Máscaras e medo. Medo e máscaras.

Em Março do ano de 2.020, os Seguidores da Ciência ouviram médicos e cientistas declararem, uns, que para se derrotar o covid-19 era necessário que todos os cidadãos do universo usassem na cara uma tira de pano, a máscara, escudo infalível, impermeável ao monstrinho que a todos aterrorizava então, e outros, que eram as máscaras inúteis, pois o vírus é demasiadamente pequeno, infinitesimalmente minúsculo, e fizeram dos primeiros seus heróis, e auto-intitularam-se Heróis da Pandemia, Cidadãos Responsáveis, e apodaram Negacionistas, seres desprezíveis, todas as pessoas que adotaram o discurso oposto. Que todo homem seguisse a ciência, diziam; isto é, que todos seguissem as recomendações que médicos e cientistas, os midiáticos, alçados à condição de heróis, apontassem medida sanitária indispensável para o efetivo combate ao minúsculo inimigo da humanidade: o uso de máscaras, pelos homens, e pelas mulheres também, em todos os locais, públicos e privados, abertos e fechados. E que todo Negacionista, porque irresponsáveis, egoístas e insensíveis, recusando-se a usar máscara fosse multado e preso, trancafiado na mais fétida das masmorras.
Em Março do ano de 2.022, os Seguidores da Ciência viram políticos, sob orientação de médicos e cientistas, decretarem a revogação da exigência do uso obrigatório, pelos filhos de Deus, de máscara em qualquer lugar, e médicos e cientistas ecoarem a correção de tal medida e outros a objetarem-los, insistindo que se fazia necessário o uso, e ainda por um bom tempo, de máscara, por todos, em todos os lugares, em especial nos locais fechados, e entenderam corretos e responsáveis estes últimos, e errados e insensatos os primeiros.
Nas duas ocasiões, os Seguidores da Ciência adotaram médicos e cientistas responsáveis aqueles que promoviam as medidas ditas sanitárias – para muitos, apenas políticas – que lhes alimentavam o medo. Que todos os homo sapiens vivam de máscara na cara até dia que eles, os Seguidores da Ciência, entendam ser o chegado para se abolir o uso de máscaras pelos primatas mais evoluídos da história da Terra. E quando tal dia chegará? Quando os Heróis da Pandemia, os Cidadãos Responsáveis, os Seguidores da Ciência tiverem a certeza de que tal dia chegou; isto é, no dia que eles vencerem o medo, que os debilita; em outras palavras: No dia de São Nunca.

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O preço do açúcar.

Hoje de manhã, domingo, João despertou duas horas mais tarde do que a hora que, nos dias-da-semana, deixa o mundo dos sonhos. É João um filho-de-Deus. Concede-se aos domingos o prazer de estender o tempo que passa a sonhar com beldades em ilhas desertas. Espreguiçou-se. E retirou-se de sob o lençol, e desceu da cama. Banhou-se. E à cozinha foi preparar o café-da-manhã. Ao tirar da prateleira o pote de vidro transparente que usa para condicionar açúcar, viu-o vazio. Tratou de ir ao mercadinho, logo ali, a um pulo, à frente de sua casa. Quanta comodidade! Tirou da gôndola um saco de um quilo de açúcar, e foi ao caixa – melhor, à caixa -, tirou da carteira dinheiro, e pagou pelo açúcar, com um pouco de má-vontade, afinal está o preço do açúcar salgado.

Do louvor à estúpidez, à vagabundagem, à bandidagem, à injustiça.

Assisti, em canais  de vídeos, na internet, vídeos que exibem cenas de estarrecer: homens e mulheres a entrarem em lojas, retirarem das prateleiras inúmeros produtos, amontoarem-los em carrinhos-de-compra, e a retirarem-se das lojas, passando pela porta, sem pagar pelos produtos que carregavam, aos olhos de caixas, clientes, e seguranças, que não moveram um dedo para impedi-los de praricar os roubos, à luz do dia, e aos olhos de todos. Cocei-me a cabeça, e pesquisei a respeito. Vim a saber, para a minha surpresa, e o meu espanto, que tais cenas foram filmadas, nos Estados Unidos, no estado da Califórnia, e, para intensificar-me o espanto, que há, em tal estado americano, lei, inspirada no Princípio da Insignificância, que concede aos nobres trabalhadores cidadãos americanos que se ocupam da incumbência de carregarem com eles mercadorias e produtos que entendem serem seus a partir do momento que os retiram da prateleira o direito de apossarem-se de toda e qualquer coisa que pertença à outra pessoa desde que ela não tenha valor superior a U$ 800,00 (ou um valor próximo disso). Consta que se considera insignificante qualquer produto ou mercadoria de preço inferior aos U$ 800,00 uma bagatela, ou a soma do preço de vários deles não atingindo tal valor. Ora, estamos falando da Terra do Tio Sam, e sabemos que, lá, com irrisórios U$ 800,00 (aproximadamente R$ 4.000,00) compra-se mansões. É dinheiro que não acaba mais. Não sou jurista, mas acredito que a idéia esposada no Princípio da Insignificância contempla a Justiça, afinal ninguém justo entende correto trancafiar numa fétida masmorra um homem que, sendo bom, num momento de desespero, carrega consigo, oculto sob a camisa, um pacote de um quilo de arroz. Tal Príncipio está, hoje em dia, a ser corroído pelos justiceiros sociais, pelos intelectuais que amam a humanidade, por aqueles que lutam contra as injustiças sociais, contra o capitalismo, a ganância dos empresários, por pessoas que se arvoram autoridades morais.

A política estabelecida na Califórnia causa estragos na sociedade californiana: empresas fechadas, demissões, aumento da violência, da miséria, o tecido social esgarçado. É uma política de tal estupidez, de tal desumanidade, que não tardou muito para inspirar a políticos brasileiros uma política de mesmo teor. E há uma ilustre deputada tupiniquim que propõe, no Brasil, a inspirá-la o desejo de salvar a humanidade, de auxiliar as classes sociais menos favorecidas, política semelhante.

Todo discurso em favor de tal política, seja quem seja o autor, vem revestido num jargão jurídico técnico, reforçado com citações de trocentas lei – que intimidam o homem comum, que acredita, diante de uma linguagem que não compreende, ser justa a política -, e ataviado com vocabulário e sentenças da Sociologia, da Economia, da Psicologia, da Antropologia, e de outras áreas das ditas Humanas, e paramentado com citações de especialistas e estudiosos, e de professores universitários e autoridades religiosas e intelectuais. Mas a idéia subjacente, percebe toda pessoa minimamente atilada, não é a alegada, mas seu oposto. Tal política, corroído o nobre valor que inspirou a concepção do Princípio da Insignificância, redunda em injustiça, revanchismo, estímulo à vagabundagem, ao crime, destrói a inteligência, favorece pessoas de pouca, ou nenhuma, consciência cívica, de mentalidade criminosa, que até então não tinha coragem para exercer atos à margem da lei (agora dentro da lei), desincentiva o trabalho, o empreendimento, o estudo, confunde as pessoas de mente fraca, sugestionáveis,a  balançarem-se, em gangorra, ora para um lado, o do que é justo, ora para o outro, o do injusto, muitas vindo a se inclinar a este e, assim, a perderem-se.

Li, há poucos dias, no texto (não anotei o nome do autor) de introdução ao livro Discurso Sobre a Educação, do Padre Manoel Bernardes, que as mais nefastas idéias brotam da cabeça de intelectuais, de gente da elite do pensamento mundial. Dias antes, li, de Cesar Ranqueta Jr, um texto, curto, que traz o mesmo pensamento. Não me surpreendi com o que li nestes dois textos, pois eu já sabia que é verdade, e verdade verdadeira, o que eles afirmam. A realidade ensina; para aprender o que ela tem para ensinar, basta ter olhos para ver.

Outro ponto que me chamou a atenção foi o que trata da situação econômica brasileira, exisindo muitos milhões de brasileiros desempregados, pobres. Ora, havendo tantos pobres, muitos desempregados, à margem da sociedade, nada mais justo que tais pessoas possam amenizar seu sofrimento apossando-se de, como se diz, bagatelas, coisas insignificantes, cuja perda causa menhuma lesão, ou uma lesão insignificante, ao proprietário da coisa furtada – e se o furto não foi cometido por meio de agressão física. Não me surpreende ver pessoas que apóiam ou patrocinam políticas econômicas que arremessam milhões de pessoas na misérias a apresentarem soluções mágicas para os problemas que elas causam.

Aos olhos de muita gente é justa a política proposta.

Dita a política que se considera insignificante o furto de coisas de primeira necessidade, alimentos em especial. Mas daqui quanto tempo os proponentes de tal política irão ampliar a lista das coisas de primeira necessidade, contemplando o direito legal das classes oprimidas, injustiçadas, de apossarem-se de quaisquer coisas? É o mal feito à conta-gotas, um nobre princípio a mover aqueles que o promovem, o patrocinam.  No início, é de primeira necessidade alimentos; depois, na lista entram produtos de higiene pessoal, afinal ninguém pode viver a feder como uma gambá; depois, os de vestuário, pois foi-se o tempo das gentes pré-colombianas que no mundo viviam como ao mundo vieram; depois, os farmacêuticos, afinal todos adoecem; e não demorará muito, os materiais de construção, e os elétricos e hidráulicos, pois a laje de uma casa pode cair, a resistência de um chuveiro queimar, um cano estourar; e daqui não muito tempo, os de perfumaria; e os de beleza; e as guloseimas; e os adornos pessoais; e até o infinito e além. E será bagatela a televisão de alta definicão, o telefone celular, a bicicleta, a motocicleta, o carro, o caminhão; e a Ferrari. E chegaremos mos ao mundo do crime legalizado, mundo, hoje, em embrião, que logo, bem nutrido, converter-se-á em um Gargântua pantagruélico tão monstruosamente gigantesco que Rabelais, ao vê-lo, esgazeará, de espanto, os olhos, e se reconhecerá um homem extraordinariamente ingênuo.

Imagem de Uma Pequena Cidade

O dia amanheceu radiante, ensolarado. Ele acordou. E meditou, à escuridão do quarto. Ouviu cantar um galo da vizinhança. E pouco tempo depois, chegaram-lhe aos ouvidos palavras de dois bem-te-vis a dialogarem, animados.

Uma cidade de cento e quarenta mil habitantes conserva os seus encantos. Perdeu muito do seu aspecto rústico de há cinquenta anos; e não assumiu a figura de metrópole mastodôntica. Amálgama de duas criaturas distintas, adquiriu aspectos que, não pertencendo à nenhuma delas, conferem-lhe fisionomia que provoca, simultaneamente, maravilhamento e estranhamento. Na área urbana, há casas construídas há cem anos, e outras, de construção recente, erguidas no centro da cidade, cujo desenho arquitetônico é inspirado nas casas antigas. Os munícipes conservam muitos costumes antigos, a cultura rústica, e o linguajar do tempo dos avós, com as suas expressões típicas, acaipiradas, proverbiais. O progresso industrial e tecnológico influencia, não há o que contestar, os costumes. A sua força, no entanto, não é tão impactante quanto se diz. Muita gente conserva os valores antigos – antiquados, dizem os moderninhos –, os quais recebeu de seus genitores, que os receberam de seus genitores, que os receberam de seus genitores, e cujas origens perdem-se no tempo. Superestimado, o progresso encanta, maravilha, penetra nas casas, e modifica os hábitos dos seus moradores. Que o progresso tecnológico modifica os hábitos e os costumes, é inegável; que modifique os valores, é discutível; que altere a essência dos homens, é questionável – não estou convencido de que a tecnologia insere novos valores morais e éticos, ou altera os existentes. A internet, dizem sociólogos e psicólogos, distanciam as pessoas umas das outras, interferem no relacionamento entre elas, tornam-las insensíveis, frias, desumanas. Conversa para boi dormir, dizem, hoje, num linguajar de eras antediluvianas, que se perde nas sombras do tempo, os adeptos da tecnologia. Atribui-se à tecnologia o que ela não pode fazer: mudar a essência humana. Os tecnofóbicos, para a conservação da espiritualidade e a renovação da harmonia entre o homem e a natureza, querem a destruição de todas as máquinas – e jamais reconhecem que estas melhoraram a condição de vida dos homens.

Na vizinhança, prossigo, encerrada a digressão, o galo anuncia, altivo, para que o mundo inteiro o ouça, toda manhã, infalivelmente, o nascer do dia.

Levanta-se da cama, banha-se, e saboreia, na cozinha, só, um frugal café-da-manhã. Num solilóquio silencioso, o semblante tranqüilo, pensa: A vida em áreas urbanas, nesta pequena cidade, conserva muitos aspectos da vida no campo: saudações; relações pessoais; rusticidade no falar arrastando os erres; carroças rangentes puxadas por um cavalo cujas ferraduras ressoam no asfalto. Nas ruas, veículos puxados por um cavalo, quase sempre moribundo, e veículos modernos, de alta tecnologia, impelidos por dezenas de cavalos. E charruas e rodas de carroças enfeitam jardins de casas de famílias ricas que vivem, no interior de suas casas, imersas num oceano de tecnologia – e tais famílias encantam-se, alumbram-se, com a rusticidade dos mecanismos, das mobílias, das ferramentas, das vestimentas, da arquitetura, do linguajar rurais de um tempo que não conheceram.

E retira-se da sua casa. A andar pelas ruas, atento às pessoas, classifica-as: gerentes de bancos; homens do campo; cabeleireiros; dentistas; agentes imobiliários; engenheiros; médicos; contadores; professores; arquitetos; vaqueiros; pedreiros; estudantes; farmacêuticos; mecânicos; serralheiros; policiais. Algumas delas vergam a indumentária típica da sua profissão; outras, não.

Ao encerramento do expediente, o Sol posto, a escuridão dominando, ele regressa para a sua casa. E na manhã seguinte, canta o galo de uma casa da vizinhança. E durante o dia ressoam os motores dos veículos que abafam a música da natureza, que ainda resiste ao avanço indiscriminado do progresso.

E seguem-se os dias.

E o galo a cantar toda manhã.

E o progresso ininterrupto…

E o galo a cantar…

E colidem-se o rural e o urbano, que se mesclam, e retroalimentam-se.

E a vida prossegue…

E o futuro a Deus pertence.

Comedores de ossos. Covas e mais covas. Setecentos cadáveres. Pilhas de mortos. Histeria.

Publica-se uma foto de um homem recolhendo, não se sabe onde, ossos, acompanhada da informação “dezenove milhões de pessoas passam fome no Brasil”, e tal imagem e a idéia nela e no texto embutida, a de que a fome é consequência das ações do presidente Jair Messias Bolsonaro, viralizam, como se diz em tempos de internet. E as pessoas vêem na foto dezenove milhões de esfomeados a chafurdarem-se em lixões e depósitos de lixo de açougues à procura de carne. Tal me faz lembrar três notícias, e a repercussão delas entre as pessoas caídas em histeria, do ano passado. Em uma delas, uma foto a mostrar um comboio militar na Itália acompanhada do texto “setecentos mortos em um dia”. As pessoas além de na foto verem caminhões militares, carros e algumas pessoas à pé, viram, excitadas pela imaginação corrompida pela histeria, os setecentos cadáveres indicados no texto que acompanha a foto. Em outra notícia, exibia-se, do alto, bem alto, a partir de um helicóptero, imagens de um cemitério, localizado na cidade de São Paulo, milhares de covas abertas, imagens acompanhadas de uma informação: eram milhares os mortos por covid que a prefeitura tinha de abrir muitas covas para enterrar todos os cadáveres. E as pessoas, ao verem as covas abertas, vazias, abaladas pelo bombardeio de notícias dramáticas, trágicas, que anunciam o apocalipse, as viram habitadas cada uma delas – e elas eram milhares – por um defunto produzido pelo coronavírus. Na terceira notícia, uma foto com vários caixões empilhados acompanhada da informação de que eram tantas e tantas as vítimas do vírus que as empresas estavam produzindo caixões como jamais se viu. E as pessoas, ao olharem para a foto com as pilhas de caixões viram dentro deles as vítimas do covid.
E assim o mundo gira.
Nota: Não me recordo dos detalhes, que são irrelevantes neste texto, de tais notícias.

Prostituição Já!

Há poucos dias, uma bela atriz afirmou que, em decorrência das políticas culturais do governo Bolsonaro, restaria às atrizes a prostituição. Tal declaração é uma confissão, conquanto se queira com ela dar a entender o contrário, de que há tempos amealham os artistas fortuna, arrancando-se do bolso dos brasileiros um bom punhado de moedas, com trabalhos medíocres, e muitos deles destituídos de valor, que os brasileiros não compram; fosse diferente, os artistas promover-se-iam em atividades culturais privadas, aos brasileiros venderiam cada qual o seu peixe, e encheriam as burras de ouro; mas não é o que se vê; vivem de dinheiro público, que sai, sem controle, dos cofres públicos, pelo ladrão. Que o mecenato seja atividade louvável, ninguém há de negar, mas o que se discute é a distribuição de recursos públicos, que são escassos, aos artistas; sabe-se que quase toda a verba pública destinada à cultura escoa pelo ralo e vai desaguar nas contas bancárias de artistas milionários, e não nas mãos dos que, vivendo na rua da armagura, pedem um arrimo para alavancarem a carreira, que se encontra em seu estágio inicial.

