Seal Team (série de televisão) – temporada 2; episódios 6, 7, 8, 9 e 10.

Para empreender uma caçada a Andres Doza (Yul Vazquez), poderoso e influente narcotraficante que aterroriza os mexicanos e mantêm muitos homens sob sua folha de pagamentos, inclusive funcionários do Estado mexicano, que lhe comem nas mãos, o governo mexicano recorre ao governo americano.

Andres Doza tem um poder tão avassalador que intimida o governo mexicano. Dono de uma fortuna de fazer inveja aos faraós, controla o submundo do México, conserva sob seu domínio pessoas insuspeitas, muitas delas lhe obedecem sob chantagens e ameaças. É uma entidade onipresente, onipotente, no imaginário do povo da Cidade do México. O governo americano, atendendo ao pedido do seu congênere asteca, envia ao México, para uma operação militar secreta em associação com militares mexicanos, uma equipe de fuzileiros navais, Seals, a Equipe Bravo – capitaneada por Jason Hayes (David Boreanaz), que é secundado por Raymond “Ray” Perry (Cornelius C. Brown Jr.), seu braço direito, e coadjuvado por Clay Spenser (Max Thieriot), Sonny Quinn (A. J. Buckley), Eric Blackturn (Judd Lormand), e alguns outros homens, poucos – cujas incursões, muitas delas empreendidas em território de países que não o dos Estados Unidos, contam com a preparação política de Amanda “Mandy” Ellis (Jessica Paré), analista da CIA, e Lisa David (Toni Trucks), diretora de logística.

Em território mexicano, reúne-se a Equipe Bravo com uma equipe de fuzileiros navais mexicanos. É visível o desconforto inicial entre os fuzileiros das duas nações. E sucedem-se os atritos entre os membros da equipe americana e os da equipe mexicana. E dá-se rusgas entre os integrantes da Equipe Bravo durante as controvérsias que envolvem a operação de caça a Andres Doza. E não são poucos os contratempos que os fuzileiros enfrentam durante empresa tão arriscada; enfrentavam, eles sabiam, um homem que possuía o poder de um exército, um homem que intimidava o governo de um país de mais de cem milhões de habitantes.

Após longas e tensas jornadas pelas ruelas de cidades mexicanas; após embrenharem-se numa floresta; após a morte de um militar mexicano, num capítulo trágico; e após a revelação de um traidor no seio da equipe mexicana, os seals da Equipe Bravo chegam, enfim, ao quartel-general de Andres Doza, uma suntuosa mansão, onde o encontram. Enfrentam os fuzileiros americanos, auxiliados por um fuzileiro mexicano, Tenente Juan Lopez (Bobby Daniel Rodriguez), os criminosos à mando de Andres Doza. E dá-se o inevitável.

A história da caçada a Andres Doza pela Equipe Bravo arrasta-se por cinco episódios; é, pode-se dizer, um longa-metragem de três horas. Desconsiderando as tramas secundárias, resíduos dos episódios anteriores ao sexto, revela o estado preocupante do México, país dominado por narcotraficantes, que estão a destruir a sociedade mexicana. Apresenta um retrato de uma sociedade de pessoas amedrontadas, aterrorizadas, inseguras, que mal podem contar com a ajuda do governo que supostamente existe para oferecer-lhes segurança.

Durante os confrontos entre os fuzileiros e os traficantes, destes são muitos os que tombam, mortos, alvejados por um ou mais tiros que aqueles lhes disparam com a frieza de homens treinados para matar.

É uma história emblemática a narrada nos episódios 6, 7, 8, 9 e 10 da segunda temporada de Seal Team, série de televisão que já presenteou com episódios memoráveis as pessoas que acompanham, desde seu episódio inaugural, as aventuras da equipe de fuzileiros americanos comandada por Jason Hayes.

Vida longa à Equipe Bravo.

