Na Noite do Crime (Woman on the run – 1950) – estrelando Ann Sheridan e Dennis O’Keefe

Neste filme noir, em preto e branco, de 1950, o inspetor Ferris (Robert Keith) sai à caça de Frank Johnson (Ross Elliott), a única testemunha do assassinato de Joe Gordon (Tom Dillon), que iria testemunhar contra Freeman Fattened, um gangster.

O assassinato ocorre à noite, Joe Gordon, dentro de um carro, após saudar um homem, Danny Boy – e este nome, ao ser mencionado pela segunda vez, na metade do filme, revela a verdadeira identidade do assassino.

Frank Johnson, ilustrador, trabalha na loja Hart e Winston, do doutor Maibus (John Qualen). Passeava, com seu cachorro de estimação, Rembrandt; testemunha o crime, e o assassino dispara em sua direção dois tiros, errando ambos. À cena do crime chegam os policiais, e o inspetor Ferris, que pede a Frank Johnson informações acerca do ocorrido e lhe diz que ele, Frank Johnson, teria de testemunhar, descrever o assassino de Joe Gordon – e seria esta a única informação que teria a polícia numa investigação que tinha como alvo o gangster Freeman Fattened. Ao ouvir tais revelações, Frank Johnson decide, à distração dos policiais, e temendo pela sua vida, homiziar-se em qualquer lugar, para a sua segurança. Ao saber da ação de Frank Johnson, o inspetor Ferris principia a caçada a ele. Na sua ânsia de vir a efetuar a prisão de Freeman Fattened, e certo de que para chegar até ele teria de descobrir a identidade do assassino de Joe Gordon, e que para identificá-lo era imprescindível o testemunho de Frank Johnson, não mede esforços, aborda Eleanor Johnson (Ann Sheridan), esposa de Frank Johnson.

Toda a investigação do inspetor Ferris concentra-se, o que é inusitado, na caçada, não ao assassino, tampouco ao gansgster, mas à testemunha do assassinato de Joe Gordon, Frank Johnson, a única pessoa que poderia adicionar alguma informação à investigação.

Eleanor Johnson é uma personagem cativante – e é ela a protagonista da aventura, e é seu coadjuvante Dan Legget (Dennis O’Keefe), repórter do Graphic. Ácida e sarcástica, nos seus diálogos com o inspetor Ferris e nos com Dan Legget, além de revelar traços de sua personalidade multiforme, sua inteligência fina, de uma pessoa de língua afiada, exibe sua indiferença pelo marido e a si mesma; suas primeiras palavras a respeito do homem com quem vivia sob o mesmo teto são desdenhosas, de desprezo por ele.Atormentada com a abordagem, que lhe restringe os movimentos, do inspetor Ferris, driba-lhe a vigilância, e inicia, coadjuvada pelo onipresente Dan Legget, uma aventura emocionante e tensa à procura de seu marido. Na sucessão dos capítulos que contam a sua aventura, ouve contarem-lhe episódios da vida dele, episódios que ela, esposa distante, ignorava, e surpreende-se com o que lhe dão a conhecer. Tal aspecto do enredo, que segue concomitante à perseguição que o inspetor Ferris empreende a ela e ao esposo dela e a investigação que ela e Dan Legget executam, para chegarem até Frank Johnson, é uma trama envolvente que revela, aos poucos, a consciência que Eleanor Johnson adquire de seus sentimentos pelo marido, os quais dela até então estavam ocultos.São muitos os episódios da saga de Eleanor Johnson: o do clube chinês Jardins do Oriente; o do consultório do doutor Hohler; o da loja Hart e Winston; o do Sullivan’s Grotto; o do cais; o do consultório do veterinário; o do necrotério; e, enfim, o derradeiro, o do parque, na praia, sob as instalações da montanha-russa.A partir do episódio ocorrido na loja Hart e Winston, intrigada com mensagem cifrada, que seu marido lhe enviara numa carta, “Estarei em um grande dia, sob o Sol, como no dia que lhe perdi pela primeira vez.”, Eleanor Johnson esforça-se para encontrar-lhe o paradeiro – e para ir até ele teria de decifrar a mensagem, o que ela conseguiria a duras penas.Na metade do filme, repito, a identidade do assassino, alcunhado Danny Boy, no início da trama, por Joe Gordon, é revelada durante um diálogo entre Eleanor e Dan Legget; a partir deste momento, fica-se na expectativa, ansioso para se saber se Eleanor Johnson encontraria seu marido e o ajudaria a safar-se de seu perseguidor, ou se, sem o saber, conduziria o assassino até ele.

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Qomolangma Feng, China

Qomolangma Feng, Qogir Feng, Kangchenjunga, Makalu, Cho Oyu, Ohaulagiri, Manaslu, Nanga Parbat, Annapurna, Gasherbrum, Xixabangma Feng.

Acima, os nomes das onze montanhas mais elevadas do mundo, situadas no território compreendido pela China, pelo Nepal e pela Índia. Todas de mais de oito mil metros de altura. Daquelas montanhas chegou-nos a lenda de uma criatura estranhíssima. Ouvimos falar de Ieti, o abominável homem das neves, que vive naquelas regiões, parente distante do Pé Grande, que habita as mais elevadas montanhas norte-americanas e canadenses; entretanto, poucos sabem, Ieti não é a única criatura que vive, segundo a lenda, no Himalaia. Há outra, e há pouco tempo os ocidentais dela ouviram falar. Aventureiros chineses, indianos, norte-americanos, brasileiros, irlandeses, argentinos, nepaleses, nigerianos e japoneses, em busca do controverso Ieti, ouviram relatos sobre uma criatura a respeito da qual jamais tinham ouvido uma palavra. Tratava-se de Keqyshadi, cuja existência era um mistério, maior, até, do que o de Ieti e o do Pé Grande – e, também, o do monstro do lago Ness.

Vários estudiosos e aventureiros, em 1993, ouviram inúmeras histórias acerca de Keqyshadi, e empreenderam uma expedição à procura dele. Ele vivia no Himalaia. Algumas pessoas declararam que ele vivia no topo de Qomolangma Feng, o topo do mundo, acima das nuvens. Keqyshadi é parente distante de Ieti e parente ainda mais distante do Pé Grande, disseram algumas pessoas; outras disseram que, como o Pé Grande e o Ieti, Keqyshadi é apenas uma lenda. Houve quem discordasse de tal afirmação; afinal, nem Ieti, nem Pé Grande, tampouco Keqyshadi, jamais foram vistos pelos homens, portanto, não se pode afirmar que eles não existem. Muitas coisas que os homens jamais viram existem, argumentou um dos integrantes da equipe, com uma lógica irrefutável. Em território indiano, os expedicionários colheram muitas informações a respeito de Keqyshadi, esta criatura que, na opinião de muita gente, era mais fascinante do que o Ieti.

No ano de 2003, seis dos doze integrantes da equipe que empreendeu a expedição de 1993 resolveram empreender outra expedição ao Himalaia; os outros seis lançaram-se a outros projetos, para eles mais realistas. Não havia sentido, disseram alguns destes, quando fizeram-lhe o convite para empreenderem nova expedição ao Himalaia à procura de Keqyshadi, despender tempo e dinheiro em empreitada irrealista, e tentaram dissuadir de realizá-la os que haviam confirmado a sua participação na expedição. Um dos aventureiros convidados que recusaram o convite (ele se lançaria, pouco tempo depois, numa expedição à floresta amazônica) disse, polido, aos expedicionários que iriam ao Himalaia à procura de Keqyshadi, que eles estavam obcecados por ele, uma criatura lendária que habita, supostamente, aquelas gélidas e desoladas montanhas.

Os seis aventureiros, convictos de que encontrariam a fabulosa criatura, gracejando, disseram que poderiam, ao procurarem Keqyshadi, encontrar, acidentalmente, o Ieti.

Eis os nomes dos seis aventureiros da Expedição Qomolangma Feng e as suas respectivas nacionalidades: Valmiki, indiano; Li Po, chinês; Thomas Smith, americano; José da Silva, brasileiro; Arthur Doyle, irlandês; e Akira Kurosawa, japonês.

Planejaram, minuciosamente, a viagem. A escalada impor-lhes-ia inúmeras dificuldades. Enfrentariam o frio rigoroso, o ar rarefeito, a solidão, a fadiga.

O mais novo deles, Li Po, de trinta e quatro anos, conhecia, como poucos, o Himalaia; já o havia palmilhado inúmeras vezes, e escalado quatro vezes o Qomolangma Feng, ou, como é conhecido no ocidente, Everest, e o Qogir Feng, que no ocidente é chamado de K-2.

Reuniram-se, em Pequim, os aventureiros. O dia, frio. José da Silva encontrou dificuldades para enfrentar o frio enregelante da região; ele, que vivia no Rio de Janeiro e tomava banho de Sol quase todos os dias durante seu período de férias voluntárias entre duas aventuras arrojadas, a temperatura acima de trinta e cinco graus célsius, não suportava a temperatura abaixo de zero graus célsius em Pequim.

Os outros cinco integrantes da expedição moravam em regiões frias; pouca dificuldade tiveram para se adaptarem ao frio da capital chinesa, de trincar os ossos.

Hospedaram-se os aventureiros no apartamento de um amigo, escocês, aventureiro também, que realizava uma viagem ao Pólo Sul, e que lhes cedera o apartamento no qual eles passaram a última noite antes de principiarem a jornada ao Qomolangma Feng.

Na manhã do dia seguinte, prepararam-se para o início da aventura. Cada um deles carregando trinta quilos de apetrechos, retiraram-se do apartamento, e iniciaram jornada rumo a maior cadeia montanhosa do mundo.

Andaram pelas movimentadas ruas de Pequim, pelas quais circulavam muitos veículos automotores e uma quantidade incalculável de bicicletas. Os chineses, curiosos, fitavam aquelas seis figuras exóticas.

Saíram do perímetro de Pequim. Na avenida, encontraram-se com um amigo, que os aguardava. Ele era o motorista do ônibus que os conduziria até a cidade de ***, e dali em diante os aventureiros jornadeariam com raros contatos com a civilização.

Quase um dia depois, chegaram ao ponto marcado. Estavam a mais de dois mil metros de altura acima do nível dos oceanos. Dali em diante, cruzariam com algumas vilas; depois, o Himalaia. Os habitantes dos povoados mais isolados disseram-lhes que já haviam visto Keqyshadi, e declararam que ele, monstruoso, tinha mais de quatro metros de altura. A descrição que de Keqyshadi deram os habitantes da região aos aventureiros correspondia ao que estes ouviram, em povoados e vilas, na China, na Índia, no Nepal e no Butão. Keqyshadi era o Keqyshadi em todos os povoados. O Ieti, por sua vez, era descrito, em cada povoado, com uma aparência; em um povoado descreviam-no como um anão peludo e minúsculo; em outro, como um feroz gigante descomunal de mais de dez metros de altura; em outro, como uma criatura pacífica que ajudava as pessoas e com elas relacionava-se amigavelmente.

Findava o primeiro dia da expedição. O Sol desaparecia atrás das montanhas. Os aventureiros armaram barracas, e nelas ajeitaram-se.

Thomas Smith e Valmiki ficaram em uma barraca. Valmiki, excelente contador de estórias, contou uma dúzia das de seu vastíssimo repertório, mas seu ouvinte ouviu apenas as duas primeiras que ele narrou, pois na metade da terceira, adormeceu profundamente, mas Valmiki não se deu conta de que os seus relatos de As mil e uma noites ele não os apreciava, e só cessou a narração quando o sono o dominou.

José da Silva e Li Po ficaram em outra barraca. Traçaram alguns planos para o dia seguinte, e adormeceram.

Arthur Doyle e Akira, exaustos, assim que deitaram, dormiram.

Na manhã seguinte, Valmiki despertou antes de todos os outros aventureiros, e preparou a refeição, da qual os comensais partilharam; era pitoresca, e estava saborosa.

Os apetrechos arrumados, caminharam os aventureiros, galgando a montanha pelas estradas estreitas que a recortavam, e cruzaram, a longos intervalos, o caminho de algum aldeão, que falava um idioma que apenas Valmiki e Li Po conheciam. Uma família de aldeães hospitaleiros convidou os seis aventureiros para uma refeição. Eles não se fizeram de rogados.

O início da jornada, isento de dificuldades além das comuns em aventuras do gênero. Interromperam-na os aventureiros ao crepúsculo.

*

Nos dez primeiros dias de jornada com nenhuma criatura depararam-se os aventureiros, nem com um lobo das neves, nem com outros animais comuns na região. Conquanto monótonos estes dias, não desistiram do propósito que os impeliram até lá. Valmiki contou muitas estórias, algumas de sua lavra, outras que ouvira de contadores de estórias populares, e outras de suas leituras. Se houvesse, dentre eles, um escritor de talento, ele redigiria um volume adicional às Mil e uma noites.

O frio, à medida que escalavam a montanha, intensificava-se.

Transcorreram-se os dias. Estavam os aventureiros há mais de cinco mil metros acima do nível dos oceanos. Keqyshadi morava nas mais elevadas montanhas, diziam os habitantes daquela desolada região.

*

Os aventureiros palmilharam vasta extensão do Himalaia. Não encontraram vestígios de Keqyshadi, criatura que, como o Ieti, o Pé Grande, o Monstro do Lago Ness, o Boitatá, era dotado de capacidade extraordinária de ocultar-se dos olhos humanos.

Aproximavam-se das mais altas montanhas. A partir de certo ponto não havia mais povoados humanos, nem estradas, nada que lembrasse a civilização. Agora, eram a natureza e os seis homens que a desbravavam.

A camada de neve atingia, em alguns pontos, os joelhos de Akira Kurosawa, o mais baixo dentre os seis aventureiros. Embrulhados nos seus agasalhos apropriados para o frio rigoroso, os aventureiros tremiam. À noite, ouviam ruídos horripilantes. Eram os ventos que cortavam o ar e golpeavam as barracas. Pareciam-lhes assobios de uma criatura espectral, sinistra, que desejava bani-los daquele reino, que não era o deles. Calafrio percorreu a espinha dos seis aventureiros. Valmiki narrava estórias maravilhosas, agora alimentadas pelo ambiente, e espantava o medo que os atingia. Quando não contava estórias, meditava, contemplava a região e recitava trechos do Mahabarata e do Ramayana.

Transcorreram-se os dias. Nenhum sinal de Keqyshadi. Os aventureiros continuariam a percorrer o Himalaia, segundo o plano traçado de antemão, até encontrarem o Keqyshadi, ou provas de que ele existia.

Enfim, chegou o momento de enfrentar Qomolangma Feng. Ousaram desafiá-lo. Invadiriam o reinado de Keqyshadi. Iriam ao pico de Qomolangma Feng. Keqyshadi lá vivia, acreditavam, em uma caverna escondida por espessa camada de neve.

Antes de principiarem a escalada de Qomolangma Feng, descansaram. O Sol ainda não havia se posto. Armaram as barracas, e, aquecidos pelas vestimentas, no interior das barracas dormiram. Acordaram, no dia seguinte, minutos antes do meio dia, recompostos, decididos a escalar a montanha.

Valmiki encabeçava a fila. Seguiam-lo José da Silva, Thomas Smith, Li Po, Arthur Doyle e Akira Kurosawa, nessa ordem. Eram cuidadosos. E redobraram a atenção.

Quase esgotados de forças, escalaram um dos trechos mais íngremes do Qomolangma Feng. Dos seis, Thomas Smith era o que mais havia se desgastado; no entanto, ele não parou para descansar. O frio poderia matá-lo, se ele perdesse a consciência, ou adormecesse.

Os ventos sopravam mais fortes. Não havia sinal de animais. Li Po, dentre os expedicionários o de ouvidos mais apurados, distinguiu um ruído, que destoava do ambiente. Arrepiou-se de imediato dentro da vestimenta, que o protegia do frio enregelante. Acenou para os outros companheiros, que cessaram a escalada.

Nuvem espessa começava a cobrir a região, impedindo os aventureiros de verem o que estava logo à frente deles. Da direção da qual Li Po acreditava que lhe chegara o ruído que lhe atraíra a atenção, chegou-lhe uma série de ruídos. Fixou o olhar, no horizonte, para distinguir qualquer coisa, no tapete branco que cobria a montanha. Nada encontrou. José da Silva disse-lhe que ele se enganara, iludido pelo cansaço e pela fome. Era uma alucinação. Valmiki e Arthur Doyle secundaram-lo. Mudaram de opinião quando ouviram um ruído estranho. Arregalaram os olhos e perguntaram-se que ruído era aquele. Li Po sorriu, vitorioso.

E pela terceira vez Li Po ouviu o estranho e indefinível ruído. Era a voz de Keqyshadi? Valmiki e Li Po disseram que o ruído era a voz de alguma fera, de uma fera, salientaram, que não existia. Valmiki explicou o que desejava dizer com tais palavras. E Li Po as acentuou. Era a voz de um animal. Não era, concluíram, som produzido pelos ventos. Era o som de alguma fera desconhecida dos humanos. Talvez o rugido de Keqyshadi. Ou de outra fera desconhecida dos humanos.

Se encontrassem pegadas na neve! Seguiram na direção da qual chegou-lhes o ruído. Entusiasmados, negligenciaram cuidado. Thomas Smith afundou-se, em um trecho, na neve, que o encobriu, e ele quase foi carregado encosta abaixo. Valmiki, atento, segurou-o. E os expedicionários conseguiram, com muito esforço, erguê-lo e salvá-lo.

No princípio da noite, os ventos sopravam mais intensos. Os aventureiros encontraram um ponto, na encosta, que lhes oferecia segurança, e nele montaram as barracas, fixando-as no solo. Nenhum deles conseguiu dormir, pois imaginavam Keqyshadi a rondar as barracas. Temiam que ele os atacasse.

Na manhã seguinte, Valmiki, ao sair da barraca, viu um vulto imenso em meio à nuvem que cobria a região. Assustado, gritou para os seus companheiros, que se retiraram, imediatamente, das barracas, e olharam para a direção que Valmiki apontava. Valmiki disse que vira uma criatura de mais de três metros de altura. Os outros aventureiros recolheram as barracas, e caminharam na direção que Valmiki apontava. Ouviram uma voz estranha. Todos eles a ouviram ao mesmo tempo. Havia, lá, uma criatura. Inclinaram-se a acreditar que se tratava de Keqyshadi. Akira aventou a hipótese de tratar-se de Ieti, e Valmiki perguntou-lhe porque encontrariam o Ieti, se procuravam o Keqyshadi, e por que não encontraram o Ieti quando o procuraram. Akira não lhe deu resposta.

Andaram, cautelosamente, na direção da qual chegou-lhes a voz estranha. Os fortes ventos e a impossibilidade de ver um metro diante dos olhos os obrigavam a prosseguir em velocidade reduzida. Além dos assobios dos ventos, nada mais ouviam.

Deslocaram-se poucos metros. Ruídos atraíram-lhes a atenção. Pareceu-lhes que a criatura que estava nas proximidades tinha o cuidado de não se lhes revelar; movia-se com cautela.

Akira, que estava atrás de todos os aventureiros, rumou à direção da qual a voz lhes chegara aos ouvidos. Olhava, apavorado, de um lado para o outro. De repente, sentiu, nas costas, uma forte pancada, que o arremessou contra José da Silva, logo à sua frente, e os dois esbarraram em Li Po. Caíram os três. Li Po escorregou pela encosta suave; Valmiki agarrou-o. Thomas e Arthur o ergueram. Refeitos do susto, perguntaram para Akira o que lhe acontecera. Mal conseguindo articular as palavras, ele lhes disse que lhe atingiu-o as costas forte pancada. Alguma criatura – inteligente, presumiram – os tocaiava. Acreditaram que Keqyshadi anunciara-se – nenhum deles o viu, mas não lhes restava dúvida: Keqyshadi estava próximo deles.

Vasculharam a região que a visão alcançava. Desnorteados, desorientados, perderam a noção de direção e de espaço.

Valmiki, olhos apurados, viu um vulto aproximando-se de si. Boquiaberto, apontou-o. José da Silva perguntou-lhe o que ele via, e viu o vulto, grande, a poucos metros de si, e correu, imprudentemente, em direção a ele. Valmiki agarrou José da Silva pela gola da jaqueta, que se lhe escapou. E José da Silva correu no encalço do vulto. Thomas, Arthur e Akira gritaram-lhe que não fosse na direção da criatura. José da Silva desapareceu.

Transtornados, os cinco aventureiros não sabiam o que fazer. Permaneceram, não se sabe por quanto tempo, imóveis, irresolutos.

Estavam nas proximidades de uma encosta. Poucos metros depois deles, um declive. Retiraram-se de lá, e buscaram proteção. Armaram as barracas. Não dormiram. Esperavam que José da Silva regressasse. Akira teve uma previsão funesta: José da Silva morreu na montanha. Qomolangma Feng era o seu túmulo.

Na manhã seguinte, eles não desarmaram as barracas. Permaneceriam lá, durante dois dias, à espera do regresso de José da Silva.

Escasseavam os provimentos. Os aventureiros não poderiam esperar, indefinidamente, por José da Silva, ou todos eles morreriam.

Thomas disse que teriam de principiar a descida. Valmiki sugeriu que esperassem por José da Silva mais um dia. Decidiram esperá-lo.

Poucas horas depois, ouviram uma voz abafada pelo assobio dos ventos. Reconheceu-a Li Po. Era a voz de José da Silva.

Logo depois, José da Silva apareceu diante deles, entusiasmado. Dizia, ofegante, mal articulando as palavras, que viu Keqyshadi à boca de uma caverna a pouco mais de cem metros de onde eles se encontravam. Thomas esqueceu do seu desejo de surrar José da Silva, e perguntou-lhe se ele poderia conduzi-los até a caverna.

Tomando a dianteira da fila indiana, José da Silva conduziu-os até a caverna na qual dissera haver encontrado o Keqyshadi. À boca da caverna, acionaram as lanternas, iluminando-lhe o interior. E cautelosos, e preparados para qualquer eventualidade, na caverna entraram. E nada encontraram. Nenhum sinal de Keqyshadi. Nem pegadas que indicassem a existência dele. O silêncio, absoluto.

Ouviram, enfim, um ruído. Olharam para a boca da caverna. Os ventos assopravam fortes. Ouviram um assobio estridente. À boca da caverna, um vulto. Abismados, olhos arregalados, fitaram-lo os aventureiros.

O vulto desapareceu do mesmo modo que surgira. Os ventos assopravam, intensos. Os assobios, altissonantes. Uma voz invadiu a caverna na qual estavam os seis aventureiros. Os ventos, cada vez mais fortes. Lá fora, furioso, o clima. Os ventos, mais fortes. De repente, apagaram-se as lanternas, e a escuridão reinou na caverna. E enfraquecia-se a respiração dos seis aventureiros.

E o silêncio reinou absoluto em Qomolangma Feng.

Em um futuro não muito distante – parte 8 de 8

Mário acordou às dezesseis horas, e foi à biblioteca, onde, antes de outra pessoa acordar, leu um capítulo de um romance russo do século XIX. Rodolfo acordou, minutos depois, e foi à biblioteca. E saudaram-se e abraçaram-se pai e filho. E encetaram conversa. Mário pôs um marcador de página na página em que interrompera a leitura assim que seu pai assomara ao enquadramento da porta da biblioteca, e o livro ele o deixou sobre a escrivaninha. Rodolfo perguntou-lhe se ele havia recebido os jornais daquele dia, e dele ouviu resposta afirmativa. Mário pegou os jornais de sobre a mesa, e entregou-lho o exemplar do jornal A…, e conservou consigo o exemplar do jornal B… Leram algumas notícias, e as comentaram. Rodolfo leu, em voz alta, os textos a cujos autores ele atribuiu irrepreensíveis lucidez e sensatez. Mário leu uma nota curta ao canto de uma página, nota que ele considerou mais importante e interessante do que matérias de páginas inteiras que o jornal continha. E apresentaram Rodolfo e Mário os seus pontos de vista sobre o fato relatado. Abriram o caderno de cultura, e leram artigos que davam notícias de adaptações, para o cinema, de obras literárias do século XX, da apresentação de uma antiga peça hindu, do lançamento de livros de escritores renomados, e de música popular, música clássica, balé e dança. Interrompeu-lhes a leitura e a conversa Daniele, que lhes desejou um bom-dia, beijou o sogro, na face direita, e, nos lábios, o marido, e ofereceu-lhes a refeição, disse-lhes que a iria buscar, e retirou-se da biblioteca. E Mário e Rodolfo deram sequência à leitura do jornal, interrompendo-a, a curtos intervalos, para tecer alguns comentários. Rodolfo abriu o caderno de esportes, enquanto Mário lia o de economia, e leu, desalentado, sobre mais uma derrota do Atlético Mineiro, a sétima derrota consecutiva.

Daniele levou-lhes, em uma bandeja, a refeição: pães, café e biscoitos; e informou-lhes que já preparava o jantar. Mário e Rodolfo agradeceram, e ela retirou-se da biblioteca. Pouco tempo depois, Marcos Antonio e Aloísio na biblioteca entraram, Aloísio carregando, ao colo, seu sobrinho, que ria gostosamente. Saudaram-se. Mário pediu Lucas a Aloísio, que lho cedeu, e brincaram avô e neto. Rodolfo e seus netos conversaram. Marcos Antonio sentou-se ao braço direito do banco estofado ocupado pelo seu pai, pegou o jornal então sobre as pernas dele, e passou a folheá-lo em busca de alguma notícia que o interessasse. Aloísio permaneceu em pé, os braços cruzados ao peito, acompanhando, com os olhos, seu pai e seu sobrinho a se divertirem, ao mesmo tempo que falava com seu avô.

Não muito tempo depois, a biblioteca encheu-se de gente, que nela entrava e saía, incessantemente, e mexia nas revistas e nos livros com irrestrita liberdade, e falava sem cessar. A biblioteca, ampliada no ano anterior, três vezes maior do que a construída originalmente, tinha trezentos e cinquenta e seis metros quadrados. Além de livros, revistas e jornais, nela havia, no centro, uma mesa com oito metros de comprimento por um metro e meio de largura sobre a qual havia um globo terrestre, um microscópio, um telescópio e centenas de folhas rascunhadas sob um bloco de metal de um quilo. Em um canto da biblioteca havia um sarcófago egípcio (uma prateleira em cujo interior Mário guardava documentos preciosos; e ninguém, além dele, o abria); em outro canto, havia um esqueleto humano com o qual divertiam-se as crianças tocando-o no maxilar, mexendo-o, e assustando-se; as mais ousadas, pegavam-lo pelas mãos.

Na manhã seguinte, os familiares despediram-se, com votos de felicidade, de Mário, Daniele, Glória e Edson, e rumaram Rodolfo e Valquíria à África do Sul, e os outros regressaram cada qual à cidade em que moravam.

VI

Publicado o seu livro, o nome Mário Antunes Siqueira Neves Ferreira correu, uma vez mais, os quatro cantos do mundo. O livro obteve sucesso estrondoso em todos os países em que foi publicado; a respeito dele escreveram-se artigos encomiásticos. Laurearam Mário dezenas de academias literárias e institutos científicos. Mário Antunes Siqueira Neves Ferreira foi objeto de controvérsias em numerosos círculos científicos, literários, artísticos e culturais. As idéias dele estimularam debates, influenciaram o pensamento de intelectuais, pintores, músicos, cineastas, poetas e romancistas. Foi Mário, na opinião de inúmeros críticos literários, o fundador de uma nova escola literária. Muitos cientistas, críticos literários e escritores escreveram resenhas, publicadas em periódicos universitários, nas quais depreciavam o livro dele, atribuindo ao autor carência de faculdades literárias; o estilo dele era-lhes desprovido de arte; os livros dele eram, para alguns, trabalhos intelectuais medíocres de um homem que almejava, sorrateiramente, com as questões neles expostas, solapar a tradição cultural do Brasil. Nas entrelinhas de tais resenhas os leitores atentos liam despeito e inveja. O sucesso de Mário era incômodo para muita gente, afinal, nenhum livro dos escritores profissionais alcançou sucesso tão retumbante, tampouco um livro deles foi aclamado pela crítica independente e acolhido pelos leitores. Nos seis meses que se seguiram à publicação do livro de Mário, mais de cem livros, todos plágios do livro dele, foram expostos, nas prateleira das livrarias, em mais de vinte países. Mário enviou um exemplar de cada um de seus dois livros, autografado e com dedicatória, aos seus pais.

VII

Transcorreram-se os anos. Rodolfo faleceu, em uma tragédia ferroviária, um mês depois de completar o nonagésimo primeiro aniversário natalício. Valquíria viveria mais quatro anos. Samantha faleceu, no ano seguinte ao da morte de Valquíria, em uma cama de hospital, de câncer, doze dias antes de completar o centésimo aniversário. E Alceu não lhe sobreviveu muitos dias. Seis meses depois, faleceu Aloísio, em um acidente de carro. E foi nesse ano que Mário, andando pelo jardim A…, na cidade de B…, da megalópole P…, no Paraguai, enquanto conversava com um amigo, viu, ao se virar para o lado, “ele”, na calçada, no outro lado da rua.

