz, e elencou os supostos sinais de traição de Marta, que, com voz esganiçada, esgoelando-se, açoitou-o com insultos impublicáveis a tal ponto que, nervosa, tensa, soluçou e gaguejou. O seu descontrole e a sua fraqueza inspiraram-lhe comentários zombeteiros; e ele arrostou-a com insinuações maledicentes e acusações maldosas. Perdendo o controle de si, Marta retirou-se do carro, andou, passos acelerados, aos tropeções, pela calçada esburacada repleta de raízes expostas. Logo em seguida, Dálton retirou-se do carro, foi até ela, alcançou-a, e apertou-lhe o braço. Ela fez um gesto de repulsa ao sentir em seu punho a pressão da mão dele, e um arrepio passou-lhe por toda a extensão da espinha, e lágrimas orvalharam-lhe o rosto; e balbuciou, com voz trêmula, qualquer coisa ininteligível. Dálton compreendeu-lhe algumas palavras, mas não apreendeu o significado do que ela dizia. Perturbado pelo tumulto de emoções que se entrechocavam no seu espírito, foi indiferente às emoções que as suas acusações suscitaram em Marta, que, insistindo nas suas débeis tentativas de se livrar da mão dele, desferiu-lhe um tapa na cara, e ele, fuzilando-a com o olhar, preparou-se para disparar-lhe um arsenal de insultos, mas não o fez, pois ela moveu o braço para acertar-lhe outro tapa; antecipando-se-lhe, ele segurou-lhe o pulso, premiu-o, sem tomar conhecimento da força que aplicava, infligindo-lhe dores. Ela rogou-lhe que a soltasse. Sem lhe dar ouvidos, ele lhe disparou, num tom elevado, uma saraivada de insultos. A muito custo, ela logrou convencê-lo a soltar-lhe o punho. E foi nesse momento que Floriano, anunciando-se, disse que ouvira gritos e retirara-se de casa a saber o que ocorria, e perguntou para Dálton e Marta porque o carro estava sobre a calçada. Marta fitou seu pai e Dálton virou-se para o lado oposto. Não passou despercebido de Floriano o constrangimento de Marta e Dálton e os gestos dela massageando o pulso. Fitou-a, com olhar interrogativo. Dos olhos dela escorreram lágrimas – ela estava na iminência de desabar aos prantos. Um raio de compreensão atingiu o cérebro de Floriano, que disse para Marta, e para Dálton, para ela num timbre suave, carinhoso, para ele, num timbre metálico, que entrassem na casa. Dálton, num tom seco, desejou-lhe boa noite, e afastou-se, a passos pesados, sob o olhar dele. Assim que Dálton saiu do seu campo de visão, Floriano voltou-se para Marta, que, à porta, observara Dálton a afastar-se, e pediu-lhe a chave do carro. Ela disse que a chave estava no contato. Ele abriu a porta da varanda, disse a Marta que entrasse na casa, e foi ao carro. Lucrécia apareceu, de camisola, ao pé da porta que dá acesso à sala de visitas. Ao vê-la, Marta caiu aos prantos, e aninhou-se-lhe ao peito. Lucrécia envolveu-a com o corpo. Entraram mãe e filha na casa. Durante a conversa com sua filha, Lucrécia, falando-lhe numa voz melodiosa e passeando-lhe as mãos pelos cabelos e deslizando-lhas pelo rosto, tranqüilizou-a. E Marta logo conciliou o sono. Enquanto desenrolava-se a conversa entre mãe e filha, na sala Floriano andava, tenso, de um lado para o outro, prometendo para si mesmo que iria, no dia seguinte, de Dálton exigir explicações.

Na manhã de domingo, estremunhada, Marta sentou-se na cama, ajeitou a camisola, e retirou-se do quarto. Ao ouvir vozes, deteve-se ao enquadramento da porta, com a mão esquerda na maçaneta, e apurou os ouvidos. E bocejou. Pensou ouvir vozes de três pessoas: a de sua mãe e a de duas outras mulheres. Assim que as substâncias anestésicas do sono abandonaram-lhe o corpo, reconheceu as vozes que ouvia: eram de uma pessoa: a de sua mãe, que conversava, ao telefone, com uma pessoa cuja identidade desconhecia. Enfiou-se pelo corredor, e, a passos lentos, foi à sala. Lucrécia pressentiu-lhe a presença, olhou por sobre o ombro, deparou-se com uma figura semi-desperta de rosto inchado de sono e cabelos desgrenhados, interrompeu a sua preleção ao telefone, e pediu à pessoa, que atendia pelo nome de Marisa, desculpas por ter de encerrar a conversa, prometeu-lhe dar sequência às explicações, ao entardecer, ou em outro momento, despediu-se dela, pôs o fone no gancho, levantou-se, foi até Marta, e saudou-a. Marta abriu um sorriso acanhado. Lucrécia beijou-a na testa, sustentando-lhe o rosto com as mãos, e assim que ela descruzou os braços, passeou-lhe as mãos pelo rosto, e removeu-lhe, com os dedos indicadores, a remela dos olhos, massageou-lhe os pulsos, falou-lhe dos hematomas, e perguntou-lhe se ela desejava falar a respeito, e pediu-lhe que se sentasse. Marta sentou-se, e sua mãe sentou-se-lhe ao lado. E narrou-lhe os eventos da véspera – tintim por tintim, como Lucrécia, a sua confidente, exigira-lhe. Lucrécia expressou a sua indignação e preconizou uma tragédia, se Marta persistisse no namoro com Dálton. Evocou, para ilustrar as suas declarações e sustentar o seu ponto de vista e inibir toda e qualquer contestação que Marta pudesse vir a apresentar-lhe, casos, que se popularizaram, de maridos e namorados enciumados que ou espancaram suas esposas e namoradas, ou as mataram. Marta fitou-a, horrorizada. Pensou em defender Dálton, dizer que ele agira sob efeitos de sentimentos passageiros e que se encontrava fora de si, no paroxismo de raiva suscitada pelo ciúme que lhe fôra inspirado por Wesley, por quem ele alimenta ódio visceral, e que ela, Marta, ao invés de acalmá-lo, lhe exacerbara os sentimentos ao confrontá-lo e atirar-lhe na cara insinuações e acusações, mas optou pelo silêncio, pois, sabia, sua mãe lhe diria, e seu pai a secundaria, que, se todas as vezes que agisse por impulso, açulado por ciúme, a ponto de machucá-la, e Marta, nervosa, ao não refletir nas palavras, o confrontasse, Dálton perdesse o governo de si e a agredisse, então ele era uma ameaça para ela e dele ela teria de se afastar antes que ocorresse uma tragédia.

À tarde, Dálton telefonou para Marta. E eles conversaram durante uma hora. Duas horas depois, ele premiu a campainha da casa dela. Ouviu-a retinir. Ninguém atendeu à porta. Premiu a campainha segunda vez. Viu Floriano, na varanda, andando em sua direção. Floriano deteve-se à porta que dá acesso à rua, fitou-o, e disse-lhe, num timbre de voz metálico, que ele machucara Marta. Dálton, constrangido, pediu-lhe desculpas, olhou para os lados, e renovou, com voz contida, arrependido, visivelmente constrangido, os pedidos de desculpas. Floriano interrogou-o, repreendeu-o, e dele nenhuma palavra ouviu. No momento de maior excitação, elevou o tom de voz e torpedeou-o com um arsenal de interrogações fulminantes, Dálton, então, de cabeça abaixada, a escarvar o chão, a passear as mãos pelos cabelos, a massagear o nariz. Dálton declarou-se sinceramente arrependido. Assim que Floriano perguntou-lhe se ele possuía dupla personalidade, sorriu, acreditando tratar-se de um chiste, mas, o seu olhar encontrando-se com o dele, suprimiu, automaticamente, do rosto o sorriso, olhou para a direita, para o vazio, e coçou o nariz. Após alguns minutos de completo silêncio, Floriano, num tom paternal, confessou-lhe o amor pela filha, e o respeito e o carinho que cultivava e nutria por ele, e perguntou-lhe se ele merecia uma segunda chance. Ele respondeu com silêncio, olhar de súplica, e lábios trêmulos, que o impediam de articular qualquer palavra. Floriano, enfim, abriu a porta, e deu-lhe acesso à casa. Dálton pediu licença, e ele concedeu-lha. Cabisbaixo, entrou, deu quatro passos, e deteve-se, o olhar perdido. Floriano pediu-lhe que entrasse na casa. Fechou a porta atrás de si, convidou-o a sentar-se, e disse-lhe que iria conversar com Marta. Dálton notou-lhe o tom de voz, simultaneamente distante e carinhoso, e disse-lhe, com voz mal articulada, que, em pé, esperaria por ela. Floriano retirou-se da sala. Dálton olhou para as fotos, todas emolduradas. Não muito tempo depois, Marta entrou na sala e saudou-o com um sussurro. Ele voltou-se para ela. E fitaram-se, ambos constrangidos. Ele massageou o nariz, empinou a cabeça e fitou o teto. Ela cruzou os braços ao peito. E ele abaixou a cabeça, levou a mão esquerda aos olhos, e com o polegar e o médio massageou-os, como se quisesse afugentar de si os pensamentos que o impediam de articular as palavras que pretendia dizer para Marta, que, tensa e ansiosa, conteve a respiração, fitou-o, desviou o olhar, e concentrou-o em algum objeto.

Dálton, enfim, foi até Marta, e ela virou-lhe o rosto. Pegou-lhe as mãos, e massageou-lhe os pulsos. Notou-lhe o tremular dos lábios e do queixo. Ela puxou as mãos para si – sem esforço, pois ele não as prendia em sua mãos – e cruzou ao peito os braços; ele interpretou tal gesto como um sinal da repulsa que ela sentia por ele. Carinhosamente, ele levou a mão direita à nuca de Marta, e atraiu a cabeça dela para si – ela deixou-se atrair e aninhou-lhe a cabeça ao peito – e abrigou-a sob os braços. Na sequência, sentaram-se no sofá. Conversaram, retraídos, trocaram gestos de carinho, e provocaram-se. Marta beliscou-o e deu-lhe tapas inofensivos. Parecia que ambos abandonavam as desconfianças; persistia, no entanto, na cabeça de Marta, resquícios de medo, e, na de Dálton, o receio de vir a perdê-la se lhe ferisse suscetibilidades. Retiraram-se da casa às vinte e uma horas, e rumaram, de mãos dadas, sorrisos apaixonados nos rostos corados, a uma pizzaria, da qual se retiraram quinze minutos antes da meia-noite. E na varanda da casa de Marta, renovaram os votos de amor. Beijaram-se, apaixonadamente, enlaçados num abraço estreito. E despediram-se vinte minutos depois da meia-noite.

Declaração de Amor – parte 3 de 5

Dálton cursava o terceiro ano colegial, à noite, e trabalhava das oito horas ao meio dia e das quatorze às dezoito horas.

Dois eventos entristeceram-no sobremaneira: a morte de Celso, seu tio, um dos tios pelo qual nutria mais carinho e respeito; e, três dias depois, a morte de Adriano, um amigo que, ou foi enforcado, ou cometeu suicídio. Adriano, dois anos antes, envolvera-se com drogas, e, suspeitavam, traficava drogas e devia uma boa soma em dinheiro para traficantes; como não saldara a dívida, mataram-no, enforcado, simulando suicídio, diziam. Durante os cortejos fúnebres, Dálton conservou-se calado; a sua fisionomia transparecia a dor que o avassalava. De seus olhos, escorreram lágrimas abundantes, as quais ele removia com as mãos, ou Marta lhas removia, carinhosamente. Nas provas que se sucederam, na semana posterior às mortes de Celso e de Adriano, Dálton obteve notas baixas; e o seu desempenho no trabalho também diminuiu. A sua desatenção e a sua indiferença não passaram despercebidas das pessoas com as quais ele convivia.

Semanas depois, numa conversa com seus pais, disse-lhes que, indeciso, não sabia que faculdade cursaria. Decidiu-se, por fim, não cursar nenhuma faculdade. Seus pais insistiram; que ele cursasse alguma faculdade. Ele lhes disse que talvez se matriculasse em um curso técnico, ou em uma faculdade relacionada à administração e negócios, pois, na loja de aparelhos eletrônicos, tomara gosto pelo ofício de vendedor, e porque desejava conhecer o funcionamento de uma empresa; e, com argumentos consistentes, que teria mais a aprender na loja do que numa universidade. Ulisses disse-lhe que ele poderia cursar ou engenharia ou medicina. Dálton não se decidiu; pensaria no assunto, e, enquanto não tomasse uma decisão, trabalharia, na loja de aparelhos eletrônicos, ou em outra empresa. Vilma Helena falou de Claudionor, que se dedicava aos estudos e iniciara estágio em uma empresa de engenharia espacial, e disse que ele, Dálton, não poderia se contentar com emprego de vendedor em uma loja de aparelhos eletrônicos. Dálton franziu o cenho, expôs o seu descontentamento com a comparação, e perguntou-lhe, sem deixar de dirigir a pergunta para seu pai, se eles poderiam admitir que ele, Dálton, tomasse uma decisão independentemente de qual tenha sido a de Claudionor. Sua mãe desconversou, disse-lhe que tivera, unicamente, a intenção de mostrar-lhe, ao falar de Claudionor, que ele, Dálton, não teria futuro de sucesso sem instrução universitária.

– A emenda saiu pior do que o soneto – sentenciou Dálton.

Ao perceber que os ânimos acirravam-se, antecipando-se à Vilma Helena, Ulisses perguntou a Dálton se ele estava desempenhando bem o seu trabalho na loja de aparelhos eletrônicos. Vilma Helena calou-se, e engoliu a pergunta, provocativa, ela sabia, que pretendia fazer ao filho. Até o encerramento do almoço, ela não pronunciou nenhuma outra palavra; da conversa entre Ulisses e Dálton ouviu o início, e dela alheando-se, mergulhou nos seus pensamentos.

Num final de semana, Marta e Dálton foram à uma festa num clube alugado pelos alunos da universidade.

À beira da piscina, Marta, Dálton e Mariana conversavam, sentados; Marta entre Dálton, à sua direita, e Mariana, à sua esquerda. Wesley e Carlos Roberto, visivelmente embriagados, aproximaram-se deles, e seguraram Marta, Wesley, pelos calcanhares, Carlos Roberto, pelas axilas, e levantaram-na. Ela protestou. Eles gargalharam e provocaram-na, desdenhosos. Dálton observou-os. Ao cruzar o seu olhar com o de Marta, levantou-se, e pediu, com gentileza incomum, a Wesley e Carlos Roberto que a soltassem. Eles gargalharam, zombaram dele e de Marta. Wesley perguntou para ela porque ela havia levado o namorado à festa e disse-lhe que ela era mais simpática e engraçada quando ele não estava por perto. Dálton encarou-o, engrossou a voz, e, num tom imperioso, com o punho direito cerrado, disse-lhe que soltasse Marta. Zombeteiro, Wesley soltou-a, e disse-lhe que ele era muito nervoso, e, voltando-se para Marta, disse-lhe que ela merecia um namorado que sabia curtir a vida. Dálton empurrou-o, sem aplicar toda a sua força. Wesley recuou, ergueu os braços, mantendo os cotovelos dobrados, e, num tom ao mesmo tempo zombeteiro e intimidado, pediu-lhe calma. Carlos Roberto soltou Marta. Ao contínuo, ele e Wesley aproximaram-se de Mariana, ameaçaram agarrá-la e jogá-la na piscina. Ela deu um tapa inofensivo em Carlos Roberto, e este e Wesley provocaram-na, afastaram-se dela, e aproximavam-se de Bianca e Jéssica, que conversavam, sentadas, no outro lado da piscina. Agarraram Jéssica, que não imprimiu resistência e limitou-se a apresentar-lhes protestos débeis, ergueram-na, e arremessaram-na na piscina. Wesley, ato contínuo, jogou-se na piscina. Jéssica emergiu. Ele emergiu. Carlos Roberto puxou Bianca pelo calcanhar. Ela resistiu, e deu-lhe uma unhada. Ele recuou, massageou o ponto atingido, voltou-se para ela e desferiu-lhe obscenidades; e ao chamado de Wesley, pulou na piscina. E acercaram-se Carlos Roberto e Wesley de Jéssica, que protestou. Wesley agarrou-a pelos cabelos. Bianca pediu a Wesley e Carlos Roberto que a deixassem em paz. Carlos Roberto proferiu um palavrão. Dálton disse para Mariana e Marta que aquela brincadeira não teria um final feliz. Jéssica protestou, ofendeu Wesley, e, com olhos suplicantes, pediu-lhe que a largasse. As gargalhadas e os comentários de Wesley e Carlos Roberto incomodaram Marta, Dálton, Mariana, Bianca e outras pessoas. Dálton, então, preparou-se para ir em socorro a Jéssica; deteve-se ao ver dois rapazes e Bianca se lhe antecipando e pulando na piscina. E os três nadaram até Wesley, Carlos Roberto e Jéssica; esta, ao se ver livre e na companhia de Bianca, nadou até a borda da piscina, chorando, enquanto os dois rapazes discutiam com Wesley e Carlos Roberto. À beira da piscina, Bianca e duas moças ampararam Jéssica, visivelmente nervosa, cuja respiração o choro dificultava, e uma delas cobriu-a com uma toalha; Bianca, envolvendo-a pelos ombros, conduziu-a até uma cadeira. Enquanto isso, os dois rapazes que pularam na piscina em socorro a Jéssica, e outros rapazes, obrigaram Wesley e Carlos Roberto a se retirarem da piscina à cuja beira Wanderley, um grandalhão loiro de cabelos compridos, deu um tapa na cara de Carlos Roberto e pôs-lhe o dedo em riste ao nariz e encostou o punho esquerdo cerrado na testa de Wesley, dirigindo-lhes a palavra num tom de voz ameaçador. Wesley e Carlos Roberto, intimidados, escudaram o rosto com as mãos, encolheram os ombros e viraram a cabeça quando Wanderley, que sopesava o seu desejo de expulsá-los do clube aos socos e pontapés, ameaçou dar-lhes um soco. E afastaram-se. E a namorada de Wanderley puxou-o pelo braço ao mesmo tempo que, atônita, dava, para Wesley e Carlos Roberto, que se recolheram sob apupos impublicáveis e olhares de repreensão de todos os presentes, a sugestão de recomporem-se e irem-se embora.

Duas pessoas justificaram a atitude de Wesley e Carlos Roberto.

– Eles estão bêbados – disse uma delas. – Eles não têm controle dos próprios atos.

– O que fizemos? – replicou um aluno. – Acabamos com a ebriedade deles. Os palavrões que lhes dissemos e os tapas que o Wanderley lhes deu os trouxeram à realidade.

– Eles apenas se divertiam – disse a outra. – A Jéssica perdeu o controle. O Wesley e o Carlos Roberto nada lhe fariam, aqui, na piscina, na frente de todo mundo.

– Eles se divertiam? – retrucou uma aluna, indignada. – A Jéssica não se divertia. Cabia a eles respeitá-la. Se ela não queria participar da brincadeira, eles não poderiam obrigá-la a participar. E quem disse que eles não iriam fazer nada!? Estão bêbados aqueles dois imbecis. Eles tiraram a parte de cima do biquíni da Jéssica. O Wesley e o Carlos Roberto puxaram-lhe o biquíni de baixo, para desatá-lo. Se a Jéssica não o segurasse, eles lho removeriam – e acrescentou, após um curto intervalo. – E tu me dizes que aqueles dois idiotas nada fariam contra a Jéssica!

Minutos depois, Dálton, ao entrar no banheiro, sentiu a emanação peculiar de maconha e ouviu vozes de três pessoas – duas vozes masculinas e uma voz feminina – dentro de um compartimento isolado. Assim que ouviram os passos de Dálton, tais pessoas calaram-se; sempre que uma delas fazia algum barulho, ouvia-se, na sequência, um “chiu” ciciado ou um “Quieto” sussurrado. Dálton pensou em Marta. Imaginou-a na companhia de Wesley e Carlos Roberto. Perguntou-se o que Wesley quis dizer quando dissera para Marta que ela era mais simpática e engraçada quando estava desacompanhada dele, Dálton, e imaginou-a, num banheiro reservado aos homens, fumando maconha, na companhia de dois homens – tais pensamentos e tais imagens rodopiaram no seu cérebro, desnorteando-o. Retirou-se do banheiro, em menos de dois minutos após nele entrar, e foi, sem se deter, até a piscina, e sentou-se à direita de Marta. À sua mente, os pensamentos a lhe avassalarem o espírito. Ao olhar ao redor, divisou, ao longe, num terreno um pouco abaixo, encostado à árvore, um homem, e uma mulher, ele a enlaçá-la. O homem trajava uma sunga. A mulher, um biquíni azul. Riam. Beijavam-se. Ela lhe passeava as mãos pelos cabelos compridos. Ele lhe apertava as nádegas. Ela, sorrindo, ora dava-lhe um tapa no ombro, ora beliscava-lhe o braço, ora apertava-lhe as bochechas, ora segurava-lhe as mãos. Um rapaz aproximou-se deles. O homem e a mulher voltaram-se para ele, e riram. O rapaz, com esgares lascivos, gestos obscenos, enlaçou, por trás, a mulher, encostou-se nela, puxou-lhe os cabelos e lambeu-lhe a orelha direita. A mulher e o homem gargalharam. O rapaz deslizou as mãos pelas ilhargas, quadris e pernas da mulher, apertou-lhe as nádegas, e estreitou-se nela ainda mais; ao receber do homem um empurrão amigável, afastou-se; ato contínuo, ameaçou aproximar-se da mulher, mas o homem, sorrindo, ameaçou dar-lhe pontapés; com gestos lascivos da língua, afastou-se, às gargalhadas estrondosas, as quais ecoaram pelo clube e chegaram aos ouvidos de Marta, de Mariana, e aos de Dálton, cuja mente imagens nas quais a mulher era substituída por Marta a avassalavam.

À noite, Dálton e Marta passearam pela praça Joaquim Nabuco. Ele lhe relatou o que presenciara no clube, e expôs os seus pensamentos a respeito, as impressões que o episódio provocara em si, perguntou-lhe se, em todas as festas que os universitários promoviam, havia tais depravações, e disse-lhe que ela não iria, desacompanhada dele, a outras festas, pois os universitários, sentenciou, são depravados. Marta discordou. Disse que alguns deles eram irresponsáveis, desrespeitosos e preguiçosos, e muitos eram responsáveis, estudiosos e trabalhadores, e evocou as pessoas que reprovaram Wesley e Carlos Roberto. Dálton replicou: uma delas era a moça cuja voz ouvira no banheiro, e outra, o homem que, encostado à árvore, enlaçava a mulher, namorada dele, presumia. Eles eram imorais, sentenciou. E perguntou para Marta a respeito dos comentários de Wesley, que disse que era ela mais simpática e engraçada quando ele, Dálton, não a acompanhava. Ela aconselhou-o a não dar atenção para o que Wesley dizia. Dálton ensaiou uma réplica, mas calou-se, ensimesmado, nutrindo suspeitas; disse para si mesmo, em pensamento, que usaria de expedientes dos quais Marta não suspeitaria para saber o que se passava na faculdade. As desconfianças empanaram-lhe a consciência; o torvelinho de idéias embotou-lhe o raciocínio. Ele evocou os eventos sucedidos no clube, lembrou da sua curiosidade mórbida sobre o desenrolar e o desenlace do caso que Wesley e Carlos Roberto protagonizaram e visualizou a moça e os dois homens no banheiro. Fustigaram-lhe a mente pensamentos desconcertantes a respeito de Marta, para cujo comportamento conjecturou explicações.

Dálton exasperou-se ao não confirmar as suas suspeitas. Acreditava que Marta esquivava-se das perguntas que ele lhe fazia com o propósito de sondar-lhe a mente, mas sem revelar-lhe as suas intenções, as quais, pensava, delas Marta desconfiava mas simulava ignorância.

Em novembro, pediu Marta em casamento. Deram ambos a notícia aos familiares. Casariam em julho do ano seguinte. Reuniram-se, numa festa comemorativa, na casa de Floriano e Lucrécia. Alguns familiares maledicentes disseram que Marta estava grávida de um aluno da faculdade; houve quem declarasse que o filho dela fôra concebido durante uma festa, e que Marta não sabia quem era o pai da criança que ela daria à luz dali seis meses, caso não a abortasse, como ela e Dálton pensavam fazer. Resumo do enredo aventado aos quatro cantos do mundo: Marta bebeu whisky, vodka, fumou maconha e cheirou cocaína; com o cérebro em frangalhos, participou de uma orgia, manteve o intercurso carnal com quatro homens, todos eles alunos da faculdade, bêbados e drogados. Os maledicentes, com voz sibilina, não se limitaram a espalhar tal história durante a festa. Disseminaram-na, nos dias seguintes, por toda a cidade. Tal história alcançou os ouvidos de Marta e Dálton, e os dos pais dele e os dos pais dela. O autor de tais boatos não foi identificado, mas, tinham certeza Dálton e Marta, e os pais deles, que ele era um dos convidados à festa na casa de Floriano e Lucrécia.

Nos finais de semana e nos dias de folga, Dálton e Marta foram às imobiliárias, e às lojas pesquisar preços de cama, guarda-roupas, mesas, e às empresas de materiais de construção. Floriano e Lucrécia os presentearam com um terreno de quinhentos metros quadrados que possuíam no Bairro Jardim das Oliveiras e disseram-lhes que os ajudariam, com dinheiro, na construção da casa.

Dálton comprou um carro seminovo. No trabalho, desincumbia-se, à perfeição, das suas funções. O gerente da loja, Vinicius, promoveu-o, e transferiu-o para uma filial, localizada na cidade vizinha, cujo gerente, Durval, em reconhecimento dos méritos de Dálton, aumentou-lhe o salário e a porcentagem da comissão. Alguns vendedores fitavam Dálton com olhares enviesados; dentre eles, havia os que lhe arquitetavam a queda. Outros vendedores, sinceros, teciam-lhe elogios, saudavam-no, respeitosos, e reconheciam-lhe as excepcionais faculdades de vendedor. A dedicação de Dálton ao trabalho e aos estudos era o assunto principal das conversas de Ulisses e Vilma Helena, ambos convencidos de que Marta inspirava nobres sentimentos a Dálton, que não andava mais na companhia daqueles sujeitos pelos quais nutriam repulsa figadal. Ele, diziam, mudou da água para o vinho. Na loja, difamadores e desafetos dele o hostilizavam, abertamente uns, pelas costas outros. No início, ele estranhou a atitude de alguns vendedores, a hostilidade deles, as insinuações que eles lhe apresentavam, as ambigüidades que proferiam; não precisou de muito tempo para se convencer de que, dentre os vendedores, muitos eram seus rivais, e muitos seus inimigos viscerais.

Dálton e Marta foram à festa de final de ano que a loja promoveu. À mesa em que estavam havia outros funcionários da loja, uns, acompanhados da namorada, outros, da esposa, e funcionárias acompanhadas, umas, do esposo, outras, dos filhos e do esposo. Dálton, após reconhecer um amigo, Matheus, que estava no outro lado do salão, em pé, saudando duas pessoas, levantou-se, e andou na direção dele. Ao passar por uma mesa, deteve-se para dar passagem para duas mulheres, que iam em sentido contrário. Foi então que ouviu o nome de Marta mencionado num tom que não o agradou. Reconheceu a voz que o pronunciou; era a de Lúcio, um dos vendedores que trabalhava na loja; e, em seguida, reconheceu a voz de Ricardo, outro vendedor. Ouviu Lúcio referir-se, num tom seco, à Marta. Ele disse que ela, extraordinariamente persuasiva, extraía favores da gerência, para beneficiar Dálton. Dálton ouviu uma voz indignada, de mulher. Não se voltou para Lúcio e Ricardo. Sabia que eles queriam que ele se voltasse e os fitasse. Afastou-se deles, assim que pôde, mas não antes de ouvir uma das duas mulheres que conversavam com eles perguntar se Dálton não sabia que recebia privilégios devido aos favores que Marta prestava ao gerente, ou não desconfiava das facilidades na obtenção de vantagens, e Lúcio declarar que suspeitava que ele ou sabia de tudo, mas por conveniência e covardia calava-se, pois recebia muitos benefícios, ou, mancomunado com a namorada, chantageava o gerente, que era casado.

Dálton saudou Matheus, a namorada dele, Sabrina, o pai dela, Renato, que era um funcionário da loja, e a mãe dela, Ana Beatriz. Eles pediram a Dálton que se sentasse, e lhes fizesse companhia; ele lhes disse que estava com Marta. Conversaram durante alguns minutos. Dálton soube que Matheus trabalhava em uma montadora de automóveis, localizada em São José dos Campos. Parabenizou-o. Desejou-lhe sucesso. Falou-lhe de Marta, do noivado, do casamento, do terreno que ganhara dos futuros sogros, da casa que pretendiam construir, e disse-lhe que lhe enviaria o convite de casamento. Matheus, que havia um ano não o via, desde que se mudara, com o pai e a mãe, de cidade, disse que desejava conhecer Marta. Dálton pediu-lhe que o acompanhasse, que lha apresentaria. Matheus e Sabrina o acompanharam até à mesa à qual estava Marta. Ao passar próximo à mesa à qual estavam Lúcio e Ricardo, Dálton viu, com o canto dos olhos, as duas mulheres fitando-o com olhar misto de indignação e pena, como se o vissem, ou como um tolo, ou como um ser repulsivo, fez que nada viu, e seguiu até Marta.

Minutos depois da meia-noite, quando quase todos os convidados já haviam se retirado do clube, Dálton e Marta despediram-se dos amigos e de Durval. À porta do salão, Lúcio abordou-os, sorridente, saudou Dálton, e deu-lhe tapinhas nas costas. Em seguida, ele saudou Marta, que lhe retribuiu a gentileza. Assim que Fátima, esposa de Lúcio, e Andréia, esposa de Ricardo, e Ricardo deles se aproximaram, Lúcio apresentou Dálton para Fátima:

– Ele é o Dálton de quem te falei.

Fátima exibiu sorriso acanhado, e ofereceu a mão direita a Dálton, de quem não passou despercebido a lividez do rosto dela e o constrangimento.

Em seguida, Lúcio apresentou Fátima para Marta. Elas se cumprimentaram, com débil aperto de mãos, que mal se tocaram. Na sequência, ele apresentou Andréia para Marta – elas se cumprimentaram – e para Dálton – e Dálton e ela saudaram-se. Lúcio elogiou Dálton; sorrindo, disse-lhe que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher, e disse para Marta que Dálton, sem o apoio dela, não seria um vendedor tão bem-sucedido. Ela acolheu os elogios. Dálton compreendeu as insinuações, e sorriu; era seu desejo cerrar os punhos e esmigalhar o nariz de Lúcio com socos, mas, para a sua surpresa, conteve-se. A sua postura, fria, contrastava com o sangue, que lhe fervia nos vasos sanguíneos, e com os pensamentos, que lhe queimavam a mente.

Enfim, após muitos sorrisos forçados, elogios falsos, Lúcio e Fátima e Ricardo e Andréia despediram-se de Dálton e de Marta.

No carro, Marta perguntou para Dálton porque ele, na presença de Lúcio, Fátima, Ricardo e Andréia, estava tenso, e dele ouviu:

– Amanhã te contarei a história. Tu conhecerás a verdadeira face do Lúcio e a do Ricardo.

Na manhã seguinte, Dálton cumpriu o prometido. Marta ouviu-o atentamente, meneando a cabeça, indignada, enraivecida. Condenou a postura dissimulada de Lúcio e a de Ricardo. Dálton disse-lhe que tinha de lidar com eles, todos os dias – e se controlar para não perder a compostura e não os moer de socos -, e com outros vendedores do mesmo naipe. Ela lhe disse que tais vendedores mereciam uma surra inesquecível. Lúcio, disse Dálton, era, de todos os seus desafetos, o mais sórdido; era persuasivo, capaz de, com lábia sedutora – como Marta tivera a oportunidade de conhecer -, embotar, com seus floreios retóricos, a consciência das pessoas, que acabavam por acreditar em idéias estapafúrdias e a praticar atos condenáveis; e fazia inimigos viscerais dois amigos filiais. Tal faculdade ele empregou contra os seus desafetos e os seus fiéis escudeiros, caso de Ricardo, sujeito passivo, desprovido de vontade própria, inapto, que se sente seguro e forte à sombra dele. Ricardo era um vendedor promissor antes de cair nas garras de Lúcio, que o reduziu a um bonequinho de ventríloquo. Inteirada do tipo de Lúcio e do de Ricardo, nas outras ocasiões em que entabulou conversa com eles, Marta compreendeu as insinuações que eles lhe faziam; com sutileza, disparou-lhes farpas, e eles esforçavam-se por exibir indiferença e rosto inexpressivo, mas um ligeiro esgar, o rumor de um sorriso, com a comissura dos lábios, o franzir das sobrancelhas deles revelavam o incômodo – detalhes minúsculos, imperceptíveis, que Marta, meticulosa, detectava, e usava contra eles, logrando irritá-los. Lúcio tentava fustigá-la com comentários ambíguos nos quais estavam implícitos os seus propósitos maldosos, e os quais revelavam, dele, o ponto fraco, o qual ela acreditou haver descoberto.