*

Títulos originais dos cinco episódios:

6, Hold What You Got

7, Outside the Wire

8, Parallax

9, Santa Muerte

10, Prisioner`s Dilemma

Limpa chaminés (Dirty Work, 1933) – um filme de O Gordo e o Magro

Neste curta-metragem, de um pouco menos de vinte minutos, dirigido por Lloyd French, e com roteiro de H. M. Walker, a dupla mais engraçada, atrapalhada e divertida do cinema universal, depara-se, ao entrar num casarão, com o doutor Travão (Lucien Littlefield), cientista, proprietário do casarão, e com Jequié (Samuel Adams), o mordomo. As figuras destes dois coadjuvantes contrastam-se: cada uma segue a do figurino pitoresco estereotipado: a do doutor Travão, a do cientista louco; a de Jequié, a do mordomo esnobe, pernóstico. A do doutor Travão é encantadoramente hilária (e a voz do dublador cai-lhe bem): mirrado, careca no topo da cabeça, e de trejeitos que lembram a de um doido-varrido.

As cenas alternam-se: no laboratório, o doutor Travão está ocupado com as suas experiências, que o levam a criar a fórmula do elixir da juventude, à qual ele se dedicava havia vinte anos; e na sala da lareira, Ollie (Oliver Hardy – o Gordo) e Stan (Stan Laurel – o Magro). E Jequié transita entre as duas cenas. Na execução do trabalho de limpeza da chaminé, Ollie e Stan organizam-se – ao modo deles, obviamente; e Ollie sobe ao telhado, e vai até a boca da chaminé; e Stan permanece, no interior da casa, na sala da lareira. E a confusão, tão disparatada, tão aguardada por quem assiste ao filme na expectativa de ver cenas hilárias, dá-se num ritmo, tão alucinante! que faz o expectador perder o fôlego, e chorar, de tanto rir. As cenas, impagáveis. E é Stan, o Magro, o atrapalhado da dupla, e é Ollie quem recebe tijolos na cabeça e quase tem a cabeça arrancada por tiro de espingarda.

Em certo momento da aventura rocambolesca dos dois atrapalhados e desastrados limpadores de chaminés, está Ollie, no telhado, à boca da chaminé, e Stan, no piso, no interior da casa, à lareira. Stan, a escova enfiada na lareira, e na escova conectada um cabo, e neste cabo outro cabo, e um cabo neste – mas a escova não chega até Ollie, à boca da chaminé, no teto -, para encompridar um pouco mais o cabo conecta, na extremidade que tem consigo uma espingarda. O absurdo da cena é tal que é impossível quem assiste ao filme não antever o desastre que irá se suceder. Um pouco antes do desenrolar desta cena, Ollie, puxando pelo cabo, erguera, pela chaminé, Stan, e, em seguida, soltara-o, e ele despencara, pelo interior da chaminé, até a lareira.

Enquanto tais cenas ocorrem no telhado e na sala da lareira, no laboratório o doutor Travão segue com as suas experiências: corta, em duas, com uma tesoura, uma gota; põe um pato numa banheira cheia de água; e, com um conta-gotas pinga uma gota da solução rejuvenescedora na água da banheira, e ao final desta experiência está o pato transformado num patinho. Encerradas as suas experiências, o teste com o pato provando-lhe que a fórmula rejuvenescedora estava criada, convida Ollie e Stan para assistir, no laboratório, à uma experiência; e rumam os três personagens ao laboratório; lá chegando, o cientista explica aos seus dois apalermados convidados a experiência; e na banheira cheia de água está o patinho; e o doutor Travão pinga, com o uso de um conta-gotas, na banheira, uma gota da poção rejuvenescedora, e o resultado põe embasbacados e boquiabertos, e de queixocaídos, Ollie e Stan. E na sequência, o doutor Travão sai do laboratório, para ir em busca de Jequié, para usá-lo na experiência seguinte, que desejava realizar, e no laboratório deixa Ollie e Stan, que, na ausência dele, decidem fazer uma experiência, cujo resultado é de um nonsense de arrancar gargalhadas do mais sisudo e mal-humorado dos homens.

Na versão original do filme, o doutor Travão chama-se Noodle; e o mordomo Jequié, Jessup. E com o nome do mordomo, Jequié, na versão brasileira faz-se um trocadilho com a cidade de Jequié, bahiana.

Uma curiosidade: Nos Estados Unidos, a série estrelada pro Oliver Hardy e Stan Laurel recebe o nome destes dois atores, Laurel & Hardy; e no Brasil o de O Gordo e o Magro; e em Portugal, Bucha e Estica.