A declaração da bela atriz me fez evocar um assunto que provocou, há um bom tempo, animada celeuma: a legalização dos serviços das mulheres de vida fácil, as que praticam a profissão mais antiga da civilização: a prostituição. Houve quem defendesse a legalização de tal serviço recebendo as rivais de Pompadour o direito a registro trabalhista, pois elas fazem a felicidade de garotos imberbes e de marmanjos barbudos, solteiros, uns, casados, outros, muitos dos quais, além de alguns poucos minutos, ou muitas horas, de ínfrene atividade lúdica, obtêm da contratada orientações psicológicas e espirituais e aconselhamentos conjugais, muitos varões, influenciados pelas carinhosas e maviosas palavras que delas ouvem, no himeneu clandestino, a renovarem seu amor pela esposa tão negligenciada. Pensando com os meus botões, pergunto-me como se daria a relação das beldades que fazem a felicidade dos homens carentes de afeto com o fisco, com a legislação trabalhista, com a Receita Federal, com os seus clientes e com os seus patrões. É um tema sério, demasiadamente sério, que desperta risos, comentários jocosos, e maldosos, e irônicos, e sarcásticos. É extraordinariamente complexo. Penso, agora, na relação das mulheres que exercem a mesma atividade de uma que recebeu, de Nosso Senhor Jesus Cristo, o perdão, com seus patrões, os cafetões. Imagino um ma cena: Uma mulher de vida fácil e o seu senhor, à mesa, a discutirem direitos trabalhistas: salário-hora, horas extras, adicional noturno, adicional periculosidade, décimo terceiro, filiação sindical, direito à greve, férias remuneradas, aposentadoria, e outras coisinhas mais. E ao fim da negociação vai o cafetão aos órgãos públicos competentes, federais, estaduais e municipais, registrar a sua empresa, obter o CNPJ e o alvará de funcionamento do estabelecimento comercial, localizado, este, em bairro nobre, numa rua de fácil acesso, e a contratar serviços de empresa de marketing e a divulgar sua empresa em revistas, jornais, emissoras de televisão e de rádio, e em sites. Agora, ao imaginar a relação de uma atraente e exuberante prestadora de serviços espirituais em negociação com seu cliente, vem-me à cabeça: a dedicada e responsável profissional apresenta-lhe documentos que lhe provam que ela não possui doenças venéreas, e compromete-se a, encerrado o serviço, emitir nota fiscal – com o valor que dele recebeu para ele abatê-lo do imposto de renda – de serviços de orientação psicológica, ou de aconselhamento conjugal, ou de terapia espiritual, ou de medicina ayurvédica, ou de serviços de massagem. Se o seu cliente é casado, assim ela insisite em fazer, mesmo que ele não o queira – afinal está ela a pensar, preocupada, no bem-estar físico, espiritual e psicológico dele – para que ele não se veja em maus lençóis, sob o risco de ter de se aborrecer com uma batalha judicial com sua querida e adorada consorte, que dele desejará arrancar a metade do patrimônio que ele arduamente acumulou.

E não me escapa à sagaz inteligência o direito que os clientes das formosas beldades têm de recorrer ao Procon caso a contratada – ou as contratadas – não execute à perfeição o serviço combinado. Ensina-nos o ditado: O combinado não é roubado. Cabe às prestadoras de serviços respeitar o estabelecido em contrato e entregar aos seus clientes o prometido.

Pergunto-me se os cafetões e as Messalinas irão se dispor a percorrer a via-crucis burocrática para legalizar seus empreendimentos comerciais.

Não sei o que o futuro reserva para as atrizes que hoje lamentam a indiferença do presidente Jair Messias Bolsonaro, que, dizem, está a destruir a digna e valiosa cultura – cujas obras mais significativas são Macaquinhos e Golden Shower – que herdou dos que, antes dele, nos últimos quarenta anos, carregaram a faixa presidencial, mas, tendo-se aos olhos da minha imaginação a bela estampa de muitas delas, de fome, sei, elas não morrerão.

Meu irmão morreu – Uma história do tempo do coronavírus

Encontraram-se, às onze horas da manhã de hoje, nas proximidades da igreja Nossa Senhora de Fátima, no entroncamento das avenidas José Bonifácio e Joaquim Nabuco, na calçada à frente de uma loja de cosméticos, João Carlos e Roberto Carlos, colegas de trabalho que há alguns dias não se viam. João Carlos gozava, havia dez dias, de férias. Retirara-se havia um minuto da igreja Nossa Senhora de Fátima, e caminhava, lentamente, cabisbaixo. Roberto Carlos saíra do escritório minutos antes, e rumava para um restaurante, distante uns cem metros de onde ele e João Carlos encontravam-se. Saudaram-se. E Roberto Carlos não precisou de mais de um segundo para notar a tristeza estampada nos olhos do seu colega.

– O que se passa contigo, João?! – perguntou-lhe. – As férias não te fazem bem?! Por que a cara tristonha?! O que houve?! Que bicho te mordeu, homem?!
João Carlos não lhe respondeu de imediato; tremeram-lhe os lábios. Fitou Roberto Carlos, que estava ciente de que dele não ouviria boa notícia. E respondeu-lhe:

– Saímos da igreja há pouco meus pais, minha irmã e eu. Eles foram para a casa deles. Eu lhes disse que eu iria caminhar um pouco. Assistimos à missa de sétimo dia da morte de meu irmão.

– Meu Deus! – exclamou Roberto Carlos, sinceramente condoído. – Aceite meus pêsames, João. Seu irmão é mais uma vítima do covid, este maldito vírus.

– Covid!? Não. Meu irmão não morreu de covid.

– Não!? De que mais ele poderia morrer?! – perguntou Roberto Carlos, visivelmente surpreso. As suas palavras incomodaram João Carlos, que tratou de lhe responder.

– Ele não morreu de covid. Ele foi assassinado. Dois ladrões invadiram-lhe a casa. Renderam-lo. Amarraram-lo. Espancaram-lo. Cortaram-lhe, à faca, as mãos e os pés, e a língua, e as orelhas; e esmigalharam-lhe, à marreta, os joelhos, e a cabeça. Mataram-lo.

– Assassinado!? Ele foi assassinado!? Ufa! Que alívio! Alegro-me saber que ele não morreu de covid.

A Denúncia – Uma história do tempo do coronavírus

Eram vinte e duas horas de um sábado.
Em sua casa, na varanda, sentado numa cadeira de plástico, branca, Joaquim, máscara multicolorida a cobrir-lhe o rosto desde o nariz até o queixo, olhava à rua, sem se deter em nenhum ponto; sempre que uma pessoa se lhe passava diante dos olhos, ele, cidadão consciente e responsável, verificava se ela trazia, no rosto, uma máscara ajeitada, corretamente, a cobrir-lhe nariz e boca, e acompanhava-a com o olhar até ela sair-lhe do campo de visão. Havia duas horas, só, exercia a sua tarefa, a de policiar a conduta das pessoas que à rua saíam de suas casas. Sacrificava, pelo bem comum, de sua vida, muitas horas por dia, dedicado que era à coletividade.
Não haviam transcorrido quinze minutos após as vinte e duas horas, aos seus olhos surgiram três pessoas, dois homens e uma mulher. A mulher trazia, cobrindo-lhe nariz e boca, máscara cor-de-rosa. Um dos homens tinha uma máscara preta a ocultar de olhos alheios nariz e boca; e o outro, sem máscara, tinha, desnudo, o rosto. Joaquim arregalou os olhos, e levantou-se da cadeira. O homem sem máscara, indo da direita para a esquerda, passou pela mulher, e pelo outro homem, que a seguia, a poucos metros de distância. Estavam distantes do homem sem máscara o homem e a mulher mascarados uns vinte metros quando este homem, o mascarado, acelerou os passos – ao mesmo tempo que retirou do bolso da calça um canivete, que abriu, dele exibindo a lâmina afiada, que brilhou à luz da lâmpada do poste – na direção da mulher, que lhe ignorava a presença, e, numa sequência de movimentos rápidos, com a mão esquerda cobriu-lhe a boca, impedindo-a de emitir qualquer gemido, e enfiou-lhe, na ilharga direita, o canivete, e retirou-o de dentro dela, e enfiou-lho no pescoço. Caíram a mulher e o homem que a esfaqueva, ele por sobre ela.
Joaquim, aterrorizado, alternava a sua atenção entre as duas cenas: a que lhe exibia o homem sem máscara e a que lhe revelava o homem e a mulher, ambos de máscaras, ele a matá-la com um canivete. Com as mãos trêmulas, tirou do bolso na camisa o telefone celular, e, sem pensar duas vezes, discou para a delegacia de polícia; assim que uma policial atendeu-o, disse-lhe, rapidamente, imensamente assustado:

– Mandem, e logo, uma viatura policial para cá, rua George Orwell. Imediatamente! É urgente! Mandem dois policiais, e rápido. Rápido! Há, aqui, na rua, um homem. Ele está sem máscara! Venham logo, antes que ele fuja! Mandem dois policiais! É urgente! Urgente! Urgente! Antes que ele fuja!

E o João?! O estado dele é grave?

– Roberto, eu soube do seu irmão, o João. Contou-me a Ludmila que ele envolveu-se, em São José, em um acidente. Como ele está? Ele está no hospital?
– Meu irmão envolveu-se num acidente de carro, em Jacareí, e não em São José, e está hospitalizado.
– E o que aconteceu com ele? Qual é o estado dele?
– Eu o visitei hoje, às oito da manhã. Ele tem, quebrados, um braço, uma perna e duas costelas, perfurado o intestino, esmagada a mão esquerda, e, furado, um olho, o direito. E ele perdeu um litro de sangue.
– Meu Deus.
– Mas não se preocupe, Anderson. O estado dele não é grave.
– Não é grave, Roberto!? Não é grave!? Ele perdeu um olho, tem, quebradas, costelas… E perdeu um litro de sangue! E você me diz que o estado dele não é grave! O que teria de acontecer com o seu irmão para você dizer que o estado dele é grave?
– Anderson, você é muito dramático. Seria grave o estado do João se ele tivesse, quebrados, os dois braços, as duas pernas, e sete costelas, perfurados o intestino, o baço, o fígado, o pâncreas, os dois pulmões e os dois rins, esmagadas as duas mãos, furados os dois olhos, e perdidos três litros de sangue, no mínimo.

O sustentável peso do ser

– Márcia, tenho uma novidade para você. Decidi abandonar a minha vida sedentária – disse Fábio, ao chegar na sua casa após um exaustivo dia de trabalho. Márcia, sua esposa, enquanto ensaboava um copo, após usá-lo para beber leite com achocolatado, voltou o rosto para Fábio, ofereceu-lhe os lábios, os quais ele beijou, e esperou pelo complemento da notícia. – O meu estilo de vida está me matando.

– Enfim você reconheceu que precisa de reformas. – comentou Márcia, sorrindo em tom de leve censura.

– Por favor, Márcia… Poupe-me das piadas e dos sermões. Você me alertou para o meu estilo de vida, sedentário, que me prejudica. Vou de carro daqui até o escritório; de carro, do escritório volto para casa; de carro, vou à padaria, que fica no outro lado da rua; de carro, vou à banca de revistas do Manoel, que fica lá na esquina; daqui até lá, um pulo, com a perna esquerda, para ir, e um pulo, com a perna direita, para voltar. E eu, de carro… Quer saber, Márcia, o que me aconteceu, hoje, e me fez mudar de atitude? Tive de andar uns setecentos metros, mais ou menos, do escritório até o cartório… Mal me aguentei em pé ao chegar ao cartório. Cansado, mal consegui respirar. Ofegante, diante da mocinha do cartório, não me recordo se a Fátima, se a Evelyn, que me fitava, esperando que eu lhe dissesse o que eu desejava, fitei-a, sinalizei que atendesse uma mulher que chegou logo após eu, e sorri, constrangido. Ela sorriu, e atendeu à mulher. Pouco depois, ou Evelyn, ou Fátima, eu já recomposto, atendeu-me. Márcia, mal consegui andar setecentos metros! Como cheguei a este ponto!? Escreva o que digo: Perderei estes pneuzinhos…

– Pneuzinhos?

– Não zombe. Tire esse sorrisinho da cara. São pneuzões de caminhão, os que perderei, e os perderei antes do Natal. É uma promessa. Se eu ficar como estou, confundir-me-ão com um leitão, ou com um peru. Você se surpreenderá. Ficarei esbelto como um galã de novela.

No dia seguinte, no café-da-manhã, Fábio, para surpresa de Márcia, fez uma refeição frugal: duas fatias de torrada com geléia de cereja, uma pêra, seis uvas e um copo de laranjada.

– Pelo visto, Fábio, ontem você falou sério – comentou Márcia, surpresa e contente.

– Bote fé, Márcia, o regime é pra valer.

Fábio foi até o escritório, a pé, distante mil e duzentos metros da sua casa. Exausto, sentou na cadeira, e permaneceu sentado durante cinco minutos, para renovar as energias consumidas durante a caminhada. Colegas de trabalho não perderam a oportunidade de convertê-lo no alvo de piadas preferencial durante a manhã. Fábio, de bom humor, embora constrangido, ouviu-as, e divertiu-se com as contadas por Josué, dotado de senso de humor irresistível.

No almoço, no restaurante em frente ao escritório, Fábio sentou-se à mesa. Carlos, o garçom, atendeu-o:

– O de sempre, Fabião?

– Não, Carlos. Traga-me cinco grãos de arroz, três grãos de feijão, duas folhas de alface, quatro fatias de pepino, seis fatias de tomate, e, para beber, meio copo de vinho.

– E os oito bifes de alcatra, Fábião?

– Não quero bife.

– Não quer bife? – perguntou-lhe Carlos, surpreso. – E as quinze coxinhas de frango?

– Esqueça-as, Carlos. Esqueça-as. Não quero ver cheiro de carne.

– O que você comerá de sobremesa?

– Gelatina de limão.

– Gelatina de limão, Fabião!?

– Eu disse gelatina de limão, então é gelatina de limão.

– Você está doente?

– Não.

– Você está bêbado?

– Não.

– Você fumou maconha? Cheirou cocaína? Entupiu-se de crack?

– Não! Não! E não!

– E o pudim, e o doce de coco, e o bolo de chocolate, e o rocambole, e o brigadeiro, e o doce de leite, e a marmelada, e a goiabada com queijo, e a maria-mole, e a teta-de-nega…

– Gelatina de limão, Carlos. Gelatina de limão. Entendeu? De limão. Gelatina de limão.

– E essa agora! Se eu contar para o gerente, ele vai me demitir.

– Deixe de conversa fiada, e traga-me a comida.

– Comida!? Que comida, Fabião? Continue assim, e você aprofundará a crise econômica internacional. Espero que ninguém siga o seu exemplo. Você está de regime?

– Estou – a voz áspera de Fábio fez com que Carlos o olhasse com estranheza.

– O mundo está de cabeça pra baixo – sentenciou Carlos, que ficou de costas para Fábio, e afastou-se, abismado.

Nos dias seguintes, Fábio repetiu essa refeição, para surpresa e espanto de todos.

– Você emagrecerá mais rápido, Fábio – disse-lhe Márcia, uma semana depois -, se praticar um esporte. Que tal ir à academia? A na qual a irmã da Jéssica faz ginástica é ótima, disse-me minha irmã.

– Emagreci?

– Um pouco. Se você se mexer mais, emagrecerá mais, e mais rapidamente. Você pesava cento e vinte e oito quilos; agora, pesa cento e vinte e sete quilos e oitocentos e noventa gramas.

– Virou piadista, mala-sem-alça?

No dia seguinte, Fábio, na academia de ginástica, na sala de musculação, exercitou-se até encharcar a camisa de suor e exaurir as energias.

Encerrados os exercícios, satisfeito com o seu desempenho e com o seu esforço, Fábio mirou-se ao espelho. Irreconhecível, a sua figura. Era o Fábio, o Fábio de sempre. A camisa banhada em suor, ele pensou, era uma recompensa pelo esforço aplicado durante uma hora de exercícios físicos. Sorriu, exultante. Sentia-se outro homem. Saudou a professora, despediu-se dela e dos outros sete alunos, pegou da toalha, enxugou os cabelos ensopados de suor e removeu o suor que lhe porejava o rosto e o pescoço. Retirou-se da academia. Deu não mais do que vinte passos, olhou para o outro lado da rua, e exclamou:

– Ninguém é de ferro! Sou filho de Deus!