Mário viu que “ele” estava envelhecido, e era idêntico a ele, Mário. Mário jamais conheceu irmãos gêmeos que, envelhecidos, tornaram-se velhos idênticos. A natureza, pensava, zombava dele, ria-se dele. “Ele” era um homem idêntico a ele, Mário. Idênticos os penteados, os gestos e os modos de andar de Mário e os de “ele”. Mário se perguntou se delirava, se “ele” envelhecido era “ele”, aquele homem que ele viu quarenta anos antes. Mário, que sabia para qual direção o seu amigo seguiria, disse-lhe que se lembrara de um compromisso, e teria de seguir outro rumo, e o seu amigo, desculpando-se, disse-lhe que não poderia acompanhá-lo. Era o que Mário dele desejava ouvir. Despediram-se. E Mário atravessou a rua, para ir atrás de “ele”. Afobado, acelerou os passos. Desejava alcançar “ele”. Corria, desajeitado, para alcançar “ele”, chamando a atenção de muita gente. Esbarrou em algumas pessoas, tropeçou em saliências das calçadas; andava, quase correndo, com velocidade superior à de “ele”; não o alcançava, todavia; aliás, dele ou mantinha a mesma distância, ou se afastava.

Perguntava-se se delirava. Sensação estranha, indefinível, rasgou-lhe o corpo. Suava sob o sol inclemente daquele dia tórrido. Mário enterrar-se-ia na demência? Por que, após quatro décadas, surgiu-lhe aos olhos aquele homem, que lhe havia inspirado numerosas dúvidas quanto à sua origem e transtornou-lhe o espírito? Mário, ora corria, ora andava a passos apressados, os olhos fixos em “ele”, sempre. O que devia pensar a respeito de si e de “ele”? Se tivesse indagado aos seus pais a respeito da sua origem… Mário não sabia se se arrependia, ou não.

Seguiu os passos de “ele”. Quando “ele” abeirou-se do meio-fio, e preparou-se para atravessar a rua, ouviu-se uma explosão, e ergueu-se, no céu, um cilindro de fumaça. E seguiu-se segunda explosão, mais forte do que a primeira. Um cogumelo vermelho, gigantesco, ergueu-se, e cresceu. E seguiu-se imensa labareda. Corriam, e atropelavam-se, milhares de pessoas, todas aterrorizadas. Encobriu o céu espessa nuvem de fumaça. Soavam sirenes de ambulâncias e de viaturas policiais. Afastavam-se do local da explosão pessoas, todas assustadas, cobertas de poeira, fuligem, e arranhões. Desencontradas as histórias que contavam. Onde Mário estava, mais de cinco quilômetros de distância do local das explosões, caíam pedaços de metal fundido e retorcido. As pessoas corriam para se proteger. Robôs encarregados da segurança pública pediam-lhes que se abrigassem em algum prédio, e àquelas que estavam em algum carro, que o abandonassem imediatamente e procurassem abrigo. Um bloco metálico flamejante, imenso, caiu sobre um carro, reduzindo-o a pó, matando as duas pessoas, um homem e uma mulher, que estavam no seu interior. Generalizou-se o pânico. Pessoas corriam, assustadas, apavoradas, em busca de refúgio.

Mário fitava “ele”; “ele”, parado, a olhar, ora para o céu, a verificar se nenhum destroço poderia cair-lhe na cabeça, ora para a direção das explosões. Mário queria aproximar-se de “ele”, mas a multidão, turbulenta, impedia-o de fazê-lo. Presenciara a pulverização do veículo em cujo interior havia duas pessoas, a poucos metros de si.

O calor recrudescia. Atingiam Mário ondas de ar quente. O solo tremia, e ouvia-se explosões oriundas do subsolo. Em algumas ruas, surgiram rachaduras de até vinte centímetros de largura e centenas de metros de comprimento. Estilhaçaram-se vidros das janelas de vários prédios. Muitas pessoas machucaram-se, atingidas por cacos de vidro; um pedaço de vidro, pontiagudo, varou um ancião, outro decepou a mão esquerda de um jovem. Uma mulher, atingida por centenas de estilhaços pequenos, morreu. Mário, a presenciar cenas aterradoras, não sabia se iria até “ele”, ou se se refugiaria em algum prédio. “Ele” andou até o meio da rua, onde uma mulher grávida estava caída; e desta aproximou-se outra mulher. “Ele”, achegando-se à mulher grávida, agachou-se, e ditou-lhe palavras confortadoras. Mário encontrou, enfim, acreditava, a oportunidade para encetar conversa com “ele”. Aproximava-se de “ele”. Distava dez metros de “ele”, nove metros… Oito metros o separavam de “ele”. Sete metros… Seis metros… Cinco metros… Muitas pessoas corriam, apavoradas. Muitas delas esbarravam em Mário. Olhos arregalados, suando frio naquele calor causticante, o coração a explodir, Mário aproximava-se de “ele”. Separavam-no de “ele” quatro metros. Três metros… Dois metros o separavam de “ele”… Um metro. Mário ouviu a voz de “ele”, idêntica à sua, Mário, quando “ele” dizia à gestante (que, deitada no asfalto, gritava de dor) que “ele” era médico e a ajudaria. Mário estacou. Volveu os olhos à gestante, à outra mulher que a atendia e a “ele”, que, agachado, acariciava a gestante no rosto deformado pela dor. Mário pensou na gestante aos cuidados de “ele”. Se Mário se pronunciasse, se se revelasse a “ele”, como “ele” agiria? “Ele” deixaria de atender à gestante? E as outras pessoas que se feriram? “Ele” era médico; desviar a atenção de “ele” para outras questões roubar-lhe-ia tempo, tempo que “ele” poderia ocupar socorrendo outras pessoas feridas. Intoxicavam-se as pessoas. Mário, petrificado, indeciso, poucos centímetros às costas de “ele”, poderia tocá-lo, nos ombros, que “ele”, supunha Mário, virar-se-ia, imediatamente, e tomaria conhecimento da sua, de Mário, existência. Mas, e depois? “Ele” socorreria outras vítimas da catástrofe? Mário chegou perto de se olhar para si mesmo – para “ele”. Estava paralisado, diante de si mesmo. Seu cérebro turbilhonava. Bastava um gesto… Entretanto, ele não o executou; não executou o gesto que o colocaria diante de si mesmo. Nos arredores, sirenes clamavam, anunciando-se. Aproximavam-se as ambulâncias. A mulher que auxiliava “ele” a ajudar a mulher grávida virou a cabeça para todos os lados, fitou Mário, e nele deteve os olhos, surpresa, e pediu-lhe que acenasse para uma ambulância. A gestante estava preste a dar à luz. Mário, que parecia em estado de letargia, despertou. A mulher disse que a gestante daria à luz uma criança. Mário, a cabeça latejando, afastou-se, de costas, pé ante pé, os olhos fixos em “ele”, e virou-se sobre os calcanhares, e correu até uma ambulância. Encostou a mão em um enfermeiro, que ajeitava um curativo na testa de um menino de três anos, que chorava ao colo arfante de sua mãe, e apontou para “ele”, à mulher que auxiliava “ele” e à gestante, e explicou-lhe o que ocorria. O enfermeiro, concluído o curativo, correu, célere, a atender à gestante, e chamou outros dois enfermeiros, que se prontificaram a auxiliá-lo. Um deles, dirigiu a ambulância até o local em que estava a gestante. Mário ficou a acompanhar “ele” ajudando os enfermeiros a pôr a gestante sobre a maca, e a maca na ambulância. A ambulância estrilou, e disparou. “Ele” e a mulher foram socorrer um idoso caído ao meio-fio, a perna esquerda imobilizada. Entendeu Mário, vendo “ele” socorrer outras pessoas, que a sua intervenção o atrapalharia e o impediria de atendê-las. Decidiu, então, de “ele” afastar-se antes que “ele” o visse. De “ele” afastou-se, cabisbaixo, e foi socorrer duas meninas – uma delas com um filete de sangue a escorrer-lhe pela têmpora esquerda, tendo, empapados, no alto da cabeça, os cabelos -, ambas apavoradas, paralisadas, encolhidas atrás de um carro azul. Ambas choravam convulsivamente. Muita gente corria, apavorada. Duas pessoas esbarraram em Mário, quase o arremessando ao chão. Ele se escorou em um carro, na primeira vez, e em um poste, na segunda. Uma tempestade de estilhaços caía nos arredores. Mário tirou as duas meninas de onde estavam, protegendo-as com o seu corpo, e deu início à corrida até o prédio mais próximo. Deu quatro passos. Atingiu-o, nas costas, na altura das omoplatas, um pedaço de metal incandescente. Contraiu o rosto, deformando-o, e proferiu um grito hediondo, abafado por gritos alucinados, buzinas frenéticas e estrondos ensurdecedores. As duas meninas sob a sua proteção ouviram dele o grito e os gemidos que se seguiram, e sentiram o pesado corpo dele. Mário reteve-as consigo. Um homem magro, de estatura mediana, esbaforido, procurando um refúgio para si, chocou-se, violentamente, com Mário, que foi para o chão e no chão ficou estirado de bruços, contorcendo-se e gritando de dor. O homem que o derrubara praguejou, disparou-lhe obscenidades, nele pisou, e correu. As duas meninas, imóveis, berravam, apavoradas. Um homem empurrou a que estava machucada na cabeça. Dois policiais socorreram Mário e as duas meninas. Um deles, forte, de rosto retangular, sua mão esquerda manchada de sangue, sangue de uma mulher que ele acudira poucos minutos antes, pegou Mário nos braços, enquanto o outro, também forte, pegou as duas meninas e carregou-as até o prédio mais próximo, o mesmo para o qual o outro policial carregara Mário. Minutos depois, uma ambulância levou Mário e as duas meninas para um hospital.

Mário acordou quatro horas após ter chegado, inconsciente, ao hospital. Dois representantes da Academia de T… (um deles, paraguaio, curtido de sol, descendente dos índios a…; o outro, paquistanês), daquela cidade, visitaram Mário. Alegraram-se ao vê-lo sentado, levando à boca um copo com água. E os três conversaram durante alguns minutos a respeito das explosões sucedidas no centro da cidade.

No hospital, Mário, quatro dias após a tragédia que quase lhe ceifara a vida, recebeu a visita da esposa e dos filhos. Eles, ansiosos, apreensivos, esperavam, horrorizados, deparar com Mário mutilado e irreconhecível. Que alegria ao vê-lo! Abraçaram-no, e choraram.

Transcorridos dois dias, regressaram ao Brasil Mário, sua esposa e seus filhos.

Dias depois, Mário e Daniele, na biblioteca da casa deles, conversaram a respeito do que ocorreu no dia da tragédia, antes das explosões. Ele reconstituiu o que viveu quatro décadas antes, após encontrar “ele” pela primeira vez. Amargas, tais lembranças. Mário e Daniele desejavam esquecê-las; não podiam, todavia.

Mário chorou. E Daniele ofereceu-lhe o ombro.

Transcorreram-se os anos. Mário e Daniele chegaram aos cem anos de idade. Durante as três décadas após o sucedido no Paraguai, partilharam os seus segredos, principalmente os que diziam respeito a Mário; aliás, não era um segredo, era um mistério. Setenta e dois anos os separavam do dia em que Mário viu “ele” pela primeira vez. E Daniele faleceu uma semana antes de completar o seu centésimo primeiro aniversário natalício. E Mário viveu até a idade de cento e vinte anos, cansado, triste, amargurado nos derradeiros anos da sua vida.

Em um futuro não muito distante – parte 7 de 8

Enquanto Rodolfo e Valquíria assistiam ao filme, no quarto contíguo Mário e Daniele conversavam; ele, cabisbaixo, dizia que não sabia o que pensar do que ouvira nas horas anteriores, se desconfiava de seus pais, se acreditava neles. Daniele expôs as suas opiniões. Para ela, Rodolfo e Valquíria não clonaram Mário; dele, portanto, não escondiam um segredo; conhecia-os muito bem. Mário, ríspido, disse que os conhecia melhor do que ela os conhecia, e não acreditava neles. Ouvindo-o, querendo compreendê-lo, ela atribuía as desconfianças dele à angústia que dele se apoderara; sem expressar os seus pensamentos, limitando-se a ouvi-lo desabafar, previu que ele, ao recuperar o domínio de si, não mais desconfiaria de Rodolfo e de Valquíria. Mário, confuso, abanava a cabeça, o cérebro tumultuado, dúvidas a atassalharem-lhe a alma. Não conseguiria viver com elas, disse; desejava purificar seu coração, acreditar em seus pais.

Mário não conseguiu conciliar o sono. Daniele, livre das elucubrações que perturbavam o seu marido, deitou-se, e dormiu, enquanto ele virava-se de um lado para o outro, pensava e repensava as mesmas questões e reconstituía as palavras e os gestos de seus pais. Mário ouvira o que eles haviam dito ou o que ele pensara ter-lhes ouvido? Ele não sabia no que acreditava. Temeu que alucinações se lhe apossassem da mente, mergulhando-o na demência; não divisava a perspectiva contrária aos seus temores. Sobrevindo-lhe, enfim, o sono, cerrou as pálpebras, e dormiu. Acordou, de manhã, virou-se, estendeu os braços, tateou a cama, à procura de Daniele – o lugar em que ela se deitara estava desocupado -, espreguiçou-se, bocejou, e acendeu as lâmpadas. Vestiu-se com roupas adequadas. E abriu a janela; e apagaram-se as lâmpadas. Calçou chinelos macios, e saiu do quarto, esfregando os olhos com os nós dos dedos. Chamou-lhe a atenção o silêncio reinante na casa. Olhou para o relógio, que marcava doze horas e dezessete minutos, à parede da sala. Dormira mais de oito horas. O seu estado de espírito não foi inteiramente renovado pelo sono. Desceu a escadaria, intrigado com o silêncio reinante, e na cozinha encontrou Daniele dando ordens para o robô-cozinheiro. Ao vê-lo, ela abriu um largo sorriso. E o robô saudou Mário, que retribuiu à saudação.

Mário beijou Daniele nos lábios. Exprimiu a sua surpresa com o silêncio reinante, e perguntou-lhe dos pais e dos filhos. Ela disse-lhe que eles haviam saído, para um passeio, antes das nove horas; iriam ao parque, ao museu e ao zoológico.

Mário e Daniele almoçaram e conversaram. A conversa foi regida pela prudência dela, que, antes de formular uma pergunta ou apresentar um comentário, pensava qual seria a reação dele. Cuidadosa, selecionou as perguntas que lhe faria e as palavras que empregaria. Ele deu respostas sucintas a várias perguntas, recusou-se a responder-lhe algumas, não comentou alguns comentários dela, e replicou-lhe, duas vezes, com rispidez. Ao reconhecer a sua atitude desrespeitosa e a indiferença e frieza com que lhe respondia à alguma pergunta e reagia a algum comentário, pedia-lhe desculpas, olhava para ela, penetrando-lhe nos olhos seus olhos, e, num tom de voz quase ausente, suplicava-lhe que não o julgasse mal, pois atormentavam-lo dúvidas excruciantes.

Após o almoço, Daniele foi ao consultório. E Mário, na biblioteca, escreveu as primeiras palavras do livro que só traria à luz dezenove anos depois, e, na seqüência, um artigo científico que apresentava o resultado das suas observações e das pesquisas que havia realizado semanas antes, e para uma revista popular de grande circulação, um artigo tratando das mais recentes descobertas da neurologia e do aprimoramento de robôs que carregam, alojados no cérebro artificial, uma parcela da inteligência humana, e, para uma publicação juvenil de periodicidade quinzenal, um artigo no qual expôs os princípios básicos da neurologia. Para que os leitores deste artigo assimilassem as idéias nele trabalhadas, traduziu o vocabulário científico, com o qual estava habituado, para uma linguagem acessível aos leigos. Foi este o primeiro artigo que escreveu para uma revista juvenil; inexperiente, deparou-se com obstáculos quase intransponíveis. A pensar nos verbos, advérbios, adjetivos e substantivos que empregaria na redação do artigo, manejou, com dificuldade, a caneta esferográfica, fincado o cotovelo na mesa, e a mão a cofiar uma barba imaginária e a alisar o queixo. Escrevia uma palavra, riscava-a, escrevia outra palavra, e riscava-a. Após incontáveis tentativas frustradas, obteve o resultado desejado. Sentia-se exausto, encerrada a redação do artigo. Espreguiçou-se. Levantou-se. Ligou a tela, e acessou o endereço da Academia. Conversou, durante três horas, com dois cientistas – um chinês, cuja barba, venerável como as dos antigos sábios, estendia-se por longos quarenta centímetros e terminava em ponta, amarrada com um barbante, e um brasileiro -, a respeito de um projeto em que se empenhava. E o chinês tratou da necessidade de aquisição de novos equipamentos, alguns importados, outros nacionais, para evitar o adiamento da conclusão do projeto, o que oneraria as pesquisas, podendo vir a inviabilizá-las, e o brasileiro falou dos mais recentes decretos governamentais, que restringiam as pesquisas científicas, e dos desdobramentos da robótica, da informática, da medicina, da astronáutica. Eram imprevisíveis, concordaram os três cientistas, as ressonâncias, nas ciências, dos desmandos políticos de governos retrógrados e de ministros chauvinistas, que, no Brasil e em muitos outros países, patrocinavam, nas políticas do Estado, mudanças bruscas, imprevisíveis e drásticas.

Encerrada a conversa, Mário disse-lhes que lhes enviaria os artigos que redigira, despediu-se deles, e retomou a redação do livro que só daria à luz dali dezenove anos. O robô levou-lhe uma bandeja contendo pão de milho, pão italiano, biscoito, uma laranja, quatro morangos, duas nactarinas, um pêssego, suco de laranja e suco de acerola, e retirou-se ao deixá-la, na mesa, à esquerda dele.

Tirou Mário das prateleiras duas dezenas de livros, folheou-os, febrilmente, e pô-los, abertos, uns por sobre os outros, em cima da escrivaninha. Ora tirava o livro que colocara embaixo de todos os outros, para consultá-lo, ora fechava um livro, para abri-lo, depois, noutra página, ou na mesma página. Em alguns momentos, agitava-se; noutros, recostava-se ao espaldar da cadeira, cruzava as pernas, a esquerda por sobre a direita, desleixadamente, e lia o texto rascunhado no papel, e corrigia-o, ou suprimindo, ou adicionando, palavras, frases, parágrafos, substituindo um verbo por outro verbo, um substantivo por outro substantivo, um advérbio por outro advérbio, um adjetivo por outro adjetivo, até chegar ao texto definitivo, acessível ao público leitor ao qual o destinava.

Principiava a noite. Daniele chegou, trazendo sacolas, e caixas, que continham lembranças para os sogros. Ao estacionar, na varanda, o carro, perguntou de Mário para si mesma. Não o encontrando na sala, deduziu que ele estava na biblioteca. A montanha de livros que viu, na mesa, na biblioteca, não a surpreendeu. Saudou Mário, beijou-lhe os lábios, e arrebatou-lhe das mãos as folhas de sulfite e a caneta esferográfica, sentou-se-lhe sobre as pernas, passou-lhe o braço direito pelo pescoço, cruzou os dedos da mão direita com os da mão esquerda ao ombro direito dele, beijou-lhe os lábios, e perguntou-lhe o que ele fez durante o dia. Ele enlaçou-a pela cintura, pediu-lhe outro beijo, e ela atendeu-lhe ao pedido. Disse-lhe que conversara com cientistas da Academia, pela tela, sobre os projetos aos quais dedicava-se, redigira artigos para dois periódicos populares, um, juvenil, o outro, de divulgação científica, e escrevera o rascunho de um livro. Repreendendo-o ternamente, ela lhe disse que ele precisava descansar, e parafraseou um poeta popular. Riram. Mário acolheu a exortação. Daniele beijou-o, levantou-se, segurou-lhe as mãos, e puxou-o, para tirá-lo da biblioteca, que, disse, estava cheia de velharias e repleta de traças, que se banqueteavam com as velharias que lá se amontoavam: milhares de cartapácios, opúsculos e alfarrábios do tempo dos bisavós e palimpsestos de eras antediluvianas. Foram à cozinha. Enquanto Daniele preparava a refeição, Mário falava do que pensara a respeito dos acontecimentos recentes e da conversa, na véspera, com seus pais.

Marcos Antonio e Aloísio, ambos animados, retornaram, com seus avós, do passeio, abraçaram seus pais, e, sem tomar fôlego, puseram-se a falar-lhes, esbaforidos. Mário pediu-lhes calma e disse-lhes que eles se banhassem enquanto a mãe deles preparar-lhes-ia o jantar. E eles saíram, correndo, da cozinha, rumo ao banheiro. Enquanto eles se banhavam, Rodolfo e Valquíria, ambos transparecendo fadiga, saudaram o filho e a nora, e narraram-lhes alguns dos incidentes, que lhes puseram os cabelos em pé e arrepiaram-lhes os pêlos do corpo. Marcos Antonio e Aloísio driblaram a vigilância dos avós, contou Rodolfo, divertido com a reconstituição das estripulias dos netos. Valquíria pediu licença, retirou-se da cozinha, e foi ao carro em cujo banco traseiro esquecera os doces, e regressou, pouco tempo depois, com um pacote nas mãos, do qual tirou três potes e os pôs na geladeira: eram, um, de marmelada, que Mário apreciava desde a mais tenra infância; um, de pé-de-moleque, para os netos e Daniele; um, de quebra-queixo, guloseima que Mário há muito tempo não saboreava. Mário avançou, de imediato, ao quebra-queixo, e pediu a lata de marmelada. Daniele entregou-lhe uma faca; ele tirou-lha das mãos, abriu o pote de marmelada, e cortou da marmelada um pedaço, levou-o à boca, e saboreou-o. Em seguida, quebrou o queixo. Satisfeito, guardou os doces restantes na geladeira, e agradeceu à mãe e ao pai por lembrarem-se de lhe comprarem aquelas delícias, néctar dos deuses.

Não muito tempo depois, Marcos Antonio e Aloísio regressaram à cozinha. E Daniele pediu-lhes que fossem à copa. Eles a obedeceram. Mário e Rodolfo os acompanharam. E Daniele e Valquíria, na cozinha, prepararam a refeição. Rodolfo pediu para seus netos mostrarem ao pai deles os bonecos que ele, Rodolfo, comprara-lhes – deixara-os, numa caixa, na sala, disse-lhes. Os meninos correram até a sala, retiraram das caixas os bonecos, e regressaram à copa. Eram bonecos eletrônicos comandados pela voz humana; tinham vinte centímetros de altura; humanóides, eram constituídos de dezenas de poliedros dúcteis revestidos com borracha sintética, que se assemelhava à pele humana, corpo de musculatura bem definida, tórax amplo, ombros largos, pescoço grosso, cabelos curtos e lisos, nariz empinado. O de Marcos Antonio trajava tênis esportivo, short e camisa azuis; o de Aloísio, amarelos. Mário pegou o de Marcos Antonio, e apalpou-o. Os cabelos do boneco, notou, eram verdadeiros. Marcos Antonio pediu para seu pai colocar o boneco sobre a mesa. Assim que ele atendeu-lhe ao pedido, falou ao controle remoto, e o boneco descerrou as pálpebras, e proferiu uma frase, expressando a sua incondicional obediência às ordens do amo, como o gênio da lâmpada de uma antiga história. Mário aproximou-se do boneco, para olhar-lhe nos olhos; e Marcos Antonio aplicou em seu pai uma peça: deu uma ordem ao boneco: que ele desse uma pirueta. Mário recuou a cabeça, surpreso – o boneco quase acertou-lhe o nariz. Riram todos. Aloísio acionou o seu boneco, deu-lhe algumas ordens, e ele executou piruetas e malabarismos. Os dois garotos exigiam a atenção do pai e do avô para os malabarismos que executavam com os bonecos, que pulavam sobre a mesa, corriam por sobre ela, pulavam no chão, escalavam a prateleira, a cadeira, a mesa, e, intensificada a rivalidade entre Marcos Antonio e Aloísio, batiam-se, ferozmente, engalfinhados. Mário, uma vez, repreendeu seus filhos; pediu-lhes que cessassem a luta entre os bonecos antes que alguém se machucasse. Tal comentário produziu uma onda de gargalhadas. Valquíria, chegando à copa, fitou-os, intrigada, e perguntou o que ocorria de tão engraçado. Marcos Antonio disse-lhe o que se passara, e ela abanou a cabeça, rindo, numa alternância de olhares, dirigindo-os ora ao marido, ora ao filho, ora aos netos, e regressou à cozinha, rindo. Marcos Antonio desafiou Aloísio para uma corrida de bonecos, e ele aceitou o desafio. Sugeriu que os dois fizessem os bonecos escalarem a prateleira, correrem até o final do corredor, regressarem, escalarem a cadeira, e subirem na mesa. Mário pediu-lhes que fossem cuidadosos. Os dois garotos emparelharam os dois bonecos. Marcos Antonio fez a contagem regressiva a partir de três, e, ao gritar “Já!” os bonecos puseram-se a correr. E o seu assumiu a dianteira; e Aloísio esperneou. Mário interveio na discussão entre seus filhos, declarou que faria ele, Mário, a contagem regressiva e diria o “Já!” da partida, e não Marcos Antonio. E emparelharam os garotos os bonecos. O de Aloísio, segundo Marcos Antonio, estava um pouco à frente do seu. Mário verificou a disposição dos bonecos, e viu o de Aloísio um milímetro, talvez um pouco mais de um décimo de milímetro, à frente do de Marcos Antonio. Rodolfo sorria.

Daniele arrumou a mesa e, vendo os filhos discutindo, o marido esforçando-se para acalmá-los, e o sogro rindo, riu também.

Arrefecidos os ânimos de seus filhos, Mário fez a contagem regressiva a partir de cinco; ao gritar “Já!”, os bonecos, respondendo, cada um deles, ao comando de uma voz, um, à de Aloísio, o outro, à de Marcos Antonio, deram início à corrida, saltaram à prateleira, percorreram-na ao largo, desceram pelo outro lado, com um salto, e, ao caírem no chão, encolheram-se, dobrados os joelhos, e mãos no chão, e puseram-se de pé. O boneco de Aloísio ia uma cabeça à frente do de Marcos Antonio. Marcos Antonio mordia ora o lábio inferior, ora o superior, ora punha a língua para fora e a mordia. Os bonecos chegaram ao final do corredor, o de Aloísio à frente do de Marcos Antonio. Executaram, rapidamente, o giro sobre o próprio corpo, dando meia volta, e correram, em sentido contrário, pelo corredor, atravessaram-no, e chegaram à copa, emparelhados, saltaram à cadeira vazia, e da cadeira à mesa, lado a lado. Encerrada a corrida, principiaram os dois garotos uma discussão para decidir qual boneco a ganhara. Marcos Antonio afirmava que fôra o seu. Aloísio refutava-o. Nenhum dos garotos admitiu a derrota. Desta vez, Mário e Rodolfo uniram forças para apaziguar os ânimos dos garotos. Disseram que os bonecos empataram. Os garotos não admitiram o empate. Marcos Antonio ameaçou quebrar o nariz do boneco de seu irmão. Rodolfo continha o riso. Caricatural, a escaramuça de seus netos. E Mário, enfim, conseguiu acalmar os ânimos de seus filhos.

Servida a refeição, confraternizando-se, os comensais encetaram conversas, ora sobre assuntos que todos, inclusive Marcos Antonio e Aloísio, podiam opinar, e ora dividiam-se em conversas paralelas: Daniele falando com Valquíria, Rodolfo com Mário, e Aloísio com Marcos Antonio. Uma variedade de assuntos foram postos na mesa. Marcos Antonio falou de desenhos animados; Aloísio, de carrinhos de rolimã; Mário, dos critérios definidos, pelo governo federal, para investimentos em ciência e tecnologia, que, no seu entendimento e no de outros cientistas da Academia, seriam prejudicados; e Rodolfo, a par da questão, expôs as suas opiniões a respeito; e Valquíria declarou que uma academia nigeriana e uma academia queniana contrataram ela e Rodolfo, e registrou, sublinhando a notícia, para regozijo de seu filho e de sua nora, que fariam, ela, Valquíria, e Rodolfo, parte do conselho deliberativo das duas instituições. Na sequência, trataram da miséria e das doenças que assolavam os países africanos, os países asiáticos e os mais pobres países americanos, arrasados por intempéries naturais e catástrofes políticas.

E Rodolfo contou anedotas, que fizeram a alegria de Marcos Antonio e Aloísio.

Tarde da noite, encerrado o jantar, todos dormiram.

Nos dias seguintes, Rodolfo e Valquíria passearam com os netos e visitaram Alceu e Samantha. Reviveram a infância, a juventude. Reconstituíram o casamento de seus filhos. Falaram de inúmeras coisas da vida, pequenas e agradáveis.

Rodolfo e Valquíria encontraram-se, durante aqueles dias, com Paulo, Catarina e Pâmela. Visitaram amigos, um deles, o professor Gustavo Augusto da Silva, e outro, Mário, em cuja casa evocaram, durante um dia, as reviravoltas com as quais a vida surpreendeu-os, lembranças tristes e lembranças agradáveis. Ao despedirem-se, renovaram os votos de amizade.

Enfim, chegou o dia da despedida de Rodolfo e Valquíria.