Criminal Minds – episódio 12, “Profiler, profiled” da temporada 2

No episódio 12, “Profiler, profiled”, da temporada 2, de Criminal Minds, Derek Morgan (Shemar Moore), em visita à sua família, em Chicago, vai ao túmulo de um jovem desconhecido, indigente, morto muito tempo antes, e cujo cadáver ele havia, casualmente, encontrado; e assiste, no Upward Youth Center, um centro comunitário, a jogo de futebol de jovens. Encontra-se com um jovem seu conhecido, James, que lhe apresenta Damien, amigo dele. Na casa de sua família, comemorando o aniversário de sua mãe, recebe a visita do policial Gordinski (Skipp Sudduth), que lhe dá a notícia da morte de Damien, acusa-o do crime, e o conduz à delegacia. É chamada, então, a Chicago, a equipe da Unidade de Análise Comportamental, do FBI, sediada em Quantico, cujo um de seus membros é Derek Morgan.
Dirigem-se a Chicago Jason Gideon (Mandy Patinkin), Aaron ‘Hotch’ Hotchner (Thomas Gibson), Dr. Spencer Reid (Matthew Gray Gubler), Jennifer ‘J. J.’ Jareau (A. J. Cook) e Emily Prentiss (Paget Brewster), permanecendo, na sede, em Quantico, Penelope Garcia (Kirsten Vangsness), entre os computadores, com os quais tem uma ligação, dir-se-ia, telepática.
No transcurso da investigação, os detetives pesquisam o passado de Derek Morgan, a contragosto dele, que se recusa a narrar-lhes eventos sucedidos quase vinte anos antes, o que, suspeita-se, é indício de que em sua biografia, no capítulo que narra a sua juventude, ele havia incorrido em transgressões de cujas existências quer manter todos seus colegas na ignorância. Os detetives revelam-se incomodados com a postura que assumiram, a de, para benefício de Derek Morgan, escrutinar-lhe o passado, situação desconfortável revelada, em um curto diálogo, via telefone, entre Jennifer ‘J.J.’ Jareau e Penelope Garcia.
Os detetives do FBI não tinham escolha: viram-se obrigados, à intransigência de Derek Morgan em não lhes revelar o seu passado, a pôr em risco a confiança que ele neles depositava. Era o único meio, acreditavam, de livrá-lo da condenação por três assassinatos, e ser arremessado, por Gordinski, obcecado em prendê-lo, à prisão. Sempre que Aaron ‘Hotch’ Hotchner confrontava-o, solicitando-lhe o relato de episódios de sua juventude, Derek Morgan negava-se a atender-lhe à solicitação, que em alguns momentos soavam como súplicas, sublinhando a sua postura com a afirmação categórica de ser um direito seu conservar consigo certos capítulos de sua história. Pouco depois, Penelope Garcia, singrando o oceano de documentos digitais, descobre que Derek Morgan incorrera em transgressões, em sua juventude erradia, e que era ele personagem de uma ficha criminal, e que as acusasões contra ele haviam sido canceladas devido ao depoimento de Carl Buford (Julius Tennon), líder e herói da comunidade. A existência de tal documento surpreende Derek Morgan, que, incrédulo, persiste em sua atitude arredia, exibindo desconforto, constrangimento, visivelmente irritado, surpreso com a peça que o destino lhe pregava.
Na delegacia, Gordinski apresenta aos detetives do FBI os resultados que obteve em sua investigação de três casos de assassinato, cujo autor, estava convicto, era Derek Morgan. Na sua explanação, declarou que se persuadiu de que era Derek Morgan o assassino após consultar Jason Gideon, fornecendo-lhe informações de uma investigação a qual se dedicava e dele receber uma análise criteriosa do perfil da personalidade do criminoso, que, em abstrato, correspondia, acreditava, a Derek Morgan. Tal cena reforça a suspeita contra Derek Morgan, um homem de passado nebuloso, passado que ele escondia de seus colegas, seus amigos; e tal suspeita é contrabalançada por ponderações de Jason Gideon, Dr. Spencer Reid e Jennifer ‘J. J.’ Jareau, que declaram, em mais de uma ocasião, que Gordinski se embaralhava ao associar o personagem perfilado (no linguajar dos agentes do FBI, o personagem perfilado tem os seus traços de personalidade definidos, segundo estudos documentados de psicólogos criminais), por Jason Gideon, com Derek Morgan, pois a identidade entre o tipo definido, no perfil, e a personalidade de Derek Morgan era o produto da obceção de Gordinski em prender Derek Morgan, e não de uma postura racional.
