Venom (2018)

Não é um filme de aventuras; não é um filme de ficção científica; não é um filme de ação; não é um filme de terror. Não é um filme de super-herói. É uma sequência de cenas grotescas dotadas de algumas pinceladas, e muito mal aplicadas, de elementos de inúmeros gêneros e de nenhum gênero. Cada pessoa vê não se sabe o que em tal filme – se de filme se pode chamar tal obra sem valor, um horror em todos os aspectos, de constranger todo aquele que aprecia a Sétima Arte, de enervar os mais exigentes, de fazer os irmãos Lumière se remexerem no túmulo (e que nenhuma alma penada de além-túmulo ouse lhes falar da existência deste… desta… Não sei o quê). É Venom um caça-níquel. Explora a fama de um dos mais populares, entre os jovens, personagens de quadrinhos de super-heróis americanos. E nada mais. Se caçou muitos níqueis, não sei. Abusa de alguns efeitos visuais grosseiros, e grotescos, para contar um capítulo da vida do repórter investigativo Eddie Brock (Tom Hardy), o homem que vive em simbiose com Venom, o alienígena – um simbionte – que, a bordo de uma espaçonave do Instituto Vida, empresa de exploração espacial do multibilionário Carlton Drake (Riz Ahmed), chega, aprisionado num artefato tecnológico, à Terra.
Carlton Drake, inescrupuloso, realiza experiências que redundam na morte de suas cobaias humanas – uma delas, amiga de Eddie Brock – que não tinham organismo compatível com o dos alienígenas.
Não foi o simbionte Venom o único que foi trazido à Terra. Um outro, após parasitar dois corpos de humanos e o de um cachorro, ocupou, enfim, um que lhe era compatível, o de Carlton Drake.
Há no filme cenas violentas que, de tão mal executadas, inspiram riso; de perseguição, Eddie Brock (e Venom) de moto, seguido por agentes sob as ordens de Carlton Drake – e que nenhuma tensão possui; de humor, humor?, que não fazem rir; e, ao final, de luta, grosseira, grotesca, destituída de atrativos, entre os dois simbiontes, o que estava com o corpo de Eddie Brock e o que dominava o de Carlton Drake.
Venom, não se sabe porque razão, ao saber que o outro simbionte queria empreender uma expedição até seu planeta natal e trazer à Terra milhões dos da sua espécie, para colonizá-la, decidiu confrontá-lo. E assim fez, e foi por ele suplantado. Todavia, seu antagonista morre (morre? estamos falando de estória de super-herói), dentro de um foguete, numa explosão – os simbiontes não são invulneráveis ao fogo.
E Eddie Brock e Anne Weying (Michelle William), que só agora é apresentada nesta resenha, vivem felizes para sempre, ao modo deles, ele a seguir sua vida errática, ela, em comum com o doutor Dan Lewis (Reid Scott).
A biografia de Venom – é este adendo um brinde para os meus poucos leitores – é das mais inusitadas: Na série Guerras Secretas, de Jim Shooter, Mike Zeck e John Beatty, é Venom um material alienígena que compõe o uniforme preto do Homem-Aranha; depois, ele assume ares de um agente parasitário que suga seu hospedeiro, o sobrinho da Tia May, moço que, nas horas vagas, é o Amigão da Vizinhança, Peter Parker, que dele se livra ao som de um sino de uma igreja (emblemático: Peter Parker livra-se de seu demônio em uma igreja); em seguida, apossa-se o simbionte de Eddie Brock; enfim, converte-se em um anti-herói (da estirpe de Deadpool) que não hesita em matar humanos, um personagem grotesco, horripilante, repulsivo, asqueroso – hoje em dia, um herói. E orbitando-o criou-se um panteão de personagens tão horripilantes quanto ele; e é seu antagonista Carnificina.

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Novos Mutantes (The New Mutants – 2020)

Um filme de super-heróis sem super-heróis, conquanto as personagens que o animam, Illyana Rasputin (Anya Taylor-Joy), Lupina (Maisie Williams), Miragem (Blu Hunt), Míssil (Charlie Heaton) e Mancha Solar (Henry Zaga), sejam, nos gibis da Marvel, heróis. Os Novos Mutantes são os, digo, X-men do ensino médio, um grupo de mutantes criados por Chris Claremont e Bob McLeod – Claremont, que me desculpem a ousadia, padrasto, e um bom padrasto, dos mutantes mais famosos do universo, é autor de aventuras memoráveis, inigualáveis (e para escrevê-las contou com a contribuição inestimável de John Byrne, este no auge de seu talento criativo).
O filme Novos Mutantes possui algumas qualidades, poucas: um clima claustrofóbico, que prende a atenção do expectador, atraindo-lha para o constante mistério, leve, misto de terror e suspense, em doses homeopáticas, um coquetel não de todo dispensável.
Encontram-se os cinco jovens mutantes, sob a guarda de Cecília Reyes (Alice Braga), aprisionados em uma mansão, para estudos de seus poderes. Miragem (ou Moonstar) é a personagem central desta trama. Dotada do poder de fazer ver as pessoas (ela, inclusive) seus mais profundos medos, corporificando-lhes os demônios, revela, aos poucos, os dramas dos personagens que participam da aventura: o de Míssil, que matou, acidentalmente, seu pai; o de Mancha Solar, que matou, acidentalmente, sua namorada; o de Lupina, abusada sexualmente pelo Reverendo Craig (Happy Anderson); e o de Illyana Rasputin, abusada.
Enquanto estudava Miragem, concluem que ela era uma ameaça a todos, e tinha de ser sacrificada. Tal ordem partiu do superior de Cecília Reyes, o Professor Xavier, dá-se a entender, embora em nenhum momento ele seja nomeado. Causou-me estranheza tal detalhe, pois o telepata mais poderoso da Terra, em vez de pedir pela morte de uma mutante, iria, em atendimento aos seus princípios, empregar todos os recursos à sua disposição para ajudar Miragem a se conhecer e conhecer a origem e a extensão de seus singulares poderes.
Na cena derradeira, Miragem – auxiliada pelos outros jovens mutantes – enfrenta seus mais profundos medos, seus demônios, que se corporificam em um imenso urso, bestial.

Shazam! – (2019) – com Zachary Levi

É Shazam! um acrônimo. Cada uma das letras que o constituem corresponde à inicial do nome de um personagem lendário ou mitológico: S, de Salomão; H, de Hércules; A, de Atlas; Z, de Zeus; A, de Aquiles; e, M, de Mercúrio. Para a pessoa merecer possuir os poderes de tais personagens tem ela de ser pura de coração, abnegada, nobre de espírito.
Nas revistas em quadrinhos recebe o personagem o nome Capitão Marvel.
No princípio do filme, numa estrada: no interior de um carro estão, ao volante, Mr. Silvana (John Gloover); à sua direita, seu filho primogênito; e, no banco traseiro, Thaddeuz Silvana (Ethan Pugotto), seu segundo filho, alvo de constantes chacotas de seu irmão e de desprezo de seu pai. Um fenômeno inexplicável surpreende o menino – que poucas décadas depois se tornaria o arqui-inimigo de Shazam, o maquiavélico Doutor Thaddeuz Silvana (Mark Strong), êmulo de Lex Luthor -, que é transportado para um universo mítico; e ele se vê na presença do Mago (Djimon Hounsou), guardião do cajado cuja posse apenas o merecedor dos poderes de Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio, terá. E o menino Thaddeuz Silvana revela-se deles imerecedor.
Transcorrem-se os anos. Conhecemos, agora, a desventura de Billy Batson (Asher Angel), que, depois de abandonado por sua mãe (Caroline Palmer), vive uma vida errática até ser acolhido, num orfanato, pelos proprietários deste, o casal Vasquez, ambos egressos de orfanatos, Victor (Cooper Andrews) e Rosa (Marta Milans). E no orfanato estreita Billy Batson laços de amizade com Pedro Peña (Jovan Armand), Darla Dudley (Faithe Herman), Eugene Choi (Ian Chen), Mary Bromfield (Grace Fulton), e Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que viria a ser dos cinco internos o seu amigo mais próximo.
Após algumas peripécias juvenis, Billy Batson é transportado, por vias misteriosas, para o reino do Mago, este debilitado e envelhecido. Antes o doutor Thaddeuz Silvana, diante do Mago, não tendo a posse do cajado místico, incorporara os poderes dos demônios que representam os sete pecados capitais. O Mago, apreensivo, não se dedica a, com percuciência, paciente, avaliar os candidatos aos poderes dos seis heróis; vai de atropelo, agora que Silvana libertara e incorporara os dons dos demônios, e cede o cajado a Billy Batson, um garoto.
Ao saber possuidor de super-poderes, com ajuda de Freddy Freeman, Billy Batson, agora com o corpo de Shazam (Zachary Levi), seu alter-ego adulto, conservando sua mentalidade de garoto de quatorze anos, aprende, aos poucos, e aos trancos e barrancos, a conhecê-los, a usá-los. Os dias de aprendizado de Billy Batson, Freddy Freeman a ladeá-lo, e as rugas entre os dois garotos, rendem cenas hilárias. E em tais cenas estão uns dos poucos atrativos do filme.

É inevitável o confronto entre o herói, Shazam, e o vilão, Doutor Silvana. O universo traçou o destino de cada um deles, e os pôs em rota de colisão. E lutam herói e vilão. Mas Shazam não era páreo para os sete demônios que o seu oponente incorporara.
Ao fim, de posse do cajado místico, Shazam pede aos seus cinco amigos de orfanato que eles toquem o cajado e pronunciem a palavra de invocação dos heróis míticos, Shazam. E assim todos eles convertem-se em super-heróis de poderes equivalentes aos de Billy Batson. E ao final da aventura são vitoriosos os super-heróis e derrotado o Doutor Theddeuz Silvana.
Faço questão de registrar, nesta resenha, um comentário acerca do discurso progressista – subjacente à trama – que não muito sutilmente o filme vende. Quem não se deixou seduzir pelas cenas engraçadas e atentou para os tipos das personagens captou as mensagens razoavelmente discretas. Pensei em dizer que são as mensagens subliminares. E eu poderia declarar que elas são explícitas, escancaradamente explícitas.
São o pai e o irmão de Thaddeuz Silvana desrespeitosos com ele, e o maltratam; o pai e a mãe de Billy Batson não constituem uma família, não são a mãe e o pai dele exemplares, a mãe dele o abandonou, num parque de diversões, quando ele ainda era uma criança, e o pai dele é um criminoso; os donos do orfanato e os cinco internos são de famílias desestruturadas. Dos cinco internos, um é gordo, latino, Pedro Peña, um, menina, negra, Darla Duddley, um, oriental, Eugene Choi, um, aleijado, Freddy Freeman, e um, mulher entrando na idade adulta, Mary Bromfield. E o casal Vasquez e os internos constituem, assim se diz, uma família, uma família harmoniosa, perfeita, ideal, conclui-se.
Estas são as mensagens, duas, que o filme transmite:
Primeira: A família tradicional, constituída de pai, mãe e filhos, laços de sangue os unindo, é prejudicial, nefasta, opressora, enquanto o modelo de família propagandeada pelos progressistas é o ideal, o da reunião de pessoas de inúmeras origens e sem laços de sangue.
Segunda: Os cinco internos do orfanato são cada um deles o símbolo de uma classe oprimida pelo homem branco, ou, tambêm pode-se dizer, o de uma minoria (a dos gordos, a dos negros, a dos orientais, a dos aleijados – ou, melhor, dos portadores de necessidades especiais, para não ferir suscetibilidades – e a das mulheres), todas as cinco vítimas da sociedade arcaica, ocidental, cristã.
É Shazam! um filme razoável. E um panfleto ideológico.

Ninguém pode deter o Fanático – HQ – estória do Homem-Aranha – Argumento: Roger Stern; arte: John Romita Jr. e Jim Mooney

Madame Teia, clarividente, sensitiva, cega, no seu apartamento acomodada na cadeira que lhe conserva a vida, vaticina, durante um pesadelo, sua morte por uma gigantesca criatura de aspecto demoníaco. Assustada, telefona para Peter Parker, o homem que nas horas vagas veste o uniforme do Homem-Aranha, e fala-lhe do pesadelo. Enquanto isso, no mar, à bordo de um barco estão Black Tom Cassidy, o capitão, e Fanático (Juggernaut – seu nome na edição americana), brutamontes poderoso, protegido por uma armadura indestrutível dotada de campo de força, e cujos poderes ele adquiriu ao encontrar, num templo oriental, o rubi místico de Cyttorak. Contrariando as orientações de Black Tom Cassidy, que o contratara para raptar Madame Teia, Fanático lança-se às águas, e caminha, pelo fundo do mar, até o Battery Park. Madame Teia, em transe, detecta-lhe a aproximação, e telefona para o Clarim Diário, onde se encontrava Peter Parker. Peter Parker fala-lhe ao telefone, e ouve, dela, a má notícia, e sai, às pressas, do prédio. E do mar emerge Fanático, que ruma, sem se deparar com obstáculos que lhe atrasem o avanço, em direção ao prédio em que vive Madame Teia, abandonando atrás de si um rastro de destruição. Nada e ninguém o detêm. E anuncia-se o Homem-Aranha, que de imediato encaixa, em Fanático, um golpe que nem sequer lhe faz cócegas; e bastou este primeiro ato da contenda para o super-herói se convencer de que enfrentava um vilão que lhe era infinitamente superior, o que não o impede de persistir da batalha – e faz uso de artíficios que se revelam inúteis. E Fanático prossegue jornada rumo ao seu destino. E Madame Teia telefona para um escritório de contabilidade, para cujo interior Fanático arremessara o Homem-Aranha, e para este dá informações que lhe inspiram vagas lembranças de eventos passados e a evocação do nome do Doutor Estranho (Stephen Strange), à cuja mansão, no Greenwich Village, ele, à procura dele, se dirige, e vem a saber que nela ele não se encontra. Madame Teia tenta, em vão, contatar os Vingadores e o Quarteto Fantástico. E Fanático segue, sem se deparar com obstáculos significativos, sua jornada. No caminho, passa por um esquadrão especial da polícia de Nova Yorque, comandado pelo tenente Kris Keating, que lhe descarrega bombardeio de artilharia pesada que nem sequer lhe arranha a armadura. E chega, enfim, ao prédio em que vive Madame Teia; e depara-se, nos corredores, com barreiras feitas de teia, teia do Homem-Aranha. À porta de entrada  do apartamento de Madame Teia, encontra uma barreira de teia, que, sem ele saber, estava conectada a um gerador de alta tensão, que, acionado, lhe descarrega um milhão de volts que sequer lhe dão coceira no nariz. Superado este obstáculo que o Homem-Aranha lhe pôs à frente, o Homem-Aranha soterrado sob os escombros caídos do teto, agarra Madame Teia, e a remove da cadeira. E Madame Teia desfalece, intrigando-o. Homem-Aranha diz-lhe que ela, desligada da cadeira, que lhe era vital à existência, morre. Contrariado, Fanático larga-a como se se livrasse de uma coisa qualquer, retira-se do quarto, e do prédio, e segue rumo ao Rio Hudson. E Homem-Aranha, após certificar-se de que Madame Teia está aos cuidados de enfermeiros, renova a sua vontade de deter Fanático, e lança-se-lhe à caça, certo de que não poderia derrotá-lo. E segue-lhe o rastro de destruição. E lança contra ele uma viga metálica, e uma bola de demolição, e um caminhão-tanque. E Fanático segue, incólume, em direção ao Rio Hudson. Revelaram-se inúteis todos os objetos que o Homem-Aranha arremessara contra ele. Era patente o insucesso do Homem-Aranha. Enfim, após o vão emprego dos inúmeros artifícios que empregou para deter o Fanático, é Homem-Aranha, num golpe de sorte, bem-sucedido.