Ato contínuo, atravessou a rua, e entrou na lanchonete, e devorou, em dez minutos, com voracidade animalesca, três x-tudo, dois pastéis de carne, duas coxinhas de frango, um quarto de uma torta, e sorveu, sedento, de uma garrafa, dois litros de refrigerante de laranja.

Circuíto fechado

– Marcão! Marcão! – gritou Roberto, que corria na direção de Marcos, que andava a passos largos.

Ao ouvir seu nome, Marcos voltou-se para trás, e viu Roberto, esbaforido.

Assim que se aproximou de Marcos, Roberto disse-lhe:

– Você anda rápido demais. Com essas pernas, você bate o recorde mundial dos cem metros rasos.

– Você precisa abandonar a sua vida sedentária, Betão – censurou-o Marcos. – Você bebe refrigerante e come hambúrguer no café-da-manhã, no almoço, no café-da-tarde, na janta, de segunda a segunda. Por isso você está assim, que mal se agüenta. Assim você se arrebentará, Betão. Qualquer dia desses…

– Pôxa! – exclamou Roberto, com um pouco de dificuldade, enquanto esforçava-se para se recompor. – Amigão, você, hein, Marcão! Amigão! Vim dar uma notícia, que é do seu interesse… Deixe-me recuperar o fôlego… Você anda muito rápido… As minhas banhas impedem-me de acelerar os passos. De certo ponto de vista, você tem razão. Estou fora de forma. Mas não precisa ficar me dizendo isso, não, tá?, e nem fique me esculhambando toda vez que nos encontramos… Agora, do ponto de vista de um barril, estou em ótima forma. Forma de um barril, obviamente. Para uma barrilzinha fofinha e gostosinha, sou um galã.

– Você leva tudo na brincadeira.

– E você é sério demais. Cara, você precisa abrir um sorriso de vez em quando nessa cara feia e abandonar a sua ridícula pose de gostosão. Você tem o rei na barriga.

– E o que você tem na sua barriga?

– Eu… O boi, os leitões, os frangos e os peixes que comi no café-da-manhã. Marcão, hoje enchi a pança.

– Todo dia você a enche.

– Hoje exagerei.

– Qual notícia você veio me trazer?

– Ah! Sim. A notícia… A Carolina convidou você para a festa de aniversário dela?

– Convidou.

– Você sabe quem me disse que vai lá?

– Não. Quem?

– A Janaína.

– A Janaína?

– Não. A Berenice. Você é surdo? Eu disse Janaína, então é Janaína. Se eu tivesse dito Fabiana, seria Fabiana. Se eu tivesse dito Ângela, seria Ângela. Se eu tivesse dito Catarina, seria…

– Está bem. Já entendi.

– Você sempre fica perdido, com cara de bobo, de idiota, sempre que alguém fala da Janaína. Você está gamado nela, hein, garanhão.

– Estou.

– Também pudera, a Janaína é uma gostosura.

– Não falte com o respeito.

– Ih! O homem virou fera. “Não falte com o respeito.” “Não falte com o respeito.”

– Detesto que me arremedem.

– “Detesto que me arremedem.” “Detesto que me arremedem.” “Não falte com o respeito.”

– Você perdeu a noção do perigo, Betão?

– “Você perdeu a noção do perigo, Betão?” “Você perdeu a noção do perigo, Betão?”

– Vem aqui, besta. Você não me escapa, maldito bolofofo. Rolha-de-poço! – e Marcos passou seu braço por trás do pescoço de Roberto, e apertou-lhe as bochechas ao mesmo tempo que o atraía para si e Roberto esmurrava-lhe, com socos inofensivos, a barriga.

Roberto e Marcos são amigos há mais de dez anos. Inseparáveis. Confidentes um do outro. O contraste, que não pode ser ignorado, de porte e de temperamento, deixa todas as pessoas admiradas. Marcos é alto, atlético, ríspido, desprovido de senso de humor, vaidoso e indiferente ao exercício intelectual. Joga vôlei. Encanta as mulheres. Roberto é gordo, tem um metro e setenta de altura e cento e sete quilos. Bonachão, zombeteiro, está sempre de bem com a vida, dono de inesgotável repertório de anedotas e frases de efeito. Estudioso, pretende seguir carreira literária. Participou de mais de cem concursos literários. Ficou em primeiro lugar em quatro concursos, recebeu sete menções honrosas, três menções especiais e cinqüenta e quatro prêmios de edição. Escreveu um romance e o enviou para nove editoras. Todas o rejeitaram.

Andavam pela avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso. Dirigiam-se à escola. Os dois, ambos com dezessete anos de idade, fazem planos para a carreira que cada um sonha seguir. Marcos está determinado a chegar à seleção brasileira de vôlei; Roberto almeja o Nobel de literatura. Ambos estão dispostos a sacrificar outros prazeres da vida para atingir, cada um deles, o objetivo que cada um tem em mira. Essa precoce consciência da realidade e a força de vontade, mais do que tudo, os unem.

Marcos disse para Roberto que não pretendia ir à festa de aniversário da Carolina, mas como Janaína iria, ele, Marcos, também iria. Roberto perguntou-lhe porque ele não se simpatiza com Carolina; Marcos disse que ela é interesseira e duas-caras. Roberto discordou, disse que ela é adorável, e aprecia admirá-la nas aulas de educação física, nas academias de ginástica e nos clubes, à piscina. Falaram de Carolina durante uns dez minutos. Diante da livraria, despediram-se. Roberto entrou na livraria e Marcos rumou ao ginásio.

No final de semana, Marcos e Roberto foram à casa da Carolina. Divertiram-se muito. Separaram-se no momento em que Marcos abordou Janaína.

Na segunda-feira, Roberto, debruçado sobre o seu caderno de literatura, o cérebro entupido de idéias, pôs-se a escrever. Queria dar vazão à sua imaginação prodigiosa, expor os seus pensamentos, desenvolver as tramas concebidas. As personagens desfilavam, animadas, vivas, na sua mente. Roberto conversou com elas, pediu-lhes esclarecimentos sobre pontos obscuros da vida delas, detalhes de eventos por elas protagonizados e revelações sobre os pensamentos que lhes animavam a mente. Para Roberto, as suas personagens são vivas, reais. De todas as personagens que concebeu, Yvone é a mais instigante, a mais interessante, a de temperamento mais complexo e admirável. (Roberto adora conceber personagens femininas, que, para ele, são mais interessantes do que as masculinas). Yvone é uma jovem de dezoito anos (inspirada em uma jovem chamada Giovana, por quem Roberto suspira e alimenta um amor secreto – ele sabe que Giovana jamais olhará, com admiração e paixão, para ele, pois o rival dele, Ricardo, é um tipo muito mais interessante do que ele aos olhos dela).

No conto Divina, Roberto narra a história de Yvone:

Não há mulheres perfeitas. Há mulheres que se aproximam da perfeição. Mulheres honestas, belas, inteligentes, simpáticas. Elas são raras, dizem muitos homens. Não é a minha opinião. Há muitas mulheres extraordinárias. Os defeitos pequenos eu os relevo. Não desejo uma criatura celestial que desceu dos céus à Terra, perfeita, uma deusa – os deuses também são dotados de defeitos e de vícios tipicamente humanos, que são incalculáveis: gula, fúria, luxúria, incúria, etc. E os deuses têm serviçais e escravos para executar-lhes as tarefas mais comezinhas. E são ingratos e rancorosos.

Na condição humana, na absoluta ausência de pretensões a transcendê-la, Yvone é divina. Dela jamais ouvi propósitos transcendentais e objetivos inalcançáveis para os humanos. Ela não alimenta ideologias irracionais e não sonha com utopias que jamais serão concretizadas porque não levam em consideração a condição humana, utopias que, em resumo, são apenas conceitos de mundo ideal concebidos por pessoas desajustadas, pessoas que alimentam o desejo de erigir um mundo onde elas são reverenciadas. Yvone trata de coisas reais, palpáveis, mensuráveis. Admiráveis a sua determinação, a sua beleza, a sua simpatia e a sua inteligência. Tem dezoito anos – restam-lhe cinco meses para o décimo nono aniversário. Nas suas palavras há mais inteligência do que nas proferidas por muitos homens e mulheres de cabelos brancos. Tem idéias interessantes. Jamais apresenta lições supostamente edificantes. O belo corpo bem torneado ela o mantêm com alimentação balanceada, dieta saudável, sem os excessos das dietas dos vaidosos que, submissos – patéticos! – aos modelos disseminados pelos programas de televisão, pelas novelas, pelas passarelas de desfiles de modas e pelo cinema, emagrecem e convertem-se, como efeito colateral (ou não?), em esqueletos cadavéricos, lívidos, despidos de beleza natural. As falsas promessas das empresas de cosméticos, das revistas femininas e da cultura da anorexia bulímica jamais seduziram Yvone. Ela sempre resguardou a sua autenticidade, de temperamento, de personalidade, de idéias. Jamais se arrastou ao abismo para o qual muitas mulheres (e homens também) se arrastam. Conserva-se Yvone. Bela, linda. Divina. É aplicada nos estudos. É leitora voraz de romances clássicos e de livros de filósofos consagrados – mas mantêm independência de pensamento em relação a todos eles; jamais submeteu-se a uma doutrina e jamais sucumbiu à autoridade de um gênio reverenciado pela humanidade estéril (mais justa apreciação da humanidade: uma parcela é estéril; para sorte dos humanos, todas as épocas tiveram os seus espíritos independentes e libertários). É leitora apaixonada de Montaigne, Leibnitz, Hume, Ortega y Gasset, Gilberto Freyre, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Joaquim Nabuco, Tocqueville, Ludwig von Mises, Locke, Mário Ferreira dos Santos, Proust, Tolstoi, Machado de Assis, Balzac, Dostoiévski, Swift, Cervantes, Melville, Stendhal, Shakespeare, Whitman, Pessoa, Thomas Mann. Essa lista representa a qualidade da leitura de Yvone. A lista completa, se inserida aqui, ocuparia uma resma de papel de sulfite. Nutrida pela leitura da obra de tão extraordinários romancistas, poetas e filósofos, Yvone adquiriu erudição de causar inveja aos eruditos. Na sua pouca idade, não tem rivais.

Dedica-se aos exercícios intelectuais – e não descuida dos exercícios físicos.

Todos os dias, ao acordar, Yvone, antes de o sol nascer, vai à piscina e nada durante trinta minutos. Após retirar-se da piscina, faz a refeição da manhã, rica em carboidratos, vitaminas, fibras e proteínas. Vai ao trabalho, de segunda a sábado, de bicicleta. O trajeto, da sua casa à loja na qual trabalha, corresponde a dois quilômetros. Ao fim do expediente, às seis horas da tarde, ela transita por um percurso de três a quatro quilômetros. Ao chegar à sua casa, troca de roupas e faz caminhada de três quilômetros e, depois, nada, na piscina do clube, por meia hora. À noite – não todos os dias – reúne-se, no clube, com as amigas e os amigos. Joga, em um dia, vôlei, no outro, basquete, em outro, futebol, em outro, handebol. Duas vezes por semana, na terça-feira e na quinta-feira, tem uma aula de uma hora, em cada dia, de karatê; na sexta-feira e no sábado, uma hora, cada dia, de capoeira. Muitas pessoas perguntam-lhe como ela consegue conciliar trabalho, namoro, estudo, esportes e diversão. Ela responde, lacônica:

– Defino as minhas prioridades, e me concentro nelas.

Essa frase, para muitas pessoas um enigma indecifrável, reserva mistérios insondáveis.

Yvone escreve romances, poesias, contos, novelas, ensaios filosóficos, reflexões sobre a vida e o universo e faz pesquisas, na internet, sobre inúmeras ciências. Participa de concursos e saraus literários e filosóficos e de congressos científicos. Integra duas academias. Ostenta, com orgulho, o seu título de acadêmica.

O namorado de Yvone, Marcelo, é um sujeito da estirpe e do temperamento de Yvone. Dizem que os contrários se atraem. Marcelo e Yvone não são contrários, não são, um, o pólo positivo, e o outro, o negativo. Os dois conservam, cada um dentro de si, os dois pólos.

Nos dois finais de semana anteriores, Yvone escreveu trechos de uma novela e de um roteiro de filme ao qual ela vinha dedicando-se havia seis meses. No capítulo quatro da novela, narrou a seguinte cena:

Capítulo 4 – Um diálogo descontraído.

Na casa de Larissa, reuniram-se Marco Antonio, Pedro Paulo, Larissa, Cláudia e Madalena. Pedro Paulo foi o que menos se pronunciou. Ouviu mais do que falou. É submisso ao seu temperamento: retraído. Manifestava-se apenas quando algum dos seus interlocutores pedia-lhe a opinião. Marco Antonio, bonacheirão, falou sem parar e não compreendeu as insinuações maliciosas de Madalena, mulher de espírito livre e temperamento agressivo. Cláudia, estudiosa e tímida, de espírito crítico, comentou todos os assuntos de perspectivas inusitadas. Larissa, tagarela, fofoqueira, não deixou de falar tudo o que sabia a respeito da vida alheia.

– Vocês não sabem da novidade – disse Larissa, com ar de suspense, atraindo a atenção de Marco Antonio, Pedro Paulo, Cláudia e Madalena. Todos, certos de que ela lhes daria revelações surpreendentes sobre a vida de alguém, ouviram-na, atentamente. – Vocês não imaginam o que eu soube, hoje cedo. Não imaginam…

– Conte logo, Larissa – reclamou Madalena. – Deixe de suspense, e conte logo, mulher.

– A Carla contou-me que o Túlio pegou, no flagra, a Marcela e o Lauro, na cama, na casa dela.

– E o que o Túlio fez? – perguntou Madalena, excitada pela notícia.

– O Túlio pulou sobre o Lauro, e esmurrou-o até ele dizer chega! A Marcela tentou separá-los. Não conseguiu. O Túlio quase fez picadinho do Lauro, que, sortudo, safou-se de ir parar num caixão, mas está numa enrascada na qual eu não desejaria me ver. O Túlio prometeu enviá-lo para o inferno. E ele é capaz disso. Se o Lauro dele não tivesse se livrado, agora estaria sete palmos abaixo da terra, conversando com os vermes.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Cláudia, na sua casa, escreveu o último capítulo de um conto no qual trabalhava havia uma semana. É o que segue:

Quatro dias após a festa de aniversário de Carolina, Marcos e Roberto encontraram-se na Praça Emílio Ribas.

– E aí, Marcão – disse Roberto, expansivo, ao saudar Marcos, ao mesmo tempo que lhe estendeu a mão direita para cumprimentá-lo.

– Aí, Beto – disse Marcos, cabisbaixo, voz sumida, cujo rosto transparecia o sofrimento que lhe avassalava o espírito. Roberto abaixou, automaticamente, o braço direito, enfiou a mão no bolso da calça, sentou-se ao lado de Marcos, tocou-o no ombro, e perguntou-lhe:

– Que bicho mordeu você, brother? Diz respeito a Janaína, não é?