Após uma entrevista, na sala de interrogatórios, entre Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Derek Morgan, e a visita de Emily Prentiss e do Dr. Spencer Reid à casa da família do acusado, e estes já regressados à delegacia, Dennison, um policial, braço direito de Gordinski, encontra, vazia, a sala de interrogatório, e Gordinski acusa Aaron ‘Hotch’ Hotchner de haver favorecido Derek Morgan ao facilitar-lhe a fuga. Neste ponto, está claro que há, de fato, na vida de Derek Morgan, algum fato nebuloso, e que não é Derek Morgan o vilão da história, e que não é ele um criminoso, um assassino, mas algum outro personagem, suspeita-se. E a trama, urdida, por alguma outra personagem, em desfavor de Derek Morgan, aproxima-se do seu desfecho.
E os policiais saem à caça de Derek Morgan. Este, chega na quadra da comunidade, onde James o aguarda. Nesta cena, o tom narrativo é distinto do do restante do episódio. É intimista. Derek Morgan e James conservam-se um do outro à distância considerável, e entabulam diálogo repleto de reticências, para não se machucarem com palavras inconvenientes – é possível prever que ambos os dois personagens irão revelar o segredo do qual Derek Morgan é tão cioso, o qual reserva religiosamente consigo. Enquanto desenrola-se o diálogo, Derek Morgan aproxima-se de James, lenta, e timidamente, os dois a lançarem-se um para o outro, alternadamente, uma bola de futebol americano. E Derek Morgan pergunta a James se Carl Buford levara-o à cabana. Aqui já está revelado o segredo de Derek Morgan: é Carl Buford, herói da comunidade, um abusador sexual de jovens, e ele, Derek Morgan, uma de suas vítimas. E assim que se põe bem diante de James, então ao alcance de suas mãos, Derek Morgan fala-lhe do abuso que sofreu na juventude, e de Carl Buford, o abusador.
Logo depois, na sala de Carl Buford, Derek Morgan confronta Carl Buford (diante de Gordinski, Dennison, e de Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Jason Gideon, estes quatro ocultos). É a cena pungente. Carl Buford desmascarado, Gordinski e Dennison, e Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Jason Gideon apresentam-se à cena. E Gordinski, enquanto dirige-se para a porta da sala, Carl Buford, algemado, sob seu domínio, olha, constrangido, para Derek Morgan, então em choro contido, ao passar por ele. E entrecruzam-se no meio do caminho o olhar de Derek Morgan com o de Jason Gideon e o de Aaron ‘Hotch’ Hotchner. E Derek Morgan, lágrimas nos olhos, abaixa, ligeiramente, a cabeça, e cerra as pálpebras.
No final, estão os personagens em um cemitério, diante de duas lápides, uma do túmulo de um jovem de identidade desconhecida, jovem que Derek Morgan homenageia, todo ano, com a sua visita, jovem cujo cádaver ele encontrara, acidentalmente, na idade de quinze anos, lápide que tem inscritos os seguintes dízeres: “Às crianças perdidas. Nós as amamos e sentimos saudades”, e a outra, do de Damien, que, sabe-se agora, fôra assassinado por Carl Buford.
É “Profiler, profiled” um episódio emblemático. Dá à discussão um tema sobre o qual pouco se fala com a seriedade merecida, o do abuso sexual de jovens imberbes por homens feitos. O sofrimento da vítima de abusos sexuais, e no episódio tal valor está explícito, persegue-a no transcurso de toda sua vida. É um monstro que a transtorna, a perturba, a atormenta durante toda a existência, e da qual ela não pode escapar. Derek Morgan não superou a dor de saber-se vítima de abuso, e por uma pessoa em quem depositava confiança irrestrita, pessoa em cuja integridade todos os moradores da comunidade acreditavam. Embora bem-sucedido em seu trabalho de agente do FBI, profissional respeitado, os fantasmas de seu passado o atormentam.