No primeiro parágrafo, um resumo da trama urdida por Roger Stern, ilustrada por John Romita Jr. e Jim Mooney, colorida por Glynis Wein, e protagonizada pelo Cabeça de Teia, o Amigão da Vizinhança, Homem-Aranha, um ícone da cultura pop mundial.

Tal estória, que no original americano está publicada, em dois episódios, “Nothing can stop the Juggernaut!” e “To Fight the Unbeatable Foe.”, respectivamente nas edições 229 e 230 da revista Amazing Spider-Man, ambas de 1982, foi publicada, no Brasil, em 1986, pela Editora Abril, no número 37 da revista Homem-Aranha. É simples a sua trama. Despretensioso, o roteirista narrou uma aventura de um herói que, mesmo poderoso, tinha diante de si, e sabia disso, um vilão que ele não podia igualar, não podia vencer – mesmo assim o enfrenta, certo de que seria por ele derrotado. O Homem-Aranha não tinha outra opção. Não havia outro herói que pudesse ajudá-lo a enfrentar Fanático. Ele, e apenas ele, tinha de enfrentá-lo, e assim ele fez, e sem hesitar. Conquanto soubesse que o desenrolar do embate não lhe seria favorável, iria emular seu gigantesco, poderoso e invencível oponente, que, de tão superior lhe era, poderia matá-lo. A sua atitude, a de um herói, um autêntico herói, disposto, até mesmo, a sacrificar sua vida em favor de gente que nenhum meio tem para se defender de um vilão tão poderoso, vilão que ninguém poderia deter, como informa o título desta extraordinária aventura de um espetacular personagem que veio à luz das mentes férteis de Stan Lee e Steve Ditko.

Capitão América: soldado invernal

No filme Capitão América: Soldado Invernal há uma cena emblemática: a em que Steve Rogers (o Capitão América) e Natasha Romanof (a Viúva Negra), numa base militar secreta, ouvem Ernin Zola, um cientista da Hidra, agora reduzida a sua inteligência a um sistema de programas de computador, inteirá-los da estratégia da Hidra para dominar o mundo.
Eu já havia assistido ao filme não muito tempo após o seu lançamento em dvd, e não me recordo se atentei, naquela ocasião, à cena que agora destaco.
A estratégia da Hidra para a dominação do mundo distingue-se, salienta Ernin Zola, da empregada, pelos nazistas, na 2a. Guerra Mundial; não consiste, como a dos nazistas, em empregar a força contra o povo que se deseja oprimir.
Os nazistas, em sua agressiva estratégia de dominação, inspira aos povos reação, em defesa da liberdade, então ameaçada, para evitar que ela lhe seja roubada; assim enfentam os nazistas revoltas, que lhes impõem derrotas, estendendo os conflitos, cujo desenlace, como se sabe, não lhes foi favorável. Os estrategistas da Hidra (que vem a ser, em tal história, uma espécie de organização nazista mais sofisticada) concebem, então, cientes das razões do fracasso de sua antecessora, uma outra estratégia, para dominar o mundo: Em vez de iniciar um empreedimento bélico contra um país, infiltra a Hidra seus agentes na SHIELD (certa de não poder desafiá-la num embate direto), organização rival, representante do mundo livre, corrompendo-a, usando dos recursos dela, e agindo em nome dela, para produzir o caos em diversos países, manipulando os povos, sem que eles o  percebam, envolvendo-os em conflitos, cujo desenlace é incerto, e os povos, amedrontados, suplicam por soluções, e será a própria Hidra (agora tendo o controle de considerável parcela da SHIELD) que lhas oferecerá, e o fará, oprimindo-os; e em tal empreendimento os converte a Hidra numa massa amorfa, maleável, sugestionável, submissa, favorável às políticas da Hidra, e em nenhum momento desconfiam que estão sendo oprimidos, pois não a têm como opressora, têm-na como protetora, libertadora. Aliás, eles não têm a Hidra como libertadora, pois da existência dela eles nem sequer desconfiam; eles têm a SHIELD como libertadora, protetora (Faço uma comparação com a realidade: os comunistas, ao decretarem a morte do comunismo, dando-se, portanto, como inexistentes, avançam em seu empreendimento sem que se lhes imponham obstáculos). E a concepção de tal estratégia, que não é uma fantasia sem respaldo na realidade, não se deu na cabeça dos roteiristas do filme; deu-se na cabeça de estrategistas políticos.
E para se ter um vislumbre da sofisticação (em sua simplicidade) e do alcance de tal estratégia é recomendada a leitura de artigos, que versam sobre o tema, de Olavo de Carvalho, que a respeito já escreveu muito; em alguns de seus artigos, ele trata da infiltração, por agentes comunistas, de organizações americanas (a história de McCarthy é um exemplo clássico) e do governo americano, e da ação, nos meios de comunicação de massa ocidentais, dos comunistas. E é recomendada, também, a leitura do livro Desinformação, de Ion Mihai Pacepa, general romeno que muitos serviços prestou aos comunistas enquanto ocupava (na sua outra vida, como ele à ela se refere) um cargo de importância na hierarquia do movimento comunista, e que, atualmente vivendo nos Estados Unidos, presta inestimáveis serviços ao mundo livre, revelando as artimanhas diabólicas dos comunistas – e os que se batem contra os comunistas podem aquilatar o valor das revelações de Ion Mihai Pacepa, reconhecendo-se os ganhos que se teve na compreensão do modo de pensar e de agir deles.
Contrariando as expectativas, e superando-as, Capitão América: Soldado Invernal, um filme de super-heróis, gênero literário para o qual muita gente torce o nariz, revela-se muito mais do que um filme – e não é exagero dizer que ele é, respeitando-se as limitações do gênero, um tratado político. Dá o filme uma trama cujos protagonistas reproduzem valores da nossa sociedade e um dos mais satânicos truques que a inteligência humana já concebeu.
E não muitos dias depois, li, de Ricardo Roveran, uma resenha do filme Capitão América: Soldado Invernal. Em um determinado trecho, refere-se ele à Teoria da Subversão, de Yuri Bezmenov; e tal teoria é a que sustenta a estratégia da Hidra.
Estou, hoje, convencido de que os filmes de super-heróis estão repletos de teorias políticas, não se resumindo, portanto, a entretenimento unicamente.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice) – Breves observações acerca da batalha final.

Não é o meu objetivo, nesta resenha, dar um resumo do filme, tampouco dissecar a psicologia das personagens, e nem considerar os recursos técnicos e os efeitos especiais nele utilizados – estes recursos são irrelevantes; relevantes, nos filmes, são a trama e a consfiguração das personagens. Não são raros artigos e resenhas de filmes que, se prendendo na avaliação dos aspectos irrelevantes, muitos deles insignificantes, negligenciam o estudo dos relevantes, essenciais, indispensáveis. Uma boa história, seja ela a de um filme, a de um romance, a de um conto, a de uma novela, tem uma narrativa bem elaborada e personagens bem construídos. E estes são os dois ingredientes nos quais os resenhistas e os ensaistas deveriam dedicar a sua atenção ao tratar dos filmes que estudam.
Nesta resenha, o título indica, dedico-me a comentar, do filme, a batalha final, que envolve os heróis Super-Homem (Henry Cavill), Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) e o vilão Apocalipse – o coronel Zod (Michael Shannon), recriado por Lex Luthor (Jesse Eisenberg), com o sangue deste, e transfigurado numa criatura monstruosa, cujo poder supera os dos seus três oponentes somados, uma criatura quase indestrutível, que possui um, e apenas um, ponto fraco, o mesmo de seu antagonista kryptoniano. Eu não irei resumir a luta final; irei, apenas, traçar descrições, poucas, de cenas que me chamaram a atenção, adicionando-lhes breves observações, que esclarecem o meu ponto de vista.

Começo as minhas observações indicando a cena que, entendo, é a primeira cena da batalha final que revela a ausência de lógica, de consistência narrativa, e que foi concebida com o único propósito de justificar uma outra cena, que se desenrola pouco depois, cena, esta, que apresenta o poder de renovação do herói kryptoniano e sua entrada triunfal na batalha.

O Super-Homem, elevando-se no ar, carrega consigo o seu monstruoso oponente. Voa o Super-Homem; o Apocalipse, não. É o Apocalipse desprovido do talento de voar, conclui-se ao atentar para as cenas que o mostram dando saltos prodigiosos, cobrindo um espaço considerável em cada salto. Está o Super-Homem empurrando Apocalipse para além da atmosfera terrestre, e batendo-se com ele, quando na direção deles é lançado um míssil munido de artefato nuclear. E aproxima-se o míssil de Super-Homem e Apocalipse. E Super-Homem agarra-se ao seu adversário, segura-o, move-se, com ele sob seu domínio, de modo a deixá-lo entre o míssil e ele, Super-Homem, no instante do impacto, recebendo Apocalipse toda a carga da devastadora explosão. Aqui, observo um detalhe absurdo: Super-Homem voa; Apocalipse, repito, não. Apocalipse, que é incapaz de voar, encontra-se no espaço aberto; ele não poderia, portanto, mesmo que o desejasse, esquivar-se do míssil que ia em sua direção; sendo assim, nenhuma razão há para o Super-Homem conservá-lo sob seu domínio; aqui, Super-Homem, inteirado da aproximação do míssil, teria de abandonar Apocalipse, e voar, e numa velocidade superior à do Papa-Léguas, para longe de seu inimigo. E a detonação do artefato nuclear atingiria o Apocalipse, unicamente. Na sequência, chamou-me a atenção um segundo absurdo: Apocalipse cai, na Terra, em uma ilha desabitada. Ao ver esta cena (e não na primeira vez que assisti ao filme), perguntei-me porque Apocalipse, atingido, por um míssil dotado de explosivo nuclear (míssil lançado da Terra), quando ele estava fora dos domínios da atmosfera terrestre, caiu na Terra, ao invés de ser arremessado para longe dela. A cena do míssil atingindo, no espaço aberto, Apocalipse e Super-Homem, parece-me saído da cabeça de um roteirista que acreditou que é ela de grande impacto – e de fato é. E os dois antagonistas, sobrevivendo à explosão de um artefato nuclear, revelam a dimensão do poder deles, o que impressiona os espectadores.

Não muitos minutos depois, os criadores do filme presenteiam as pessoas que o assistem com outra cena ainda mais absurda. Batman, melhor, Bruce Wayne, o homem por trás da máscara do morcego, reputado homem dotado de um intelecto privilegiado (e ele é inteligente, mais inteligente do que os roteiristas do filme, roteiristas que, sem inteligência para dimensionar o valor de seu trabalho, rebaixam a personagem à estatura deles), certo de que só havia um meio de derrotar Apocalipse (fincar-lhe no corpo a lança em cuja ponta há uma pedra de kryptonita, afiada), decide atrair-lhe a atenção, deixar a ilha desabitada, e, com Apocalipse no seu encalço, ir até Gotham City, onde se encontrava a lança em cuja ponta havia uma pedra, afiada, de kryptonita. Quanta inteligência, Batman – diria, irônico, o Robin da antiga séria de televisão. Bruce Wayne conduziu um monstro de poder irrivalizado, imensurável, capaz de destruir um país inteiro, tirando-o de uma ilha desabitada, para para Gotham City. Ele deveria, aqui, rumar, incontinenti, para Gotham City, encontrar a lança, e regressar, de posse dela, para a ilha desabitada onde se encontrava o monstro kryptoniano. Mas ele decidiu, incontinente, com a astúcia, que os roteiristas lhe concederam, de Chapolin Colorado, provocar o seu poderoso oponente e conduzi-lo à cidade eternamente aterrorizada pelo Coringa, e,pelo Batman também – mais por este do que por aquele.

E observo outra cena absurda: Apocalipse, saturado de energia, expande-se, expelindo energia em todas as direções. E de tão avassaladora, a energia liberada provoca tremores nas construções circunvizinhas, derrubando-as sobre Lois Lane (Amy Adams), que fôra buscar a lança (que ela, após o encerramento da luta que travaram Super-Homem e Batman, arremessara numa funda cavidade cheia de água); em decorrência dos tremores causados por Apocalipse, as paredes do prédio em ruínas em que se encontrava Lois Lane despencam, e ela, para escapar de ser atingida pelos destroços, pula na cavidade, cheia de água, em que deixara a lança em cuja extremidade havia a pedra, afiada, de kryptonita. Tal decisão revelou-se contraproducente, insensata, pois blocos imensos caíram na cavidade em que Lois Lane procurara abrigo, impedindo–a de se retirar da água – e ela morreria afogada, se Super-Homem não fosse, pouco depois, em socorro dela. Ora, Lois Lane teria de buscar abrigo em outro local, e não numa cavidade cheia de água.