No aeroporto, ocorreu um incidente constrangedor: um homem de vinte e poucos anos aproximou-se de Rodolfo, ofendeu-o, contra ele arremessou um ovo, atingindo-o, entre os olhos, na base do nariz; as pessoas próximas deles, estupefatas, olhavam, assustadas, umas, intrigadas, outras, para o agressor e para Rodolfo; os seguranças do aeroporto agiram imediatamente; o agressor cuspiu ofensas, agressivo, desvairado e doentio; Daniele atraiu para si Marcos Antonio e Aloísio, que acompanhavam, confusos e assustados, o que se passava; dois policiais, um deles de dois metros de altura, o outro de estatura mediana, imobilizaram o agressor de Rodolfo, e deste o afastaram. Muitas pessoas assistiram ao incidente, abanaram a cabeça, repudiaram a atitude despudorada, obscena e irracional do homem ensandecido. Policiais dispersaram a multidão que se ajuntara nos arredores. Um deles pediu aos outros, em tom baixo, atenção redobrada, e disse-lhes que conhecia o homem agredido e que a investida fôra, acreditava, premeditada, e envolvia, desconfiava, outras pessoas, todas preparadas para arremeterem-se contra Rodolfo.

Rodolfo limpou o rosto com o lenço que lhe entregara uma policial. Outros policiais aproximaram-se, e perguntaram acerca do incidente.

Aloísio e Marcos Antonio foram até o avô, e o abraçaram.

Despediram-se Rodolfo e Valquíria de seu filho, de sua nora e de seus netos.

Lágrimas escorreram aos olhos de todos eles.

Rodolfo e Valquíria, o coração confrangido, davam alguns passos, voltavam-se, e acenavam para os que deles despediam-se. Voltaram-se quando começavam a subir os degraus da escadaria que levava ao avião, e agitaram os braços. Acenaram para eles o filho, a nora, os netos, e familiares e amigos.

No carro, rumando para casa, Mário soltou um longo suspiro, pensando na felicidade de seus pais e no dilema que enfrentou nos dias anteriores. Decidiu que iria compartilhar, dias depois, com Daniele, os seus pensamentos a respeito das dúvidas que tanto o atormentavam.

Silenciosa, a viagem de regresso para casa. Mário e Daniele não se surpreenderam com o silêncio dos filhos. Na casa, os garotos expressaram, com franqueza, a saudade que já sentiam de seus avós.

IV

Onze anos após o nascimento de Aloísio, Daniele presenteou o mundo com uma menina, Glória.

Mário, Daniele, Marcos Antonio, Aloísio e Glória viajaram pelo Brasil e por outros países.

Conquanto a felicidade habitasse-lhe o coração, Mário mergulhava, de tempos em tempos, em suas cismas; e incomodavam-lo sobremaneira as dúvidas acerca da sua origem. Amparava-o Daniele.

Dois anos após o nascimento de Glória, Daniele deu à luz Edson, um dia antes do trigésimo oitavo aniversário de Mário.

Transcorreram-se os anos.

Marcos Antonio ingressou na marinha.

Aloísio enfrentava, aos dezoito anos, contratempos incontornáveis.

Glória, aos sete anos, pianista talentosa, apresentava-se para platéias fascinadas com o seu virtuosismo. Desde os quatro anos de idade a dedicar-se à música, acompanhava, de ouvidos, algumas das composições mais famosas da história. Seus pais, notando-lhe a facilidade com que ela as executava, compraram-lhe um piano e contrataram-lhe um professor de música. Glória assimilou as lições com facilidade espantosa. Falecido o seu professor em um acidente aéreo, seus pais contrataram-lhe uma professora de música, que a ela dedicou-se; foi esta professora a instrutora de Glória nos primeiros concertos; e ela acompanhou-lhe a carreira até o dia em que morreu de um fulminante ataque de coração. Glória tinha, então, trinta e quatro anos de idade.

Edson, aos cinco anos, irrequieto, com as suas estripulias punha a casa de pernas para o ar.

V

Aos vinte e sete anos, Marcos Antonio já havia conquistado reputação de homem de incomparável bravura. Casara-se, dois anos antes, com Fabiana. Seu primogênito e dela, Lucas, tem um ano. E ela está grávida de uma menina, que receberá o nome de Suzana.

Aloísio, aos vinte e cinco anos, solteiro, concluiu a faculdade de informática. Inconsequente, espojou-se na vadiagem. Participou de orgias regadas a narcóticos e soporíferos; envolveu-se com tráfico de entorpecentes e cometeu pequenos delitos.

Glória, aos quatorze anos, era uma pianista célebre.

Edson, aos doze, jogava basquete; era temperamental e caprichoso.

À festa de qüinquagésimo aniversário de Mário compareceram muitos amigos dele, de Daniele, da família. Marcos Antonio, acompanhado de sua esposa e de seu filho, compareceu à casa de seus pais. Aloísio foi impedido, pelos seus pais, de praticar atos escandalosos durante a festa.

Na companhia de sua esposa, e carregando seu filho, Marcos Antonio foi, em certo momento da festa, ao seu quarto, que seus pais conservavam como um santuário, e mexeu nos seus brinquedos. As duas camas estavam conservadas com lençol e colcha do tempo da juventude de Marcos Antonio e Aloísio. Os objetos trouxeram-lhe à mente lembranças da sua infância e da sua juventude. Lucas engatinhava; com o auxílio de sua mãe, andava, desajeitadamente, e mexia em todos os objetos; como um ancinho, agarrava tudo o que se achava ao alcance de suas mãos. Os brinquedos eram, uns, de tecnologia obsoleta, outros, de tecnologia rudimentar. Os bonecos-robôs, com os quais Rodolfo havia presenteado, havia mais de quinze anos, os seus netos, eram, no ano em que ele os comprou, os brinquedos de tecnologia mais avançada que havia; agora, dizia Marcos Antonio para Fabiana, eles eram geringonças dos primórdios da civilização. Fabiana, curiosa, pediu para Marcos Antonio que ele lhe mostrasse como os bonecos-robôs funcionavam. Ele não se fez de rogado; pegou o seu boneco, e pôs-se a comandá-lo. Não executava os comandos com a precisão de antes. O boneco dava piruetas, ora caía de cabeça no piso, ora de costas, ora de joelhos, ora de peito; raras as vezes em que caiu em pé, e quando isso ocorria Marcos Antonio comemorava o bem-sucedido movimento como o fazia, na sua infância e na sua juventude. Ria estrondosamente. E Lucas ria e batia palmas. Marcos Antonio mexia em outros brinquedos quando a porta do quarto foi aberta. Fabiana ouviu os leves ruídos, e para a porta voltou-se. Encontraram-se seus olhos e os de Mário, que sorriu e à porta, a mão esquerda na maçaneta, encostado ao umbral, ficou a contemplar o filho a se divertir. Marcos Antonio pressentiu alguém a observá-lo, e voltou-se para a porta; sem pensar no que fazia, intensa corrente de emoção a correr-lhe pela espinha, foi até seu pai, e abraçou-o calorosamente. Nem sequer uma palavra eles proferiram. O abraço, mais do que as palavras poderiam vir a fazê-lo, traduziu todas as emoções que se apoderaram deles. Mário, voz embargada, disse, enfim, que os procurava, a ele, Marcos Antonio, e a Fabiana, pela casa. Conservaram-se alguns minutos no quarto. Evocaram alguns episódios da infância e da juventude de Marcos Antonio e Aloísio. Mário pegou, da cama, o boneco-robô que Marcos Antonio lá deixara, exibiu-o ao filho, e perguntou-lhe se ele se lembrava do dia em que o havia ganhado dos avós, e para Fabiana disse que Marcos Antonio e Aloísio, quando não se batiam corpo-a-corpo, faziam os bonecos brigarem um com o outro.

Mário restituiu o boneco à prateleira, e pegou Lucas ao colo. Disse que aquele quarto era o santuário dos filhos. Todos os brinquedos deles estavam lá, os que eles mais apreciavam, nas prateleiras, outros, dentro dos baús. Enfim, pediu ao filho e à nora que o acompanhassem ao salão, para entoarem o Parabéns a Você.

Sobraçando o neto com o braço esquerdo, pousou a mão direita no ombro direito de sua nora. E desceram todos a escadaria. E rumaram à sala-de-estar onde estavam reunidos familiares e amigos de Mário, todos a aguardá-lo, para saudá-lo, parabenizá-lo pelo qüinquagésimo aniversário natalício. Contagiante, a alegria do aniversariante. Em meio àquela gente desejando-lhe felicidade e saúde, bem-estar, e elogiando-o pelos sucessos já obtidos, pelas conquistas já alcançadas, Mário encabulou-se, envaidecido.

Distribuíram os doces, os salgadinhos, os refrigerantes, todos os convidados a fartarem-se com a variedade de sabores de encher de água a boca.

Mário pousou para a primeira de uma série de fotos, o neto consigo, a esposa à sua direita – o braço esquerdo dela entrelaçado ao braço direito dele -, Marcos Antonio e Aloísio à esquerda, e à direita de Daniele, Glória e Edson. Na sequência, fotografaram-no, ele sorrindo, e abraçando, pelo ombro, seu pai e sua mãe, ele à sua direita, ela à sua esquerda; ele com a sua sogra; com Daniele; com os filhos; com parentes; com amigos. Fotografaram-no centenas de vezes. Todos os convidados quiseram ser fotografados ao lado dele. Foi uma tarefa exaustiva, a de posar para as fotos, e ele a executou com disposição e alegria contagiantes.

Apagaram, enfim, as lâmpadas, para que Mário cortasse o bolo. E toda a casa imergiu na escuridão.

E acendeu-se, sobre o bolo, uma vela, que bruxuleava. E entoaram o Parabéns a Você. Cessada a cantoria, Mário, em silêncio, fez o seu pedido, e assoprou a vela, apagando-a. Ovacionaram-lo, e aplaudiram-no, estrondosamente, a ponto de fazer a casa ruir sobre os próprios alicerces. Coroaram-lo os convidados de vivas e hurras.

E acenderam-se as lâmpadas.

E choveram sobre Mário catadupas de abraços, felicitações, elogios.

Mário, enfim, pôde cortar o bolo; o primeiro pedaço do bolo ele o entregou para Daniele, e dela recebeu um tímido, acanhado, beijo nos lábios. E seguiram com a festa, Mário e Daniele, e Marcos Antonio e Aloísio, e Glória e Edson a cortarem o bolo, e a distribuírem os pedaços de bolo aos convidados.

E encerrou-se a festa pouco antes do amanhecer.

Em um futuro não muito distante – parte 6 de 8

Na manhã seguinte, Catarina, a cobri-la roupas que Daniele emprestara-lhe, fez, na companhia de sua irmã, do seu cunhado e dos seus sobrinhos, a refeição matinal após cujo encerramento despediu-se deles, e prometeu, à insistência de seus sobrinhos e aos convites reiterados de sua irmã e do seu cunhado, que um dia tornaria àquela casa, e retirou-se, e foi-se embora.

Minutos depois, Mário beijou, em despedida, sua esposa e seus filhos, e rumou para a Academia. E logo em seguida, na casa Paula chegou e para Daniele deu notícias do marido, dos filhos, e das investigações policiais acerca do crime do qual sua (de Paula) família havia sido vítima. No hospital, Rodolfo restabelecia-se. Mathias, Matheus e Thiago já haviam retornado à casa. E o delegado previa que os dois bandidos fugidos os policiais os capturariam dentro de três dias. Depois de ouvi-la, Daniele encarregou-a de algumas tarefas, despediu-se dela e dos filhos, e retirou-se da casa. Paula entreteve Marcos Antonio e Aloísio. Encerradas as brincadeiras, ligou o robô, e encarregou-o de algumas tarefas. No transcurso do dia, sufocou soluços; abatida, em alguns momentos desincumbiu-se dos seus encargos arranjando-se com lentidão e embaraço.

Sucederam-se os dias.

Mário e Daniele cancelaram, antes do Natal, a viagem que fariam naquele final de ano, e visitaram Alceu e Samantha. Durante as prolongadas conversas que mantiveram com eles, evocaram a infância, a juventude, os primeiros anos de vida conjugal e as peraltices dos filhos. Daniele, Pâmela, Catarina e Paulo, disse Samantha, convertiam a casa num circo ao qual, certa vez, quase atearam fogo.

Não visitaram Rodolfo e Valquíria, que estavam em passeio ao Japão, à Índia, à Tailândia, ao Vietnã, à China e à Mongólia.

III

Decorreram-se três anos durante os quais alancearam o ânimo de Mário dúvidas que diziam respeito à sua origem. Não suprimiu ele de sua mente o dia em que tomou conhecimento de “ele”. Não sucumbiu à angústia porque tinha, agora, amparando-o, Daniele. Nas conversas com ela, à noite, durante as quais nenhuma reserva observava, e tampouco postura afetada de impermeabilidade aos sentimentos, caía, não raras vezes, em prantos. Durante esses anos, avistou, dezenas de vezes, pessoas parecidas consigo e com “ele”. Daniele defendia-o das idéias pessimistas que o atassalhavam. Os fatos sucedidos três anos antes estavam bem armazenados na memória deles; para eles, eram insuportáveis tais lembranças. Mário entreviu “ele” em duas ocasiões, no centro da cidade, e concluiu que “ele” trabalhava em alguma empresa nas proximidades. Mas em qual? O centro da cidade era composto de centenas de arranha-céus. Havia prédios de oitocentos metros de altura, nos quais viviam mais de cem mil pessoas e havia escolas, hospitais, delegacias de polícia, delegacias de ensino, fórum, igrejas, templos, órgãos das forças militares, escritórios bancários, instituições financeiras, lojas, padarias, quadras esportivas.

Mário, um dia, após conversa com Daniele, conservou-se nas redondezas do prédio no qual, desconfiava, “ele” residia ou trabalhava, e andou pelo seu interior como um visitante qualquer. Não conseguiu encontrar ”ele”. Amaldiçoava-se, e ao destino, que para ele era um comediante sarcástico e cruel, que não lhe dava o privilégio de contatar “ele” e com ele entabular conversa.

Mário admirava sua esposa. Ela era uma entidade celestial, que ralhava com ele e governava a casa. Ele vivia para a ciência, e as suas ações traduziam-se na vontade de se refugiar em uma atividade que lhe amenizasse o sofrimento. Daniele dispensava-lhe ternura; se se abstivesse de ouvi-lo, de falar-lhe, de se ocupar dele; se o ignorasse, ou não lhe concedesse a atenção que ele requeria, ele se desligaria do mundo, e se tornaria um tormento para si mesmo, para a esposa e para os filhos.

Marcos Antonio manifestava inteligência vigorosa e era bem-sucedido nos estudos. Estudava, com regularidade metódica, a ciência matemática, não se limitando à do seu tempo; assimilava-lhe os fundamentos ao recuar à sua origem filosófica, e remexia, na biblioteca da sua casa, nos livros que seus pais compravam, livros que tratavam das teorias filosóficas dos primórdios da civilização. O seu apreço pela solidão das bibliotecas, pela sua frieza, fê-lo alvo de chacotas, e de elogios, que o enchiam de júbilo. Apreciava os exercícios intelectuais, e não negligenciava os exercícios físicos – apreciava natação e vôlei.

Aloísio era um aluno mediano. Não se destacava na escola e em nada do que fazia; nenhuma aptidão especial manifestou; o seu amadurecimento foi lento; era indeciso, medroso, subserviente, desprovido de vontade própria, e objeto de mofa de meninos e meninas.

Mário vivia sob o jugo das dúvidas que o acossavam desde o dia em que “ele” se lhe esbarrou ao braço. Durante os anos transcorridos não teve ocasião de conversar com seus pais. Ficava à expectativa da primeira oportunidade de conversar com eles, mas ela nunca se lhe ofereceu. Sobrecarregados de estudos, pesquisas e projetos, requisitados para presidirem palestras e conferências e ministrarem aulas em academias, eles viajavam pelos sete mares, pelos quatro continentes.

Dedicou-se à sua nova paixão: a astronomia. Nutria, desde a infância, paixão latente por ela; todavia, jamais havia se aprofundado nos estudos de tal ciência. Apreciava, diletante, a leitura de artigos sobre astronomia publicados em jornais e revistas. Sempre que, ao folhear uma revista, deparava-se com uma reportagem que tratava de astronomia, lia-a atentamente. Decidiu, um dia, ao ler a respeito da descoberta, por astrônomos norte-americanos e australianos, de planetas na galáxia de A…, nos quais eles identificaram ambiente propício para a existência de vida, dedicar-se ao estudo da ciência que tanto o atraía. Uma semana depois, comprou um telescópio. Admirava, durante horas a fio, o espaço sideral; os seus sonhos povoavam-se de espécies de vida extraterrenas e civilizações de outros planetas, detentoras, umas, de tecnologia superior à humana; e a devanear imaginava o contato (e os distúrbios que tais contatos provocariam) da espécie humana com outra espécie de seres inteligentes dotada de outro gênero de inteligência que não a humana. Para ele, as investigações astronômicas engendravam sonhos gloriosos para a humanidade, um futuro próspero, e promoveriam a revisão de todos os valores humanos.

Durante as horas em que contemplavam, com o telescópio, à noite, o céu condecorado de estrelas, repleto de mistérios e enigmas. Mário, Marcos Antonio e Aloísio compartilhavam do prazer de criar, em imaginação, um mundo como o desejavam. Os humanos, um dia, habitariam outro planeta? Contatariam seres de uma espécie inteligente? E mais antiga do que a humana? E com ela teria algum parentesco? Seria tal espécie belicosa? Marcos Antonio, mais do que seu pai e seu irmão, influenciado pelos filmes aos quais assistia, pelos livros e revistas em quadrinhos que lia e pelos jogos holográficos com os quais se divertia, concebeu enredos mirabolantes protagonizados por criaturas alienígenas grotescas, aberrantes, e o contato dos humanos com elas. Mário tomou conhecimento das mais recentes descobertas; desejava, sequioso, entender as leis elementares da ciência astronômica; ele, que explorava o cérebro humano e o de outras espécies ao microscópio, e via-os como um universo misterioso repleto de enigmas, desejava conhecer o universo e os seus planetas, as suas estrelas, os seus quasares, os seus buracos negros, as suas galáxias, os seus meteoros, os seus cometas, todos os astros que o compunham, todos os fenômenos que o conservavam ativo. Um dia, sonhava, ele descobriria um astro ou uma espécie de astro jamais visto por olhos humanos. Um dia o universo segredar-lhe-ia a resposta de algum enigma que a humanidade há milhares de anos esforça-se por decifrar, sonhava.

Alguns dias após a entrega dos originais dos seus dois livros à editora, Mário recebeu de seu pai uma correspondência eletrônica, informando-o que ele, Rodolfo, e Valquíria regressariam ao Brasil dentro de quatro dias, e pedia-lhe que o esperasse no aeroporto V…, na cidade de D…, da megalópole de A… E o informava, também: eles pernoitariam na casa dele, Mário, quatro dias, após os quais embarcariam para a Argentina; e da Argentina iriam ao Chile; e do Chile à Bolívia; e ao Peru; e ao Equador; e à Venezuela.

Encerrada a correspondência, Mário declarou para si, o coração a pulsar, que se aproximava o momento de uma conversa com seus pais, e invadiram-lhe a cabeça as preocupações que o acossavam após tomar conhecimento da existência de “ele”. Como abordaria, numa conversa com eles, o assunto? Quais perguntas far-lhes-ia? Falou para Daniele da correspondência. Ambos folhearam jornais e revistas, rebuscaram publicações eletrônicas em busca de histórias que envolviam a clonagem humana, e encontraram notícias acerca de processos jurídicos contra um geneticista acusado de praticá-la, e outras acerca de surtos de violência contra geneticistas, algumas sobre depredações de instituições científicas no estado de Minas Gerais, na cidade de B…, na megalópole C…, e no estado do Rio de Janeiro, na cidade de T…, na megalópole de A…, e no estado do Rio Grande do Sul, na cidade de K… e na cidade de O…, ambas na megalópole de Z… E leram notícias acerca de atentados à morte de dois geneticistas, na cidade de C… no oeste do estado de São Paulo; e reportagens sobre um crime, que se deu, na megalópole de V…, em Santa Catarina: o do seqüestro, por um grupo de terroristas, de geneticistas, que foram mantidos trancafiados, durante um mês, em cárcere imundo, até a polícia descobrir o paradeiro dos seqüestradores e o cativeiro, na cidade de S…, na megalópole de Y…, na Argentina, e libertar os desventurosos cientistas, então famintos, macérrimos, ossudos; e notícias acerca da ameaça à bomba à uma academia de geneticistas, na cidade de B…, na megalópole de B…, no estado do Amazonas. E assistiram à reportagem acerca do assassinato de uma geneticista, na cidade de J…, na megalópole de M…, no estado do Pará. Não eram raras as notícias recentes de episódios envolvendo cientistas, geneticistas principalmente, imolados em praça pública por fanáticos e terroristas. E encontraram, em uma revista impressa, uma reportagem a respeito de uma conspiração internacional que visava, destruindo todos os laboratórios de biologia existentes, destroçar os alicerces da genética. Tais notícias Mário as comentaria na conversa com seus pais. Debatê-las-ia, mostrando preocupação pelos rumos que tais fatos tomariam. Os observadores alertavam os governos de todas as nações sobre o aumento significativo de atos violentos contra cientistas, principalmente os geneticistas, especialmente aqueles que defendiam clonagem de seres humanos. Rodolfo e Valquíria, geneticistas célebres e respeitados em todo o mundo, ainda não haviam sido alvos de fanáticos, mas logo o seriam, deduzia Mário, preocupado. Os agentes hostis à genética, para atrair a atenção da imprensa e da população mundial, preferiam capturar, seqüestrar e assassinar geneticistas notórios do que qualquer pessoa. E Rodolfo e Valquíria estavam entre os mais notórios geneticistas do tempo deles.

Transcorridos quatro dias, Rodolfo e Valquíria desembarcaram, no aeroporto de V…, na cidade de D…, e Mário, Daniele, Marcos Antonio e Aloísio os recepcionaram. Os garotos abraçaram, calorosamente, seus avós. Do aeroporto, foram até um restaurante onde saborearam a refeição e sobremesas. Durante as mais de duas horas de convivência à mesa, falaram das novidades e comentaram inúmeros fatos, uns, intrigantes, outros, engraçados. Rodolfo, animado e desenvolto, em animação sobrepujando, até mesmo, seus netos, narrou histórias que havia presenciado em um país que eles não imaginavam existir.

Narrava-as com tanto entusiasmo, colorindo singularidades culturais de alguns povos com tal exagero, que seus netos persuadiram-se de que ele estava de posse de todas as suas faculdades mentais.

Marcos Antonio inteirou os avós de suas mais recentes aquisições de jogos holográficos, e falou do telescópio, e dos planetas, das estrelas, das galáxias e de outros astros siderais que observou. Animado, expôs os seus conhecimentos em astronomia. Falava com tanta avidez, sequioso por revelar aos seus progenitores as novidades, que, ora seu pai, ora seu avô, continha-o, e pedia-lhe se acalmasse, respirasse fundo, e só então lhes contasse o que desejava lhes contar. E impedia, erguendo o tom de voz, seu irmão de falar sempre que ele principiava um relato. Rodolfo e Mário tiveram, e não raras vezes, de se desdobrarem para evitar atritos entre os dois garotos.

Encerrada a refeição, retiraram-se do restaurante, foram ao carro, e seguiram rumo à casa de Mário e Daniele. Estavam no centro da megalópole, onde o tráfego era intenso, deslocando-se à velocidade reduzida, a passos de tartaruga, quando Rodolfo pediu a Mário que ele não fosse diretamente para casa. Desejava rever as ruas das cidades pelas quais, anos antes, passeava. Evocou a sua infância, a sua juventude e os anos durante os quais ministrou aulas em universidades. Ao evocar tais épocas, sua voz aveludou-se. Rodolfo apontou para um prédio construído onde situava-se a casa de um seu amigo. Valquíria disse que se lembrava dela. Descreveu, dela, os cômodos, os móveis e os ornamentos. Falou da morte dos seus proprietários e dos filhos deles em uma tragédia aérea. A casa foi tombada pelo poder público; no entanto, e a despeito da admiração que suscitava em todos aqueles que a viam, demoliram-na. Rodolfo apontou, metros depois, para um prédio de seiscentos metros de altura, localizado em um local onde havia um estádio de futebol, e disse que, em tal estádio, havia assistido a muitos jogos de futebol de campeonatos regionais, estaduais, nacionais e internacionais, e reconstituiu, com pormenores, um amistoso entre a seleção brasileira e a seleção ganense, então uma das melhores seleções de futebol do mundo. Descreveu, minucioso, os dribles dos jogadores, usando da mímica para ilustrar a narrativa, excitado pelas recordações; e a todos contagiou com a sua animação, principalmente seus netos, que, mesmerizados pelas suas palavras, vibravam de alegria. Depois, falou de um jogo, amistoso também, entre a seleção brasileira e a seleção chinesa, jogo que ele, sempre saudoso, recordava, jogo que assistiu, aos oito anos de idade, na companhia de seus pais e seus irmãos.

Rodolfo e Valquíria reconstituíram, trazendo ao presente o passado, um outro mundo, e os netos o imaginaram.

Chegaram, enfim, à casa, para cujo interior precipitaram-se Marcos Antonio e Aloísio, puxando, pelas mãos, os avós, até o quarto, onde mostraram-lhes os brinquedos que ganharam, no Natal, no aniversário e no dia das crianças: jogos holográficos, brinquedos movidos a comandos cerebrais, robôs miniaturas de animais. Os robôs-leão rugiam como os leões que habitavam a África; os robôs-peixe nadavam como os peixes; os robôs-gavião voavam como os gaviões; os robôs-cavalo escoiceavam e relinchavam como os cavalos; os robôs-macaco trepavam nas árvores como o faziam os macacos. Tiraram os garotos das caixas de brinquedos réplicas, em miniaturas, de carros, aviões, navios, foguetes, espaçonaves, submarinos, motos, tanques de guerra, porta-aviões, transatlânticos, trens e caminhões, e os manobraram, e provocaram alguns acidentes. Marcos Antonio, enquanto pilotava uma miniatura, de vinte e oito centímetros de comprimento, de jato supersônico, estilhaçou uma das janelas do quarto. E Mário cravou-lhe olhos severos, e pediu-lhe que fosse mais cuidadoso. À saída de seu pai, Marcos Antonio olhou para seu avô, e sorriu.

O dia ia animado. O robô-empregada-doméstica preparou as refeições. Rodolfo ironizava a modernidade. Comparava-a com o seu tempo de criança, repleto de incertezas, que causavam profundas mudanças no estilo de vida, na convivência entre povos, nações e indivíduos. Comparou os seus brinquedos de criança com os dos netos, a tecnologia das casas do tempo em que era menino com a atual, os conflitos aos quais levava-o a se desentender com seus pais com os atuais conflitos entre pais e filhos.

Falaram dos novos ramos da ciência, dos seus precursores, dos seus sistemas científicos e filosóficos, da aplicação das novas técnicas de cirúrgias médicas, do aprimoramento das ciências, em particular da genética. Mário falou do decreto que inviabilizava alguns projetos no campo da genética. Rodolfo falou, em um tom em que se identificava um laivo de desgosto e frustração, que havia, no Congresso Nacional, políticos lacaios de grupos radicais, e, em tom de desabafo, de projetos abandonados devido ao desvio de recursos financeiros indispensáveis à realização deles para programas inúteis, construções de estabelecimentos escolares desnecessários e a manutenção de sinecuras.

Mário, o coração acelerado, no desejo de tratar das questões que tanto o incomodavam, olhou para Daniele, suplicando-lhe auxílio. Ela notou-lhe a ansiedade, e tocou-o no braço. Após ouvir o seu sogro falar das conseqüências das mais recentes leis promulgadas pelo Congresso Nacional, ela citou eventos que vitimaram cientistas, principalmente geneticistas, e pediu a opinião dele e a de Valquíria a respeito, e perguntou-lhes como eles, cientes do ambiente conturbado, hostil aos geneticistas, que eram agredidos, na rua, ameaçados de morte, se sentiam, e fez referências aos geneticistas que viviam, trancafiados, nas suas casas, e aos que, paranóicos, eram acossados por terrível mania de perseguição, e aos assassinados por terroristas. O mundo exigia coragem dos geneticistas, comentou Rodolfo. Valquíria disse que, se eles se curvassem às ameaças, o mundo, para os cientistas, e para os geneticistas em particular, tornar-se-ia um inferno. Preocupavam-se todos eles com as ameaças, que um dia poderiam vitimá-los. Mas o que tinham de fazer? Esconderem-se? Fugirem do mundo? Abandonarem a ciência porque um bando de lunáticos a rejeitavam? O que teriam de fazer Rodolfo e Valquíria?