– É. É a Janaína – respondeu Marcos, sussurrando. Pela primeira vez em sua vida, Roberto viu-o chorar. O silêncio, opressivo, constrangedor, estendeu-se por uns dez minutos, até Marcos, recomposto, enquanto enxugava as lágrimas, pôr-se a falar: – Você não imagina o que aconteceu, Betão. Você não imagina… Na casa da Carolina… Conversei com a Janaína. Nos entendemos… Eu e ela conversamos. Ela se mostrou bem receptiva, bem disposta… Ficamos na casa da Carolina até… Não sei até que horas. Saímos de lá, acho, depois da meia-noite. Você havia ido embora. Sei que você havia ido embora porque a Ingrid me contou. Eu lhe perguntara se ela havia visto você, e ela me disse que você havia ido para Taubaté, meia-hora antes, mais ou menos, com a Beatriz, a Samantha e o Vanderlei. Sei disso… A Ingrid… Ela me contou. E eu e a Janaína nos despedimos da Carolina, do pai e da mãe dela, da Ingrid, da Renata, do Paulo, e de mais alguns conhecidos, e fomos à discoteca. Perguntei à Janaína se ela queria namorar comigo. Ela sorriu. Não precisou me dizer o que ela desejava. Beijei-a. Nossa! Beto. Fazia décadas que eu desejava beijá-la. Beijo daqueles, sabe, Beto? Inesquecível… Coisa de louco. Ia tudo muito bem… Ia… A Janaína… Eu, cheio de mim, todo prosa, a considerava minha. Mas… Diabos! As coisas nunca acontecem como desejo. Inferno! Vou contar para você o que aconteceu. Você vai entender… Diabos! Puxa, Beto… Sou um filho-da-polícia! Mereço um tiro na cabeça! Que alguém me estoure os miolos, para eu deixar de ser besta! Na discoteca, depois… Estávamos na discoteca. Conversávamos. Dançávamos. Eu olhava para a Janaína… Eu pensava… Nossa! Seria a melhor noite da minha vida… Como eu disse, seria… Mas não foi. Por quê? Porque o papai aqui é um idiota, um imbecil, um retardado, uma besta quadrada. Burro! Asno! Imbecil! Por que… Eu e a Janaína nos entendíamos muito bem… Aí, a Janaína pediu-me licença para ir ao banheiro. E fiquei, lá, na pista de dança. E eu ia me chegando ao balcão… Sabe quem cortou o meu caminho? Sabe quem me apareceu? A Ludmila. Lembra-se dela? A minha ex. Ludmila! Por que ela foi aparecer lá? Vestida com aquele decote, com aquela mini-saia… Meu Deus! Beto, que desgraça! Duas gatas… Eu, interessado na Janaína, e a Ludmila aparece para me atormentar… Por que a Ludmila foi àquela discoteca? Se eu soubesse que ela iria lá, eu levaria a Janaína para outra discoteca, ou… Pois é, meu velho… Beto… Fiquei perdido. A Ludmila estava linda. Tentação. Gata. Deusa. Olhei, com cara de bobo, para ela. De um bobo bem bobo, um bobo idiota, um bobo imbecil. E ela veio… Deu-me um beijo no rosto. “Oi.”, disse-me ela, com aquela voz doce… Sorria… Olhei para ela, com cara de idiota. “Tudo bem, Marcos?”, perguntou-me ela. “Não nos vemos há um bom tempo. Que bom encontrar você aqui. Passei na sua casa. Seu pai disse-me que você havia ido à festa de aniversário da Carolina. Fui à casa da Carolina. A Carolina disse-me que eu encontraria você aqui. E aqui estou, Marcos, para você, todinha para você.” E ela, Beto, passou-me os braços pelo pescoço e espremeu-se em mim. E beijou-me. Não resisti. Estreitei-a nos braços. Beto… Eu e a Ludmila nos beijamos.

– E a Janaína?

– A Janaína? Eu e a Ludmila nos beijávamos… Eu havia me esquecido da Janaína. Tão absorto… A Ludmila, com aquele decote, aquela mini-saia, aquele perfume, aquele batom… Irresistível. Irresistível. E a Janaína… Eu havia me esquecido dela. Maldita Ludmila! A Janaína foi ao banheiro, voltou, e o que ela viu? Eu e a Ludmila aos braços um do outro. Aos beijos… Aos amassos… Ah! Beto. Melhor não contar… A Janaína soltou um berro que podia ser ouvido em Tóquio. Em Kuala Lumpur… Não sei onde fica Kuala Lumpur; sei que fica bem longe, e de lá seria possível ouvir o berro da Janaína. Eu não sabia o que pensar… O beijo, tão gostoso… Afastei-me da Ludmila. Olhei para a Ludmila. Olhei para a Janaína. Olhei para a Ludmila. Olhei para a Janaína. Você não imagina, Beto, o que aconteceu. Você não é capaz de imaginar. Olhei para a Janaína. Olhei para a Ludmila. Ah! Inferno! Que escândalo! Escândalo para figurar na primeira página de um tablóide britânico. De um tablóide britânico! Britânico! A Janaína… Os olhos dela… Os olhos dela… Atingiram-me em cheio… Dos olhos dela, lágrimas… Os lábios, trêmulos… Mas… Ela, com raiva… Muita raiva… Furiosa… Ela queria me devorar. Queria me mandar desta para a melhor. Beto, a Janaína deu-me um tapa na cara. Virou-me para o avesso. Depois, a Ludmila, os olhos arregalados, mãos na cintura, fez um “Oh! Não acredito.”, e acertou-me um tapa na cara, que me virou para o avesso do avesso; em seguida, virou-me às costas, e, furiosa, andando entre a multidão de curiosos, foi-se, batendo os pés. Foi constrangedor. E a Janaína, Beto, a Janaína… Ah! A Janaína, Beto, disse-me que não deseja mais me ver, nem morto. Nunca mais. Virou-me às costas. E foi-se. Belo conquistador eu sou… Perdi, em uma noite, a Janaína e a Ludmila. A Ludmila, bem, eu não a namorava… Mas a Janaína… Perdi a Janaína… Beto, perdi a Janaína…

– Não fique cabisbaixo, Marcão. Pense: Você ficou no avesso? Não. A Janaína virou você para o avesso. Por sorte, a Ludmila desvirou você. E isso não é bom?

– Não estou para brincadeiras, Beto…

– Você é sortudo, Marcão – comentou Roberto.

– Sortudo!? Sortudo!? Beto, você ficou louco? O que você bebeu? Tequila? Vodka? Whisky? O que você cheirou? A Janaína e a Ludmila, Beto, as duas… Nenhuma delas quer me ver mais, nem pintado. Nem morto. Perdi a Janaína… E você diz que sou sortudo!? Você perdeu um parafuso? Perdeu dois parafusos? Você encheu a sua cabeça com titica de galinha?

– Você é um homem de sorte, Marcão. Você tem as duas mulheres mais bonitas da cidade nas palmas das suas mãos.

– Beto, não estou para brincadeiras.

– Você está com a faca e o queijo nas mãos. É só estalar os dedos, que as mulheres correm até você… Que homem sortudo.

– Beto, não continue com essa piada…

– Marcão, as duas mulheres mais bonitas da cidade estão loucas por você. As duas, enciumadas, e por você. Você é um Casanova. Você é um dom Juan. Garanhão. Gostosão. Você é o cara, Marcão. A Janaína e a Ludmila… Garanhão – e deu-lhe um tapa no ombro. Marcos fitou-o, embasbacado. Não queria acreditar no que ouvia. Ou Roberto havia enlouquecido ou apreciava um tipo de humor que ele, Marcos, não compreendia e não desejava compreender.

À noite, Roberto debruçou-se sobre a escrivaninha, e escreveu o encerramento da história de Yvone:

Yvone e Marcelo, nas férias de Yvone, foram ao cinema, ao teatro, a festivais de música, a saraus literários e filosóficos, a congressos de tecnologia e científicos. Foram dias produtivos, férteis de idéias e extraordinariamente proveitosos. As conversas com amigos, atores, escritores, músicos, filósofos, webdesigners, internautas, blogueiros e cientistas enriqueceram-lhes a rica erudição. Os livros, os filmes, as revistas em quadrinhos e os games inspiraram-lhes inúmeras idéias que eles remoeram e as traduziram para uma linguagem singular, distinta, que deles refletia o temperamento e as afinidades literárias.

Dois dias antes do fim das férias, Marcelo e Yvone, de regresso de Ubatuba, onde passaram três dias banhando-se ao sol, tomando banhos de mar, passeando pela orla marítima, degustando deliciosos frutos do mar, entraram em Taubaté. Um caminhão desgovernado colidiu com o carro no qual iam Marcelo e Yvone, e o arrastou por mais de cinquenta metros, e capotou, vindo a colidir com um ônibus desocupado, e um muro, derrubando-o. A colisão, tão violenta, reduziu o carro à sucata. Marcelo morreu instantaneamente. Seu cérebro foi esmigalhado, os pulmões e o coração, perfurados, as pernas e os braços, quebrados. Yvone, com traumatismo craniano, as pernas quebradas, um braço quebrado, morreu, na ambulância, a caminho do hospital. O motorista do caminhão morreu esmagado entre as ferragens.

Três dias antes, Yvone concluíra a história de Cláudia, Larissa, Marco Antonio, Pedro Paulo e Madalena, história cujo último parágrafo é o que segue:

Pedro Paulo, numa inconsequente aventura amorosa com uma prostituta, contraiu o vírus HIV. Seu pai e sua mãe o expulsaram de casa. Uma semana depois, desesperado, pulou de sobre um viaduto, na linha férrea, à frente de um trem. Seu corpo foi mutilado. Um artigo a respeito do suicídio estampou a primeira página dos principais jornais da cidade. Marco Antonio casou-se duas vezes. Sua primeira esposa, Cátia, autoritária e histérica, sugava-lhe o pouco dinheiro que ele recebia todo início de mês. Marco Antonio surpreendeu-a, na cama, aos beijos e abraços, com dois homens. Sua segunda esposa, Solange, sofreu de depressão pós-parto, matou o filho recém-nascido, afogando-o na banheira, e enlouqueceu; Marco Antonio internou-a em um manicômio. Larissa foi expulsa da família por seu pai e sua mãe, que souberam que ela era lésbica e mantinha um relacionamento, desde os dezoito anos, com Marta, a sua chefe, com quem foi morar em Belo Horizonte. Madalena, aos quarenta anos, ingressou em um convento. Cláudia, escritora promissora, com dezenas de prêmios literários, amputou as duas pernas após um acidente automobilístico. Abandonada pelo primeiro marido, que a trocou por uma jovem beldade de dezoito anos, ficou deprimida. Seu segundo marido usou-a como um imã para atrair outras mulheres e dissipou-lhe a fortuna que ela arduamente amealhou com os seus romances, contos, novelas, roteiros de filmes, de revistas em quadrinhos, e traduções. Seu filho, Cauã, que se envolveu com tráfico de drogas, morreu com um projétil alojado no coração, ventrículo direito, e um no cérebro, hemisfério esquerdo, lobo temporal. Sua filha, Marli, vinte e um anos, casada com Saulo, empresário bem-sucedido, deu-lhe uma netinha, Virgínia, corada e saudável. Cláudia a adora.

Conhece o Euclides?

De Euclides nada direi. Corrijo-me: Nada direi a respeito da personalidade de Euclides. Eu me acreditava conhecedor da sua personalidade, do seu caráter, dos seus pendores intelectuais; uma sucessão de eventos, no entanto, nos últimos dias, convenceu-me de que dele nada sei, a ponto de chegar a pensar que não o conheço. Ciente da minha ignorância, decidi, ao me pôr a escrever sobre Euclides, amigo de longa data, sonegar aos meus queridos leitores os meus pensamentos a seu respeito, quais sentimentos por ele eu alimento, e qual é o meu apreço por ele, apreço nutrido, há duas décadas, pelo nosso vínculo fraternal. Alguns leitores, e eles não seriam raros – principalmente os que dizem conhecer Euclides -, contestar-me-iam se eu apresentasse o Euclides como eu o vejo, e casquinariam, reprovar-me-iam, dir-me-iam que apresento traços injustificadamente favoráveis ao meu amigo Euclides, e, contrapondo-se-me, apresentariam as suas avaliações, fiéis, diriam, enfáticos, à pessoa do Euclides. Declinarei, portanto, da obrigação, que muitos leitores atribuem aos escritores, de fornecer uma descrição minuciosa da personagem, no que se refere ao seu caráter, e me concentrarei na descrição do seu aspecto físico, que não alimentará controvérsias infindáveis, e a nenhum dos meus desafetos e desafetos de Euclides propiciará oportunidades de me cuspir objurgatórias.

Não transcorreram vinte minutos da última conversa minha com o Euclides, cuja imagem está nítida em minha memória. Posso evocá-la. Talvez eu me detenha num aspecto em detrimento de outro, que necessitaria, ou de correção, ou de realce; talvez eu negligencie aspectos aos quais não farei menção, e algum leitor atento, que conhece o Euclides, chame-me a atenção para isso; e eu, escritor ciente das minhas responsabilidades, adicionarei o que falta, e retratarei a personagem – o protagonista só dará o ar da sua graça nas derradeiras linhas deste relato, mas a sua pessoa perpassa-o desde o título até a palavra de encerramento -, se não com fidelidade, o mais fiel que me for possível.

Euclides não é alto, nem baixo. Tem um metro e setenta. De estatura mediana, portanto – é poucos centímetros mais alto do que eu. Para um homem de um metro e setenta centímetros de altura, Euclides é razoavelmente pesado. Pesa noventa e oito quilos. Não digo que ele é gordo. Ele tem braços grossos, ombros largos, tórax amplo e uma barriga que começa a se pronunciar. Aos quarenta e seis anos é um homem bem conservado.

Traz no rosto espessos barba e bigode. Ostenta cabeleira que, de tão vasta, parece juba de leão. Metade das suas falripas são brancas, tanto as dos cabelos, quanto as da barba. Seus lábios, descorados, quase invisíveis em meio a tanta barba, podem ser divisados por observadores atentos. Seus olhos guardam pouca expressão. São feios, como é feia a sua figura. A Carmen, sua esposa, não partilharia do meu parecer se eu lho expusesse. As pernas dele são finas. Os pés, desproporcionalmente enormes. Tais aspectos físicos atraem a atenção de muita gente, principalmente a dos caçoadores e a dos seus desafetos.

Euclides é casado com Carmen, que nasceu dois anos antes dele, há vinte e dois anos. Suas filhas chamam-se Camila, Mariana e Heloísa; e seu filho, Ulisses. Todos solteiros. Nada mais direi a respeito deles. Este conto não os tem como personagens. Falarei de Euclides. Melhor: por intermédio de outras personagens, o apresentarei aos leitores.

Há quinze dias, cruzei, no mercado público, entre as barracas dos feirantes, com Hugo, meu amigo desde a juventude. Saudamo-nos. O Hugo enveredou por um tema que não me agrada: a vida alheia. Esse é o seu vício e, infelizmente, consta-se, o de nove em cada dez pessoas (ou o de noventa e nove em cada cem – talvez o de novecentas e noventa e nove em cada mil).

– Tu conheces o Euclides? – perguntou-me Hugo, em certo momento da conversa.

– Euclides? – perguntei. – Qual deles? Conheço quatro Euclides.

– O marido da Carmen – e deu-me descrição minuciosa do Euclides (a descrição aproximava-se da que forneci linhas acima).

– Sim. Conheço-o – respondi.

– Confessar-te-ei: Detesto-o. Sempre que me encontro com ele, dele procuro afastar-me, ou sinto ganas de enforcá-lo. Ele é chato. Intragável. Tem o rei na barriga. Pensa que é o dono do mundo. Acredita que é o maioral porque é empresário, tem quatro carros na garagem, filho estudando na melhor faculdade do Brasil, e filhas que falam inglês e espanhol. Ele me contou que ele, a Carmen, o filho e as filhas viajaram, no ano passado, aos Estados Unidos. Visitaram Miami, Flórida, Disneylândia, Texas, Los Angeles, Califórnia, Grande Canyon, Estátua da Liberdade e o monte não sei qual. O monte no qual há estátuas do Franklin, do Lincoln… Aquele monte que aparece nos filmes americanos. O daquelas quatro cabeças gigantes. Estados Unidos! Uma pessoa que vai aos Estados Unidos é superior às pessoas que nunca foram aos Estados Unidos? Soberbo, o Euclides. Ele adora contar vantagens. “Fui aos Estados Unidos com a minha família”, ele encheu a boca para me dizer. “Fomos à Califórnia”; “Conheci Washington”. Ele conheceu o Washington. Também o conheço. O Washington trabalha comigo. Estou morto de inveja! Pensei em perguntar para o Euclides se ele evoluiu depois de conhecer os gringos. Ele é um colonizado de mente tosca. Sei que muita gente gosta dele. Bajuladora, essa gente desocupada. O Euclides é rico. Rodeiam-no, os abutres. Tu o conheces. Talvez ele tenha te falado da viagem aos Estados Unidos, e também das viagens à Europa, à Noruega e ao Japão. Noruega! Em qual planeta se situa este país? Marte? Júpiter? E o Euclides mostrou-me as fotografias, provas das suas viagens ao exterior. E ele viu a Estátua da Liberdade. Que lindo! Ele, a Carmen, o filho e as filhas viram uma estátua enraizada numa ilha minúscula, localizada no meio de um rio desconhecido, próxima de uma outra ilha, que era uma prisão. Guantánamo, ou coisa que o valha. Prisão desativada. Aparece nos filmes americanos. Guantánamo… Ou Albatroz, não me recordo. O Euclides torrou uma nota preta para ver uma estátua enorme de grande. Que tolice! E na Europa, ele, a Carmen, as três filhas e o filhote foram à Torre Eiffel, visitaram castelos medievais, túmulos de escritores famosos, e pontes, e estátuas, e pinturas. E Paris. Conheceram Paris. Paris! E foram ao Palácio do Kremlin. Em que país encontra-se tal palácio? É um palácio tão famoso que ninguém sabe me dar a sua localização. E eles visitaram Londres, Lisboa, Barcelona, Atenas, Tóquio, Melbourne, Berlim. Conheceram mesquitas, palácios, pontes, igrejas, castelos, e pontes, e castelos, e mais pontes, e mais castelos, e mais castelos. E ruínas. Ruínas de igrejas, ruínas de pontes, ruínas de castelos. E mais ruínas de castelos. O Euclides é um sujeito intragável. Um exibicionista. Arrogante. Vive em um mundo à parte. No seu mundo, ele reina, e todos satisfazem os seus caprichos. Ele se considera o centro do mundo. Ninguém é mais importante do que ele, ele pensa. Com toda a sinceridade: ele é o homem mais arrogante, orgulhoso, prepotente e asqueroso que conheço. Sujeito repulsivo.