Abro um parêntese: Ao fim de sua luta com Super-Homem, Batman devia carregar a lança consigo, e não largá-la em meio às ruínas do prédio em que se dera o embate entre eles; e Lois Lane não devia tê-la arremessado, para conservá-la distante de Super-Homem, na cavidade cheia de água. Tal cena foi criada para pôr, na cena descrita linhas acima, Lois Lane em perigo, e justificar a cena em que Super-Homem vai em socorro dela. E parêntese fechado, prossigo:

Na sequência à cena de salvamento, por Super-Homem, de Lois Lane, Super-Homem, em busca da lança, mergulha na água onde ela estava, e não emerge; Lois Lane o socorre, é claro, pois Super-Homem, fragilizado devido à proximidade da kryptonita, mal consegue se mover. E segue o filme. E Super-Homem, que, imerso, próximo da lança, mal conseguia mover um dedo, agora, emerso, empunha-a, e voa, com certa desenvoltura, a lança em riste, até Apocalipse, cravando-lha, no peito, na altura do coração. Esta cena é tão absurda como as anteriores. Super-Homem não poderia, jamais, carregar a lança com ponta de kryptonita. A Mulher-Maravilha, que não sucumbe aos efeitos debilitantes da kryptonita, teria de pegar a lança, e arremessá-la contra Apocalipse, cravando-lha no peito; e, na sequência, Super-Homem, voando, iria até a lança, e, numa colisão frontal, a empurraria para dentro do monstro kryptoniano, matando-o.

Pode-se dizer que estas minhas breves observações são tolices de um crítico excessivamente exigente que não sabe dedicar-se a algumas horas de diversão assistindo, tranquila, e despreocupadamente, um filme de aventuras de super-heróis, obra criada apenas para entreter as pessoas, pois, sendo tal filme apenas uma aventura de super-heróis, não merece ser levado muito a sério. Eu concordaria, não totalmente, com tais comentários, que me soariam como reprimendas. Narra o filme, é verdade, apenas uma estória protagonizada por super-heróis; é literatura de um gênero popular que não pede complexidade de nenhum tipo; todavia, deve-se dizer que toda história, independentemente de seu gênero e das pretensões de seus criadores, tem de possuir consistência. Não há razão justificável para os roteiristas de estórias de super-heróis negligenciar o roteiro. Quem já leu estórias em quadrinhos de super-heróis escritas por John Byrne, Roger Stern, Roy Thomas e outros escritores do mesmo quilate, sabe que tal gênero literário oferece obras de elevado nível. O público de tais filmes, sei, não é muito exigente; sugestionável, contenta-se com as cenas espetaculares e os cenários grandiosos, exuberantes, que deles fazem a popularidade. Não é criterioso. É possível criar, para o cinema, uma estória de super-heróis com roteiro bem elaborado, nulos de erros grosseiros e absurdos como os apontados acima, consistente, respeitando-se os ingredientes que fizeram a fama do gênero nos quadrinhos: a sua fantástica, fascinante, fabulosa, inverossimilhança, que adquire verossimilhança nas mãos de talentosos roteiristas e desenhistas.

Incomoda-me a suspeita: um filme com tantos absurdos foi concebido, não porque Hollywood está carente de bons roteiristas, mas porque tem o objetivo de destruir a inteligência das pessoas, pois Batman vs Superman: A Origem da Justiça, não é um caso único de filme repleto de cenas absurdas, desconexas, ilógicas; é um exemplar do padrão hollywoodiano. É a regra, e não a exceção. No gênero de super-heróis e em outros gêneros, há trilhões de filmes recheados de cenas absurdas, ilógicas, patéticas em todos os aspectos imagináveis, compondo roteiros sem início, sem meio, sem fim.
Quantas pessoas que assistiram ao Batman vs Superman: A Origem da Justiça, atentaram para os aspectos absurdos das cenas aqui observadas? Tão habituados a coisas igualmente irracionais, adotaram, com indiferença e passividade, todos os absurdos aqui elencados sem se darem conta da existência deles.
É impossível, em imaginação, dimensionar o estrago que os filmes hollywoodianos atuais provocam em pessoas acostumadas a assisti-los desde o berço. Suspeito que Hollywood almeja a destruição da inteligência das pessoas, pois não acredito que hoje em dia não exista escritores talentosos que possam escrever bons roteiros de filmes; de filmes de super-heróis, inclusive. E Hollywood, uma indústria bilionária. pode, contratar, e a peso de ouro, roteiristas talentosos, escritores criativos, de qualquer lugar do mundo. Se não zela pelo bom roteiro de seus filmes, tem, presumo, outros propósitos, inconfessados, além do de amealhar uma fortuna de dar inveja aos faraós do antigo Egito.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 8 de 8

Capítulo 8

A luta do século

Round 4

Nocaute

Tatu-Bola sugou a energia do solo, das plantas e das árvores, que definhavam. Tinha Tatu-Bola o dobro das suas dimensões originais.

E em pé Tatu-Bola acenou para Taco de Baseball.

Durante esse meio tempo, Massa Bruta tentou desvencilhar-se dos tentáculos que, presos aos pés dele, o mantinham sobre a plataforma flutuante. Urrava de raiva. Ameaçava os seus oponentes:

– Matarei vocês, vermes! Sou Massa Bruta, o Conquistador! Reduzirei vocês a pó! Sou Massa Bruta, o Esmagador!

Seus berros percorreram toda a cidade de São Paulo. Chegaram aos ouvidos de milhões de pessoas. Pareceu a muita gente que Massa Bruta estava anunciando o apocalipse.

Com a sua força descomunal, Massa Bruta arrancou de si alguns tentáculos, e arremessou-os longe. Os tentáculos arremessados por ele, contorcendo-se, regressaram ao planador, do qual destacaram-se outros tentáculos, que se enrodilharam aos pés e às pernas de Massa Bruta, impedindo-o de livrar-se do planador. E exacerbava-se a fúria de Massa Bruta, que usou de todas as suas forças para desvencilhar-se dos tentáculos.

Taco de Baseball segurou o taco de baseball com as duas mãos, e para ele transferiu toda a energia da armadura. Alterou-se a aparência do taco de baseball, cujas dimensões ampliaram-se, e cujo formato, modificando-se, adquiriu o de placa, e encompridou-se, conservados o formato e as dimensões originais da empunhadura.

E o taco de baseball cintilou. Emitiu brilho azul-dourado.

Do chão, Tatu-Bola, com prodigiosa força dos músculos das pernas, saltou, para um ponto entre Taco de Baseball e Massa Bruta. Do prédio, Taco de Baseball, o taco em punho, saltou. Os movimentos dos dois heróis, sincronizados.

Massa Bruta não tomou conhecimento dos movimentos dos seus oponentes.

Assim que se aproximou de Tatu-Bola, que se convertera em uma imensa esfera acobreada, Taco de Baseball golpeou-o com o taco de baseball, com força imensurável, provocando uma onda de energia, que destruiu tudo num raio de cem metros. E Taco de Baseball foi arremessado para trás, contra um prédio, e Tatu-Bola rumou, em direção a Massa Bruta, que contraiu os músculos da face e tentou desvencilhar-se dos tentáculos que o prendiam ao planador a mais de cinquenta metros de altura. Tatu-Bola cobriu a distância do ponto em que Taco de Baseball golpeou-o até Massa Bruta em uma fração de um segundo. A colisão dele contra Massa Bruta produziu uma onda de energia devastadora, que abriu uma cratera no chão abaixo deles e reduziu prédios a estilhaços. E ergueu-se nuvem de pó e detritos. Prédios, em toda a cidade de São Paulo, vibraram com tremores; alguns foram seriamente danificados. Dissipada a nuvem, pôde-se ver, elevando-se no céu, o planador azul prateado indo em direção ao prédio em que se encontrava Taco de Baseball. Sobre o planador, um corpo disforme, de homem, estirado de barriga para baixo, braços e pernas manietados. Era Massa Bruta, cujas dimensões haviam se reduzido à metade. Estava desacordado; conservava o seu aspecto grotesco. De sob os destroços emergiu Tatu-Bola, reconstituído às suas dimensões originais. E Taco de Baseball subiu ao planador, averiguou o estado de Massa Bruta, e rumou até Tatu-Bola. Uma saliência em forma de argola destacou-se da face inferior do planador, conservando-se nele presa. E Tatu-Bola pulou, e segurou-a. E elevou-se no céu o planador, em cuja face superior estavam Tatu-Bola, Taco de Baseball e Massa Bruta. À altura de três mil metros, desapareceram o planador e os seus passageiros num clarão enceguecedor.

E muitas pessoas aventaram hipóteses para explicar o ocorrido:

– Eles entraram em uma dobra espacial.

– Eles viajaram, através do tempo, para o futuro.

– Eles teletransportaram-se.

– Teletransportaram-se para outra dimensão.

– Eles se invisibilizaram, e rumaram para algum lugar de São Paulo.

E perguntavam, em todo o mundo:

– Quem são aquelas três criaturas?

– Quem é Tatu-Bola?

– Quem é Taco de Baseball?

– Quem é Massa Bruta?

– Por que Massa Bruta queria destruir a cidade de São Paulo?

*

Os bombeiros contiveram as chamas que crepitavam em vários pontos da cidade de São Paulo.

A polícia, com o apoio irrestrito da população, reconquistou os bairros horas antes conquistados pelos criminosos.

Os serviços de demolição e limpeza principiaram a limpar as ruas devastadas durante o embate entre Tatu-Bola, Taco de Baseball e Massa Bruta. Removeram entulhos, ferros retorcidos, veículos carbonizados. A reconstrução das áreas mais afetadas estender-se-ia por meses. E muitos corpos foram encaminhados às salas de autópsias, e aos necrotérios, e aos velórios, e aos cemitérios. E os feridos, milhares, receberam os cuidados médicos, alguns recompuseram-se, outros, às portas da morte, foram internados em UTIs.

*

No prédio da emissora de televisão C* conferenciavam Carlos Roberto, o editor, e Larissa, Carla e Rodolfo quando adentraram à sala Olavo e Paulo, ambos esbaforidos, e olhares indagadores convergiram para eles.

– Onde vocês se meteram? – perguntou-lhes, disparando-lhes a pergunta, Carlos Roberto. – Que diabos! Onde vocês estavam?

– Fomos registrar, no hospital J*, o atendimento aos feridos, e na rua D* e B*, o pandemônio.

– Muito conveniente o desaparecimento de vocês – observou Rodolfo. – Vocês desapareceram logo após o aparecimento do Massa Bruta.

– E daí? – perguntou Olavo, intrigado.

– Aonde você quer chegar? – indagou Paulo.

– Qual de vocês é o Taco de Baseball e qual de vocês é o Tatu-Bola? – perguntou-lhes, sério, Rodolfo.

– O quê? – perguntaram Olavo e Paulo, simultaneamente.

– Muito suspeito sumiço de vocês dois – comentou Carla.

– Vocês lêem muito gibi em quadrinhos de super-heróis – comentou Olavo. – Só porque não estávamos onde os heróis estavam, somos eles? Que ridículo.

– O Olavo tem razão – secundou-o Paulo. – O que vocês disseram é ridículo.

*

No Corpo de bombeiros, chegaram Paulo Cearense e Ricardo, e para eles muitos olhares reprovadores convergiram. Paulo Cearense e Ricardo justificaram a ausência, e relataram o que lhes sucedeu durante o dia.

*

Na delegacia de polícia, na sala de reuniões, os policiais Vasconcelos e Duarte justificaram a ausência, disseram ao capitão Mascarenhas porque haviam se retirado sem avisá-lo; na turbamulta reinante, decidiram atender a chamados de socorro. Todas as suas explicações foram acolhidas.

*

Perguntaram-se, neste dia e nos dias que se seguiram, pessoas em todo o mundo:

– Quem é o Tatu-Bola?

– Quem é o Taco de Baseball?

*

E a cidade de São Paulo retornou à normalidade… à normalidade da cidade de São Paulo.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 7 de 8

Capítulo 7

A luta do século

Round 3

Crepitavam chamas, em vários pontos da cidade de São Paulo, nas imediações do embate entre Massa Bruta, Taco de Baseball e Tatu-Bola. Todos os prédios estavam em ruínas, alguns reduzidos aos alicerces. Explosões subterrâneas produziram tremores num raio de dois quilômetros. Pedras e metais retorcidos sibilavam em todas as direções. O chão vibrava a curtos intervalos. Rachaduras abriam-se no asfalto, nas calçadas, nas estruturas dos prédios. Vidros estilhaçavam-se. Pedaços dos prédios desprendiam-se da estrutura, e caíam. Era o caos. Bombeiros desdobraram-se para apagar todos os focos de incêndio. O trabalho, árduo, perigoso, arriscado, exigia-lhes perícia no manejo de todos os instrumentos empregados na tarefa. Dois bombeiros morreram esmagados por um bloco de concreto.

Dominou a cidade de São Paulo o pandemônio.

Multiplicaram-se os assaltos, os assassinatos, os estupros.

Policiais morreram em confronto com os criminosos.

A população reagiu para conter o avanço dos criminosos. E os criminosos abandonaram muitos bairros após confrontarem-se com pessoas preparadas para reagir a eles, e em muitos a eles as pessoas antecipavam-se. Muitas pessoas, de vigília, à vista de qualquer pessoa cujo comportamento levantava suspeitas, davam o alarme, e muita gente agia, obrigando o suspeito, se mal-intencionado, a desistir de seus intentos, ou o imobilizavam, ou o tiravam de ação com golpes de tacos de baseball, ripas de madeira, ou com um ou mais tiros. Vários criminosos foram mortos no confronto com os cidadãos de bem. E as ambulâncias percorriam a cidade para atender os feridos, que se multiplicavam numa velocidade estonteante. Hospitais e pronto-socorros entraram em colapso. Se a situação prosseguisse, toda a rede de atendimento médico-hospitalar, saturado, incapaz de atender todos os feridos, implodiria.

*

Massa Bruta, recomposto, deu sequência à sua ação destrutiva, arremessando carros e ônibus em todas as direções. E veículos zuniam, pelo céu da cidade de São Paulo, por sobre os prédios mais altos, e caíam a quilômetros de distância do ponto do qual Massa Bruta os arremessava, amplificando o caos. Milhões de pessoas alvoroçadas, fitando o céu, olhos seguindo os veículos em sua trajetória rumo ao solo, para evitá-los, corriam de um lado para o outro à procura de refúgio, certos de que não havia nem um lugar seguro em todo o território da cidade de São Paulo.

Tatu-Bola e Taco de Baseball, em assembléia, compartilharam de informações acerca do que ocorreu nos minutos anteriores. E foi Taco de Baseball quem deu uma notícia alvissareira, esperançoso de que poderiam ele e Tatu-Bola tirarem Massa Bruta de ação.

– Sei qual é o ponto fraco do nosso oponente – declarou Taco de Baseball. – Assim que você ergueu-o, no ar, com os pés, arremessando-o para o alto, fui em direção a ele, e o golpeei. Os computadores da minha armadura empreenderam uma leitura minuciosa do corpo dele, da estrutura energética dele. Surpreendido com o que eles nele detectaram, fui em direção a ele, e o golpeei ao mesmo tempo em que ele me golpeou.