Calmo agora, Mário formulou comentários a respeito da clonagem humana. Na expectativa, esperou seus pais pronunciarem-se a respeito. Eles, pensou, eludiam a questão. Ora concluía que eles faltavam-lhe com a verdade, ora acredita que eles lhe eram francos; a despeito, porém, da confiança que neles depositava, deles desconfiava, recriminando-se e julgando-se um filho vil e ingrato. Seus lábios ficaram descorados; a mente, embaciada. Quis eliminar de si todos os pensamentos de desconfiança para com seus pais. Ao tratarem de genética, Rodolfo e Valquíria entraram em explicações técnicas. Falaram da vida da Terra, do seu surgimento, considerando numerosas hipóteses científicas e os mitos da criação do mundo segundo as antigas religiões. Apresentaram um mundo rico de idéias, complexo e vasto. Trataram de questões restritas aos especialistas, traduzindo o vernáculo de uma ciência não inteiramente inacessível a Mário e Daniele para um que eles compreendiam. Com a neutralidade habitual, falaram das técnicas mais recentes de reprodução humana artificial, das cirurgias e de clonagem, particularmente da clonagem humana. Mário nenhuma alteração percebeu-lhes no timbre, no tom e na inflexão de voz. Eles portaram-se como sempre o fizeram. Os gestos deles, os movimentos dos músculos, a modulação da voz, as ligeiras mudanças de ritmo, de tom, Mário percebia-os. O sorriso deles, o olhar, nada lhe escapava. Valquíria, ao expor as suas idéias, expressava-se sempre no mesmo tom, e nela Mário via uma nódoa de orgulho. Pensava Mário consigo se seus pais o clonaram, ou se clonaram outro indivíduo, de quem ele era uma cópia. Seria Mário uma cópia de outro homem? Mário pensou em lançar-lhes tal pergunta. Conteve-se, todavia. A pergunta coçava-lhe a língua. E ele pensava em arremessá-la ao rosto de seus pais. Tal pergunta eles a receberiam como uma afronta, e se levantariam, magoados, se despediriam, contrafeitos, de Mário e de Daniele, iriam embora, e nunca mais retornariam àquela casa.

Marcos Antonio e Aloísio interrompiam a conversa, a curtos intervalos, com perguntas que denotavam curiosidade e inocência. Foi Marcos Antonio quem provocou a rápida aceleração dos batimentos cardíacos de Mário. Rodolfo, Mário, Valquíria e Daniele falavam, na ocasião, de clonagem humana; Marcos Antonio e Aloísio entretinham-se com um jogo holográfico de corrida de aeronaves. Conquanto atento ao jogo, Marcos Antonio ouvia a conversa de seus pais e seus avós; e em um certo momento, arremessou à face de seu avô uma pergunta que a todos surpreendeu: “Vovô, o senhor já clonou uma pessoa?”. Mário empalideceu, e fixou o olhar em seu pai. Daniele fitou Mário, estudou-lhe a fisionomia, para sondar-lhe os pensamentos. Rodolfo abriu-se em uma gargalhada, para Mário monstruosa. Daniele, fitando Mário, notou, nele, a agitação controlada das mãos e as têmporas orvalhadas de suor. Considerou natural e espontânea a reação de Rodolfo. Acertou ao pensar que o sangue de Mário fervilhava e queimava-lhe as entranhas. Rodolfo, encerrada a gargalhada – nela Mário viu um artifício para refazer-se da investida do neto -, negou que clonara alguém. Mário viu na resposta precaução desmesurada. Queria acreditar no que via, e não no que pensava que via. Depois, pensava enquanto desenrolava-se a conversa, trataria das suas suspeitas com Daniele. Não sabia o que pensar. Sobrepunham-se umas às outras as suas idéias. Não estava certo se ouvia o que ouvia, se via o que via, se pensava o que pensava. Marcos Antonio insistiu na questão, chamando a atenção para outros aspectos do que sabia de clonagem; disse que, na escola, dois meses antes, a professora de ciências disse que, se a lei permitisse e não houvesse tanta violência contra os defensores da clonagem humana, ela, se grávida, do embrião em seu útero faria uma cópia, e, talvez, se assim o desejasse, faria dele duas cópias. Perguntou, na sequência, para sua avó, se ela desejou, um dia, fazer um clone. Ela disse – arrependida, Mário assim interpretou-lhe a conduta ao estudar-lhe o tom de voz e a fisionomia -, sem descer às minúcias, que, inteirada de que perderia o primeiro filho, pensou em cloná-lo. Não era uma questão fácil de se tratar, nem de explicar, nem de justificar, disse, voz embargada. Pensou, sim, em clonar o fruto da sua primeira gestação; Rodolfo, no entanto, dissuadiu-a de fazê-lo. Ouviram-na atentamente. Mário perscrutou-lhe a alma insondável. Vieram lágrimas aos olhos de Daniele. Marcos Antonio e Aloísio admiravam, com os olhos arregalados, a avó. Rodolfo, arqueado para a frente, os cotovelos fincados nas pernas, os antebraços na vertical, os dedos entrelaçados sob o queixo, cerradas as pálpebras, ouviu a reconstituição de episódio tão angustiante sucedido havia trinta e quatro anos. Mário, que não conhecia todo o passado de seus pais, perguntava-se o que eles pensavam. Rodolfo e Valquíria fingiam sentir uma intensa corrente de sentimentos percorrer-lhes o corpo, ou sentiam remorsos por alguma decisão equivocada, sofrendo ao recordarem uma época angustiante, que transpuseram com dificuldades? Quanto mais pensava a respeito, a fisionomia inexpressiva, estudando o comportamento de seus pais, Mário mais se enredava em pensamentos conflitantes.

Assim que seus avós negaram ter clonado um filho, ou qualquer outra pessoa, Marcos Antonio disse que, na escola, um aluno que com ele estudava, Fabrício, dissera-lhe que conhecia uma pessoa idêntica a si, tanto na aparência quanto na maneira de agir, e perguntou se Fabrício tinha um clone. Rodolfo, antecipando-se a Valquíria, disse que ele tinha um sósia, e não um clone, e que não existem clones de seres humanos; há clones apenas de alguns animais de algumas espécies. Marcos Antonio disse que nenhum mal via em clonar pessoas e que acreditava que havia um clone de seu pai, pois vira, semanas antes, no parque, um homem igual a ele. Ao ouvir tais palavras, Mário empalideceu e fitou Marcos Antonio; e Rodolfo e Valquíria disseram a Marcos Antonio que o homem que ele vira era sósia do pai dele e que conheciam sósias de si mesmos. Sósias são comuns, disseram. E Rodolfo falou de algumas ocasiões hilárias e constrangedoras em que pensou reconhecer em uma pessoa, que lhe era desconhecida, um amigo ou um familiar. E Marcos Antonio e Daniele contaram histórias parecidas que haviam se sucedido com eles. Mário nada disse, não esboçou um sorriso sequer, e, ao se recompor da surpresa inspirada pela notícia transmitida por seu filho, conservou-se quieto, imóvel, olhos a irem de um para outro de seus interlocutores, estudando-os, principalmente seus pais.

Providente a intromissão de Marcos Antonio na conversa. Ele fez aos seus avós a pergunta que Mário desejava lhes fazer. Ele, que nenhum dilema enfrentava, fê-la movido pela curiosidade, que lhe excitava o espírito, e apresentou comentários que, pensou Mário, acuaram Rodolfo e Valquíria, que souberam eludir a questão.

Invadiam Mário ansiedade e apreensão; caiu ele em prostração de ânimo, e tentou ocultá-la de seus pais. Enganou-se ao pensar que a sua palidez, a sua mudez e o seu semblante carregado deles passariam despercebidos. Valquíria perguntou-lhe se ele sentia-se bem. Mário riu, e desconversou. Daniele achegou-se a ele, passou-lhe as mãos pela testa, e perguntou-lhe se ele se sentia bem. Ele fitou-a. Ela levantou-se, e disse-lhe que lhe traria um copo de água com açúcar. Rodolfo fitou Mário, e disse-lhe que ele precisava descansar. Mário disse que se lhe acometera mal-estar passageiro, conseqüência da exaustão física e mental que o afligia, e, em um tom de voz sussurrante, que nos dois dias precedentes exigira demais de si mesmo. Seu pai disse-lhe que a fadiga emprestava-lhe aparência horrível, e pediu-lhe desculpas por não ter-lha notado até então, de tão entusiasmado sentia-se de regresso, após longa ausência, ao Brasil e ao seio da família, e Valquíria secundou-o. Daniele, que retornara com o copo com água e açúcar, e entregara-o a Mário, disse-lhes que não se preocupassem. Mário bebeu da água. Rodolfo e Valquíria disseram que se recolheriam ao quarto, e assistiriam, ou à televisão, ou ao holograma, um programa científico, ou ligariam o computador e conversariam com amigos. Mário tinha de descansar, disseram, renovaram as desculpas, e levantaram-se. Daniele pediu-lhes que se sentassem, que Mário logo se recuperaria. Mário, apoiando-se à esposa, disse que logo iria se recompor, mas não o disse com a mesma convicção dela. Rodolfo e Valquíria impuseram-se ao filho e à nora, e disseram-lhes que não pretendiam prolongar a conversa.

Marcos Antonio e Aloísio agarraram-se aos avós. Estes, carinhosos, recomendaram-lhes que fossem dormir. E eles lhes disseram que não estavam com sono. No dia seguinte, disse Rodolfo, se eles desejassem, e com o consentimento dos pais deles, passeariam no parque. Os garotos, animados, fizeram planos para o dia seguinte.

Poucos minutos depois, recolheram-se todos aos quartos.

Banhados, Valquíria e Rodolfo conversaram durante alguns minutos, e assistiram a um filme, à televisão antiga, que Mário conservava na casa em meio aos aparelhos modernos. Além da televisão, havia, no quarto, aparelhos que Rodolfo, rindo, chamou de geringonças pré-históricas, parafernálias eletrônicas do tempo das cavernas, tecnologias da idade da pedra. O filme, produzido dois anos antes, protagonizado por atores portugueses, chineses, norte-americanos e angolanos, e filmado em Portugal, na China, nos Estados Unidos e em Angola, apresentava cenários deslumbrantes, que lhes prenderam a atenção. Encerrado o filme, Rodolfo e Valquíria dormiram.

Em um futuro não muito distante – parte 5 de 8

Durante o restante da noite, Mário e Daniele conversaram. Ela pediu a ele que ele lhe contasse o que ele, à tarde, dissera que lhe contaria. Ele, porém, disse que aguardaria uma hora apropriada para dizer-lhe o que tinha para lhe dizer, pois o que tinha para lhe dizer não podia ser dito com poucas palavras; não era uma história qualquer a que tinha para lhe contar; tinha para contar-lhe uma história que envolvia questões fundamentais aos humanos. Não se tratava de uma trivialidade, mas de questões que diziam respeito a sua, de Mário, origem; e teria ele de alongar-se, por horas, talvez dias, para delas tratar. O fato em si, ocorrido há dois anos, era irrelevante, disse; poderia resumi-lo em poucas palavras; mas as ressonâncias dele, não; estas corroeram-lhe o espírito a ponto de fazer dele um homem que ele não era, como ela pôde ver, ao acompanhar, dele, a degeneração, que culminou nos eventos do dia anterior; e só agora ele principiava a se reconciliar consigo mesmo, receando, temeroso, precipitar-se no abismo do qual talvez não emergisse outra vez. Ele pretendia, disse, expor, com clareza, se possível, tudo o que pensou e sentiu, para que ela compreendesse a complexidade da questão. E Daniele compreendeu o sentido das palavras que ele proferiu com muita dificuldade.

No sofá da sala, Mário atraiu Daniele para si. E recostaram-se ambos ao encosto do móvel. Mário enlaçou-a, seu braço esquerdo por trás dela, à altura dos ombros, e pousou-lhe, no ombro esquerdo, a mão, e ela repousou, no ombro esquerdo dele, a cabeça. Iriam assistir a um filme, no monitor da parede. Mário ditou os comandos ao computador central; e ligou-se a tela, na qual apareceu uma lista com milhares de filmes. Perguntou à Daniele qual filme ela desejava assistir. Ela disse o título de um filme. E completou: o filme, produzido vinte anos antes, estrelado por atores iranianos, marcou-lhe, indelevelmente, a juventude. Ela o havia assistido aos treze anos de idade, no cinema, com seus pais, seu irmão e suas irmãs. Narrava-se, no filme, a história de uma órfã, que passou por muitas provações.

Daniele chorou durante o filme, cuja transmissão ela interrompeu duas vezes para remover lágrimas dos olhos e das faces. A exímia interpretação dos atores, principalmente a das atrizes que interpretam a protagonista – a criança, a jovem e a adulta (três atrizes talentosas) – era louvável. O filme, dirigido com destreza impar por um cineasta corajoso, reputado um dos melhores do mundo, e produzido com esmero, retratava, sem retoques, a crua realidade, e clamava a sua crença nos humanos.

Encerrado o filme, Daniele foi ao quarto, para dormir, e Mário sintonizou um canal de notícias internacionais. Intelectuais renomados, ao vivo, em um debate, trataram de atritos entre as nações. Para explicar os conflitos atuais, os debatedores avaliaram fatos e evocaram o passado remoto. Tal programa, uma raridade, cujo conteúdo todas as pessoas podiam entender, gozava de uma audiência considerável e de reputação favorável. De conflitos étnicos e religiosos, do recrudescimento de perseguição política e do cerceamento da liberdade de expressão trataram os debatedores. Concluído o debate, que se prolongou por uma hora, Mário sintonizou outro canal, e pediu notícias dos acontecimentos sucedidos naquele dia. Assistiu à avalanche na Suíça, à enchente na Índia, Bangladesh e sul da Ásia, e no sul do Brasil, à erupção de vulcões na Itália e no Chile, aos terremotos na América Central, nos Estados Unidos e no Japão. As intempéries naturais vitimaram milhares de pessoas. Irremediáveis os danos ocorridos em áreas urbanas. Trinta minutos depois, enquanto assistia a um documentário de ciências que tratava de neurologia, Mário concebeu uma idéia complexa e um tanto imprecisa acerca da qual entendeu por bem falar com uma certa cientista da Academia. Não hesitou: pediu à tela que a contatasse. Não decorreu um minuto, no monitor apareceu o rosto de uma cientista de cinquenta anos de idade, que aparentava a idade de vinte e cinco, pestanuda, de rosto de traços regulares. Seguiram-se as explicações de Mário. A cientista ouviu-o atentamente, durante um bom tempo, e fez-lhe perguntas, que o obrigaram a reelaborar muitas de suas idéias. A partir de certo momento, ela pôs-se a bocejar, seguidamente, visivelmente exausta, e a esfregar, com os nós dos dedos, os olhos, e a cerrar e descerrar as pálpebras. Os cotovelos fincados na mesa, ela afundou o queixo nas palmas das mãos. De início, Mário não lhe notou a sonolência; e riu consigo ao vê-la despertar, estremunhada, os olhos arregalados, desculpando-se por não ouvir o que ele lhe dizia, e a ruborizar-se, encabulada. Aconselhou-a descanso; e deu por encerrada a conversa. Não muito tempo depois, assistiu à gravação, reconsiderou algumas idéias, e adicionou-lhes argumentos, para comentá-los com outros neurologistas. No dia seguinte, imprimiu uma cópia da transcrição da sua conversa com a cientista, suprimiu as incoerências, preencheu as lacunas e deu consistência aos seus argumentos. Tratou, durante meses, na Academia e em outros institutos de pesquisas, das questões pertinentes às suas idéias.

Mário foi ao quarto. Daniele dormia tranquilamente. Ele contemplou-lhe o semblante. Acariciou-a, terna, e apaixonadamente, passeando-lhe as mãos pelos cabelos lisos e brilhantes, apreciando, deles, a textura macia e o aroma perfumado, que deles recendia, e os dedos pelos lábios, e a mão esquerda pela cabeça, tocando-a, com os dedos, na testa, no nariz, nas orelhas, no queixo, nas sobrancelhas e nos cílios. Não se cansou de admirá-la, embevecido. Enfim, passando-lhe o braço esquerdo sobre a cintura, abandonou-se nos braços aconchegantes do sono.

A manhã do dia seguinte estava radiosa. Na casa de Mário e Daniele imperava a balbúrdia dos endiabrados Marcos Antonio e Aloísio. Paula deu notícias alvissareiras concernentes ao estado clínico de seu marido para Daniele e Mário. Mário disse-lhe que estava convicto de que Rodolfo se reanimaria, e estaria, dentro de poucos dias, entre eles; Daniele renovou-lhe as ofertas de ajuda, declarou-lhe que a ajudariam sempre que ela deles precisasse. A ponto de chorar, Paula agradeceu-lhes a generosidade; com a voz embargada, entrecortada por soluços, manifestou-lhes, desajeitada, encabulada, gaguejando, a cabeça abaixada, os olhos encobertos com as mãos, a sua gratidão.

Partilharam da primeira refeição do dia. Paula declarara que ainda não tomara o café-da-manhã. Antes de o Sol despontar, saíra da sua casa, e fôra ao hospital. Contou que a polícia havia identificado os assaltantes mortos e descoberto a identidade dos dois remanescentes da quadrilha. Os investigadores sabiam que se tratavam os dois fugitivos de um homem e de uma mulher. Restava-lhes o trabalho, exaustivo e perigoso, de descobrir-lhes o paradeiro.

Paula ouviu de Mário e Daniele palavras reconfortantes; e provocaram-lhe risos as peraltices de Marcos Antonio e Aloísio. E Daniele disse-lhe que nas últimas duas semanas do ano até o oitavo dia de janeiro, Mário, Daniele, Marcos Antonio e Aloísio viajariam ao litoral. Se nenhum imprevisto ocorresse, empreenderiam a viagem dali duas semanas.

Mário acionou, à parede da copa uma tela transmissora de imagens. Na cadeira, um copo de café fumegante na mão esquerda, a mão direita empunhando uma colher pequena que ele mexia no interior do copo, provocando um rodamoinho no café, assistia a um desenho animado da sua predileção e da de seus filhos; estes alegraram-se assim que viram as personagens do desenho, e vibraram, eufóricos, durante os trinta minutos do episódio, que contava as proezas de um aventureiro espacial, que jornadeava pelo universo em busca de planetas habitáveis e criaturas inteligentes. O enredo, uma sequência de acontecimentos que punham em suspense os espectadores. Debruçado sobre a mesa, surpreendido pelo aparecimento repentino, num ambiente mal iluminado, de uma personagem, Marcos Antonio ergueu a cabeça, e lançou-se para trás. No desenho, não se respeitava as leis elementares da física. Num tom irreverente, no final de cada capítulo, aparecia o principal criador do desenho; ele, zombeteiro, mordaz, justificava os desrespeitos às leis da física, não as desprezando, todavia; declarava que elas, todas concebidas pela inteligência humana, eram hipóteses, que explicavam a realidade sem as explicar, pois, salientava, estavam fundamentadas, ao contrário do que dizem os cientistas, todos vaidosos e presunçosos, na inteligência, imaginação e consciência humanas. Em outros mundos, em outras galáxias, em outros universos, em outras dimensões, as leis da física – concepções humanas – não se aplicam. Invadiu Marcos Antonio uma onda de fascínio. Aloísio não compreendeu a história, mas excitou-lhe a imaginação o desenho, no qual Mário viu mais do que uma aventura espacial como tantas outras. Perspicaz, leu, nas entrelinhas, um questionamento sutil de algumas convenções sociais e das teorias científicas.

Via videofone, Daniele conversou com Catarina. Inteirou-a dos acontecimentos recentes, pediu-lhe o favor de, um dia, cuidar de Marcos Antonio e Aloísio, para que ela, Daniele, pudesse conversar com Mário, sossegada, e demoradamente. Não lhe escondeu os dissabores conjugais e as escaramuças de dias antes, e tampouco a reconciliação; disse-lhe, também, respeitando, sensata e prudentemente, a sua vida em comum com Mário, que tinha pendências a resolver com ele. A conversa estendeu-se durante um bom tempo. Enquanto conversavam, Catarina ajeitava o penteado, retocava os cosméticos que lhe coloriam as faces, e, mirando-se ao espelho, ajeitava o vestido, inspecionando-o. Interromperam, não raras vezes, o assunto que dera origem à conversa, Catarina solicitando à sua irmã comentários a respeito dos trajes, e ela apresentando-lhe suas opiniões, nem sempre favoráveis.

Catarina disse para Daniele que cuidaria, durante um dia, e de bom grado, dos sobrinhos. Daniele antecipou os agradecimentos. Combinaram de, no domingo, Catarina ir à casa dela libertar os sobrinhos daquela prisão, e levá-los a um parque de diversões, e com eles se divertir, na casa dos espelhos, nos balanços, na casa maluca, na casa do terror, nos castelos, nos palácios, nas pirâmides.

Despediram-se as irmãs.

Daniele, na copa, deu a notícia aos filhos, que pularam de alegria, e procurou pelos olhos de Mário. Mário, desviando das páginas de um livro de ficção científica de um célebre escritor inglês do século vinte os olhos, fitou Daniele, e sorriu.

No decorrer da semana, Mário ia à Academia, ou a pé, ou de carro, ou por outros meios de transporte, e atentava às pessoas na calçada, na rua, dentro de veículos, à procura de “ele”.

Em um dia, ao amanhecer – as ruas fervilhando de gente -, ao volante do carro, enquanto ia à Academia, olhava de um lado para o outro à procura de “ele”. Multidão de penteados indefiníveis, compacta, enxameava, numa agitação frenética, as calçadas estreitas. Mário deslocava-se, vagarosamente, atento à multidão, que extravasava, ruidosa, das calçadas. Motoristas, nos carros atrás dele, buzinavam, protestavam, e o insultavam.

Num relance, vislumbrou, dentro de um carro, um penteado parecido com o que lhe revestia a cabeça. Desatento ao trânsito, quase colidiu o seu carro com o veículo à sua frente, uma caminhonete, e seu coração pulsou acelerado. Atentou para a cor e o modelo do carro em que pensara ter visto “ele”. Com algumas manobras imprudentes, foi até o carro dentro do qual ia, acreditava, “ele”, e seguiu-o durante seis minutos, até o carro ser estacionado à frente de uma padaria, e dele retirar-se uma mulher. A surpresa de Mário ao vê-la! Ele sorriu, considerando-se um tolo impenitente. Como muitas vezes antes e muitas vezes depois, um penteado parecido com o seu, e, portanto, com o de “ele”, atraiu-lhe a atenção, e ele seguiu a pessoa que o exibia, pensando que encontraria “ele”, e, para seu desgosto, deparou-se com outra pessoa.

Enfrentou o trânsito caótico, em muitas ruas, até chegar à rua em que se situava a Academia. No decorrer do dia, conversou com vários cientistas. Eram quase vinte e duas horas quando chegou na sua casa. Excetuando a ansiedade e os fortes sentimentos que se lhe afloraram à mente, naquele dia nada desgastante lhe sucedera. Com nenhum cientista estúpido discutira, renhidamente, e nenhuma notícia desagradável, que lhe alvoroçasse as emoções, recebera.

No domingo, ao amanhecer, Catarina foi à casa de Mário e Daniele buscar seus sobrinhos. Eles e os pais deles conversavam, na copa, faziam a refeição da manhã, quando ela tocou a campainha. Mário interrompeu a refeição e foi atender à porta. Daniele pediu aos filhos que eles, encerrada a refeição, escovassem os dentes e buscassem as lancheiras preparadas na véspera. Os dois meninos correram, animados, ao banheiro, para escovar os dentes; pouco tempo depois, regressaram à copa, lancheiras nas mãos, dentes a luzir de tão escovados, onde encontraram Mário e Catarina, que lá haviam entrado segundos antes. Ela acocorou-se, abriu os braços, sorridente, acolhedora, e seus sobrinhos, animados, saltaram-lhe ao pescoço, quase a derrubando, e ela os acolheu, e beijou-os nas faces.

Catarina anteviu, animada, muita diversão, e disse aos seus sobrinhos que se deliciariam de tanto chupar sorvetes saborosos e comer chocolates deliciosos. Marcos Antonio narrou os capítulos das aventuras que viveria naquele domingo, de quais brincadeiras participaria; bravateou, conduzido pela irreprimível onda de alegria que o invadira. Foram todos à varanda, e da varanda à calçada. E Marcos Antonio e Aloísio despediram-se de seus pais; ela abraçou-os e beijou-os, carinhosa e amavelmente; ele, comedido, abraçou-os. Minuto depois, Marcos Antonio, Aloísio e Catarina entraram no carro. E ela deu a partida; e de dentro do carro, os dois meninos acenavam para seus pais, até o momento em que o carro dobrou a esquina. E Mário e Daniele regressaram ao interior da casa.

A sós com a esposa, Mário sentiu o coração descompassado. Não sabia como lhe contaria a história da qual desejava inteirá-la. Principiaria a apresentar uma síntese dos eventos daquele longínquo dia, muito bem conservado na sua memória, desde o instante em que “ele” se lhe havia esbarrado? Falar-lhe-ia de seus pensamentos? Como abrir-se-ia para ela? Temia-lhe as reações. Ela o compreenderia? Entenderia o que ele sentia, a angústia que lhe atassalhava o espírito? Ele se perderia em explicações inúteis, e não diria o que o atormentava. Incorreria em tautologias; e a sua prolixidade, ao invés de esclarecer a questão, a cobriria com nuvens pretas. Desejava ele abrir-se para com sua esposa. Teve de reconhecer, contrafeito, que não estava preparado para contar-lhe tudo o que desejava contar-lhe. Não seria fácil apresentar-lhe o que pensava e sentia. Perguntava-se se não exagerava nos escrúpulos, se não tratava a questão com zelo desmedido. Daniele desejava compreender o que se passava com ele. Quais histórias dele ela ouviria? Ele iria ao ponto nevrálgico da questão, ou contorná-lo-ia para preparar Daniele para ouvi-lo? Quantas conjecturas assaltaram-na! Ambos estavam apreensivos, cada um deles por uma razão. Mário preocupava-se porque não sabia como contar para Daniele o que tinha para lhe contar e porque não podia antecipar-se à reação dela; Daniele perguntava-se o que de Mário ouviria, e como o ouviria, e como reagiria ao que ele lhe contaria.

Imerso nos seus pensamentos, Mário compreendeu que era necessário inteirar sua esposa de toda a história, pois, só assim, além de provar-lhe o respeito e a consideração que nutria por ela, tranqüilizaria seu espírito. Não poderia guardar consigo os seus pensamentos; tinha de contá-los para alguém; e não havia ninguém melhor para ouvi-lo do que Daniele. Ou se abriria com ela e partilharia com ela de suas preocupações, ou se calaria, acovardado, e se atormentaria com as dúvidas flageladoras que o golpeavam, roubando-lhe a lucidez. Não queria recair na bestialidade em que havia descido e da qual se recompusera dias antes. Evitaria que nova queda lhe sobreviesse.

Daniele, para acalmar-se e tranquilizar Mário, ofereceu-lhe água. Ele aceitou a oferta, e sentou-se no sofá. Ela foi à cozinha buscar água, e à sala regressou pouco tempo depois, carregando, com a mão direita, uma jarra de vidro, e, com a esquerda, dois copos de água. Recostado ao sofá, ao vê-la aproximar-se com os copos e a jarra, Mário levantou-se, e tirou-lhos das mãos, e depositou a jarra e os copos na mesa-de-centro, e sentou-se no sofá. Daniele sentou-se-lhe à direita, e ele segurou, com a mão esquerda, a jarra, pela alça, entornou-a, e encheu de água os dois copos, primeiro, o que entregaria para Daniele, depois, o com o qual se serviria, e pôs a jarra na mesa-de-centro. E bebeu de um pouco de água. E fitou Daniele, suplicando-lhe, em silêncio, compreensão e paciência, e leu, nos olhos dela, vontade de atender-lhe à súplica.

Daniele sondou-o assim que ele, desajeitado, pôs-se a falar, no princípio com voz embargada. Ele falou como se a voz se lhe enroscasse em algo na garganta. Pronta para ouvi-lo, Daniele fitava-o com olhar acolhedor. Mário deitou-se no sofá, a cabeça sobre as pernas de Daniele, com o braço esquerdo abraçando-as. Daniele afagou-lhe a cabeça, passeando-lhe as mãos pelos cabelos. Ao acalmar-se, ele balbuciou algumas palavras; e adquirindo confiança em si, falou, no tom de voz que lhe era comum, organizados os seus pensamentos. Sempre que ele se engasgava e fazia uma pausa um pouco prolongada, Daniele esperava-o recompôr-se, sem emendar uma pergunta sequer, para que ele retomasse a narrativa. Ele falou da dilaceração de seu coração ao presenciar “ele”, quando andava, meditativo, pelas ruas, voltado para si, ignorando os arredores. Daniele ouviu-o, e nada compreendeu. Quando ele descreveu o seu encontro acidental com “ele”, e declarou que “ele” era-lhe idêntico, ela, mesmo assim, não compreendeu a substância do relato. Além de descrever “ele”, e compará-lo a si mesmo, e declarar que ambos eram idênticos, disse que seus pais eram geneticistas. Daniele entendeu, então, o que ele queria dizer. Notando-lhe o brilho nos olhos, Mário soube que ela entendeu o que ele lhe dizia, e deu sequência ao relato e às elucubrações filosóficas acerca, não apenas do episódio em destaque, mas dos sentimentos que o caso envolvia. Confiante, falou dos gestos que reparou em “ele”: eram idênticos aos dele, Mário. “Ele”, como Mário, era canhoto, “ele” andava como ele, Mário, andava; “ele” falava, no mesmo timbre e inflexão de voz e movimentos dos lábios que os de Mário; o modo que “ele” beijou a esposa e abraçou e beijou a filha era como Mário beijava Daniele e abraçava e beijava Marcos Antonio e Aloísio. De tempos em tempos, Mário interrompia a narração e dizia que não delirava, há dois anos, enquanto se sucedia aquele inusitado capítulo de sua biografia; que o calor daquele dia tórrido não lhe havia queimado o cérebro. Amarga a história que se seguiu. Mário padeceu muitos males, teve atitudes disparatadas e chegou à demência dos dias anteriores à sua recuperação. Temia que a existência de “ele” alcançasse os ouvidos de seus pais, que não mereceriam ouvi-lo duvidar deles. Se Mário lhes aludisse às dúvidas que o atassalhavam, como eles reagiriam? Mário pensava consigo como eles reagiriam se ele lhes fizesse perguntas a respeito de uma clonagem dele, Mário, com a autorização deles, e porque eles a autorizaram. Não queria magoá-los. Não deixava que o que lhe ocorria alcançasse-lhes os ouvidos. Os eventos, porém, não se sucederam como ele desejava. Fugiram-lhe ao controle. As suas meditações a respeito de um suposto clone seu envolviam questões fundamentais da sua vida. Não podia desconsiderar algo que se relacionava com a sua origem. Conhecia a sua vida. Mas, o que aconteceu antes de sua mãe trazer-lhe à luz sob as condições da natureza? Rodolfo e Valquíria clonaram Mário? Se sim, por que eles nunca lhe falaram a respeito? Tais dúvidas, amargas, estilhaçaram-lhe o coração. Pensou, no início, que seus pais eram seres crudelíssimos. Em pensamento, lançou muitas dúvidas a respeito deles. E pediu desculpas à Daniele por nunca haver lhe contado a história. E pesaroso, quase a chorar, relembrou a agressão à Daniele e a Marcos Antonio.

