É racismo, sim!

Há um mundo, mundo de gente bizarra, grotesca, anômala, mundo que os homens comuns, que representam a maioria dos indivíduos da espécie humana, os bípedes implumes mais inteligentes do universo, não desejam conhecer, e do qual recebem, queiram ou não, inúmeras, incontáveis, notícias, que a gente estranha que nele vive não se vexa de lhes dar, e com a pachorra e a presunção de seres superiores, investidos de autoridade moral e intelectual e cultural e civilizacional que só os escolhidos possuem. E há poucos dias, alguns homens comuns tiveram a graça de receber duas notícias do estranho, bizarro mundo em cujas terras jamais desejaram pisar, e não sonham em tê-las sob os seus pés, e de cujos habitantes querem manter distância segura, mas nem sempre o conseguem, e a vida os obriga a com eles conviver, o que é deveras desgastante, doído, sofrido, angustiante, frustrante, irritante. Uma das duas notícias traz informações do balacobaco, uma inusitada leitura de um, não sei se digo certo, esporte popular, ou, simplesmente, uma atividade lúdica popular, que se pratica em cima de mesas de bilhar, a sinuca – não sei se se diz mesa de bilhar, ou mesa de sinuca, e não sei diferenciar bilhar de sinuca (da mesma forma que não sei distinguir truco de pôquer), pois não sou adepto de nenhum dos dois jogos, e não faço idéia se talvez sejam “bilhar” e “sinuca” dois nomes do mesmo jogo. O ponto mais importante da interessante notícia acerca do jogo popular que no mundo dos homens comuns se pratica, e com muito gosto, e que no mundo de gente bizarra do qual a notícia chegou recebeu a atenção de um daqueles seus típicos habitantes, personagem que aos homens comuns causam espanto de tão esquisitos, grotescamente esquisitos, estranhos, bizarramente estranhos, anômalos, escalafobeticamente anômalos; o ponto mais importante, prossigo – e eu fiquei a ponto de perder o fio da meada -, da interessante notícia é uma informação que o distinto adventício transportou ao mundo dos homens comuns: é a sinuca um jogo racista. Racista!? Sim. Racista. E explica, para que nenhuma dúvida persista na mente de nenhum homem comum, o caro alienígena (alienígena, aqui, sinônimo de ‘aquele que vem de fora’, e não de extraterrestre, embora seja ele um lunático de marca maior), o seu perspicaz pensamento: “É racista a sinuca, afinal todos os seus elementos constituintes apontam para a luta de classes racial: é a principal bola do jogo a branca, agente da ativa, a mais poderosa, que cumpre o papel de empurrar a bola preta, agente da passiva, removendo-a, com um taco, à força, para dentro da caçapa – e estampa a bola preta o número oito. É a caçapa símbolo da senzala; a mesa, da casa grande; a bola branca, da raça branca; a bola preta, da raça negra; o taco, do chicote; o número oito, de algemas. Todo o jogo é um instrumento de opressão, a carregar mensagens subliminares, símbolos que, aos poucos, e sem que as pessoas se dêem conta, fazem a cabeça do povo, que, habitando a sociedade ocidental, de matriz européia, helênica, cristã, colonizadora, paternalista, patriarcal, binária, é facilmente sugestionável, influenciável, e de tal influência não pode escapar. Desta forma, cientes da influência deletéria, na mente do povo, do hábito deste praticar tal jogo, exigimos, dele, para o bem da humanidade, a proibição, e a consequente supressão de todos os documentos históricos que lhe dão conhecimento.” É este o teor da idéia, brilhante idéia, produto da inteligência sagaz do bizarro habitante do mundo que o homem comum não deseja habitar, e cujos habitantes estão constantemente a atormentá-lo a ponto de fazê-lo perder a sanidade e com os quais é ele obrigado a conviver.
Da outra notícia, tão espantosamente inusitada, e da qual digo pouco, quase nada, para dar fim a esta crônica, que escrevi, não digo a contragosto, mas para expor o mal que aos homens comuns fazem os que, do outro mundo neste se manifestando, dizem lhe querer o bem, lhe fazer o bem, escrevo apenas: é urgente proibir-se a comercialização de palmito, ou, então, que se mude o nome de tal substância comestível, pois é, dele, a primeira sílaba sexista, machista, a extravasar masculinidade tóxica.
As criaturas que do mundo bizarro, estranho, as do outro mundo possível, as do mundo melhor, oferecem os seus préstimos aos homens comuns, e estão a assediá-los, querem, deles, a salvação, e não medem esforços para dar-lhas, e estão dispostos, até, para salvá-los, matá-los, se eles rejeitam, intransigentes, irredutíveis, a oferta.

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Homem branco é racista. Homem é estuprador. Salário justo. Preso abusivo. E outras notas breves.