– O que no Massa Bruta a sua armadura detectou?

– A redução do espectro energético. Distante do solo, Massa Bruta exibia uma composição energética menor do que a que ele possui quando está com os pés no solo. Esta é a leitura que os computadores da minha armadura fizeram do corpo do nosso oponente, impelindo-me a atacá-lo antes de ele recuperar, se regressasse ao solo, a energia perdida. Como pude mantê-lo, no ar, durante pouco tempo, e ele ainda conservava muito da sua energia original, não pude sobrepujá-lo.

– Então, temos de tirá-lo do solo, do solo mantê-lo afastado durante um bom tempo, e atacá-lo com toda a nossa força.

– Sim.

– E como faremos isso?

– Teremos de coordenar os nossos movimentos, Tatu, e empregarmos, em um golpe, toda a nossa energia, para impedi-lo de nos rechaçar.

E conferenciaram Tatu-Bola e Taco de Baseball.

*

– Para onde eles foram? – perguntou Larissa para Rodolfo e Carla, referindo-se a Taco de Baseball e Tatu-Bola. Esquadrinhou os arredores à procura deles. A curtos intervalos de tempo, um fragmento de calçada, ou um carro a crepitar em chamas, passava sibilando a poucos metros dela, de Carla e de Rodolfo. Enquanto eles conjeturavam qual era o paradeiro de Tatu-Bola e Taco de Baseball, na cidade de São Paulo o caos instalava-se, e policiais e criminosos confrontavam-se, e os criminosos não os sobrepujaram devido à atitude denodada de muitas pessoas.

De alguns bairros da cidade de São Paulo a população expulsou os criminosos; em outros, todavia, os criminosos criaram um governo autônomo e impuseram a sua lei.

Enquanto bombeiros continham as chamas que crepitavam em vários bairros da cidade de São Paulo; enquanto enfermeiros e paramédicos socorriam pessoas a arquejarem, a estertorarem, muitas exânimes, muitas em vias de exalar o derradeiro suspiro, e continham pessoas apavoradas, o corpo repleto de ferimentos; enquanto policiais arriscavam a própria vida nos confrontos com criminosos em locais semeados de cadáveres, Massa Bruta prosseguia, com a sua ação devastadora, assolando a cidade de São Paulo e causando pânico em todas as pessoas que assistiam aos eventos e perguntavam-se se Taco de Baseball e Tatu-Bola sobrepujariam Massa Bruta e tirá-lo-iam de circulação antes que ele conseguisse reduzir a cidade de São Paulo a escombros e devastasse as cidades vizinhas. E perguntavam-se, também, se havia outras criaturas similares a ele preparando-se para atacar Londres, Nova York, Buenos Aires, Cidade do México, Tóquio, Lisboa, Paris, Berlim, enfim, todas as cidades do planeta.

Minutos depois, Taco de Baseball, voando, e Tatu-Bola, correndo, ambos em direção a Massa Bruta, esquivando-se dos veículos, fragmentos do asfalto e paralelepípedos que ele lhes atirava, dele aproximavam-se.

Ao vê-los, a população renovou sua esperança.

Um carro em chamas atingiu Tatu-Bola, que, uma fração de segundo antes do impacto, convertera-se em esfera acobreada, e, ato contínuo, ileso, retomou a sua forma original, no momento que Massa Bruta arremessou uma árvore contra Taco de Baseball, que a pulverizou com um raio energético silencioso e em seguida arremessou o taco de baseball contra Massa Bruta – e o taco de baseball, a menos de cinco metros dele, além do alcance de suas mãos, disparou-lhe, nos olhos, raios de luz, enceguecendo-o, obrigando-o a cerrar as pálpebras e a cobrir os olhos com o braço esquerdo. Sem poder ver o que se passava ao seu redor, Massa Bruta, para golpear o taco de baseball, que lhe feria os olhos, disparou socos a esmo, e não o acertando, berrou obscenidades e praguejou. Sem que Massa Bruta percebesse, dele aproximaram-se Tatu-Bola e o planador de Taco de Baseball – segundos antes Taco de Baseball descera sobre um prédio. O planador afinou-se, alargou-se, assumiu formato de uma placa triangular de dez metros de cada lado, e principiou a penetrar-se, como lâmina afiada, no asfalto, sob os pés de Massa Bruta, ao mesmo tempo em que tentáculos do planador destacavam-se e enrolavam-se nas pernas de Massa Bruta. Massa Bruta, de imediato, agarrou um dos tentáculos, e o puxou, arrebentando-o. Outros tentáculos brotaram do planador, e enrolaram-se nas pernas de Massa Bruta. Massa Bruta preparou-se para um salto, mas impediu-o Tatu-Bola, que lhe pulou em cima, cobrindo-lhe, com seu corpo, toda a cabeça, como se nele aderisse, e fincou-lhe, nos ombros, nas costas e no tórax, as unhas dos dedos dos pés e as dos das mãos. E Massa Bruta berrou, mais de raiva do que de dor, e tentou arrancar Tatu-Bola de sobre si. O planador extraiu do asfalto um pedaço, que estava sob os pés de Massa Bruta, e elevou-se, no céu, carregando Massa Bruta e Tatu-Bola, este sobre àquele, e aquele tentando arrancar este de sobre si. Assim que o planador atingiu a altura de oitenta metros, um tentáculo tocou a carapaça de Tatu-Bola, que se desgrudou, de imediato, de Massa Bruta, lançou-se no espaço vazio, atingiu, segundos depois, o solo, correu até uma praça, deitou-se sobre o gramado, de barriga para baixo, as pernas e os braços abertos. E a grama e as árvores do jardim definhavam a olhos vistos, enquanto ampliavam-se as dimensões de Tatu-Bola.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 6 de 8

Capítulo 6

A luta do século

Round 2

Na rua M*, quatro criminosos invadiram uma lanchonete e assaltam os fregueses. Nesta rua, como em muitas outras ruas da cidade de São Paulo, criminosos aproveitaram-se da confusão e do medo decorrentes da ação de Massa Bruta e invadiram residências, prédios, agências bancárias, lojas de eletroeletrônicos, lojas de roupas, de móveis, agências imobiliárias, supermercados, mercadinhos, restaurantes, casas lotéricas, e assaltaram os clientes e os proprietários. Nas ruas, ladrões abordavam motoqueiros, e suprimiam-lhes, apontando-lhes para a cabeça o cano de um revólver, a moto. Multiplicaram-se, assustadoramente, os latrocínios. Multiplicaram-se os assassinatos, os roubos e os estupros desde que Massa Bruta surgiu no cruzamento das avenidas X* e A*. Desdobraram-se as forças policiais para manter a ordem. Mas o caos instalou-se na cidade de São Paulo, e disseminou-se, como uma metástase, pelas cidades conurbadas, e principiou a espalhar-se pelas cidades vizinhas, e espalhar-se-ia por todo o estado de São Paulo se não fosse contido em seu movimento avassalador. Todas as corporações policiais estaduais – militar e civil – e as guardas municipais foram convocadas para conter o avanço da criminalidade.

Na lanchonete, na rua M*, policiais e os quatro criminosos protagonizaram tiroteio, ao encerramento do qual, quinze minutos depois de principiado, três criminosos estavam mortos e um gravemente ferido, e dois policiais estavam feridos, um no braço esquerdo, e um no ombro direito e no ventre.

Na delegacia de policia da rua N*, o capitão Mascarenhas perguntou à secretaria acerca do paradeiro dos policiais Vasconcelos e Duarte.

– Não sei, senhor – respondeu-lhe a secretária. – Eles estavam, aqui, há poucos minutos. Assistiram comigo, à televisão, à notícia a respeito de Massa Bruta, e, de repente, desapareceram.

– Que diabos! – esbravejou o capitão Mascarenhas. – A cidade, um caos, e aqueles dois policiais desaparecem sem deixar avisos.

– Eles foram atender algum chamado – sugeriu a secretária.

– A viatura está na garagem – observou o capitão Mascarenhas. – Onde se meteram o Vasconcelos e o Duarte? – perguntou mais para si do que para a secretária, que ergueu os ombros dando a entender que não tinha a mínima idéia de qual era o paradeiro deles.

*

Rodolfo estacionou o carro, do qual retiraram-se ele, Larissa e Carla, cautelosos todos eles, os olhares de todos eles convergindo para Massa Bruta, que andava, passos pesados, despreocupado, pela rua Z*, como se fosse o seu dono, certo de que ninguém lhe atravancaria o avanço. No caminho, ele esmurrava carros, caminhões, ônibus, arremessando-os a grande distância, contra os prédios, espalhando o terror por onde passava, abandonando atrás de si um rastro de destruição. Rodolfo, Larissa e Carla ora corriam, ora andavam a passos acelerados, ora a passos lentos, receando atrair a atenção de Massa Bruta. Ocultando-se atrás de veículos, gravavam de Massa Bruta imagens reveladoras. Massa Bruta não tinha conhecimento de que seus passos eram seguidos por aqueles três audazes jornalistas, que dele aproximavam-se, nele conservando distância segura. Dos três, o mais atrevido era Carla, que desejava ir até Massa Bruta e indagar-lhe da razão de tanta destruição. Continham-na Rodolfo e Larissa, e não com pouco esforço. E não foram raras as vezes que Rodolfo censurou-lhe a inconseqüência, e puxou-a pelos pulsos, e, agarrando-a pela cintura, conteve-a e a pôs atrás de si, e, escudando-a, seguia na mesma direção que Massa Bruta seguia, dele conservando distância segura.

*

Levantou-se Taco de Baseball, entontecido, recuperando-se dos golpes que Massa Bruta lhe dera. Reconstituía-se o sistema da armadura, que, de tecnologia avançada, possuía inteligência artificial e componentes nanotecnológicos. Não poderia ser golpeado, uma vez mais, por Massa Bruta, antes da reconstituição da estrutura de todos os seus componentes. Enquanto a armadura não se reconstituísse, tinha Taco de Baseball de conservar-se imóvel. Pouco depois, o taco de baseball e o planador, voando, foram até Taco de Baseball, que empunhou o taco de baseball, e, já quase inteiramente reconstituída a sua armadura azul-prateada, subiu no planador. Robôs nanotecnológicos massagearam-lhe todos os músculos e restabeleceram-lhe as comunicações entre os nervos afetados pelos golpes que lhe encaixara Massa Bruta e pela queda após o pontapé que Massa Bruta desferira-lhe, arremessando-o a quilômetros de distância. Recomposto, Taco de Baseball foi até Tatu-Bola, que, distante dele cinco quilômetros, no topo de um prédio, acompanhava, de longe, o deslocar de Massa Bruta e o rastro de destruição que ele deixava atrás de si. Reunidos, Taco de Baseball e Tatu-Bola entabularam conversa. As primeiras palavras Tatu-Bola as proferiu em seu tom peculiar, calmo, pachorrento, silabado, firme:

– Como iremos, caro amigo, sobrepujar um inimigo tão poderoso? Invencível ele é? É incomensurável o poder daquela grandiosa criatura. Os golpes que lhe desferimos, moveram-no, mas nenhum arranhão gravaram naquele corpo de rigidez de rocha, melhor, de diamante.

– Não sei, Tatu, como o derrotaremos. Confesso: não sei como derrotar aquele vilão.

– A nossa estréia na carreira de heróis não está a nos sair favorável – comentou Tatu-Bola. – Não podemos fracassar, Taco. Veja a destruição que aquele monstro saído das fornalhas do inferno provocou. Ou o tiramos de ação, ou ele reduzirá a cidade de São Paulo às cinzas.

– E como iremos derrotá-lo?

– Temos de atacá-lo, e atacá-lo, e atacá-lo, pelos flancos, pela face, pelas costas, até encontrar, dele, o ponto fraco.

– Se ele fosse o Aquiles, derrotá-lo-íamos em um piscar de olhos.

– Que ele tem um ponto fraco, tem, mas qual é o ponto fraco dele?

– Temos de encontrá-lo, antes que ele encontre o nosso.

– Há um ponto vulnerável naquela massa disforme – disse Tatu-Bola -, mas onde ele está?

Feita a pergunta, silenciaram-se Taco de Baseball e Tatu-Bola.

*

Na rua Y*, atrás de Massa Bruta, indo na direção dele, à distância de um pouco mais de cem metros, Rodolfo, Larissa e Carla, cautelosos, ziguezagueavam por entre os destroços e saltavam por sobre crateras. Larissa, com dificuldades para transpor um obstáculo, auxiliada por Rodolfo e Carla, que a ergueram pelas mãos, puxando-a, Rodolfo, pela mão direita, Carla, pela mão esquerda, viu Tatu-Bola e Taco de Baseball, passando, o primeiro, com um salto, o segundo, voando com o planador, do topo de um prédio de um lado da rua para o topo de um prédio do outro lado da rua, e para eles chamou a atenção de Rodolfo e Carla.

*

Tatu-Bola e Taco de Baseball, os movimentos sincronizados, decidiram atacar Massa Bruta, certos de que não seriam bem-sucedidos; mas teriam de conter aquele monstro disforme, impedir-lhe o avanço, imobilizá-lo, se possível, ou ele espalharia o caos por toda a cidade de São Paulo, disseminaria o pânico por toda a grande São Paulo, que já se deparava com o caos, que, como metástase, espraiava-se por várias cidades, caos promovido por criminosos, que se aproveitaram da presença de Massa Bruta, e agiam, como que em movimentos coordenados, em diversas cidades, furtando, roubando, assaltando, espancando, estuprando, matando. E a corporação policial e o Corpo de Bombeiros já estavam saturadas atendendo às chamadas de pessoas apavoradas. E multiplicavam-se as chamadas de pessoas que recorriam à polícia e aos bombeiros. Reduziu um pouco as preocupações dos organizadores das corporações policiais ao mesmo tempo em que as aumentava a ação de muitos homens que decidiram reagir à ação dos criminosos. Alguns, de posse de um revólver, ou de uma pistola, reagiam aos assaltos, aos roubos, e matavam os assaltantes, ou os rendiam após pô-los desacordados ao encaixar-lhes golpes ou de muay-tai, ou de capoeira, ou de judô, ou de kung-fu, ou de tae-kwon-dô, ou de outra arte marcial. A reação da população obrigou os criminosos a recuarem. Mas eles poderiam vir a se reorganizar e recuperar o território perdido se ninguém desse cabo de Massa Bruta.