Abordou-me Pedro, um amigo, encerrando os vitupérios proferidos por Hugo. Eu vaticinava um dia tedioso, pois Hugo, enquanto não destilasse todo o seu veneno, não daria por encerrados os seus comentários depreciativos à pessoa do Euclides, amigo meu de duas décadas, constrangendo-me. Não aprecio críticas, ao meu ver infundadas e injustas, a ninguém, muito menos a um amigo meu cuja amizade me é valiosa. Para a minha sorte, Pedro, com a sua extroversão inusitada, e a sua filhinha loquaz, Camila, que, com sua voz sedosa, suas tranças, as suas meias compridas, que me fazem evocar Pippilota, filha de Efraim Meialonga, impediram que Hugo tecesse mais alguns comentários à pessoa do Euclides. Contrariado, após alguns minutos, ele de nós se despediu, e foi-se embora.

Três dias depois, na empresa, durante uma conversa descontraída, no refeitório, com dois amigos, Cléber e Gabriel, e uma amiga, Alaíde, deles ouvi comentários a respeito de Euclides.

Gabriel disse:

– Conheceis o Euclides? O empresário, marido da Carmen? Encontrei-me com ele dias destes, não faz uma semana, perto da minha casa. Ele gosta de se exibir. A elegância personificada. Esmera-se na aparência, o distinto doutor. Empedernido. Esnobe. Terno impecável. Gravata. Nariz empinado. Vaidoso. Prepotente. Exibiu-me o carro de luxo importado. Da Alemanha, dos Estados Unidos, não me recordo. Encheu a boca para me falar da aquisição de uma loja. Qual loja? Não me recordo. Sujeito insuportável. Soberbo. Ele pensa que é melhor do que todo mundo, e a esposa dele, a melhor esposa do mundo, e o filho dele, o melhor filho do mundo, e as filhas dele, as melhores filhas do mundo. O Euclides é intratável, arrogante, soberbo.

– Tu detestas o Euclides, estou vendo – comentou Alaíde. – O Euclides não é como tu o pintas. Conheço-o há seis, sete anos. Conheço a Carmen, o Ulisses, a Camila, a Heloísa e a Mariana. São educadíssimos. Eu os conheci na festa de casamento da Lúcia, minha prima, que há três anos se divorciou do Marcelo, e, no ano passado, se casou com o Adriano, dele se divorciando no mês passado. O Ulisses era um menino quando o conheci. Uma gracinha de menino. Agora, ele é um homem inteligente, bonito, alto e forte. Eu e o Renato nos encontramos com ele e com a namorada dele na casa da Márcia, há duas semanas. Educadíssimo, o Ulisses. A Mariana, a Camila e a Heloísa são moças educadíssimas. Das três a que melhor eu conheço é a Camila, que é moça simples, herdeira dos pendores do Euclides. Todos dizemos que são o nariz de um e o focinho do outro. A Camila puxou pelo Euclides. Das três moças, é a que herdou do pai o talento para os negócios. Incríveis, as semelhanças de temperamento e pendores intelectuais. O mesmo senso prático, o mesmo espírito empreendedor, a mesma confiança no valor do estudo e trabalho árduos. Certa vez, ela me disse que administrará as empresas do pai. Euclides é um felizardo. Raros empresários têm filhos com talento para os negócios. E ele tem uma filha, a Camila. O Euclides tem orgulho das próprias conquistas, do próprio sucesso. Ora, eu, embora não tenha alcançado sucesso equivalente ao dele, sou uma pessoa bem sucedida, e me orgulho das minhas conquistas. E sou ambiciosa. O Euclides é um homem ambicioso, seguro de si. Tem os seus defeitos, é óbvio. Ora, quem não os têm!? Ele distingue o certo do errado; o permitido do proibido. Ele, católico, defende aqueles valores antigos, e não se curva è pedagogia moderna, e tampouco ao discurso falacioso de intelectuais vigaristas, sórdidos inimigos da humanidade. Uma leitura de artigos publicados em sites e blogs de pensadores cuja integridade moral é inatacável nos dá um panorama da situação política atual, que nos põem abismados. E podemos descer às minúcias de cada pormenor que constitui tal situação. Euclides resiste ao avanço das hordas de seguidores de humanistas liberticidas. Ele é um homem de têmpera de aço, de pulso firme, na família e na empresa. Tatcher e Reagan são os seus ídolos. Ele educa as filhas e o filho, impondo-se como pai, uma autoridade moral. Agindo assim, ao contrário do que declaram os moderninhos, deles têm amor. Ele corrige os filhos quando estes cometem uma falta. Pune-os. E orienta-os, para eles evitarem dissabores. Catilinárias intelectualóides não o persuadem a mudar de atitude. Ele é um homem de fibra. Conheço-o e conheço a família dele. Ele é um homem trabalhador, honesto, confiável, um exemplo de homem para os homens.

– Que notável peça de oratória! – comentou, zombeteiro, Gabriel. – Um rosário de louvores. Escrevas uma hagiografia.

– A minha formação intelectual, fruto de leituras de livros clássicos, permite-me expressar-me com elegância, até mesmo sobre temas triviais – retrucou Alaíde, veemente. – Não escreverei uma hagiografia do Euclides. Eu nunca disse que ele é um santo.

– Vocês conhecem o Euclides – interveio Cléber, que, ao observar a fisionomia de Gabriel e a de Alaíde, e a troca de olhares entre eles, perspicaz, anteviu a irrupção de uma discussão interminável, certo de que, dentre os dois, Gabriel seria o que mais se exaltaria, e prorromperia em exclamações furibundas, e insultaria Alaíde, que defenderia Euclides e atiraria farpas ferinas contra Gabriel, como era do seu estilo. – Não o conheço. Conheço pessoas que o conhecem. Conheço vocês, que o conhecem. E conheço pessoas que conhecem pessoas que o conhecem – levou à boca um punhado de arroz. – Vejo-o, aqui e ali, a pé, acompanhado de uma mulher, a esposa dele, presumo. Morena clara de cabelos compridos ondulados, sempre bem vestida, elegante, com uma bolsa a tiracolo.

– É a Carmen, esposa dele – disse Alaíde.

– Falei de bolsa – comentou Cléber -, e a Alaíde identificou a dona da bolsa. Mulheres! Não resistem a bolsas e chocolates. Há homens que dizem ter dificuldades para seduzir as mulheres. Ofereça-lhes bolsas e chocolates. E anéis de brilhantes. Não podemos nos esquecer dos anéis de brilhantes. Comentários machistas. Alaíde, mantenha-se distante de mim, no mínimo, trinta metros – levou o copo com refrigerante à boca; sorveu do refrigerante, e, antes de pôr o copo sobre a mesa, disse: – Um brinde – e prosseguiu: – Sempre vejo o Euclides de terno, gravata e sapatos brilhantes de tão polidos. A postura dele, ao andar, correta. Nunca o vi curvado, como se carregasse um fardo às costas. Elegante, o Euclides é. Charmoso, também ele é. Bem vestido, sempre. Tem porte de aristocrata; não dos de Bruzundanga. A elegância, o charme e o gosto requintado não fazem ninguém arrogante. Sei que muitas pessoas não se simpatizam com ele. Por quê? Não me perguntem. Não o conheço. Vocês o conhecem.

– O Euclides é arrogante – disse Gabriel. – É um muquirana. Se vós pensais que o tio Patinhas é o maior mão-de-vaca que existe, enganardes redondamente. Euclides é o mão-de-vaca típico. Era pobre. Enricou. E pensa que é o dono do mundo. Ele não tem uma caixa forte, mas tem coração de pedra e despreza os pobres. Todo pobre, ao se enriquecer, envergonha-se da sua vida de misérias, e refocila-se no luxo, para ocultar a sua história, para esconder de si mesmo o seu passado. O Euclides envergonha-se, do mesmo modo que todos os pobres que se enricaram, do passado, que o persegue pela vida afora; daí, escreveria um romancista, as fumaças de aristocracia. Ostenta erudição que não tem, fortuna nababesca, títulos a mancheias, carros do ano, símbolos de status alcançado, não com trabalho árduo, estudo e mérito, mas devido ao seu vínculo com políticos influentes. Com os joelhos flexionados, o reverenciam, servis. Beijam-lhe os pés. A recompensa, sabemos, é farta. O Euclides vive em uma redoma. Mora num condomínio. O filho e as filhas estudam em escolas particulares. Por que eles não estudam em escola pública? O Euclides não quer que eles se misturem à gentalha. Dona Florinda que o diga. A família dele tem plano de saúde particular. Por que eles não vão a hospitais públicos? Não querem se misturar à gentalha. Na garagem, tem três carros, ou quatro. Não importa. Ele é um riquinho. O filho dele, um mauricinho; as filhas, patricinhas. Soberbos e arrogantes, todos eles.

– Não sei o que o Euclides possa ter-te feito para tu destilar tanto veneno – comentou Alaíde. – O Euclides é rico? É. A riqueza faz dele um homem arrogante e soberbo? Não. Ele é orgulhoso? É óbvio que ele se orgulha das conquistas dele, do mesmo modo que me orgulho das minhas. Nesta vida atribulada, e a do Euclides foi atribulada, repleta de percalços, almejar o sucesso com o suor do próprio rosto, e obtê-lo, não é tarefa para os fracos. É tarefa para os fortes. Há ricos arrogantes, prepotentes e soberbos. Há ricos humildes, simpáticos. Não generalize, Gabriel. E não use estereótipos. De estereótipos o inferno está cheio. E eu também. Conheço pobres que são arrogantes, prepotentes, soberbos, gananciosos, mesquinhos e invejosos. Conheço pobres que são humildes, dotados de nobres sentimentos. Não me venha com a história, preconceituosa, discriminatória, de que todo rico é mau-caráter, personificação do mal, e todo pobre, bom, inerentemente bom. O Euclides é um homem bom. Ele é vaidoso? É. Quem não é? Ele é ambicioso? É. Quem não é? Ele é orgulhoso? É. Quem não é? Ganancioso ele não é, e nem arrogante, e nem prepotente. Ele é um homem seguro de si, confiante. Muita gente confunde firmeza de propósitos com ganância, e a mediocridade, a incúria, o desleixo e a pobreza com humildade.

– Filósofa – casquinou Gabriel.

– Não queiras desmerecer a minha opinião, espezinhando-me – retrucou Alaíde. – Se queres, alfinete-me. Exorto-te a não perderes o teu tempo. Sei que muitas pessoas invejam o Euclides, pessoas que ambicionam o que ele possui: Nome respeitável, riqueza, família feliz, coragem para defender os seus princípios, que o norteiam; princípios que, posso declarar, convicta de que tenho razão no que digo, oferecem-lhe a força necessária para se dedicar ao estudo, ao trabalho, e a coragem para propugnar os seus propósitos. Conheço muitas pessoas que, ao se depararem com o primeiro obstáculo, detêm-se, petrificados, e, ao não conseguirem transpô-lo, sucumbem, prostrados no chão, e desistem dos seus sonhos, se sonham, efetivamente; depois, ao transcurso dos anos, ao se recordarem do insucesso, ou desconversam, ou o justificam, atribuindo o fracasso à ausência de apoio, à hostilidade de um rival desleal, e nunca confessam a falta de vontade, de fibra. Eu poderia citar muitas pessoas fracassadas que agem assim. Por decência, não o farei. Meu respeito por elas não mo permite.

A conversa estendeu-se por meia hora. Gabriel, Alaíde, Cléber e eu divergimos em muitos pontos. A polarização entre Alaíde e Gabriel destacou-se e predominou na conversa. Os meus apartes e os do Cléber, adicionamo-los, tímidos, para não ferir suscetibilidades dos dois contendores, que abandonaram a razão, e agiram impelidos pelos sentimentos feridos. Não sei o que pôs fim à conversa. Passamos para outro assunto ao modo de ‘mudando de pato pra ganso’.

Reproduzi um trecho da conversa, do que me lembro. Não pretendi evocá-la com exatidão – estou impossibilitado de fazê-lo. Conservei, no entanto, o essencial; como pude, reproduzi o vernáculo de cada um deles, e, inclusive – esforço ingente; frutífero, acredito – o tom de voz deles e os sentimentos que lhes inspiraram as palavras que cada um deles proferiu. É infundada a minha certeza nesta crença no meu sucesso? Terei de confrontar o meu testemunho com o do Cléber, o do Gabriel e o da Alaíde. Após isso, não saberei, estou certo, se o relato concebido a partir dos testemunhos deles será fiel ao teor da conversa.

Como se vê, no trecho no qual relato tal conversa, não apresentei os meus comentários a respeito do Euclides. Eu os escrevi, mas, certo de que a apresentação dos meus comentários conduziriam os leitores à uma direção que lhes daria uma idéia equivocada de quem é Euclides, os suprimi, pois não se adequam ao propósito que tenho em mente.

Encerrada esta digressão, prossigo:

Ouvi, nos dias seguintes, outras pessoas a comentarem sobre Euclides. Constatei que a maioria delas não se simpatizam com ele.

Durval, na mercearia perto de casa, disse-me, hoje de manhã:

– Conheces o Euclides? Sujeito intragável. Cruzei com ele na loja Pés Macios. Que sujeito chato! A chatice em pessoa. Ele perguntava ao vendedor o preço dos sapatos, anotava-os em um caderninho, pedia desconto de quinze por cento no pagamento à vista, e ditava o preço do mesmo modelo de sapatos em outra loja. Queria o desconto. E insistia em obtê-lo. Sujeito miserável. É podre de rico, e vive a barganhar em todas as lojas em que entra. Ele não abre a mão nem para dar tchau. De que lhe vale tal apego à riqueza? Morto, ele não a levará ao túmulo.

À tarde Jaqueline, minha amiga desde a juventude, casada, mãe de Poliana e Rebeca, disse-me:

– Conheces o Euclides? Que homem simpático! Conheci-o, ontem. Ele e a esposa, Carmen. Homem elegante, charmoso. Bonito. Não conte isso para o Tiago. Ele morrerá de ciúmes – sorriu. – O Euclides não é extrovertido; mas o sorriso dele é lindo. Apreciei a conversa que mantive com ele e a Carmen. Pessoas ricas e simples. Eu os imaginava diferentes. Disseram-me que ele é arrogante, prepotente. Ele é simpático! Um homem de opiniões próprias. A dicção dele, perfeita. Ele é elegante, confiante, inteligente. Admiro as pessoas inteligentes, confiantes, dotadas de espírito de iniciativa e que zelam pela liberdade, a própria e a dos outros. E ele é humilde, embora podre de rico. Ontem, ele trajava terno, gravata e calça social. Ao fitá-lo, pensei com os meus botões: “Xi! Terei, agora, de aturar este esnobe com o rei na barriga” quando o Tiago mo apresentou. Diante de mim, o rei da cocada preta. E quem conheci? O Euclides surpreendeu-me. O Euclides que conheci não foi o Euclides de quem me falaram. O Euclides é invejado por aqueles que o admiram e admirado por aqueles que o invejam. Enfim, o meu lar, doce lar. Minhas filhas aguardam-me. Iremos ao oftalmologista. Temos, ainda, tempo para uma xícara de café. Aceitas?

Recusei o convite. Disse-lhe que, em outra ocasião, aceitarei dela convite para um café. Despedimo-nos.

Minutos depois, sentado num banco da praça Rui Barbosa, eu descansava à sombra de uma árvore quando ouvi uma voz chamando-me pelo nome. Voltei-me. Era o Euclides de quem todos me perguntavam “Conheces o Euclides?”

– Boa tarde – saudou-me.

– Boa tarde, Euclides. Passeando, para espairecer?

– Para refrescar a cabeça – respondeu-me. – Para deixar os pensamentos livres, soltos. Para renovar as energias. O trabalho enobrece, até certo ponto – e sorriu. – Se me sobrecarregar, entrarei em curto-circuito.

Sentou-se à minha direita, ajeitou-se ao encosto do banco, e cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda.