Declaração de Amor – parte 2 de 5

No dia seguinte, Luiza, Marco Antonio, Jéssica e Vanessa visitaram Vilma Helena e Ulisses. Não eram oito horas da manhã quando chegaram à casa deles. Saudaram-se calorosamente. Dálton dormia. Acordou um pouco antes das nove horas, envolvido pelas vozes de Luiza e Marco Antonio, que falavam em tom alto. Esfregou os olhos com os nós dos dedos; e com os dedos indicadores removeu a remela dos olhos. Semi-desperto, puxou a colcha para baixo; com movimentos dos pés e das pernas, descobriu-se. Foi nesse momento que ouviu seu tio pronunciar seu nome e sua mãe dizer-lhe que ele, Dálton, dormia como um anjo. Dálton mal ouviu o que eles disseram; captou algumas palavras, que lhe permitiam fazer idéia do assunto que eles tratavam. E sentou-se na cama; e passou as mãos pelo rosto, e bocejou. Sentia pesados os olhos. Passeou as mãos pelos cabelos; e coçou a cabeça. Sentiu algo a lhe incomodar o nariz. Assoou-o, e na sua mão direita atirou muco nasal. Levantou-se, e foi ao banheiro. À pia, abriu a torneira, e limpou a mão. Regressou ao quarto, pegou algumas roupas, encaminhou-se ao banheiro, e banhou-se com água fria. Vinte minutos depois, retirou-se do banheiro com aparência melhor do que a que apresentava ao nele entrar. Na sala-de-estar, encontrou-se com seu pai, sua mãe, seu tio, sua tia e suas primas. Luiza atraiu-o, beijou-o nas duas faces, e, com as mãos pousadas no rosto dele, deu-lhe um beijo na testa – Dálton teve de reclinar-se para que ela o beijasse. Em seguida, ela elogiou-lhe a beleza e o porte físico. Na sequência, ele saudou, com um abraço caloroso e um aperto de mãos, seu tio, que dele se aproximara quando ele conversava com Luiza, e, com beijos e abraços, Vanessa e Jéssica.

– Tua mãe disse-me, Dálton – disse Luiza -, que tu estás namorando uma princesa: Marta. Quando tu a apresentarás para nós?

– Traga-a aqui – antecipou-se Vanessa, sorridente. – Quero conhecer a mulher que irá pôr um pouco de juízo na cabeça de meu primo.

Todos riram do comentário.

Vanessa evocou as aventuras de Jéssica, Dálton, Claudionor e dela, na fazenda dos avós, e os passeios que empreenderam no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, e nos Estados Unidos. Riram dos contratempos que enfrentaram e dos dissabores que os afligiram. E foi ela quem evocou o dia em que, no Rio Grande do Sul, num passeio de ônibus, o motorista do ônibus quase perdeu a direção e o ônibus quase despencou em uma ribanceira. Aludiu aos insultos que os passageiros cuspiram contra ele e ao medo que sentiram. Dálton evocou outros momentos inesquecíveis de tal viagem e as aventuras sucedidas nos Estados Unidos. Seus olhos brilharam ao evocar a Califórnia, um país, disse ele, surreal.

Beberam café, leite, café-com-leite. Comeram pães com queijo, pães com manteiga, maçãs, bananas, sucrilhos, bolachas com recheio de morango e bolachas com recheio de chocolate, waffes, biscoitos, pães-de-fôrma com geléia de pêssego, e goiabada com queijo.

Durante a conversa, mudavam, constantemente, de assunto. Em certo momento, Jéssica perguntou de Marta a Dálton. Desejava saber se ela era bonita, qual a cor dos cabelos e dos olhos dela, qual a idade dela e onde ela morava. Dálton se tornou o centro das atenções. Sentiu-se intimidado. Carecia de tempo para responder às perguntas, pois todos lhe falavam ao mesmo tempo. Foi Vilma Helena quem disse que, se desejavam extrair-lhe alguma informação, teriam de permitir que ele falasse. Assim que sua mãe, como ela mesma disse, conseguiu pôr ordem na casa, ele falou de Marta. Elogiou-a, sem ressalvas. Evocou o dia em que a conhecera. Falou da cor e do comprimento dos cabelos dela, da cor dos olhos, do formato do nariz, do rosto, do tipo físico e da altura dela, das roupas que ela mais gostava de usar, dos filmes prediletos dela, dos livros que ela leu e dos que ela não leu e não pretendia ler; e do início do ano letivo, na faculdade de Direito. Estava orgulhoso do sucesso de Marta, que, como o pai e a mãe dela, seguiria carreira de advogado; mas ela ainda não havia decidido em qual ramo do direito se especializaria. Marco Antonio teceu comentários sobre advogados e outros profissionais do ramo jurídico. Jéssica declarou que advocacia era uma profissão que ela jamais exerceria. Vanessa disse que não conseguia entender como podia existir pessoas que viviam mergulhadas em livros de códigos e constituições, analisando pontos, vírgulas e pontos-e-vírgulas de milhares de leis, e perguntou qual a razão de tantas leis, e se elas eram escritas para melhorar a vida das pessoas, ou para piorá-la. Marco Antonio tomou a palavra, e afirmou, categoricamente, que muitas leis são criadas tendo-se em mira a defesa de interesses de grupos privilegiados, a garantia de reserva de mercado para certas empresas e a impunidade a certos políticos.

A conversa estendeu-se, com comentários favoráveis e comentários desfavoráveis ao sistema legal brasileiro. Marco Antonio entremeou com perguntas retóricas as suas argumentações. Falaram da criação da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, da extradição de Cesare Battisti, da Lei da Ficha Limpa, da formação ideológica dos representantes das leis, e das faculdades de Ciências Jurídicas. Luiza disse, em certo momento da conversa, que as universidades brasileiras são antros de pervertidos. Nenhum dos seus interlocutores corroborou tal opinião. Marco Antonio dela divergiu frontalmente, e ela mencionou exemplos de casos que lhe chegaram ao conhecimento e concentrou-se no protagonizado por Jennifer, filha de Lúcia, uma das suas vizinhas:

– A Lúcia contou-me, um dia, na casa dela, que Jennifer, sua segunda filha, foi, no primeiro ano de administração de empresas, assediada e chantageada por um professor, cujo nome não me recordo, ao tratar com ele das notas que ela tirara nas provas. Na somatória das notas de todas as provas do ano, Jennifer não havia conseguido a nota mínima necessária para passar à série seguinte; restou-lhe meio ponto. O professor, não reservando consigo as suas segundas intenções, disse para ela que ela poderia passar para a série seguinte se aceitasse o convite que ele lhe fazia para jantar. O seu sorriso cínico, as reticências, o realce que deu ao ‘jantar’, o olhar enviesado e o timbre da voz não deixaram dúvidas a respeito do que ele desejava. Jennifer, momentaneamente privada da voz, ensaiou uma resposta grosseira, mas calou-se. Disse que mordera a língua, para não faltar com o respeito ao professor, não perder a compostura, e não se debulhar em lágrimas, de decepção, num misto de raiva e medo. Aquele professor, de todos os professores, era o que ela mais estimava. Afligiu-a o descaramento dele. Incapaz de falar, no receio de não perder o controle de si, abreviou a conversa e, as pernas bambas, foi-se embora. Ao chegar na sua casa, contou o ocorrido para a Lúcia. No ano seguinte, matriculada no segundo ano, ela estudou, do primeiro ano, a matéria na qual fôra reprovada, agora com outro professor, e mais as matérias do segundo ano. E ela foi aprovada, e com louvor – fez uma pausa, para avaliar o impacto das suas palavras naqueles que a ouviam, e prosseguiu: Quantas mulheres são vítimas, nas universidades, de professores canalhas? As universidades são antros de perdição. Nas universidades os alunos fumam maconha, frequentam festas regadas a bebidas alcoólicas e drogas. Brutalizam-se. Emburrecem-se. Na cabeça, eles têm, além de piolhos, minhocas. Os professores os deseducam, os deformam.

– Tu exageras, mãe – sentenciou Vanessa.

– Não exagero – replicou Luiza. – Conhecemos este caso. Quantos outros não nos chegaram ao conhecimento? Se não fosse moça decente, a Jennifer aceitaria a proposta indecente daquele professor calhorda. Quantas alunas aceitaram a chantagem dele?

– Que eu saiba – comentou Marco Antonio -, as moças que estudam nas universidades são adultas. Se decidem aceitar as chantagens de um professor canalha, o fazem de livre e espontânea vontade.

– De livre e espontânea vontade!? – exclamou Luiza.

– E não é? – prosseguiu Marco Antonio. – É de livre e espontânea vontade. As alunas são adultas. Podem dizer não; ou, se já conhecem a reputação do professor, que não o procurem para dele receber, sem o merecer, o meio ponto que lhe restam para passarem de ano letivo. Os alunos não podem abordar os professores e lhes solicitarem meio ponto, um quinto de um ponto, que seja. Não conseguiram a nota mínima, nas provas oficiais, as mesmas provas que todos os alunos fizeram, então que aceitem o resultado, se não adulterado, e calem-se. Se um aluno não consegue a nota mínima para aprovação, das duas, uma, ou ele não se aplicou ao estudo, ou não tem inteligência para assimilar os conhecimentos.

– A Jennifer, no ano seguinte, passou de ano – observou Luiza.

– Portanto – retrucou Marco Antonio -, ela tem inteligência para assimilar os conhecimentos; então, por que, no primeiro ano que cursou a matéria, ela não conseguiu, nas provas, a nota mínima para aprovação? Por que ela teve de, carente de meio ponto, recorrer ao professor? Talvez ela não tenha se aplicado nos estudos, como o dever lhe exige.

– Ela trabalhava, durante o dia, e ia à faculdade, à noite – disse Luiza.

– Ela é uma aluna universitária – tornou Marco Antonio. – Era a única universitária que trabalhava? Responda-me: Os alunos que estavam na mesma situação que ela foram reprovados?

– Tu queres dizer que o professor não estava errado… – comentou Luiza.

– Não foi isso o que eu disse.

– O que tu disseste, então? – perguntou-lhe Luiza.

– Agora, eles discutirão pra valer – anunciou Jéssica, sorrindo.

– A conversa está ficando divertida – comentou Vanessa.

– Por que a Jennifer foi pedir meio ponto ao professor? – perguntou Marco Antonio. – Se, durante o ano letivo, ela não havia conseguido, nas provas e nos trabalhos, a pontuação mínima para aprovação, ela que admitisse, para si mesma, que não estava preparada para dar mais um passo em sua jornada universitária, e se detivesse, e aceitasse o seu fracasso. Não seria o fim do mundo. Que aprendesse com o insucesso. A Jennifer pediu meio ponto ao professor porque…

– Ela não pediu meio ponto ao professor – interrompeu-o Luiza, alterada. – Ela lhe pediu um trabalho; e ela o faria, e pelo trabalho o professor lhe daria meio ponto.

– Certo – tornou Marco Antonio. – Por que, diga-me, o professor teria de dar um trabalho para a Jennifer em troca de meio ponto? A Jennifer é bonita…

– O que tu estás insinuando? – interrompeu-o Luiza, transparecendo indignação na fisionomia e na voz.

– Nenhuma insinuação eu fiz. Pergunto-me se a Jennifer não pensou em tirar vantagem de sua beleza. E se ela fosse uma feiosa desdentada, um bagaço?

– A Jennifer é moça decente – disse Luiza, num tom de voz alterado.

– Eu quero dizer o seguinte, e que fique bem claro: um aluno, ao não conseguir a pontuação mínima para aprovação, não pode pedir ao professor um trabalho em troca ou de meio ponto, ou de um ponto, ou de dois pontos, ou de dez pontos. O professor não pode, ao ouvir um aluno apresentar-lhe tal proposta, aceitá-la. Se decente, sério, compromissado com a formação intelectual dos seus alunos, tem de, obrigatoriamente, dizer-lhe que nenhum trabalho lhe dará e que os alunos aprovados o foram devido ao esforço próprio, sem obterem facilidades. Se um aluno não consegue a nota mínima, que ele seja reprovado.

– Mas… e as alunas que não têm opção, e são obrigadas a aceitar a chantagem do professor? – perguntou Luiza.

– Quais alunas não têm opção? – perguntou, surpreso, Marco Antonio. – Nenhuma aluna é obrigada a aceitar chantagens.

– As que não podem recusar a chantagem não têm opção – replicou Luiza.

– Quem não pode rejeitar a chantagem? – perguntou Marco Antonio, aparentemente mais surpreso do que antes.

– As alunas que temem o professor, que tem algo contra elas – respondeu Luiza, como se desse uma resposta irreplicável.

– Então, é caso de polícia – respondeu Marco Antonio.

– Há professores que descobrem segredos dos alunos e os usam contra eles – disse Luiza.

– É caso de polícia – sentenciou Marco Antonio, severo. – Todos os alunos têm opções. Podem falar a respeito com alguém. Saiba que há muitos alunos que se calam, ou por conveniência, ou por covardia. Por conveniência, sim, pois, ao curvarem-se à chantagem, passam de ano letivo, e não desgostam os familiares e os amigos, e ganham diplomas, e conquistam fama de estudiosos.

– Queres dizer que os professores chantageiam as alunas, e elas são as culpadas por serem chantageadas? – perguntou Luiza, impaciente. – A Jennifer foi a vítima do professor, um calhorda, que de professor não merece ser chamado. O professor chantageou-a, e ela tem de ser punida?

– Vamos pôr os pingos nos is – replicou Marco Antonio. – Vamos dar nomes aos bois. Não confunda alhos com bugalhos, e saiba que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

– O que eu disse? – perguntou Vanessa, para si mesma e para todos os presentes. – A conversa está divertida.

– Detesto quando tu fazes isso, Marco Antonio – disse Luiza, em tom de censura, chateada. – Tu debochas de mim. Tu zombas de mim.

– Acabou-se a conversa – sentenciou Marco Antonio. – Vou, agora, fazer da minha boca um túmulo.

– Sábia decisão – sentenciou Luiza. – Sábia decisão. Direi o que penso. Se tu me permitires, meu querido marido. Há muitos malandros nas universidades. Muitos professores são canalhas. Não educam os alunos; e seduzem as alunas incautas. Os universitários, aos dezoito, dezenove anos, sabem o que da vida? Nada. O ambiente universitário é favorável à transgressão de leis, normas sociais, e à transvaloração de todos os valores. Não é assim que os seus amigos intelectuais falam, Marco Antonio? Aqueles soberbos de cabeça oca que, por terem lido meia dúzia de livros, consideram-se os maiores gênios de todos os tempos. Basta ler jornais, revistas, assistir à televisão, e ouvir o que as pessoas falam, e atentar para o teor das conversas dos universitários, para se saber que o mundo está de cabeça para baixo. Para os universitários o certo é errado, e o errado certo; a vítima de um crime é o criminoso, e o criminoso a vítima. Os intelectuais dizem que os criminosos, que, ao nascerem, eram homens bons, cometem crimes porque a sociedade os obriga a cometê-los ao negar-lhes acesso à riqueza e ao corrompê-los. Tal idéia faz a cabeça de muitas pessoas, que estão prontas para aporrinhar a vida das pessoas de bem. Elas justificam todos os crimes e inocentam os criminosos. Tais idéias professores universitários inoculam na mente sugestionável dos alunos. Os professores, ou são bichos peçonhentos, ou desmiolados, que não têm a mínima idéia das idéias que inoculam no espírito dos seus alunos. Se eles justificam os crimes, fazem das vítimas culpados, e dos culpados vítimas… São vigaristas! É com espírito de transgressão que eles querem reformular o mundo, para melhorá-lo, dizem. Mas o pioram. Os universitários são bombardeados com idéias prejudiciais à sociedade. Um professor chantageia as alunas, e ninguém o denuncia porque a sociedade já está corrompida. Se há alunas que se calam, e a Jennifer se calou, embora não tenha aceitado a chantagem; se há alunas que aceitam a chantagem, pensando nas vantagens que terão, é porque a sociedade já está corrompida. Muitas alunas saem de uma cidade, lá do cafundó do Judas, e vão, sozinhas, para uma universidade situada lá onde Judas perdeu as botas, conhecem pessoas que nunca viram mais gordas, expõem-se às tentações, e não têm uma pessoa da família, ou um amigo, para quem possam confiar os seus pensamentos e de quem possam receber orientações. E com uma decisão impensada caem no fundo do poço. Vivem à mercê de outras pessoas, e têm de arcar com as conseqüências. Nem todos os professores são ruins, sei. O Dálton terá de prestar muita atenção ao comportamento da Marta, que poderá vir a ser vítima de um professor canalha, ou, até, de alunos canalhas. Dálton, tu sabes o que acontece nas festas que os universitários promovem? A Camila e a Samantha, filhas da Beatriz, disseram-me que os alunos… Pergunto: Os universitários frequentam as bibliotecas da universidade e as livrarias, ou os bares e as bocas de fumo? Se pensaram em bibliotecas e livrarias, erraram redondamente. Eles não lêem livros. Muitos deles os professores os acompanham nas aventuras alucinógenas. A Marta poderá vir a ser vítima desse tipo de gente. Os universitários, longe das famílias, consideram-se donos do poder. Sem uma autoridade moral para contê-los, perdem-se. Muitos deles, sem a renovação das lições morais que receberam, em casa, de seus pais, e com repetidas lições recheadas de idéias contrárias às quais foram educados, acabam por abandonar as idéias que lhes freavam os instintos auto-destrutivos, e se destróem e destróem outras pessoas. Sei que a Marta não irá para uma cidade longe e que ela irá morar na casa dos pais dela; todavia, ela irá às aulas na casa de amigos e às festas. Os universitários não têm escrúpulos e têm muitos estímulos para a transgressão e a auto-destruição. Os professores não ensinam o respeito ao próximo e à moral cristã. Dálton, tu achas que o cristianismo é bem-visto em uma universidade brasileira? A Samantha disse-me que uma amiga dela, católica, certa vez, lia, no pátio da faculdade, a Bíblia. Ridicularizaram-na os alunos. Dela zombando, perguntaram-lhe porque ela se interessava por aquelas histórias do arco-da-velha e disseram-lhe que ela era muito tola por acreditar que Adão e Eva, e Noé, e Sansão existiram. Ela ignorou-os, e pôs-se a ler a Bíblia. Intransigentes, embora se apresentassem como tolerantes, abertos às idéias diferentes, eles lhe disseram que não perdiam tempo lendo a Bíblia. Um deles disse-lhe: “Nunca li este livro, e nunca irei lê-lo. Não perderei o meu tempo com baboseiras de antigos povos analfabetos e supersticiosos.”, orgulhoso do seu desprezo pela Bíblia e por outros livros sagrados. Muitos alunos ouvem, nas salas de aula, dos professores, as idéias moderninhas, e arrotam sabedoria que não possuem. Imaginem o que há na cabeça dos universitários! Preconceitos. E eles ousam se apresentar como tolerantes e respeitáveis. As universidades são fábricas de imoralidades. Dálton, tu tens de amar a Marta, e acompanhá-la, sempre. Atente para o comportamento dela, ou irás perdê-la.

– A tua visão de mundo é injustificadamente pessimista – admoestou-a Marco Antonio, num misto de reprovação e incredulidade.

– Não é pessimista – retrucou Luiza, alterada. – Nas universidades brasileiras, o ataque aos valores universais tradicionais são intensos; e os universitários, muitos deles distantes de pai e mãe, tornam-se presas fáceis de professores vigaristas, que, defensores de ideais revolucionários, e sonhando com a destruição da civilização, os deformam ao incutir-lhes falsas idéias, ensinar-lhes a transgredirem a moral cristã, a desprezarem mãe e pai e avós, a cuspirem no prato que comem. E os alunos levianos intimidam os alunos educados, a ponto de persuadi-los a renegarem os valores que defendem e a praticarem atos reprováveis. A Samantha não foi a única pessoa que me disse isso. E a Jennifer não foi a única aluna chantageada por um professor.

A conversa prolongou-se até o almoço. Luiza realçou o seu ponto de vista. Contestou-a Marco Antonio. Ao divergir de ambos, Vanessa declarou que, com uma fusão dos dois pontos de vista, obter-se-ia uma idéia exata do que se dá nas universidades.

Dálton ouviu-os, atentamente, pensativo.

Luiza e Marco Antonio, e Vanessa e Jéssica ficaram para o almoço. Estas, após o almoço, pediram a Dálton que as levasse à casa da Marta. Lá, conversaram, animadamente. À noite, participaram da conversa Lucrécia e Floriano. Às vinte e uma horas, Jéssica, Vanessa, Dálton e Marta foram em visita a outros familiares.

Três dias depois, Luiza, Marco Antonio e suas filhas regressaram a Belo Horizonte.

Transcorreram-se os dias. O namoro de Dálton e Marta, entremeado de rusgas passageiras, prosseguia alvissareiro. Ciúme espicaçava-os em certas ocasiões – nada que os arremessasse um contra o outro a ponto de eles romperem o namoro. Sempre que desentendimentos esfriavam o relacionamento, eles se continham, e, para evitar discussões estéreis, pensavam nas palavras que diriam um para o outro. Sabiam como se portar ao ouvirem comentários de maledicentes, desafetos e invejosos. Chegaram-lhes aos ouvidos boatos cujas origens não ignoravam.

Floriano e Lucrécia convenceram Marta a trabalhar no escritório deles. Ela relutara; no início, dissera-lhes preferir trabalhar em outro escritório, mas os argumentos que deles ouvira a dissuadiram de seu propósito original.

No primeiro dia de aula, Marta foi à faculdade; acompanharam-na Dálton, e Roberta, sua amiga, e Ricardo, namorado de Roberta. Ao final das aulas, às vinte e três horas, Dálton e Ricardo, no carro deste, foram à faculdade buscar Marta e Roberta. No trajeto, de quase trinta quilômetros, da faculdade até a casa de Marta, Marta falou da sua apreensão nos minutos que precederam o início das aulas e teceu comentários sobre as impressões que os professores lhe provocaram, em particular Basílio, que, dos cinco professores, foi aquele que revelava melhor domínio do assunto que ensinava e o único que exibia postura adequada ao ofício, e, entendia ela, o mais inteligente deles. Dos outros quatro, ela fez breves comentários, apresentando, deles, mais aspectos negativos do que positivos.

Chegando à casa de Marta, Marta e Dálton desceram do carro. À frente do portão, ele a enlaçou, ela visivelmente exausta, pela cintura, e beijou-a. Pouco tempo depois, despediram-se. Marta despediu-se de Roberta e de Ricardo, e entrou na sua casa. Dálton regressou ao carro. Ricardo rumou à casa de Dálton. Lá chegando, este despediu-se dele e de Roberta, e retirou-se do carro. E Ricardo e Roberta foram à casa dela, diante da qual, no interior do carro, beijaram-se durante longos minutos, até que ela se retirou do carro. Ricardo observou-a abrir o portão da casa e entrar para a varanda. Assim que ela o fitou, e mandou-lhe um beijo, e foi para a porta que dá acesso à casa, ele girou a chave na ignição, deu a partida, pisou no acelerador, e chegou na sua casa quatro minutos depois.

Transcorreram-se os dias.

Habituada ao ambiente universitário, Marta estabeleceu amizade com vários alunos, criando relacionamento mais estreito com Mariana, Andréia, Denise, Tábata, André, Murilo e Nilton. Com eles possuía afinidades de formação familiar, intelectual, e de interesses e objetivos. Eram alunos aplicados, que conservavam certo distanciamento dos alunos relapsos, que iam à faculdade para farrear e tinham, como único interesse, obter o diploma ao final do quinto ano. Marta não precisou de muito tempo para identificar os alunos descompromissados com o estudo. Eles eram barulhentos, tagarelas e levianos. Com eles não estreitou laços de amizade, conquanto alguns fossem extrovertidos e com eles ela adorasse conversar.

Dois de seus condiscípulos, Carlos Roberto e Wesley, não tinham o hábito de freqüentar as aulas; quando freqüentavam uma aula, conversavam, no fundo da sala, desinteressados do que o professor explicava. Certa vez, eles, fleumáticos e ansiosos, ocultando os seus desejos inconfessados, proferindo, com correção, as palavras, o que lhes era incomum, abordaram Denise, Tábata, Murilo, André e Marta – e destes não passou despercebido o esforço que eles faziam para emprestar à voz um tom de dissimulado respeito -, e pediram-lhes, solícitos, que incluíssem seus nomes no cabeçalho de um trabalho. Denise disse-lhes que não incluiria os nomes dos dois no trabalho porque, se o fizesse, seria desrespeitosa consigo e com os outros alunos que participaram do trabalho, pois, se lhos incluísse, eles, Wesley e Carlos Roberto, receberiam notas por um trabalho para o qual não deram nenhuma contribuição. Wesley, secundado por Carlos Roberto, prometeu-lhe, com voz melíflua, sorriso cativante, incluir o nome dela num trabalho que fizessem, se, por algum motivo, ela não pudesse fazê-lo. Ela rejeitou a proposta, com veemência, reprovando-os, com argumentos irreplicáveis, e não lhes franqueou espaço para que, posteriormente, em qualquer outro dia, eles lhe solicitassem outro favor, pois a resposta que dela ouviriam seria a mesma:

– Não incluirei o teu nome e nem o teu – disse, dirigindo-se a Wesley e Carlos Roberto – neste trabalho – e exibiu-lhos. – E eu jamais pedirei a vocês a inclusão do meu nome no trabalho que vocês fizerem, se fizerem algum. Se vocês não aprenderam as primeiras lições, como aprenderão as lições posteriores, que, compreende-se, serão mais complexas, e, para a sua realização, será indispensável o conhecimento das primeiras lições, as quais vocês não assimilaram? Eu faço os meus trabalhos, e quero reconhecimento pelo meu esforço, e não pelo esforço alheio. Somos gratos pelos elogios que vocês nos fizeram, mas, saibam, não iremos incluir o teu nome e o teu nome – e apontou para Wesley e Carlos Roberto – neste trabalho – e lhos exibiu.

Wesley fez esgares de zombaria, desdenhoso, e Carlos Roberto, mais contido, mas não menos desdenhoso, exibiu sorriso escarninho. E ambos afastaram-se, despeitados, rilhando os dentes.

Os dois notabilizar-se-iam, no decurso do ano letivo, como os alunos mais irresponsáveis e descompromissados daquela sala-de-aula.

Convidada para a festa de aniversário de Mariana, Marta, antes de dizer para Mariana se iria, ou não, à festa, consultou Dálton. A conversa não se desenrolou como ela desejava. Não logrou convencer Dálton, que lhe disse que teria de trabalhar, naquele sábado, à noite, a deixá-la ir à festa. Essa foi a primeira discussão séria que eles travaram. Marta disse, escandindo as palavras, que iria à casa da Mariana, pessoa que ele conhecia, e salientou: a festa não se daria nem numa discoteca, nem num clube, e nem se prolongaria pela noite adentro porque Mariana iria, domingo, às cinco da manhã, com Walter, o seu namorado, Valéria, sua irmã, e Renata e Larissa, primas de Walter, a Ubatuba. Dálton, irredutível, disse-lhe que ela não tinha a permissão dele para ir à festa.

– Não me dás permissão? – retrucou Marta, visivelmente irritada. – Tenho de pedir-te permissão para ir à festa de aniversário de uma amiga?

– Por que queres tanto ir à festa? – perguntou-lhe Dálton, de cenho franzido.

– Porque a Mariana é minha amiga.

– Essa é a única razão da sua vontade de ir à festa? O que tu não queres me dizer? O que não queres que eu saiba?

– Não acredito, Dálton. O que deu em ti? O que estás a pensar? Quero ir à festa de uma amiga. E quero que tu vás comigo, mas tu terás de trabalhar, e não poderás ir. Que mal há se eu ir sozinha à festa?

– Não irás.

– Eu irei à festa, Dálton.

– Não irás, não.

– Irei, sim. Irei. Tu não tens o direito de me proibir de ir à festa da Mariana.

– Sou o teu namorado.

– Eu sei. Irei à festa de aniversário da Mariana. Ela é minha amiga. Gosto muito dela, e irei à festa.

– Não irás, Marta.

– Dálton, pare.

– Tu nunca me trataste como me tratas agora. A faculdade não está fazendo bem para ti; está fazendo de ti outra pessoa.

– Não digas asneiras.

– Por que estás agindo assim?

– Assim como, santo Deus!? – e Marta riu.

– Tu debochas de mim.

– Não debocho de ti.

– Por que ris, então?

– Estás sendo ridículo, infantil. Estás com ciúme…

Dálton, com o punho direito cerrado, deu um soco na mesa. Marta removeu o sorriso do rosto, calou-se, fitou Dálton, que a encarava, os traços do rosto carregados, o olhar penetrante, as sobrancelhas arqueadas sobre os olhos, que estavam quase ocultos sob as pálpebras. Teve a impressão de que o ouvira bufar, rilhar os dentes e rosnar. Destacaram-se, intumescidos, os vasos sanguíneos do pescoço e os das têmporas dele. Marta pegou de sobre a mesa a sua carteira, a bolsa e os óculos pretos, e disse para Dálton que, depois, conversariam, beijou-o nos lábios, com a mão pousada no rosto dele, e anunciou a sua retirada da casa, e foi para a sua casa preparar-se para ir à casa da Mariana.

Quando se preparava para ir à empresa na qual trabalhava, Dálton telefonou para Marta, que lhe disse que iria à casa da Mariana. Dele Marta ouviu silêncio opressivo. Imaginou ouvir-lhe a respiração acelerada, a expulsão, com força, do ar dos pulmões, o rilhar de dentes e o estralar de ossos dos dedos. Ele desligou o telefone. Ela, pensativa, com o telefone celular na mão, perguntou-se se tomara a decisão correta ao confrontá-lo. Discou o número do telefone celular dele. A ligação caiu na caixa postal. Marta não deixou nenhuma mensagem. Iria discar-lhe novamente quando a campainha soou. Guardou o telefone celular na bolsa, e foi atender à porta. Era Denise, que a levaria à casa da Mariana. No caminho – trajeto de vinte quilômetros -, Marta discou três vezes para Dálton – e três vezes a ligação caiu na caixa postal. A preocupação, que lhe transparecia na fisionomia, não passou despercebida de Denise, que lhe fez observações e perguntas a respeito; Marta desconversou.

No dia seguinte, de manhã, Dálton foi à casa de Marta, que, sonolenta, o atendeu. Não a saudou com um beijo nos lábios, como de hábito. Antes que ela lhe dissesse qualquer coisa, exigiu-lhe, contendo-se, para não a ofender, explicações sobre a conduta dela na véspera. Fitava-a com olhar severo. Ela hesitou, ao vê-lo tenso. E tentou, em vão, acalmá-lo. Ao se convencer de que as suas tentativas de acalmá-lo exacerbavam-lhe os ânimos, contou-lhe, com pormenores, o que se dera na casa de Mariana. Ele a ouviu, atentamente; ao final da narrativa, contendo-se, tenso ainda, mas não tão tenso como estava ao chegar, disse-lhe, com voz contida, que contrastava com a sua fisionomia carregada, que iria embora. Ela se lhe aproximou, e, tímida, dir-se-ia cautelosa, beijo-lhe os lábios e acariciou-lhe os cabelos. Pouco tempo depois, ele dela se despediu, e foi-se embora.

Nas duas semanas seguintes, Dálton e Marta não falaram da festa de aniversário de Mariana. Ele conservou-se reservado. Ela aludiu-lhe à atitude dele – não foi direta, para não lhe ferir suscetibilidades. Se entendeu as alusões, e é certo que as entendeu, ele deu a entender que não as entendeu, e tratou de outros assuntos. Dias depois, uma loja de aparelhos eletrônicos contratou-o, comprometendo-se a remunerá-lo com um salário mínimo e meio por mês. E em poucos meses, ele se tornou um vendedor bem-sucedido; e de alguns vendedores ganhou a hostilidade; de outros a amizade, o respeito e a admiração.