Tatu-Bola saltou de um prédio, converteu-se em esfera acobreada, e Taco de Baseball golpeou-o, com o taco de baseball, arremessando-o contra Massa Bruta. A colisão entre o corpo de Massa Bruta e o de Tatu-Bola, tão intensa, tão impactante, que produziu um deslocamento de ar devastador, que arremessou veículos a vários metros de distância e estilhaçou vidros das janelas dos prédios próximos. E Tatu-Bola, ricocheteado, realizou, no céu, um arco, e foi pousar na parede de um prédio, nela fincando suas garras poderosas, inquebráveis, afiadas. Ato contínuo, saltou na direção de Massa Bruta. Taco de Baseball disparou um raio luminoso contra Massa Bruta, enceguecendo-o. Assim que Tatu-Bola converteu-se numa esfera acobreada, Taco de Baseball golpeou-o, com o taco de baseball, arremessando-o contra Massa Bruta. Atingindo Massa Bruta, Tatu-Bola, em forma de esfera, fê-lo recuar dois passos. E Tatu-Bola ricochetou. E Taco de Baseball golpeou-o, arremessando-o contra Massa Bruta. E Tatu-Bola atingiu Massa Bruta na cabeça. A ação de Taco de Baseball e Tatu-Bola conferia um aspecto hilário ao embate. Voando, a vinte metros de altura e a trinta metros de distância de Massa Bruta, em redor dele, Taco de Baseball golpeava Tatu-Bola, então, em sua forma esférica, contra Massa Bruta, o qual Tatu-Bola atingia, e ricocheteava, e Taco de Baseball golpeava-o, arremessando-o contra Massa Bruta. Foi um ataque incessante, dir-se-ia coordenado à perfeição. Massa Bruta não conseguiu reagir. Quando descerrava as pálpebras, Taco de Baseball disparava contra ele uma poderosa rajada luminosa, enceguecendo-o. E restava a Massa Bruta descarregar golpes a esmo, no seu vão esforço de atingir Tatu-Bola, urrar, praguejar e ameaçar, com voz cavernosa, que ecoava por toda a cidade de São Paulo, os seus dois oponentes.

Tal situação, no entanto, não se perpetuaria. Uma hora, ou Taco de Baseball erraria o golpe, ou Massa Bruta golpearia Tatu-Bola. E Massa Bruta golpeou Tatu-Bola, de cima para baixo, afundando-o no chão. Ato contínuo, Massa Bruta pulou, e caiu sobre Tatu-Bola, que ainda estava em sua forma esférica acobreada, erguendo nuvem de pó, cinzas, detritos e pedras. Assim que se dissipou a nuvem, revelou-se aos olhos de todos Massa Bruta, em pé, imóvel, diante de uma esfera acobreada, que se abriu, de repente.

E Tatu-Bola, sorriso estampado no rosto, proferiu uma exclamação de ares cômicos:

– Não doeu!

E com os dois pés Tatu-Bola deu uma pancada em Massa Bruta, surpreendendo-o, elevando-o no céu três metros.

E Taco de Baseball golpeou Massa Bruta, arremessando-o para o alto, e seguiu no seu encalço, e golpeou-o ao mesmo tempo em que por ele foi golpeado. E Taco de Baseball e Massa Bruta foram arremessados para o chão em pontos distantes um do outro trezentos metros.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 5 de 8

Capítulo 5

A luta do século

Round 1

Perguntavam-se em todo o mundo as pessoas que, diante de uma televisão, ou do monitor de um computador, ou da tela de um notebook, ou da de um tablet, ou da de um telefone celular, ou da de algum outro aparelho eletroeletrônico, assistiam às imagens da luta quem eram aquelas três criaturas. Quem era aquela imensa criatura disforme? Quem era o homem de armadura azul prateada, que voava sobre um planador e empunhava um taco de baseball dourado? Quem era o bípede híbrido de tatu-bola e homem? Em não muito tempo espalharam-se pelos cinco continentes os nomes dos três indivíduos envolvidos na luta: Massa Bruta, Taco de Baseball e Tatu-Bola. E em pouco tempo disseminou-se, como numa epidemia, o virus da curiosidade. Todos os que tomaram conhecimento do que ocorria em São Paulo perguntaram-se qual era a identidade secreta de Massa Bruta, a de Tatu-Bola e a de Taco de Baseball e o que eles desejavam, e porque Taco de Baseball e Tatu-Bola batiam-se contra o Massa Bruta.

– Eles se conhecem de outros carnavais? – perguntavam.

– Tatu-Bola e Taco de Baseball são amigos desde a infância?

– Massa Bruta é um desafeto de Tatu-Bola e Taco de Baseball?

– Massa Bruta é um cientista maluco?

– Taco de Baseball é um viajante do tempo?

– Taco de Baseball é do futuro?

– Tatu-Bola é um bicho do mato?

– Tatu-Bola vive na floresta?

– Tatu-Bola vive no sertão nordestino?

– Tatu-Bola é um esquimó geneticamente modificado?

– Qual é o nome verdadeiro de Taco de Baseball?

– Qual é o nome verdadeiro de Tatu-Bola?

– Qual é o nome verdadeiro de Massa Bruta?

– Qual é a identidade secreta deles?

– Taco de Baseball é um bilionário?

– Taco de Baseball é um industrial genial do setor de alta tecnologia?

Concentrados nos monitores de televisores e nas telas de computadores, telefones celulares, tablets, smartphones centenas de milhões de pessoas acompanhavam o desenrolar da luta entre Tatu-Bola, Taco de Baseball e Massa Bruta, todos a perguntarem-se qual era o propósito de Massa Bruta, e a anteverem o encerramento da luta: A vitória de Taco de Baseball e Tatu-Bola após a destruição de uma vasta área da cidade de São Paulo e das cidades conurbadas que constituíam, junto com a cidade de São Paulo, a Grande São Paulo.

*

Do Corpo de Bombeiros vários veículos retiraram-se, e rumaram para o centro da cidade de São Paulo em atendimento às centenas de chamadas de pessoas, preocupadas umas, desesperadas outras, apavoradas muitas delas, aterrorizadas inúmeras. No prédio da corporação, o capitão João Batista, em preparo da ação para atender a tantas chamadas simultâneas, persuadiu-se de que não estava a corporação preparada para responder à situação tão inusitada, inédita, e recorreu às corporações de bombeiros das cidades vizinhas. A coordenação, de difícil execução, de todo o trabalho de atendimento à população a seu encargo dele exigiu audácia, perspicácia, agilidade mental, raciocínio rápido, toda a sua experiência de trinta anos, que, pensava ele, seria insuficiente para enfrentar a situação, a qual ele, em imaginação, jamais havia concebido – era tão extraordinária, que a todos surpreendeu. E ele evocou a tragédia sucedida no dia onze do mês de setembro do ano de dois mil e um do calendário gregoriano. Era inédito o que ocorria no centro da cidade de São Paulo, surpreendente, espetacular, inimaginável – nem a pessoa de imaginação mais fértil que já pisou na face da Terra conceberia evento de tal magnitude.

– Vicente, o Paulo Cearense e o Ricardo irão com você.

– Comigo? – perguntou Vicente. – Eles não estão aqui – anunciou.

– Não? – perguntou, incrédulo, o capitão João Batista. – Eles não estão aqui? Eles não foram atender à nenhuma chamada. Não faz muito tempo, conversei com eles. Poucos minutos antes de recebermos a notícia do início da ação devastadora daquele monstro disforme, o Massa Bruta.

– Não sei, senhor – observou Vicente -, onde eles estão. Eles e o Marcelo e o Ivan conversavam, na última vez que os vi.

– O Ivan e o Marcelo já partiram?

– O Ivan há uns dez minutos; o Marcelo, há uns cinco minutos.

– Entrarei em contato com eles – ato contínuo, o capitão João Batista telefonou, primeiro, para Marcelo, depois, para Ivan, e perguntou-lhes de Paulo Cearense e Ricardo, e eles disseram-lhe que o viram, pela última vez, minutos antes de receberem a notícia do aparecimento de Massa Bruta no entroncamento das avenidas X* e A*, confirmando a informação fornecida por Vicente.

– Onde, diabos, eles se meteram!? – esbravejou o capitão João Batista.

– E agora que precisamos deles – comentou Vicente. – Tenho certeza de que eles, capitão, tiveram um bom motivo…

– Bom motivo para o que, Vicente? – esbravejou, visivelmente irritado, o capitão João Batista, interrompendo-o. – Quais bons motivos eles tiveram para se retirarem daqui sem me avisar? Eles conhecem os procedimentos. Eles conhecem as normas – e bufou de raiva. – Eles desaparecem, assim, e ninguém sabe quando eles desapareceram, e tampouco para onde foram. Suspeita, a atitude deles.

– Não se precipite, capitão – recomendou Vicente. – Estou certo de que eles têm uma boa explicação para a atitude deles. Telefonarei para eles.

Limitou-se ao silêncio o capitão João Batista.

*

Massa Bruta agarrou, com a mão direita, uma moto, e um bloco de concreto com a mão esquerda, e arremessou-os, primeiro, o bloco de concreto, depois, a moto, num intervalo de um décimo de um segundo entre os dois arremessos, na direção de Taco de Baseball, que, voando a trinta metros de altura e a cem metros de distância de Massa Bruta, da moto e do bloco de concreto esquivou-se, e não se viu hesitação em seus movimentos. A sua armadura, computadorizada, amplificando os seus sentidos e a sua agilidade e velocidade de reação, fornecendo-lhe informações sobre a velocidade e os trajetos dos objetos lançados contra ele por Massa Bruta, permitiu-lhe deles desviar-se com agilidade incomum. No segundo seguinte, Taco de Baseball apontou o taco de baseball na direção de Massa Bruta, e disparou uma potente descarga elétrica, que alvejou Massa Bruta, que emitiu um urro, mais de raiva do que de dor, e flexionou, tão logo recompôs-se – e recompô-se em uma fração de segundo -, os joelhos, e saltou na direção de Taco de Baseball, que, empunhando o taco de baseball com as duas mãos, preparou-lhe um golpe, que não desferiu porque, estando Massa Bruta a três metros de si, uma esfera acobreada atingiu-o, a ele, Massa Bruta, deslocando-o alguns metros, o suficiente para ele sair da rota de colisão com Taco de Baseball. E Taco de Baseball golpeou o vazio, e rodopiou, como um pião, em pleno ar, a trinta metros de altura, e Massa Bruta e Tatu-Bola, como um bólido só, colidiram contra um prédio, e o transpassaram, e caíram ao colidir contra o prédio vizinho. E Taco de Baseball, assim que cessou de girar, exclamou:

– Maldito tatuzão! Eu ia rachar a cabeça do monstrengo. Meu parceiro, em certos momentos, mais me atrapalha do que me ajuda.

Nem bem encerrou a sua queixa, um estouro chegou-lhe aos ouvidos, e uma esfera acobreada voou em sua direção: Era Tatu-Bola, que, golpeado por Massa Bruta, viajava, mais uma vez, pelos céus da cidade de São Paulo.

– Tatuzão não sabe voar, mas voa – exclamou Taco de Baseball, ao mesmo tempo em que se desviava do seu parceiro.

– O monstro das catacumbas do inferno dantesco não se simpatizou comigo – comentou Tatu-Bola, ao passar por Taco de Baseball, sua voz chegando-lhe abafada pela rígida carapaça que o envolvia.

Tatu-Bola atingiu um prédio, que encerrou-lhe a viagem pelos céus da cidade de São Paulo.

– O grandalhão é um osso duro de roer – comentou Tatu-Bola, assim que abandonou a sua forma esférica e assumiu a sua figura de híbrido tatu e homem.

– Você está bem? – perguntou-lhe Taco de Baseball.

– Nunca estive melhor na minha vida – respondeu Tatu-Bola, sorrindo. – As pancadas não me arranharam a pele.

– Não se gabe de sua resistência, Tatu-Bola – censurou-o Taco de Baseball. – Não desprezemos o nosso adversário.

– Não o desprezo – comentou Tatu-Bola. – Sei que enfrento um oponente respeitável, que já causou transtornos para milhões de pessoas, ceifou a vida de dezenas de pessoas, e provocou devastação imensurável dando prejuízo incalculável para a cidade.

E ouviu-se um urro tonitruante, o estrondo de uma explosão, e viu-se pedras, carros e metais retorcidos rasgando o céu em todas as direções.

– O monstrengo está vindo, Taco – avisou Tatu-Bola. – Prepare-se para o impacto.

E Taco de Baseball, à direita de Tatu-Bola, dez metros de distância dele, empunhou, firmemente, com as duas mãos, o taco de baseball, e preparou-se para desferir um golpe contra o seu enorme oponente, e dele desviar-se, caso ele fosse, correndo, em sua direção, ou desviar-se de algum objeto caso ele arremessasse-lhe algum, e Tatu-Bola pôs-se na expectativa, contraídos os músculos das pernas para pular, ou para esquivar-se de Massa Bruta, ou de um objeto que ele lhe lançasse, ou para saltar, em forma de esfera, contra ele.

De detrás de um monte de destroços, surgiu Massa Bruta, bufando, expelindo pelas narinas toda a sua fúria, olhares fixos nos seus oponentes, distante deles uns cem metros.