– Que calor! – exclamou, mais para si do que para mim; curvou a cabeça para trás, e olhou para o céu. – O céu, limpo. Hoje não choverá. A Carmen está gripada. A Heloísa ficou uma semana acamada. Trinta e nove graus de febre. O tempo quente e seco maltrata as pessoas. As crianças e os velhos são os que mais sofrem. Com eles, os cuidados têm de ser redobrados. O Gustavo, menino de dois anos, filho do Henrique, o meu vizinho da direita, foi encaminhado ao hospital. Desidratação. Diarréia. Meu pai, minha mãe e meu sogro, até agora, não sucumbiram à gripe…

Intrigou-me o comportamento do Euclides. Ele, lacônico, jamais se permite a expansividade. Falou-me do clima, de seu pai, de sua mãe, de seu sogro, da Carmen, da Heloísa, do filho do vizinho. Intrigou-me o seu comportamento. Conversamos, sossegados, à sombra da árvore. Falamos da minha família, da família dele, de futebol, carnaval, conflitos entre árabes e israelenses, atritos diplomáticos envolvendo o governo dos Estados Unidos e o da China. Euclides, bem informado, para enriquecer os seus argumentos, parafraseou filósofos, sociólogos e citou políticos de inúmeros países e vertentes ideológicas. Prolongamos a conversa por duas horas. Levantei-me. Preparei-me para me despedir. O Euclides reteve-me, e perguntou-me:

– Conheces o Euclides?

Intrigado, sentei-me. Fitei-o. Ele abriu um sorriso acanhado, e disse-me:

– Conheces o Euclides? Tu te perguntas porque te faço esta pergunta. Para te dizer a verdade, não sei porque a faço a ti. Desgosta-me muitas coisas que ouço… Conheces o Euclides? É a pergunta que mais se ouve por aí. Já te fizeram tal pergunta, não? Conheces o Euclides? Parece o título de uma peça teatral cômica, não te parece? Conheces o Euclides? O que te falam do Euclides? O Euclides é arrogante, prepotente, ganancioso. É simpático, trabalhador, humilde. Conheces o Euclides? Eu sou o Euclides. Não sou, nem o arrogante e prepotente, nem o simples e humilde. Digo-te uma coisa: Não sei quem é o Euclides. Não conheço o Euclides de quem tanto falam e que tão bem conhecem. Sou o Euclides. Quem sou? Já me fiz esta pergunta milhares de vezes. Há momentos em que me considero um homem trabalhador, correto e ambicioso. Noutros, atribuo-me pendores que não me agradam. Sou quem penso que sou; sou quem as pessoas pensam que sou; sou quem sou. Quem sou? Eu, que sou quem penso que sou, não me porque -me, e de rico. assim,rabalha comigo. timentos por ele eu alimento, qual conheço como sou; as outras pessoas não podem me conhecer, pois elas conhecem quem acham que sou, não quem sou. Muitas pessoas me elogiam, e um número muito maior de pessoas criticam-me. Não sou quem elas dizem que sou; e elas não podem me conhecer melhor do que eu me conheço, e mal me conheço à idade de quarenta e seis anos. Para encerrar: Conheces o Euclides?

Pensamento positivo

– Querer é poder – disse Marco Aurélio para Robson, então desanimado antes do início da conversa; agora, ouvidas as palavras animadoras de Marco Aurélio, e a sentença estimulante, motivadora, animou-se Robson, que prometeu para si mesmo que seria bem-sucedido em seu empreendimento.

Robson queria ser arquiteto. Não se classificara, no ano anterior, no vestibular. E neste ano prestaria exame vestibular.

– Chute para escanteio a tristeza, Robson – aconselhou-o Marco Aurélio. – Pense positivo. Pense positivo, sempre. Diga para você mesmo: “Eu conseguirei. Serei um arquiteto. Estudarei em uma faculdade de arquitetura. Serei um arquiteto.” Esteja certo, Robson. Você será um arquiteto. Pense positivo. Pense positivo, sempre.

Robson não foi o único candidato à vaga à uma cadeira na faculdade de arquitetura que pensou positivo. Outros seis mil jovens prestaram vestibular para ingressarem na faculdade de arquitetura, e todos eles tiveram a mesma idéia: Pensar positivo. Eram cinquenta as vagas à disposição dos candidatos. Façamos às contas. Seis mil candidatos para cinquenta vagas. Para cada vaga, cento e vinte candidatos.

Evoco, de memória, uma história que ouvi, certa vez, de meu avô. Ele me disse que, certa ocasião, não me recordo se na copa de 58, se na de 62, se em outro campeonato de futebol, Garrincha perguntou, com a sua sutileza de passarinho (em uma época em que ele estava no auge) à pessoa que disse que o Brasil tinha de ganhar o jogo:

– Já combinou com os suecos?

A história foi mais ou menos essa a que meu avô contou-me. Talvez eu a tenha alterado, mas ela me serve para ilustrar o que se sucedeu com Robson.

Os seis mil candidatos às cinquenta vagas do corpo discente da faculdade de arquitetura não sabiam que Robson pensava positivo e Robson não sabia que eles pensavam positivo. Os pensamentos positivos dos seis mil candidatos colidiram-se uns contra os outros no dia da prova. E Robson soube, poucas horas depois de encerrado o tempo à disposição para os candidatos responderem às cem questões, o gabarito às mãos, comparando as respostas corretas com as que registrara, para seu desgosto, que acertara menos de cinquenta por cento das questões, e não se classificaria, não lhe restavam dúvidas, entre os cinquenta melhores candidatos. Daria adeus, persuadiu-se, ao seu sonho de cursar a faculdade de arquitetura.

No dia seguinte, Robson encontrou-se com Marco Aurélio, e falou-lhe do vestibular:

– Acalme-se, Robson – aconselhou-o Marco Aurélio. – Você conferiu o gabarito, mas ainda não foi publicada a lista dos candidatos classificados. Das cem questões, você acertou quarenta e oito, o que corresponde a quarenta e oito por cento das questões. É uma porcentagem baixa de acertos, o que não dá a você razões para se preocupar. E digo isso porque li, anteontem, uma reportagem, publicada na revista **, na edição da semana passada, apresentando os resultados de uma pesquisa. Pasme-se, Robson. Ouça-me, atentamente, e alegre-se. Um pouco mais de cinquenta por cento dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais. Pense positivo. Pense positivo, sempre. Muitos candidatos, é certo, foram, no vestibular, piores do que você. Pense positivo. Pense positivo, sempre.

– E se o resultado da pesquisa estiver errado? – perguntou Robson.

– Provavelmente está – sentenciou Marco Aurélio, sorrindo. – Corrijo-me: Está errado, certamente. Lendo a pesquisa financiada por um órgão público, ou por um órgão particular financiado com dinheiro público, e indicando problemas que não se pode varrer para baixo do tapete, então, digo, sem o receio de errar, adulteraram-se os resultados, reduzindo-se os seus pontos negativos. Pense: Se os resultados indicam que cinquenta por cento dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais, então… Pense, Robson. E pense positivo. Pense positivo, sempre. E conclua o meu argumento. Complete o meu raciocínio. Então, adulterado o resultado, foi reduzida a porcentagem de alunos analfabetos funcionais do total do corpo estudantil brasileiro. E os analfabetos funcionais correspondem a sessenta por cento, ou a oitenta por cento, ou a cem por cento dos universitários, e não aos um pouco mais de cinquenta por cento indicado pela pesquisa; então, é a conclusão óbvia, ou sessenta por cento, ou oitenta por cento, ou cem por cento dos candidatos à faculdade são analfabetos funcionais.

– Se cem por cento – comentou Robson – são analfabetos funcionais, então eu também o sou, e não sabia; então… qual é a minha chance…

– Pense positivo, Robson. Pense positivo, sempre. Consulte a lista dos nomes classificados, e… Pense positivo. Pense positivo, sempre.

Duas horas depois, Robson consultou a lista com os seis mil nomes de candidatos. O seu nome ocupava a 2394ª posição. Cabisbaixo, Robson rumou para a sua casa, à porta da qual encontrou Marco Aurélio; voz tatibitate, fisionomia murcha, suspirando a curtos intervalos, falou-lhe da sua desclassificação.

– O que se pode dizer, Robson? – perguntou Marco Aurélio. – Todos os outros candidatos pensaram positivo. Alguém tinha de ser desclassificado, não é? Se eu fosse você, pensaria positivo, pensaria positivo, sempre, e tentaria o vestibular novamente; poderemos corrigir os nossos erros, aliás, você poderá corrigir os seus erros, afinal, contou-me você, você não estudou para o vestibular…

– Você me disse que bastava eu pensar positivo, que as coisas aconteceriam por si.

– Robson, pense positivo, mais uma vez, e estude, que você se classificará no vestibular, e se inscreverá na faculdade de arquitetura, com certeza.

– Você acredita? Marco Aurélio, pense positivo, pense positivo, sempre. A minha vontade é a de acertar um soco na sua cara e quebrar seu nariz. Pense positivo, Marco Aurélio. Pense positivo, sempre. Pense que você poderá esquivar-se da bordoada. Pense que eu escorregarei, e você fugirá de mim. Pense que cairá um raio em minha cabeça. Pense positivo, Marco Aurélio. Pense positivo, sempre. E saiba que eu, pensando positivo, pensando positivo, sempre, acertarei, positivamente, um soco nas suas fuças…

O homem que não namorava

Claudemir, tipo bem apessoado, vaidoso, de boa aparência, simpático e espirituoso, sabia entreter os seus interlocutores, em uma conversa agradável e descontraída, com observações sarcásticas e irônicas. Admiravam-lhe a prontidão na resposta e a postura agressiva, que intimidava os interlocutores, principalmente os seus desafetos. Não era bonito, mas considerava-se o mais belo dos homens. O espelho era o seu melhor interlocutor. Os seus solilóquios envaideciam-no; o espelho reconhecia-o como o mais belo espécime do gênero masculino humano, o mais inteligente, o mais charmoso, o mais elegante, o melhor de todos os amantes.

De uma família pobre, na infância e na juventude foi privado dos brinquedos que mais desejava. Para ajudar seu pai e sua mãe, trabalhou, de engraxate, aos doze anos. Meses depois, de balconista, em um bar. E foi auxiliar de pedreiro, carregador de sacolas, em uma loja, faxineiro, na rodoviária e em um restaurante; garçom, aos dezessete anos; cozinheiro, aos dezenove; taxista, balconista de lanchonete e motorista, aos vinte. Atribuía-se versatilidade intelectual e elevado talento para aprender novas profissões. A sua desenvoltura, irrivalizada, corroborava a apreciação que fazia de si mesmo. Era dotado de inteligência prática vigorosa, e era extraordinariamente persuasivo. Extrovertido, rodeado de amigos, que o ouviam, com interesse e atenção, sempre que ele se pronunciava, e ele se pronunciava sempre, nunca recusava os convites que lhe faziam; foi convidado, certa vez, pela irmã da viúva de Gustavo Guimarães, para animar velório: “Claudemir, por favor, vá ao velório do meu cunhado. O velório está com cara de… velório”. Eram seis horas da manhã de um dia frio de inverno. Claudemir não titubeou: aceitou o convite.

Visceralmente avesso aos livros, não compreendia a paixão de Milene, sua irmã, pelos romances encorpados de Tolstoi, Dostoievski, Thomas Mann, Proust, Dickens e Victor Hugo. Quando Milene resumia-lhe o enredo de um romance russo, ele lhe perguntava porque ela perdia tempo com estórias tão patéticas, boquiabrindo-a com comentários depreciativos.

Certo dia, Milene, no seu quarto, lia À sombra das raparigas em flor. Claudemir interrompeu-lhe a leitura, e, zombeteiro, perguntou-lhe com qual melodrama novelesco patético ela perdia tempo. Milene retrucou, disse-lhe que lia um dos melhores livros de todos os tempos o qual Claudemir jamais apreciaria devido à sua insensibilidade literária. Claudemir ridicularizou-lhe o apreço pelos romances. Durante a conversa, que se assemelhava a uma discussão fraternal entre dois jovens implicantes, Milene, além de dizer-lhe que os comentários dele eram frutos da ignorância, disse-lhe que À sombra das raparigas em flor é um dos sete livros que compõem a obra magistral, de mais de duas mil páginas, de Marcel Proust, escritor de quem ele nunca ouvira falar, e cuja obra jamais irá ler, o que é demérito dele, Claudemir. Claudemir aconselhou-a, zombeteiro, a largar o livro, e ir às discotecas, aos bailes, aos shows de forró, pagode, country, e caçar um namorado, casar com ele, e com ele ter sete filhos, que lhe exigiriam todo o tempo disponível; assim, ela não desperdiçaria mais nenhum segundo com leituras de livros insignificantes, que afastam as pessoas das atividades produtivas, para imergi-las em fantasias estapafúrdias. Milene, ofendida, retrucou:

– Não fingirei que não ouvi os seus comentários, ignorante. Você está me aconselhando a… Entendi o que você me disse? Você me disse para eu caçar um homem, e me casar com ele? O que você pensa que sou? Que história é essa de casar e ter sete filhos? Por que sete filhos? Para não me sobrar tempo para ler romances de Proust, Tolstoi, Gogol, Machado de Assis, Balzac, Dostoiévski, Wassermann e Austen? Você despreza tanto os livros, que deseja me ver ocupada com sete sobrinhos seus a me ver com um livro aberto, a lê-lo. Só sete? Que tal onze? Daria um time de futebol. Por que você não segue o conselho que me deu? Olhe-se no espelho, Claudemir. Perco o meu tempo lendo livros? Não. Não perco o meu tempo. Eu o ocupo como desejo ocupá-lo: lendo livros. Saiba que, assim que eu concluir a leitura de Em busca do tempo perdido, vou reler Ana Kariênina, Almas Mortas, Tom Jones, Os demônios, Os noivos, O processo Maurizius, e, depois, irei ler Meu nome é vermelho, Noites antigas, Emma, e As minas de prata. Não queira me convencer a namorar, casar e ter sete filhos. E você, Claudemir? Você perde o seu tempo mirando-se ao espelho durante trinta horas por dia, dez dias por semana, seis semanas por mês e quinze meses por ano. Você é um pavão. Narciso. Não tenho namorado? É verdade. Rompi o namoro com o Murilo, e por bons motivos. E casamento, no momento, não me passa pela cabeça. Sete filhos! Nunca. Terei dois filhos. No máximo, três. Mas, e você, narciso? Você, que me aconselha a caçar um homem, namorar com ele, e com ele me casar, nunca namorou, e não pensa em casamento. Você, aventureiro, foge dos compromissos como o diabo foge da cruz. Você só teve aventuras de uma noite; no máximo, de um final de semana. Você dá início aos seus namoros, no sábado, à noite, e os dá por encerrados, na segunda-feira, de manhã. Eu, no entanto, no que me diz respeito, tive quatro namorados, você sabe. Namorei o Carlos, o Marcos, o Hércules e o Murilo. O Carlos, durante seis meses; o Marcos, um ano; o Hércules, um ano e meio; e o Murilo, oito meses. E você?

– Não namorei nenhum deles – comentou Claudemir, sorrindo. – Jogo em outro time, Milene.

– Bobo. Eu sei. Você não é como o Hugo. Ele é bonzinho, gosto dele… Gosto dele, mas…

– Você tem uma quedinha por ele, Milene…

– Tive, é verdade.

– Você ainda gosta dele.

– Ele é fofo, simpático, um amigo sincero. Aquela paixão que eu sentia por ele, paixão que… Não a sinto mais. Ele foi viver a vida dele… Infelizmente, as coisas não se deram como eu queria…

– Você ainda gosta dele… É só alguém falar dele, que você muda o tom da voz.

– Gostar dele, gosto. Na vida há surpresas…

– Que chato, né? Ele preferiu o Elói a você. O Elói… Até hoje zombam dele… O Hugo, indiscreto, o constrangeu… Lembro, como se fosse ontem… Nossa! O que se passou pela cabeça do Hugo? Declarar-se, assim, tão… Ele deu um tiro no próprio pé.

– Você se lembra? Nossa! O Elói, constrangido, imóvel… Ele… Ao lado dele, a Ludmila, com quem ele namorava… Nossa! Que vergonha! O Hugo foi muito… Muito… Insensato… O Elói… O Elói, agora, namora a Tereza.

– O Hugo ficou arrasado… Você não o conquistou; ele não conquistou o Elói… O mundo nos surpreende…

– Remova esse sorrisinho ridículo, descarado, da cara, bobo.

– Bobo. Este é o único palavrão que você conhece? Chamando-me de bobo, você me ofende? Nos romances que você já leu não há palavrões? Não? Então, por que você os lê?

– Você é bobo, Claudemir.

– Vamos deixar pra lá esta questão. Quero falar de outro assunto: Adriana. Convenhamos, Milene, ela tem bom gosto.

– Você é bobo. Não conheço ninguém mais bobo do que você.

– Você concorda comigo, não concorda? A Adriana tem bom gosto, não têm? Ela, no ano passado, namorou a Daniela, um peixão, e, no começo deste ano, a Fabíola, um violão. Duas gatas. Duas sereias. Duas maravilhas da natureza. Duas divindades celestiais. Gatíssimas.