Diz a lenda politicamente correta, numa teoria pra lá de bizarra, que todo homem branco é, porque branco, racista. E há homens brancos que concordam com tal sandice! Que tiro no pé! Sandeus! Insano é quem concebeu tal idéia, e louco, doido varrido, o homem branco que nela vê um instrumento de justiça social, uma arma contra o racismo.
E a sandice não para por aí. Há uma outra lenda politicamente correta, tão bizarra quanto a apresentada no parágrafo anterior, que ensina que é todo homem, porque homem, estuprador. E há homens que entendem que tal idéia diminui o preconceito contra a mulher. Que tiro no pé!
*
Um passarinho me contou que há intelectuais geniais, suprassumos da inteligência humana, que defendem uma idéia que, dizem, rendundará, se aplicada no mundo real, em justiça social: Para cada trabalhador um salário que lhe atenda as necessidades. Que interessante. Vejamos como tal idéia funcionaria no mundo real. Há, num banco, três caixas, um deles é jovem, solteiro, o outro é homem de hábitos simples, casado, e bem casado, com mulher pacata – e tem este casal dois filhos – e o outro, mulherengo, casado com uma virago, sustenta duas amantes, ambas muito belas, apreciadoras de luxo. Todos os três caixas empreendem tarefas equivalentes durante seis horas diárias, de segunda à sexta. O primeiro aqui apresentado, solteiro, gosta de motos. Para responder às suas necessidades, precisa, por mês, de R$ 2.000,00, e o banco lhe paga tal salário. O segundo caixa tem de sustentar esposa, e dois filhos, estes, jovens, ambos a viverem em meio à tecnologia, sempre a pedirem aos seus pais telefones celulares novos, notebooks e outras parafernálias. Para satisfazer às suas necessidades, tem o caixa um salário mensal de R$ 8.000,00. E agora o terceiro caixa. Ele tem de atender às suas necessidades, que o leitor pode imaginar quais sejam, e recebe, todo mês, R$ 50.000,00. Faz sentido tal idéia?! Há quem diga que sim!
*
Tal empresa está cobrando um preço abusivo por tal produto. O que é preço abusivo? Como se faz o preço de um produto?
A empresa “A” cobra “x” pelo produto “&”, e a empresa “B” cobra, pelo mesmo produto, “x” mais “meio x”. É abusivo. Temos a planilha de custos de cada empresa? sua escritura contábil?
*
Desapropria-se propriedades particulares ou de forma violenta, ou pacífica, esta via carga tributária pesadíssima e regulamentos draconianos.
*
Há intelectuais de direita – que se dizem apoiadores do presidente Jair Messias Bolsonaro – que estão a atacá-lo com suas críticas construtivas, alcunhando-o traidor de seus aliados e eleitores. Dizem que ele não faz a guerra ideológica essencial para vencer o comunismo. Pergunto-me se os comunistas podem agir se lhes tirarem os meios de ação, se lhes estrangularem os canais de financiamento. O governo Bolsonaro não está, ao combater o narcotráfico, ao construir estradas e pontes e ferrovias no Brasil, e não no exterior, ao acabar com o financiamento, sem fiscalização, de projetos culturais, ao enxugar a máquina do Estado, ao reduzir consideravelmente o gasto com propaganda, prejudicando os comunistas?

… e ninguém desejará nascer branco.

Personagem A: Você é branco, certo?
Personagem B: Certo.
P.A.: Por que você nasceu branco?
P.B.: Porque eu nasci… Ora, nasci branco porque nasci branco.
P.A.: Por que você nasceu branco, e não negro?
P.B.: Ora, porquê!? Porque nasci assim, o filho mais bonito da minha mãe. Sou filho único, o que…
P.A.: Você nasceu branco porque não quis nascer negro.
P.B.: Como é que é!? Cupim comeu o seu cérebro?! Explique-me a sua teoria.
P.A.: Você é racista.
P.B.: Quê!? Que papo besta é esse!? Desmiolou-se?!
P.A.: O sentimento racista está implícito na sua alma, daí você, não querendo nascer negro, nasceu branco.
P.B.: Caçamba! Quanta caraminhola! Eu sabia que eu ia nascer, e quis nascer branco?!
P.A.: Sim! O preconceito racista que anima o seu espírito anímico antecede a sua concepção. Estava inscrito na sua alma espiritual, que transcende o seu estado material, antes de você retirar-se do útero de sua genitora.
P.B.: Carambolas e jabuticabas! E você fala difícil, hein!?
P.A.: E não desconverse: Você é racista!
P.B.: Macacos me mordam! E você, carinha?! Você é racista.
P.A.: Eu!? Racista, eu?! Não seja atrevido!
P.B.: Além de racista, você é burro.
P.A.: E por quê!? Responda-me.
P.B.: Por quê!? Ora bolas! Você é branco.

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Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

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