Mário tentava organizar os seus pensamentos. Apresentou para Daniele tudo o que a ele sucedeu nos dois anos anteriores. Havia caído em uma região profunda de sua mente, e não tornou à superfície quando quis. E os eventos sucederam-se de modo ilógico, brutal, absurdo. Depois, já refeito, tornou à superfície. Se ele, dizia ele para si mesmo, não estimasse seus pais, abordá-los-ia e arremessar-lhes-ia a pergunta a respeito da sua origem e da de um suposto clone seu. Desejava conhecer a verdade, mas não queria pagar o preço de, enquanto a buscava, magoá-los. Tratou, de modo disparatado, a questão, quase vindo a destruir-se e a arruinar a família. Havia alternativas? Quais? Ele havia concluído que não havia alternativas, e fez tudo o que fez tendo em mente preservar a família de sofrimentos.

Daniele acompanhou, atentamente, o relato, e reuniu, dele, os elementos essenciais; as explicações que Mário lhe deu não abarcava todas as dimensões da história e não compreendia todas as questões que ela envolvia.

A fome revolveu-lhes o estômago. Durante a conferência, Daniele foi a ouvinte, e Mário o palestrante. Dirigiram-se ambos à cozinha; e prepararam as refeições; e serviram-se à mesa. Mário falava de seus pensamentos, explicando-os, esclarecendo-os. Desejava, não um assentimento incondicional de Daniele, mas que ela o compreendesse. Tendo o controle de si, apresentou argumentos que elucidavam as dúvidas pendentes. Daniele apresentou-lhe interrogações acerca de certos pontos, que se lhe afiguravam confusos, contraditórios, e esforçou-se para compreender as explicações que Mário lhe fornecia.

Interromperam-lhes a refeição, quatro vezes, insistentes toques da campainha e o soar do telefone.

No princípio da conversa, Mário gaguejava e não expressava-se com as palavras adequadas. Agora, desembaraçado, contava o “fato” em si e as mudanças que tal “fato” provocou-lhe e quais influências elas tiveram na concepção que ele fazia da vida. Conhecedor de muitas polêmicas que envolviam clones humanos, delas falou para a sua esposa. Interrompia a curtos intervalos a palestra, fazia digressões políticas e humanitárias, e retomava, com fôlego renovado, ao tema que dera origem à conversa. Foi prolixo, sem ser redundante e tedioso. Os seus argumentos, instigantes, envolveram Daniele. A aliança daqueles dois corações, a despeito de tudo o que poderia vir a impedi-los de se reconciliarem, fortaleceu-se. Improvável que, depois daquela recíproca demonstração de respeito, carinho, ternura e afeto, eles viessem a se desentender. Nenhum motivo provocaria o rompimento do vínculo que os unia. Encerrado o tema principal, Mário discorreu, livremente, sobre os seus projetos e as suas idéias mais recentes, falou dos livros que escrevia e que pretendia oferecer à uma editora, e da teoria que elaborava, mas que só daria por concluída após numerosas correções.

Mário e Daniele retomavam, esgotado um assunto, ao tema que dera origem à conversa, e Mário falava de algo do qual não tratara até então.

À noite, Mário já havia removido quase todo o peso de sua consciência. A respeito da sua origem, ele e Daniele iriam extrair de Rodolfo e Valquíria a verdade. Bem-humorado, disse Mário tratar-se a abordagem que fariam ele e Daniele aos pais dele de uma conspiração investigativa, uma ação detetivesca, uma espionagem familiar, a qual dele recebeu um título: Projeto Reconstituição do Passado. Iriam, durante uma conversa com Rodolfo e Valquíria, tratar de clonagem humana, velando os seus propósitos; para atingi-lo, tratariam de generalidades, evocariam fatos relacionados à genética, e das generalidades iriam às particularidades. Daniele teria sangue-frio para arremessar aos seus sogros uma pergunta despretensiosa. Ela disse, e Mário reconheceu-lhe a engenhosidade, que diriam a eles que ela havia pensado, certa vez, em clonar ou Marcos Antonio, ou Aloísio.

O encerramento da palestra coincidiu com a chegada de Catarina, e Marcos Antonio e Aloísio, que, numa irrupção tempestuosa de alegria e entusiasmo, precipitaram-se para dentro da casa. Daniele e Mário quase dispararam, em debandada, para escaparem da impetuosa investida de seus filhos. À calmaria reinante sucedeu o tumulto. Catarina entrou, esbaforida, mal se aguentando em pé, os ombros caídos. Antes de saudar sua irmã e o seu cunhado, pediu-lhes água, sussurrando. Daniele verificou a jarra, então vazia, sobre a mesa-de-centro. Pegou-a e aos copos, e foi à cozinha. Seguiu-a Catarina. Na sala, Marcos Antonio e Aloísio narraram para o pai deles as aventuras do dia. Marcos Antonio falava de qualquer coisa e, antes que chegasse à metade do seu relato, Aloísio tomava-lhe a vez, e antecipava a conclusão, e Marcos Antonio praguejava e ameaçava dar-lhe um tapa. E Aloísio encarava-o, mostrava-lhe a língua, e replicava. E Mário sentou-se entre os dois; mesmo tomando tal providência, não os impediu de provocarem-se um ao outro.

Na cozinha, Catarina, recomposta, à mesa, sentada e recostada numa cadeira de grande espaldar, narrou, para sua irmã, as aventuras de Marcos Antonio e Aloísio. Daniele jactava-se enquanto a ouvia falar com tanto enlevo de seus filhos.

Daniele teve vontade de comer pipoca e beber refrigerante. Saiu da cozinha, foi à sala, achegou-se aos seus filhos, e perguntou-lhes se eles queriam pipoca e refrigerante. Eles disseram-lhe que sim; e ela disse-lhes que fossem se banhar. Mário acompanhou-os ao quarto e ao banheiro, e ela regressou à cozinha.

O milho pipocava na panela. Da geladeira, Daniele tirou garrafas de refrigerantes, uma lata de goiabada, e queijo. Das prateleiras, Catarina pegou copos, pratos, bandejas, garfos, facas. E ambas levaram à sala o sortimento de pipocas, goiabada e queijo, e refrigerante que prepararam, e os talheres e outros artigos de cozinha. Perguntou Catarina à Daniele qual filme assistiriam. Com um comando de voz, Daniele acionou a tela, e solicitou ao computador central um filme infantil – e na tela apareceu uma lista com milhares de títulos, de diversas épocas e nacionalidades. Catarina disse que os filmes de um estúdio cinematográfico indiano eram os melhores que haviam para o público infantil. Daniele solicitou, então, ao computador central, uma lista com os filmes do estúdio cinematográfico que Catarina mencionara – e a lista reduziu-se para quarenta e nove títulos. Em seguida, solicitou uma lista com os títulos dos dez filmes de produção mais recentes – e a tela apresentou-os em ordem cronológica. E optou por um acerca do qual já havia lido críticas favoráveis.

Após o banho, Marcos Antonio e Aloísio regressaram à sala, onde Mário chegou logo depois, com outra roupa. Curiosa e intrigada, Daniele perguntou-lhe porque ele trocara de roupa, e ele, entre sorrisos, disse que o banheiro se convertera num oceano agitado por forças sobrenaturais, e apontou para os filhos, e, convulsionado, eriçara-se e provocara estragos em uma embarcação, e apontou para si mesmo. Todos riram. Marcos Antonio e Aloísio viram a tela ligada e perguntaram qual filme assistiriam. Catarina e Daniele disseram-lhe que era um que eles iriam gostar de assistir, no qual havia duas crianças, que viviam aventuras perigosas, em países arrasados por terremotos, enchentes e erupções vulcânicas. E animaram-se os meninos.

As lâmpadas apagadas, todos, quietos, assistiram ao filme e comeram pipoca, goiabada com queijo e beberam refrigerantes.  Encerrado o filme, Marcos Antonio e Aloísio bombardearam o pai, a mãe e a tia com perguntas e comentários, e contaram e recontaram as cenas mais instigantes, instigantes segundo eles.

Vazia a tigela de pipocas, Daniele e Catarina prepararam mais pipocas, e a encheram, e Marcos Antonio e Aloísio esvaziaram-na com voracidade ímpar. Tarde da noite, Catarina anunciou a sua ida para a sua casa. Daniele pediu-lhe pernoitasse, ali, naquela noite; seria perigoso, disse-lhe, àquela hora, uma mulher, sozinha, dirigir um carro. Catarina declarou que iria embora e que Daniele não se preocupasse. Esta, no entanto, insistiu-lhe para que ela ficasse, e Marcos Antonio e Aloísio agarraram-na pelos braços e pediram-lhe que dormisse lá, brincasse com eles e contasse-lhes histórias. Ela hesitou. Disse que não levara camisola, nem pijama. E Daniele disse-lhe que lhe emprestaria os seus. Para dar fim à discussão, Mário virou-se para a cunhada, estendeu-lhe a mão esquerda, e pediu-lhe a chave do carro; ela lho entregou, e ele se retirou da casa, e guardou o carro de Catarina na garagem.

Transcorridos alguns minutos, Mário curvou-se ao cansaço, foi ao quarto, e dormiu. A energia de Marcos Antonio e Aloísio parecia inesgotável. Daniele, que não via a hora de ir para a cama, e dormir, recostou-se ao sofá e assistiu às brincadeiras que sua irmã promovia e ouviu-a contar estórias, que tiveram um efeito soporífero em Marcos Antonio e Aloísio. Em um certo momento, os meninos dormindo a sono solto e Daniele cochilando, Catarina desta aproximou-se, tocou-a, no ombro, com os dedos, e assim que ela descerrou as pálpebras, apontou-lhe os filhos. Elas os carregaram, Catarina, Marcos Antonio, e Daniele, Aloísio, ao quarto, e os aninharam cada um deles em uma cama. Em seguida, Daniele entrou no seu quarto, e dele retirou-se logo depois, tendo, nas mãos, uma camisola, uma toalha e chinelos, e entregou-os à sua irmã, que lhos tirou das mãos e foi banhar-se, enquanto Daniele, na cozinha, preparou para si e para sua irmã uma refeição frugal. E esperou por sua irmã. Sentaram-se ambas à mesa e encetaram conversa. Catarina falou de seus pais, que lhe perguntaram de Daniele, que havia três meses não os visitava. Daniele penitenciou-se, disse que os visitaria, naquela semana. Sonolentas e exaustas, não prolongaram a conversa. Catarina bocejava, a curtos intervalos; uma vez ou outra, cobria com as mãos a boca, em outras, escancarando-a indiscretamente, contraía os músculos da face e espreguiçava-se. Encerrada a refeição, saudaram-se as irmãs, desejaram-se boa noite, beijaram-se, na face, e entraram, Catarina, no quarto de hóspede, Daniele, no quarto de casal.

Em um futuro não muito distante – parte 4 de 8

Daniele adormeceu. Acordou doze horas depois, nua, na cama, sob um fino lençol, sob o qual não se lembrava de ter-se enfiado. Recordava-se de que de si removera o sangue aderido ao corpo e se medicara. Ouviu rumores na casa. Eram as vozes de Marcos Antonio e Aloísio, irrequietos, e a de Paula, que os animava entoando canções infantis. Passeou as mãos pelas faces, esfregou os olhos, respirou fundo, e suspirou. A porta do quarto estava fechada. Quem ajeitara a ela, Daniele, na cama? Paula? Paula a encontrara em que estado? Latejava-lhe a cabeça, não tão intensamente como na véspera. Reconstituiu toda a cena da noite anterior. Não queria acreditar no que se passara. Era tudo irreal, inverossímil. Mário não quisera agredi-la, nenhum golpe lhe dera, não a insultara, não a encarara doentiamente. Foi um pesadelo. Sim! Um pesadelo! Daniele disso quis se convencer; se convencer de que nada de ruim lhe acontecera na véspera. Era-lhe angustiante lembrar-se do que lhe sucedera, mas não podia negar a realidade.

Ao ouvir as risadas dos filhos, evocou os tempos felizes que gozava antes daquele drama principiar. A recordação das coisas divertidas da vida em comum com Mário e os filhos fê-la rir, nostálgica. A convivência familiar, repleta de motivos para rir, era harmoniosa, e a casa irradiava tranquilidade e paz – muitas pessoas dariam toda a fortuna que tinham para ter a paz que nela reinava. Daniele lembrou-se do rosto singelo de Mário. Lembrou-se que ouvia-lhe a voz suave, e, nos colóquios que mantinham diariamente, os substanciosos argumentos filosóficos e científicos que ele apresentava. Mário fornecia-lhe relatos animados das experiências que conduzia, as quais eram frias e tediosas, mas delas ele falava num tom tão agradável, que lhe excitava a curiosidade, e delas ela desejava ouvir mais, mesmo que não compreendesse o que Mário lhe contava, pois desejava ouvir-lhe a voz, ora serena, ora eufórica. Os abraços de Mário eram ardentes; os beijos, inflamados; as carícias, calorosas. E ela sentia-se uma mulher plenamente realizada. Saboreavam Mário e Daniele, e Marcos Antonio e Aloísio, de uma paradisíaca convivência em comum. Mário convertia-se, em muitos dias, em criança, e brincava com os filhos, a diverti-los, e a divertir-se, e a divertir Daniele, que, ela dizia, presenciava três crianças a brincar, a fazer estripulias, a pintar o sete, a espalhar a brasa, a pôr a casa de pernas para o ar. Mário esquecia-se que era um homem adulto, neurologista renomado, filho de geneticistas famosos. Marcos Antonio e Aloísio montavam-lhe cavalinho, e ele empinava o corpo, e os filhos, dele apeados, caíam, e riam, e gargalhavam, e montavam-lhe cavalinho, e caíam… Passeavam, durante longas caminhadas, nos finais de semana, ao amanhecer, e ao entardecer, durante horas, e conversavam. Passeavam de bicicletas. Nadavam em piscinas. Havia dias que Mário e Daniele, sós, iam a restaurantes, e reviviam os dias de namoro. Reavivavam a memória dos dias que lhes escapavam, os quais eles não desejavam esquecer. Recordavam os dias de infância, de juventude. Reconstituíam incidentes que, na época em que se deram, deixaram muita gente preocupada, principalmente os pais e os parentes mais próximos; ao revivê-los, todavia, riam como se tratassem das coisas mais engraçadas que lhes ocorreram. Amavam-se Mário e Daniele. Daniele desejava a felicidade de outrora, para si, para o marido, para os filhos. Recuperá-la-ia um dia? Se não a recuperasse, suportaria aquela vida desafortunada, que, se perpetuasse, previa, redundaria numa tragédia?

Subjugada pelos seus pensamentos, ouviu a voz de Marcos Antonio, que gritou a palavra pai, num tom alegre, entusiasmado, intrigando-a. Descerrou as pálpebras, o rosto a transparecer surpresa. Ouviu Marcos Antonio mais uma vez, num grito, a proferir a palavra pai. Na expectativa, acelerado o coração, a dominarem-la medo e confusão, trêmulos mãos e lábios, perguntava-se de Mário. Supôs que ele, considerando-se as expressões de Marcos Antonio, brincava com o filho. Ouviu passos aproximando-se do quarto. O medo apossou-se de si. Os passos progrediam, e cessaram. Fizeram-se ouvir ruídos de copos e talheres. Moveu-se a maçaneta. Abriu-se a porta, vagarosamente. Daniele, apreensiva, viu a cabeça de Mário, cujo semblante irradiava ternura. Era o rosto que Daniele desejava ver, o de seu marido, o do homem que amava. O receio e a desconfiança mantiveram-na em suspenso. Ela não acreditou, de imediato, que Mário, de rosto terno, amável e sorridente, deixara de ser o homem que a agredira na véspera. Seu coração palpitava forte, rápido; seu corpo fervia; queimava-lhe as entranhas o sangue que lhe corria pelas veias e artérias. Olhos arregalados, fitava o seu marido, atentando para todos os movimentos dele, a sondar-lhe as intenções. Ele exibia rosto radiante porque tornara a ser o Mário por quem ela se havia apaixonado? Exibindo aquele sorriso encantador, Mário convenceria qualquer pessoa de que era ele um homem boníssimo, terno, afetuoso, e ninguém suspeitaria que por trás daquela candura havia um homem capaz de, num instante de insanidade, agredir e desprezar uma pessoa, tampouco uma criança, seu filho, e uma mulher, a sua esposa.

Mário carregava uma bandeja com a refeição matinal de Daniele, um banquete. Daniele viu em seu marido o desejo de reconciliação. Espicaçavam-na, no entanto, dúvidas e desconfianças. Desejava confiar em Mário, mas pressentia ameaças a rondá-la. Ela queria eliminar de si todas as dúvidas que lhe atassalhavam o espírito; a despeito dos seus desejos, todavia, não podia ocultar de si as suas desconfianças. Mário havia solapado a sua reputação de homem bom; e as suas atitudes, nos meses anteriores, não o favoreciam; talvez ele nunca reconquistasse a confiança irrestrita e incondicional de sua esposa.

Ao entrar no quarto, ele fechou a porta. Neste simples gesto, Daniele viu, em Mário, a intenção de impedi-la de escapar-lhe das garras. Mário não suprimiu da face o sorriso; e nos olhos dele Daniele leu súplica. Pareceu a Daniele que brilhava sobre a cabeça de seu marido uma auréola. Ele tornara a ser o marido que prezava a esposa como uma pessoa inestimável e o pai amoroso, solícito, afetuoso e dedicado, de Marcos Antonio e Aloísio? Qual Mário era aquele que Daniele tinha diante de si? O Mário que ela desejava, com o qual sonhava todas as noites, nos dois angustiantes anos precedentes, pelo qual havia se apaixonado aos dezesseis anos, ou o Mário, aquele monstro, aquela quimera teratológica, que convertia em pesadelos sinistros e tenebrosos os seus mais alegres sonhos? Ou o Mário que estava diante de si não era nenhum destes dois, mas um Mário novo, renascido das cinzas? Qual Mário, perguntou-se Daniele, tinha ela diante de si? Daniele queria tranqüilizar seu coração, que se revoluteava. Engoliu um soluço. Fitava Mário, olhos arregalados, abobalhada. Assim que ele se lhe achegou, ela se convenceu de que tinha diante de si o seu marido, o Mário que amava, conquanto se dissesse que era impossível em uma pessoa se dar tão grande mudança em tão pouco tempo. Daniele não se reconheceu, ao conscientizar-se dos seus pensamentos. Ela, que desejava que Mário tornasse a ser quem era quando o conheceu, agora, tendo-o diante de si, relutava aceitá-lo.

Mário pôs a bandeja cheia de guloseimas sobre o criado-mudo, e fitou Daniele, que ainda não estava completamente recomposta das dores que a afligiam. Tremiam os lábios de Daniele. Mário, com doçura e suavidade incomparáveis, passeou, suavemente, os dedos da mão esquerda pela testa de sua esposa, tirando-lhe os fios de cabelos que lhe caíam aos olhos e ajeitando-os atrás das orelhas, e pela face direita, depois, pela face esquerda. Entreolharam-se Mário e Daniele. Nos olhos dela Mário leu confusão, apreensão e disposição para perdoá-lo. Nos olhos dele Daniele leu arrependimento. Os olhos deles, desacompanhados de palavras, diziam o que as palavras jamais diriam. Expressavam o que ambos sentiam e pensavam a respeito do que vivenciaram até aquele dia. Todas as palavras que se disseram antes e depois do olhar daquele instante não lhes criaram tanta intimidade. Sobrevieram-lhe sensações agradáveis indefiníveis, indescritíveis. Daniele acalmou-se ao contemplar Mário, então recomposto, restituído a ele o temperamento amável e carinhoso, assim ela pensava. Tinha diante de si o Mário por quem se apaixonou, ela se convenceu ao fitar-lhe os olhos suplicantes. Ele lhe segurou as mãos, carinhosamente, amoroso e tímido. Uma corrente de felicidade percorreu o corpo de Daniele, que cerrou as pálpebras. Mário, dócil e afetuoso, tornou a afagar, amorosamente, as faces sofridas de sua esposa, que inclinava a cabeça para o lado que ele acariciava; com as duas mãos, ela segurou a mão esquerda de Mário, e lágrimas vieram-lhe aos olhos, e levou-a aos lábios, que se inflamaram, e beijou-a. E Mário segurou-lhe as mãos, trouxe-as para seus lábios, beijou-as, carinhosamente, sentou-se mais perto dela, e inclinou-se, para beijá-la. Ela cerrou as pálpebras, e recebeu-o de braços abertos, segurando-lhe as mãos ao peito. Sentia-se renascer, renovarem-se-lhe as forças, reanimar-se-lhe a pele. Uniram-se os lábios num beijo ardoroso. O aspecto sinistro e doentio de Mário abandonara-o, sem deixar vestígios. A palidez de Daniele se lhe apagara da face, sem deixar indícios. Daniele enlaçou Mário pelo pescoço, e atraiu-o para si, apertou-se a ele, como se desejasse impedi-lo de escapar.

Marcos Antonio e Aloísio, em algazarra estrondosa, correram para o quarto de seus pais. Marcos Antonio abriu a porta, empurrou-a, e precipitou-se quarto adentro, pulou na cama, e saltou sobre sua mãe. Aloísio entrou logo em seguida, seguido por Paula, que, esbaforida, desculpava-se por haver sido mal-sucedida em conter os meninos e impedi-los de entrar no quarto de modo tão abrupto e barulhento. Mário aceitou as desculpas, e declarou que ela descansasse. Sorrindo, um pouco vexada, ela se retraiu, e do quarto se retirou. Encontraram-se os olhares de Mário e os de Daniele. E Daniele abraçou seus filhos, que a cercaram de carinhos.

As duas crianças, de tanto pular sobre a cama quase a destruíram. Daniele e Mário sorriam, divertidos. Ele se lhe ajeitou ao lado, passou-lhe o braço por trás do pescoço, repousando-lhe a mão no ombro. Derretidos em alegria, brincavam com os filhos, saboreando de prazer inextinguível. Desfizeram-se da mente deles as cenas do dia anterior. Mário perguntou para Daniele, sussurrando-lhe ao ouvido, se ela estava com fome. Ela, o rosto radiante, respondeu-lhe afirmativamente, e ele levou-lhe à boca um pedaço de bolo, do qual desprenderam-se minúsculas partículas, que caíram assim que Daniele deu-lhe uma dentada arrancando-lhe um bom naco. Ela riu como se tivesse ocorrido a cena mais cômica do mundo, e ofereceu os lábios ao marido, solicitando-lhe um beijo. E ele lho deu.

Mário pediu aos filhos, que demoraram a atendê-lo, que cessassem os pulos, para que a mãe deles pudesse comer do bolo; e retirou-se do quarto; e eles o seguiram. Assim que passou pelo enquadramento da porta, acocorou-se, ofereceu as costas a Marcos Antonio, e disse-lhe que pulasse, que o carregaria de cavalinho. Num salto prodigioso, Marcos Antonio agarrou-se-lhe ao pescoço. Aloísio também desejava agarrar-se ao pescoço de seu pai. Os dois meninos dispuseram-se a principiar uma escaramuça. Mário impediu-os de se baterem. Ele ergueu-se – Marcos Antonio pendurado às suas costas, enlaçado ao seu pescoço – e, com o braço esquerdo, agarrou, pela cintura, Aloísio. Daniele divertia-se. Nada roubar-lhe-ia a alegria que lhe invadira o espírito. Mário, com Marcos Antonio agarrado ao seu pescoço e Aloísio a tiracolo, fechou a porta do quarto. E Daniele pôde, enfim, saborear, tranqüilamente, a sua refeição matinal.

Daniele ria. O seu sonho realizou-se tão depressa! Logo não se desfaria. A docilidade e a ternura de Mário, ela reconheceu, regozijada, eram as de Mário, o homem que ela amava e de quem teve dois filhos. Daniele recuperou muito de si mesma, naqueles poucos minutos, durante a refeição. A despeito da sua felicidade e da sua alegria, incomodou-a a lembrança do comportamento de Mário de há dois anos até o dia anterior, e pensou em, no momento oportuno, indagar-lhe o que se havia passado com ele nesse período. Exigir-lhe-ia, e com firmeza, as explicações, e não admitiria desconversa. Arrependeu-se de não tê-lo feito assim que percebeu um corpo estranho habitando-lhe o corpo.

Bebeu leite com mamão, comeu pão, pudim, banana e melão; ora tranquila, ora voraz, comia o pedaço do que pegava, e sorvia o conteúdo do copo que levava à boca.

De outros compartimentos da casa, chegavam-lhe aos ouvidos sons da divertida algazarra de seus filhos e de seu marido. Perguntava-se o que se havia passado desde o instante em que desmaiara.

Consumiu todo o sortimento de bolos e frutas e sucos que Mário lhe oferecera. Em seguida, satisfeita, lambeu os dedos, limpando-os, e recostou-se à cabeceira da cama, suspirando, deliciada com a sortida refeição. Cerrou as pálpebras, cruzou os dedos das mãos ao ventre, encheu de ar os pulmões, e esvaziou-os. Pouco tempo depois, conciliou o sono, e dormiu profundamente.

No quarto, Daniele dormia. Na sala, brincavam Mário, Marcos Antonio e Aloísio. A harmonia, a paz e a tranquilidade reinavam absolutas. Ninguém diria que naquela casa quase se havia consumado uma tragédia.

Mário entreteve seus filhos com adivinhações, anedotas, jogos de damas, e de memória, e, no holograma, com jogos de automobilismo, motociclismo e futebol. E participaram das brincadeiras Paula, e o cão-robô, que se exprimia, em linguagem humana, com vastíssimo repertório lingüístico, fluência em quatorze idiomas, e tocava piano, pulava corda, andava de bicicleta, fazia mágicas, malabarismos e truques de prestidigitação que embasbacavam o seu público de quatro pessoas.

Pouco tempo antes do princípio do anoitecer, antes de dispensar Paula, Mário ditou-lhe as tarefas do dia seguinte.

Pai e filhos divertiram-se com o cão-robô até tarde da noite. Os meninos adormeceram, e Mário levou-os ao quarto, e aninhou-os cada um em uma cama.

Mário foi ao seu quarto, onde Daniele dormia. Pegou a bandeja com os talheres, copos, pratos, jarras, e levou-a à cozinha. Depois, foi à biblioteca, pegou uma caneta e um caderno de anotações, e escreveu um longo artigo com observações associadas à neurologia e outras – considerando as mais recentes descobertas científicas propiciadas pelos mais modernos equipamentos – que envolviam questões relacionadas com a vida na Terra e no universo, e algumas palavras acerca da sua situação, recheadas de dúvidas e mistérios.

No artigo científico, tratou, com argumentos prolixos – sem uma palavra supérflua, porém -, de questões científicas baseadas em experiências. Publicado, em periódicos científicos, o artigo promoveria controvérsias, nos quatro cantos do mundo, entre os mais conceituados cientistas, e Mário ganharia renome e uma legião de admiradores e uma legião de detratores e caluniadores. Ao primeiro artigo se seguiriam outros quarenta e sete, todos recheados com explicações e informações que ele extrairia de novas descobertas. E todos os artigos reunidos resultariam num livro de seiscentas páginas. Tratou, em poucas linhas, no primeiro parágrafo do primeiro artigo, em tom confessional, numa atitude que para ele atrairia a atenção de pessoas que até então dele nunca tinham ouvido falar e que se tornariam suas admiradoras, das suas escassas experiência e formação científica, e do trabalho dos cientistas, trabalho que se estende por toda a vida, ilustrando os seus argumentos com breves biografias de cientistas que, já falecidos, ocuparam-se, durante toda a extensão da sua existência, com trabalhos que deixaram inconclusos, legando às gerações seguintes a árdua tarefa de dar-lhes sequência. Os humanos, escreveu Mário neste artigo, guardamos uma vontade indestrutível de tudo conhecer, compreender e transformar; o homem, livre, desprende-se de todo interesse material e alça vôo em especulações metafísicas; era contraproducente, segundo Mário, aferrar-se ao mundo material, certo de que na matéria a vida se encerra; para ele os cientistas que não vêem nada além da matéria e negligenciam o que a transcende reduzem a sua condição humana à de um animal irracional. O ato de pensar é um exercício que transcende a matéria, portanto, concluiu, pensar que a vida humana limita-se à matéria é um contra-senso.