– As duas são bonitas, mas não exagere… A Fabíola namora o Renato. A Daniela… Ela se mudou para o Maranhão. Não tenho notícias dela há mais de seis meses. Mas chega de rodeios, Claudemir. Não queira mudar de assunto. Por que você nunca namorou as suas pretendentes? Estou falando de namoro, Claudemir. Namoro, entendeu? Relacionamento sério, de seis meses, um ano, dois anos. Não estou me referindo às suas aventuras de um final de semana, e tampouco às de uma noite, isto é, de seis horas. Por que você nunca namorou as suas pretendentes? Você é bonito, Claudemir. As mulheres gostam de você. Pretendentes você tem. Por que você não namorou a Lúcia, nem a Veruska, nem a Olívia, nem a Poliana, nem a Rafaela, nem a Sandra, nem a Graziela? Todas elas quiseram namorar você, mas você deu um chega pra lá em todas elas. Por quê? Pode me dizer, Claudemir?

Claudemir, para surpresa de Milene, retirou-se do quarto, em silêncio, inexpressivo.

Milene prometeu, para si mesma, que arrancaria de Claudemir uma resposta para a pergunta que lhe fez.

*

Três dias depois, ao encontrar-se com Claudemir, Milene perguntou-lhe porque ele não namorou a Poliana. Claudemir fez de tudo, e mais um pouco, para se esquivar da pergunta; desconversou, afastou-se de Milene, mas ela, insistente, seguiu-o, e disse-lhe que não o deixaria em paz enquanto ele não lhe respondesse à pergunta. Claudemir, para se ver livre dela, capitulou:

– Milene, você é pior do que carrapato.

– Responda-me: Por que você não namorou a Poliana? Você quer se ver livre de mim? Então satisfaça a minha curiosidade.

– É o que farei! Não há outro meio de me livrar de você, há? Tenho um compromisso daqui meia hora. Você quer saber porque não namorei a Poliana? Tive as minhas razões. Como você é chata, Milene! Sarna! Carrapato! Desgrude de mim! Largue de meu pé. Direi para você quais razões tive para não namorar a Poliana. Foram boas as razões que eu tive. Você há de concordar comigo, maninha. Conheci, e bem, muito bem, a Poliana. Ela não é o tipo de mulher que desejo para um relacionamento sério e duradouro. Aliás, nem sei que tipo de mulher desejo para um relacionamento sério e duradouro. A mulher tem de ser decente, bonita, honesta, trabalhadora, séria… Séria? Não. Não tem de ser séria. Tem de ser brincalhona, alegre… Sabe, Milene, que nunca pensei nisso, nunca me detive para pensar numa resposta para a pergunta: “Qual tipo de mulher desejo para um relacionamento sério e duradouro?” Bem, não precisaria ser duradouro, nem sério, né? Não precisaríamos assumir um compromisso. Poderíamos namorar durante um tempo; depois, cada um que seguisse o seu rumo, mas preferi não tentar… A mulher ideal, aquela mulher ideal que muitos homens idealizam, aquela mulher ideal que as mulheres idealizam, não me parece a mulher ideal. Para mim, segundo os meus superiores critérios de avaliação, a mulher ideal que homens e mulheres paladinos da moral idealizam é intragável, insuportável, indesejável, repulsiva. Acredito que…

– Cale a boca, Claudemir. Perguntei para você: “Por que você não namorou a Poliana?” Quero ouvir uma resposta para esta pergunta. Você está desconversando, você está, mais uma vez, querendo evitar a questão. Você não se livrará de mim. Conheço os seus métodos de esquivanças. Você, com as suas tergiversações, não se desvencilhará de mim. Você tem três opções: Primeira, responder-me à pergunta: “Por que você não namorou a Poliana?” Segunda: Responder à pergunta: “Por que você não namorou a Poliana?”

– Não me diga qual é a terceira opção. Milene, de qual livro você tirou ‘tegiver’, ‘tergisação’, alguma coisa assim?, e ‘desvencilhar’? Foi isso o que você disse? Pelo amor de Deus! Essas palavras não existem. O Aurélio não as conhece. Vamos deixar pra lá esta questão, que não é do meu interesse. Vamos tratar de um assunto, que não é do meu interesse, mas é do da minha querida irmã, lindinha e fofinha e charmosinha e engraçadinha, que, ao morrer, irá para o céu, e Deus irá para o inferno, e o Diabo irá para o céu, e… Quero dizer, queridíssima irmã, que você, ao morrer, irá para o céu, e Deus enviará você para o inferno, e o Diabo enviará você para o céu, e ambos, Deus e o Diabo, viverão, eternamente, numa queda de braços, e ignorarão o que se sucederá na Terra, como já vem fazendo desde que o mundo é mundo. Se o fazem ou para o bem ou para o mal da humanidade, não sei, e não quero saber, e tenho raiva de quem sabe. Milene, para a sua felicidade e para a felicidade geral da nação, digo: Tive as minhas razões para não namorar a Poliana. Boas razões, você concordará comigo, ao ouvi-las. Quais razões foram essas? Ora, Milene, queridíssima irmã, sarnentinha e carrapatenta, você conhece a Poliana. Suspeito que você sabe o que direi, mas, como você não se satisfaz com o que já sabe, e faz questão de me ouvir, digo que a Poliana é bonita; não é a mulher mais bonita que conheço, mas é bonita. Tem um… Sei lá. Ela é bonita. Ela me agradava. Aliás, ela me agrada. Eu gostava dela, Milene. Então, você me pergunta: “Por que você, Claudemir, não a namorou?”, embora saiba qual é a resposta. A Poliana, Milene, eu já disse, e você sabe, é bonita, além de bonita, sedutora, atraente, e, você já sabe, é assanhada, indiscreta, e, você também já sabe, não confio nela. Ela não é, como direi?, confiável. Não quero ser deselegante, afinal sou um cavaleiro. Ou sou um cavalheiro? Se eu a namorasse, Milene, ela me seria fiel? Não. Ela não me seria fiel, eu sei. Você também sabe. A Poliana atira-se aos braços dos homens. Aliás… Não… Ela não se atira aos braços dos homens. Ela se insinua aos homens, e espera que eles se atirem aos braços dela. Como você diria, Milene, a Poliana é volúvel. Não sei se o Aurélio conhece essa palavra. Vamos deixar esta questão para outro dia. Antes que você pense que estou embrulhando você, e, para censurar-me, venha-me com outras palavras que o Aurélio desconhece, digo que muitos homens desejam a Poliana, a abordam, e a convidam para um jantar romântico à luz de velas, para um passeio no litoral, por um final de semana, e para outros programas. Como você sabe, Milene, ela jamais recusa um convite. Quando eu e ela íamos a Ubatuba, a Campos do Jordão, ao sul de Minas, ao Guarujá, ao Rio de Janeiro, ela nunca me deu a entender que desejava um relacionamento sério e duradouro comigo. Ela nunca jurou fidelidade. Nunca, Milene. Nunca. Ela é volúvel e leviana, você diria. E eu o digo, com todas as letras e os acentos indispensáveis. Eu sabia, quando eu e a Poliana nos entendíamos, e bem, muito bem, que ela se entendia bem, e muito bem, com outros homens. Qual seria a minha fama, hoje, se eu namorasse a Poliana? Você sabe. O seu sorrisinho malicioso revela os seus pensamentos, queridíssima irmã, lindérrima, lindíssima. Aí está, Milene, para a sua satisfação, a razão que tive para não namorar a Poliana. Queria saber por que não namorei a Poliana? Agora você sabe. Aliás, você já sabia, mas queria ouvir de mim a razão, não é mesmo, queridíssima irmã, bonitíssima, charmosíssima. Satisfeita?

– Mas, Claudemir, e a …

– Chega, Milene. Chega. Tenho de ir, ou chegarei atrasado.

Claudemir deu-lhe as costas.

Durante a semana, atarefados, Claudemir e Milene não entabularam uma conversa sequer. Desencontravam-se. Os horários não coincidiam. Quando um deles chegava em casa, para o almoço, o outro retirava-se. Quando Milene ia à cozinha, para o café-da-manhã, Claudemir retirava-se, para ir à empresa, trabalhar. Saudavam-se, e despediam-se. Os diálogos que mantiveram eram compostos de frases curtas, e referiam-se à questões relacionadas à casa, contas a pagar, bens a comprar, e à notícias de familiares e amigos. Milene, no entanto, não esqueceu a promessa que fizera para si mesma: a de extrair de Claudemir as razões que ele teve para não namorar nenhuma das suas pretendentes. Claudemir, por sua vez, esquecera-se disso; tão atarefado estava com as suas incumbências, que mal tinha tempo sequer para respirar.

Assim que, num dia de folga, viu Claudemir, descansando, na sala, assistindo à televisão, mas desinteressado do que via, Milene saudou-o, sentou-se à sua direita, e o fitou. Claudemir olhou para ela, e perguntou-lhe porque ela o fitava com aquele olhar de idiota.

– Estou esperando você me contar – respondeu Milene.

– Contar o quê?

– Contar-me por que você não namorou a Veruska.

– Você não esqueceu essa história?

– Não.

– Não me diga que você pensou nisso durante a semana…

– Digo: Pensei nisso durante a semana.

– Pedi para não me dizer… Agora você entende porque não leio romances.

– Nenhuma relação há entre os romances que leio e o meu interesse pela sua atitude.

– A sua curiosidade é uma fênix, que, morta, renasce das cinzas, e metamorfoseia-se num pássaro trovejante.

– Se você fosse um poeta… Pelo amor de Deus! Dante, Shakespeare, Camões e Milton estão se remexendo no túmulo. A sua analogia é patética, é absurda, é ridícula.

– Você é indecente. Eu, para dar um toque de requinte ao que digo, uso figura de linguagem sofisticada, e você me vem com obscenidades.

– Obscenidades!? Figura de linguagem sofisticada!? Toque de requinte!? Nossa Senhora! Do que você está falando? Não responda. Por favor, não responda. Quero saber por que você não namorou a Veruska. Não queira mudar de assunto. Responda: Por que você não namorou a Veruska?

– Pombas, Milene! Tenho escapatória? Você não se cansa? Você não pode me ver sossegado, no meu canto, quieto! Sarna! Carrapato! Você quer saber por que não namorei a Veruska? Por que você quer saber porque não namorei a Veruska? Você não gostaria de saber o placar do jogo São Paulo versus Corinthians, de ontem? Você não quer saber quais jogadores marcaram o gol do São Paulo e quais marcaram os gols do Corinthians? Ou você prefere saber notícias do jogo do Santos versus Palmeiras? Não? O que você deseja saber da corrida de motos? Nada? Se não perdesse tempo lendo romances água com açúcar escritos por franceses, russos e ingleses que tanto admira, você teria mais tempo para se ocupar com coisas mais interessantes, e, do ponto de vista cultural, mais importantes. O futebol, por exemplo; e, também, não posso me esquecer, os vídeos mais engraçados da internet e os escândalos das celebridades. Mas, não! Você se dedica à leitura de tijolos de cinco quilos…

– Não queira embrulhar-me com a sua tagarelice, Claudemir. Mamãe disse-me que você irá para São Paulo. Bobo, você acha que pode me ludibriar com a…

– O quê? ‘Ludi’ o quê? Milene, quando você aprenderá a linguagem humana?

– Ignorante. Não desconverse. Responda-me: Por que você não namorou a Veruska?

– O que não tem remédio, remediado está, diria o vovô. Ele, que conhece muitas frases populares, tem uma para cada ocasião, o velho sábio. O vovô, com aqueles cabelos brancos, aquela pele enrugada e aquela dentadura postiça, até que é lúcido, não é?

– Claudemir…

– Está bem, Milene, está bem. Você quer saber porque não namorei a Veruska? É isso o que você deseja saber? Se eu disser que não irei falar… Melhor contar, logo, de uma vez… e você me deixará em paz; pelo menos, por hoje. Saiba, Milene, que não namorei a Veruska porque ela queria se casar comigo. É verdade. Não ria, besta. Casar-me com a Veruska! Onde ela estava com a cabeça quando me falou de casamento? Melhor: Onde estava a cabeça dela quando ela me falou de casamento? A cabeça dela, estou certo, não estava sobre o pescoço. Pombas! Para a Veruska o namoro é um degrau para o altar. Eu mal a conhecia, Milene. Eu e ela divertíamos… Gosto dela. Ela é bonita. Ela é atraente. Mas… Ela precisava vir com a história do casamento? Ela se insinuou… Falou de enlace matrimonial. Disse-me que a Cláudia se casou com o Marcos, e a Renata com o Luis. Disse-me que as festas foram espetáculos grandiosos, e que a Cláudia, a Renata, o Marcos e o Luis estão felicíssimos, e a Renata e a Cláudia usam aliança… “Xi!”, pensei com os meus botões: “A Veruska quer me enforcar.” Não pensei duas vezes: Chutei-a para escanteio. A Veruska é bonita e atraente, mas casamento é para as feias. A Veruska tem vinte e oito anos, e está louca pra se casar. As amigas dela se casaram, não umas com as outras, mas cada uma delas com o seu respectivo marido. A Renata, a Cláudia, a Vanessa, a Luana, a Natália, a Tereza, a Denise, a Gabriela, a Andressa, a Jéssica, a Fabiana e a Íris, todas elas estão casadas. A Veruska mira-se ao espelho e pergunta-se para si, melhor, pergunta para o espelho: “Espelho, espelho meu, ficarei pra titia?”, e o espelho responde-lhe: “Você é filha única, besta quadrada!”. Resposta enigmática. A Veruska quebra o espelho, e cai aos prantos. Mas a infeliz não se curva ao destino que Deus lhe reservou, e procura por um marido. Então, o que ela faz? Lança-se ao homem que está mais à mão. E que homem é o escolhido? Eu. O bonitão aqui. Personificação do macho gostoso. Suprassumo da masculinidade. Eu, o mais acessível, o mais fácil, fui escolhido, pela Veruska, para subir com ela ao altar, e para viver com ela, feliz para sempre, num castelo encantado, com quatro criancinhas ranhentas e birrentas a tiracolo. Ora, só me restou, para me salvar da peste bubônica, a decisão sensata: dar-lhe a entender que não quero me casar. Ela fingiu que não entendeu as indiretas, que foram diretas, que eu lhe disse, e perguntou-me: “Você já pensou em casamento, Claudemir?”, e eu lhe respondi: “Já! Já pensei no casamento dos meus amigos; no meu, nunca!” Pombas! Milene, por que o Aurélio inventou a palavra casamento? Casamento… Não daria certo, Milene. Sou jovem demais para casar. Serei eternamente jovem. Imagino: Eu e a Veruska, sob o mesmo teto… Filhos… Não. Nem em sonhos… Quem sabe em um pesadelo. A Veruska desejava casar-se comigo. Que piada de mal gosto. Não é piada de gosto duvidoso, não. É piada de mal gosto. Satisfeita, Milene? Agora você sabe porque não namorei a Veruska. Satisfeita a sua curiosidade, você me deixará em paz, não é?

– Não. Você me contou porque não namorou a Veruska, mas não me contou porque não namorou a Lúcia. Quero saber…

– Senhor, Meu Deus, por que me abandonais? Pombas, Milene! Você quer saber por que não namorei a Lúcia? Você sabe que terei de, daqui dez minutos, pegar o ônibus pra São Paulo. Daqui até a rodoviária, andando, a pé, a passos acelerados, demoro, se muito, uns cinco minutos; então, tenho uns dois minutos disponíveis… Serei sucinto, Milene. Não me interrompa. Contarei, logo, para me ver livre de você: Não namorei a Lúcia por causa do pai e da mãe dela. Sabe o que eles me disseram quando a Lúcia apresentou-me para eles e eles para mim? Disseram-me que eu e a Lúcia teríamos de nos casar dentro de um mês. Eu lhes disse que eu não namorava a Lúcia. Eles não quiseram me ouvir. Disseram-me, irritados, que eu era o homem que a Lúcia desejava… Olhei para a Lúcia. Ela me olhou… Ela me olhou de um jeito… De um jeito… De que jeito? Não sei dizer. Sei que me senti completamente esquisito. Levantei-me. Pedi licença. Despedi-me de todos eles. E fui-me embora. Nunca mais vi, nem a Lúcia, nem o pai dela, nem a mãe dela. E não desejo vê-los novamente. Eles saíram da minha vida, e para sempre. Agora, Milene, dê-me licença. Tchau. Estou atrasado. Diacho! Tenho que correr. Não posso perder o ônibus.

Quatro dias depois, Claudemir regressou de São Paulo. Almoçou com seu pai, sua mãe e Milene. Narrou-lhes, nos pormenores, o que fez em São Paulo (ocultando deles, obviamente, o que não lhes era do interesse), e, alegre, comemorou o sucesso na negociação com empresários paulistanos. Após o almoço, que se prolongou por três horas, na sala, Claudemir entregou para Milene presentes, doces e os chocolates que ela tanto apreciava.