Declaração de Amor – parte 1 de 5

Dálton era o segundo filho de Ulisses, engenheiro eletrônico, e Vilma Helena, médica veterinária, e irmão de Claudionor.

Claudionor, o primogênito, era tímido; com Dálton formava contraste, que de ninguém passava despercebido. Dálton era enérgico, agitado, agressivo. Ulisses e Vilma Helena diziam, sorrindo, que ele era uma fera selvagem, e que o domariam; se não o domassem, ele se converteria num ditador. Dálton foi um garoto espevitado. Os avós o alcunharam Espalha-brasa. Algumas pessoas diziam que ele era um diabinho; outras, que ele era um anjinho. Ele se intrometia nas conversas dos adultos, sendo, com freqüência constrangedora, inconveniente. Claudionor, pacato, susceptível às boas lições, embora contestasse a autoridade materna e a paterna, punha em prática as lições que seus pais lhe ministravam, nem sempre da maneira adequada. Aos dezoito anos, ingressou na faculdade de física. Alguns familiares e amigos íntimos da família anteviam o cientista que ele viria a ser. Dálton, em contrapartida, não possuía para os estudos paciência equivalente à de Claudionor; era, no entanto, dotado de raciocínio lógico incomum e agudeza intelectual penetrante. Antes dos dez anos, ele era enxadrista exemplar. Não era aplicado nos estudos, como o era seu irmão, mas, ao se dedicar a alguma atividade (um jogo de xadrez, uma questão de lógica, um jogo de vôlei), deixava-se por ela absorver, nenhuma resistência lhe fazendo, não procurava subterfúgios para dela se afastar. Enquanto não pronunciasse o xeque-mate; enquanto não deslindasse o problema de lógica; enquanto não encerrasse o jogo de vôlei, nenhum ruído atraía-lhe a atenção. Desconsiderando-se estes momentos, que não eram raros, ocupava o seu tempo livre – que não era muito, pois tinha de estudar com professores particulares orientados por Ulisses e Vilma Helena, que os cientificavam do gênio difícil de Dálton – com gibis de super-heróis, videogames e desenhos animados. Em seus anos de juventude envolveu-se em não poucas brigas. Um dos seus desafetos, Rodolfo, era o alvo predileto das suas chacotas. Brigaram os dois em inúmeras ocasiões. Travaram embates ferozes. Anos depois, os amigos de Dálton, ao evocarem uma das inúmeras brigas que os dois protagonizaram, referiam-se à ela como a Luta do Século, que rendera a suspensão deles da escola, por cinco dias. Tal briga, evento grandioso, testemunhado por uma multidão de jovens eufóricos, desenrolou-se no pátio da escola, durante o intervalo, sob olhares de professores, estarrecidos, e de alunos, admirados, estes ávidos por sangue, ossos fraturados e cabeças esmigalhadas. Dálton nocauteou Rodolfo, que prometeu vingar-se dele. Três dias depois, Rodolfo e Dálton, na quadra de esportes de um clube, sob olhares de jovens, que os atiçavam com frases bombásticas e punhos cerrados, travaram uma luta encarniçada. Dois seguranças do clube, vaiados pela multidão, os apartaram quando Rodolfo, escanchado sobre Dálton – que, caído no chão, protegia-se, como podia, e mal podia proteger-se, com os braços e os antebraços, aparando alguns golpes e esquivando-se de outros -, na cabeça dele encaixava uma saraivada de socos. Ao encerramento da luta, Dálton carregava o nariz quebrado e o olho esquerdo roxo, e Rodolfo, que estava em melhores condições do que ele, os olhos roxos e um ferimento na sobrancelha esquerda.

Dálton travava brigas homéricas com os seus desafetos e os seus rivais por motivos os mais banais. O olhar enviesado, o de indiferença, e um comentário sarcástico, sem ser depreciativo, produziam-lhe reação violenta inexplicável. As abruptas oscilações do seu humor alteravam-lhe, consideravelmente, o comportamento, e os amigos e os familiares, perplexos, preocupavam-se com o bem-estar físico e mental dele; alguns dentre eles preconizavam-lhe contratempos incontornáveis decorrentes dos seus repentinos acessos de cólera. A sua conduta, instável e violenta, exacerbava-se com o transcurso dos anos, revelando-se ele mais irritadiço e mais suscetível a qualquer ninharia, sempre que contrariado. E Ulisses e Vilma Helena afligiam-se; e Claudionor criou-lhe desafeição ao romper o estreito vínculo fraternal que havia, entre eles, durante a infância.

Dálton, enfim, chegou à maioridade.

Na festa de aniversário de Luciana, irmã de Cláudio, seu amigo, e na companhia deste, passou por Marta, e olhou por sobre o ombro direito; e seus olhos encontraram os dela. Encantou-o aquela figura miúda, sorridente, de cabelos compridos, pretos; e ela encantou-se com aquele homem de porte avantajado, másculo, de queixo quadrado e sobrancelhas espessas caídas sobre os olhos – olhos de homem misterioso, disse ela às amigas. Minutos depois, por insistência de Dálton, Cláudio apresentou-o para Marta e Marta para ele, e afastou-se deles, deixando-os à vontade. No início um pouco acanhados e um tanto atrevidos, Dálton e Marta sorriram, entreolharam-se, e entabularam conversa; no desejo de evitarem deslizes, calculavam as palavras. Dálton preocupava-se com o timbre de sua voz e com a sua postura; Marta perguntava-se se não se exibia com vulgaridade. No desejo de não trocar os pés pelas mãos, ele evitou perguntas indiscretas. Discreta, ela, para extrair-lhe as informações desejadas, lançou mão de alguns expedientes; depois, desembaraçada, tomou liberdade de lhe fazer perguntas ambíguas e contar-lhe anedotas. Certo de que não a desagradava, ele se livrou da corrente que o impedia de fazer a ela perguntas ousadas. Ao notarem que não encontraram um no outro rejeição e que os olhares e os sorrisos lhes eram um pelo outro retribuídos, desembaraçaram-se da timidez inicial, e assumiram, sem receios, postura atrevida, com direito a insinuações maliciosas. A conversa ia alegre, divertida. Tinham eles apenas olhos um para o outro, e o que ocorria ao redor eles ignoravam; viviam num mundo à parte, numa dimensão em que havia apenas duas pessoas: Dálton e Marta. Estavam mergulhados, em espírito, um no outro, sorriso imarcescível nos rostos, quando atraiu a atenção de Dálton a voz de Cláudio; este lhe acenou, e, um sorriso cúmplice no rosto, com mímica que apenas Dálton podia compreender, foi até o rádio, do qual, segundos depois, ouviu-se música romântica. E Dálton atraiu Marta, e enlaçou-a pela cintura. E dançaram, ela com as mãos suavemente pousadas nos ombros dele e a cabeça ao tórax dele. Atraíram a atenção dos convidados – não foram raros aqueles que preconizaram o enlace matrimonial, e tampouco os que, conhecedores do temperamento atrabiliário de Dálton, considerando as diferenças de temperamento dele e de Marta, declararam que eles nenhuma afinidade possuíam, e, conquanto alvissareiro o preâmbulo, o namoro deles estava fadado ao fracasso. Entre estes profetas, havia os que desejavam Marta. Alguns dentre eles a haviam abordado com propostas de namoro, outros para ela se insinuaram; mal-sucedidos, não apreciaram vê-la dançando com Dálton; despeitados, apresentaram, maledicentes, comentários maldosos a respeito de Dálton e de Marta, com a finalidade de impedi-los de principiarem o namoro. Foram mal-sucedidos. Marta e Dálton entenderam-se, e muito bem, durante a festa, como se nascidos um para o outro fossem; encerrada a festa, despediram-se da aniversariante, dos familiares e amigos dela, os remanescentes, que correspondiam a uma reduzida parcela dos convidados que haviam comparecido à casa de Luciana, e, juntos, foram-se embora. Dálton acompanhou-a até a casa dela, distante uns duzentos metros da casa de Luciana. E no trajeto eles conversaram, e sorriram. À frente da casa, Dálton atraiu Marta para si, estreitou-a em seus braços, cerrou as pálpebras, e uniu seus lábios aos dela. Ao despedirem-se, às duas horas da madrugada, segurando um as mãos do outro, fitaram-se, sorriram, aproximaram os lábios um dos do outro, e beijaram-se uma vez mais. Minutos depois, Marta abriu a porta, entrou à varanda, e fechou a porta atrás de si. Na varanda, a chave à fechadura, abriu a porta que dava acesso à casa ao mesmo tempo que assoprou um beijo para Dálton, e deu o primeiro passo para dentro da casa. Dálton, sorrindo, acenou-lhe com a mão esquerda. Marta, assim que passou pelo enquadramento da porta, curvou-se para trás, exibindo apenas a cabeça para Dálton, e, com a mão direita aberta, a palma para cima, os dedos unidos, enviou-lhe um beijo, sorriu, e deu-lhe tchau, dançando os dedos da mão direita, entrou na sala, e fechou a porta atrás de si. E Dálton, sorrindo de uma orelha à outra, seguiu para a sua casa. Não havia percorrido a metade do trajeto, encontrou-se com Eduardo e Joilson, que o convidaram para ir a uma discoteca. Recusou o convite; alegou cansaço. Eles insistiram; e ele, irredutível, renovou a recusa. E Joilson ofereceu-lhe carona; e ele a aceitou. Na sua casa, Dálton deitou-se, na cama, e não precisou nem de um minuto para conciliar o sono.

Na manhã seguinte, ao café-da-manhã, Lucrécia disse para Marta, sua filha, que, através da janela da sala, a vira beijando, apaixonadamente, um rapaz alto, espadaúdo e bonito.

– Mãe, tu me espionastes? Trabalhas para a CIA, ou para a KGB?

– Trabalho para a Duarte Investigações Secretas – respondeu-lhe Lucrécia, ao mesmo tempo que lhe apertou a bochecha -, a melhor agência de espionagem do mundo. A CIA é um desastre. Leste aquele livro, cujo título esqueci, sobre a CIA? Falha-me a memória.

– Tu precisas de fosfato.

– De ômega 3. Fosfato é personagem de história da carochinha. Ultimamente, a minha memória tem me deixado em apuros, com freqüência preocupante. Necessito, urgente, de ômega 3 e boas noites de sono. De dois meses para cá, mal dormi. Mas não mudemos de assunto. Qual é o nome do bonitão?

– Dálton.

– Tu estás lacônica. Não tens informações importantes para dar-me? Se não mas oferecer, eu as extrairei de ti. Aplicarei métodos inusuais e ortodoxos. Não te esqueças: sou espiã da Duarte Investigações Secretas. Saibas, queridinha, que tortura não está fora de cogitação. Imersão da cabeça numa bacia de água fria é um método que dá os resultados desejados, tu sabes.

– Mãe, tu és tão cruel. Denunciar-te-ei ao Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.

– Este território não está sob jurisdição de tal tribunal.

A conversa prolongou-se por duas horas durante as quais Marta disse à sua mãe que conhecera Dálton na festa de aniversário de Luciana, e que fôra amor à primeira vista, e perdeu-se em elogios a ele, moço forte, inteligente, bonito, educado, elegante, charmoso, espirituoso, estudioso, trabalhador. Resumindo: um homem perfeito. Lucrécia reprovou-lhe o ânimo exaltado, pediu-lhe ponderação, e disse-lhe que não se deixasse levar pelas primeiras impressões e pelas aparências. Marta disse-lhe que as primeiras impressões são as que ficam, e ela completou:

– Até que as segundas impressões as apaguem.

Naquele mesmo dia, ao anoitecer, Dálton foi à casa de Marta. Marta apresentou-o para seu pai, Floriano, para sua mãe, para sua irmã, Nair, e para seu irmão, Lucas. Advogados, Floriano e Lucrécia, ele, civil, ela, trabalhista, falaram, durante a conversa, de alguns casos que se popularizaram no Brasil e no exterior, aludiram ao corporativismo dos advogados, e disseram que desejavam, um dia, vir as pessoas que exerceriam a advocacia – e apontaram para Marta, que prestaria o exame vestibular no final do ano – usufruir da liberdade, atualmente inexistente, de se associarem à corporação jurídica que desejassem. Ignorante da questão, intrigado, Dálton revelou-lhes o seu desconhecimento da ausência de liberdade de associação dos advogados, e pediu-lhes esclarecimentos a respeito. Eles o ciceronearam através da história do Brasil, desde o império, para ilustrar os exemplos que apresentavam e iluminar a questão, para que ele compreendesse as razões de haver, no Brasil, instituições burocráticas nefastas, malsãs. Dálton ouviu-os atentamente. A conversa prosseguiu, após o jantar, na sala-de-visitas, até às vinte e três horas. Trataram de política, da nacional e da municipal, de eventos, sucedidos em outros países, de repercussão e envergadura planetárias: a crise econômica mundial, catástrofes naturais, a guerra no Iraque e no Afeganistão, as escaramuças entre os Estados Unidos e a Rússia. E não negligenciaram trivialidades. E falaram de esportes, filmes e novelas.

Dálton e Marta despediram-se de Floriano e Lucrécia, e de Lucas e Nair, e foram à casa de Luciana. Minutos depois, à casa de Luciana chegaram Patrícia e Roberto. E não muito tempo depois, de carro, Roberto ao volante, foram os cinco à discoteca. Divertiram-se até às três horas da madrugada.

Sucederam-se os dias. O namoro de Dálton e Marta, entrecortado de rusgas passageiras, era alvissareiro. De Ulisses, Vilma Helena e Claudionor não passaram despercebidas – e tampouco de familiares e amigos da família e amigos de Dálton – as significativas mudanças do comportamento de Dálton. Diziam, jocosos, que Marta, com a sua candura, pusera na linha aquele moço buliçoso, briguento, de sangue quente e pavio curto. O relacionamento de Dálton e Claudionor melhorou; todavia, este receava com aquele manter amizade, a qual não nutria, pois suspeitava que ele lhe ocultava as verdadeiras intenções. Os sorrisos cativantes de Dálton e a voz macia dele no trato com Claudionor não eliminaram, deste, os resquícios de desconfiança, que lhe persistiam incrustados no íntimo; não podia Claudionor, conquanto o desejasse, suprimir da sua memória as injúrias que seu irmão lhe cuspira inúmeras vezes, e criar um vínculo de amor fraternal com ele.

– Não está longe o dia em que irão ao altar, na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso – comentou Vilma Helena, referindo-se a Dálton e Marta, certa ocasião, fitando Ulisses com o canto dos olhos.

Em um domingo, durante conversa, no almoço, na casa de Ulisses e Vilma Helena, reuniram-se Ulisses, Vilma Helena, Dálton, Marta, Claudionor, Floriano, Lucrécia, Nair, Lucas, Roberto, irmão de Vilma Helena, e Neusa, esposa de Roberto.

À mesa, Roberto, segurando um copo com cerveja, disse, fitando Dálton:

– Olhe para mim, Dálton – e chamou a atenção dos comensais para si. – Atente para o que te direi: Um conselho de tio, de homem experiente, que, embora experiente, caiu na esparrela de uma mulher cheia de artimanhas: Casei-me. Ouça-me, atentamente, o que tenho para te dizer: não estragues a tua vida. Antes de casar-me com a tua tia – e apontou para Neusa -, eu era esbelto, tinha cabelos, não tinha rugas, nem olheiras, tampouco pés-de-galinha. Agora… olhe para mim, meu querido sobrinho, olhe atentamente. Responda-me: Como estou? Minha barriga parece a de mulher grávida de nove meses; minha cabeça está depenada. Restam-me, na cabeça, se muito, cinquenta fios de cabelos. Conte-os. Tu não precisarás nem de um minuto para contá-los. E os pés-de-galinha! São enormes. Não são de garnisé. São de… Não são de galinhas; são de avestruzes. Cruzes! E as rugas! Do tamanho do Kilimanjaro. Eu era bonitão, Dálton. Agora, tu me vês, estou um bagaço. Casei-me com a tua tia, e a minha vida desandou.

Durante o discurso, Neusa, de cenho franzido, fitava Roberto; assim que ele deu por encerrada a explanação, antecipou-se à Marta, que, ao afastar da boca o copo de vidro com refrigerante, preparava-se para falar, e disse, num misto de seriedade e humor, apontando o dedo para Roberto e a curtos intervalos olhando para todos os presentes:

– Roberto, tu não queres admitir que estás ficando velho. O tempo está passando, e a cada dia que passa maior fica a tua calvície, a tua barriga e os teus pés-de-galinha. E não falei das olheiras. Tu estás velho, Roberto, e gagá. Estás enrugado, calvo e barrigudo. Eu sempre te disse para parar de beber cerveja. Mas tu, cabeça-dura, nunca me deste ouvidos, e agora estás com essa barriga monstruosa. Dálton, não dês ouvidos para o teu tio. Ele está velho, sempre conta uma história absurda e distorce a realidade para atribuir ao casamento a decadência dele. O casamento, posso dizer, impediu que ele se reduzisse a um caco. Ele só não é uma múmia ambulante porque eu o impedi de fazer muitas besteiras. Sigas o conselho de tua tia, Dálton: não sigas o conselho do teu tio. Pergunte para tua mãe o que teu tio fazia na juventude. Ele era destrambelhado, desmiolado, vivia às turras com teus avós, envolvia-se nas confusões do Diabo. Teu avô sempre disse que teu tio não morreu por milagre. O santo da família é muito forte, saiba. Um herói. Um Hércules. Um Sansão. O anjo da guarda de teu tio, Dálton, tem a paciência de Jó, é onipresente, e nunca tirou férias. Se ele movesse um processo trabalhista contra teu tio, ganharia em primeira instância, e teu tio, além de ter pagar-lhe uma nota preta, seria trancafiado no xadrez, e veria o sol quadriculado durante um século.

Todos gargalharam e teceram comentários zombeteiros.

– Teu tio tem miolo mole – comentou Neusa, em certo momento da conversa, dirigindo-se a Dálton. – Tua namorada é linda, fofa, e, estou certa, será uma ótima esposa para ti. Casa-te com ela, e sejas-lhe um ótimo marido. Vós sois bonitos, jovens e saudáveis. Sigas o meu conselho: casa-te com essa moça linda – foi até Marta, segurou-lhe a cabeça, com ambas as mãos, e beijou-lhe o rosto esquerdo. – A pele dela é macia – e apertou-lhe a bochecha. – Veja! Que linda! Ficou ruborizada. Que fofa! O meu sexto sentido e a minha intuição feminina dizem que vós nascestes um para o outro. Sois almas gêmeas. Sereis um casal perfeito; e tereis lindos filhos. E comemoraremos as vossas bodas de ouro. Sois lindos. Esqueças o que teu tio te disse, Dálton. Ele põe minhoca na cabeça de todo mundo, o velho desmiolado de cérebro recheado de caraminholas. Ele é um velho cabeça dura que não quer reconhecer que está velho. Perdeu um parafuso da cabeça, o mentecapto. Está para aquele velho andaluz, espanhol, sei lá eu, que, acompanhado de um gordinho estúpido, percorre a Catalunha em suas aventuras sem pé nem cabeça – e todos gargalharam, mas Neusa não se deu conta da razão da graça, em especial do sorriso aberto de Ulisses, Vilma Helena, Dálton e Claudionor. – Conheceis a história dos dois aventureiros, um magricela escanifrado e um gordinho barrigudo, ambos montados em pangarés, que, Deus me livre, não agüentam nem com o peso dos próprios ossos. Dálton, teu tio, meu marido, homem que livrei do inferno, está… Vou… Vou vos revelar um segredo – e achegou-se a Dálton e Marta, atraindo-os para si, até aproximar as três cabeças, conservando-as uma distante da outra não mais do que vinte centímetros, e disse, como se sussurrasse, mas para todas as pessoas à mesa ouvi-la, em tom de confidência: – Teu tio já chegou à menopausa. – Todos dobraram-se de rir. E sucederam-se comentários jocosos e provocações.

Transcorreram-se os dias, as semanas, os meses.

Certo dia, em dezembro, Marta prestou exame vestibular para o curso de advocacia. Classificou-se. À festa de comemoração, num domingo, a partir do almoço, até às vinte e duas horas, na sua casa, compareceram familiares e amigos. Após o encerramento da festa, Dálton, Marta, amigos e primos foram à uma lanchonete; depois, à uma discoteca, da qual retiraram-se às quatro horas da madrugada.

No início do ano seguinte, Marta e Dálton foram à faculdade de Direito. Marta não cabia em si de contentamento, embora receasse a abordagem de alunos veteranos, que poderiam vir a submetê-la a brincadeiras grosseiras, constrangedoras. Para inibi-los, acolhera uma sugestão de Camila, sua prima, que lhe dissera que usasse trajes que lhe conferissem elegância, dignidade, e lhe emprestassem a figura de uma profissional respeitável. O porte de Marta era o de uma ministra do Supremo Tribunal Federal, brincou Lucrécia ao vê-la retirando-se de casa. O dia transcorreu sem contratempos. Alunos veteranos abordaram Marta e Dálton, e ameaçaram submetê-la a brincadeiras constrangedoras. Ríspida, interpretando, com desenvoltura, o papel de uma autoridade, ela lhes disse que retirara-se, uma hora antes, do escritório de advocacia no qual trabalhava, ao qual regressaria assim que se matriculasse na faculdade. Os alunos veteranos pouparam-na de constrangimentos, e abordaram outros calouros, outros “bixos”; alguns, no entanto, insistiam em abordá-la; Dálton, todavia, dissuadiu-os de a obrigarem a submeter-se às agressões, as quais eles viam como brincadeiras inofensivas. Veteranos alvoroçados davam ordens para calouros, que, no cruzamento de duas ruas, abordavam motoristas de carros e solicitavam-lhes dinheiro; alguns motoristas entregavam-lhes moedas, e eles as entregavam aos veteranos, que, nos bares próximos, com elas compravam cerveja e, ou bebiam da cerveja, ou emborcavam a latinha, despejando a cerveja na cabeça de um calouro, ou mandavam um calouro abrir a boca e beber da cerveja que lhe era despejada. Incomodou Marta tal espetáculo degradante. Livres dos veteranos, ela e Dálton entraram no prédio da faculdade. Marta não precisou de muito tempo para preencher todos os formulários de matrícula. Agora era oficial: Marta era uma aluna da faculdade de Direito. Dali um pouco mais de um mês entraria na sala-de-aulas para assistir às primeiras aulas. Antes de irem-se embora, Dálton comentou:

– Nas proximidades da faculdade há quatro bares e nenhuma livraria. Interessante.

Nas férias que antecederam o início do ano letivo, de Minas Gerais foram, em visita aos familiares, Luiza, irmã de Vilma Helena, seu marido, Marco Antonio, suas filhas solteiras, Jéssica, de dezessete anos, e Vanessa, de dezesseis anos – Renato, seu filho, e Marcela, sua nora, permaneceram em Belo Horizonte, e suas filhas casadas, Madalena, a primogênita, e Márcia, e seus genros, Vicente e Josias, permaneceram, Madalena e Vicente, no Rio de Janeiro, e Márcia e Josias, em Fortaleza. Assim que chegaram à cidade, visitaram José e Francisca, pai e mãe de Luiza, em cuja casa encontraram, além deles, sua irmã e seu cunhado, Teresinha e Mateus, e as filhas deles, Joyce e Nicole, meninas de doze e onze anos de idade, respectivamente.

Luiza, extrovertida, estreitou, com abraços calorosos, a todos ao seu corpo robusto de mulher às portas dos sessenta anos; saudou-os com felicitações natalinas e de fim-de-ano, atrasados, ela dizia. Marco Antonio agiu com o desembaraço que lhe era habitual; anunciou a sua chegada em altos brados, e enveredou pelos cômodos da casa com a sem-cerimônia de quem a conhecia como conhecia as palmas das próprias mãos. José e Francisca os recepcionaram sem reservas. As conversas, animadas. Marco Antonio não contou poucas anedotas.

A musa inspiradora

O homem encapuzado atravessou dois prédios, e caiu sobre um carro, cujos vidros estilhaçaram-se e cujos pneus estouraram. Uma mulher de longos cabelos brancos presos com uma tiara dourada, embrulhada em um colante prateado reluzente, surgiu do céu, desceu sobre o carro, e estudou o corpo que ali caíra uma fração de segundo antes.

Dentre as pessoas que compunham a multidão, uma se destacou, fascinada com a beleza da mulher, e clamou, eufórica:

– A Mulher de Prata!

Ouviu-se um prolongado “Oooh” misto de admiração e espanto.

A Mulher de Prata inclinou-se para a frente, segurou, pelo pescoço, o homem encapuzado, ergueu-o como se erguesse uma folha de papel, manteve-o suspenso, elevou-se no ar, como se flutuasse, e, como um raio, desapareceu, deixando atrás de si um rastro de luz prateada.

Dispersou-se a multidão.

Na manhã seguinte, os principais jornais do país estamparam, na primeira página, a foto da estupenda Mulher de Prata.

*

O relato que se leu nas linhas anteriores é a síntese da cena final de uma história em quadrinhos de super-heróis, cujo autor – também o criador dos personagens, o roteirista e o desenhista – era um jovem de vinte anos, Josué Souza de Lima e Silva, apaixonado por histórias em quadrinhos, sendo as de super-heróis americanos as suas prediletas. Ambicioso, almejava criar os mais famosos super-heróis do Brasil. Não carecia de talento. E todos os que conheciam o seu trabalho anteviam-lhe uma carreira bem-sucedida.

Josué desenha desde os cinco anos. Cursou escolas de artes e estudou as obras dos célebres mestres da pintura; com mais dedicação, as de Michelângelo, Leonardo da Vinci, Goya e Caravaggio, os gênios que ele mais admirava. Idolatrava-os. Reverenciava-os.

Gosta de desenhar corpos humanos. Não se interessa pela pintura moderna, concentrada, segundo Josué, em figuras geométricas, cenários esvaecidos, e obcecada por manchas e borrões. Reproduziu, a partir de fotos publicadas em revistas de arte, as pinturas: de Botticelli, A Primavera e O Nascimento de Vênus; de da Vinci, a Dama do Arminho; de Tiziano, Vênus de Urbino; de Rubens, O Rapto das Filhas de Leucipo, As Três Graças, Diana e Suas Ninfas Surpreendidas pelos Sátiros; de Rembrandt, A Lição de Anatomia do Doutor Tulp; de Boucher, Diana Saindo do Banho; de Murillo, Menino Despiolhando-se; de Goya, Maja Desnuda; de Ingres, O Banho Turco; e dezenas de outras pinturas.

A partir de fotos, reproduziu, em desenhos, de vários ângulos, as esculturas que mais o encantam: Poseidon do Cabo Artemision; Discóbolo; Apolo Sauróctono; Suicídio de Gálata; As três Graças; O Bom Pastor; Davi (o de Michelângelo e o de Bernini); Pietá; Moisés; O Gênio da Vitória; O Rapto das Sabinas; O Gigante dos Apeninos; Persepo; Êxtase de Santa Teresa; Apolo e Dafne; O Rapto de Perséfone; Cupido e Psiquis.

As mulheres representadas por alguns dos gênios da pintura não desagradam Josué; embora não correspondam ao seu ideal de beleza feminina, servem de contrapeso ao ideal de beleza feminina difundido pelos estilistas e pela mídia. O rosto da Dama do Arminho encanta-o sobremaneira. Deslumbra-o. Fascinam-no o seu sorriso cativante e o seu olhar celestial, mais, até, do que o sorriso enigmático de Gioconda. Transportaram-no para além da matéria a moça sorridente de Os Felizes Azares do Balouço e as duas meninas angelicais de As Filhas do Pintor Caçando Uma Borboleta. O rosto da Conceição do Escorial, o mais encantador, mais belo de quantos Josué jamais presenciou, fá-lo transcender aos céus, a crer nos poderes celestiais, e confere-lhe paz de espírito. Josué recortou uma reprodução desse belíssimo quadro de Murillo, emoldurou-o, e conserva-o, à parede, no seu estúdio, diante de seus olhos, e admira-o, todos os dias. Tal quadro tem o poder de inspirar-lhe belas personagens e histórias fascinantes.

O ideal de beleza feminina de Josué é um composto do rosto da Conceição do Escorial e do sorriso da Dama do Arminho. E o corpo? Os das mulheres de Goya, Ingres, Rubens, Honthorst, Tintoreto, Tiziano e Botticelli não correspondem ao seu ideal de beleza feminina, que não é o grego, nem o renascentista, tampouco o das passarelas dos desfiles de modas e o das capas de revistas e o das novelas e o do cinema.

Além de estudar os gênios da pintura, Josué estudou modelos vivos e os criativos traços de Will Eisner, Earl Norem, John Buscema, Neal Adams, Frank Cho, Milo Manara, Barry Windsor-Smith, Collonese, Alex Ross, John Byrne, Bryan Hitch, Hal Foster, Ivan Reis, Winsor McCay, Ed Benes e Serpieri. Possui vários gigabytes de memória com desenhos dos seus artistas e personagens prediletos.

Para criar a Mulher de Prata Josué buscou inspiração em modelos, atrizes, atletas e nas mulheres que conhece, mas nenhuma delas correspondeu ao seu ideal de beleza feminina. Das mulheres desenhadas pelos melhores desenhistas, Josué, para a concepção de Mulher de Prata, extraiu, das mulheres desenhadas por Manara, os lábios; das desenhadas por John Buscema, o busto; das desenhadas por John Byrne, as pernas; das desenhadas por Frank Cho, os quadris; das desenhadas por Collonese, os olhos; das desenhadas por Hitch, o nariz; das desenhadas por Ivan Reis, os cabelos. O conjunto, entretanto, não o agradou.

Josué acreditava que jamais encontraria uma mulher que correspondesse ao seu ideal de beleza feminina; para a sua surpresa, encontrou-a: Uma prodigiosa morena cor de jambo de pernas compridas, coxas firmes e busto bem feito. Atraído por tão extraordinária formosura, Josué andou na direção dela. Ela entrou em uma banca de jornais. Pouco depois, retirou-se, e passou por Josué, que andava em sua direção, e dele se afastou.

Josué desejava segui-la, queria falar-lhe, mas sua língua petrificou-se e seus pés enterraram-se no chão.

Recompôs-se assim que a lindíssima moça dobrou a esquina. Sua cabeça era um turbilhão caótico de pensamentos desordenados. Andou, lentamente, para a sua casa. Iria, no dia seguinte, andar pelas proximidades da banca de jornais, para, se a sorte o favorecesse, encontrar a  bela morena.

Em seu estúdio, eufórico, inspirado, concebeu dezenas de personagens para as suas estórias de super-heróis. Sem perceber, emprestou ao rosto da Mulher de Prata as feições da bela jovem que havia admirado.

Nos dias seguintes, caminhou pelas ruas próximas da qual encontrara a bela morena. Foi à banca comprar gibis. Assim que conquistou a simpatia da mulher que lá trabalha, perguntou-lhe da bela morena, mas ela não a conhecia.

*

Mulher de Prata, com uma rajada de energia cósmica, anulou o campo de força que protegia o Homem-Molécula, que, numa velocidade surpreendente, atacou-a pela retaguarda, e arremessou-a contra um prédio. Mulher de Prata atravessou-o, recompôs-se imediatamente e, antes que o Homem-Molécula percebesse o que se passava, envolveu-o em um estreito abraço, e disparou, pelas mãos, gás tóxico, que o pôs desacordado. Ato contínuo, conduziu-o à prisão especial para super-vilões, na ilha artificial AA-35 – na qual encarceraram em uma cela dotada de mecanismos que lhe anulavam os poderes -, e rumou para a sua casa. Pouco depois, desfazendo-se da vestimenta prateada e da tiara dourada, assumiu a sua identidade original, Karen Sylvia Rodrigues Lacerda, astrofísica de renome internacional.