Sem falar de si, trataria, em um artigo acerca de clonagem, de questões que o atormentaram nos dois anos anteriores. Neste, usando técnica literária narrativa, distinto dos outros quarenta e oito artigos que reuniria num único volume de seiscentas páginas, todos de caráter científico, explicitou suas idéias acerca das sensações, sentimentos, emoções, das pessoas que ou se sabiam clones, ou duvidavam de que o eram. Reescrevê-lo-ia, até emprestar-lhe linguagem acessível aos leigos, durante três anos, e o ampliaria até ele assumir as dimensões de um livro de duzentas páginas. E os dois livros ele os ofereceria à uma editora, para publicação. E a editora os publicaria. Transcorrido um ano da publicação dos livros, Mário, tornando-se um cientista popular, amealharia fortuna considerável. Traduzidos os livros para dezenas de idiomas, publicados em quase todas as nações, Mário se converteria numa celebridade mundial. Seria laureado em inúmeros países, reputado cientista arguto, psicólogo profundo, estilista primoroso, requintado, simples e criativo. Famoso e rico, viajaria para vários países. E palestraria nas mais conceituadas faculdades do mundo.

Daniele, Marcos Antonio e Aloísio dormiam, mergulhados, profundamente, num longo sono. Na casa imperava o silêncio. O dia amanheceria dentro de pouco tempo. Mário encaminhou-se, bocejando, espreguiçando-se, ao quarto, onde o abajur, à cabeceira da cama, estava aceso. Antes de se deitar, admirou, maravilhado, o rosto encantador de sua esposa, adormecida tal qual uma princesa de um conto de fadas, e acariciou-lhe as faces. Deu-lhe um beijo nos lábios, suave, levantou-se, e foi ao banheiro. E despiu-se. Abriu a torneira, e pôs-se sob as águas que caíam dos furos do chuveiro. Pensou, enquanto se refrescava, se deveria, ou não, contar à Daniele tudo o que se havia passado com ele desde o dia em que um homem idêntico a ele se lhe esbarrou em uma rua movimentada. Ao ouvi-lo, ela o consideraria um tolo? Rir-se-ia dele? Convenceu-se que ela dele não iria rir, pois ela não era uma mulher vulgar, que ri de uma questão daquela gravidade. Ela o ouviria, e compreenderia, ou esforçar-se-ia para compreender, o que se passava com ele. Mário pedir-lhe-ia desculpas, desculpas que ela merecia ouvir, e ela merecia ouvir dele tudo o que ele tinha para lhe contar, mas ele, confuso, atormentado, não sabia se lhe contaria. Há dois anos, decidiu não lhe contar o que se deu consigo e consigo guardou a história, que, para ele, envolvia muitas questões e não apenas a existência de um suposto irmão (se se pode considerar irmão um clone). Qual teria sido a reação dela se ele lhe tivesse contado a história? Quantas, e quais, perguntas ela não se faria e quantas faria a ele? Perguntas que talvez encerrassem a vida em comum deles? Se concluísse que ele fosse um clone, ela deduziria que ele era desprovido de alma, de espírito, de consciência, enfim, que ele não era humano, e dele se divorciaria? Mário decidiu: Confiaria a sua história à Daniele – devia tê-lo feito há muito tempo.

Desligou o chuveiro, pegou uma toalha, enxugou-se, vestiu o pijama, deitou-se, na cama, e beijou, dócil e ternamente, a testa de sua esposa, apagou a lâmpada do abajur, pousou a cabeça no travesseiro, e dormiu.

Daniele acordou pouco tempo depois de o Sol raiar. Voltou-se para o seu marido, que dormia profundamente. Acarinhou-o, e colou seus lábios aos dele, e os manteve unidos durante alguns segundos. Passeou-lhe as mãos pelas faces, saiu de sob o fino lençol, sentou-se à beira da cama, espreguiçou-se, vestiu uma camisola, que estava estendida ao espaldar de uma cadeira ao lado da cama, calçou os chinelos, saiu do quarto, e desceu a escadaria, lentamente, bocejando e esfregando os olhos, e andou até a sala. Marcos Antonio e Aloísio divertiam-se com um jogo de futebol holográfico. Marcos Antonio ditou uma ordem ao computador central, e estacaram-se os homens holográficos sobre a mesa-de-centro, retangular. Ele e Aloísio correram até a mãe deles, e saltaram-lhe ao pescoço. Beijaram-na. E ela os beijou e perguntou-lhes se eles já haviam tomado o café-da-manhã. Eles responderam afirmativamente. E ela demonstrou interesse pelo jogo holográfico com o qual eles brincavam.

Paula entrou na sala, e saudou, acanhada, Daniele, desejando-lhe bom dia, e perguntou-lhe se ela desejava fazer a refeição da manhã, na sala, com os filhos, que já haviam comido uma sortida provisão de frutas, biscoitos e bolachas, ou na cozinha. Daniele notou-lhe o tom baixo da voz, a lentidão na pronúncia das palavras, o esforço que ela exercia para controlar-se, a cabeça inclinada para baixo, o olhar apontado para o chão, o tremular, quase imperceptível, dos lábios, e das mãos, que traziam os dedos, entrelaçados, à barriga. Não lhe fez perguntas. Supôs, e corretamente, que ela desejava contar-lhe algo, mas não o faria diante de Marcos Antonio e Aloísio. Paula retirou-se da sala, e tornou à cozinha. Daniele disse aos filhos que iria à cozinha e que eles prosseguissem com o jogo, e, assim que bebesse o leite e comesse algumas frutas, retornaria à sala para vê-los jogar futebol holográfico.

Na cozinha, Daniele encontrou Paula mergulhada em lágrimas, choro convulsivo a deformar-lhe a fisionomia, os lábios retorcidos numa conformação extravagante, soluçando, espasmodicamente, sentada à mesa, na mesa fincados os cotovelos, o rosto enterrado nas palmas das mãos. Aproximou-se dela, puxou uma cadeira, nela sentou-se, achegou-se à Paula, e falou-lhe com voz modulada, para reconfortá-la.

Paula balbuciava. Era impossível entendê-la. Daniele ouviu sílabas de algumas palavras que ela proferiu. Dilapidando as palavras, Paula, numa narração confusa, contou-lhe a sua história. Daniele ouviu-a, atentamente, sem interrompê-la, conquanto não compreendesse boa parte do que ela lhe dizia, e com voz terna, certa de que algo muito grave ocorrera-lhe, pediu-lhe que se acalmasse, e ofereceu-lhe água de um copo.

Paula bebeu da água. Em nenhum momento cessou o choro, os soluços e as palavras balbuciadas. Daniele, sem a compreender, paciente, falou-lhe palavras confortadoras, a voz modulada num timbre suave, acalmando-a. E calma, num tom audível, Paula narrou-lhe os eventos dramáticos da véspera, eventos durante cujo transcurso um bandido alvejou o seu marido e feriu os seus três filhos.

Daniele ouviu o relato, e sentiu, na sua carne, a violência que praticaram contra Paula e sua família. A despeito das amarguras que a afligiam, consolou a sua desafortunada empregada doméstica. Minutos depois, telefonou ao hospital em que o marido dela estava internado. E informaram-na que era estável o estado clínico dele.

Desligado o telefone, conversou com Paula, e aconselhou-a a ir para casa descansar e ocupar-se com os filhos. Paula chorou, abraçou-a, agradecida, enxugou os olhos, e despediu-se. Daniele pediu-lhe que a comunicasse de qualquer notícia importante, e, se precisasse, que recorresse a ela, ou a Mário. Paula agradeceu, sem articular uma palavra, e retirou-se.

Tirou-a das suas meditações a balbúrdia que seus filhos promoviam. Ouviu, da cozinha, as gargalhadas e os gritos de Marcos Antonio e Aloísio, gargalhadas e gritos que prenunciavam a irrupção de uma briga, que, contrariando todos os prognósticos, não sobreveio. Pôs talheres, copos e pratos na lavadora. A campainha soou. Pelo monitor da porta da geladeira, conversou com um vendedor ambulante, que lhe ofereceu redes, tapetes e almofadas. Despedindo-se, ele lhe agradeceu, e foi oferecer o rico sortimento de produtos ao vizinho da esquerda. E Daniele concentrou-se em suas tarefas. Concluídas as tarefas, ela enxugou as mãos numa toalha pendurada num suporte ao lado do filtro, saiu da cozinha, e foi à sala, onde Marcos Antonio e Aloísio divertiam-se com jogo de futebol holográfico, que se encerrou com o placar favorável a Aloísio, que, eufórico, comemorou a vitória. Essa foi uma das raras vezes que ele derrotou seu irmão no futebol holográfico. Marcos Antonio, acostumado a vencer, emburrou. E os dois meninos selecionaram um jogo de corrida de carros.

Durante as duas horas da corrida, Daniele atendeu à campainha quatro vezes, ao telefone sete vezes, comandou as máquinas a executarem as tarefas programadas e preparou o almoço. E dirigiu-se ao quarto, onde Mário dormia, ressonando, ruidosamente, num sono profundo.

Marcos Antonio e Aloísio anunciaram à mãe a fome que os atassalhava. Ela lhes disse que lavassem as mãos e fossem à cozinha, para almoçarem.

Poucos minutos depois, Mário, estremunhado, os olhos encovados, o rosto marcado de sulcos, os cabelos despenteados, esfregando os olhos e coçando a cabeça, foi à cozinha. Os ruídos dos seus passos e os seus gemidos atraíram a atenção de sua esposa e de seus filhos. Marcos Antonio abriu um largo sorriso, apontou, com o dedo indicador da mão direita, seu pai, gargalhou, e disse que ele vira um fantasma. As suas gargalhadas, tão espontâneas, contagiaram seu irmão e sua mãe. Mário abraçou-o, e abraçou Aloísio, e contornou a mesa, e saudou Daniele, que lhe deu um carinhoso puxão de orelhas e censurou-o por causa dos cabelos despenteados, do pijama, impróprio para uso na cozinha, e puxou-lhe as orelhas segunda vez. Marcos Antonio e Aloísio gargalharam. Mário representou o seu personagem naquela peça teatral improvisada: a de um marido que, com a sua falta de modos, dava mal exemplo aos filhos. Estes pronunciaram-se a favor da mãe deles, e apoiaram-na nas recriminações ao pai, que se viu no dever de acatar as ordens que lhe foram dadas: banhar-se e vestir uma roupa adequada. Mário retirou-se da cozinha, foi ao banheiro, banhou-se, substituiu o pijama por camisa e bermuda, regressou à cozinha, e sentou-se à mesa, sobre a qual Daniele arrumara-lhe um prato com um sortimento de comida de dar água na boca.

Durante o almoço conversaram, riram, gargalharam, contaram histórias e anedotas, e fizeram inúmeras adivinhações. Os temas da conversa não eram para hipocondríacos, para velhos caturras, para pessoas que não participavam da vida daquela família.

Após o almoço, Mário sugeriu aos filhos entreterem-se com jogos no holograma. No paroxismo da alegria, eles acolheram a sugestão, expandiram-se em algazarra, e principiaram balbúrdia, que Daniele cessou ao dizer, para Mário, que eles, durante mais de duas horas, na manhã, brincaram, no holograma, com jogos de futebol e corridas de carro. Os meninos, então, certos de que não mais poderiam brincar com jogos holográficos, olharam para Mário, que propôs irem à quadra do parque jogar basquete. Marcos Antonio e Aloísio expandiram-se, excitados, numa euforia ruidosa. Pularam, cabriolaram e correram ao quarto buscar a bola de basquete. E com os olhos Mário procurou pelos olhos de Daniele, e declarou-lhe que desejava falar-lhe, longamente; deixariam os filhos com os pais dela, ou com Catarina, e ele confidenciar-lhe-ia tudo o que sucedeu a ele, Mário, nos dois anos precedentes, e ela, então, entenderia, dele, o desvario, a taciturnidade, a conduta, que se degradou a ponto de ele vir a agredi-la e aos filhos e fazer da vida deles um inferno. Embargou-se-lhe a voz, tremeram-se-lhe os lábios, brotaram-se-lhe lágrimas dos olhos, contraiu-se-lhe o rosto quando proferiu as últimas palavras, a voz reduzida a sussurros quase inaudíveis. Enfim, chegaram-lhes aos ouvidos os ruídos eufóricos dos filhos, que deles se aproximavam. Com as mãos, Mário enxugou seus olhos, e sorriu. Fitaram-se Mário e Daniele, em silêncio. Marcos Antonio e Aloísio, entusiasmados, regressaram à cozinha, nas mãos de Aloísio a bola de basquete. Mário disse-lhes que se divertiriam muito, levantou-se, e foi neste momento que notou a ausência de Paula e dela perguntou à Daniele, que lhe disse que, depois, inteirá-lo-ia do que se sucedera a ela.

Daniele e Mário, de mãos dadas, ele segurando, com a mão direita, dela, a mão esquerda, andaram, da casa até o parque, alguns metros atrás dos filhos. Conversaram. Ele, a balbuciar, sem encontrar as palavras apropriadas para expressar os seus pensamentos, de cabeça baixa, a coçá-la a curtos intervalos, disse à sua esposa que, ao acordar, na biblioteca, entontecido, sentindo-se como se houvesse saído de um pesadelo, fôra ao quarto, e a vira, dormindo, na cama, de atravessado, os braços bem abertos, e dela aproximara-se, limpara-lhe as feridas, arrumara a cama, e deixara-a, deitada, sob o lençol, e do quarto retirara-se. Encerrou o relato sem entrar em pormenores. Era-lhe difícil falar. Gaguejou o tempo todo, soluços entrecortando-lhe as palavras. E Daniele contou-lhe a história que Paula narrara.

Chegando ao parque, Marcos Antonio foi até um menino acompanhado de sua mãe – uma jovem de um pouco mais de vinte anos, branca, de cabelos pretos e lisos, gestos suaves, voz macia, a embalar ao colo uma menina de um ano, profundamente adormecida e com uma chupeta azul na boca -, e com ele entabulou conversa. O menino disse-lhe que estava indo embora e que brincara durante um bom tempo. Um robô carregava os brinquedos dele e uma bicicleta preta com o pneu dianteiro murcho. Daniele aproximou-se da mãe dele, e perguntou-lhe da menina que ela embalava. A mulher chamava-se Márcia; seu filho, Luís; sua filha, Margareth. Márcia disse que estava indo embora porque o robô recebera, minutos antes, um telefonema do pai dela pedindo-lhe que regressasse à casa. Ligeiramente apressada, pediu licença a Daniele, despediu-se dela, de Mário, de Marcos Antonio e de Aloísio, e Luis despediu-se de Marcos Antonio, acenou para Aloísio, Mário e Daniele, e segurou, com a mão direita, a mão esquerda de sua mãe. E afastaram-se deles, e o robô seguiu-os.

Não havia ninguém na quadra de basquete. E na praça poucas pessoas. Na quadra poliesportiva ao lado, seis jovens jogavam futebol.

Buliçosos, chegaram à quadra; e Marcos Antonio logo tratou de arremessar ao cesto a bola de basquete.

Mário executou algumas jogadas, gingando o corpo para lá e para cá, fez os filhos correrem atrás dele, para tirarem-lhe das mãos a bola, e sempre que eles a encestavam, aplaudia-os, animado. Ensinou-lhes as regras do basquete. Marcos Antonio e Aloísio pediram à Daniele, então sentada na pequena arquibancada, que ela participasse da brincadeira. Ela fez-se de rogada; eles insistiram tanto, que ela cedeu-lhes aos rogos e na quadra entrou, puxada, empurrada e arrastada por eles. Desajeitada, ela jogou a bola ao cesto oito vezes, provocando risos e gargalhadas em Mário, que chorou de tanto rir, e nos filhos, que gargalharam, incontroladamente.

Divertiram-se até esgotarem-se. Sentaram-se na arquibancada. Aproximou-se deles um homem, que empurrava um carrinho de sorvetes. Ao vê-lo, Marcos Antonio pediu ao pai um sorvete. Decorridos alguns minutos, Marcos Antonio e Aloísio chuparam, cada um deles, dois sorvetes, aquele, um de morango e um de doce-de-leite, este, um de laranja e um de chocolate. E Mário e Daniele chuparam, cada um deles, um sorvete, ele, de pêssego, ela, de framboesa. Decorridos alguns minutos, rumaram os quatro até uma lanchonete, distante da quadra duzentos metros, no quarteirão ao lado da praça, e comeram pastéis e coxinhas e beberam refrigerantes. E ao crepúsculo regressaram à casa.

Banharam-se. Decorridos um pouco mais de vinte minutos, dormiram Marcos Antonio e Aloísio, na sala, enquanto assistiam a um desenho animado. E Mário carregou Marcos Antonio ao quarto; e Daniele ao quarto carregou Aloísio.

Em um futuro não muito distante – parte 3 de 8

O que mais incomodava Mário não era a suposta existência de um clone seu (ou de um homem do qual Mário foi clonado), mas qual teria de ser a sua conduta ao abordar tal assunto com seus pais. Não poderia desrespeitá-los. Teria de tratar com eles a questão, discreta e cautelosamente. Eles eram dotados de inteligência penetrante e o conheciam bem; desconfiariam das suas intenções, se o assunto não fosse devidamente apresentado, caso eles reservassem algum segredo. Sabia Mário que teria de esperar pela ocasião apropriada para falar com eles a respeito; poderia tocar no assunto, durante uma conversa descontraída, assim que alguém se referisse à clonagem humana, tema que não lhes era estranho; teria de fazê-lo de modo espontâneo e natural, ocultando-lhes as suas intenções. Mas não desejava ter de fazer isso. Sabia que seu rosto transpareceria os seus sentimentos e lhes inspiraria perguntas. A profissão de Rodolfo e Valquíria favorecia Mário. Genética é um tema comum nas conversas deles, e eles, não raras vezes, à mesa, durante as refeições, falavam de processos de clonagem humana. As perguntas que lhes apresentava, inspiradas pela curiosidade que o tema lhe despertava, Mário sempre as fazia com naturalidade e espontaneidade. Mas, e agora? Ser-lhe-ia possível manifestar a naturalidade e a espontaneidade de sempre? Que tom de voz teria de empregar? A ansiedade, na hora de formular os seus comentários acompanhados de perguntas, se lhe transpareceria no rosto, atraiçoando-o? Como teria de encarar seus pais? Olhar-lhes-ia nos olhos? Suportaria os olhares deles? Os olhares deles o subjugariam? Um gesto seu indicar-lhes-ia um sentimento oculto? Ele lhes ocultaria os seus intentos? Saberia como fazê-lo? Teria coragem de tratar da questão abertamente? Perguntar-lhes se eles o clonaram, ou se clonaram outro homem, sendo Mário, portanto, um clone, seria como se os esbofeteasse. Preferia viver com a dúvida, vivesse o quanto vivesse, certo de que ela o atormentaria, do que magoar seus pais, que interpretariam a sua atitude como fruto de desconfiança e desamor, e fitá-lo-iam com desagrado, entristecidos, desiludidos. Mário enredava-se num emaranhado inextricável de questões, dúvidas, suposições.

Mário dirigia o carro, lentamente, por ruas movimentadas. A sua lentidão não se devia à atitude, paciente, ao dirigir o carro, naquele trânsito caótico, nem ao respeito às leis que limitavam a velocidade, mas às ruas coalhadas de veículos, o que lhe tornava impossível ir mais rápido do que ia. Estava concentrado na direção e no que acontecia à volta, conquanto o incomodassem pensamentos indesejáveis. O trânsito, caótico, exigia-lhe, quisesse ele ou não, toda a atenção; ainda assim, toda ela era escassa para protegê-lo daquele pandemônio. Os motoristas, parecia, brandiam o volante, em um campo de batalha, e lançavam o veículo uns contra os outros, para decidirem quem chegaria – vivo, se possível – ao destino.

Os transtornos eram enervantes, naquele trânsito movimentado e ruidoso, e intensificar-se-iam ainda mais ao ocorrer um engarrafamento de mais de duzentos quilômetros, engarrafamento que cruzava a cidade quase que de uma extremidade à outra. Atrás do carro em que ia Mário um motorista buzinava sem cessar. Mário cobriu com as mãos as orelhas para abafar os ruídos que lhe feriam os tímpanos. Bombardeou-o uma tempestade torrencial de buzinadas e berros. Exacerbaram-se os ânimos. As pessoas ameaçavam-se umas às outras, insultavam-se. Quanto mais buzinavam e berravam, mais espicaçavam os ânimos umas os das outras; e geravam mais protestos, mais buzinadas, mais insultos. Se ninguém desse um basta, a turbamulta degenerar-se-ia em lutas corporais. Alguns policiais, entre os veículos, pediam calma aos motoristas e aos passageiros, e robôs os informavam das causas do congestionamento e anunciavam-lhes as medidas tomadas para desafogar o trânsito e restituí-lo à normalidade.

Provocara o engarrafamento um acidente envolvendo dois caminhões (um dos quais carregava líquido inflamável) – informaram os policiais humanos e os robôs envolvidos na tarefa, indispensável, e urgente, de esclarecer a população. A colisão entre os dois veículos fôra indescritível. O motorista do caminhão com líquido inflamável cochilara ao volante, e o caminhão colidira com a lateral de outro caminhão. E ambos os caminhões tombaram. O motorista do caminhão carregado de líquido inflamável morrera esmagado entre as ferragens. E o líquido inflamável, fluindo por várias frestas abertas na blindagem do tanque, esparramara-se pelo asfalto. A força pública de emergência agira imediatamente, e controlara, em pouco tempo, a situação. Evacuara, de imediato, todos os prédios das proximidades, devido ao risco iminente de uma explosão, que não demoraria a ocorrer. As pessoas e os robôs envolvidos no plano de emergência agiram a tempo de evitar o alastramento das chamas; e nenhum prédio fôra seriamente avariado. Estilhaçaram-se algumas janelas.

Removidos os caminhões envolvidos no acidente, o líquido inflamável e os destroços, conduzido ao hospital o motorista sobrevivente e à sala de autópsias o motorista falecido, o trânsito fluiu normalmente.

Mário, contrariado, permanecera parado durante mais de meia hora. Não podia ir nem para a frente, nem para trás. Desfeito o congestionamento, o trânsito fluindo lentamente, conseguiu, depois de alguns contratempos, retirar-se do lugar. Pouco tempo depois, presenciou um roubo e a prisão do ladrão. Menos de vinte minutos depois, chegou à Academia. Naquele dia teria de desdobrar-se para concluir as suas inúmeras tarefas.

Para ninguém falou das suas experiências da véspera. Apresentou uma desculpa verossímil, que justificava a sua ausência no dia anterior: ficara na sua casa redigindo um texto com observações acerca dos experimentos realizados nos dias anteriores. Era-lhe inadmissível perdê-las. Como todos os colegas de trabalho reputavam-no um homem íntegro (e ele o era, de fato), nenhum deles iria averiguar a veracidade das afirmações que ele deu. A sua história estaria assegurada, desde que não tocassem no assunto, nos próximos dias, diante de Daniele, ou à ela dirigissem algum comentário a respeito – e nem a Rodolfo, e nem à Valquíria.

Sempre que desviava os seus pensamentos das pesquisas e dos estudos, mergulhava na angustiante hipótese de haver um clone seu andando pelas ruas. Um? Ou mais de um? Ou daquele homem contra o qual Mário esbarrara no dia anterior, Mário e outros homens – que talvez existissem – foram clonados? Tais interrogações repetiam-se, incessantemente, no cérebro, já abalado, de Mário, martelando-lho.

À noite, exausto, foi para a sua casa, pensando, durante todo o trajeto, na possibilidade de ou ter sido clonado, ou ser ele um clone de outro homem. Nenhuma das duas hipóteses agradava-o.

Na sua casa, na companhia de Daniele, Marcos Antonio e Aloísio, viveu momentos divertidos. Ajudou Marcos Antonio e Aloísio nas tarefas escolares, esclarecendo-lhes questões que eles não haviam compreendido.

Daniele disse para Mário que o pai dele enviara-lhe o convite para o congresso.

À noite, Daniele não falou para Mário a respeito das observações que fizera do comportamento dele, estranho aos olhos dela. Esperou que ele lhe dissesse o que o incomodava, caso o desejasse, e se algo realmente o incomodava.

Marcos Antonio e Aloísio dormiram no sofá da sala. Marcos Antonio ressonava. O sono de Aloísio era silencioso. Mário carregou Marcos Antonio ao quarto, e Daniele, Aloísio, e os ajeitaram cada um deles em uma cama, e os cobriram com um fino lençol.

Os filhos dormindo, Mário e Daniele foram à biblioteca, que servia, também, de sala de conferências, onde conversaram entre um copo de suco e outro e um biscoito e outro. Daniele deu-lhe uma notícia: sua mãe, Samantha, comunicara-lhe, pelo telefone, que Pâmela fugira de casa, na noite anterior, quando dormiam ela, Samantha, e Alceu, pai de Daniele. Daniele narrou a história que sua mãe lhe narrara, resumindo-a, e suprimindo pormenores que não contribuíam para o seu entendimento. Mário não ouviu todas as palavras; escaparam-lhe alguns trechos da narração porque os seus pensamentos desviavam-se para outras questões, nelas concentrando-se. Daniele notou-lhe os momentos de devaneio; agindo como se nada percebesse, não interrompeu a narrativa. Mário teceu alguns comentários, fez-lhe algumas perguntas, manifestando, aparentemente, interesse pelo episódio.

Transcorreram-se os dias. Daniele amargurava-se com o progressivo afastamento de Mário. Antes, tinham eles o hábito de, à noite, manter prolongadas conversas durante as quais tratavam de política, religião, notícias transmitidas por agências de informações, conflitos étnicos; agora, as conversas resumiam-se a rápidas trocas de notícias desimportantes e trivialidades envolvendo pessoas conhecidas. Mário, notava Daniele, reduzia, no transcurso dos dias, a sua participação nas conversas, até reduzi-la a comentários ligeiros, desinteressados. Decorridos outros dias, as relações entre eles resumiram-se às saudações frias e secas; e ele a beijava, no rosto, sem o calor e a ardente paixão costumeira. Daniele entristecia-se. Mário, parecia-lhe, havia perdido o afeto e o carinho que por ela nutria. Não a abraçava como o fazia de hábito, não a acariciava, e dela não recebia as carícias com o mesmo prazer de antes. No princípio, notou Daniele, apenas dela ele afastava-se; com o tempo, ela percebeu, ele se distanciava de Marcos Antonio e de Aloísio, com os quais anteriormente, abandonando-se em diversões animadas, viravam a casa de pernas para o ar e punham Daniele de cabelos em pé. Esses dias felizes tornaram-se recordações de um tempo que nunca mais voltaria, pensava Daniele, entristecida. Mário à esposa e aos filhos tornou-se insuportável. Negava abraços aos filhos, que, confusos, fitavam-lo, e entreolhavam-se, e olhos marejados, amargurados, suplicantes, buscavam Daniele, no desejo de ouvir, dela, explicações a respeito da conduta do pai. Daniele doía-se com a frieza de Mário para com ela e os filhos. Chorava, escondida, os olhos avermelhados, fundos. Mário não lhe notava o semblante entristecido, amargurado, angustiado. Ou o notava, mas não desejava envolver-se, nem com a esposa, nem com os filhos. Ele se confinou em suas cismas. Daniele prostrou-se, desanimada. O seu trabalho reduzia-se em qualidade. Suportou Daniele a indiferença de Mário durante dois anos, durante os quais perdeu um pouco do viço e da beleza; não cuidava mais da aparência; vestia-se com desleixo; não sorria; não ia às festas; perdeu o gosto por afazeres e atividades que lhe eram prazerosas. Marcos Antonio progredia na escola; Aloísio, não – não era dotado de inteligência equivalente à de seu irmão, e enfrentava muitas dificuldades no aprendizado. Mário não partilhava com Daniele as preocupações cotidianas; não se interessava pelos estudos dos filhos; vivia consigo e para si, e recusava contato de outras pessoas; insulou-se na sua casa, ilhou-se na Academia.

Havia muitos dias, Mário não se dignava a dirigir a palavra à esposa e aos filhos. Quando Marcos Antonio e Aloísio corriam na sua direção, assim que ele regressava da Academia, para lhe saltarem ao pescoço, e abraçá-lo, ele não se reclinava para recebê-los nos braços; permanecia ereto, sisudo, e dizia, ríspido, que não tinha tempo para abraços, e dirigia-se à biblioteca, onde se trancava, sem dignar-se a olhar para a sua esposa e para seus filhos.