– Agora – disse-lhe Milene -, enquanto degusto este delicioso chocolate com recheio de cereja que você me trouxe, diga-me, Claudemir, porque você não namorou a Olívia.

– Estava demorando…

– Ela gostava tanto de você…

– Ela gostava de mim? É verdade, Milene, ela gostava de mim. Eu não queria enfrentar o Popeye… Vou fazer uma revelação que vai desejar… vai deixar você de queixo caído, Milene: A Olívia, quando saía comigo, namorava o Popeye, atual marido dela. Eu o conhecia. Os dois já haviam marcado a data do casamento. Pode me chamar de covarde, Milene, se quiser, mas eu nunca encararia o Popeye, aquele brutamontes. Imagine o que seria de mim, se eu o encarasse. Pra imaginar o que aconteceria comigo, você precisa saber que o Popeye é lutador de karatê, muay-tai, boxe, e tem um metro e noventa de altura, e bíceps maiores do que os de Schwarzenegger. Vai encarar? Está rindo, né?

– E a Graziela? Por que você não namorou a Graziela?

– Ah! Não! Milene. Poupe-me.

– Diga-me porque você…

– Está bem… Se eu falar porque não namorei a Graziela, você me deixará ir tomar um banho, e dormir?

– Juro pela alma da vovó.

– Estou com sono, Milene. Contarei porque não namorei a Graziela. Depois, irei dormir. E você me deixará em paz, pelas próximas doze horas. Graziela, a santarrona! Pelo amor de Deus! Ela… Penso nela, e caio na gargalhada. A Graziela, Milene, é uma santarrona. Carola até dizer chega! Beata dos infernos. Ela é pior do que os monges que se enclausuram nos castelos medievais da Europa. A Graziela… Pelo amor de Deus! Que santarrona! Ela vai à igreja, todos os dias. Fazer o que, não sei. Ela submete-se à lavagem cerebral, e voluntariamente. Em todas as conversas, Milene, não importa qual seja o assunto, a Graziela fala de Igreja, Jesus Cristo, Nossa Senhora, Papa e Apóstolos. Eu lhe levava notícia a respeito de um programa de auditório, e a Graziela falava-me de Jesus Cristo e da decadência da civilização ocidental. Eu lhe falava de um computador que comprei, e ela me vinha com Jesus Cristo, Nossa Senhora de Aparecida, Nossa Senhora de Guadalupe, Sagrado Coração de Jesus, Santo António, Santo Agostinho, e outros diabos, e tecia argumentos minuciosos a respeito da insensibilidade dos homens modernos, que só se interessam por tecnologia, e desconhecem a espiritualidade de Jesus Cristo e a doutrina da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Eu lhe falava da crise financeira mundial, e a Graziela, a santarrona, me vinha com Jesus Cristo e os vendilhões do templo, sermões do Padre Fulano de Tal, epístolas de apóstolos, Novo Testamento, Velho Testamento, testamentos inexistentes, testamentos que nunca foram escritos, testamentos que foram queimados na biblioteca de Alexandria, e o testamento que o avô dela assinou antes de morrer porque, depois de morto, nenhum testamento ele pôde assinar. Não deixaram… Milene, a Graziela, a respeito de qualquer assunto, principia os seus argumentos assim: “O padre disse…”, ou, então: “Na Bíblia está escrito…”, e quando eu lhe pedia o livro, o capítulo e o versículo, ela desconversava. “Jesus Cristo ensinou…”, ou, então, “O Papa disse…”. Poupei-me a tortura eterna ao me afastar da Graziela. Eu não a suportava. Pensei namorá-la… Namorar a Graziela! Onde eu estava com a cabeça? Melhor: Onde estava a minha cabeça? Ela não estava em cima de meu pescoço. Por sorte, encontrei-a, embora eu não soubesse onde ela estava, e recoloquei-a no seu lugar de origem, e não cometi a maior burrada da minha vida. Agora, maninha querida, irei dormir com os anjos. Estou com muito sono. Boa noite.

Na manhã seguinte, Claudemir banhou-se, e, na cozinha, saudou Milene, que, sentada à mesa, degustava uma torradinha com geléia de framboesa.

Sobre a mesa havia uma garrafa térmica preta, canecas sobre pires, copos de vidro transparente, um pote de manteiga, biscoitos-de-vento, bisnaguinhas, cookies, broas, potes de geléia, sendo uma de framboesa, uma de morango, uma de laranja, e pães e bolachas waffes, e uma caneca com leite. Claudemir sentou-se numa cadeira, e serviu-se de café-com-leite e bolachas waffes de laranja. Enquanto servia-se, disse:

– Antes que você me pergunte, Milene, direi porque não namorei a Sandra. Você quer saber porque não namorei a Sandra? Não precisa me fazer esta pergunta. Sei qual é a resposta. Já falei da Poliana, da Graziela, da Veruska… E de quem mais? Da Lúcia e da Olívia. Resta-me falar da Sandra. A Sandra! Pelo amor de Deus! Você a conhece melhor do que eu a conheço. Por que você quer me ouvir dizer porque não a namorei, se você conhece a resposta? Você não me perguntou porque não namorei a Sandra. Eu tomei a iniciativa de falar a respeito com você. Mas você iria me perguntar, não iria? É claro que iria! E me atormentaria, até o dia do Juízo Final, para obter a resposta. Conheço a minha queridíssima irmã. A Sandra, você sabe, é a mulher mais mentirosa, fingida e trambiqueira que conheço. Ela dá dó… Ela dá nó até em pingo d’água. O que seria de mim, se eu a namorasse? Você se lembra do que ela fez com o Nilson? Fê-lo desentender-se, a víbora peçonhenta, com o pai dele, com o irmão, comigo, com a Paula, resumindo, com todas as pessoas que moram nesta cidade, e com a metade da população do Brasil, e com um terço da torcida do Corinthians, e com dois quintos do exército brasileiro. Fê-lo perder a metade do que possuía e o emprego. E ela queria me namorar. Eu, namorar a Sandra! Nem morto! A vampira sugar-me-ia todo o sangue do corpo. Você conhece alguém mais mentirosa, falsa, fingida e mascarada do que ela?

– Claudemir, sei que você teve razões de sobra para não namorar nem a Sandra, nem a Lúcia, nem a Veruska, nem a Graziela, nem a Olívia, nem a Poliana, e tampouco manter um relacionamento duradouro e estável com elas. Principalmente, com a Sandra. De todas, ela é a pior. Conheço a história dela com o Nilson. Conheço o roteiro do início ao fim. Sei que a Sandra está namorando… Coitado do atual namorado dela… Não o conheço, mas sinto muita pena dele… Isso não nos interessa. Agora, Claudemir, quero saber porque você não namorou a Rafaela. Ela é tão boazinha. Você não teve uma boa razão pra não a namorar. Ela estava interessada em você. Ela gostava muito de você; ainda gosta; não tanto como há alguns meses. Ela está namorando o Gustavo. Você, Claudemir, perdeu a Rafaela. Ela seria uma ótima mulher para você. É bonita, honesta, inteligente e trabalhadora. Não sei porque você a descartou. Por que você a ignorou? Ontem, encontrei-me com ela. Ela me fez perguntas a seu respeito, Claudemir. Ela, com aquele olhar, sabe? Ela não esqueceu você. Ela namora o Gustavo. Disse-me que está bem com ele, e muito feliz. O que quero saber, Claudemir… Não entendo porque você não namorou a Rafaela. Você tem razão em não ter namorado nem a Lúcia, nem a Sandra, nem a Poliana, nem a Graziela, nem a Olívia, nem a Veruska. Mas, a Rafaela, Claudemir! Não acredito que houve um bom motivo para você a rejeitar. Se você tivesse namorado a Sandra, eu faria de tudo pra estragar o namoro de vocês. E nunca me simpatizei nem com a Poliana, nem com a Graziela, nem com a Olívia, nem com a Veruska, nem com a Lúcia. A Poliana é volúvel, assanhada, indiscreta; e não merece confiança. A Rafaela é exatamente o oposto. É discreta, e merece confiança; ela faz jus à reputação que tem. Ela também não é como a Lúcia. Não tem pai e mãe adeptos de doutrinas absurdas. A Rafaela também não está louca para se casar e não se atira ao primeiro homem que lhe aparece na frente, como a Veruska. Tampouco é bitolada como a Graziela, que vive enfiada na Igreja. A Rafaela não é como a Olívia, que, na véspera do casamento, flerta com outros homens. Não podemos pôr a Rafaela no mesmo saco no qual se encontra a Sandra. As duas não são farinha do mesmo saco. A Sandra é desprezível. A Rafaela é uma pessoa extraordinária. Você não teve motivos para não a namorar. Não encontro, por mais que eu procure, um motivo para você não namorar a Rafaela. A Rafaela é doce, meiga, discreta, honesta, leal, trabalhadora, estudiosa, inteligente, bonita, espirituosa, amigável, prestativa… Quais outros predicados eu poderia incluir na lista? A Rafaela não é carola, não é carniceira, não é maria-gasolina, não é vampira, não é maria-vai-com-as-outras… Não entendo porque você não a namorou. Sinceramente, não entendo. A Rafaela… Não acredito que você… Penso com os meus botões, e a nenhuma conclusão eu chego: Por que você rejeitou a Rafaela? Por favor, diga-me: Por que você não quis namorar a Rafaela? Ela gostava tanto de você… Você a rejeitou, Claudemir. Diga-me: Por que você não namorou a Rafaela?

– A Rafaela tem celulite – respondeu Claudemir, inexpressivo.

Brasil, paraíso dos machistas. Um conto politicamente correto.

Dou a público, hoje, uma história horripilante, comum hoje em dia, mas oculta do povo indiferente.
Após esperar vinte minutos, durante a chuva torrencial que despencou nesta cidade a partir das 18,00 horas, no ponto de parada de ônibus, Jaqueline, vendo um ônibus aproximar-se, acenou; o ônibus parou, para que ela nele subisse. No ônibus, então lotado, ela, em pé, se espremeu entre os passageiros; não havia o ônibus percorrido quinhentos metros, abordou-a um homem esbelto, de um metro e setenta de altura, de barba rapada, calvo nas têmporas, trajando calça jeans, camisa azul e sapatos pretos. Ele, assim que se levantou do banco, ofereceu-o à Jaqueline, para que ela nele se sentasse. Ela, de imediato, rejeitou a oferta, e, diante da insistência dele, solicitou ao motorista que, ou mandasse o homem que lhe oferecera a ela Jaqueline o banco para nele ela se sentar retirar-se do ônibus, ou desviasse do trajeto original e rumasse à delegacia de polícia. O motorista recusou-se a atender-lhe às sugestões; e inúmeros passageiros esbravejaram. Diante da intransigência do motorista e da chusma dos passageiros, ela protestou, veementemente, tirou da bolsa que trazia a tiracolo um telefone celular, discou o número do telefone da delegacia de polícia, e, em altos brados, ora se queixava à telefonista que a atendera, ora tripudiava contra os passageiros e o motorista. A celeuma assumiu proporções inabarcáveis. Jaqueline ameaçou processar todos os que se encontravam no ônibus. Mulheres disparavam-lhe ofensas. Jaqueline estapeou um homem, unhou outro, desferiu duas joelhadas em um terceiro, e ameaçou arrancar os cabelos de um outro. A turbamulta ia, como um vagalhão, ameaçando derrubar o ônibus, o que obrigou o motorista a estacioná-lo, e telefonar para a delegacia de polícia. Para conservar o auto-controle, o motorista retirou-se  do ônibus; lá fora, alternava sua atenção entre sua conversa, ao telefone, com a sua interlocutora, as queixas que os passageiros lhe faziam e as reclamações de Jaqueline.
Não tardou cinco minutos, quando uma viatura policial chegou ao local, trazendo dois policiais, um homem e uma mulher, que trataram de tranquilizar todos os envolvidos no imbróglio, sucesso que só obtiveram a duras penas. De todas as personagens envolvidas, Jaqueline era a mais agitada, e justificadamente, afinal ela fora a ofendida; ela transparecia, em gestos ostensivos, em expressões fortes, as suas indignação e raiva compreensíveis; intempestiva, esbravejou, esgoelou-se, e firme, convencida da razão de seus propósitos, incansável, declarou-se, corretamente, desrespeitada e, corajosamente, disposta a ir aos tribunais denunciar todas as pessoas que a conspurcaram ao lhe arremessarem epítetos insultuosos.
“Aquele machista… – disse Jaqueline, indignada, referindo-se ao homem, que, levantando-se do banco, oferecera-lhe o lugar que deixara vago – aquele machista… Quem ele pensa que eu sou!? Quem ele pensa que ele é!? Que direito ele tem de me oferecer um lugar para eu me sentar!? Quem ele pensa que ele é!? Que desrespeito! Aquele machista… Eu não preciso que homem nenhum me ofereça um banco para eu me sentar. Só porque eu sou mulher, aquele machista me tem como um pessoa inferior, fraca, incapaz! Que absurdo! Vivemos em uma sociedade machista, patriarcal, preconceituosa. Os homens se acham superiores às mulheres”. Tais palavras são de uma mulher poderosa, de brios, que sabe qual é o seu lugar na sociedade. De uma mulher insubmissa, altiva.
Era visível o desarranjo emocional de Jaqueline,  compreensível e justificável diante de tal violência que lhe promoveram, produzido pela ação desrespeitosa do homem que lhe oferecera o lugar no banco. E assim que lhe amainou o espírito, Jaqueline prosseguiu: “E o motorista, outro machista, em vez de atender-me, destratou-me. Fez de conta que o assunto não lhe dizia respeito, e seguiu viagem. Aquele machista! Todos os passageiros do ônibus são machistas, inclusive as mulheres, que, ao invés de irem em meu favor, ofenderam-me. Aquelas bruacas! Aquelas megeras! Todas servis à cultura patriarcal, machista”.
Neste momento, uma das passageiras interrompeu Jaqueline, e, destrambelhada, pôs-se a desancá-la com termos ofensivos e epítetos insultantes. E vários passageiros, açulados por ela, avançaram, ameaçadores, na direção de Jaqueline, que se abrigou às costas dos policiais, que, não sendo bem-sucedidos em chamar todos à razão, solicitaram reforço policial, que não tardou a chegar.
Contornada a situação, todos os envolvidos no entrevero os policiais os conduziram à delegacia de polícia, onde quase se engalfinharam Jaqueline e alguns passageiros e se deu tal distribuição de ofensas que até o Marquês de Sade, se as ouvisse, se constrangeria. Enfim, arrefecidos os ânimos, na presença de advogados e policiais, Jaqueline e os outros passageiros acordaram entregar o caso aos tribunais. Muitos dentre os envolvidos, já no exterior da delegacia, bufaram de raiva, e foram-se embora. Todos os passageiros e o motorista do ônibus, certos de que, de tão absurda a queixa de Jaqueline, ela, Jaqueline, perderia o processo. Enganaram-se. O veredicto, favorável a ela, os obrigava a cada um deles o pagamento de indenização por danos morais à vítima, Jaqueline. Eles esbravejaram. Espernearam. Recorreram da decisão. Jaqueline saiu vitoriosa de tal litígio. E a justiça foi feita. E a sociedade machista perdeu.
Não muito tempo depois, num ônibus que ia do bairro Campo Belo ao Campo Limpo, Jaqueline embarcou num ônibus lotado de passageiros, e espremeu-se como sardinha numa lata, deslocou-se alguns metros, e deteve-se ao lado de um banco, ocupado, então, por um homem cuja aparência lhe dava trinta anos e cuja indumentária lhe emprestava ar solene, venerável. No entra e sai de pessoas no ônibus, durante os quarenta minutos de duração da viagem, Jaqueline foi arremessada de um lado para o outro, só não indo, desequilibrada, ao chão porque outros passageiros serviam-lhe de escora. O desconforto, insuportável. Ao fim da viagem, na rodoviária, assim que, após descer do ônibus, encontrou-se com Marcela, sua amiga, que a aguardava, disse-lhe, queixando-se: “Os homens são muito mal-educados. Deus me livre! Num ônibus lotado, o calor de matar, obrigaram-me os machistas a permanecer em pé durante a viagem. E nenhum homem se dignou a ceder-me o banco. E o que estava na minha frente, machista dos infernos!, fez que nem me viu. Aquele machista! Se soubessem o apuro que as mulheres passamos, todos os dias, no transporte coletivo, os homens jamais iriam desejar ser mulheres. Temos as mulheres de aturar cada desaforo! Que falta de civilidade, a dos homens! Quero nascer homem na próxima encarnação. Assim, eu não sofrerei o que as mulheres sofrem”. E Marcela subscreveu-lhe as queixas.
Esta é uma, apenas uma, das incontáveis histórias que retratam a difícil vida da mulher na sociedade moderna, patriarcal e machista.
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