*

Os leitores da revista Mulher de Prata notaram que Karen Sylvia Rodrigues Lacerda e Mulher de Prata, nas duas edições mais recentes de Mulher de Prata, foi representada com características físicas distintas das originais, e de Josué exigiram explicações a respeito. Por que o cabelo de Karen não é mais branco? Por que ela está um pouco menor? Por que ela está mais esbelta? Por que suas sobrancelhas estão mais finas e menos arqueadas? Por que seu pescoço está mais curto? Por que suas coxas estão mais grossas? Por que sua cintura está mais fina? Por que seus lábios estão mais carnudos? Por que as maçãs de seu rosto estão maiores? Por que seu rosto está mais arredondado? Por que seus pés e suas mãos estão menores? Por que seus quadris estão mais largos? Por que seus cabelos estão mais compridos? Por que suas nádegas estão maiores? Por que seus peitos estão menores e mais empinados? Os leitores não admitiram tergiversações. Josué teve de dar as devidas explicações. Ele percebeu que não era coincidência que a elevação das vendas do gibi Mulher de Prata dava-se na proporção com que Karen (Mulher de Prata) assumia as feições e o tipo físico da bela morena que o fascinara. Ao perceber isso, insistiu nas mudanças da figura da personagem, e tais mudanças mereciam uma explicação plausível. E ele a deu, nas aventuras, e agradou aos leitores; os mais exigentes não a engoliram – desconfiavam que havia outras razões, inconfessadas, por trás das rápidas mudanças no aspecto físico de Karen (Mulher de Prata).

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Durante uma batalha com a Rainha das Trevas – feiticeira demoníaca que assolava, havia dias, com seu poder hipnótico, a cidade de São Paulo -, Mulher de Prata, acometida de uma síncope, retirou-se de São Paulo, e voou, por duas horas, até o laboratório do doutor Abdul, localizado em Hyderabad, Índia. Assim que o doutor Abdul saudou-a “Karen, que prazer em revê-la.”, ela se lhe largou aos braços. O doutor Abdul conduziu-a, imediatamente, à câmara tonificante. Ao recompor-se, Karen dele ouviu as explicações concernentes à síncope que a acometera: Karen sofrera modificações em sua estrutura genética, decorrentes, suspeitava o doutor Abdul, de alterações, provocadas por raios cósmicos, na composição da atmosfera terrestre.

– Norrin Radd nunca enfrentou problemas similares – comentou Karen, bem-humorada.

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Mulher de Prata fazia mais sucesso à medida que Josué modificava-lhe a figura. A sua nova aparência agradou ao público masculino, que correspondia a noventa e cinco por cento dos leitores da revista.

Certo dia, Josué vislumbrou a bela morena, em meio à multidão, na praça Central. Acelerou os passos. Controlando a ansiedade, que o avassalava, perguntou-lhe o nome: Jussara. Dias depois, convidou-a para trabalhar com ele, como modelo das personagens das suas revistas em quadrinhos. Jussara hesitou. Aceitaria ou não o convite? Ela conhecia o gibi da Mulher de Prata e admirava Josué, mas receava expor-se.

Josué, com sua lábia irresistível, convenceu-a a trabalhar para ele.

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Em Júpiter, Mulher de Prata entrou em colapso. Fragmentou-se em milhões de partículas minúsculas. Poucas horas depois, seu corpo recompôs-se, maior do que antes. Mulher de Prata sentia-se mais poderosa. Seus cabelos estavam pretos; sua pele, morena. Com fúria incontida, rumou, à velocidade da luz, à esquadra dos kxwys, povo guerreiro oriundo de Andrômeda, destroçou-a, e evitou a destruição da Terra.

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Esta saga, cujo título era A Fênix de Prata, estendeu-se por quatro edições da revista Mulher de Prata, que, ao final da saga, teve o seu título modificado para Fênix de Prata. O sucesso, estrondoso. E as comparações com Jean Grey e a Saga da Fênix foram inevitáveis, e as perguntas a respeito das semelhanças entre as duas sagas, incontornáveis. Josué, não podendo esquivar-se delas, apontou as dessemelhanças entre as duas personagens e as duas sagas. Karen Sylvia Rodrigues Lacerda não era uma mutante; não integrava nenhum grupo de super-heróis; os seus poderes provinham das forças cósmicas; não tinha poderes telecinéticos; e não morreu: seu corpo dissipou-se – os átomos que o compunham desagruparam-se e, ao reagruparem-se, deram-lhe outra forma. E, o mais relevante, Fênix de Prata não sucumbiu ao seu lado negro, que, aliás, não possuía.

Alguns leitores compararam Fênix de Prata, no que diz respeito a altivez, à Lara Croft. Outros diziam que Karen Sylvia é tão bela quanto Sara Pezzini. Não foram poucas as comparações feitas entre Karen e Druuna, Sonja, Ororo, Wanda Maximoff, Elektra, Diana Price, Jessica Drew, Jeniffer Walters, Dinah Laurel Lance, Felícia Hardy, Selina Kyle e Mary Jane. Qual delas é a mais bonita? O site ***.com promoveu concurso para eleger a mulher mais bonita dos quadrinhos. O resultado foi surpreendente: Karen Sylvia Rodrigues Lacerda e Fênix de Prata, o seu alter-ego, desbancaram as belíssimas Felícia Hardy, segunda colocada; Diana Price, terceira; Lara Croft, quarta; e Sara Pezzini, quinta.

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Amazonas.

Iaci, a moça-lua, embrenhou-se na floresta, no encalço de um contrabandista de animais, que, certo de que das garras dela não escaparia, deteve-se, revólver em punho, e virou-se para a direção da qual, acreditava ele, Iaci dele aproximava-se, premiu o gatilho, e disparou. O projétil riscou o ar, e foi alojar-se em uma sumaumeira. O estrondo ecoou pela floresta. Pássaros voaram, aterrorizados. O contrabandista, olhar assustado, olhos arregalados, coberto de suor, as mãos trêmulas, mal conseguindo segurar o revólver, olhava em todas as direções à procura de Iaci. Um vulto passou à sua direita, atraindo-lhe a atenção. O contrabandista premiu o gatilho. O projétil alojou-se em um galho de uma árvore pequena. Assustado, o contrabandista esgoelava-se. Descarregou o revólver. No momento em que premiu o gatilho, e ouviu-se um estalo surdo, Iaci apareceu à frente dele, como um espírito fantasmagórico, de olhar severo, cravou-lhe as unhas afiadas no peito esquerdo, e arrancou-lhe o coração. O contrabandista tombou, pesadamente, no chão juncado de folhas e de insetos. Os insetos devoraram-no. Iaci abraçou uma árvore, e desapareceu.

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Com o sucesso de Fênix de Prata, Josué criou outras personagens, todas inspiradas em Jussara, e lançou, com sucesso, outros títulos de revistas em quadrinhos. O número um de Iaci, a moça-lua, vendeu, em uma semana, cinquenta mil exemplares. E a primeira saga, concluída na edição 7, vendeu, em média, cada edição, duzentos e vinte mil exemplares.

Josué assinou contrato com um estúdio de animação para produzir dois longa-metragens, um protagonizado por Fênix de Prata; o outro, por Iaci, a moça-lua. Para cada longa, o estúdio comprometeu-se a investir vinte milhões de reais.

Os leitores de Fênix de Prata e Iaci, a moça-lua, perguntavam a Josué quem era a sua musa inspiradora. Josué sonegava-lhes informações. Com o lançamento de outros dois gibis, A Maravilha de Júpiter e Diamante, ambos de autoria de Josué, cujas protagonistas eram mulheres belíssimas, os leitores intensificaram o assédio. Quem era a musa inspiradora de Josué? A protagonista de A Maravilha de Júpiter, Diana, era uma jupiteriana de quatro metros de altura e cabelos avermelhados; e a de Diamante, Laurën, usava uma vestimenta ultra-resistente munida de armamentos dotados de inteligência artificial. Os leitores mais atentos notaram que Diana e Laurën tinham muitas semelhanças físicas com Iaci e Karen, e exigiram crossovers entre as personagens. Josué prometeu uma saga com as suas quatro principais personagens, mas não estabeleceu um prazo para a publicação. Mãos à obra, deu início à concepção da saga Matéria Escura, na qual apresentaria atuais conceitos sobre multiuniverso, viagem através do tempo, passagens interdimensionais, extravagantes concepções do nascimento e da morte e teorias sobre múltiplas personalidades. Nos quatro títulos de sua editora, Josué, como preâmbulo para Matéria Escura, criou uma trama extraordinariamente complexa na qual interligavam-se as aventuras de Iaci, Fênix de Prata, Diamante e Maravilha de Júpiter. Dezenas de outras personagens, todas concebidas por Josué, foram introduzidas neste universo. Uma delas, Superpoderosa, de coadjuvante logo passaria a protagonizar as suas próprias aventuras em sua própria revista.

*

Para a felicidade dos fãs, o primeiro número de Matéria Escura chegou às bancas de todo o país. Foram vendidos cinquenta mil exemplares em quatro horas. Três novas tiragens foram impressas nas duas semanas seguintes. Cada uma com cem mil exemplares. Em dois meses, esgotou-se a décima quinta tiragem, perfazendo dois milhões e quinhentos mil exemplares vendidos.

No número um, no primeiro capítulo, quatro vilões e Fênix de Prata digladiam-se; no segundo capítulo, Superpoderosa depara-se com distúrbios sociais provocados por um fanático religioso de talentos hipnóticos; no terceiro capítulo, Diamante enfrenta uma criatura incorpórea composta de matéria desconhecida; no quarto capítulo, Diana regressa a Júpiter para evitar o extermínio dos jupiterianos, cujas cidades estavam sendo arrasadas por fenômenos desconhecidos; e no quinto capítulo, Iaci enfrenta criaturas compostas de elementos desconhecidos, mas tão fabulosos, tão extraordinários, que passaram por sobrenaturais.

A saga Matéria Escura estendeu-se por quinze edições, cada uma com cento e cinquenta páginas; as dez primeiras edições estão divididas em cinco capítulos; da décima primeira edição em diante – todas as cinco personagens (Iaci, Maravilha de Júpiter, Fênix de Prata, Diamante, Superpoderosa) atuam em grupo -, cada edição compõe-se de um capítulo. Na edição final dá-se o derradeiro confronto entre super-heróis e super-vilões. Os leitores acompanharam, com interesse, encantados, o desenrolar da magnífica saga, e surpreenderam-se com as revelações, as reviravoltas, a violência explícita, o erotismo e a sensualidade intensas.

E Superpoderosa sobrepujou todas as outras personagens, assumiu o primeiro plano, e converteu-se na personagem central da trama.

O sucesso de Matéria Escura foi retumbante. A saga, revolucionária. Josué Souza de Lima e Silva amealhou todos os principais prêmios distribuídos pela Academia dos Quadrinistas: Melhor roteiro, melhor desenhista, melhor saga, melhor arco de estórias, melhor arte-finalista, melhor colorista, melhor capa, melhor super-herói, melhor super-heroína, melhor super-vilão, melhor super-vilã, melhor roteiro original, melhor concepção artística de personagens, melhor concepção de cenário original e melhor personagem coadjuvante.

Os leitores desejavam, agora mais do que nunca, conhecer a musa inspiradora de Josué.

– Vocês querem saber quem é a minha musa inspiradora? – perguntou Josué, em uma noite de autógrafos, no pátio da sua editora, para os seus fãs alvoroçados. – Vocês querem conversar com ela? Daqui uma semana darei a resposta para vocês.

Ouviram-se assobios altissonantes.

Assim que chegou na sua casa, Josué foi tratar do assunto com Jussara. Antes de lhe falar do desejo insaciável dos seus admiradores, admirou-a, alumbrado.

– Jussara, os admiradores da Superpoderosa, da Iaci, da Fênix de Prata, da Maravilha de Júpiter e da Diamante querem te conhecer – disse Josué, com voz suave, tímido, silabando as palavras. Ele vivia um drama inconcebível para o comum dos mortais. – Eles querem que eu te apresente para eles. Não podemos ignorá-los. Eles merecem te conhecer. Nosso sucesso se deve aos leitores dos gibis. Eles adoram a Fênix de Prata. Eles adoram a Maravilha de Júpiter. Eles adoram a Iaci. Eles adoram a Diamante. Eles adoram a Superpoderosa. A paixão dos leitores pela Superpoderosa é maior do que a que sentem pela Laurën, pela Iaci, pela Karen e pela Diana. A Superpoderosa é o teu retrato. Iaci, Karen, Diana e Laurën são inspiradas em ti. A Superpoderosa, não. A Superpoderosa és tu. E os admiradores dela desejam te conhecer. E merecem te conhecer, afinal eles fizeram a nossa fortuna. Hoje possuímos esta casa imensa, com todo o conforto que o mundo pode oferecer, porque nossos leitores te adoram. E eles querem te conhecer – coçou o nariz, e prosseguiu: – Estou pensando em uma entrevista coletiva. O que tu achas? Ou poderemos promover uma feira de quadrinhos – interrompeu-se, atraído pelo vôo de um beija-flor, e prosseguiu: – Para os leitores, tu és uma deusa. Os leitores te reverenciam. Tu és cultuada. Tu és reverenciada. Os leitores querem te conhecer. E eles merecem te conhecer. Ficamos assim: Tu responderás à vinte perguntas. Ficarás, durante duas horas, à disposição dos nossos admiradores. Na feira de quadrinhos haverá debates, palestras, apresentações de vídeos sobre os novos projetos da editora. E programarei a entrevista para o último dia do evento.

Na manhã seguinte, Josué reuniu promotores de eventos, comunicou as emissoras de televisão e editoras de jornais e revistas sobre a feira de quadrinhos e a entrevista coletiva que Jussara concederia, e deu a notícia no site oficial da sua editora.

Na inauguração, esgotaram-se os ingressos em quarenta minutos. O evento, concorrido, atraiu a atenção de profissionais da área artística, em especial de roteiristas e desenhistas de revistas em quadrinhos, e de apreciadores da nona arte. Os admiradores de Fênix de Prata, Iaci, Diamante, Maravilha de Júpiter e Superpoderosa lotaram a sala especialmente preparada para a entrevista com Jussara.

O organizador do evento, Silvio Ulisses Riachuelo, popular entre leitores de revistas em quadrinhos, apreciadores de games e rpg, fez, eufórico, o discurso de recepção a Jussara e a Josué Souza de Lima e Silva.

– Hoje é o grande dia! Hoje, o dia em que o mundo conhecerá a musa inspiradora de Josué. Jamais o mundo conheceu mulher tão bela. Nem os antigos gregos, gênios da beleza, nem os romanos, nem os nórdicos, nenhum povo antigo, jamais conheceu tão imensa maravilha. Esqueçam Angelina Jolie! Esqueçam Brigitte Bardot! Esqueçam Marylin Monroe! Esqueçam a garota de Ipanema! Esqueçam Cleópatra! Esqueçam Aishwarya Rai! Esqueçam Aki Ross! Esqueçam Jessica Rabbit! Esqueçam Jasmin! Esqueçam Betty Boop! Esqueçam as sereias! Esqueçam as deusas do Olimpo! Esqueçam as deusas de Asgard! Esqueçam Mary Jane! Esqueçam Lara Croft! Esqueçam Gong Li! Esqueçam as deusas de Hollywood! Esqueçam as deusas de Bollywood! Lembrem-se da deusa, a deusa suprema, a musa inspiradora de Josué.

Abafaram-lhe a voz ovações ensurdecedoras. Abalaram a estrutura do prédio os aplausos estrondosos. Silvio pediu silêncio; assim que o silêncio foi restabelecido, retomou o seu discurso inflamado:

– Meus amigos! Minhas amigas! Hoje teremos o prazer de conhecer a musa inspiradora de Josué, o nosso querido Josué, que nos ofereceu, com as suas brilhantes sagas quadrinísticas, horas e horas e horas de alegria e prazer. Pudemos sonhar com a Fênix de Prata, com Iaci, a moça-lua, com Diamante, com a Maravilha de Júpiter, e com a Superpoderosa. Daqui a pouco, conheceremos a musa inspiradora de Josué, nosso querido Josué, o gênio brasileiro dos quadrinhos. Paciência, amigos impacientes. Paciência. Tenham um pouco de paciência, meus amigos. Logo, logo, admiraremos a musa inspiradora de Josué.

O público berrava. Por mais de cinco intermináveis minutos, Silvio mal pôde proferir uma palavra, e as que proferiu ninguém as ouviu. Insistiu em pedir silêncio; enfim, teve êxito. E ele prosseguiu:

– Chegou, meus queridos amigos, o momento pelo qual todos ansiávamos. Com vocês, para a felicidade geral da nação, Josué e a sua musa inspiradora!

Elevaram-se à alturas que vozes humanas jamais alcançaram os gritos altissonantes. Apagaram-se as luzes, e um cone de luz foi projetado no centro do palco, iluminando Josué e a sua musa inspiradora. Silêncio opressivo tomou conta de todos, que, estupefatos, surpreendidos pela fascinante aparição, emudecidos, perguntavam-se:

– Por que Josué está abraçado a um bloco de mármore?

Caiu na rede. É peixe.

Para: Valério.

De: Edson.

Assunto: Traição.

Tratante! Você me apunhalou pelas costas. O Ygor contou-me que você abordou a Paula, com insistência suspeita, durante os dias em que estive em Manaus. Ainda não tive oportunidade de conversar com a Paula. A mãe dela, a convalescer de uma grave doença, está na Santa Casa de Misericórdia. Paula a está velando. Estive na casa dela, ontem, à noite. Pensei em falar-lhe a respeito do que contou-me o Ygor, mas contive-me ao ver-lhe os olhos fundos e o rosto, que transparecia exaustão. Mordi a língua. Não quis atormentar a Paula com as suspeitas a respeito da fidelidade dela. Depois, passei na sua casa, Valério. Eu queria pôr tudo em pratos limpos. Quero ouvir de você a história. Quero ouvi-la da sua boca, Valério. Seu pai disse-me que você e a Felícia foram ao cinema. Divertiram-se? A Felícia sabe que você, na minha ausência, abordou a Paula com propostas indecentes? É assim que você age com os amigos, Valério? Apunhala-nos pelas costas? Você, na minha ausência, foi à casa da Paula, e… Se a Paula, ontem, não estivesse tão cansada, tão preocupada, eu a teria interrogado. Eu a jogaria contra a parede, e a espremeria até ela me contar tudo. Valério… Quem diria! Disse-me o Ygor que logo após a minha partida você foi visitar a Paula; depois, assim que dona Marilda adoeceu, você foi consolar a Paula… Que espécie de homem você é? Por que não cantou a Paula na minha frente? Quero conversar com você. Ao contrário de você, não fujo da raia. Não quero que a nossa conversa se resuma a e-mails. Quero falar com você. Vou me encontrar com você. Você terá de me explicar o que fez, durante a minha ausência, com a Paula. O que você foi fazer na casa dela? Você terá de me dizer o que foi fazer lá. Valério, irei à sua casa amanhã cedo. Até amanhã.

Para: Edson.

De: Valério.

Assunto: Boatos.

Edson, você quer saber por que fui à casa da Paula? Fui ajudar a Paula a levar roupas, comida, remédios, revistas e brinquedos para a dona Marilda. Você não me encontrou, domingo, na minha casa, caso tenha ido lá. Você perdeu a viagem. Mas não pense que fugi de você. Não fugi. As suas ameaças não passam de bravatas de um homem que perdeu a lucidez em decorrência do ciúme que o aflige. Você foi deselegante, no e-mail que me enviou. Eu não estava na minha casa, no domingo. Não estou lá, agora. Estou em São Paulo, em um hotel. Participo de um congresso de psicólogos. Quero atualizar os meus conhecimentos. A psicologia é uma arte, uma arte nobre. E eu, que não desejo perder o trem da história, tenho de me manter atualizado.

Vamos à resposta ao seu insultuoso e-mail. Conclui a leitura há dois minutos. Você me ofende, Edson. Você é injusto comigo. Você fez insinuações maldosas sobre o meu caráter. O que mais me surpreende é saber que você dá atenção ao que o Ygor diz. Pelo amor de Deus, Edson! Pense, meu amigo. Use o seu cérebro. O que você tem na cabeça? Você, no e-mail, ofendeu-me. Você está com ciúme. Vou levar isso em consideração. Sei que você gosta da Paula e está um pouco inseguro. Sei que, nos últimos meses, você e ela se desentenderam seriamente. A notícia da discussão de vocês dois, na churrascaria O Gaúcho, espalhou-se por toda a cidade. Que escândalo! Saiba, Edson, que, em nenhum momento, ao contrário do que você pensa, esfaqueei você pelas costas. Eu jamais faria isso. Você é meu amigo, amigo do peito. Você está com ciúme. Chateia-me saber que você dá mais valor ao que o Ygor diz para você do que à nossa amizade. Chateia-me saber que você desconfia de mim. Eu preferiria não saber disso, mas sei. Ainda bem que você não disse para a Paula tudo o que pensou em dizer-lhe. Se dissesse, ela jamais perdoaria você. Você sabe disso. Converse com o Ygor. Exija-lhe explicações. Diga-lhe que desminto tudo o que ele disse para você. Edson, você esqueceu o que o Ygor disse da Carla? O pai dela a expulsou de casa após o Ygor dizer-lhe que a Carla traficava drogas, prostituía-se, e tinha um caso com o chefe dela. O Ygor detesta a humanidade, e não se entende com quem não se curva aos desejos dele. Ele havia pedido a Carla em namoro. Como ela o rejeitou, ele, maligno como todos os psicopatas, arquitetou a destruição dela. Coitado do seu Pedro. Como ele sofreu ao saber que havia sido tão injusto com a Carla. Arrependido, ele pediu-lhe desculpas. A Carla a aceitou, e o perdoou. E o Ygor… O seu Pedro não o moeu de pancadas porque a Carla pediu-lhe que esquecesse a história. O seu Pedro prometeu-lhe que a esqueceria. Mas… Um passarinho contou-me que ele foi ao confessionário… confessar um pecado que ainda não cometeu. Esta história não nos diz respeito. Vamos voltar à nossa história. Edson, você sabe tanto quanto eu que o Ygor é vingativo e rancoroso. Procure saber se ele tem algo contra você ou contra eu. Certamente, tem, e contra nós dois. O Ygor não tem amigos; tem cúmplices. Tenha cuidado, Edson. O Ygor é traiçoeiro. Ele quer nos jogar um contra o outro. Você está caindo, como um patinho, no jogo dele. Refresque a cabeça, Edson. Esteja certo de uma coisa: O Ygor é um mentiroso descarado.

Saudações.

Dê um abraço, um beijo e um pedaço de queijo pra Paula.

Para: Edson.

De: Valério.

Assunto: Está na hora de você tirar a máscara!!!

Você se faz de santo e de vítima. Só se for de santo do pau oco e vítima das suas armações, como o Cebolinha o é dos planos infalíveis dele. Quer dizer, então, que você se faz de vítima, ofende-me, insinua que tenho um caso com a Paula e que estou apunhalando você pelas costas, para desviar a minha atenção das suas verdadeiras intenções? Você sabe do que estou falando. O Carlos contou-me.

Regressei de São Paulo. O congresso me foi de grande valor. Aprendi muitas coisas interessantes, surpreendentes, sobre a condição humana.

Aqui, em casa, eu, feliz, muito feliz…

Contou-me o Carlos que você, além de romper o namoro com a Paula, foi, para se vingar de mim, até a Felícia, insinuou-se para ela, e disse-lhe que tenho um caso com a Paula. A Felícia, contou-me o Carlos, induzida por você, com intenção de se vingar de mim, correspondeu ao seu assédio, e traiu-me. Eu disse para você não dar ouvidos ao Ygor. E o que você fez? Você preferiu acreditar nele do que em mim e na Paula. Idiota! O que você conseguiu com isso? Você perdeu a Paula. Eu soube, contou-me o Carlos, que ela não quer mais saber de você. Imbecil! Ela tem todas as razões do mundo para não querer mais saber de você. E você perdeu a minha amizade. Depois que o Carlos retirou-se da minha casa, fui à casa da Felícia. Eu e a Felícia discutimos. E rompemos o namoro. Você acabou com o meu namoro com a Felícia, um namoro de um ano e meio. Eu e ela pensávamos em noivar e nos casar dentro de um ano. Obrigado, amigão! Obrigado! Você acabou com a minha felicidade! Obrigado! Você sabe o que farei daqui a pouco? Irei ao bar do Chicão, e encherei a cara de pinga, cachaça, caipirinha e vodka. Beberei toda bebida que eu encontrar no bar. Afogarei as minhas mágoas. Traíram-me a minha namorada e o meu amigo, o meu melhor amigo, aliás, meu ex-melhor amigo. Que vida! Esqueça que existo, imbecil!

Para: Valério.

De: Edson.

Assunto: Inocência.

Eu, um tolo, briguei com a Paula. Sou um imbecil, reconheço. Eu devia ter dado ouvidos aos seus conselhos, Valério. Falei para a Paula da história que o Ygor contou-me. A Paula ficou fula da vida. E com razão. Ela me disse que não quer mais olhar para mim. Ainda não me encontrei com o Ygor. Assim que eu o encontrar, ele terá de me dar explicações. Por que acreditei nele!? Por quê? A Paula, coitada, não parece a Paula. A dona Marilda piorou. Coitada! Falei um punhado de asneiras para a Paula. Se eu pudesse voltar no tempo, eu não diria o que eu disse. Vivi num inferno, nos últimos dias. Espero que a Paula me perdoe. Ela ficou muito chateada. Esse problema é meu. Agora, cá entre nós, Valério, você é um idiota! Um grandessíssimo idiota! Você pensa que é o tal, mas não passa de um idiota com PhD em Harvard! Você pensa que, por ter estudado psicologia e conhecer as mais recentes teorias de laboratório – que só dão certo em ratos – dos seguidores de Freud, Jung e outros analistas de Bagé, entende de pessoas. Você, no último e-mail que me enviou, chamou-me de imbecil. Saiba que o imbecil é você! Também sou imbecil, é verdade, mas você é mais imbecil do que eu porque é mais esclarecido e se considera mais esperto do que eu. E é diplomado. E ostenta, orgulhoso, o seu respeitável título de psicólogo. O Ygor me fez de bobo? Sim. E o Carlos fez você de bobo! Ele disse para você que eu e a Felícia… Não vejo a Felícia há um mês, ou dois meses. Não sei por onde ela anda. O Carlos disse pra você que eu e ela… Que absurdo! A Felícia é para mim a irmã mais velha que não tenho. Você acreditou no que o Carlos disse pra você!? Você é otário! Para o seu conhecimento: Eu e a Felícia não traímos você. Repito: Eu e a Felícia não traímos você. Você quer que eu repita? Repito: Eu e a Felícia não traímos você. Não vejo a Felícia há mais de um mês. Repito: Não vejo a Felícia há mais de um mês. Você quer que eu repita? Não é necessário. Você já entendeu a mensagem. Você fez uma grande burrada! Imbecil! Você discutiu com a Felícia. Vocês romperam o namoro. Não ponha a culpa em mim, imbecil! A culpa é sua, inteiramente sua. Vá ao bar do Chicão. Vá! Está esperando o quê!? Encha a cara, por você e por mim. Você acreditou no que o Carlos disse pra você! Imbecil! O Carlos é mentiroso e traiçoeiro. Ele é pior do que o Ygor! Você se lembra dos boatos que ele espalhou a respeito do Frederico? Não preciso entrar nos detalhes. Você conhece a história melhor do que eu. O Frederico foi demitido, e está desempregado há oito meses. Valério, vá para o inferno! Esqueça que existo. Vá encher a cara, pinguço imbecil! Otário! Livre-se do seu complexo de… Sei lá de quê! Uma coisa é certa, Valério: nesta história, você fez o papel do idiota esclarecido.

Para: Edson.

De: Valério.

Assunto: Notícia surpreendente.

Vi, ontem, na Praça Joaquim Nabuco, a Paula e o Ygor. Beijavam-se apaixonadamente.

Para: Valério.

De: Edson.

Assunto: Sente-se. Depois, leia este e-mail.

Vi, assim que saí do banco, dois pombinhos apaixonados, agarradinhos, na loja Pés Livres: a Felícia e o Carlos.

Para: Carlos.

De: Ygor.

Assunto: Operação Otelo.

Missão Cumprida. Sucesso Absoluto.

Para: Ygor.

De: Carlos.

Assunto: Operação Otelo.

Estou preparado para o que der e vier. Qual será a próxima missão?

 

O pedido de desculpas

– Tu podes ouvir-me, Ivan? Quero conversar contigo. Estás ocupado? Ivan, se tu soubesses… Eu… Como eu poderia saber, Ivan, que era mentirosa a história que me contaram e contaram para meu pai, para minha mãe e para meu irmão? Ivan, por favor, ouça-me… Por favor, Ivan… Se tu soubesses… Estou tão arrependida… Julguei-te, sei… Eu não… Meu pai, ao saber da verdade… Ivan, nunca o vi tão desanimado, tão desorientado, tão… angustiado, desiludido… E minha mãe? Ela emudeceu ao saber… Ivan, minha mãe jamais imaginaria… Ao saber, ela, sentada, lamentou… Mãos à cabeça, a cobrir o rosto, a pensar, arrependida… E meu irmão não disse uma palavra. A expressão dele… Ele sentiu-se mal, muito mal, afinal ele te acertou um soco, e quebrou-te o nariz. Ivan, namoramos durante dois anos. Noivamos… Íamos nos casar. Tivemos altos e baixos… Desentendemo-nos, e não raras vezes, e por ninharias, tolices, enciumados, ou não… por uma migalha, uma bagatela, uma bobagem qualquer, um boato que ouvimos aqui, outro que ouvimos ali, outro que ouvimos acolá, por implicarmos um com o outro, sem razão, incomodados com qualquer coisa… E nos divertimos tanto! Tanto! Quantos momentos felizes… As festas… As aventuras, nas montanhas… nas praias… Lembra-te da tua vitória na corrida, em São José dos Campos? E da notícia da minha classificação no vestibular da universidade? E da nossa viagem de balão, lembra-te? E da nossa romaria até a Basílica de Aparecida? Exaustiva. E percorremos mais de cem quilômetros de mãos dadas… E quantos outros momentos posso evocar? São tantos… Na alegria e na tristeza… Na saúde e na doença… Lembra-te das nossas conversas? O que dizíamos um para o outro… Palavras que partiam da alma. Foram os dois melhores anos da minha vida. Sei que soa piegas…. Parecem palavras de mulheres apaixonadas dos romances açucarados e das novelas. Digo-te a verdade, Ivan. Tu foste o meu primeiro namorado, e o único. Há dois meses brigamos, e rompemos… Ivan, pensei em ti o em todos esses dias… As histórias que me contaram, e contaram ao meu pai, à minha mãe, ao meu irmão… Histórias… cabeludas. E mostraram-nos fotos. Como poderíamos saber que eram montagens as fotos!? Eu poderia ter confiado em ti… Sei que errei em não confiar em ti. Meu pai não confiou em ti. Minha mãe não confiou em ti. Meu irmão não confiou em ti. Era tanta a minha raiva quando vi as fotos! Tu não imaginas… Ferveu-me o sangue. Subi pelas paredes, de raiva. Como eu poderia saber que eram fotos manipuladas por computador que a Lúcia… Lúcia… Aquela sirigaita… Como eu poderia saber que ela chegaria a tal ponto para te conquistar? Nunca imaginei que alguém pudesse ir tão baixo, descer tanto. Sei que, depois que tu e eu brigamos; que meu pai e minha mãe te expulsaram de casa, a Lúcia te abordou e tu rejeitaste-a. Eu sei. Contaram-me. Depois, dias depois, soubemos eu, meu pai, minha mãe, meu irmão, da verdadeira história. Ivan, por favor, desculpe-me, e desculpe meu pai, e minha mãe, e meu irmão… Desculpe-nos, Ivan. Podemos reatar o namoro… Nosso noivado… Gosto muito de ti… Se tu soubesses como estou arrependida… Ivan, amo-te. Naquela hora… As fotos… Eram quantas as fotos? Trinta? Quarenta… Não sei… Tu estás com raiva de mim… Entendo… No teu lugar, eu também ficaria com raiva de mim, com muita raiva… Sabes, Ivan, quando vi aquelas fotos, que te mostravam aos beijos com aquela mulher… aquela sirigaita… aquela megera… aquela vadia… O que me aconteceu… Se tu puderes imaginar o que senti. Não sei dizer o que senti… Um sentimento que eu nunca havia sentido. Não sei explicar… Joguei meu pai, minha mãe e meu irmão contra ti, Ivan… Eu não pensava direito… Eu não sei no que eu pensava. Lembro-me como se tivesse acontecido ontem… Eu chorava… Eu… Eu… Ivan, eu estava fora de mim. Mostrei as fotos para meu pai, para minha mãe e para meu irmão… Desejei-te a morte, Ivan… A raiva era tanta, tanta, que pensei em coisas que eu jamais imaginei que eu fosse capaz de pensar… Depois, senti-me tão mal… Como pude pensar o que pensei!? Todos, irritados, nervosos… Um mês antes do casamento, e a notícia de que tu traías-me… Nervosos, eu, meu pai, minha mãe, meu irmão… Irritados… Assim que tu chegaste em casa… Explodimos, e fomos para cima de ti. Desculpai-me, Ivan. Desculpai-nos. Estamos arrependidos. Ivan, não te esqueci… Como eu te esqueceria, Ivan? Tu me fizeste, durante dois anos, a mulher mais feliz do mundo. Os finais de semanas, na praia, os passeios ao zoológico, o nosso passeio ao Pantanal… Nunca diverti-me tanto… Tu me fizeste feliz, Ivan. Dois anos maravilhosos… Lembras-te do dia em que me pediste em namoro? Lembra-te? Eu jamais me esqueceria daquele dia… Ivan, não quero tomar-te o teu tempo. Sei que estás ocupado… Sei que estás com raiva de mim… e com razão… e não apenas de mim, mas, também, de meu pai, de minha mãe e de meu irmão… Vim pedir-te perdão, Ivan… Amei-te… Amo-te… Por favor, Ivan, não me olhes… Sei que estás com raiva de mim. Sei que não esqueceste dos insultos que te cuspi na cara… Não me olhes assim, Ivan, por favor… Se tu soubeste como estou arrependida… Se tu soubeste que penso em ti, todas as noites… Se tu soubeste, Ivan, como eu gostaria de voltar no tempo, pegar aquelas fotos, e rasgá-las, e queimá-las… Se tu soubeste, Ivan, como te desejo… Ivan, se tu soubeste o quanto sofro… Ivan, se…

Ivan, surpreendendo-a, atraiu-a para si, estreitou-a em seus braços, envolveu-lhe o corpo, e beijou-a apaixonadamente.