II

Nos dois anos que se seguiram àquele dia singular, Mário vislumbrou, em quatro ocasiões, no meio da multidão, quando andava pelas calçadas, o homem idêntico a ele. Duas vezes, na mesma cidade, próximo do local em que o vira pela primeira vez; uma vez, na cidade de B… na mesma megalópole, e uma vez, na cidade de D…, na megalópole de K…, a primeira megalópole ao norte da megalópole de A… Todas as questões que Mário se fazia ele as refez, e, a cada vez que as refazia o fazia com mais obsessão. As suas meditações mergulhavam-no em fossas abismais. À visão de “ele” (o suposto clone de Mário, ou o original de quem Mário fôra, talvez, clonado) exacerbava-se os sentidos de Mário, que se afundava nas cismas que o atormentavam, obcecado por respostas às interrogações que se fazia e para as quais não tinha resposta. Agia como um espectro, exibia aspecto fantasmagórico, parecia um autômato. Desumanizou-se. Corria, esquecendo das suas obrigações e do seu trabalho, ao divisar o homem idêntico a si, em perseguição a ele  e ele sempre fugia-lhe. Para Mário, a vida era um pesadelo. Para ele, um ente superior dele zombava. Mário sentia-se um boneco nas mãos de um espírito superior, que detinha o poder de controlar-lhe a vida, dirigi-la como o desejava, sem que ele, Mário, o soubesse. Mário conversava consigo mesmo, em voz alta, atraindo a atenção das pessoas pelas quais passava; resmungava pelas ruas; perdia o controle das suas ações; andava, sem rumo, pela cidade, em busca de “ele”, seu clone. Ou Mário era o clone de “ele”? Tal suspeita atormentava-o, e ele a moía e a remoía, e descabelava-se de tanto pensar a respeito. Era Mário um andarilho desocupado, que andava sem rumo, a zanzar como um vadio. Reduziu o tempo que permanecia na Academia. Dissipou tempo precioso à procura de um espectro, de um fantasma; e enterrava-se, cada vez mais, em suas cismas. Melindrava-se com facilidade, e após nove anos de vida comum com Daniele, pela primeira vez tratou-a com rispidez, frieza, e também aos filhos, berrando-lhes censuras, ameaçador, por razões absurdas. Da rispidez no trato com Daniele, passou à implicância; criticava-a por tudo o que ela fazia e desprezava o que ela apreciava e prezava. Se ela passava batom nos lábios, ele a reprovava, e, com brutalidade, removia-lho dos lábios, e declarava que a vaidade era uma peçonha que penetrava no espírito de mulheres volúveis. Se Daniele usava uma saia com as fímbrias um pouco acima dos joelhos, ou uma camisa discretamente decotada, ele, enfurecido, ordenava-lhe substituísse as roupas “indecentes, de rameiras” por roupas de “mulher decente, mãe e esposa respeitáveis”. E Mário vituperava. E berrava indecências. E clamava que o demônio havia lhe invadido a casa e se apoderado do espírito de Daniele, o que explicava, para Mário, o “comportamento desregrado” dela. Certo dia, Mário, ao ver Daniele trajada com um vestido florido, em fundo azul, cuja orla inferior descia até um pouco acima dos joelhos e cuja parte superior era decotada, mirando-se ao espelho, inspecionando o vestido, à procura de alguma dobra indesejada, de algum vinco, berrou, chamando-a de nomes que um marido jamais diz para a esposa, dela aproximou-se, rilhando os dentes, rosnando, alvejando-a com olhares penetrantes, segurou-a pelos ombros, apertando-lhos e sacudiu-a, e insultou-a, e perguntou-lhe aonde ela iria com aquele vestido indecente, e empurrou-a sobre a cama, e rasgou-lhe o vestido, arrebatando-lho com brutalidade. O vestido ficou em tiras nas garras de Mário, que vociferava e, com os dentes, rasgava, fora de si, as tiras, reduzindo-as a fiapos. Mário deixou Daniele com as peças íntimas, unicamente. Daniele tremia, as mãos ao peito, assustada, os olhos arregalados. E Mário, num acesso de loucura, a blasfemar, amaldiçoou-a, abriu o guarda-roupas, e retalhou todas as roupas dela que ele considerava indecentes. Camisas, saias, vestidos, maiôs, biquínis e peças íntimas, sedutoramente provocantes, na opinião de Mário, confeccionadas para perturbar os sentidos dos homens, para a perdição e a queda de Mário, que, desvairado, declarou que evitaria que isso ocorresse. Daniele conservou-se, na cama, sentada, acompanhando, os olhos arregalados, a ação desvairada do seu marido, perguntando-se se ele não havia perdido o juízo. Mário, atassalhado pela angústia, perdido o amor pela vida, o apreço pelas diversões e pelos prazeres que a vida oferece, não tolerava a alegria e os prazeres alheios. Desgostoso da vida, repugnavam-no os prazeres, que para ele se converteram em depravações. Tudo lhe era proibido; nada lhe era negado; ele se negava a deliciar-se com os prazeres da vida. Corroia-o a infelicidade; e ele não admitia a felicidade alheia, que o agredia, ferindo-o. Para ele, a exibição, por Daniele, de cordialidade, afeto, carinho e amor, era atitude de mulher vulgar e desprezível. Quando ela, discreta, manifestava desejo amoroso, Mário a repudiava, e tinha ela de ouvir recriminações de um moralista insano, que concebia quimeras acerca da conduta alheia, dotado de percepção distorcida da realidade. A partir de então, Daniele vestiu-se apenas com roupas comuns, que a cobriam das pontas dos dedos dos pés até o pescoço, num colarinho apertado; e as mangas das camisas terminavam nos pulsos. Tinha de se trajar assim inclusive nos dias tórridos de verão. Daniele perdeu o amor, não totalmente, pelos pequenos prazeres da vida. Não sucumbiu, apesar das suas amarguras, embora testemunhasse a gradual e ininterrupta decadência moral do seu marido, aos tormentos que a afligiam. Não permitiu que Mário, na sua insanidade (que Daniele desejava fosse passageira), a espoliasse do amor que ela nutria pelos filhos e por ele, Mário. Se não fosse uma mulher de fibra, confinar-se-ia na sua casa, distanciar-se-ia de todos e desprezaria as pequenas coisas da vida.

Daniele suportou o flagelo o quanto pôde, e nunca se curvou, submissa e resignada, à indiferença e ao desprezo que Mário lhe dedicava. A sua família dependia dela, naqueles dias tristes, para não se desfazer.

Os pratos saborosos que ela preparava Mário os reputava supérfluos, para o gosto de sensualistas, de hedonistas, e não para o paladar de gente sensata, decente e honesta.

Mário fez a sua esposa chorar quase que diariamente. Ela, altiva, diante dele, controlava-se; uma vez ou outra, os lábios trêmulos, quase a chorar, dizia-lhe qualquer coisa; certa vez, chorou diante dele, e dele ouviu palavras e risos de desprezo e indiferença.

Daniele vivia com os nervos à flor da pele. Não sabia mais em que pensar, e dissipava-se o seu amor pelo marido. Resguardou-se, porém. Não queria sucumbir àqueles que a cobiçavam, e a requestavam, que não eram poucos; carente de carinho e afeto, debilitado o seu ânimo, poderia vir a envolver-se em uma relação ilícita, que atassalhar-lhe-ia a alma. Daniele amava Mário. Aturou-o. Suportou-lhe as manias estapafúrdias, as grosserias, a indiferença, a rispidez no trato.

Certo dia, ao chegar na sua casa, após as vinte e uma horas, Mário nela entrou, calado, emburrado; não saudou sua esposa, e nem seus filhos. Estes, vendo-o transpor a porta, fitaram-no, desejando correr-lhe ao encontro, pular-lhe ao pescoço, enlaçá-lo com abraço afetuoso; não se moveram, no entanto. Mário virou-se para eles, e eles abriram sorriso de contentamento e prepararam-se para irem-se-lhe ao encontro, e fez-lhes um gesto brusco e, num tom ríspido, ordenou-lhes que não se lhe aproximassem. Fitaram-lo os meninos, confusos, num misto de medo e respeito. Desejavam abraçar o pai; o tom de voz dele, no entanto, petrificou-os. Os olhos de ambos os meninos refletiam-lhes a confusão que lhes ia no espírito e deles revelava a energia produzida pelo atrito entre a vontade de atirarem-se aos braços do pai e a de conterem-se e não irem ao encontro dele. Daniele, no sofá, sentada, folheando uma revista, deteve-se, a revista ao colo, e, apreensiva, assistiu à cena. Mário, passos firmes, com um empurrão repentino, arremessou Marcos Antonio para longe de si. Marcos Antonio escorregou por mais de um metro, e quase veio a bater com a cabeça na parede. Mário, sem tomar consciência do seu ato, não se deteve. Marcos Antonio, no chão, caído, assustado, chorou. Daniele correu a consolá-lo, estupefata; reclinou-se diante dele, e pegou-o ao colo, ele a chorar ruidosa e convulsivamente. Aloísio, confuso, vendo-o chorar, chorou também. Daniele embalou Marcos Antonio e, com voz musical, como se declamasse um acalanto, procurou sossegá-lo. Ele e Aloísio não ouviram as razões que ela lhes apresentou. Daniele sentou-se no sofá, enlaçando o primogênito, que, chorando e soluçando convulsivamente, trazia a cabeça enterrada no colo dela. E atraiu Aloísio, que chorava, para si, e ele se lhe sentou sobre a perna esquerda, o queixo encostado ao peito, encolhido. Terna, acolhedora, abraçada aos seus filhos, um fino filete de lágrimas a fluir-lhe de cada olho e a deslizar-lhe pelo rosto martirizado, balbuciava, lábios trêmulos, uma oração.

Marcos Antonio e Aloísio choraram durante um bom tempo. A voz de Daniele, de timbre suave, modulação adocicada, fê-los adormecerem ao colo dela. A fisionomia deles irradiava, na dor profunda da desilusão, uma pureza casta. Daniele aninhou-os, no sofá, e, rilhando os dentes, dirigiu-se, passos firmes, resoluta, à biblioteca, para onde Mário se dirigira. Exigir-lhe-ia explicações para a conduta atípica dele, estúpida e bruta. Reconstituía, em pensamento, a cena: Mário entrando na sala, e Marcos Antonio e Aloísio em pé, na esperança de receberem ternos e calorosos abraços e beijos paternais, mas receando do pai receberem, como se dava diariamente, sempre que ele regressava da Academia, olhares frios e palavras ríspidas; e o empurrão injustificado. Com o empurrão, Mário lançou longe Marcos Antonio. Se hoje Mário empurrou Marcos Antonio, o que ele faria, nos dias seguintes? – perguntou-se Daniele. E depois? Mário surraria Marcos Antonio? Quando Mário se libertaria da loucura que dele se havia apossado? Para Daniele, o empurrão que Mário deu em Marcos Antonio era o prenúncio de uma tragédia.

Daniele encontrou Mário sentado, ligeiramente inclinado, a pender para a esquerda, numa cadeira em cujo braço esquerdo tinha ele enterrado o cotovelo esquerdo. Trazia imóvel a cabeça, vazio o olhar, espectral a fisionomia, a aparência de um morto-vivo que emergira das profundezas do mundo dos mortos para atormentar a todos no mundo dos vivos. Palidez fantasmagórica cobria-lhe o semblante. Era insuportável para Daniele a visão do rosto do seu marido. Daniele deteve-se, e pensou em recuar. Decidida a conversar com Mário, puxou uma cadeira para si, dele aproximou-a, e a pôs na frente dele; nela sentou-se, inclinou-se para a frente. E fitou Mário, cujos olhos viam apenas o vazio diante de si. Dirigiu-lhe a palavra; ditou-lhe algumas censuras. Mário, abstraído da realidade, não ouvia o que ela lhe dizia. Se a ouvia, disso ele não deu provas. Daniele sentia as emoções a se lhe exacerbarem. Irritava-se. Começava a perder o domínio de si, domínio que já lhe era precário. Pôs-se a expressar-se em tom de voz elevado. Acelerou o ritmo das frases. Engasgou-se; gaguejou. Comeu sílabas. A voz saiu-lhe embargada. Tremiam-lhe os lábios. Os olhos arregalados, mirava o seu marido, então alheado do que se dava diante de si. Entrelaçou os dedos das mãos ao peito, súplice, pedindo a Mário explicações, esperançosa de ouvir-lhe a voz. Ouviu, no entanto, apenas silêncio fúnebre. Mário nenhum movimento esboçou. Olhava o vazio. De repente, levantou-se. Daniele dirigiu-lhe a palavra; ao receber o silêncio como resposta, acertou-lhe, com a mão direita, no rosto esquerdo, um tapa. E foi a reação de Mário, imediata, precedida de um olhar furioso: avançou sobre Daniele, os braços estendidos, as mãos abertas, para agarrá-la, pelo pescoço, e cravar-lhe, na jugular, as unhas. Agarrou-a, e ela se lhe desprendeu – não escapou ilesa, entretanto: um corte pequeno ficou-lhe no pescoço. Pareceu a Daniele que uma agulha lhe penetrara na carne. Mário, frustrado, avançou, em sua fúria animalesca e doentia, na direção de sua esposa, que recuava lentamente. Ela sentiu as mãos dele agarrando-lhe o vestido. Mário, segurando-a pelo vestido, e esticando-o, puxou-a. Daniele emudeceu. Queria gritar, mas suas cordas vocais desobedeceram-na; as palavras ficaram presas em sua garganta, um obstáculo irremovível a atravancar-lhes a passagem. Mário puxou-lhe o vestido, que se esgarçou. O vestido retalhado, ele o abandonou no assoalho. Nua da cintura para cima, Daniele nunca havia se sentido tão desprotegida, tão impotente. Resfolegava, o coração convulsivo. Bateu com o ombro direito contra uma das prateleiras, e tropeçou num banquinho, vindo a cair, de barriga para baixo, no chão, o joelho esquerdo batendo no assoalho. Mário saltou-lhe em cima, e segurou-a, com as duas mãos, pelo pé esquerdo. Ela escoiceava, as mãos no chão; com o pé direito livre, acertava pontapés em Mário, que sentia os golpes, ora nos braços, ora nas pernas, ora no ventre; uma vez, ao agachar-se para segurá-la pela cintura, ela atingiu-o, com o pé, o nariz, e ele soltou-a e ao nariz levou as mãos. Daniele correu, retirou-se da biblioteca, foi pelo corredor, passou pela sala, onde seus filhos dormiam profundamente, e rumou ao quarto, Mário no seu encalço. Subia as escadas, quando ele se lhe aproximou e, alcançando-a, no patamar superior, enlaçou-a pela cintura, e ergueu-a do chão. Em seu desespero, ela não conseguiu gritar. Debateu-se. Mário estreitou-a, e ela, agitada, moveu, involuntariamente, a cabeça para trás, no momento em que ele abaixava a cabeça, atingindo-lhe o nariz, e livrou-se dele. Mário urrou de dor, e levou as mãos ao nariz; ao afastá-las, fitou-as, e viu-as ensangüentadas; desvairado, avançou contra Daniele, que escorregou, e caiu deitada de barriga para baixo. Avançou sobre ela, e ela, virando-se, deitada de costas no chão, acertou-lhe, com o pé direito, a coxa. Mário contraiu de dor os músculos do rosto. Daniele levantou-se, e foi para o quarto, correndo, arfando; ao passar pelo enquadramento da porta, segurou a borda da porta, e puxou-a para fechá-la atrás de si, mas não o conseguiu, pois Mário colocara-se, uma fração de segundo antes, entre a porta e o batente. Mário comprimiu os músculos do rosto, que se deformou no esforço de abrir a porta. Daniele, por sua vez, parecia esmorecer. Mário, enfim, abriu a porta ao empurrá-la, bruscamente, arremessando, para trás, Daniele, que caiu no chão atapetado. Resfolegando, desesperada, os cabelos despenteados, ela se levantou, deu vários passos para trás, e encostou-se à parede, a tremer da cabeça aos pés. Mário saltou-lhe, ameaçadoramente, em cima, os dentes a rilharem, os olhos a exprimirem a sua animalidade. Com seu corpo, envolveu Daniele, estreitando-a com um forte abraço. Ela puxou-o pelos cabelos, e ele contraiu os músculos do rosto. Debateu-se, violentamente, para livrar-se dos braços que havia muitos dias não a estreitava em amplexos amorosos, com os quais ela tanto sonhava. O abraço com que Mário envolveu-a prenunciava agressões mais violentas. Daniele reconhecia, desgostosa, desconsolada, que o seu marido havia perdido a sua humanidade, daí ele agredi-la, caluniá-la, humilhá-la, atormentá-la, e também aos filhos. Necrozava-se a carne de Daniele ao contato do seu corpo com o de Mário. Daniele sentia-se desfalecer como se Mário exalasse um hálito entorpecedor, o qual ela inalou, e lhe inoculado peçonha mortífera. Entontecida, sentia os dedos dele apertando-lhe o pescoço. Caiu sobre a cama. Mário, que ofegava e gania como um cão sedento, pôs-se em cima de Daniele, então com a consciência dissipando-se e aflorando-lhe à mente pensamentos sombrios.

Daniele não soube como e de onde tirou força para reagir à agressão. Mário, ensandecido, acreditava que a havia subjugado. Ela conseguiu, empurrando-o com os pés, desvencilhar-se dele, e, livre, levar as mãos ao pescoço; tossia, engasgada, cerradas as pálpebras. No seu pescoço viam-se, impressas, as marcas dos dedos de Mário. Este, ao lado da cama, cambaleando, o rosto inflamado de cólera, levantou-se, voltou-se para Daniele, caiu, e bateu a nuca no chão atapetado, que amorteceu o choque, e levantou-se, desajeitadamente.

Daniele descerrou as pálpebras. Aos seus olhos exibiu-se a figura do marido, decomposta, então de cabelos desgrenhados e rosto coberto de arranhões, cabelos e arranhões que lhe emprestavam aparência sinistra, sangue a escorrer-lhe das narinas, e rasgada a camisa no ombro e no peito. Deitada de costas, na cama, Mário à sua frente, Daniele encolheu as pernas, aproximou os joelhos do peito, e, no instante em que ele lhe pulara em cima, encaixou-lhe os pés no ventre, e, com um esforço tremendo, esticou as pernas, empurrando-o. Mário caiu. Daniele precipitou-se para o corredor. Recuperado, Mário correu-lhe no encalço. Ela foi à biblioteca, onde ele a agarrou, e ela puxou-o pelos cabelos, arranhou-lhe o peito, e, livre do abraço mortífero, empurrou-o, e ele, escorregando, caiu sobre uma pequena prateleira repleta de livros, da qual duas tábuas horizontais soltaram-se; e os livros caíram-lhe em cima. Ele se debateu, para retirar-se de sob os livros, resmungou e praguejou; e perdeu a consciência. Viam-se apenas suas mãos, seus pés e sua cabeça descobertas; de sua testa, próximo à sobrancelha direita, fluía, de um profundo corte aberto por uma tábua da prateleira, sangue, que lhe escorria à cavidade do olho direito.

Esbaforida, tremendo dos pés à cabeça, respirando fundo, Daniele apoiou-se nos cotovelos fincados no estofado. Sentou-se em uma cadeira, abraçou-se, e fitou Mário, então sob os livros. Confusa, sentia-se aliviada. Sua mente, um turbilhão de pensamentos desconexos. Cerrou as pálpebras, empinou o corpo, inflou o peito, encheu os pulmões de ar, e expirou longamente, expulsando de si os maus pensamentos, recuperando uma parcela minúscula das forças desbaratadas durante a contenda com seu marido. Conseguiu, enfim, controlar a respiração. Restabelecida, descerrou as pálpebras, e fitou Mário. E perguntou-se se não se havia saído de um pesadelo. Aquele homem à sua frente, o seu marido, pai de seus filhos, não era o homem que, há meses, humilhava-a, desprezava-a, destratava-a. Não queria acreditar que ele, o seu marido, quisera agredi-la. Ele era uma pessoa gentil, afetuosa, carinhosa. Que mal havia dele se apoderado? Sentada na cadeira, não reparou Daniele no seu próprio estado, absorvida no estudo da figura de Mário. Daniele queria se aproximar dele. Entrechocavam-se, em sua mente o medo, a desconfiança e o amor que nutria por ele, a vontade de restabelecer com ele a convivência harmoniosa de antes do dia, dois anos antes, em que o havia notado diferente, como se do espírito dele apossasse o espírito de outra pessoa. Daniele amava-o. Sabia que ele só se recuperaria se ela o ajudasse. Não poderia abandoná-lo. Ele era o seu marido, o pai de seus filhos. Ela, a esposa dele, mãe dos filhos dele. Ele sempre a tratara como a uma rainha. O homem com quem Daniele conviveu nos dois anos anteriores até aquela data não era o seu marido. O homem que ela conhecia antes daquele dia fatídico, dois anos antes, sim, era Mário, o seu marido, pai de Marcos Antonio e de Aloísio, o único homem que ela amou. O homem que estava, desacordado, diante dela, sob uma montanha de livros, era-lhe desconhecido, era uma caricatura bizarra do seu marido que lhe havia invadido a vida, corroendo-a, desviscerando-a, retalhando-a, destruindo-a, fazendo de Daniele uma mulher desditosa e dos filhos bonecos inanimados. Mário, pensou Daniele, esperançosa, renasceria daquela carcaça desacordada.

Daniele alisou o rosto. Calma, reapossou-se, plenamente, de si. Ao mirar-se, viu, em seu corpo, cortes rasos no ventre, nos braços, nos antebraços, nos ombros, nas costas, nas nádegas, nas coxas e nos peitos. Inspecionou-se, cuidadosa, e minuciosamente, ao espelho. Pontilhavam-na pequenos cortes e marcas de pressão de dedos circundadas por vermelhidão. Seus cabelos estavam despenteados; o rosto, ossudo, cadavérico; os olhos, opacos; a pele, marcada, recortada, repleta de vincos; o lábio inferior, sangrando um pouco, no lado direito, próximo à comissura; as pestanas, sem brilho; as sobrancelhas, deslocadas. Sentia dores em várias partes do corpo, cujo aspecto enfeado desagradou-a. Era uma mulher reduzida a um trapo.

Voltou a sua atenção para Mário. O que faria? Deixá-lo-ia lá? Achegou-se a ele. Ajoelhou-se. Acocorada, estudou-lhe a respiração, atentamente. Tirou de cima dele os livros, e com extrema dificuldade o pôs sentado. Aquele corpo inanimado parecia-lhe pesar uma tonelada. Daniele respirava com dificuldade. Incomodavam-na as dores. Decidiu arrastar Mário até o sofá. Inclinada para a frente, em pé, atrás de Mário, passou-lhe o braço esquerdo pela axila esquerda e o braço direito pela axila direita, e entrelaçou-lhe os dedos das mãos ao peito, e puxou-o; e deteve-se após deslocá-lo vinte centímetros, para tomar fôlego.

Distavam cinquenta centímetros do sofá. Daniele afrouxou as mãos, descruzou os dedos, acocorou-se, e, num torpor profundo, entibiada, sentada sobre os calcanhares, encostou seu queixo à cabeça de Mário, que lhe despencava ao busto, e chorou copiosamente. Inundaram-lhe os olhos as lágrimas, que escorreram, e contornaram-lhe o nariz e os lábios. Ao recompor-se, enlaçou Mário, como anteriormente, e puxou-o, arrastando-o, até o sofá. Sentou-se, e afrouxou o abraço. Respirou fundo, tomou fôlego, empinou o corpo, puxou Mário, e o pôs encostado ao sofá, e deslocou-se para o lado.

Conseguiu, o corpo a latejar, pôr o seu marido inanimado sobre o sofá, e sentou-se, no assoalho, a cabeça pendendo para trás. Expirava e aspirava com força, soltando, ruidosamente, o ar dos pulmões. Seus braços penderam, abertas as mãos, as palmas para cima. Estendeu as pernas. Cerrou as pálpebras. Tomou fôlego. Apoiou-se no assoalho e no sofá, para se levantar. De pé, sentiu vertigens. Amparou-se no sofá, em cuja beirada sentou-se, e levou as mãos à cabeça. Pouco tempo depois, levantou-se, e andou, com dificuldade, até o quarto. Tirou do guarda-roupa um lençol e um travesseiro, regressou à biblioteca, e aninhou Mário, ajeitando-lhe a cabeça sobre o travesseiro, cobriu-o com o lençol, e retirou-se. De regresso ao quarto, sentou-se na cama, exausta. Poucos minutos depois, tirou do guarda-roupa uma camisola, e de gavetas do criado-mudo medicamentos para os machucados, e deixou-os sobre a cama. E foi ao banheiro. Nua, examinou-se. Abriu o chuveiro. Os primeiros pingos atingiram-lhe os arranhões e os machucados. A dor fê-la desistir de banhar-se. Fechou o chuveiro, e enxugou-se. Regressou ao quarto, e mirou-se ao espelho. Era-lhe aterradora a visão de seu corpo. E nos ferimentos passou medicamentos, lenta e cuidadosamente.

Em um futuro não muito distante – parte 2 de 8

Serenados seus coração e espírito, levantou-se, com certa dificuldade, as mãos apoiadas nos joelhos. Conservou-se cabisbaixo e pensativo durante a caminhada. Seus olhos fundos, encovados, refletiam a amargura em que lhe atirou uma tempestade de interrogações a respeito de si mesmo. Quem era aquele homem idêntico a ele, Mário? Das outras questões que se fazia, desconhecia Mário as respostas. Se havia uma resposta para cada uma delas, persegui-las-ia até encontrá-las, até o último dia da sua passageira existência na Terra. Se não havia, quando saberia da inexistência delas? Se as encontrasse, a sua busca se encerraria; se não as encontrasse, não morreria feliz, pois, desconhecendo-as, não se convenceria de que elas não existem.

Pensava em quais justificativas para sua ausência apresentaria, no dia seguinte, na Academia, aos cientistas da sua equipe. Se dissesse a verdade, eles o desacreditariam. Tratá-lo-iam, na melhor das hipóteses, como uma pessoa sob passageiro surto de excentricidade, comum aos cientistas, motivado por um forte choque emocional, e rezariam aos céus, suplicando a reversão do estado lastimável dele antes que se lho enraizasse no recanto mais profundo do cérebro. Ou contaria uma inverdade para eles. Pensava em uma história verossímil, isenta de contradições; e se esforçaria para evitar desmentir-se. Ou alegaria contratempos no âmbito familiar, que lhe exigiram a presença, e não entraria em detalhes.

Andou por ruas desertas e mal iluminadas; algumas pelas quais nenhuma pessoa sensata, que preza a própria vida, passa, muito menos à noite e só. Todavia, nada o assombrava, pois ele ignorava o estado delas, e nenhuma ameaça pressentia, fosse qual fosse, tão mergulhado estava em suas reflexões, abstraído da realidade. Os seus pensamentos convergiam para um objetivo difuso.

Pensava no que vivenciara, naquele dia, durante o qual se lhe apresentaram enigmas que lhe acarretaram aflições espirituais que jamais havia experimentado. Ele se achava, até então, convicto da sua origem e das peculiaridades do seu ser e considerava-se conhecedor de tudo o que lhe dizia respeito. A partir do seu encontro com o homem idêntico a si, pôs-se a se fazer indagações, as quais jamais conceberia, a respeito da sua vida, se não houvesse passado pelas experiências daquele dia. Sobrevieram-lhe dúvidas angustiantes para as quais ele não estava preparado. Os seus pensamentos, até então ordenados, galopavam, irrefreáveis, e não o abandonavam, e ele não os abandonava. Era-lhe impossível não pensar em todas as idéias derivadas do momento que vivia.

Em uma das ruas mal iluminadas de um bairro, que é um campo de batalha de facções rivais de delinqüentes juvenis, um bando de rapazes e homens entre quinze e vinte e cinco anos, de calças largas rasgadas nos joelhos uns, de bermudas que desciam abaixo dos joelhos outros, nus da cintura para cima uns, de camisa outros, todos de aparência ameaçadora, ia na direção de Mário e dele aproximava-se. Mário, indo na direção do bando, ignorava-o. Alguns dos componentes do bando fumavam um cigarro, passando-o de mão em mão. Um garoto tragava-o, e, ao tempo que lançava a fumaça para o ar, passava-o àquele que se lhe avizinhava, e este, cigarro entre os dedos polegar e indicador, sugava-o, e baforava uma espessa fumaça. As roupas que usavam os integrantes daquele bando refletiam-lhes as almas infernais. A fisionomia deles refletiam, deles, o caráter facinoroso. Andavam como que narcotizados; o vocabulário deles, constituído de gírias e obscenidades – um lingüista reputado não lhes decifraria o singular idioma. Por onde passava, abandonava o bando um rastro de medo. Pessoas que, debruçadas no peitoral das janelas dos prédios, olhavam, negligentemente, a rua, ao notar a aproximação daquela súcia, recolhiam-se, instantânea e imediatamente, ao interior do prédio, pois o instinto de sobrevivência sobrevinha-lhes repentinamente. Nada queriam ver, nada queriam ouvir, pois não queriam, depois, se ocorresse alguma tragédia, falar. Cobriam os ouvidos e os olhos para, depois, se interrogados, não terem de abrir a boca – o que poderia vir a acarretar-lhes dissabores. Assinariam os atestados de óbito, cada um o seu, se testemunhassem as ações daqueles delinqüentes.