A cena, agora, assemelhava-se à de um filme de faroeste, cada protagonista do confronto em um ponto, imóvel, na expectativa, a respiração suspensa, fitando, atentamente, o seu oponente, preparado para antecipar-se-lhe aos movimentos, e disparar-lhe o golpe derradeiro. Dava-se a impressão de que o tempo havia cessado de seguir o seu curso e o planeta havido parado de girar em torno de seu próprio eixo e todos os fenômenos naturais haviam sido suspensos. Enfim, Taco de Baseball deslocou-se, lentamente, para a direita e para o alto, afastando-se de Tatu-Bola, mantendo de Massa Bruta sempre a mesma distância. A um sinal de Tatu-Bola, imperceptível para Massa Bruta, empunhou o taco de baseball com as duas mãos, e preparou-se para uma pancada, ao mesmo tempo em que Tatu-Bola saltou. Assim que Tatu-Bola, em sua forma esférica, passou a um metro à frente de Taco de Baseball, este deu-lhe, com o taco de baseball, uma forte pancada, arremessando-o contra Massa Bruta, que não pôde desviar-se de Tatu-Bola, que o atingiu, na cabeça, como um míssil, derrubando-o. Desenrolou-se tal cena em uma fração de uma fração de um segundo. Massa Bruta, antes de levantar-se, vendo Tatu-Bola ainda em sua forma esférica, em curso descendente, cerrou o punho direito, e golpeou-o. E a esfera acobreada viajou, mais uma vez, pelos céus da cidade de São Paulo. Interceptou-a Taco de Baseball, que, golpeando-a com o taco de baseball, arremessou-a, uma vez mais, contra Massa Bruta, alvejando-o no tórax, dele arrancando ar dos pulmões e desequilibrando-o, não o derrubando, no entanto. E Tatu-Bola, ricocheteado pela massa pétrea de Massa Bruta, foi para o alto, e assim que atingiu o ponto máximo da ascendência, Taco de Baseball golpeou-o uma vez mais, arremessando-o contra Massa Bruta, que Tatu-Bola atingiu, na cabeça, e ricocheteou uma vez mais. E Taco de Baseball golpeou, com o taco de baseball, Tatu-Bola, lançando-o, mais uma vez, contra Massa Bruta, que Tatu-Bola atingiu, na cabeça, uma vez mais, e ricocheteou. E mais uma vez Taco de Baseball golpeou, com o taco de baseball, Tatu-Bola, arremessando-o contra Massa Bruta. Desta vez, contrariando Taco de Baseball e Tatu-Bola, Massa Bruta, golpeou, com a mão direita, Tatu-Bola, arremessando-o longe de Taco de Baseball, ao mesmo tempo em que agarrou, com a mão esquerda, um bloco de concreto e arremessou-o na direção de Taco de Baseball, atingindo-lhe o planador, dele arrancando-o. Taco de Baseball caiu da altura de quinze metros sobre o asfalto da rua Y*, de barriga para baixo; ao erguer a cabeça, viu, diante de seus olhos, eclipsando o sol, descendo sobre si, preparado para esmagá-lo, Massa Bruta, que, braços erguidos por sobre a cabeça, dedos entrelaçados, a cinco metros de altura, proferiu a sentença, numa voz cavernosa, diabólica:

– Dê adeus à vida, verme!

Taco de Baseball não se esquivaria do golpe. Olhos arregalados fixos no seu adversário, a escuridão reinando no seu campo de visão, sentiu-se perdido, perguntando-se se a armadura agüentaria o golpe. Não poderia apará-lo; tampouco poderia esquivar-se de Massa Bruta, pois uma fração infinitesimal de segundo separava-o dos punhos cerrados daquele gigantesco monstro disforme de punhos esmagadores.

Estrondos, tremores de terra e a elevação de detritos seguiram-se ao golpe desfechado por Massa Bruta contra Taco de Baseball. A potência do golpe foi tanta, que abriram-se imensas rachaduras em toda a extensão da rua Y* e das ruas adjacentes, e prédios ruíram com a força da velocidade do deslocamento de ar, e centenas de veículos foram arremessados em todas as direções. Tremores foram sentidos num raio de vinte quilômetros. Estilhaçaram-se janelas de casas e de prédios distantes mais de cinco quilômetros do ponto em que Massa Bruta golpeou Taco de Baseball. Dois aviões e sete helicópteros, deslocados pelo deslocamento de ar, arremessados, a alta velocidade, iam, desgovernados, rodopiando, pelo céu da cidade de São Paulo. Um avião atingiu, de cabeça para baixo, um prédio – morreu, na colisão, os quatro tripulantes e outras oito pessoas. Um helicóptero caiu no rio Tietê – os seus dois tripulantes morreram afogados. O piloto de um avião, experiente, conseguiu, com destreza extraordinária, não sem dificuldades, pousou o avião numa avenida causando transtornos a muita gente, salvando, todavia, a sua vida e as dos vinte passageiros. Dos outros seis helicópteros, cinco os seus respectivos pilotos os pousaram em heliportos, cada um deles em um heliporto, e um caiu sobre a Praça do Anhangabaú, pulverizando-se, morrendo os seus dois tripulantes e outras cinco pessoas.

Assim que se dissipou a nuvem de fumaça, revelou-se uma cratera no meio da rua Y*, cratera da qual emergiu Massa Bruta, e apenas ele, altivo, maior do que antes, parecia aos olhos de todos, peito empinado, tórax inflado, repleto de energia. Inclinando a cabeça para trás, ele emitiu um grito ensurdecedor:

– Eu sou Massa Bruta, o Esmagador! Curvem-se diante de Massa Bruta, o Pulverizador! Reverenciem Massa Bruta, o Conquistador!

E olhou Massa Bruta para a sua esquerda ao ouvir ruídos. Viu Taco de Baseball, vacilante, cuja armadura descarregava faíscas multicoloridas, retirando-se da cratera. Sorriu Massa Bruta, desdenhoso.

E Massa Bruta deu um pontapé em Taco de Baseball, arremessando-o por sobre os prédios.

– Verme! – exclamou Massa Bruta ao ver Taco de Baseball longe, cruzando o céu da cidade de São Paulo.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 4 de 8

Capítulo 4

E entram em cena Tatu-Bola e Taco de Baseball

Gravadas por telefones celulares imagens de Massa Bruta e dos outros dois personagens, o mundo em pouco tempo tomou conhecimento do desenrolar dos eventos que se sucediam, para espanto de todos, no centro da cidade de São Paulo. E lá estavam, encarando-se, Massa Bruta e um homem coberto com uma carapaça de tatu e um homem embrulhado com uma armadura azul prateada. Quem eram eles? perguntavam-se todos. A chegada dos dois personagens que, tudo indicava, lutariam contra Massa Bruta, causou espanto e admiração em todos. E muitas interrogações foram aventadas nos quatro quadrantes do universo. A cidade de São Paulo converteu-se, naqueles poucos minutos, desde o surgimento de Massa Bruta no entroncamento das avenidas X* e A*, no centro do mundo, e aqueles três estranhos personagens inspiraram muitas perguntas. Um chamava-se Massa Bruta. E quem eram os outros dois?

Massa Bruta rilhou os dentes e franziu a testa. A sua aparência, que já era grotesca, assumiu ares teratológicos, assustadoramente petrificantes. Os dois personagens que desceram a poucos metros dele, no entanto, não se mostraram intimidados com aquela disforme, grotesca, monstruosa figura, que se alcunhava Massa Bruta. Ao contrário, exibiam, dir-se-ia, coragem incomum, audácia e atrevimento, e, desdenhosos, fitavam-lo como se tivessem diante de si uma criatura insignificante. A postura deles irritou Massa Bruta, que, não se contendo em seu ímpeto, deixou transparecer a raiva que o impeliria na direção do humano de constituição de tatu que lhe golpeara as costas.

– Quem são aqueles dois? – perguntavam-se todas as pessoas que, em todo o mundo, acompanhavam o desenrolar dos eventos protagonizados pelos três personagens de aparência singular.

– Não sei. Não tenho a mais remota idéia de quem eles possam ser – foi essa a resposta que mais se ouviu. E outras, especulativas, foram:

– Eles são deuses egípcios.

– Deuses egípcios? Havia, no Egito, um deus de corpo de tatu?

– No Egito não existe tatu.

– Eles são alienígenas.

– E de que planeta eles vieram?

– E eu sei!?

– Três criaturas, tão escalafobéticas, que só podem ser produtos de uma experiência fracassada.

– São eles oriundos de um universo paralelo. Resta-nos saber de qual, pois há infinitos universos paralelos. E cada um daqueles três esquisitões pode ser originário de um.

– Eles são produtos de experiências genéticas mal-sucedidas. O monstro é um urso geneticamente modificado; o tatuzão é um tatu que cresceu mais do que podia crescer, e o outro é… Sei lá. Talvez um ser humano e máquina, uma máquina orgânica, uma máquina, ou robô, ou sintético, ou andróide, ou sintozóide fundido num corpo humano.

– O tatu gigante é uma criatura híbrida de homem e tatu-bola como aquelas criaturas híbridas do livro Amálgamas.

– O homem do planador e do taco de baseball é um cientista maluco.

– Ele usa armadura.

– O brutamontes monstruoso é uma miniatura do Godzilla.

– Não. Não. Ele é um super-vilão, que ganhou vida, de revistas de super-heróis.

– O tatu gigante é um ornitorrinco geneticamente modificado.

– Não sei quem são aqueles três, e não quero saber, e tenho raiva de quem sabe. Eu quero vê-los engalfinharem-se, e espancarem-se, e esmurrarem-se, e esmagarem-se, triturarem-se e esmigalharem-se uns os ossos dos outros.

– Eles se conhecem de outros carnavais?

– O tatuzão e o homem com taco de baseball são amigos e ambos lutarão contra o Massa Bruta.

– Quero ver entranhas expostas, cérebros esmagados, ossos triturados e muita destruição.

– Eles irão lutar. A luta será um espetáculo.

– A luta do século.

– Quero ver sangue escorrendo do nariz deles.

– O Massa Bruta vai levar uma sova.

– Vai, nada. Ele vai pulverizar o homem-tatu e o homem-taco-de-baseball.

*

Carla, Larissa e Rodolfo dirigiram-se ao local do embate entre Massa Bruta e os seus dois oponentes.

– Rápido, Rodolfo, rápido – apressava-o Larissa, ansiosa, descabelando-se.

– Acalme-se – retrucou Rodolfo. – Como irei rápido com o trânsito…

– Rápido, Rodolfo – resmungou Carla. – Pare de falar, e dirija.

– E vocês – retrucou Rodolfo, impaciente -, matracas, tagarelas, calem a boca! Como dirigirei o carro, se vocês não param de falar nos meus ouvidos? Vocês são piores do que pernilongos. São irritantes, diabos!

A discussão seguiu neste tom durante todo o trajeto. Larissa e Carla, impacientes, exigiam de Rodolfo que ele acelerasse o carro, e Rodolfo a retrucar, irritado, ameaçava parar o carro, e dele expulsá-las, jogá-las para fora dele, para obrigá-las a irem a pé até onde encontrava-se Massa Bruta, caso nenhuma alma caridosa oferecesse-lhes carona. E encerrou a discussão um estrondo provocado por algo que caiu sobre o carro, algo não muito pesado, e nem muito leve, mas que atingiu o carro com força suficiente para amassar-lhe o capô. Rodolfo pisou, involuntariamente, no pedal do freio, e conseguiu manter o controle da direção, impedindo o carro de se desgovernar, subir na calçada e atropelar duas pessoas, um jovem de quinze anos e uma anciã octogenária. Enfim, parou o carro, em cujo interior imperou o silêncio. O carro parado, entreolharam-se Rodolfo, Carla e Larissa.

– O que aconteceu? – perguntou Rodolfo, mais para si do que para as suas colegas de trabalho, fitando o teto amassado do carro.

– Veja o que atingiu o carro, Rodolfo – sugeriu Carla.

Rodolfo desafivelou o cinto de segurança. Hesitante, cauteloso, abriu, intrigado, a porta do carro, e olhou para o céu à procura de algum objeto sobrevoando a região e os arredores.

– Vá, Rodolfo – apressou-o Larissa.

– Cale a boca! – resmungou Rodolfo, num tom de voz grave, firme, baixo e contido.

Rodolfo, enfim, saiu do carro. Desconfiado, e a fisionomia a transparecer preocupação, fitou o capô do carro e nele viu a concavidade produzida por um objeto pequeno, duro e coberto de arestas, presumiu, ao avaliar as irregularidades da concavidade, e perguntou-se que objeto atingira o capô do carro.

De dentro do carro, Larissa e Carla circunvagavam os olhos pelos arredores, avaliando o céu à procura de algum sinal que lhes indicasse o que ocorrera.

– O que você achou, Rodolfo? – perguntou Larissa.

– Nada – respondeu Rodolfo. – Estou vendo apenas o capô amassado do carro. Venham vê-lo.

Encorajadas pelo convite de Rodolfo, Larissa e Carla retiraram-se do carro.

Não havia decorrido um minuto, os três ouviram vidros estilhaçando-se, e olharam para a direita, direção da qual os barulhos de vidros quebrando-se chegaram-lhes aos ouvidos, e viram algumas pessoas acocoradas, e outras, a passos acelerados, protegendo, cada uma, a sua cabeça ou com uma bolsa, ou com uma maleta, ou com uma caixa, e duas mulheres gritando, e pedaços de vidros caindo, na calçada; e ao olharem para o alto, viram, de uma janela do terceiro andar de um prédio estilhaços de vidros desprenderem-se, e caírem, e um vidro quebrado.

– O que aconteceu? – perguntou Rodolfo.

– Cuidado! – gritou um garoto, ao mesmo tempo que apontava, com o dedo indicador esquerdo, um ponto do céu, para o qual voltaram-se Rodolfo, Larissa, Carla e dezenas de outras pessoas. E todos viram uma chuva de bólidos riscando o céu. Eram pedaços de carros, pneus, pedaços de asfalto, paralelepípedos e uma esfera acobreada. Todos procuraram por um abrigo. Rodolfo, Larissa e Carla encolheram-se ao lado direito do carro. E os bólidos atingiram, uns, algum prédio, outros, o asfalto, ou o muro de um terreno baldio, ou um poste, ou a porta de um estabelecimento comercial. Um poste atingiu uma loja, pelo enquadramento da porta, então aberta, e incursionou pelo seu interior, arrastando roupas, prateleiras, calçados, computadores, provocando muitos estragos – felizmente, ninguém se feriu, e os que se viram na sua trajetória esquivaram-se a tempo de evitar o impacto. Duas pedras, uma, de uns dez quilos, outra de uns vinte quilos, atingiram, quase que simultaneamente, um ônibus, estilhaçando-lhe todos os vidros. Um paralelepípedo atingiu uma moto preta, reduzindo-a a pó. Uma tempestade de pedriscos alvejou três pessoas – um homem de quarenta anos, barbudo, gordo e negro, uma jovem de dezesseis anos, de cabelos compridos, branca, magra e loira, um homem magro, moreno, de trinta anos, careca, e de barba e bigode rapados -, matando-os, instantaneamente.

Instalou-se o caos naquela região. Todos, assustados, olhavam para o céu à procura de uma explicação para o que ocorria.

A esfera acobreada atingiu a pilastra, no vértice, da parede reforçada de um prédio corporativo, rolou alguns metros, e foi parar a dois metros de distância de Rodolfo, Carla e Larissa. E os três a fitaram, apalermados, embasbacados, intrigados, curiosos, e mais apalermados, embasbacados e intrigados ficaram quando ela abriu-se e revelou-lhes o seu interior: um homem acobreado, que, sobrancelhas descerradas, sorriso no rosto cativante em sua aparência excêntrica, proferiu as seguintes palavras:

– Bom dia, madames. Bom dia, cavalheiro. Chamo-me Tatu-Bola, criado de vossas senhorias – e pôs-se de pé. E Rodolfo, Larissa e Carla puderam, então, dimensionar-lhe a estatura. Fitaram-lo, mais embasbacados e apalermados do que antes, arregalados os olhos, desmesuradamente abertas as bocas, e caídos os queixos. – As senhoritas estão encantadas com o meu charme, a minha simpatia excepcional e a minha beleza apolínea, e o senhor está admirando o meu excepcional e invejável porte físico.