As surpresas que o amor reserva – parte 5 de 5

Na sua casa, durante o almoço, Paulo, calado, fitava Gislaine, que estava alheada. O silêncio dela constrangia-o. Gislaine não se interessava pelo que ele lhe dizia; estava ocupada com os seus pensamentos; curvada para a frente, olhava para o prato em cuja comida mal tocara. Por duas vezes, lentamente, sem vontade, enfiou o garfo no prato, e puxou, para a boca, um pouco de arroz e de feijão. Paulo falava-lhe, e a estudava. O rosto dela, inexpressivo, intrigava-o. Também intrigava-o o ar dela, pensativo, de uma pessoa ocupada com pensamentos difusos.

Enfim, Paulo perguntou para Gislaine:

– Vamos marcar a data do nosso casamento?

Gislaine não o ouviu. Paulo chamou-a. Ela não tomou conhecimento do que ele lhe disse.

Paulo degustou da comida. Gislaine raras vezes se dignou dirigir-lhe a palavra. Paulo perguntou-lhe o que a incomodava. Ela lhe disse que estava cansada e que certas coisas no emprego a desgostavam. E ele disse-lhe que ela era muito bem remunerada, e pediu-lhe que contasse o que se sucedia na empresa. Gislaine nada lhe disse.

A atitude de Gislaine atormentava Paulo, que, por duas vezes, iniciou a narração do que sucedera naquele fatídico dia em que soube que ela era uma das prostitutas da Prazer Virtual. Falou da moça de bicicleta, dos entes noctívagos que perambulavam pelas ruas; não lhe deu, no entanto, a localização das ruas; e encerrou o relato ao vê-la calada – não sabia se lhe contava o que era de seu conhecimento, e pedia-lhe explicações. Coçou a cabeça, sem saber o que lhe dizer. Queria cobrar-lhe explicações, queria que ela lhe dissesse a verdade, mas calou-se a respeito. Diante do silêncio dela, imergiu nos próprios pensamentos, e assim se conservou até o fim do almoço.

Nas semanas subseqüentes, Gislaine, não raras vezes, dizia que recebeu aumento de salário, pois, vendedora persuasiva, vendia produtos caríssimos para clientes americanos, alemães, árabes, japoneses, brasileiros e indianos, todos eles milionários. Paulo a ouvia, atentamente, e mordia a língua para não lhe revelar que sabia da verdadeira ‘profissão’ dela e dos ‘serviços’ que ela prestava aos clientes. Certa vez, Paulo e Gislaine passeavam pelo jardim da Praça Oswaldo Cruz. Ao ouvi-la falar do seu desempenho no trabalho e dos clientes que gostavam dela, Paulo sentiu os pêlos crisparem-se-lhe e os músculos contraírem-se-lhe; segurava a mão esquerda de Gislaine; apertou-lha, involuntariamente. Gislaine puxou a mão, não se livrando da de Paulo, e perguntou a Paulo se ele não conhecia modo mais gentil de expressar alegria. Paulo sorriu, e felicitou-a. Gislaine deu-lhe um beijo no rosto. Nos finais de semanas subseqüentes, passearam, pelos parques, e foram ao zoológico, e dançaram nos festivais de músicas populares, e assistiram, no teatro, à representações de peças de Arthur Azevedo, Martins Pena e Shakespeare. Divertiram-se com a Comédia dos Erros; apreciaram-na tanto que, uma semana depois, no penúltimo dia de exibição da peça, assistiram-na segunda vez. Visitaram exposições de esculturas e pinturas modernas – ambos saíam do museu de arte com a sensação de que foram ludibriados, convictos de que tais obras corroíam-lhe a sensibilidade estética e delas nenhuma lembrança preservariam vinte e quatro horas depois, em decorrência da inexistência de quaisquer sentimentos pelas obras inspirados; as obras ‘de arte’, diziam, não os faziam evocar episódios da própria vida, ou capítulos da história da civilização; tais obras ‘de arte’ não estavam associadas a nenhum sentimento; elas os arremessaram no limbo existencial; não lhes provocaram transpiração de sentimentos além dos relacionados aos objetos, não lhes inspiravam sentimentos que os fizessem transcender o corpo; ao contrário, tolheram-lhes o sentimento de maravilhamento. Não pretendiam visitar, mesmo que lhe pagassem, outra exposição de arte moderna – não se disporiam a ver objetos e pinturas destituídas de beleza estética e moral. Tais pinturas e tais esculturas reproduzem eventos históricos? Não. Reproduzem personalidades religiosas, artísticas, literárias, políticas? Não. Reproduzem entidades bíblicas, ou homéricas, ou babilônicas, ou presentes em outro livro sagrado? Não. Representam cenas de batalhas? Não. Reproduzem personagens literários? Não. Cenas famosas dos clássicos da literatura? Não. O que tais esculturas e pinturas reproduzem, então? Nem o vazio reproduzem. Nem o nada reproduzem. Tais pinturas e tais esculturas provocaram-lhe indefinível sensação de desconforto.

Nos passeios, Paulo estreitava Gislaine em amplexos calorosos. Beijava-a, apaixonadamente, no seu vão esforço de esquecer o que dela sabia. Infrutíferos, os artifícios que usou para suprimir da memória as informações concernentes à atividade de Gislaine. Não pretendia submeter-se à lobotomia, tampouco à lavagem cerebral. Teria de viver com o que sabia.

Paulo falou, em outra ocasião, de casamento para Gislaine, com o coração descompassado, perguntando-se porque não lhe contava o que sabia a respeito dela e não dava um fim ao namoro. Gislaine tergiversou, disse que desejava conhecê-lo melhor, apresentou justificativas estapafúrdias para não se casarem, disse-lhe que ainda não chegou o momento para assumirem tal compromisso. Paulo insistiu. Para persuadi-la, disse-lhe que pensava em ter um filho e uma filha, e concebeu, em imaginação, com relatos entusiasmados, para despertar-lhe o instinto maternal, cenas protagonizadas pelas duas crianças imaginárias. Riram. Sorriram. Entreolharam-se. Paulo engasgou, encabulado, após certo tempo. Ao mesmo tempo que descreveu para Gislaine o futuro imaginado, repudiou as próprias palavras e recriminou-se e teve ganas de se golpear com socos, até moer-se. Acreditava, ou queria acreditar, que Gislaine não o traía, que ela apenas executava as tarefas de uma “profissional”, e que ela pretendia amealhar fortuna considerável, e tão logo a conseguisse, abandonaria a prostituição, e se casaria com ele. Incomodava-o, no entanto, a postura dela, distante, conquanto ela se esforçasse para dele ocultá-la.

*

Nas semanas seguintes, Paulo atentou para a conduta arredia de Renato e Gustavo. Evasivos, eles, pareceu-lhe, evitavam-no. Intrigava-o a conduta deles. Nas conversas, eles, ou eram lacônicos, ou tratavam de assuntos referentes ao noticiário televisivo, ao futebol, aos vídeos que assistiram na internet, e, sempre que Paulo referia-se a Gislaine, mudavam de assunto, de um modo tão brusco, que lhe punham uma pulga atrás da orelha.

*

Num dos quartos da Prazer Virtual, abraçados, Gislaine e o seu cliente mascarado conversavam, deitados, na cama. Ela, nua; ele, com a máscara do Batman. Gislaine, nesta noite, reservava-lhe uma surpresa, que o deixaria embasbacado:

– Tenho uma coisa para te dizer, meu herói: Estou apaixonada por ti – as impressões que tal confissão provocou no homem mascarado não passaram despercebidas de Gislaine, que notou a mudança, imperceptível, dos batimentos cardíacos dele, e a dilatação da pupila, e a respiração em suspenso, que ele logo liberou, num movimento lento, que, notou Gislaine, ele se esforçou por controlar.

Assim que ele se recompôs, disse-lhe Gislaine:

– Tu pensas que sou louca. Eu, uma prostituta, apaixonada por um homem que não conheço.

– Não – disse o mascarado. – Não pensei isso. É que… É tão inusitado…

– É loucura…

– Não. Não te envergonhes dos teus sentimentos… Tu me surpreendeste, Diana – disse, gaguejando, quase sem voz. Diante do silêncio de Gislaine, prosseguiu: – Tu és belíssima. Teu corpo, maravilhoso… Sou casado… O sacramento não me impediu de vir aqui, várias vezes…

– Contratar-me…

– Espere, Diana. Não penses mal de mim, tampouco de ti… Tu és uma pessoa maravilhosa.

– Sou uma prostituta.

– Diana…

– Sei o que sou. Sei o que faço. Sei que… – lágrimas encheram-lhe os olhos. – Sei que tu me usas… O que sou para ti? Uma prostituta… – os lábios se lhe tremeram; pousou a mão esquerda na máscara dele, e puxou-a, tímida, hesitante, para removê-la.

– Não! – disse o mascarado. – Não, Diana. Não me tires a máscara.

– Por que não, Bruce? – perguntou Gislaine, aos soluços. – Por que não queres que eu te veja?

– Não quero que me reconheçam…

– Eu te conheço?

– Tu me chamaste de Bruce. Banner ou Wayne?

– Lee – disse Gislaine, e sorriu. Lágrimas escorreram-lhe dos olhos. O mascarado removeu-lhas, carinhosamente, e atraiu a cabeça de Gislaine para si, e Gislaine deitou-a sobre o tórax.

Conservaram-se em silêncio durante alguns minutos. Paulo o rompeu com um comentário:

– Esta máscara te causou forte impacto. De pavor, estou certo.

– De paixão, Bruce. De paixão – disse Gislaine, em tom baixo, como se estivesse encabulada – Estou apaixonada por ti, Bruce…

– Conversarei a respeito com a Mulher-Gato… – e o mascarado sorriu.

A partir deste momento, Gislaine e o mascarado não souberam o que falar um para o outro. Gislaine temia fazer-lhe exigências, as quais, assustando-o, o afugentassem. O mascarado temia feri-la com comentários depreciativos, mesmo que não alimentasse tal propósito, pois ela poderia emprestar às palavras dele significados os quais ele não pensou. Num acordo tácito, ficaram em silêncio. O mascarado despediu-se de Gislaine, às cinco da manhã. Na despedida, os olhares eram repositórios de pensamentos e sentimentos ocultos que leram um nos olhos do outro.

*

Na casa de Paulo, domingo, Gislaine e Paulo, às onze horas da noite, jantaram à luz de velas. Ao fim do jantar, à mesa, Paulo enfiou a mão direita no bolso da camisa, fitou Gislaine nos olhos, e perguntou-lhe, num tom suave:

– Gislaine, queres casar comigo? – pegou-lhe da mão, para pôr-lhe no dedo a aliança. Gislaine recolheu o braço, abaixou a cabeça, ergueu-a logo em seguida, passeou a mão pelo nariz, olhou para o teto, e soltou um suspiro. Paulo recuou, recostou-se no encosto da cadeira, e fitou Gislaine, que lhe disse:

– Paulo – e desviou o olhar, tão logo seus olhos encontraram-se com os dele, e fitou o vazio à sua direita, e suspirou.

– A tua voz e o teu olhar, Gislaine… Desconfio que tu não tens uma boa notícia para me dar.

– Não é uma boa notícia, Paulo – disse Gislaine, evitando o olhar de Paulo. – Não é uma boa notícia… Paulo… Conheci um homem…

– O quê? Gislaine!

– Deixe-me explicar, Paulo. Deixe-me explicar… Por favor, Paulo…

– Gislaine! Namoramos há dois anos. Agora, que te peço… que te peço em casamento…

– Paulo… Por favor… Escute-me…

– Não me diga que… Gislaine…

– Paulo, escute-me… Ouça-me… Eu queria te falar… Não te amo, Paulo…

– Não… Não me ama…

– Paulo, escute-me… Ouça-me… Ouça-me… Eu te amava… Conheci… Conheci outro homem… Estou apaixonada por ele…

– Gislaine, por favor… Nada mais me digas…

– Paulo, escute-me… Paulo… Não quero que fiques com raiva de mim… Não olhes pra mim… Por favor, não olhes…

– Gislaine… Gislaine… Se não queres… Não sinto raiva de ti… Não posso te impedir de viver a tua vida… Vá embora…

– Paulo…

– Gislaine, por favor… Sou eu que… Por favor… Dois anos maravilhosos, Gislaine… Preciso descansar…

– Paulo…

– Por favor, Gislaine…

– Não fiques com raiva de mim…

– Não estou… Tenho a minha vida; tu tens a tua…

– Paulo… Não fiques bravo comigo…

– Pensei que… Tudo bem, Gislaine… Por favor, deixe-me sozinho… Por favor… Tchau, Gislaine…

– Tchau, Paulo… Perdoa-me…

– Tchau, Gislaine…

*

Cabisbaixo, lágrimas se lhe escorrendo dos olhos, com as mãos no bolso da blusa, Paulo andava pela calçada da rua Emílio Ribas. Gritaram-lhe o nome. Eram Gustavo, Renato, e Roberto, este um amigo, com quem Paulo estudou no colegial e havia três anos não o via. Saudaram-se. Roberto pediu-lhe notícias dos familiares; Paulo pediu-lhe dos dele. Entraram numa pizzaria. Degustaram de uma pizza saborosa, e beberam, Gustavo, refrigerante de limão, Roberto, de laranja, Paulo e Renato, de guaraná. Não era meia-noite quando retiraram-se da pizzaria. Roberto foi-se embora, no seu carro. Renato ofereceu carona para Paulo e Gustavo. Eles a aceitaram.

– Paulo, tu estiveste – comentou Renato – cabisbaixo, calado, o tempo todo. O que aconteceu? – perguntou, diante da casa de Paulo, assim que se retiraram do carro. – Não quero ser inconveniente…

Paulo disse, após coçar a cabeça e o nariz:

– Eu e a Gislaine desmanchamos o namoro.

E reinou silêncio opressivo. Entreolharam-se Renato e Gustavo. Paulo desviou o olhar e disse-lhes que entraria na casa. Renato e Gustavo desejaram-lhe uma boa noite, e foram-se embora, cada qual ocupado com os seus pensamentos.

*

Três horas da madrugada. Na cama, num dos quartos da Prazer Virtual, deitados, Gislaine e o mascarado. Gislaine cortou o silêncio:

– Bruce Wayne – sorriu, tímida. – Rompi o namoro com o Paulo… – beijou-o na boca. Pôs-se a remover-lhe a máscara; o mascarado não a impediu de removê-la. – Estou loucamente apaixonada por ti, meu herói misterioso. Tu és adorável, Bruce Wayne – e removeu-lhe, com um puxão, a máscara.

– Paulo! Tu!

As surpresas que o amor reserva – parte 4 de 5

– Diana, a cada dia que passa, tu conquistas novos admiradores – disse-lhe Ronaldo, proprietário da Prazer Virtual, homem de cabelos grisalhos, na altura dos seus sessenta anos, esbelto e charmoso. A sua pele não indicava a sua idade. – Tu és a rainha da casa. És a imperatriz. Um príncipe já viveu uma noite contigo…

– Um príncipe que não era encantado – respondeu Gislaine. – Um príncipe desencantado. Ele é feio, e não cheira bem. Ele é um sapo, Ronaldo.

– É um sapo, mas não deixa de ser um príncipe. O porte dele, imperial. Não… Principesco.

– Não se parece com os príncipes dos filmes.

– Quem tu querias? Hollywood, quando quer enaltecer a realeza, contrata um galã para representar o príncipe. O galã nem sempre é bonitão como diz a fama… Isso não vem ao caso. São galãs, para todos os efeitos. E põem-se efeitos… especiais. Não podemos nos esquecer, Diana, que o príncipe, que é um sapo, desembolsou uma fortuna por ti. Em ouro. Convertido em moeda sonante… um milhão de reais. Nenhuma outra das minhas princesas ganhou tanto. Nem a Barbie; nem a Mata-Hari.

– Ronaldo, ou eu me engano… Se te conheço bem, tu queres falar-me de outra coisa…

– Sim, Diana, sim. É que… É tão engraçado…

– Conte-me a piada.

– Não é uma piada. Neste mundo há tanta gente estranha, que me pergunto se os humanos padecemos de insanidade crônica.

– Estou esperando pela notícia.

– Notícia que não está no gibi. Ou está? É surreal, Diana. Já vi coisas mais estranhas; engraçada, não.

– Estou esperando…

– Imagines… Sabes da novidade? Um ricaço esteve aqui, esta noite, e consultou os nossos arquivos. Te viste, e se apaixonou por ti. Não foi o primeiro; e não será o último a sucumbir à tua beleza. Ele te quer. Tu realizarás a fantasia dele.

– Ele não é sádico, nem masoquista, é?

– Não. Ele é… Como direi? Excêntrico.

– Excêntrico!?

– Não te preocupes. Ele joga no time dos mocinhos. Ele nos pediu discrição. É casado, tem dois filhos, ama a esposa, segundo ele… Ele não quer se expor. Se a aventura dele alcançar os ouvidos da esposa, ela entrará com o processo de divórcio e reduzir-lhe-á o patrimônio à metade. Honorários advocatícios… Tu sabes… Aquela papelada. Resumindo, para não me estender… Não faz sentido o que eu disse. O nosso homem, Diana, teu admirador, casado, com a cumplicidade do motorista, que não abrirá o bico, nem sob tortura, pois não quer perder a boquinha, veio à nossa casa de bons costumes, apaixonou-se por ti, e agendou uma noite contigo. Esta noite. Ele te surpreenderá.

– Quanto mistério. Sinto-me a protagonista de um filme de suspense.

– O nosso homem…

– Aceitas um conselho, Ronaldo: Pare de dizer ‘o nosso homem’. Dá a entender que…

– Tu sabes em que time jogo. O nosso homem está no teu quarto, esperando por ti. Ele é o paladino da justiça, o vingador da noite, o defensor dos fracos e dos oprimidos, aguerrido noctívago, que saltou das páginas dos gibis para passar horas de prazer contigo: Ele é um super-herói.

– O quê? – perguntou Gislaine, gargalhando. – Que brincadeira…

– Não é brincadeira, não. O nosso super-herói está, no quarto, à tua espera, Lois Lane.

– E quem é o meu super-herói? Espere. Se eu sou a Lois Lane, ele é o único sobrevivente de Krypton.

– Ele não é o Superman. Ele é o Batman, o homem-morcego, o cavaleiro das trevas, o cavalheiro das trevas, o playboy perdulário, o filantropo…

– Batman! – Gislaine gargalhou. – É uma piada.

– Ele me disse que o super-herói predileto dele é o Superman, mas, como o filho de Jor-El não usa máscara, ele assumiu a persona do Batman, o temido cavaleiro das trevas, super-herói hematófago.

– Mas… Ronaldo, a máscara do Batman não cobre os lábios e o queixo.

– Tu és perspicaz. Não sei que modelo de máscara ele vai usar. Talvez seja uma daquelas máscaras que cobrem todo o corpo, dos pés à cabeça.

– Tu lhe perguntaste por que ele não se fantasiou de Homem-Aranha, ou de outro super-herói.

– Perguntei-lhe, sim, Diana. Tu aprecias essas… esses detalhes, essas informações… Falei-lhe do Homem-Aranha… Spiderman, dizem os jovens… e do Fantasma. Mas o nosso homem prefere o Batman, que é misterioso. E ele não dispensou nem a capa, nem o cinto de utilidades. Imagines o que há no cinto de utilidades… Diana, o nosso super-herói desembolsou uma nota preta… Cinquenta mil reais por duas horas. Duas horas é o tempo que tu tens para sugar-lhe as energias vinte vezes. Agrade-o, e ele retornará, com os bolsos cheios de dinheiro. Ah! Esquecia-me. Vê essa caixa… Pegue-a.

– O que tem aqui? – perguntou Gislaine, excitada pela curiosidade.

– A tua fantasia.

– A minha fantasia!?

– O nosso super-herói nos fez uma exigência: Quer que tu uses a fantasia que está nessa caixa: a da Mulher-Maravilha.

– Ufa! Eu estava preocupada… Pensei que fosse uma fantasia do Robin – comentou Gislaine. Ela e Ronaldo gargalharam.

– E ele quer que tu lhe faças um strip-tease, e o enlace com o cordão… Como ele me disse? Cordão da sinceridade. Da verdade. Não sei. E comece o strip-tease pelas botas. Ah! Não tires a máscara do teu super-herói. O nosso homem misterioso não quer que tu lha removas.

Gislaine meneou a cabeça, e sorriu. Ela e Ronaldo gargalharam.

– Agrade-o. Ele disse que virá, se tu agradá-lo, em outros finais de semana, e pagará cinquenta mil reais por hora.

– Na cama, comando a festa – disse Gislaine, que pegou a caixa com a fantasia da Mulher-Maravilha, deu meia-volta e foi preparar-se para a diversão com o seu super-herói.

Durante duas horas, Mulher-Maravilha e Batman digladiaram-se até exaurirem-se as energias, e sucumbirem, exaustos. Batman, um reles humano, não foi páreo para a deusa grega, que lhe sugou toda a energia. O super-herói prometeu visitá-la em outro final de semana; elogiou-lhe a beleza, despediu-se dela, e foi-se embora, renovando os elogios e a promessa de outras aventuras. Gislaine, sob o chuveiro, banhou-se; e enquanto preparava-se para receber outro cliente, perguntava-se quem era o homem sob a máscara.

*

Paulo evitou Gislaine o quanto pôde. Inventou compromissos para os raros minutos durante os quais as horas de folga deles coincidiam, à manhã e à tarde. Falavam-se apenas ao telefone. Paulo não sabia o que lhe diria se com ela se encontrasse. Amava-a; mas a perdoaria? Nos dias seguintes, apático, cabisbaixo, executou, mecanicamente, o seu trabalho.

Além de se ocupar de pensamentos relacionados a Gislaine, atormentou-se com outros pensamentos: diziam respeito ao comportamento de Gustavo e Renato. Não ignorava os olhares cobiçosos deles desde o dia que lhes apresentou Gislaine, que, formosa, morena de pele acetinada, pródiga de atrativos, atraiu-lhes a atenção; agora, ambos estão descompromissados. Renato divorciou-se de Juliana; Gustavo rompeu o namoro com Camila. Ambos sabem que Gislaine é uma das ‘meninas’ da Prazer Virtual. Gustavo, após o rompimento do namoro com Camila, mergulhou, de cabeça, na promiscuidade e no desregramento, e contratou serviços de prostitutas. Agora, sabedor da profissão de Gislaine, ele foi até a Prazer Virtual? E Renato, divorciado, certo de que poderia contratar os serviços de Gislaine, foi à Prazer Virtual? Ambos sabiam que Gislaine jamais falaria a respeito. Paulo remoeu tais pensamentos. Renato e Gustavo o traíram, ou o trairiam? Renato, ciente de que Paulo sofria, foi, ou iria, à Prazer Virtual? Renato era extrovertido, nunca lhe faltara com o respeito. E Gustavo, que rompeu o namoro com Camila? Ele vivia na promiscuidade, no desregramento, numa vida de dissipação. Atraiçoaria Paulo? Renato e Gustavo talvez sopesassem os seus desejos e a amizade de Paulo. Satisfariam o prazer, que Gislaine poderia lhes oferecer, ou respeitariam Paulo? Paulo acreditava que Renato e Gustavo viviam tal dilema. Eles, perguntava-se Paulo, faltar-lhe-iam com o respeito, para satisfazerem desejo irrefreável?

O que diria para Gislaine, ao se encontrar com ela? Não poderia evitá-la, todos os dias. Teria de falar com ela, algum dia. A raiva arrasava-o sempre que pensava em Gislaine. Desejava matá-la. Primeiro, iria surrá-la. Meneava a cabeça, sustentava-a com as mãos. Tais pensamentos, recorrentes, devastavam-no.

Paulo não podia evitar Gislaine, indefinidamente. Naquele dia, na empresa, dela recebeu um telefonema:

– Tu já almoçaste? – perguntou-lhe Gislaine.

– Não.

– Ótimo. Estou, aqui, no Garfo de Ouro. Espero por ti.

O coração de Paulo bateu acelerado. Paulo emudeceu.

– Paulo, tu me ouves?

– Sim.

– Espero por ti. Que horas sairás daí?

– Daqui a pouco.

– Queres que eu peça para ti o teu almoço?

– Não. Eu… Eu… Estarei aí daqui a pouco, e pedirei… Não estou com fome…

– Mas terás fome assim que chegares aqui. Espero por ti, querido. Um beijo.

Encerrada a ligação telefônica, Paulo sentiu os pés enraizados no chão, o corpo petrificado e a respiração suspensa. Sabia que não poderia evitar o encontro com Gislaine. Teria de olhá-la nos olhos. O que lhe diria? As pernas bambearam ao se levantar. Sentou-se. Fincou os cotovelos na mesa, curvou-se, e a cabeça pendeu como um bloco sobre as palmas das mãos abertas. Respirou profundamente. Soltou, com força, o ar dos pulmões. Massageou o rosto. Empinou-se. Ao encosto da cadeira, fincou o cotovelo direito no braço da cadeira, inclinou-se para a direita, com a mão sustentou a cabeça, e cerrou as pálpebras.

– Paulo, sente-te bem? – perguntou-lhe Gisele, uma funcionária, que entrou, naquele momento, na sala.

– Sim – disse Paulo ao erguer a cabeça e descerrar as pálpebras. – Sim. Eu pensava com os meus botões.

– Tu estás pálido. O que houve?

– Preocupações. Assuntos familiares.

– A família sempre nos dá preocupações – sentenciou Gisele, que se afastou, pontilhando os passos com o salto alto.

Com as pálpebras cerradas, Paulo encheu de ar os pulmões, e esvaziou-os pelo nariz. Entrelaçou os dedos das mãos, e estendeu os braços para o alto, mantendo a cabeça entre eles, espreguiçou-se e empinou o corpo. Na sequência, fincou os cotovelos na mesa, abaixou a cabeça, passou as mãos pelo rosto, encheu os pulmões de ar com um forte hausto, e expirou. Descerrou as pálpebras. Levantou-se. Empurrou a cadeira para trás. Com fisionomia carregada, andou até o elevador. Desceu ao térreo. Em completo silêncio, andou pelo saguão, atravessou a rua, e, com o coração aos pinotes, entrou no restaurante. Relanceou o olhar. Vislumbrou Gislaine, à mesa, levando à boca um copo de líquido transparente. Coçou o queixo, mordeu o lábio superior, coçou a testa, passeou as mãos pelo rosto, e andou na direção de Gislaine. Seu coração estrondejava. Sua mente, um turbilhão de pensamentos, que o avassalavam. Estava a dois passos de Gislaine quando ela se virou na direção dele. Ela sorriu. Paulo emudeceu. Gislaine trajava um vestido azul claro deslumbrante. O penteado dela sublimava-lhe a beleza dos cabelos; os lábios carnudos estavam realçados com batons escarlates.

– Feliz aniversário, querido.

Aniversário? Paulo esquecera-se do seu aniversário natalício.

Gislaine pousou-lhe no rosto as mãos e beijou-o nos lábios.

– Esqueceste que hoje é o teu aniversário?

O rosto de Paulo respondeu-lhe à pergunta.

– Esqueceste do teu aniversário – disse Gislaine, sorrindo. – Tonto. Senta-te. Almoçaremos… Como não poderemos nos encontrar à noite, fiz esta surpresa para ti. Há dias que quero almoçar contigo, mas tu estavas muito ocupado. Passou-me pela cabeça que tu me evitaste. Tu esqueceste do teu aniversário… Senta-te, Paulo. O que tu esperas? Queres que eu te empurre para a cadeira? Senta-te, tonto.

Paulo sentou-se à mesa. Sorria, confuso. Fitou Gislaine, fascinado. Pensou em lhe falar a respeito do que soubera, mas as palavras engasgaram-se-lhe no esôfago.

O almoço prolongou-se por duas horas. Paulo e Gislaine falaram do trabalho. Gislaine falou-lhe dos clientes indianos que atendera, dos produtos que vendera, da grosseria de alguns clientes, da simpatia de outros, de como era fácil agradar alguns clientes, e difícil agradar outros. As suas palavras assumiam, aos ouvidos de Paulo, um sentido diferente daquele que ela pretendia lhes emprestar. Ela empregou um expediente eficaz: falar dos clientes; todos os clientes são, uns, exigentes, outros, simpáticos, outros, ranzinzas, outros, extrovertidos, outros sugestionáveis. Gislaine não recuou ante nenhuma pergunta que Paulo lhe fez. As respostas saíam-lhe da boca, fáceis demais, pensava Paulo, enquanto a ouvia. Paulo procurava, na conversa, por uma brecha pela qual inserir o relato que, em pensamento, contava e recontava para si, mas não a encontrava, ou a encontrava, e contornava-a, em sua incerteza, incapaz de se decidir se falava para Gislaine a respeito da ‘profissão’ dela, ou se se calava a respeito. Calou-se.

Encerrado o almoço, à porta do restaurante, despediram-se. Gislaine desejou uma ótima tarde de trabalho a Paulo e pediu-lhe que ele lha desejasse uma ótima tarde de sono. Ele a desejou. Beijaram-se, apaixonadamente. No beijo, Paulo identificou um sabor indefinível, indescritível, que jamais havia experimentado.

Gislaine afastou-se, andando por entre a multidão. Muitos homens a fitaram. Paulo cerrou as pálpebras, meneou a cabeça, os braços ladeando o corpo, o tronco caído. Lágrimas se lhe afloraram aos olhos. Os lábios e o queixo se lhe tremeram. Cerrou os punhos. Rilhou os dentes. Franziu a testa. Comprimiu as pálpebras. Descerrou as pálpebras. Atravessou a rua. Foi ao prédio da Global Indústria e Comércio. Subiu até o 7º andar, de elevador, e mergulhou, de cabeça, no trabalho, para afugentar de si os pensamentos incômodos.

*

À frente da casa de Paulo, Gustavo convidou Paulo para um jogo de futebol, a se realizar dali duas semanas, no Campo do Quebra-Canela. Paulo ia recusar o convite; preparava as desculpas, quando Gislaine apareceu em seu campo de visão. Fitou-a. Ela lhe acenou. Gustavo voltou-se para ela. Boquiabriu-se ao vê-la. Seu coração vibrou, descompassado. Mordeu o lábio superior e desviou o olhar para, logo em seguida, olhar para Paulo. Entreolharam-se Paulo e Gustavo.

– Oi, querido – e Gislaine ofereceu seus lábios a Paulo, que os beijou, sob o olhar de Gustavo. Em seguida, ofereceu a face direita a Gustavo, que a beijou. – A respeito do que os meninos conversavam?

– Vim convidar o Paulo para um jogo de futebol, mas ele, parece-me, não aceitará o convite.

– Vá com ele, Paulo – disse-lhe Gislaine.