NCIS – episódio 24 da temporada 16

No derradeiro episódio da temporada 16 de uma das séries mais populares da televisão americana – que já contou em sua galeria de personagens com os icônicos Anthony DiNozzo (Michael Weatherly), Abigail “Abby” Sciutto (Pauley Perrette) e Ziva David (Maria José de Pablo – Cote de Pablo), os três de tão grande popularidade que eclipsam as personagens que as substituíram, respectivamente Nick Torres (Wilmer Eduardo Valderrama), Kasie Hines (Diona Reasonover) e Eleanor Bishop (Emily Wickersham) -, Leroy Jethro Gibbs (Thomas Mark Harmon) e sua equipe, Nick Torres, Timothy McGee (Sean Murray) e Eleanor Bishop deparam-se com um caso que adquire um tom pessoal a Leroy Jethro Gibbs, que se vê obrigado a transgredir uma das suas proverbiais regras, a 10, que o dissuade de se envolver em seus casos, emprestando-lhe um caráter pessoal. Principia o episódio cena em que dois jovens, um moço e uma moça, em um carro, ele a dirigi-lo, rumam, em alta velocidade, para o hospital; apressam-los a iminência de uma tragédia: a morte de Emily Fornell (Juliette Angelo), filha de Tobias Fornell (Joseph Peter “Joe” Spano), ex-agente do FBI e investigador particular, e de Diane Sterling (uma das ex-esposas de Leroy Jethro Gibbs, já falecida, com cujo “fantasma” Gibbs conversa). Esta a razão de Leroy Jethro Gibbs atormentar-se em diálogos imaginários com Diane Sterling, que o repreende, e, praticamente, dá-lhe uma ordem: que ele desconsidere a regra 10, em cuja transgressão ele incorrera em outras situações, e investigue o caso que quase vitimou Emily Fornell. Leroy Jethro Gibbs, escudado pelo Doutor Donald “Ducky” Mallard (David Keith McCallum, Jr.) e autorizado pelo diretor Leon Vance (Roscoe “Rocky” Carroll), lidera a sua equipe. A trama é simples, de nenhuma complexidade artificial; as personagens executam suas respectivas tarefas, representam os papéis que lhes competem. O ponto nuclear do episódio não é o desenrolar da trama investigativa, quase inexistente, tampouco o seu desenlace, mas, sim, um flagelo que hoje em dia assola os Estados Unidos, aterrorizando os americanos: o do consumo de opioides pelos filhos do Tio Sam, uma enfermidade social sangrenta que ceifa, nos EUA, a vida de sessenta mil almas por ano.
Emily Fornell, descobre-se, sucumbira aos prazeres proporcionados pela substância, o opioide, e fica a ponto – é a cena representada no início do episódio – de partir desta para a melhor, separando-a da morte uma linha tênue, bem tênue, quase invisível. Sobrevive, milagrosamente, à overdose. Sabe-se, posteriormente, que ela está viciada em tal composto químico.
Chama a atenção um ponto: em nenhum momento, Emily Fornell é apresentada como uma criminosa; ao contrário, ela é exibida como uma vítima, que, jovem, deixara-se seduzir por uma cultura hedonista e inconsequente propagandeada como fornecedora de felicidade eterna que tantas alegrias promete – mas que entrega, unicamente, tristeza, sofrimento e miséria. Tobias Fornell trata sua filha com desvelo, carinho, dedicação de pai amoroso, devota-lhe todo o amor do mundo, conquanto ela, de comportamento alterado e fisionomia irreconhecível (e aqui os realizadores do episódio foram felizes ao emprestar-lhe um ar ensandecido, de uma pessoa possuída, não é exagero dizer, pelo demônio), lhe exiba desprezo e desdém. E entende que, mesmo protetor, não pôde impedi-la de ser atingida pelos perigos que o mundo oferece aos homens, o que dá-lhe sensação de impotência, obrigando-o a reconhecer que os pais não são onipotentes, onipresentes, oniscientes. Confrontado pela filha, que, desvairada, exibe-lhe desprezo, abre os braços, oferecendo-lhe amparo; e ela, então, se reconhece uma pessoa em desgraça, necessitada de ajuda, ajuda que ele lhe oferece ao acolhê-la aos braços.
O consumo de opioides, nos Estados Unidos, assumindo ares de epidemia, tão preocupante, recebe, da administração de Donald Trump, atenção especial. Dezenas de milhares de vidas se perdem todo ano. E neste episódio, que é o último da décima sexta temporada, toca-se em tal ferida social.
Os realizadores de NCIS foram felizes em tratar a questão com a seriedade e sensibilidade pedidas.
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