– Quem é você? – perguntou-lhe Larissa, gaguejando, trêmulos seus lábios.

– Eu já vos disse o meu nome, encantadora senhorita. Compreendo-vos a vossa desatenção. O meu charme, a minha simpatia e a minha beleza helênica, presente dos deuses, encantaram-vos tanto que nublaram os vossos sentidos, o vosso entendimento, impedindo-vos de ouvir as palavras que, com a minha voz argêntea, que insufla no espírito de todos os seres viventes encanto e admiração, proferi. Não me faço de rogado. Paciente, gentil e prestativo, elimino a vossa dúvida: Tatu-Bola é o nome deste vosso humilde e leal servo – e genuflexionou-se, e, desembaraçado, exibiu mesuras anacrônicas, que arrancaram risos desconcertados de Larissa.

E Tatu-Bola anunciou a sua retirada:

– Perdoem-me, nobres damas – e atraiu, suavemente, para si, a mão direita de Larissa e a mão direita de Carla, que não lhas recusaram, e osculou-as com suavidade, mal roçando-lhes os lábios no dorso -, e perdoe-me, gentil cavalheiro – dirigiu-se a Rodolfo, então estupidificado, assim que abandonou a mão de Larissa e a de Carla – não poder conservar-me por mais tempo na vossa companhia. Chama-me o dever. Não posso dilatar, aqui, a minha humilde presença. Tenho de ir em auxílio de um heróico amigo meu, Taco de Baseball, que se vê em apuros num embate com um monstro saído das profundezas do inferno dantesco, Massa Bruta, o Destruidor, o Conquistador, o Aniquilador, o Exterminador, o Pulverizador, o Esmagador. Dai-me licença, senhoritas. Dai-me licença, cavalheiro – e saudou-os com salamaleques. Com desenvoltura, curvando-se ligeiramente, virou-lhes as costas, e deles afastou-se, correndo, numa velocidade impressionante.

– Tatu-Bola… – disse Rodolfo, gaguejando. – Taco de Baseball… Quem são eles? Eles estão lutando contra o monstro… com o… Qual é o nome dele?

– Massa Bruta – respondeu Carla.

– Temos de sair daqui – disse Larissa -, e ir até onde eles estão – referia-se a Massa Bruta, Taco de Baseball e Tatu Bola.

Entraram no carro, Rodolfo ao volante, e rumaram para a direção que Tatu-Bola seguira.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 3 de 8

Capítulo 3

A cidade de São Paulo sob ataque

O garoto da bicicleta, ao olhar para trás, após dobrar a esquina, e entrar pela rua O*, e não ver Massa Bruta atrás de si, perguntou-se, confuso e intrigado, ao mesmo tempo que aliviado, onde ele estava, e olhou para todos os lados. Não queria acreditar que Massa Bruta não lhe ia no encalço. Desacelerou a velocidade das pedaladas, e, à procura do seu perseguidor, olhava, a curtos intervalos, para trás, até que, enfim, cessou de pedalar, deteve-se, pôs o pé direito no chão, olhou para trás à procura de Massa Bruta, e não o encontrando, deu de ombros, e seguiu o seu caminho, agora lentamente, tranquilo, o coração a bater no seu ritmo normal.

Nesse meio tempo, Massa Bruta destroçou quatro veículos e arrancou da calçada um poste, arrebentando os fios, e ouviram-se os estouros a vários metros de distância. Arremessou o poste contra um helicóptero, que voava a duzentos metros de altura. O poste, arremessado com força indescritível, percorreu a distância que separava o helicóptero de Massa Bruta em um centésimo do tempo que Usain Bolt precisa para percorrer cem metros. O piloto do helicóptero, com destreza incomum, ao ver Massa Bruta soltar o poste, manobrou o helicóptero, rapidamente, evitando o choque, e tratou, ato contínuo, de afastar-se de Massa Bruta. O câmeraman que o acompanhava naquele trabalho insano pediu-lhe que se aproximasse de Massa Bruta, e dele ouviu obscenidades impublicáveis e insultos, e teve de se resignar à decisão dele, que, sem titubear, afastou-se de Massa Bruta, que, por sua vez, vendo o helicóptero afastar-se de si, voltou a sua atenção para as pessoas e os veículos nos seus arredores, e andou na direção de uma fileira de carros; ao passar por eles, agarrava-os cada um deles com uma das mãos, e os arremessava, para o alto, para qualquer direção; e os carros cobriam – os que não se chocavam contra os prédios próximos – mais de cinco quilômetros tamanha a força dispensada por Massa Bruta, que não se esforçava para arremessá-los tão longe.

Pessoas horrorizadas corriam, apavoradas, para se afastarem de Massa Bruta.

Um policial, empunhando um revólver, aproximou-se de Massa Bruta, pela frente dele, apontou-lhe o revólver, e sentenciou:

– Pare, ou atiro!

Massa Bruta fitou-o; seu olhar, de desdém e desprezo, um sorriso diabólico, malévolo, a estampar-lhe o rosto. Retesou todos os seus músculos. Andou, passos pesados, que provocaram tremores no asfalto, na direção do policial, que, vendo-o ir na sua, dele, policial, direção, recuou alguns passos, e, reconhecendo que fora imprevidente, e dando tratos à bola, girou sobre os calcanhares, pôs sebo nas canelas, tratou de correr como nunca havia corrido na sua vida, e dobrou a esquina pouco tempo depois.

Massa Bruta não se preocupou com o policial. Exibiu um ar de riso desdenhoso, arrancou, sem esforço, uma árvore do chão, e arremessou-a contra um prédio, dele estilhaçando várias janelas – e a árvore foi pulverizada com a força do impacto. Na sequência, arremessou um ônibus para o alto, deu socos no asfalto, rachando-o, e disparou pedaços de asfalto em todas as direções.

*

Carla, Larissa e Rodolfo, decididos a registrar os acontecimentos que se sucediam no centro da cidade de São Paulo, retiraram-se, açodados, descendo os degraus de três em três lances, do prédio da emissora de televisão C*. Na garagem, entraram num carro, e rumaram, Rodolfo ao volante, indo Larissa no banco anterior direito e Carla no banco de trás, conversando durante todo o trajeto de um pouco mais de oito quilômetros, ao ponto em que se encontrava Massa Bruta. E aventaram muitas perguntas. Eis algumas delas, as quais eles registraram não poucas vezes e para as quais não deram respostas:

– Massa Bruta é terrestre?

– Ele é de outro planeta?

– Ele veio de outra galáxia?

– Ele é oriundo de outra dimensão?

– Ele é produto de uma experiência científica?

– Ele é uma anomalia de Chernobil?

– Ele é um experimento do doutor Moreau?

– O que ele deseja?

– Ele é casado?

– Qual é o signo dele?

– Por que ele está em São Paulo?

– Por que ele não está em Nova York?

– Por que ele não está em Tóquio?

– Por que ele veio para São Paulo em vez de ir para Brasília?

– Por que ele não foi para a Argentina?

– Quem é o pai dele?

– Quem é a mãe dele?

– Ele é do futuro?

– Ele é do passado da Terra de um universo paralelo?

– Ele é uma criatura derivada de elefante, rinoceronte e hipopótamo geneticamente modificados?

– Ele é um supersoldado latino-americano?

– Ele comeu muita comida integral quando era criança?

Enquanto rumavam para o local em que se encontrava Massa Bruta, viram vários veículos cruzarem, em alta velocidade, o céu da cidade de São Paulo, e um ônibus colidir contra um avião, e uma bola de fogo formando-se no céu não muito distante deles, sentiram solavancos no carro, ouviram muitas explosões, e viram dezenas de línguas de fogo elevando-se no céu. O cenário, à medida que se aproximavam de Massa Bruta, tornava-se mais caótico, e multiplicavam-se as pessoas apavoradas, que, aos berros, alertavam todos da ameaça representada pelo gigante disforme humanóide.

De repente, da esquerda para a direita de Rodolfo, Carla e Larissa, a mais de cem metros de altura, a um quilômetro de distância, passou Massa Bruta, que, com a força prodigiosa dos músculos de suas pernas, lançara-se para o céu, com um salto espetacular, e pousou a quarenta quilômetros do ponto do qual saltara.

E Rodolfo mudou a direção que seguia.

*

Espalharam-se por todo o mundo imagens, captadas por telefones celulares e câmeras, da destruição da cidade de São Paulo no entroncamento das avenidas X* e A* e dos arredores e imagens de Massa Bruta em seus atos de destruição. Pessoas em todo o mundo tomavam conhecimento da criatura monstruosa que assolava a cidade de São Paulo, e apavoravam-se.

*

Na praça D*, Massa Bruta, ao pousar, quebrou várias árvores, e não cessou a sua ação devastadora. Esmurrava o chão, provocando tremores e no chão abrindo rachaduras, que se estendiam por quilômetros, e rompendo-se encanamentos, água jorrava-se de dezenas de pontos da cidade, atingindo sete, oito, dez metros de altura.

Com força extraordinária dos músculos das pernas, Massa Bruta deu um salto, calculado, de quatro mil metros de altura, e aterrissou no topo de um prédio, perfurou-o e todos os pisos inferiores, até o térreo, onde pôs-se a esmurrar os alicerces do prédio até derrubá-lo. E urrou, vitorioso, bem-sucedido no seu avanço sem obstáculos.

De repente, uma esfera acobreada atingiu as costas de Massa Bruta com força suficiente para fazê-lo pender, ligeiramente, para a frente. Surpreso, Massa Bruta olhou, de imediato, para trás, e viu, no céu, realizando um arco, uma esfera acobreada – a que o atingira -, que dele caiu a menos de trinta metros de distância. Massa Bruta fitou-a, intrigado. E surpreendendo-o, desfez-se a esfera acobreada, que assumiu uma figura exótica, misto de humano e tatu, de aproximadamente dois metros de altura. A criatura, em pé, de frente para Massa Bruta, conservou-se firme e imóvel, a fitá-lo, inexpressivo, impassível, com seus olhos minúsculos. E para maior surpresa de Massa Bruta, do céu desceu, um homem sobre um planador, o homem embrulhado com uma armadura azul prateada, empunhando um taco de baseball dourado. E o homem de armadura deteve-se, a planar, à esquerda da exótica criatura amalgamada de homem e tatu.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 2 de 8

Capítulo 2

Um garoto de bicicleta e um motorista de caminhão

No entroncamento das avenidas X* e A*, Massa Bruta, a gigantesca criatura humanóide, com o seu corpanzil disforme, seus músculos salientes, que lhe revestiam todo o corpo – e nenhum anatomista poderia identificar cada um dos músculos que lho revestiam – atraiu a atenção de centenas de pessoas, cujos olhares convergiam para ele, todas horrorizadas, boquiabertas, estupidificadas, abismadas, assustadas, amedrontadas, a respiração suspensa, incapazes de concatenar os pensamentos, petrificadas, como se o tempo houvesse cessado o seu curso. Não havia uma pessoa consciente, naquele momento. As pessoas regressaram à consciência quando Massa Bruta emitiu um urro tonitroante, que agitou folhas de árvores, deslocou cartazes, estilhaçou vidros de óculos, de veículos e de janelas de prédios.

– Curvem-se diante de Massa Bruta, o Conquistador! – declarou Massa Bruta, em tom de ordem; cavernosa, assustadoramente tétrica, a sua voz.

Pessoas corriam de um lado para o outro.

Muitos passageiros e motoristas de táxi abandonaram os veículos.

Das janelas muitas dentre as pessoas que haviam, curiosas, ao parapeito se debruçado para ver o que ocorria recolheram-se ao interior do prédio; outras, no entanto, a curiosidade a inspirar-lhes o desejo de conhecer o que se passava nas avenidas X* e A*, sobrepujando o medo que a atormentavam, conservaram-se ao parapeito das janelas, ou do interior do prédio rumaram ao parapeito, os olhares a convergirem para Massa Bruta.

Um garoto de uns doze anos, montado em uma bicicleta vermelha, tendo às costas uma mochila com o símbolo de um time de futebol espanhol, passou, lentamente, pela direita de Massa Bruta, a vinte metros dele, e, surpreendendo a todos, principalmente a Massa Bruta, e dirigindo-se a ele e atraindo-lhe a atenção, gritou a plenos pulmões:

– Você está no país errado, fórtão. Você está no Brasil, e não nos Estados Unidos!

Massa Bruta replicou-lhe, olhar petrificante a fitá-lo, com voz cavernosa, rilhando os dentes:

– Garoto idiota!

– Idiota é você, burrildo! – treplicou o garoto, sob o olhar escrutinador e terrivelmente demoníaco de Massa Bruta e os olhares temerosos das pessoas que testemunhavam a cena. – Onde você pensa que está, imbecil? Em Nova York? Você está em São Paulo, retardado – e em nenhum momento parou de pedalar, deslocando-se lentamente.

– Garoto idiota! – rosnou Massa Bruta. – Quebrarei todos os seus ossos – e deu os primeiros passos na direção do garoto de bicicleta que o tratara tão ousada e imprevidentemente sem tomar conhecimento dos seus atos.

– Ai! – exclamou o garoto de bicicleta ao ver Massa Bruta aproximando-se de si. – Meu Deus do céu! O monstrão está vindo me pegar. Caramba! Vai, bike, vai. Mais rápido! Mais rápido – e firmando os pés nos pedais, levantou-se do selim, os olhos muito abertos, mordendo os dentes, e acelerou as pedaladas. – Vai, bike, vai. Tire-me da enrascada, que eu comprarei pneus novos para você – e sentia os passos pesados de Massa Bruta aproximando-se de si.

Ziguezagueando por entre os veículos, o garoto de bicicleta, com a destreza de um ciclista profissional, deslocava-se, cada vez mais rápido, apesar dos obstáculos dos quais tinha que se desviar, sob olhares aterrorizados de muitas pessoas, que viam dele aproximar-se Massa Bruta.

– Só um milagre salvará o garoto – comentou um homem.

E Massa Bruta, esmagando carros e motos, deslocando, com o seu corpanzil disforme, ônibus e caminhões, arremessando alguns deles a vários metros de distância, corria no encalço do garoto de bicicleta, que usava todas as suas energias para dele escapar.