– O jogo não será hoje – respondeu Gustavo, antecipando-se a Paulo. – Será daqui duas semanas. Tenho de formar o time com uma semana de antecedência. O Carlos, o Denílson, o Wanderley, o Edson, o Rodrigo e o Renato aceitaram o convite.

– Com o Paulo, oito – disse Gislaine, ao enlaçar Paulo pela cintura, e beijá-lo no rosto. – Paulo, tu precisas se distrair – disse-lhe, fitando-o. – Tu trabalhas demais. Estás desanimado, triste – neste momento, Paulo e Gustavo entreolharam-se; voltando-se para Gustavo, Gislaine disse-lhe. – Ele está triste, não está, Gustavo? – e voltou-se para Paulo. – Olha o rostinho dele. Tão tristezinho – enlaçou-o pelo pescoço, e beijou-o nos lábios.

Gislaine disse-lhes que ia beber um copo de café-com-leite e comer algumas bolachinhas, pediu-lhes licença, e entrou na casa. Paulo e Gustavo permaneceram à porta. Paulo pediu-lhe que entrasse. Gustavo aceitou o convite. Estavam na varanda quando ouviram a voz de Renato. Estacaram.

– Caros colegas – saudou-os Renato. – Que dia maravilhoso. Realizei, hoje, um dos meus sonhos da juventude: Comprei uma bicicleta.

– Agora tu és um agente preservacionista, não-poluidor, um ecologista, e não quer poluir a Terra… – comentou Gustavo, sorrindo, mas Renato o interrompeu.

– Que papo furado, Gustavo – disse Renato. – Comprei a bicicleta porque a Juliana é a dona do carro. O carro é dela. Além disso, preciso perder as gordurinhas da barriga; elas são obscenas. Um pouco de malhação não faz mal a ninguém.

– E a Terra? – perguntou-lhe Gustavo. – Pensei que tu tivesses consciência ecológica. Pedalar uma bike e não poluir…

– A produção de bicicletas é uma atividade poluidora – sentenciou Renato. – As fábricas de bicicletas poluem a atmosfera e os rios. Quem foi que disse que as bicicletas são o melhor meio de locomoção? Monte uma bike e vá daqui até Brasília. Não precisa ir tão longe. Vá daqui até São Paulo. Ao chegar lá, a bicicleta estará em pandarecos, e tu, se estiver sobre ela, terás perdido cinquenta quilos e se transformado num esqueleto. O mais provável é que, ao chegar lá, se chegar lá, tu estejas carregando a bicicleta nas costas. E as peças de reposição? A produção delas não é uma atividade poluidora? As borrachas dos pneus, fragmentando-se, não poluem rios e lagos? E os esqueletos de bicicletas jogadas por aí…

– Tu não queres que a Terra viva – comentou Gustavo. – A Terra é a mãe Gaia, generosa e protetora.

– Se não te conhecesse, eu acreditaria que tu acreditas nessas baboseiras – disse Renato. – Gaia generosa e protetora! Asneira das grossas! Diga isso para um coelho que está nas garras de uma águia, ou para um rato que está na goela de uma serpente, ou para um gnu que está sendo trucidado por um leão, ou para um pingüim que foi abocanhado por uma baleia. Gaia protetora! Gaia generosa! Tu não és tão idiota quanto pensas que és.

Enquanto conversavam, entravam na casa Renato deixou a bicicleta – a magrela, nas palavras dele – na garagem, ao lado do carro de Paulo. Na casa, Renato saudou Gislaine, com um beijo no rosto. Quando Gislaine disse-lhe que não o via há dias, disse-lhe:

– Tu não me viste, mas eu te vi, dias atrás – e entraram a falar de eventos dos dias anteriores.

Paulo ficou intrigado com as palavras de Renato; notou que ele tratava Gislaine com desembaraço incomum; com ela Renato sempre agira com reserva; a beleza de Gislaine o intimidava; agora, ele, atrevido, gracejava, e assumia liberdade que, no trato com Gislaine, jamais tinha assumido. Intrigado, estudou-os; não deixou escapar de si nenhum dos movimentos deles, tampouco os de Gustavo, cujo comportamento contrastava com o de Renato. O olhar de Gustavo ia de Renato para Gislaine, de Gislaine para Renato; aos olhos de Paulo, Gustavo não apreciava a intimidade que Renato e Gislaine exibiam.

Beberam do café que Gislaine ofereceu-lhes. Como Paulo estava calado e Gustavo ensimesmado, Renato conduziu a conversa para a direção que quis.

Gislaine perguntou para Paulo se ele queria ir a um restaurante – ele disse-lhe que sim. E convidou Renato e Gustavo, e ambos declinaram do convite. Gislaine renovou-o. Eles, irredutíveis, disseram-lhe que tinham outro compromisso.

Renato e Gustavo despediram-se de Paulo e Gislaine.

A cem metros da casa de Paulo, Gustavo perguntou para Renato:

– O que há entre tu e a Gislaine?

– Entre eu e a Gislaine?

– Tu e ela conversaram, tão animados, tão felizes.

– Não há nada entre eu e ela.

– Tu não viste o Paulo, calado, triste…

– Vi. Eu quis animar, alegrar…

– Quanto mais tu e a Gislaine falavam, mais o Paulo afundava-se.

– Percebi que o Paulo está triste. Admira-me ele não haver dado um chute na Gislaine…

– É isso o que tu queres, não é?

– O que tu queres que eu queira? A Gislaine é uma das ‘meninas’ da Prazer Virtual. Ela mente, descaradamente, para o Paulo, que se definha a olhos vistos. Estou preocupado com ele.

– Queres que ele dispense a Gislaine, para tu a agarrares.

– O quê? Que tolice, Gustavo.

– Tolice, vi o jeito que tu olhaste para ela. Desconfio que tu nem esperaste o Paulo dar fim ao namoro, e foste até a Prazer Virtual…

– O quê! Não completes a frase. Não se julga um amigo com tal leviandade.

– Tu e a Gislaine pareceram-me muito íntimos, e também aos olhos do Paulo.

– Paulo e eu somos amigos. Estou feliz, hoje. Acordei com o pé direito, e quero extravasar a minha felicidade. O Paulo está triste, calado, taciturno. Tu, sorumbático. A única pessoa alegre, além de mim, lá, na casa do Paulo, era a Gislaine. Daí nos entendermos, hoje. Como eu disse, não entendo o que o Paulo pensa a respeito do namoro dele com a Gislaine. Se ele não o deu por encerrado… Teve um bom motivo. Qual motivo? Se ele não falou para a Gislaine, e não falou, estou certo, a respeito do que descobriu, ele está… Não sei o que ele está pensando. Desejo que ele tome a decisão certa.

– Que é mandar a Gislaine ir-se embora, escafeder-se.

– Sim. É a melhor decisão a se tomar; todavia, como eu disse, não sei o que se passa na cabeça do Paulo. Espero que ele não cometa nenhum crime.

– Matar a Gislaine?

– Nesta altura do campeonato…

– Diga-me, Renato…

– Ouça-me, Gustavo. Não sei o que se passa pela tua cabeça. Não preciso recapitular a tua vida nos últimos meses. A tua conduta, tu sabes, e melhor do que eu, é reprovável, e tu, sou sincero, perdeste certos escrúpulos; além disso, hoje, na casa do Paulo, tu te conservaste calado, provoquei-te, para ver se tu abandonavas o teu mutismo, que me dava nos nervos. Tu me olhavas como se me desejasse dilacerar. Incomodou-me a tua atitude. Pareceu-me, até, que tu estavas enciumado, e ainda está. Faço, para ti, a pergunta que tu me fizeste. Tu foste à Prazer Virtual? Ora, Gustavo, nós sabemos que sentimos atração pela Gislaine, mas, dar uma facada no Paulo pelas costas…

Gustavo abaixou a cabeça, desviou o olhar, e despediu-se, com rispidez, de Renato, que, com o olhar, acompanhou-o afastando-se de si e, assim que ele dobrou a esquina, montou na bicicleta, e pedalou até a sua casa.

Nos quatro meses seguintes, em alguns finais de semana, ou em qualquer outro dia da semana, Gislaine, Mulher-Maravilha personificada, acolheu, aos seus braços, o cliente que personificava o Batman. Tal cliente, que exigia Diana, sempre, e recusava as outras ‘meninas’, excitou a curiosidade de Ronaldo e a de Gislaine. Por que ele fazia questão de ficar com ela e recusava as outras ‘meninas’? perguntavam-se. Foram-lhe oferecidas Barbie, Mata-Hari, Marilyn, Brigite, Cleópatra. Ele as recusou. Ele, obcecado pela Diana, poderia vir a causar problemas para a casa e para Gislaine? Investigaram-no, durante alguns dias. Como ele se comportava com lucidez, e agia com urbanidade, e tratava Gislaine com carinho incomum, e foi compreensivo com ela nas duas ocasiões em que ela, exausta, não se desincumbiu, com a desenvoltura habitual, das suas tarefas, sendo que numa delas ela dormiu durante três horas, e ele não falara a respeito com Ronaldo, que tomou conhecimento do caso pela boca de Gislaine, ficaram cismados, mas não preocupados, convenceram-se de que ele não representava ameaças, embora houvesse uma pulga atrás da orelha de Ronaldo.

Certa noite, o cliente mascarado desembolsou cento e cinqüenta mil reais pelos serviços de Gislaine, por cinco horas – da meia-noite às cinco da manhã. Gislaine desdobrou-se com desenvoltura incomum até mesmo para ela. Divertiu-se. Usufruiu de prazer singular, prazer que ela jamais experimentara. A partir desta noite os seus sentimentos a atormentaram. Ela se via neles imersa, em todos os momentos. Gislaine ofereceu ao seu cliente mascarado três horas de diversão, na casa dela, mas lhe fez uma exigência: que ele não usasse a máscara. Ele recusou o convite; disse-lhe que sua esposa, que já suspeitava das suas atividades noturnas, poderia descobrir o que ele fazia durante as ‘reuniões’. Gislaine não insistiu, afinal, não desejava perder um cliente que lhe enchia as burras de dólares e euros, além de reais – ficou, entretanto, intrigada. Se ele a desejava, e apenas a ela, porque não queria ir à casa dela? Seria ele um homem excêntrico que sentia prazer apenas quando pagava pelos “serviços” de uma mulher? Ele, desde a juventude, à noite, na cama, dormindo, ou acordado, sonhava com a Mulher-Maravilha, e protagonizava, na sua fértil imaginação juvenil, o papel de Batman? E agora ele, homem maduro, realizava o sonho daquele garoto, satisfazendo-o? Gislaine ficou feliz ao se persuadir, durante as suas reflexões, de que não lhe satisfazia apenas aos prazeres do corpo, mas também aos do espírito. Perguntava-se o que se passava consigo e por que via os outros clientes com o rosto do Batman. E por que o seu cliente mascarado recusou o convite que ela lhe fizera? Ele lhe dissera que era casado. Seria um homem que ela conhecia, e temia que ela o reconhecesse? Ele era casado, ou mentia a respeito do seu estado civil, para afastar dela quaisquer suspeitas? Mergulhava nessas cogitações e nelas permanecia imersa por muito tempo, até que outras tarefas lhe absorvessem os pensamentos.

As surpresas que o amor reserva – parte 3 de 5

Não eram dez da noite. Na rua Juscelino Kubitschek, Paulo, exausto, ao volante do carro prateado com o qual Gislaine o presenteara no aniversário, passou em frente a Mercado Branco Empréstimos & Investimentos. Os seus olhos estavam fundos, as pálpebras, caídas sobre os olhos entreabertos. A primeira semana de trabalho na Global Indústria e Comércio consumiu-lhe as energias. Estava feliz com o novo emprego, desafiador – e o salário era ótimo.

Ao retirar-se da empresa, decidira ir à loja É luxo só! para comprar um vestido para Gislaine, um vestido, como ela dizia, escandindo as sílabas, maravilhoso.

Guiado pelo GPS, que se pronunciava com voz feminina, ria, a curtos intervalos.

Na rua Juscelino Kubitschek, esburacada, mal iluminada, sob as árvores homens e mulheres conversavam. Naquele bairro mal-afamado, freqüentado, à noite, por prostitutas, cafetões, traficantes de drogas, maconheiros e cocainômanos, em frente ao Mercado Branco Empréstimos & Investimentos, surpreendeu Paulo uma jovem, montada numa bicicleta vermelha, que lhe apareceu, na contramão, à frente do carro. Paulo pisou no freio. A moça, jovem de dezesseis, ou dezessete, anos de idade, fitou-o com olhos arregalados e pousou a mão direita sobre o capô do carro. Paulo desvencilhou-se do cinto de segurança, retirou-se do carro, e foi até a jovem, que, pálida, fitava-o e massageava a perna direita.

– Tu estás bem? – perguntou-lhe Paulo. – Te machucaste?

A jovem, com voz abafada, disse-lhe que não se machucara. De Paulo não passou despercebido o olhar assustado dela, tampouco o contrair dos músculos da face.

– E a tua perna? – perguntou-lhe Paulo, preocupado, ao vê-la massagear a perna direita.

– Não me machuquei.

Curiosos acompanharam o desenrolar dos eventos. Motoristas desviavam-se do carro de Paulo, a maioria, calado, outros, reclamando, exigindo de Paulo a remoção do carro do meio da rua, e uns, em tom desdenhoso, a remoção daquela lata velha, outros, esgoelando-se, perguntaram-lhe se ele era um cafetão, e a jovem, a sua mocinha de estimação. Tais palavras constrangeram Paulo, e a jovem, que sentia olhares reprovadores e lúbricos convergindo para si. Paulo, para poupar-lhe constrangimentos, exortou a jovem à prudência, decidiu encerrar a conversa, e voltou para o carro. A jovem, constrangida, disse-lhe que seria mais cuidadosa dali em diante, e afastou-se, pedalando a bicicleta.

Ao volante do carro, Paulo, com a atenção redobrada, atentou para os ciclistas e os pedestres. Não desejava que o surpreendesse outra ciclista imprudente, tampouco um pedestre.

Dobrou a esquina. Entrou à rua Juó Bananeri. Vislumbrou uma silhueta inconfundível, a cinquenta metros de distância: a de Gislaine. Arregalou os olhos, surpreso, estupefato. Debruçou-se sobre o volante. Indagou-se se seus olhos não se divertiam consigo, se já caíra no sono, e, naquele momento, na cama, sob o lençol, dormia profundamente, e sonhava com Gislaine, ou se protagonizava um pesadelo, ou se o incidente envolvendo-o e à jovem de bicicleta danificara-lhe os neurônios. Não era Gislaine aquela moça, naquele bairro mal-afamado… Paulo, como se despertasse de um transe hipnótico, esfregou os olhos com os nós dos dedos, e focalizou Gislaine. Assim que ela se voltou, como se esperasse por alguém, na direção de Paulo, mas sem vê-lo, ele teve a certeza de que ela era a Gislaine. O que ela fazia lá? Paulo estacionou o carro, com o auxílio de um flanelinha, que o saudou e disse-lhe, para tranqüilizá-lo, que o carro estava em boas mãos e que ele poderia se divertir até o Sol raiar. Paulo retirou-se do carro. O flanelinha deu-lhe um tapinha amigável no ombro esquerdo e renovou a sua promessa de zelar pelo carro – que estava em boas mãos, insistiu. Paulo fez-lhe um sinal de assentimento com a mão direita, o polegar destacado para cima e todos os outros quatro dedos encolhidos, fechou o carro, do qual acionou o alarme, e, fitando Gislaine, andou, passos apressados, entre os carros estacionados e os que passavam, na direção dela. Aproximou-se dela uns vinte metros. Ela andou no mesmo sentido que ele, desviando-se das pessoas que enxameavam a calçada. Para não a perder de vista, Paulo acelerou os passos, pôs-se na ponta dos pés, para distinguir a cabeça de Gislaine naquele mar de gente, e dela aproximava-se.

Gislaine deteve-se à frente de uma casa noturna, a Prazer Virtual. Paulo pôs as mãos, em concha, à boca, e preparou-se para gritar-lhe o nome, mas conteve-se ao vê-la saudar, com dois beijos no rosto, um homem de terno e gravata, e abaixou as mãos, e seu coração cessou as vibrações. Excluiu do seu campo visual todas as outras pessoas. O homem de terno e gravata e Gislaine abraçaram-se calorosamente. Paulo fitou-os, emudecido, embasbacado, boquiaberto. O homem e Gislaine entraram na Prazer Virtual, que, sabia Paulo, era uma casa de prostituição. Com a mente vazia, Paulo conservou-se, braços caídos justapostos ao corpo, olhos fitos na fachada da Prazer Virtual, indiferente ao que se sucedia ao redor, até que um homem, montado numa moto, com a viseira do capacete erguida, passando por entre os carros estacionados e os que se deslocavam, após frear, bruscamente, atrás de Paulo, que lhe obstruía a passagem, buzinou. Paulo deu passos, e ficou entre dois carros estacionados. O motoqueiro, esbravejando e exibindo gestos obscenos, afastou-se. Paulo, assim que retomou consciência de si, inclinou a cabeça para trás, cerrou as pálpebras, fitou as estrelas, inclinou a cabeça para a frente, massageou as pálpebras com as extremidades dos dedos indicadores, e, ao erguer a cabeça e fitar a fachada da casa noturna, tomou uma decisão: entraria na casa noturna, procuraria por Gislaine, e, ao encontrá-la, de lá a retiraria, e dela exigiria explicações. Ansioso, tenso, inseguro, o coração a vibrar descompassado, os passos incertos, foi em direção à Prazer Virtual. Detinha-se a cada metro percorrido, no temor de se deparar com Gislaine. Se a encontrasse, o que lhe diria? Não seria melhor dar meia-volta e ir-se embora? Esbarrou em algumas pessoas; pediu-lhes desculpas, e elas lhes pediram desculpas, outras, indiferentes a ele, ao nele se esbarrarem, continuaram a andar. Deteve-se Paulo à frente da Prazer Virtual. Indeciso, conservou-se, lá, observando as pessoas que nela entravam e as que dela saíam. Irresoluto, ajeitou os cabelos com as mãos, massageou o nariz, e enfiou as mãos nos bolsos anteriores da calça. Temia que alguém de sua família e de seu círculo de amizades o visse. Se algum familiar ou amigo dele viu Gislaine… Pensou em ir-se embora. Temia encontrar-se com Gislaine. Se fosse embora, depois, ao encontrar-se com ela, dir-lhe-ia que a viu na Prazer Virtual, na companhia de um homem? Paulo perguntou-se porque decidira passar por aquele bairro. Por que ouvira as orientações do GPS, aquela máquina diabólica, que lhe suprimia a faculdade de orientação pelas labirínticas ruas da cidade? Os seus pensamentos, tolices em estado bruto. Perguntou-se porque pensava tais tolices, tolices que jamais lhe aflorariam à mente se não houvesse sido privado da consciência. Talvez, pensou, fosse melhor ir-se embora, e esquecer o que viu. Mas tinha de entrar na casa noturna, e conhecer a verdade. Não podia se recusar a fazê-lo. Com as pernas trêmulas, foi até a portaria, enfiou a mão direita no bolso da calça, retirou a carteira, da carteira tirou uma nota de cem reais, e pagou pela entrada. Enfiou a carteira no bolso da calça, e encaminhou-se à porta. O segurança, um homenzarrão hercúleo de nariz achatado, cabelos rentes à cabeça, sobrancelhas debruçadas sobre os olhos, transmitia, com a força de sua expressão impassível, poder, como se fosse dotado de força capaz de trucidar um exército empunhando, unicamente, um osso de um javali.

Paulo entrou na casa noturna, misturou-se à multidão, esquadrinhou o salão. Do teto lâmpadas caleidoscópicas preenchiam, com a luz multicolorida, o salão repleto de gente eufórica, que dançava, ou ensaiava uma dança. Andou, vagarosamente, entre as pessoas, observando-as, avaliando-as. Havia pessoas de aspecto repulsivo, outras, atraente. Dentre as mulheres, muitas vergavam roupas provocantes, que lhes sublimavam a formosura, a exuberância do porte, salientavam-lhe os atrativos, e remexiam-se, voluptuosamente, atraindo os olhares e despertando o interesse dos faunos. Procurou por Gislaine durante quase uma hora. Mulheres abordaram-no, e propuseram-lhe uma noite de aventuras inesquecíveis. Esfregaram-se-lhe ao corpo as mais desinibidas. Certo de que Gislaine não se encontrava no salão, Paulo desistiu de procurá-la, transpôs o mar de gente, e foi ao balcão, que servia de parapeito para duas mulheres exuberantes, uma branca, loira, outra, negra, ambas espécimes femininas humanas esplendorosas as quais uma horda de faunos vorazes cobiçava. Chamou pelo balconista, que atendia a um homem engravatado, à direita das duas mulheres. Assim que o homem e as duas mulheres retiraram-se, ele enlaçando-as pela cintura, o balconista foi até Paulo.

– Aquele homem – comentou o balconista, apontando o homem e as duas mulheres – é um sujeito de sorte e gosta de aventuras radicais. Espero que ele sobreviva à esta noite, para nos dar lucro. Não temos interesse na morte dele – gargalhou, saudou Paulo, e perguntou-lhe o que desejava.

– Uma belíssima mulher – respondeu Paulo, simulando desinibição. Conteve-se no seu desejo de perguntar por Gislaine e dela apresentar-lhe uma descrição minuciosa caso ele dissesse que não a conhecia. – Aquelas duas mulheres trabalham aqui?

– Sim. A loira é a Barbie. A negra é a Cleópatra, a maravilha de ébano. Ela veio do Egito. Os homens a adoram.

– Elas estarão disponíveis, hoje…

– Não. Hoje, não. O nosso amigo, tu vistes, irá se divertir com elas durante esta noite, se elas não lhe extraírem a energia em vinte minutos. Não sei se ele tem energia para brincar com as duas bonecas até o galo anunciar o dia de amanhã. Talvez ele use uma pílula azul, ou duas, se lhe faltar energia. A Barbie e a Cléo estarão ocupadas durante esta noite… Queres agendar, para outra noite…

– Não. Não. Há muitas mulheres bonitas, como aquelas, para esta noite?

– Para esta noite, não sei se há alguma disponível. As meninas estão realizando as fantasias dos nossos clientes, que são muito criativos. Leram muito Aretino, Sade. Assistiram Tinto Brass.

– Quero uma morena – disse Paulo, cortando-lhe a palavra, com voz amistosa. – Gosto de morenas. Não dispenso as loiras, nem as negras, nem as orientais. Tu poderias verificar, no computador, se há morenas à disposição?

– Como eu te disse, acho que todas as meninas estão trabalhando… É o trabalho delas, tu sabes… E elas são bem remuneradas… Eu, para ganhar o que elas ganham em uma noite, tenho de trabalhar dez anos. Refiro-me às mais requisitadas pelos nossos clientes, que são exigentes e adoram o que de melhor a vida pode oferecer – enquanto falava, acessava os arquivos do computador; assim que concluiu a verificação, voltou-se para Paulo. – Todas as meninas estão trabalhando, hoje. A casa está cheia, como podes ver. Aqui aportam milionários, bilionários e trilionários de todos os quadrantes do universo. Americanos, europeus, japoneses, árabes, africanos. Muitos deles, providos de gostos exóticos (exóticos, segundo eles), exigem a mulher brasileira típica, isto é, provida de um arsenal de deixar todos os marmanjos de queixo caído. Preferência nacional. As morenas são as mais requisitadas. Tu tens de ver como os gringos olham para as meninas. Eles não acreditam no que os olhos lhes mostram. Beliscam-se, os nababos.

– Tu me disseste que poderei agendar…

– Sim. Com a menina que desejares. Como já viste, há a Cleópatra e a Barbie. Há, também, a Brigite, a Marylin, a Mata Hari, que é letal, e a Drunna, a Betty Boop, a Jéssica Rabbit, a Mary Jane, a Joana d’Arc, a Semíramis, a Marquesa dos Santos, a Capitu, a Rainha Vitória, a Gioconda, a Dama das Camélias, a Diana, a Iracema, a Sinhá Moça, a Sophia, e outras meninas, todas capazes de te conduzir para o sétimo céu.

– Eu gostaria de agendar, com uma morena…

– Morena… Alta? Baixa? Magra? Robusta? Há morenas para todos os gostos. Diga-me que tipo de morena preferes, e te direi quem és. Com base no que tu me disseres, com a descrição que tu me fizeres da mulher de tua preferência, consultarei o nosso banco de dados, para ver quais meninas correspondem ao teu gosto.

– Quero uma morena carnuda. Sou carnívoro, sabes? Descendente de índios antropófagos.

– Canibais…

– Exato. De silvícolas…

– Silvícolas…

– Povos das selvas…

– Navi’s?

– Naves!?

– Os azuis magricelas.

– Eles não são canibais. São criaturas idealizadas. A natureza nunca produziu, e nunca há de produzir, seres similares a eles, vivendo em simbiose com a mãe natureza.

– Obra de ficção.

– Sim. Eu me referia aos ameríndios.

– Ameríndios…

– Povos nativos das Américas.

– Américas!? Pensei que existisse apenas uma América.

– Não estamos falando o mesmo idioma.

– Sempre fui péssimo em geografia. Até hoje não sei se a Grécia fica na África ou na Ásia.

– A Grécia fica na Europa.

– Como vês… Geografia não é o meu forte.

– Se tu me apresentares uma morena de encher os olhos; que satisfaça a minha voracidade de silvícola ameríndio antropófago… Tu me entendeste…

– Canibal das florestas das Américas.

– Exatamente, se tu me apresentares uma daquelas belezuras, que me agrade, eu te darei aulas de geografia, e não te cobrarei nem um tostão, e tu jamais esquecerá que a Grécia fica na Ásia.

– Tu me disseste que a Grécia fica na Europa.

– Estás aprendendo.

– Pois, então, professor, digas-me qual é o teu desejo…

– Como eu te disse, sou antropófago. Aprecio carnes. Quanto mais carnes a mulher tem, mais suculenta ela é, e mais satisfará ao meu paladar. Não quero mulheres esqueléticas. Esqueças as que seguem a cartilha da moda. Quero carne. Sonho com uma mulher da minha altura, de olhos azuis, ou verdes. Os olhos verdes cativam-me. E ela tem de ter cabelos lisos compridíssimos, que chegam até a cintura, caídos à frente dos olhos. Gosto de mulheres de cabeleira basta. Tenho as minhas fantasias. Não sou diferente dos outros homens… Deles me distinguo nas preferências. Não sou um sujeito singular, conquanto eu seja provido de certas peculiaridades que raramente se encontram em outro homem… Gosto de mulheres de comissão de frente de bom tamanho; muito grande, não. Bolas de basquete… Não as quero. E tem de ter cintura fina, mas não muito fina; e quadris largos, mas não muito largos, e bunda avantajada, mas não muito avantajada, e lábios carnudos, mas não muito carnudos; e um bom balanceio de quadris.

Paulo fez a descrição de uma mulher que correspondia, em alguns aspectos, com a figura de Gislaine. Tomou o cuidado de não a descrever com exatidão, pois desejava não levantar suspeitas, pois, presumia, o balconista não era um paspalhão como dava a entender; havia, era certo, sido treinado para identificar policiais disfarçados, espiões de outras casas noturnas, cafetões, namorados e maridos ciumentos, pais enraivecidos, e outros promotores de contratempos incontornáveis.

Assim que Paulo encerrou a descrição da mulher que desejava, o balconista consultou o banco de dados, e disse:

– Temos oito meninas que correspondem, com dessemelhanças, à qual tu me descreveste: São morenas, de cabelos compridos, peitos firmes, olhos azuis, umas, verdes, outras… Belíssimas, todas elas. Supimpas! Vieram do paraíso. Escolha, dentre as oito maravilhas, aquela que preferires – e virou-lhe a tela do monitor, e explicou-lhe quais os procedimentos de acesso às informações a respeito das oito beldades. Na tela, as oito fotos – dispostas em duas linhas, quatro em cada uma delas, e sob cada foto, o nome artístico de cada mulher. Sob a segunda foto da segunda linha, um nome: Diana. A foto, para espanto de Paulo, era a de Gislaine. Paulo petrificou-se. Esvaiu-se-lhe a consciência. Conteve-se em seu desejo de agarrar o monitor e quebrá-lo na cabeça do balconista, saltar por sobre o balcão, e moer o balconista de pancadas. Não poderia transparecer nenhum sentimento que não o que coincidia com o de um homem à procura de prazer por uma noite. Para agir com atitude que correspondesse ao do personagem que interpretava, não clicou, de imediato, com o mouse, sobre o ícone associado ao nome Diana. Não queria despertar suspeitas.

– Para conhecer todas elas – repetiu-lhe o balconista -, basta clicar sobre as fotos. Tu acessarás páginas com fotos e vídeos das meninas.

Paulo nada comentou. Simulando seguir as instruções do balconista, clicou, no primeiro ícone, que trazia a foto de Iracema e acessou a página com vinte fotos dela e um vídeo de trinta segundos. Nas fotos, ela aprecia em poses discretas, e não revelava todo o esplendor da sua beleza. Era uma moça de uns vinte e cinco anos, de ar ingênuo – simulado, é provável, para seduzir os clientes. E Paulo assistiu ao vídeo. Iracema era uma mulher esplendorosa. Ao encerrar o exame das fotos e do vídeo de Iracema, Paulo passou para as fotos e o vídeo da segunda mulher, Gioconda; e na sequência, para os da terceira, os da quarta e os da quinta. À medida que se aproximava do ícone de Gislaine, o seu coração acelerava-se. Aos olhos do balconista, a sua atitude concentrada, seus olhos arregalados e o morder de lábios assumiram aspecto comum aos homens impressionados com o que admiravam. Ao fechar a página com as fotos e o vídeo da quinta mulher, Marquesa dos Santos, Paulo conduziu o cursor até o ícone de Diana, e hesitou. Bastaria um clique, e teria acesso a vinte fotos e ao vídeo. Mordeu o lábio inferior. Remoeu os pensamentos. Incapaz de coordená-los, clicou, hesitante, sobre o ícone. Abriu-se uma página. As fotos foram se lhe sucedendo aos olhos. Na tela do computador, vinte fotos de uma prostituta: Gislaine, nua. O que faria agora? Sabia que Gislaine encontrava-se, em um dos quartos, na companhia de um homem. Esmurraria o balconista, exigir-lhe-ia o número e a chave do quarto no qual estava Gislaine? Conteve-se, não sem esforço. Após ver todas as fotos, clicou no ícone do vídeo. Viu Gislaine insinuando-se, numas evoluções acrobáticas felinas, com o seu corpo esplendoroso, a sua graça juvenil, durante trinta segundos. Encerrado o vídeo, pensou em acessá-lo segunda vez. Não o fez, todavia. Fechou a página, e clicou sobre o ícone da sétima (terceira da segunda linha) prostituta, e o álbum de fotos passou diante de seus olhos. Paulo não atentou para nenhuma foto. Acessou o vídeo. Não o assistiu. Seus movimentos eram mecânicos, como os de um autômato. Ao final do vídeo da oitava mulher, Paulo, encerrada a pesquisa, disse que todas as mulheres eram belíssimas. O balconista perguntou-lhe qual a que mais o atraiu. Paulo fingiu olhar para as oito fotos, simulou indecisão, e, por fim, elogiando todas as oito mulheres, declarou que, de todas elas, a que mais o atraía era Diana, e teceu-lhe comentários elogiosos.

– Diana… – disse o balconista, com o olhar… apaixonado, dir-se-ia. Paulo rilhou os dentes, fuzilou-o com o olhar. – Diana… – e suspirou, olhando para o alto, para o vazio. – É uma belezura… Os clientes a adoram. Ela realiza as fantasias de todos eles. Todos eles lhe entreguem a senha da conta bancária. Ela recebe em dólares, em euros. Colares. Pulseiras. Pepitas de ouro. Anéis de diamantes, rubis e esmeraldas.

– Ela é mais bonita do que as outras moças.

– Todas as meninas são belíssimas. Eu gostaria de petiscá-las. Mas… Sou apenas o balconista. Elas cobram fortunas… Se eu tivesse uma conta bancária na Suíça…

– A Diana, tu me disseste, é adorada pelos clientes…

– Para muitos homens, que lhe devotam paixão, ela é uma deusa. Eles a reverenciam, servis. Diana tem muitos homens nas palmas das mãos. Ela estala os dedos, e os ricaços vêm, correndo, e arrojam-se, como cachorrinhos de estimação, aos seus pés, e os lambem, abanando o rabinho, os felizardos. Devotam-lhe obediência canina.

– Ela é poderosa, estou vendo.

– Poderosíssima! E de energia inesgotável. Em uma noite ela atende à três clientes; na outra, cinco. E não se cansa! Exibe, sempre, o esplendor de sua beleza majestosa. Há uns dez dias, seis empresários a contrataram. Divertiram-se com ela, das oito da noite às seis da manhã. Seis homens! Eles foram embora, satisfeitos. Prometeram voltar, e trazer amigos. Imagine o que ocorreu, no quarto. Lá há banheiro de hidromassagem, bebidas, brinquedinhos… Calígula se ruborizaria…

A raiva contida dilacerava o espírito de Paulo, que se esforçava para não transparecer os seus sentimentos.

– A Diana é poderosa – prosseguiu o balconista. – Uma mina de ouro. Uma jazida, pouco explorada, de pedras preciosas. Por hora, ela cobra dez mil reais.

– Dez mil reais?

– Sim. Por hora e por homem. Dos seis empresários, milionários todos eles, ela cobrou, por hora e por homem, trinta mil reais. Faça as contas. Os empresários desembolsaram, sem pestanejar, um milhão e oitocentos mil reais, e ainda presentearam a Diana com um colar de ouro cravejado de rubis e diamantes.

– Não acredito!

– Não acreditas? Pois acredite. Os empresários pagaram em dinheiro vivo. Aqui não entram cheques, nem cartões de crédito, e não assinamos recibo. Os empresários pagariam o dobro, o triplo, se a Diana lhes exigisse. Uma vez, vou te contar… Tu, incrédulo, não acreditas nas deusas. Uma vez, um milionário russo, proprietário de um petrolífero, ofereceu quinhentos mil dólares para a Diana brincar com ele durante uma noite, da meia-noite às seis da manhã. Sabes o que são quinhentos mil dólares? E tu pensas que não pagam o que a Diana pedir? Ela é a nossa melhor profissional. Ela e a Iracema são as melhores. As outras meninas também nos enchem as burras de ouro. Os patrões estão pensando em construir uma igreja, para agradecer a Deus pela beleza das meninas. Deus é generoso. Somos gratos a Ele… Não faremos, como os povos primitivos, sacrifícios de virgens. Não eram os astecas que sacrificavam, em holocausto, milhares de pessoas, todos os anos? Construiremos uma igreja luxuosa. A fortuna amealhada pelas meninas nos permitirá construir uma basílica maior e mais luxuosa do que a de Aparecida. Tu desejas agendar uma noite com a Diana? Ou uma hora? Ou duas horas? Vamos ao computador. A Diana é muito requisitada…

Paulo e o balconista conversaram durante um bom tempo. Paulo disse que o preço a pagar pelos serviços das ‘santinhas’ não estava ao alcance de seu bolso. O balconista, jocoso, disse-lhe que ele poderia abater no imposto de renda, incluir o pagamento à Diana no campo das despesas médicas, pois ela, um santo remédio, previne complicações cardíacas, respiratórias, acne e caspa, além de outros benefícios.

Paulo despediu-se do balconista.

No carro, ao volante, lágrimas encheram-lhe os olhos, e tremeram-lhe os lábios. Segurou o volante, curvou-se, nele pousou a cabeça, e cerrou as pálpebras. Lá permaneceu, até o flanelinha tocar, com o nó do dedo indicador direito, na janela do carro. Paulo, disfarçando seus gestos, removeu as lágrimas dos olhos, e desceu a janela; o flanelinha perguntou-lhe se ele não se sentia bem. Paulo disse-lhe, numa voz sussurrada, quase inaudível, que estava um pouco cansado.

– Se precisar, doutor, me chame – disse o flanelinha, solícito. – Às suas ordens…

Paulo agradeceu. O flanelinha afastou-se. Agora ele sabia como Gislaine conseguira dinheiro para comprar dois carros e uma casa. Um carro custava cinquenta mil reais, o outro, oitenta mil reais; a casa, quinhentos mil reais. Era muito o dinheiro que entrava na conta bancária de Gislaine, e em tão pouco tempo. Paulo de nada desconfiava. Como podia ser tão ingênuo! Paulo perguntou-se quantos amigos de Gislaine e quantos amigos dele eram clientes dela, e quantas amigas dela trabalhavam na Prazer Virtual, e se amigas dela – dentre as que ela lhe apresentou, Gisele, Daniela, Rosângela, Denise, Tábata, Tamíris – são prostitutas contratadas pela Prazer Virtual. Não reconheceu, nas fotos das moças que viu, nenhuma das amigas de Gislaine, mas ficou com a sensação, indefinível, de que a Barbie não lhe era desconhecida. E ela o fitou de um modo que, agora Paulo compreendia, era o de uma pessoa que o conhecia, que dele zombava, ao mesmo tempo que temia que ele encontrasse Gislaine na Prazer Virtual. Em retrospectiva, era isso o que Paulo pensou haver visto em Barbie. Cobriu os olhos com as mãos, os cotovelos fincados no volante. O que faria, agora? Espancaria Gislaine? Roia-se de ódio. No dia seguinte, assim que a encontrasse, pensou, agarrá-la-ia pelo pescoço, e a sufocaria. Agarrá-la-ia pelos braços, arrastá-la-ia até um terreno baldio, rasgar-lhe-ia as roupas, a estupraria, vingando-se, assim, dela; ou contrataria uma prostituta, e com ela manteria o intercurso carnal, na própria cama, para que Gislaine os surpreendesse; ou contrataria um homem para estuprar Gislaine, enquanto ele, Paulo, assistiria ao estupro; ou permaneceria, no carro, até Gislaine retirar-se da casa noturna, segui-la-ia até a casa dela, e, lá, dir-lhe-ia que a vira na Prazer Virtual. Sua mente estilhaçou-se em bilhões de partículas. Tremeram-lhe as pernas. Lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos, e escorreram-se-lhe pelo rosto. Os lábios se lhe tremeram. Os músculos se lhe crisparam. Rilhava os dentes. Bufava.

Ligou o carro após duas horas imerso em lucubrações, pensamentos homicidas a lhe acossarem a mente, indagando-se se enlouqueceria.

Sob orientações do flanelinha, manobrou o carro, cuidadosamente, entre os dois carros que o espremiam naquele espaço reduzido. Dirigiu até a sua casa. Deixou o carro na garagem. Entrou na casa; não fechou a porta. A debulhar-se em lágrimas, jogou-se na cama. Chorou convulsivamente. Tremia. Estava certo de que a sua vida encerrava-se naquele momento. O mundo havia se lhe desabado sobre a cabeça. Pensou em pegar de um revólver, e atirar ou na boca, ou na têmpora. O sono surpreendeu-o, estirado na cama, da qual ele se retirou, na manhã seguinte, sob o esgoelar estridente do despertador. Banhou-se. Bebeu de um copo de café. Comeu duas bolachas de maisena. E foi-se para a Global Indústria e Comércio. Na caixa de mensagens do seu telefone celular, duas mensagens de Gislaine. Não as acessou. Pensou em instalar uma câmara oculta num dos quartos da Prazer Virtual e gravar um vídeo de Gislaine, na cama, com outro homem, e, depois, exibir o vídeo para o pai e a mãe de Gislaine, ou postá-lo na internet. Meneou a cabeça. Sorriu. Não sabia se afugentava tais pensamentos de si, ou se, com o auxílio de uma das ‘profissionais’ da Prazer Virtual, executava o seu projeto. Era certo que algumas delas eram desafetas de Gislaine, e aceitariam, de bom grado, sem remuneração, uma incumbência que a prejudicasse, e a eliminasse. Se Gislaine era, como disse o balconista, tão requisitada pelos clientes, é certo que as outras ‘meninas’ cobiçavam os milionários que ela agradava. Não seria difícil persuadir uma delas a participar de tal atividade. Não teria, acreditava Paulo, nenhuma dificuldade para reunir umas dez ‘meninas’, maquinar o projeto, pô-lo em execução em poucos dias, e expor Gislaine à irrisão pública. Imaginou o constrangimento dela diante dos próprios pais, e de outros familiares, todos assistindo ao vídeo.

No almoço, no restaurante **, Paulo, cabisbaixo, sozinho, à mesa, cortava um bife de alcatra. Renato deu-lhe um tapinha nas costas; ia acertar-lhe um tapa na cabeça, mas, ao vê-lo levar, com o garfo, o pedaço de bife à boca, recuou em seu propósito. Paulo voltou-se, assim que cerrou a boca ao prender o bife entre os dentes, para ele, e saudou-o. Renato puxou uma cadeira, sentou-se, fitou Paulo, cuja figura, consumida pelo sofrimento, revelou-se-lhe aos olhos, e indagou-lhe o que lhe sucedera. Paulo abaixou a cabeça. Renato anunciou a chegada de Gustavo, e Márcio, um amigo de Gustavo. Saudaram-se. Márcio, convidado, por Renato, a sentar-se na cadeira desocupada, de frente para Paulo, recuou do convite, desejou-lhes bom apetite, disse-lhes que já se fartara, no restaurante vizinho, anunciou a sua ida até a loja de dvds. Aproveitaria os minutos que lhe restavam de descanso, e procuraria pelo filme Era uma vez no Oeste, e, para Adriana, sua filha, os desenhos animados Aladim, Toy Story e Pequena Sereia, e retirou-se.

Gustavo, à saída de Márcio, voltou a sua atenção para Paulo, cujo olhar, perdido, e cuja fisionomia, entristecida, não lhe passaram despercebidos.

Entreolharam-se Renato e Gustavo, intrigados.

O garçom aproximou-se da mesa à qual estavam Renato, Paulo e Gustavo. Com uma caneta esferográfica azul, anotou, num pequeno bloco de papel que cabia na palma de sua mão, o pedido que eles lhe fizeram. Assim que ele se retirou, reinou, àquela mesa, silêncio constrangedor. Renato rompeu o silêncio ao dirigir-se a Paulo: indagou-lhe o que lhe ocorrera, disse-lhe que a aparência dele era de causar repulsa, perguntou-lhe do namoro dele com a Gislaine, e completou:

– Seja bem-vindo ao time dos solteiros.

Seu chiste extraiu um sorriso contido de Gustavo e nenhuma reação de Paulo, que moía um pedaço de bife e remoía os pensamentos. Paulo, ensimesmado, perguntava-se se inteiraria Gustavo e Renato do sucedido na véspera. Expôr-se-lhes-ia, se lhes revelasse a sua miséria? Gustavo e Renato eram seus amigos. Gustavo lhe falara, sem reservas, do rompimento do seu namoro com Camila – não foi fiel aos eventos, como indicavam as notícias que a Paulo chegaram, mas ele não lhe ocultara o que sentia; Renato também não lhe ocultara o seu caso com Juliana. Paulo, agora, abrir-se-ia para com eles? A vergonha impedia-o de fazê-lo. O que lhes diria? Que Gislaine era uma prostituta? De cabeça abaixada, debruçado sobre o prato, conservou silêncio imperial durante um bom tempo. Renato e Gustavo, enquanto degustavam do almoço, falavam de futebol, não com a extroversão habitual; descreveram, lacônicos, numa voz monótona, algumas cenas de jogos que mais lhe atraíram a atenção. A atitude deles não passou despercebida de Paulo, que, constrangido, deu início à narrativa, repleta de reticências, recuos, cortes abruptos, dos eventos da véspera. Renato e Gustavo dedicaram-lhe, em silêncio absoluto, atenção integral.

As surpresas que o amor reserva – parte 2 de 5

– Arrumei um novo emprego, Paulo – disse Gislaine, sorridente, animada, na varanda. Estreitou Paulo ao corpo, cingiu-o, com os braços, pelo pescoço, colando seu corpo ao dele, e beijou-o. Paulo encostou-se no carro, e enlaçou-a pela cintura.

Gislaine descolou seus lábios dos lábios de Paulo, e disse-lhe:

– Consegui um novo emprego, melhor do que o anterior. Tu não me acreditarás – beijou-o, duas vezes, e prosseguiu: – Receberei, nos três primeiros meses de trabalho, o dobro do salário que recebo na Atlântico Empreendimentos Imobiliários; depois, dependendo da minha desenvoltura, o meu salário poderá quintuplicar.

– Em que empresa irás trabalhar? – perguntou-lhe Paulo.

– Na Telemarketing.com.Brazil.

– Que empresa é essa? Dela nunca ouvi falar.

– É uma empresa que presta serviços para empresas indianas…

– Tu trabalharás na Índia?

Gislaine sorriu e beijou-o, e, fitando-o, perguntou-lhe, zombeteira:

– Sabes que estamos em pleno século XXI?

Paulo simulou azedume.

– Vou recapitular os principais eventos deste início de século: o ataque terrorista que destruiu o World Trade Center; o ataque terrorista a Londres; o ataque terrorista a Barcelona; a guerra no Iraque; a guerra no Afeganistão.

– Não deboches, Gislaine.

– Tu sabias que já inventaram a internet? Já ouviste falar de telemarketing? Sabes o que é videoconferência? Já viste um telefone celular?

– Chata! És chata.

– O homem já foi à lua, sabias? Bobo, não trabalharei, na Índia, não. Bobinho. Trabalharei, aqui, no Brasil, para a nossa felicidade. Não irei para a Índia. Eu gostaria de visitar o Taj Mahal. É o meu sonho. O Taj Mahal é uma das sete maravilhas do mundo, e eu o visitarei, um dia.

– E eu irei contigo?

– Não sei… Pensarei a respeito. Tu sabes quem me falou do emprego na Telemarketing.com.Brazil? A Marilene, hoje, de manhã, um pouco antes das sete horas. Eu saía de casa; à porta, enquanto a fechava, a Marilene saudou-me, perguntou-me se eu ia para a empresa, para trabalhar, e disse-me que hoje é dia de folga dela. Ela usava uma camisa regata e uma calça de malha. Saíra para caminhar. Passaria na casa da Solange. Como o Sol, hoje, quer torrar a Terra, e assar-nos a todos nós, para satisfação de uma raça alienígena, a Marilene e a Solange combinaram de caminharem. Para benefício do coração, claro. Não reconheceriam que querem perder os pneuzinhos… Nós mulheres não somos vaidosas… Quê! Ficar bela e atraente para atrair os homens? Não. As mulheres somos independentes. Os homens nós mulheres os dispensamos. Nos embelezamos para a nossa satisfação narcísica, indiferentes ao que os homens pensam de nós. Há alguém, neste mundo de Deus, que acredita nesta bobagem?

– Perdi o fio da meada, Gislaine. Do que tu me falavas? Recapitulando: Uma raça alienígena inteligente aportou na Terra e, por meio de uma empresa de telemarketing, ensinou mitologia grega às mulheres. O mentor intelectual alienígena, Narciso, na Índia, abduziu engenheiros e arquitetos indianos em cujos cérebros implantou o conhecimento da ereção do Taj Mahal e das outras seis maravilhas, mas o Sol, antipático…

Gislaine cobriu-lhe a boca com a mão direita e a mão direita com a mão esquerda, ordenou-o que se calasse, e disse-lhe que lhe liberaria a boca se ele prometesse manter-se em silêncio e a ouvisse, sem interrompê-la, atentamente. Paulo assentiu, com o olhar e o sorriso.

– A Marilene, hoje de manhã, falou-me da empresa de telemarketing, que queria contratar uma pessoa com boa dicção, bom vocabulário, desembaraçada, e que soubesse falar, fluentemente, inglês e espanhol. Assim que cheguei na Atlântico, conversei com a Luciana a respeito; ela, com uma pulga atrás da orelha, perguntou-me se se tratava de uma empresa séria, ou uma empresa de fachada; disse-me, quando lhe fiz referências ao salário que a empresa oferecia aos operadores de telemarketing, que quando a esmola é demasiada até o santo desconfia, e aconselhou-me prudência. Telefonei para a Telemarketing, agendei a entrevista, e fui lá. Durante a entrevista, que durou duas horas, o entrevistador conversou comigo em inglês e em espanhol. Bobo, ele, né!? Coitados dos candidatos que, desconhecendo esses dois idiomas, dizem que os conhecem! Depois, ele simulou uma conversa telefônica. O entrevistador… Como é mesmo o nome dele? André, ou Adriano, ou Adrien, não me recordo. Após o encerramento da conversa telefônica, disse-me ele que apreciara o que ouvira, e perguntou-me se eu poderia começar a trabalhar, na segunda-feira, na Telemarketing. Não pensei duas vezes: eu lhe disse que sim, poderia. A partir de segunda-feira, Paulo, trabalharei pelo dobro do salário que recebo na Atlântico.

– Parabéns – disse Paulo, que lhe deu um beijo nos lábios, e mordeu-lhe o queixo assim que ela ergueu a cabeça para lhe falar:

– Trabalharei segunda-feira, à noite.

Paulo afastou-se dela a cabeça, fitou-a, surpreso, e indagou-lhe:

– À noite? Trabalharás à noite?

– Sim. À noite. A Índia, no outro lado do planeta… Já ouviste falar de um continente chamado Ásia? A Ásia é um continente imenso, e lá estão a Índia, a China, as Coréias, o Japão. Japão é uma ilha, e…

– Boba. Sei disso. Mas, à noite… Trabalharás à noite… E nós? Trabalharás à noite. Dormirás, portanto, à tarde; e eu, que durmo à noite…

– Muita coisa mudará, eu sei. Nos adaptaremos aos novos tempos. Nos encontraremos nos finais da tarde e nos dias de folga. Trabalharei em alguns finais de semana; em outros, não. Como tu, terei dias de folga. E os meus dias de folga poderão coincidir com os teus. Mudaremos alguns dos nossos hábitos. Alguns? Não. Alguns, não. Muitos. No início, será difícil, eu sei. Trocarei o dia pela noite e a noite pelo dia. Imagino como me ajeitarei nesta nova fase da minha vida. Melhor: da nossa vida. Estamos juntos, né, Paulo? Nos entenderemos um com o outro, como fazemos desde que nos conhecemos de um jeito inusitado. Lembra-se? Tu pisaste-me o pé, malvado.

– Pisei-te o pé? – perguntou Paulo, sorrindo. – Mentirosa. Não pisei-te o pé.

– Não!? Não pisaste!? Recapitulemos a história. Eu andava, calmamente, pela cidade. Tirei da bolsa a carteira, por alguma razão, da qual não me recordo, e uma valiosa moeda prateada de borda dourada cunhada por mestres moedeiros escapou-se-me das mãos, rolou pela calçada, deu cambalhotas, cabriolas, piruetas, executou manobras radicais e foi parar a alguns metros de mim, e eu, que não desejava perder tal preciosidade, agachei-me, e foi então que um ilustre desconhecido, um sapo presunçoso, que pensa ser um príncipe encantado, pisou-me… Ah! Paulo… Chato!

– Pisei-te o pé? Continues com a narração da história. Tu já pensaste em escrever um livro? Tu serias uma ótima escritora. Escreva uma estória com fidelidade aos fatos, como tu a pouco provaste ser capaz de fazer, se auto-intitular uma escritora realista, existencialista, e coisa e tal, e o sucesso estará garantido. É tiro e queda, minha princesa fofinha!

Beijaram-se. O deslize de Gislaine inspirou piadas e comentários zombeteiros de Paulo, piadas e comentários que inspiraram réplicas de Gislaine, às quais Paulo não deixou de apresentar as tréplicas. Estenderam-se em provocações; simularam irritação, até que decidiram conversar, sérios, sobre a vida deles dali em diante.

Transcorreram-se os dias. Paulo e Gislaine enfrentaram alguns incidentes indesejáveis, que geraram atritos entre eles.

Gustavo, em certa ocasião, contou para Gislaine e Paulo, que Camila o procurara, e confessara-lhe o desejo de com ele reatar o namoro, pois havia se arrependido do ato reprovável que cometera, e pediu-lhe desculpas. Gustavo relatou o episódio com tanta convicção que Paulo e Gislaine nele acreditaram. Dias depois, Paulo ouviu, de Camila, outra história: a de que Gustavo tivera um caso com uma mulher que conheceu em Ubatuba, nas férias, e que ela, Camila, e não Gustavo, rompera o namoro, e Gustavo a procurara, pedira-lhe desculpas, e dissera-lhe que desejava reatar o namoro, e ela o recusara. Paulo acreditou no que ela lhe disse. No dia seguinte, contaram-lhe outras versões da história protagonizada por Gustavo e Camila, uma novela cujo enredo era mais complexo do que os relatos de Gustavo e Camila davam a entender e envolviam outros personagens. Paulo, amigo, tanto de Gustavo quanto de Camila, conservou-se à parte da trama; não tomaria o partido de nenhum deles. Ouvia-os, sempre que eles lhe confidenciavam os sentimentos, os pensamentos, mas não assumiu uma posição favorável a nenhum deles. O que ele teria de fazer? Gustavo narrava-lhe uma história; Camila narrava-lhe outra história. Outras pessoas que lhe falavam a respeito contavam-lhe outras histórias, inseriam outras personagens, adicionavam outros capítulos, e outros motivos, para apimentar a novela, pois a realidade, presumiam, carecia de ingredientes que lhe realçassem o sabor.

Renato, certo dia, foi à casa de Paulo, e falou para Paulo da crise conjugal: Juliana pedira o divórcio. Motivo: Incompatibilidade de gênios. Paulo pensou em perguntar-lhe: “Descobriram-na após dois anos de namoro e três anos de vida conjugal?”, mas conteve-se. Ouviu-o, atentamente; exortou-o a aceitar o divórcio, e resolver, rapidamente, e sem o auxílio de um advogado, o caso, antes que as vozes dos sensatos persuadissem-no a mudar de idéia, e consultasse pessoas em quem ele confiava; dentre outros, Clóvis e Maria Elizabeth, pai e mãe de Juliana, que os ajudariam a chegar a um entendimento e, quem sabe? reatarem o casamento. Renato fitou-o com olhar reprovador. Paulo pediu-lhe desculpas. Renato disse que jamais perdoaria Juliana. O tom de sua voz e o seu olhar persuadiram Paulo de que sofria deveras. Renato amava Juliana. A separação feria-o profundamente. Se ele pudesse evitá-la, evitá-la-ia. Encerrado o assunto, falaram de Gustavo e Camila. Renato teceu os seus comentários: suspeitava que Gustavo faltava com a verdade; defendeu Camila, que não era a pervertida que Gustavo descrevia. Depois, Renato perguntou de Gislaine. Paulo falou-lhe do trabalho de operadora de telemarketing; não atentou, no início, para a tristeza que a sua felicidade infundia em Renato, que o ouvia, com o olhar perdido, vazio, o rosto a expressar a dor que o afligia, mas, assim que a notou, abreviou os elogios à Gislaine, e sem dar um corte abrupto à conversa, passou a tratar de fofocas, esportes e filmes. Renato falava, num tom pausado, medindo as palavras; corrigia-se ao perceber que empregava palavras que não reproduziam os seus pensamentos. Paulo teve de interrompê-lo inúmeras vezes para lhe pedir esclarecimentos.

Nas semanas seguintes, Paulo colheu mais informações a respeito de Gustavo e Camila. Nenhuma delas projetou luz sobre o caso; ao contrário, todas obscureceram-no. Quanto mais informações reunia, mais obscura a questão se tornava. Ficou preocupado com a conduta de Gustavo, desregrada e inconsequente. Madalena, mãe de Gustavo, e Elói, pai dele, contaram a Paulo as preocupações que a conduta de Gustavo lhes inspirava. Elói, em tom confidencial, disse-lhe que Gustavo nunca primou pelo comportamento exemplar, e evocou episódios sucedidos quatro anos antes – dos quais Paulo recordava-se. Paulo disse-lhe que Gustavo se regenerara. Elói meneou a cabeça. Gustavo, disseram Madalena, Elói, amigos e familiares, frequentava prostíbulos e, em um bar, discutiu com uma prostituta, deu-lhe um tapa, e dois homens o estapearam, e ele correu, desajeitadamente, embriagado, perdeu o equilíbrio, escalavrou os joelhos, o cotovelo, e bateu, ao cair, após tropeçar num paralelepípedo, com a testa numa raiz de uma árvore. Tal notícia entristeceu Paulo, que foi à casa de Gustavo, e passou-lhe descompostura. Não foram raras as ocasiões em que Gustavo e Paulo discutiram, e Gustavo exibiu desprezo por ele, e insultou-o com os vocábulos mais ferinos que conhecia e com insinuações maldosas a ele, Paulo, e a Gislaine. Não foram raras as vezes que Paulo virou-lhe as costas, prometendo, enfurecido, para si mesmo, que excluiria Gustavo do rol de seus amigos – tal promessa ele não a cumpriu. Sempre que Gustavo solicitava-lhe ajuda, ajudava-o; inúmeras foram as vezes que Elói e Madalena, privados de paciência, solicitaram-lhe ajuda, e Paulo os ajudou a socorrer Gustavo ou a remediar males por ele causados; certa ocasião, carregou-o ao hospital após ele sofrer convulsões em decorrência do excesso de ingestão de bebidas alcoólicas, maconha e cocaína.

As surpresas que o amor reserva – parte 1 de 5

À porta de uma lanchonete, que nos finais de semana servia pratos típicos da culinária árabe, às oito horas da noite, Gislaine agachou-se para pegar uma moeda de R$ 1,00, que, da sua carteira, havia caído no chão. Paulo, distraído, alternando a sua atenção entre as placas luminosas e as belas mulheres que passavam por ele, pisou, involuntariamente, com o pé esquerdo, a mão de Gislaine, e recuou, automaticamente, o pé. Gislaine soltou grito de dor, agudo, puxou a mão, sem a moeda, de debaixo do pé de Paulo, ergueu-se, contraídos os músculos do rosto, e fitou Paulo, que se voltara para ela e, constrangido, com voz hesitante e frases entrecortadas, desculpou-se e, sem tomar consciência dos seus atos, segurou-lhe a mão. Gislaine preparou uma ofensa, em sua explosão de raiva, a qual ela abafou ao deparar-se com o rosto de Paulo, visivelmente preocupado e constrangido. Paulo, ao mesmo que se desculpava, massageava-lhe a mão. Gislaine sorriu, divertida. Ele, constrangido, desculpava-se. E desculpava-se. E desculpava-se. Ânimo serenado, Gislaine pediu a Paulo que lhe soltasse a mão, e ele desculpou-se uma vez mais, e soltou-a. Enquanto massageava a mão e avaliava as unhas esmaltadas, disse para Paulo que derrubara uma moeda, e olhou para o chão à procura dela. Um moço imberbe de cabelos encaracolados apontou para a moeda, atrás do pé esquerdo de Paulo, que olhou para trás, agachou-se, pegou-a do chão, e entregou-a para Gislaine, que a recolheu à carteira.

Gislaine, que segurava a alça da bolsa que trazia a tiracolo, e Paulo, que olhava de um lado para o outro, sorriram, encabulados, constrangidos, em silêncio, um de frente para o outro, até ela perguntar para ele:

– Qual é o teu nome?

Paulo disse-lho, e ela lhe disse o dela. Coçou a cabeça com a mão direita, enfiou a mão esquerda no bolso posterior esquerdo da calça, depois a mão direita no bolso posterior direito, e relanceou, visivelmente constrangido, o olhar em torno de si, sentindo o rosto a ruborizar. Intimidou-o o olhar de Gislaine, que, sorrindo, perguntou-lhe qualquer coisa. Paulo ouviu-lhe a voz, mas não ouviu-lhe a pergunta, voltou-se para ela, e emitiu um “Quê?” mal pronunciado. Gislaine passeou a mão direita pelos cabelos, ajeitando-os às costas, enquanto repetiu-lhe a pergunta. Queria saber dele para onde ele iria. Paulo disse-lhe que ia para uma pizzaria. Gislaine olhou para a lanchonete, sorriu, apontou-a, como se observasse: “Veja, Paulo. Estamos diante de uma lanchonete. Convide-me”. Paulo entendeu o recado, e disse-lhe que são saborosos os lanches servidos naquela lanchonete, mas, naquela noite, estava com vontade, e tinha de satisfazê-la, de comer uma pizza. Gislaine, insinuante, ofereceu-se para acompanhá-lo até a pizzaria, surpreendendo, favoravelmente, Paulo, que abriu um largo sorriso.

– Gosto de pizza com camarão, catupiry e azeitona – disse Gislaine, sorrindo, meiga. – Não sei quais são os preços das pizzas. Trinta reais, acho. Tu pagarás pela pizza, afinal, convidaste-me depois de eu te convidar para me convidar. Para tu não pensares que sou uma mulher abusada, aproveitadora e interesseira, te ajudarei, com a moeda de um real que derrubei no chão, a pagar pela pizza.

*

O Sol, na manhã do dia seguinte, um domingo, dia quente, despontou cedo. O sono pesado propiciou sonhos inspiradores a Paulo, que evocou os eventos da véspera, seu encontro com Gislaine e a conversa, na pizzaria, que se estendeu até uma hora da madrugada. Recapitulou-a, durante o banho de meia hora. Encerrou o banho assim que a campainha estridulou quatro vezes: dois toques, um curto intervalo, e dois toques. Paulo sabia quem a premiu: Gustavo. De todas as pessoas que conhecia, ele era a única que deste modo premia a campainha. Perguntou-se porque cada pessoa aperta a campainha de um modo distinto. Essa questão daria uma tese sociológica, concluiu. O estudioso que a apresentasse com observações argutas seria laureado, é certo, com o Ignóbel, talvez com o Nobel.

Paulo se enxugou. Vestiu-se. Penteou os cabelos, e foi atender à porta. Enfiava a chave na fechadura, quando Gustavo premiu a campainha quatro vezes.

Paulo sorriu, e abriu a porta.

– Do que ris, Paulão? – perguntou-lhe Gustavo, ao fitá-lo. Paulo disse-lhe a razão do sorriso. E Gustavo comentou: – Já atentei para essa questão. Não entendo porque, até hoje, nenhum intelectual brasileiro debruçou-se sobre assunto tão instigante. Ora, com um estudo penetrante do ato de apertar campainhas um intelectual superará as obras arcaicas, que merecem o limbo, de todos os intelectuais brasileiros que já passaram pela face da Terra. As infinitas maneiras de apertar campainhas deveria ser objeto de estudos dos melhores intelectuais brasileiros. E as universidades brasileiras, sabemos, e não o ignoramos, estão repletas de gênios, daí serem as melhores universidades do mundo. O estudo do ato de apertar campainhas oferecerá meios para uma análise acurada da sociedade brasileira. Os intelectuais brasileiros, seres privilegiados, dotados de intelecto superior, após diagnosticarem o comportamento dos brasileiros e a formação histórica do Brasil, prognosticarão o seu desenvolvimento, e aviarão as receitas para sanar todas as mazelas que assolam o país. E o país entrará, definitivamente, no século XXI, e, antes dos outros países, no século XXII.

Divertiam-se com tais gracejos quando ouviram uma buzina. Do carro, do outro lado da rua, Renato gritou-lhes:

– Corinthianos dorminhocos! Não acordaram, palmeirenses? O tempo não para. Ó – e tocou, no mostrador do relógio ao pulso, o dedo indicador direito, mostrando-lhos, como se eles pudessem ver os ponteiros do relógio. – Sabem que horas são, palmeirenses corinthianos? Oito horas. Oito, não… Deixe-me ver – e avaliou os ponteiros – oito e quatro. Vocês ficarão, aí, de namorinho, dondocas? Não se embelezaram ainda, corinthianos são-paulinos?

Paulo e Gustavo exibiram-lhe gestos obscenos, exigiram-lhe que calasse a boca, e disseram-lhe que se retratasse, ou o surrariam até enviarem-lo para o inferno.

Renato retirou-se do carro, trancou-o, acionou o alarme, e foi até Paulo e Gustavo. Saudaram-se com apertos de mãos, tapas na nuca e pontapés. Entraram na casa. Na cozinha, Paulo preparou o café-da-manhã, Renato abriu a geladeira, inspecionou-a, reclamou da escassez de víveres, e declarou que, se ocorresse, naquele momento, uma catástrofe nuclear, Paulo morreria de fome; em seguida, inspecionou a despensa, e admirou-se com as prateleiras quase vazias. Reclamou. Gustavo saiu em defesa de Paulo, o que inspirou muitas insinuações maledicentes a Renato.

Retiraram-se meia hora depois de beberem, Paulo, leite, Renato, um dedo de café, como ele disse, e Gustavo, água, e comerem, Paulo, bolachas waffles de morango e uma maçã, Renato, duas bolachas de maisena, e Gustavo, duas bolachas de leite.