Massa Bruta arremessou, com o braço esquerdo, um ônibus contra um prédio.

O garoto de bicicleta acelerava as pedaladas.

Massa Bruta agarrou uma moto, e arremessou-a contra o garoto, que por puro golpe de sorte dela esquivou-se, sem que soubesse que Massa Bruta a arremessara em sua direção, no instante em que contornava, pela direita, um carro – a moto passou, zunindo, a um metro de sua cabeça, e foi colidir contra um caminhão cinquenta metros à frente.

– Diabos! – exclamou o garoto de bicicleta, assustadíssimo. – Maldito monstro! Tô perdido! Cacilda! Mamãe!

*

No prédio da emissora de televisão C*, reuniram-se Carla, Rodolfo e Larissa. Conversavam e assistiam à televisão imagens, transmitidas por telefones celulares, do que ocorria na intersecção das avenidas X* e A*. Eram as imagens impactantes; algumas registradas à distância, muitas não; todas exibiam uma parte do cenário devastado e a ação do protagonista do episódio: Massa Bruta.

– Que bicho é aquele? – perguntou Larissa, perplexa.

– Massa Bruta é o nome dele – respondeu-lhe Carla, num tom de voz tímido e inaudível.

– E o que ele quer? – perguntou Rodolfo mais para si do que para as suas colegas de trabalho.

Carla era uma morena de um metro e sessenta, magra, ossuda, quase esquelética. Diziam-lhe que ela era anoréxica, o que a irritava a ponto de fazê-la perder as estribeiras e replicar com obscenidades, levando os que lhe testemunhavam os rompantes de fúria às lágrimas de tanto gargalharem. Era atrevida e desbocada; não tinha papas na língua (ou nas línguas – diziam que ela tinha duas, como as víboras), e sempre envolvia-se em atritos com seus colegas de trabalho e seus superiores hierárquicos. Aos vinte e dois anos, solteira, diziam-lhe, excitando-lhe a bílis, que ela ficaria para titia porque nenhum homem gosta de chupar osso. “Sabem para que serve um osso?”, perguntava Carla aos engraçadinhos que lhe faziam tão desabonadores comentários, e todos dela afastavam-se, pois conheciam a resposta para a pergunta, para evitar escândalo, certos de que ela descarregaria uma enxurrada de palavras que as freiras não gostam de ouvir.

Rodolfo era um homem alto, esbelto, de um metro e noventa, com óculos a adornarem-lhe a cara de nariz adunco, lábios finos e descoloridos, testa larga, sobrancelhas espessas cujas extremidades internas tocavam-se na base do nariz. Devido a essa peculiaridade de sua fisionomia alcunharam-no Monteiro Lobato; outros o apelidaram Visconde de Sabugosa, ou Sabugo Científico, porque tinha ele o hábito – vício, diziam – de usar um vocabulário incomum e era dado a argumentações de cunho científico e filosófico acerca de trivialidades, que podiam ser explicadas com palavras comuns por todos os filhos de Deus. O seu ar apalermado e o seu jeito atrapalhado inspiraram aos colegas e amigos um apelido a ele: Clark Kent, o único sobrevivente de Kripton. “Ele tem um jeitão de alienígena”. Não eram poucas as pessoas que faziam tal observação.

Larissa, a Barbie, assim alcunhada devido às semelhanças físicas entre ela e a boneca mais famosa do mundo, sonho de consumo de onze dentre cada dez moças, era uma graciosa mulher de trinta anos que conservava a beleza de mulher de vinte, conservados todos os adornos de um belo corpo feminino de traços impecáveis. Não era uma burra das anedotas. Muitos homens a requestavam, inclusive Rodolfo, ao seu modo desajeitado. Era dotada de raciocínio ágil, e era muito agitada, quase, dir-se-ia, hiperativa; era dona de um texto ágil e persuasivo, rico de imagens cativantes, límpidas e esclarecedoras. Era desembaraçada. A sua postura sem reservas – e associada à sua beleza incomparável – intimidava muitos homens e deles ela extraía informações que nenhum dos seus colegas de profissão extraíam. Era muito bem-sucedida, e raros foram os seus fracassos nos doze anos durante os quais exerceu a profissão de jornalista.

Naquele momento, os olhares dos três jornalistas convergiam para a tela de televisão que transmitia imagens dos eventos que se desenrolavam nas avenidas X* e A* e arredores.

– De onde ele veio? – perguntou Rodolfo, referindo-se a Massa Bruta.

– Não sei – respondeu-lhe Larissa. – Sabemos apenas que ele quer dominar-nos, escravizar-nos.

– Vamos até lá – disse Carla.

– Chamem Olavo e Paulo – disse Rodolfo.

– Onde eles estão? – perguntou Larissa, olhando, rapidamente, de um lado para o outro da sala, à procura deles; não os encontrando, virou-se para Carla e Rodolfo. – Onde eles estão?

– Eles estavam aqui há alguns minutos – disse Rodolfo.

– Quando eu liguei a televisão, eles estavam aqui – disse Larissa.

– Como eles desapareceram, assim, tão de repente? – perguntou Carla, incrédula.

– Para onde eles foram? – perguntou Rodolfo.

– O sumiço deles, conveniente – comentou Larissa.

*

Pela avenida A* deslocava-se, de bicicleta, o garoto. E dele Massa Bruta aproximava-se, e rapidamente.

Um caminhão rumou, em alta velocidade, na direção de Massa Bruta. Quando distava dez metros dele, o motorista saltou para fora do caminhão, que colidiu contra o monstro disforme. E o garoto de bicicleta pôde distanciar-se de Massa Bruta, que ergueu, com as duas mãos, o caminhão, como se erguesse uma bolha de sabão, e arremessou-o na direção de um prédio.

O estrondo, ensurdecedor.

E Massa Bruta procurou pelo garoto de bicicleta.

– Onde você se escondeu, garoto idiota?

Não o encontrando, circunvagando o olhar pelos arredores, voltou a sua atenção ao homem que dirigia o caminhão.

– Onde está quem dirigia o caminhão? – perguntou em alto brado. – Apareça, covarde!

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 1 de 8

Capítulo 1

E surge Massa Bruta

Naquela quarta-feira ensolarada, às sete horas da manhã, fez-se ouvir um estrondo, no centro da cidade de São Paulo, no cruzamento das avenidas X* e A*. E a terra tremeu. As pessoas, num raio de cinquenta metros, sentiram os tremores, mas não atinaram com a sua causa, e entreolharam-se, intrigadas e curiosas, perguntando-se cada uma delas para si e umas para as outras qual era a origem do estrondo e dos tremores que ao estrondo se seguiram. Não ocorrendo nenhum outro tremor que se sobressaísse ao azáfama reinante àquela hora do dia, as pessoas que tiveram a atenção desviada para o estrondo seguido de tremores, tornaram a dedicá-la ao que as ocupavam antes do estrondo e dos tremores que se lhe sucederam, e seguiram cada uma o seu rumo. Era como se a metrópole paulistana, a maior metrópole do hemisfério sul, nada houvesse sentido. No seu ritmo normal seguia a cidade de São Paulo, e as pessoas ocupavam-se com as suas incumbências. O trânsito ia em ritmo acelerado. Carros, caminhões, ônibus, motocicletas trafegavam, incessantes, ocupando todos os espaços das avenidas X* e A*. Motocicletas passavam por entre carros, caminhões e ônibus, os motoqueiros a arriscarem-se. A prudência não era uma virtude que eles alimentavam. A cidade de São Paulo, metrópole cosmopolita, de todas as culturas, de todas as etnias, de todas as crenças, de todas as cores, animada e barulhenta, atrai, de todos os quadrantes do Brasil e de todos os rincões do universo, pessoas dos mais diversos credos, dos mais distintos idiomas.

Não haviam decorridos dois minutos do estrondo e dos tremores de terra, outro estrondo se fez ouvir, e se lhe seguiram tremores, mais intensos do que os anteriores, e os sentiram as pessoas que se encontravam, tendo o centro no cruzamento e nas proximidades das avenidas X* e A*, num raio de cem metros. Os carros que passavam pelo entroncamento das avenidas X* e A* deram um ligeiro solavanco, e surpreenderam-se os seus ocupantes; e desequilibraram-se alguns ciclistas que passavam a menos de vinte metros do epicentro dos tremores – um deles, perdendo o equilíbrio, caiu no meio-fio da calçada, e escalavrou o joelho direito; e pessoas que andavam pelas calçadas dos quarteirões próximos, e achavam-se não muito distantes do entroncamento das avenidas X* e A*, detiveram-se, intrigadas e assustadas, e olharam de um lado para o outro, todas a perguntarem-se o que ocorrera.

– Um terremoto – sugeriu um homem, que aparentava a idade de quarenta anos.

– Aqui em Sampa? – perguntou-lhe o que com ele conversava. – Não estamos em Tóquio – comentou, bem-humorado.

– Estranho o estrondo… E os tremores… – balbuciou o homem que aparentava quarenta anos.

Não bem o homem que aparentava quarenta anos encerrou o seu comentário, ouviu-se um estrondo estrondejante, tendo como núcleo o cruzamento das avenidas X* e A*, e os tremores que se seguiram espalharam-se por um raio de mil metros. E no entroncamento das avenidas X* e A* rompeu-se o asfalto de baixo para cima, e blocos imensos foram arremessados em todas as direções, e o que foi lançado mais longe, passou, como um míssil, por toda a extensão da avenida X*, percorreu quinhentos metros, e atingiu um carro, amassando-o, e deslocou-o, em decorrência da força do impacto, dois metros. Carros, na interseção das avenidas X* e A* foram revirados, e alguns arremessados a alguns metros de distância, e um ônibus tombou, e um caminhão, atulhado de legumes e verduras, que passava pelo cruzamento das avenidas X* e A* no exato momento em que o asfalto rompeu-se de baixo para cima, foi arremessado a vinte metros de distância. Uma nuvem de poeira e detritos, e fumaça, e água, que foi cuspida dos encanamentos rompidos, e faíscas, que sibilaram dos cabos cortados, subiu e dominou todo o entroncamento das avenidas X* e A* e considerável extensão delas. Pessoas gritavam e corriam. Várias pessoas estavam machucadas, umas, com ferimentos superficiais, outras tiveram fraturadas pernas e braços. Uma mulher, atingida, no peito, por um estilhaço, arrastava-se no chão, e berrava de dor – ela não conseguia levantar-se, e ninguém a acudiu tamanha a turbamulta. Muitas pessoas, confusas, corriam – as que podiam correr – de um lado para o outro. Ninguém sabia o que ocorrera. Muita gente zanzava de um lado para o outro, desorientada, as mãos às orelhas, ensurdecidas, olhares perdidos, sem saber o que pensar. Esvaiu-se em sangue um homem, a carótida lacerada por um estilhaço cortante – escabujou, nos seus derradeiros instantes de vida; uma jovem morena, na idade de dezessete anos, ao fitá-lo, berrou, ensandecida, apavorada. Um carro – o motorista que o manobrava perdeu o seu controle – da avenida X* passou para a calçada da avenida A*, e premiu contra o muro de um prédio dois homens, matando um deles, e ferindo, gravemente, o outro. Os vidros dos prédios cuja face dava para a intersecção das avenidas X* e A* estilhaçaram-se, uns, com o impacto de pedaços do asfalto rompido, pequenos uns, grandes outros, que foram arremessados para todas as direções, ou três, em decorrência de ondas de choques provenientes da explosão. Algumas pessoas atingidas por cacos de vidro feriram-se gravemente, outras tiveram ferimentos epidérmicos. Dispararam alarmes de vários carros estacionados ao longo das avenidas X* e A* e de ruas não muito distantes. Centenas de milhares de pessoas detiveram-se, e perguntaram-se o que ocorrera. E ninguém tinha uma explicação para o ocorrido. E ampliava-se e adensava-se a nuvem de pó, fumaça, detritos, água e faíscas.

Espalhou-se a notícia. Algumas pessoas, que se recompuseram do susto, de posse de um telefone celular, apontaram a câmera dele para a nuvem, e as imagens, de inúmeros ângulos, do chão, de dentro de prédios e do topo de prédios espalharam-se via internet, redes sociais, instantaneamente, por todo o mundo, que tomava conhecimento do evento que se desenrolava num entroncamento de duas avenidas situado no centro da cidade de São Paulo.

E o tempo passava.

O pó e os detritos regressavam ao chão. E reduzia-se de tamanho a nuvem. E do seu interior revelou-se aos olhos de todos os curiosos que convergiam para o cruzamento das avenidas X* e A* uma criatura humanóide de quatro metros de altura, musculosa, disforme, indescritível. Suas coxas e braços, da espessura de um homem adulto, espadaúdo, halterofilista; suas mãos, imensas, de veias intumescidas; seus ombros, largos – de um ombro ao outro ombro tinha, calculava-se, dois metros; seu tórax, amplo, da espessura de mais de um metro; sua cabeça, calva; suas orelhas, pequenas; seu nariz, pequeno e achatado; seus olhos, ocultos sob sobrancelhas espessas, peludas.

O primeiro ato da criatura, assim que ela deu os primeiros passos sobre o asfalto rachado: Agarrou, com a mão direita, um carro, ergueu-o como se erguesse uma pena de canarinho, e arremessou-o, sem esforço, contra um helicóptero, que passava, naquele instante, a duzentos metros de altura, a trezentos metros de distância, atingindo-o. Explodiram o helicóptero e o carro. Assim que o helicóptero atingiu o chão, ouviu-se outra explosão; e ouviu-se outra explosão quando o carro atingiu um posto de combustíveis. Morreram os dois tripulantes do helicóptero, os quatro ocupantes do carro e três pessoas que estavam no posto de combustíveis.

A criatura humanóide, intumescidos todos os seus vasos sanguíneos, contraídos e enrijecidos todos os seus músculos, inflado seu tórax, ergueu a cabeça, e gritou. O seu grito, altissonante, grave, cavernoso, agourento, o ouviram à distância de vários quilômetros. Cessado o grito, rilhou a criatura os dentes, e proferiu as sentenças:

– Curvem-se, humanos, diante do Conquistador! Curvem-se diante do deus que veio para escravizá-los! Curvem-se diante de Massa Bruta! – e bateu as duas palmas, abertas, uma contra a outra, deslocando o ar, arremessando dezenas de pessoas a vários metros de distância. – Humanos, eu vim para conquistar o mundo! Curvem-se diante de Massa Bruta, covardes! Curvem-se diante de Massa Bruta, o Conquistador!

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