Rumaram para o campo de futebol, localizado à dez quilômetros de distância. Conversaram, durante o percurso. Renato perguntou para Paulo quem era a morena que o acompanhava pela avenida Dom Pedro II. Paulo falou-lhes de Gislaine.

A conversa, entrecortada por críticas à prefeitura municipal, que não consertava as sinuosas estradas esburacadas – de competência do governo estadual, observou Gustavo -, que requeriam de Renato destreza ao volante, e por impropérios e blasfêmias, estendeu-se até a chegada no campo de futebol.

– Chegamos ao Maracanã – exclamou Paulo.

– É um elogio? – perguntou-lhe Renato, zombeteiro.

Gargalharam.

Os jogadores, durante o jogo de futebol, que não foi um espetáculo digno de Copa do Mundo, ofereceram aos espectadores – cem pessoas, se muito – cenas que os célebres jogadores das seleções mundiais não oferecem: lances divertidos e inexplicáveis, irreproduzíveis pelo que tinham de cômico e grotesco. Além dos quadrúpedes, que se autodenominavam jogadores de futebol, integravam os times seres humanos do gênero masculino que sabiam distinguir um coice de mula de um lance de calcanhar e sabiam que estavam num campo de futebol, conquanto se perguntassem o que havia sido feito do gramado, e não em um octógono.

O time integrado por Gustavo, Paulo e Renato e outros oito jogadores candidatos à seleção brasileira de futebol comemorou a vitória, no campo, em um churrasco, após a turma do deixa-disso apaziguar os ânimos dos jogadores mais exaltados do time derrotado, jogadores que desejavam converter o campo de futebol em um campo de batalha. Um deles, Edmundo, embora destituído de habilidade futebolística, atribuía-se talento ímpar, e dizia que se rivalizava com Pelé e Garrincha. Desconhecia as regras básicas do futebol. Durante o jogo, ele chegara ao desplante de pôr o dedo em riste no nariz do árbitro – que não se curvou diante dele – e descarregou a sua raiva na bola, nos jogadores do time adversário e nos do próprio time, toda vez que um destes dava um passe errado, ou, ao chutar a bola para o gol, o goleiro a agarrava, ou a bola ia para fora.

A alegria foi incontível durante a comemoração, os jogadores do time vitorioso, e os do time derrotado, que chutaram a tristeza para escanteio e participaram da festa comemorativa como se vitoriosos fossem. Edmundo, é desnecessário dizer, não participou da festa. Havia se retirado do campo, resmungando, amaldiçoando os jogadores vitoriosos, prometendo vingança, exigindo uma revanche. Foi ao seu carro, trocou de roupas, na companhia de três jogadores do seu time – todos, enfezados, destilavam ódio e descarregavam obscenidade. Pouco depois, entraram no carro, e foram-se embora.

A festa comemorativa estendeu-se por três horas. Renato elogiava Paulo sempre que evocava Gislaine. Seus comentários, misto de louvores à beleza de Gislaine e obscenidades. Paulo, ligeiramente constrangido devido às licenças poéticas que Renato assumiu, não teceu comentários, e tentava desviar a conversa para outros assuntos. Falaram de futebol, de política, de filmes, de relações internacionais. Renato apresentou comentários estapafúrdios sobre os mais diversos assuntos, todos hauridos de telejornais e de sites sensacionalistas.

Na viagem de regresso, iam, Renato ao volante, Paulo, no banco do carona, e, no banco traseiro, Gustavo, Marcos e Jefferson. Renato evocou, mais uma vez, Gislaine, e exigiu de Paulo uma narrativa minuciosa das aventuras da véspera. Gustavo, Jefferson e Marcos engrossaram o coro. Paulo conservou silêncio sepulcral a respeito, apesar do assédio de que era vítima e das ameaças recorrentes de seqüestro e tortura.

Às seis horas da tarde, Paulo telefonou para Gislaine. Marcaram um encontro, às oito da noite, no restaurante Ba***. Gislaine antecedeu-se a Paulo em dez minutos. Estava deslumbrante. O seu vestido, mesclado de cores verdes e azuis de diversas tonalidades, modelava-lhe o talhe, realçava-lhe os atrativos. O decote, conquanto discreto, revelava-lhe as formas suaves do busto. Os cabelos volumosos encaichoeiravam-se-lhe pelos ombros, costas e busto; os brincos iridescentes adornavam-lhe o belo rosto. Paulo, ao entrar no restaurante, conduzido por um garçom, boquiabriu-se, embevecido, ao fitar Gislaine à mesa. Saudou-a, e elogiou-lhe a beleza. Gislaine, envaidecida, acolheu os elogios, e sorriu, encabulada.

Durante o jantar, que se estendeu das oito à meia-noite, Paulo e Gislaine degustaram de pratos saborosos e conversaram. Narraram um para o outro episódios da própria vida, felizes e tristes, contaram anedotas, e trataram de questões que estavam fora da alçada deles, a respeito das quais, entretanto, teceram alguns comentários. Riam à toa. Continham-se, para não gargalharem. Em não raras ocasiões, Gislaine surpreendeu Paulo alheado, desatento, sorridente, e perguntou-lhe se ele a ouvia, e ele disse que sim, que a ouvia, e ela lhe perguntou a respeito do que falava, e Paulo, constrangido, sorria – ou simulava constrangimento -, e ela lhe dizia que estava magoada, e fazia beicinho. E ambos riam.

Paulo conduziu Gislaine à casa dela. Na sala, beijaram-se e estreitaram-se num abraço caloroso.

*

– Te vi e a Gislaine – disse Renato -, ontem, à noite, no restaurante Ba***.

– Por que não nos foste cumprimentar? – perguntou-lhe Paulo.

– Não quis atrapalhar o jantar dos dois pombinhos – disse, jocoso, Renato.

– Que atrapalhar… – exclamou Paulo.

– Eu atrapalharia, sim. Além disso, eu estava acompanhado da Jú, e, segurando a vela, a Magali, que, por sorte, não é comilona.

– Segurando vela! – exclamou Paulo, indignado. – Não diga isso da menina. O pai dela está no hospital…

– É – sussurrou Renato, em tom compungido. – Eu e a Jú o visitamos, ontem. O sogrão melhorou. Está bem, tendo-se em vista o estado dele há uma semana… Clóvis… Por um triz… A família, de sobreaviso… Previram a morte dele… A sogrinha, que não é protagonista de piada de sogra… Não gosto de piadas de sogras. A minha mãe é sogra, sogra de uma nora e de um genro… Duas vezes sogra. Eu dizia que a sogrinha telefonou para os filhos e para as filhas, e deu-lhes a notícia. Encomendavam um caixão para o carequinha…

– O Daniel não te criticou?

– Criticar-me pelo quê? Por eu ter ido no jogo, ontem?

– É.

– Não. Não. Eu não iria ao jogo, mas a Jú, após eu lhe dizer que eu pediria para o Marcelo, irmão da Taís, a casada com o Vicente, ir no meu lugar, pois eu teria de desfalcar o nosso time, que não poderia jogar com dez jogadores, disse-me que eu fosse ao jogo. Fiquei sem graça. Ela me disse que eu precisava descansar, desanuviar a cabeça. Além de dez horas de trabalho por dia e das preocupações com o meu sogro, tive de me preocupar com a minha mãe e com o Leandrinho, maldito garoto peralta! Ele executou manobras radicais com a bicicleta, esborrachou-se no chão, e quebrou a perna, o maldito moleque!… Foi aquela correria. Passei por um aperreio que você não imagina… O Daniel, embora seja um cara intragável, e com ele não me bico, ontem, ao me encontrar, nada me disse. Não sei se ele sabe que fui ao futebol. Acredito que sabe. Ele não perde uma oportunidade de me censurar… Ele que me venha com aquele ar de besta, que lhe enfio um soco nas fuças, e o mando daqui para o cafundó-do-judas. Vamos esquecer isso. Diga-me, daí, ô bonitão, como foi o jantar com aquela belezura. Ela não é muita areia para o seu caminhãozinho, não?

Gargalharam.

– Desembuche, Paulo.

– Desembucha? O que é isso? Um interrogatório?

– Amigos não têm segredos para com os amigos.

– Sei. Tu tens uma sentença para quando queres extrair informações de alguém, ou fazer valer as tuas idéias, os teus pontos e vista, impô-los, ou desmerecer quem discorda de ti…

– Chi! – exclamou Renato, num misto de zombaria e azedume. – Tu fundirás teu cérebro, se persistires nessa lengalenga. Dá-lhe um fim, antes que tua cuca se bunfa… se funda. Basta de rodeios, Paulo. Diga-me o que aconteceu ontem. Tu e a Gislaine…

Simulando má vontade, Paulo deu-lhe um relato minucioso do ocorrido na véspera. Renato devotou-lhe toda a atenção do mundo, e disse-lhe, profético, que aquela novela se encerraria com os dois, Paulo e Gislaine, no altar, tendo, ao fundo, a Marcha Nupcial; constatou que os olhos de Paulo irradiavam, e o seu sorriso exibia, era inegável, paixão.

– Tu a apresentarás para mim e para a Jú – com essas palavras, Renato encerrou a conversa.

Na sexta-feira, à noite, Paulo e Gislaine, Renato e Juliana, Gustavo e Camila encontraram-se no restaurante X***. Renato e Gustavo admiraram Gislaine durante o jantar. Não passou despercebido de Juliana e Camila os olhares embevecidos com os quais eles a fitaram. A calça e a camisa que Gislaine vergava revelava a sua silhueta magistral. Juliana pensou em esganar Renato. Camila visualizou Gustavo com o pescoço na guilhotina. Ambas queriam decapitar Gislaine, furar-lhe os olhos, mutilá-la. Contiveram os ímpetos homicidas açulados pelo ciúme. É desnecessário dizer que houve, após o jantar, rusgas entre Camila e seu namorado e entre Juliana e seu marido. Também é desnecessário dizer que Paulo e Gislaine notaram os olhares dos seus amigos, o de Camila e o de Juliana.

O namoro de Paulo e Gislaine prosseguia. Discretos, eles não se expandiam, em público, nas exibições de carinho; se muito, um beijo rápido e abraços. Certa vez, uma amiga de Gislaine falou-lhe a respeito da discrição deles, em tom de reprovação; Gislaine disse que não protagonizavam cenas tórridas de paixão em público porque não viviam numa novela e não tinham porquê exibir, em público, com indiscrição, a paixão que nutriam um pelo outro. A sua interlocutora exibiu-lhe um sorriso de repulsa, e dela zombou, alcunhando-a quadrada, careta e antiquada.

*

– Quero casar de véu e grinalda, Paulo – disse Gislaine, ao mesmo tempo que, com as mãos espalmadas sobre o tórax de Paulo, afastava-o de si, e fitava-o nos olhos, com olhar constrangido, como que receando ferir-lhe os sentimentos.

– Gislaine – disse-lhe Paulo, medindo as palavras -, amo-te… desejo-te… Namoramos, há um mês… – as reticências decorriam da confusão de sentimentos sob ditames de duas forças polarizadas, disparadas uma contra a outra, que o impediram de pensar adequadamente: o amor que nutria por Gislaine e a raiva em ter de, mais uma vez, refrear os seus desejos. Não queria desrespeitá-la; esforçava-se por compreendê-la.

– Sei que tu me tem amor sincero. Vejo, nos teus olhos, no teu semblante…

– Tu me rejeitas…

– Não rejeito…

– Então…

– Amo-te, Paulo… Jamais senti tanto amor… Quero-te… Quero casar contigo.

– Tu sempre…

– Entenda-me, Paulo. Por favor, entenda-me. Quero ir para o altar de véu e grinalda… Pensei em deixar de lado os meus sonhos e… Paulo, entenda-me, por favor…

Paulo abaixou a cabeça, curvou-se, fincou os cotovelos nas pernas; conservou os dedos entrelaçados. Os seus pensamentos, vórtices devastadores, arrasaram-lhe o espírito. Gislaine enlaçou-o, e beijou-lhe a face esquerda. O contato daquele corpo voluptuoso inebriava-o. Paulo pensou em abandonar as suas reservas, atrair para si Gislaine, envolvê-la, estender-se em carícias, ditar-lhe palavras sedutoras, que a desguarnecessem, e ela, vulnerável, ceder-lhe-ia aos desejos, os quais ela refreava em nome de um valor para ela inegociável; conteve-se, entretanto. Gislaine passeou-lhe pelos cabelos as mãos sedosas, osculou-o no rosto e na testa, carinhosamente; com palavras cativantes, fê-lo sorrir ao descrever-lhe a vida em comum de marido e mulher felizes.

*

Renato e Gustavo, sempre que se encontravam com Paulo perguntavam-lhe a quantos quilômetros andava o namoro dele e Gislaine, e se eles já transgrediram alguma lei de trânsito por excesso de velocidade. Paulo sonegava-lhes as informações que eles, com perguntas de duplo sentido, faziam-lhe. Eles não desistiriam: De Paulo extrairiam, prometeram-se, informações reveladoras. O assédio o induziria a, involuntariamente, revelar qualquer coisa. E Renato e Gustavo redobraram os seus esforços, principalmente nos dias em que Paulo mostrava-se acessível, mas Paulo não cedeu um milímetro de sua posição.

*

Eram nove e meia da noite. Na avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso, no sentido centro-bairro, num carrinho de lanche, Rodolfo e Érica atendiam os seus cientes. Das seis da tarde até aquela hora serviram mais de vinte x-tudo, mais de dez x-salada, mais de dez x-eggs e mais de quarenta lanches de outras variedades – os quais prepararam com perícia incomum -, e mais de cem copos de refrigerantes de mais de dez sabores. Numa das mesas, sobre a calçada, uma televisão e um aparelho de DVD. Quatro clientes de Rodolfo e Érica – dois rapazes debruçados sobre uma mesa de plástico, sentados numa cadeira de plástico, com os cotovelos fincados na mesa, e um casal, ele, branco e loiro, ela, negra de cabelos compridos, sentados à uma mesa de plástico, as cadeiras justapostas, ele à esquerda dela – assistiam ao filme Transformers, fascinados com os robôs alienígenas e com os efeitos especiais. Em um certo momento, o homem perguntou para a mulher:

– Quando o Brasil produzirá um filme com efeitos especiais tão bons?

E respondeu-lhe ela:

– Quando os Estados Unidos produzirem filmes com efeitos especiais mil vezes melhores do que os que produzem.

Um carro estacionou a poucos metros do carrinho de lanches. Dele desceram Paulo e Gislaine. Ele trajava uma bermuda verde-abacate e uma camisa do Barcelona, tendo, às costas, um nome: Messi; ela, uma saia florida, que lhe descia até a metade das coxas, e uma camisa verde-claro decotada estampada de pequenas estrelas amarelo-alaranjadas. Aproximaram-se do carrinho de lanches. Saudaram Rodolfo e Érica. Sorridente, Gislaine perguntou para Érica se o sobrinho dela já nascera, e pediu-lhe detalhes. Érica disse-lhe que João Camilo, seu sobrinho, filho de Mariana, sua irmã, nasceu na quarta-feira, e forneceu-lhe outras informações a respeito dele: o tamanho, o peso, a cor dos cabelos. Enquanto Gislaine e Érica conversavam, Paulo pedia para Rodolfo dois x-tudo, e um suco de uva – “Tinto, seco ou suave?”, perguntou-lhe Rodolfo – e um suco de açaí – o de uva Gislaine o beberia; o de açaí, Paulo.

Os dois rapazes que assistiam ao filme enquanto comiam o lanche e bebiam do refrigerante, voltavam a intervalos de tempo não muito curtos, a atenção para Gislaine. À outra mesa, o homem branco e loiro olhava para Gislaine com certa insistência; ao sentir o olhar da mulher que o acompanhava projetando-se sobre si, desviava-o, e simulava interesse pelo filme.

Assim que chegaram três moças ao carrinho de lanches, Paulo e Gislaine foram até uma das mesas desocupadas, e sentaram-se, ele à direita dela. Pouco depois, Érica levou-lhes os x-tudo e os sucos. As três moças sentaram-se, cada qual em uma cadeira, formando um triângulo, e conversaram, animadas.

Os relógios não anotavam dez horas quando Gustavo desceu de uma bicicleta e acenou para Gislaine e Paulo. Saudou-a com um beijo no rosto, e Paulo, que, com as duas mãos segurava o sanduíche, com um tapinha nas costas. Paulo, a boca cheia, nada lhe disse.

Gustavo disse-lhes que compraria um x-tudo e um refrigerante, estacionou a bicicleta ao lado da mesa, e foi até o carrinho de lanches, pediu para Érica um x-tudo e um copo de refrigerante de guaraná, e retornou à mesa à qual sentavam-se Paulo e Gislaine, puxou uma cadeira para si, e nela sentou-se. Assim que esvaziou a boca, Gislaine perguntou-lhe de Camila.

– Briguei com ela – respondeu Gustavo, ríspido. – Não quero falar dela. Virei a página.

O seu tom de voz excitou a curiosidade de Paulo e Gislaine, que se entreolharam; nenhum deles, no entanto, atreveu-se a dar sequência ao assunto, e calaram-se. Gustavo, conquanto declarasse que não queria que Camila fosse o tema da conversa, poucos minutos depois tocou-lhe no nome, e, sem que Paulo e Gislaine lhe fizessem alguma pergunta, revelou-lhes o episódio da sua discussão com ela e do rompimento do namoro, definitivo, declarou. Gislaine e Paulo, vendo-o expandir-se nas confidências, extraíram-lhe, com perguntas aparentemente desinteressadas, relatos minuciosos do que ocorreu durante a semana. Paulo ficou, ao mesmo tempo, perplexo e desconfiado; perguntou-se se Gustavo dava-lhes um relato fidedigno do ocorrido, ou se criara um roteiro, no qual apresentava-se como uma vítima humilde, digna de comiseração, de uma mulher sórdida. A reputação de Camila não inspirava uma imagem tão negativa; Paulo não acreditava que ela fosse capaz de ato tão ignóbil. E Gustavo, que Paulo conhecia muito bem, não era flor que se cheirasse, sabia, e evocou o caso dele com a Denise (que Gustavo traiu, e com uma das amigas dela); sabia que não podia nele confiar. Gislaine ouviu atentamente a história narrada por Gustavo; não teceu nenhum comentário, e nenhum julgamento fez, pois mal o conhecia e mal conhecia Camila.

Ao se despedir, à meia-noite e meia, de Paulo e Gislaine, ao lado do carro de Paulo, Gustavo, montado na bicicleta, com o pé direito no pedal, estendeu a mão direita a Paulo, que lhe oferecera sua mão direita, e apertou-a; ato contínuo, deu um beijo no rosto de Gislaine, que lhe oferecera o rosto, e afundou o pé no pedal ao mesmo tempo que lhes desejava boa-noite. Não havia deles se distanciado cinco metros, voltou-se para trás, e, olhando por sobre o ombro direito, fitou Gislaine; e voltou-se para a frente; após verificar que não havia nenhum obstáculo à sua frente, olhou por sobre o ombro direito, e fitou Gislaine, e nela concentrou o seu olhar até ela entrar no carro.

Em lados opostos

– Você não me acreditará, Feliciano. Você irá me chamar de mentiroso. A Jaqueline está no papo. A gata é minha. Fez-se de difícil, a maldita, mas caiu na lábia do garanhão. Feri-lhe o ego. Mulher vaidosa, ela não suportou ser passada para trás, e cedeu aos meus desejos. Que mulher! Nunca tive em meus braços mulher tão bela! Eu e ela principiamos o namoro na sexta-feira. Ela pensava que não cairia em meus braços. A felina recolheu as garras. Eu a terei em meus braços sempre que a desejar. Ela irá satisfazer todos os meus desejos e todas as minhas fantasias. Eu disse para você que eu conquistaria a Jaqueline. Aquela gata não poderia me escapar, e não me escaparia, e não me escapou. Ela é minha. No domingo, eu e ela fomos pra Ubatuba. Você tinha de ver como os marmanjos olhavam pra ela. Babavam de desejo. Você tinha de ver com que cara eles ficavam ao me ver passando o bronzeador e o protetor solar na Jaqueline. Eles não queriam acreditar no que viam. A Jaqueline pensou que eu não a conquistaria. Sem falsa modéstia, sou irresistível. Sei como convencer uma bela mulher a ceder aos meus desejos. Tenho as minhas artimanhas. Nenhuma mulher que desejei resistiu ao meu charme. E não seria a Jaqueline que resistiria. Eu convidava a Jaqueline para jantar, e ela, soberba, nariz empinado, rejeitava os convites. Eu a convidava para almoçar; ela rejeitava os convites. Eu a convidava para um passeio; ela recusava os convites; não os recusava, rejeitava-os, e tratava-me como capacho. Ela, uma vez, me humilhou diante da Vilma. Foi constrangedor. O sorriso da Jaqueline… Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Aquele sorriso… Veneno de uma víbora. O sorrisinho da Jaqueline, e o da Vilma… Não desisti. Eu tinha de fazer jus à minha masculinidade. Convidei a Jaqueline para ir ao teatro, ao cinema, ao zoológico, à praia, e para almoçar, lanchar, jantar; mas ela, soberba, rejeitou todos os convites que lhe fiz. Ora, o ditado não diz que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Portanto, insisti, e insisti, e insisti. Demorei para me convencer de que, ou a pedra era dura demais, ou o ditado está errado. Foi aí que vi que os ditados são inúteis e reconheci que a minha estratégia de conquista estava errada. A abordagem direta era inútil. Eu teria de usar outra abordagem. Matutei. Inspirado pelos prazeres que eu prelibava… Gostou desta? Poético, não? Eu, inspirado pelo desejo da carne, criei outra estratégia: Abordagem indireta. Eu sitiaria a Jaqueline. Eu iria ferir a vaidade dela. As mulheres bonitas são vaidosas, você sabe. Elas querem que os homens as reverenciem. Jaqueline ficava, é certo, orgulhosa, cheia de si, quando eu me derretia por ela. Ela se considerava a mulher mais desejável do mundo. Eu mostraria pra ela que ela não é a mulher mais importante do mundo. Eu não a convidaria mais. Eu a esnobaria. Eu a ignoraria solenemente, nem olharia pra ela; se ela estivesse próxima de mim, mas não conversando comigo, e eu conversasse com outra pessoa, eu elogiaria a beleza, os encantos, os atrativos de outras mulheres. Eu tinha casos com a Adriana, com a Cinira e com a Andressa. Usei-as pra provocar a Jaqueline. Eu as beijava gulosamente sempre que a Jaqueline olhava pra mim. Eu elogiava todas elas, principalmente a Andressa, que é uma gata; não tão bonita quanto a Jaqueline, mas uma gata… A Jaqueline, eu via nos olhos dela, ficava fula, mordia a língua. Ela sentiu, na carne, a dor do desprezo; e a vaidade falou mais alto. Ela começou a se insinuar pra mim. Eu fingia que não percebia, que não era comigo. Eu a ignorava solenemente. Ela me abordava, contendo-se, e perguntava-me se eu tinha compromisso, ou na hora do almoço, ou à noite, ou no final de semana, mas nunca me dizia porque me fazia tal pergunta. Eu sempre lhe dizia que sim, que, ou tinha um compromisso, ou um encontro. Eu sabia que a fortaleza enfraquecia-se, e que, com uma investida certeira, eu a destruiria, e teria acesso a prazeres indescritíveis… Era tudo uma questão de tempo. Quando eu menos esperasse, e sem que a Jaqueline desconfiasse que eu lhe manipulava os sentimentos e a induzia a fazer o que eu desejava que ela fizesse, ela se lançaria aos meus braços, e se me ofereceria, e eu usufruiria dos prazeres mais sensacionais que eu jamais poderia imaginar. A Jaqueline abordava-me, insinuava-se, e eu a rejeitava, e dava-lhe a entender que eu preferia outra mulher. Eu ia à balada com a Natália, com a Úrsula, com a Arlete. Quando a Jaqueline estava por perto, eu elogiava a Natália, a Arlete, a Úrsula, a Andressa, a Adriana, a Cinira. Eu declarava que não conhecia mulheres tão bonitas quanto elas, e a minha voz chegava aos ouvidos da Jaqueline. Dentre elas, Natália era a que eu mais elogiava. Natália! Que loirinha! Eu sabia que ela e a Jaqueline não se bicam. Elas se detestam. O mundo é pequeno demais para as duas. A Jaqueline irritava-se sempre que me via com a Natália. A Natália é bonita, atraente, desejável. Todavia, não se compara com a Jaqueline; eu, no entanto, dava a entender o contrário. E a Jaqueline mordia-se de raiva! Na sexta-feira, os episódios desta novela sucederam-se num ritmo vertiginoso. Eu estava na minha casa, sozinho, quando a campainha soou. Você é capaz de adivinhar quem premiu a campainha? Abri a porta. O tempo parou. Meu queixo caiu. A Jaqueline, vestida para matar, aproximou-se de mim, abraçou-me, e beijou-me. Foi uma noite maravilhosa. O início do meu namoro com a Jaqueline, auspicioso. A Jaqueline é minha, inteiramente minha, exclusivamente minha. Não quero mais saber de outra mulher. Quero a Jaqueline, apenas a Jaqueline. Não preciso de outra mulher. A Jaqueline satisfaz-me em todos os sentidos e todos os meus sentidos. Não preciso de outra mulher. Sou apaixonado pela Jaqueline. Meu coração é dela, e o dela é meu. Conquistei a Jaqueline. Conquistei a mulher dos meus sonhos. Ela é minha. Inteiramente minha. Exclusivamente minha. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

*

– Daiane, os homens são patéticos. Eles acreditam que sempre estão por cima; que são os conquistadores; que são espertos. Eles acreditam que são mais espertos do que as mulheres, as controlam e as obrigam a satisfazer-lhes todos os desejos. Eles vivem no mundo da fantasia! Eles se recusam a entender que o mundo pertence às mulheres e que a eles cabe o papel de coadjuvantes. Esqueça Casanova e Dom Juan, dois gabolas mentirosos. Você acredita nas histórias que eles escreveram? Eles são famosos, mas qual deles foi poderoso? Pompadour e Cleópatra foram poderosas. Casanova e Dom Juan eram conquistadores baratos. E a Marilyn Monroe, que conquistou os Kennedys e um escritor famoso, cujo nome não lembro. E um escritor americano escreveu uma biografia dela. Não a li. Um escritor americano… Não foi o Roth, nem o Vidal. Li cinco livros dele. O nome dele estava na ponta da minha língua; de repente, desapareceu, como num passe de mágica. Uma graça, a Marilyn, você não acha? Ela é mais bonita e mais cheia de graça do que a Bardot e a Sophia. Cá entre nós, ela parecia uma bonequinha de luxo. Lembrei-me: Norman Mailer. Sou fã da Marilyn. Tenho todos os filmes dela. Como eu dizia, Casanova e Dom Juan, gabolas ridículos, desprezíveis, diziam, com os exageros de praxe, aos quatro cantos do mundo, que iam para a cama com todas as mulheres. Fie-se nas histórias que eles contaram e que deles contam! A Pompadour e a Cleópatra ficaram poderosas. Eles, não. As mulheres são mais sutis, astutas e espertas do que os homens, e sabem usar as suas armas, aquelas que as têm, muito melhor do que os homens usam as deles. Uma delas é a beleza; a outra, a sensibilidade; a outra, a inteligência. Os homens recusam-se a entender que não podem resistir, mesmo se o desejarem, aos ataques das mulheres que possuem essas três armas. Raras as possuem. Eu as possuo. O que eu disse pode soar arrogante aos seus ouvidos, mas não é. Sou bonita. Sou inteligente. Sou sensível. Não quero me gabar: possuo as três mais poderosas armas femininas. E sei usá-las. Usando-as, conquistei o Leandro. Ele é um gato. Ele me abordou, em diversas ocasiões, mas eu, que tenho o meu orgulho, me fiz de difícil. Eu não queria ser mais uma mulher na lista dele. Eu sabia que ele, indiscreto, contava, com todos os pormenores, para o Feliciano, o confidente dele, tudo o que se sucedia sob os lençóis, e o Feliciano anunciava, em rede nacional, tudo o que o Leandro lhe relatava. Discreto ele, né? Eu soube que o Leandro ficava, um dia, com a Cinira, no outro, com a Andressa, no outro, com a Natália, e com outras mulheres. A lista é extensa. Eu não permitiria que o Leandro me reduzisse a um nome na agenda dele. Eu sabia que ele me desejava. Ao contrário das outras mulheres, eu o desprezei. Ele me convidou para almoçar, jantar, ir ao cinema, ao zoológico, ao parque, à praia. Recusei todos os convites. Fui, reconheço, malvada com ele. Arrependi-me de dispensar-lhe tal tratamento… Eu o via com aquele olhar… Eu pensava em parar com o meu joguinho, e ceder ao Leandro… Eu o desejava. Ele é um gato. Ele é inteligente. Ele é elegante. Ele é charmoso. E aquele sorriso derrete-me. Aquele olhar… Minhas pernas tremiam sempre que o Leandro aproximava-se de mim. Meu corpo ardia de prazer, mas eu tinha de conter o desejo que me assaltava sempre que ele, tão perto e tão longe… Você não imagina como foi difícil resistir às abordagens do Leandro… Eu desejava dizer sim a todos os convites que ele me fazia. Eu o desejava, mas eu não queria ser reduzida a um nome na agenda dele. Meu nome seria o único nome de mulher na agenda do Leandro. O Leandro, esnobado, desprezado, provocava-me. Para me provocar, ele ficava com a Úrsula, com a Andressa, e com a Natália, aquela… Sei que ele sabia que eu e a Natália não nos gostamos uma da outra. O bobo pensou que me provocava. Ele, sempre que eu estava perto dele, e ele conversava ou com o Feliciano, ou com o Milton, ou com o Adriano, ou com o Arthur, ou com o César, falava da Natália e a elogiava. O propósito dele: provocar-me ciúme. A Natália é bonita, reconheço, mas ela não é tão bonita como o Leandro falava que ela é. Ora, não sou cega. Quando vejo uma mulher bonita, admiro-lhe a beleza, e até a invejo. A Tábata, por exemplo. Ela é linda. Eu gostaria de ter os olhos azuis dela, e as maçãs do rosto também. A cinturinha… Nossa! Nunca vi outra mulher com tal cinturinha! A Tábata é a mulher mais bonita que já vi. Tem um corpo perfeito. Ela é mais bonita do que eu, reconheço. A Natália… Ela não é mais bonita do que eu. Ela não é inteligente, nem espirituosa. Não digo isso por despeito. Digo isso porque é a verdade. Se quiser confirmar o que digo, converse com ela por alguns minutos. Bastam alguns minutos de conversa com ela para você se convencer de que digo a verdade. E sucederam-se os capítulos desta novela. Percebi que o Leandro estava desesperado. Ora, se ele saía com a Natália, minha desafeta, minha arquiinimiga, para me provocar, era porque ele estava desesperado, e apaixonado, apaixonado por mim, obviamente. E o que fiz? Eu o abordei. Eu me insinuava. Eu me aproximava dele e me fazia presente e atenciosa, mas dele conservava distância respeitosa. Eu lhe provava, assim, que eu não era como as outras mulheres, e o meu nome não seria mais um nome na agenda dele, e a minha foto não figuraria no álbum de fotos dele ao lado das fotos de dezenas de outras mulheres. Notei uma mudança, imperceptível, no comportamento do Leandro: Ele raramente saía de casa, ia às baladas uma vez ou outra, afastou-se das outras mulheres, desmanchou o namoro com a Natália. Vamos dizer a verdade: não era namoro; era apenas um caso. O Leandro usava a Natália para me provocar. Eu… Cheguei numa encruzilhada. Na sexta-feira, ao anoitecer, fui à casa do Leandro. Apertei a campainha, e o esperei. Assim que ele abriu a porta, eu o beijei na boca. Ele não resistiu. Eu o conquistei. O gato é meu. Falei para ele: “Jogue no lixo a agenda com os números dos telefones de todas as mulheres que você já conheceu e as fotos de todas elas. Agora só há uma mulher na sua vida: Eu.” Ele jogou a agenda e as fotos de todas as mulheres no lixo. Em seguida, dei-lhe uma agenda nova, entreguei-lhe uma caneta, e disse-lhe para escrever o meu nome e o número do meu telefone. Ele os escreveu. Dei-lhe uma foto minha, e ele a colou na agenda. O meu nome é o único nome na agenda do Leandro. A minha foto é a única foto na agenda dele. O Leandro é meu, exclusivamente meu, inteiramente meu. O coração dele me pertence. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

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