O bando de malfeitores reinava absoluto na rua deserta e mal iluminada cujos postes tinham, três de cada cinco, a lâmpada quebrada. A pouca iluminação emprestava à rua ar de filme de suspense e às fisionomias dos integrantes daquela súcia de malfeitores ar fantasmagórico, espectral, que assustaria o mais corajoso e arrojado dos heróis gregos. O bando gozava de pleno domínio da rua, e ninguém se atrevia a fazer-lhe frente; os poucos que o fizeram haviam batido em retirada após embates encarniçados, dos quais, invariavelmente, retiraram-se feridos, e alguns deles eram, no dia seguinte, encontrados estirados, mutilados, afogados em uma poça de sangue. Aquele bairro, no imaginário popular uma arena em que ocorriam batalhas sanguinolentas, era notícia, nos jornais locais, quase que diariamente.

Os delinquentes divisaram Mário, que andava como se estivesse no quintal da sua casa. Embasbacados, apatetados, boquiabertos, esboçaram uma expressão misto de surpresa e despeito, e entreolharam-se, exprimindo confusão. No princípio, ao verem o vulto de Mário, não sabiam se se tratava ele de um homem, ou de uma mulher. A má iluminação permitiu-lhes definir o sexo do profanador daquele covil apenas quando ele distava deles um pouco mais de dez metros, e deles aproximava-se, ignorando-lhes a existência. A presença dele, naquela rua, era-lhes de uma afronta imperdoável, e o ar dele, de quem nenhum medo sentia, de uma irreverência ilimitada. Ele lhes espicaçou, involuntariamente, o ego. Eles, os donos do pedaço, desdenhados, desrespeitados, revidariam àquela afronta. Mário ignorava a ameaça que o espreitava. Os marginais foram tomados de grande surpresa e estupefação, num misto imbricado de ódio e despeito. Quem era aquele imbecil, perguntavam-se, que invadia o território deles?

Mário aproximava-se da matilha, ignorando-a. Os lobos, sedentos de sangue, não admitiriam, em hipótese alguma, tal afronta; se a admitissem, fariam deles alvos de chacotas; ridicularizá-los-iam. Era uma questão de honra: para conservarem a moral que conquistaram sacrificando a felicidade e a paz de muita gente, teriam de resolver, imediatamente, o caso, e dar uma boa lição no invasor; se permitissem que o maluco, como a Mário se referiam, de lá se retirasse ileso, os bandos rivais os desrespeitariam. Seriam alvos de piadas depreciativas; os outros bandos desafiá-los-iam, sem temor; arrostá-los-iam. Tinham de evitar que isso se desse, sem delongas.

Todos os integrantes do bando, boquiabertos, deram passagem a Mário; pouco tempo depois, ao recuperarem o domínio de si, entreolharam-se, indignados, e, sem que nenhum deles articulasse sequer uma palavra, decidiram, de comum acordo, dar fim ao invasor. Um deles tirou do bolso traseiro esquerdo da calça um canivete, que reluziu à luz bruxuleante da lâmpada de um poste. O vento assobiava, prenunciando uma tragédia. A atmosfera era propícia à realização de um crime horrendo. O rapaz que empunhava o canivete, imberbe, franzino, ossudo nos joelhos, cotovelos e ombros, de clavículas e omoplatas destacadas, aparentando quinze anos, seguiu Mário, sem fazer ruídos; atrás dele, os outros marginais observavam, olhares atentos. O rapaz, o canivete afiado aninhado em sua mão, passos firmes e decididos, aproximava-se, silenciosamente, de Mário, alisava o canivete, cujo fio ele acarinhava, lascivamente, numa volúpia sanguinária. A arma era a sua amante, fiel amante. Os olhos do rapaz, sanguissedentos, refletiam a frieza da sua natureza sanguinária. Deformava-lhe a boca um sorriso maligno, sombrio. Aproximou-se de sua presa, que, enterrada dentro de si, ignorava-o. Olhos fixos nela, a dois passos dela, exibiu sorriso ignóbil, como que possuído pelo demônio. Resoluto, tendo olhos apenas para a sua vítima, arreganhou a afiada garra, rilhou os caninos, e, com olhar sinistro, preparou-se para saltar sobre ela e desferir-lhe um golpe fatal.

Um facho de luz surgiu à frente deles. Mário e o garoto com o canivete achavam-se, no meio da rua, na metade entre um entroncamento e outro. Do cruzamento à frente deles, o facho de luz cortava a soturna escuridão da noite. Uma viatura policial seguiu-se, vagarosamente, à luz. O facínora recolheu as garras; contrariado, deu meia-volta, e retornou, passos acelerados, ao bando, que, protegido pela escuridão, retirara-se e contornara a esquina antes que a viatura policial chegasse até Mário.

Da viatura, um dos dois policiais acenou para Mário, que o ignorou. O policial, homem de voz áspera, gritou uma saudação. Não obteve resposta. A viatura passou por Mário, e deteve-se. Em marcha à ré, foi até ele e com ele emparelhou-se; e o policial berrou-lhe duas vezes, e ele não o ouviu. O terceiro grito ele o deu num tom mais elevado, tirando-o do seu torpor. E Mário voltou-se para os policiais, mansamente, os olhos perdidos, sem entender o que se passava. Os policiais o interrogaram. Pediram-lhe o nome, os documentos pessoais. Perguntaram-lhe o que ele fazia, sozinho, naquela rua deserta. Abobalhado, Mário exibia confusão, e nada lhes disse. E eles o alertaram para os riscos que ele corria. Disseram-lhe que, se até aquele momento nada lhe ocorrera de mal, ele poderia se considerar um felizardo, e o aconselharam a ir-se embora imediatamente. E abanando a cabeça, afastaram-se.

Mário deu-se conta, então, de onde se encontrava. E veio-lhe à memória histórias que lera, em jornais municipais, de bêbados que brigavam e esfaqueavam-se, e, feridos, à beira da morte, aos hospitais afluíam, retalhado o rosto, decepadas as mãos, despedaçado o crânio, e de incontáveis casos de estupros e assassinatos.

Preocupava-se, agora de volta ao mundo dos vivos – e pânico dele quase se apossou – em sair de lá o mais rapidamente possível. Não desejava morrer. Mal sabia ele a sorte que tivera. Ouviu, de detrás de si, garrafas a estilhaçarem-se, gritos, uns assustados, outros suplicantes, e outros ameaçadores, e a detonação de um revólver. E o silêncio tumular que se seguiu. Trêmulo, acelerou os passos, o peito a arfar, o coração a pular, dando tratos à bola. Premia abandonar aquela região lúgubre, da qual se retirou, enfim.

Mário não sabia como reagir aos estímulos daquela dia. Pensava em regressar à sua casa, abraçar seus filhos, brincar com eles, e, mais do que tudo, desejava abraçar Daniele, beijar-lhe os lábios, conversar com ela, e contar-lhe o que se passara naquele dia. Contar-lhe-ia a verdade? Talvez. Por enquanto, indagava-se, refeito, e de posse, assim pensava, de sua consciência, se era correta a visão-de-mundo na qual até aquele dia acreditava piamente. Bastou um evento, que ele jamais concebera, e todas as suas convicções começaram a se desfazer; daí ele se perguntar se acreditava no que, conscientemente ou não, pensava que acreditava. Ele, que já havia intentado levar a cabo a elaboração de um sistema de pensamento, perguntava-se, agora, como encerraria as suas elucubrações, se, para confirmar as suas convicções, encadearia as suas idéias numa sequência lógica, ou se, para emprestar solidez aparente aos seus pensamentos, empregaria artifícios, tais como vocabulário injustificadamente técnico, indecifrável, para ocultar de todos, o que lhe agradaria o ego, a substância das suas idéias inconsistentes repletas de lacunas e contradições.

No desejo de chegar, e logo, à sua casa, estendeu o braço esquerdo para chamar um táxi. Um táxi passou por ele, ignorando-o. Segundos depois, passou por ele outro táxi. E um táxi, enfim, dele aproximou-se, e parou. Mário abriu a porta do carro, nele entrou, e, enquanto ajeitava-se no banco e passava o cinto de segurança, disse ao taxista o nome da rua em que se localizava sua casa e o número desta. O taxista, criatura soturna, pediu-lhe uma referência. Mário mencionou uma loja de antiguidades. O taxista, que dava mostras de que não apreciava o seu ofício, como se a vida, tragicômica, pregasse-lhe uma peça de muito mal gosto, enfezado, sequer lançou um olhar para o seu passageiro. De dar calafrios, a viagem de quase uma hora.

O taxista parou ao meio-fio. Mário ouviu-lhe a voz ríspida ditar o preço da viagem. Fitou-o, dando-lhe a entender que não compreendera o que ele lhe dissera, e dele ouviu o valor da viagem, dita num tom ainda mais seco, mais grave, mais áspero, mais hostil. Pagou-lhe em cédulas e moedas, e, em silêncio, esperou-o, observando-o, atentamente, conferir o valor, o que ele fez resmungando. Conferido o dinheiro, o taxista, enfezado, confirmou o valor recebido, e Mário abriu a porta, do carro retirou-se, e mal fechou-a o motorista pisou no acelerador.

Postado diante da porta da sua casa, localizada em um bairro tranquilo, no qual moravam médicos, engenheiros, dentistas, advogados, atletas, cantores, empresários, políticos, cientistas, Mário tirou do bolso anterior esquerdo da calça o molho de chaves, destacou a do portão, meteu-a na fechadura, abriu a porta, entrou nos domínios da sua casa, e fechou a porta. Suspirou. Inflou o tórax, de regozijo. Contemplou a beleza harmoniosa que irradiava do seu lar. Ouviu vozes. Eram quatro as vozes – identificou-as. Pouco tempo depois, identificou cinco vozes distintas. Uma, grave, a que se sobressaía, era a de seu pai; outra, doce e meiga, de sua esposa; outra, a de sua mãe; e as outras duas, animadas, alegres, infantis, a de Marcos Antonio e a de Aloísio.

O seu espírito encheu-se de intensa alegria. A sua fisionomia refletia o jacto de entusiasmo que lhe enchia todos os poros. Em sua mente, no entanto, persistia pensamentos que lhe anteviam, para os dias seguintes, experiências desgastantes. Em sua cabeça havia um turbilhão de pensamentos tumultuados, os quais ele não os controlava, e para controlá-los esforçou-se, em vão, enquanto conservou-se, no jardim, a ouvir as vozes, as risadas e as gargalhadas que da sua casa chegavam-lhe aos ouvidos, sorriso de alivio a enfeitar-lhe o rosto, o corpo leve como se tivesse se livrado de um grande peso.

A despeito da alegria que lhe inflava o espírito, recuava ante a idéia de saudar seus pais. Não estava preparado para olhá-los nos olhos. Incomodava-o a experiência daquele dia. Teria coragem, sangue frio, estado de espírito, para abraçá-los, beijá-los, com o carinho costumeiro, nas faces, olhá-los nos olhos, sem transparecer os sentimentos incômodos que não o abandonavam? Se seu pai, ou sua mãe, indagasse-lhe a respeito da sua aparência, diferente, irreconhecível, perderia Mário o domínio de si? Qual seria a sua atitude se sua mãe lhe fizesse uma pergunta singela, aludindo à sua fisionomia? Cairia, ajoelhado, diante dela; suplicar-lhe-ia o perdão, num misto de humilhação e coragem, e inteirá-la-ia de seus pensamentos, os quais tinha-a, e ao seu pai, como vilões? Qual seria a reação dela? Sobrevir-lhe-ia o desmaio? Preocupava-se Mário. Tinha ele de enfrentar a situação. Seus pais eram geneticistas. Seu pai, homem honesto, franco, sincero, jamais lhe havia escondido algo; já lhe havia falado, inclusive, de alguns pecados da juventude e de pensamentos reprováveis que lhe havia aflorado ao espírito. Sua mãe, se não chegou a ter-lhe a mesma intimidade, confiando-lhe os seus mais íntimos pensamentos, também nunca lhe havia faltado com a franqueza e a sinceridade. Deveria Mário perguntar, no momento oportuno, ao seu pai ou à sua mãe, ou aos dois, se eles tiveram, além dele, Mário, outro filho, um gêmeo de Mário, ou se os genes dele, Mário, foram copiados, e deles se criou um homem idêntico a ele, Mário? Um? Apenas um? Até então Mário se sentia um homem íntegro, e sabia que ele era ele, e seu corpo era seu; agora, sabedor da existência de outro homem idêntico a si, sentia-se se desintegrando, não se sentia o Mário que todos conheciam e que ele conhecia. Ele era ele, ou era outro homem? Ele ainda se conhecia? Ele se conheceu algum dia? E aquelas pessoas que lhe eram mais caras notariam que ele não mais era o Mário que conheciam, mas outro Mário, deles desconhecido?

Aqueles que acreditavam na separação e independência entre corpo e alma, diante do corpo de Mário, sentiriam a alma dele desintegrada? Mário, que nunca havia se ocupado a pensar acerca da alma, afundava-se, agora, em conjecturas a respeito, e angustiava-se. Seus pais, que o conheciam melhor do que toda e qualquer outra pessoa, notariam as mudanças que ele sofrera naquele dia? E sua esposa perceber-lhe-ia alguma coisa diferente, a sua alma dividida? E dividida em quantas partes? E seus filhos, na pureza de seus espíritos, perceberiam, nele, alguma mudança? Como reagiria Mário se uma das pessoas que mais estimava aludisse ao seu estado de espírito? Mário preparou-se para enfrentar a situação; e de sua família e de si mesmo ocultar os seus sentimentos. Respirou fundo. Deu um passo. Deteve-se. Seu cérebro corcoveou; seu coração agitou-se. Cerrou as pálpebras. Empinou o corpo. Sentia-se meditando durante um ritual religioso, não sabia se demoníaco, se divino, fundindo o seu espírito com o cosmos, em busca de equilíbrio. O coração retomando o seu ritmo normal, Mário descerrou as pálpebras, respirou fundo, deu um passo, e outro passo, e outro, e mais um, e entrou na varanda, cuja extensão cruzou em poucos passos, e deteve-se diante da porta, em cuja maçaneta pousou a mão esquerda. E abriu a porta, e transpôs a soleira. Atingiu-o a luminosidade reinante na sala-de-estar. Marcos Antonio, o primeiro a vê-lo, abriu um largo sorriso, e, eufórico, correu em sua direção, e saltou-lhe ao pescoço, ao mesmo tempo em que ele se agachava e inclinava-se para a frente, para recolhê-lo aos braços. Daniele disse para Mário que estava preocupada e que pretendia telefonar à Academia. Alegraram-se todos. Aloísio não esperou Marcos Antonio abandonar os braços de seu pai, e pulou sobre ele, Mário. Mário, abraçado aos seus filhos, ergueu-se. O afeto e o carinho que nutria por eles reduziam-lhe o peso da consciência. Seus filhos não desejavam largar-lhe do pescoço. Mário nunca havia se sentido tão leve. Estampava um largo sorriso, a irradiar felicidade ilimitada. Seus olhos brilhavam de alegria. Viu o rosto de sua esposa transfigurada num sorriso deslumbrante. Os dentes dela brilhavam de tão brancos. Maravilharam-no os regulares traços da fisionomia dela. Parecia a ele que ela sentia a emoção que ele sentia, como se ela lhe houvesse penetrado no cérebro, e um espírito lhe houvesse explicado o que se passara com Mário, naquele dia, e a exortasse a acolhê-lo com o mais amável e deslumbrante sorriso.

Daniele aproximou-se de Mário, que sentiu o bafejo perfumado que dela recendia, e retirou-lhe dos braços Aloísio, e beijou Mário nos lábios. Um lampejo de felicidade invadiu a alma de Mário. A acolhida não poderia ter sido mais amável. Aloísio debateu-se nos braços de sua mãe, pedindo-lhe, a esgoelar-se, que o restituísse aos braços de seu pai; este, por sua vez, inclinou-se para a frente e prontificou-se a pôr Marcos Antonio no chão, e este relutou, e apertou-se-lhe, como se temesse perdê-lo se o largasse. Mário explicou-lhe que iria abraçar os avós dele, mas ele, não querendo ouvi-lo, não o largou. As palavras de Mário unidas às de Daniele o convenceram, enfim, a afrouxar o abraço e, relutantemente, largar-se. Mário, parecia, havia esquecido as questões que o incomodavam até poucos instantes antes; com a mente livre de incômodos, olhou para sua mãe, e abraçou-a, carinhoso e respeitoso; em seguida, olhou para seu pai, e abraçou-o, com fervor e carinho. Abandonara a reserva que o atormentava, despreocupado das questões que até minutos antes o perturbavam. Nem seu pai, nem sua mãe, nem sua esposa, nem seus filhos nele identificaram sequer uma mudança no estado de espírito.

No transcurso da noite, percorreram muitos assuntos, sérios, uns, divertidos e despreocupados, outros. Brincaram. Rodolfo, avô acolhedor, festivo e desembaraçado, promoveu inúmeras brincadeiras, esquecido de que era um homem de cabelos brancos, de um pouco mais de cinquenta anos de idade, geneticista de renome, professor emérito de dezenas de universidades. Na companhia de seus netos, era ele um homem como outro homem qualquer. Aquele que o desconhecesse, e naquele momento o visse brincando tão animadamente com Marcos Antonio e Aloísio, informado de que ele era um dos melhores geneticistas do mundo, desacreditaria, incrédulo, o emissor da notícia e o reputaria um mentiroso descarado, afinal, um gênio da ciência não saborearia de momentos tão divertidos, pois, diria, os cientistas são criaturas frias e calculistas.

Tarde da noite, Rodolfo e Valquíria despediram-se de Mário e de Daniele – Marcos Antonio e Aloísio dormiam há muito tempo, profundamente, após a animada agitação do dia, e roncavam ruidosamente. Antes de se retirarem da casa, foram ao quarto dos netos, e deram, cada um deles, em cada neto, na testa, um afetuoso beijo de despedida.

À porta, Mário e seu pai conversavam, e sua esposa e sua mãe palestravam à parte. Valquíria dava à nora algumas recomendações que diziam respeito à saúde de Marcos Antonio e Aloísio e aos cuidados que ela teria de dedicar ao pai adoentado, acamado, que lhe requeria atenção, e a Paulo, Catarina e Pâmela, irmãos de Daniele. Rodolfo e Mário falavam de coisas associadas às ciências (e nem mesmo quando falaram de clonagem humana Mário evocou os eventos sucedidos naquele dia). Rodolfo convidou seu filho para um congresso dali duas semanas. Mencionou os filósofos, os religiosos, os políticos, os esportistas e os cientistas que foram convidados para o evento. E disse-lhe que, caso ao congresso ele não pudesse comparecer, mas desejasse acompanhar os debates, que acessasse o site ***.com.

Enfim, Rodolfo e Valquíria entraram no carro. Rodolfo deu a partida. Vinte e cinco minutos depois, chegaram na casa deles.

À despedida de seus pais, Mário enlaçou, pela cintura, sua esposa, atraiu-a para si, e deu-lhe, surpreendendo-a, nos lábios, um beijo ardente e cobiçoso. Reinava o silêncio na rua deserta. Luzes das lâmpadas dos postes e de algumas residências pontilhavam a escuridão da noite. Imperava a tranquilidade. Mário e Daniele trocaram carícias afetuosas. Ela pisou-lhe nos pés, enlaçou-o pelo pescoço, e deu-lhe um beijo; e ele carregou-a para dentro da casa. Riam à toa. Andando, calmamente, um tanto desajeitado, Mário conseguiu chegar à porta que dava à sala. Transposta a porta, fechou-a, à chave, e rumou ao quarto, Daniele a pisar-lhe os pés e a abraçá-lo pelo pescoço.

Mário despertou, na manhã seguinte, após noite de sono reconfortante, renovadas as suas energias. Daniele levantara-se, minutos antes, e preparara a refeição da manhã, a qual ela levou, em uma bandeja, ao quarto. Assim que seu marido se sentou, pôs-lhe sobre as pernas a bandeja. Encostado à cabeceira da cama, ele recebeu de Daniele, que lhe parecia mais bela, e cuja voz parecia-lhe mais musical, mais afetuosa, um beijo de saudação. E ela se lhe aconchegou à esquerda.

Marcos Antonio e Aloísio dormiam.

Daniele levava à boca do seu marido uvas, pedaços de maçã, gomos de laranja, pedaços de pão, de pudim, o copo com leite. Quando, ao levar o copo com leite à boca de Mário, derrubou, nele, um pouco de leite, que escorregou, contornando-lhe o queixo, riu tolamente, contagiando-o. E ambos riram, tolamente. Mário gargalhou, e cobriu com as mãos a boca, para conter-se. Concluída a refeição, Daniele retirou-se do quarto com a bandeja, os copos, os pires e o que restava do pequeno sortimento de frutas, e dirigiu-se à cozinha. De regresso ao quarto, minutos depois, subiu na cama, deitou-se sobre seu marido, voltada para ele, e deu-lhe beijos calorosos, ardentes, e ele recebeu-os, apaixonado.

Levantaram-se ambos minutos depois.

Marcos Antonio e Aloísio dormiam.

Daniele foi ao seu escritório residencial, e, via computador, conversou com outros odontologistas.

Um pouco antes das dez horas da manhã, Paula, a empregada doméstica, chegou na casa de Mário e Daniele. Era ela uma mulher de quarenta anos, forte, mãe de três filhos, dois deles, adolescentes, Matheus e Thiago, filhos dela e de Gabriel, o seu primeiro marido, de quem enviuvou oito anos antes, e um, menino de seis anos, Mathias, filho dela e de Rodolfo, o seu segundo marido.

Após o banho, no quarto, uma toalha cobrindo-a da metade superior das coxas até um pouco acima do busto, Daniele mirou-se ao espelho da penteadeira, e penteou os cabelos, e passou batom vermelho nos lábios e cosméticos para realçar os belos traços naturais, enquanto Mário vestia-se, sentado, na cama.

Falaram Mário e Daniele das tarefas e dos compromissos do dia.

A manhã ia às mil maravilhas até o momento em que Daniele, entre um assunto e outro, enquanto agitava o vestido florido de fundo branco, inseriu, na conversa, uma interrogação, que fulminou Mário. Perguntou-lhe se alguma coisa incomodava-o. Disse-lhe que ele estava diferente; confessou que nada dissera, até aquele instante, para não amolá-lo com perguntas incômodas e porque não desejava estragar a noite. E ele enterrou-se, de imediato, nas suas cismas. Empalideceu. Adquiriu a figura de um vulto fantasmagórico. Abandonou-o a felicidade, que o extasiava até aquele instante. Estranha a sensação que o invadira. Bastou Daniele dizer-lhe que o notara diferente, que ruiu-lhe a felicidade. O espírito combalido, não conseguiu Mário ajeitar a gravata. Daniele, aproximando-se dele, e notando-o pálido, perguntou-lhe se ele passava mal, pôs-lhe a mão na testa, e acariciou-lha e ao rosto. Mário desconversou. Acometera-o um mal passageiro, disse, enquanto Daniele ajeitava-lhe a gravata.

Após arrumar a gravata de seu marido, Daniele desceu para a cozinha. Sentado na beirada da cama, Mário pensava. Minutos depois, na cozinha, Daniele conversando com Paula, Mário anunciou a sua retirada, o cérebro repleto de pensamentos desagradáveis, e deu um beijo no rosto de Daniele, e abriu a porta; quando ele a fechava atrás de si, Daniele disse para Paula que notara alguma coisa de estranho nele. Paula, discreta e sensatamente elogiou-o, e declarou que, era provável, incomodava-o algo associado ao trabalho.

Mário ligou o carro. Ao premir o botão de um controle abriu o portão da casa; ao premir o mesmo botão ao sair da casa, fechou o portão. Iria à Academia. Em nenhum momento da sua casa à Academia tirou da cabeça os acontecimentos do dia anterior. Quem era aquele homem idêntico a ele, Mário? Irmão gêmeo de Mário ele não era. Era aquele homem um clone de Mário? Mário foi clonado por seus pais? Havia, armazenados em alguma instituição científica, dados completos da estrutura genética de Mário, e algum instituto os roubou, ou o instituto que os possuía – com o conhecimento dos pais de Mário? – os vendeu para pesquisadores? Havia um mercado internacional paralelo de identificação genética de indivíduos humanos? E quem os roubou clonou Mário, sem a concordância de Rodolfo e Valquíria? Havia apenas um clone de Mário? Quantos clones de Mário havia? Se os pais de Mário o clonaram, e nisso Mário não acreditava, mas era uma hipótese que ele não podia descartar, quantos clones dele fizeram? Ele, Mário, pensava Mário, angustiado, era o clone do homem que ele vira no dia anterior? Ou ambos eram clones de outro homem? Seria Mário um clone? Assustava-o tal hipótese. Ou era ele o homem de quem fizeram um clone, o clone o homem que ele vira no dia anterior? Seria Mário, se dele fizeram um clone, ou se ele fosse um clone, um ser de espécie que não a humana? Não era ele um clone, ele quis se convencer. Ele nunca se sentiu um clone. O que era sentir-se um clone? Um clone de um ser humano não é um ser humano? Um clone humano perderia alguns dos aspectos humanos que possuía no momento da sua concepção? Quais aspectos humanos ele perderia no decurso dos anos, caso herdasse alguns? Se dele fizeram um clone, um pedaço dele, de seu ser, isto é, de Mário, estaria no corpo de outro homem, e, portanto, a alma de Mário não seria íntegra, e ele não seria humano? Teria Mário uma alma, se fosse ele um clone? A sua alma estaria intacta? Se ele, Mário, fosse um clone de um outro homem, receberia ele, Mário, uma parcela da alma dele? A alma dele estaria dividida? Em quantas partes? Se ele, Mário, fosse o homem original do qual foi feito um clone, a sua alma estaria dividida? Em quantas partes? Um clone humano é dotado de alma? O que é a alma? É provido de espírito? O que é o espírito? É dotado de personalidade? O que é a personalidade? Existem alma, espírito, personalidade? Alma e corpo são dois entes distintos? Ou são uma coisa só? Se são uma coisa só, a alma nasce com o corpo? Se nasce com o corpo, nasce, também, com a criação do corpo de um clone humano? A alma, imortal, espera pelo nascimento de um corpo, para nele penetrar, e habitá-lo, e, com a morte dele, abandona-o, e regressa à eternidade? O corpo de um clone humano está considerado nos desígnios de Deus? Se está, a alma penetra-o, e anima-o? Como é a alma de um clone humano, que não nasce segundo as leis da natureza? As leis da natureza são irrevogáveis? As leis de Deus são irrevogáveis? Um clone humano nasce à ação da ciência humana, que contraria a lei da natureza e a de Deus; então, pode ter alma um clone humano? São como os humanos os clones humanos? Se os clones humanos não são previstos por Deus, Deus é onisciente? Deus permite a existência de clones humanos? Se sim, poderíamos considerar humanos os clones humanos? Os clones humanos são desprovidos de alma? Sendo desprovidos de alma, são humanos? O que é a alma, afinal? A alma anima todos os corpos, independentemente da origem deles? Ou a alma é um ser etéreo, eterno, que habita um corpo, durante a vida deste corpo, e abandona-o quando da sua morte? Clones humanos têm alma? Em que labirinto Mário se enveredava? Ele do labirinto encontraria a saída? Encontraria? Quando?

Em um futuro não muito distante – parte 1 de 8

I

Mário Antunes Siqueira Neves Ferreira era filho de Rodolfo Neves Ferreira e Valquíria Amélia Siqueira Neves Ferreira, ambos geneticistas de excepcional talento e ampla envergadura intelectual, ambos autores de incontáveis trabalhos publicados nas mais conceituadas revistas especializadas de mais de duas dezenas de países. Nasceu vinte e oito anos antes do dia em que esta história teve inicio em uma movimentada rua da cidade brasileira de A…, uma das quarenta e oito cidades que compõem a megalópole de A… Era filho único, mas não o único filho que viera à luz do útero de sua mãe. Aos três anos, aprendeu a ler e a escrever, nas aulas concedidas por seu pai e sua mãe, que sabiam conciliar o trabalho e os estudos com a educação do filho. Matriculado na escola aos cinco anos, já lia e escrevia com facilidade, sinal de uma precocidade intelectual que logo chamou a atenção dos professores. Os seus primeiros estudos, na primeira escola em que foi matriculado, estenderam-se até aos seis anos. Destacou-se dentre as outras crianças. Era muito observador. Quieto, retraía-se quando alguém lhe dirigia a palavra; mas quando falava, os professores ficavam deslumbrados com as minúcias que ele notava nos objetos e nas pessoas. Não era expansivo como a maioria das crianças; era, diziam os professores, comportado. Aos sete anos, seus pais o matricularam em uma escola especial para pessoas dotadas de inteligência muito acima da média. Eles, pessoas que, como ele, também foram providas de rara inteligência, estimulavam-no aos estudos – na sua casa, ele respirava o ar de um ambiente que lhe fornecia todas as condições para aprimorar os seus talentos. Rodolfo e Valquíria excitavam-lhe a inteligência com brinquedos que o estimulavam a raciocinar, a exercitar a memória privilegiada, a criar, a inventar, a imaginar. E as conversas que mantinham atraíam-lhe a espontânea curiosidade. Antes de completar quinze anos, ele já frequentava academias científicas e literárias. Era muito bem acolhido pelos estudiosos, e sentia-se bem em qualquer ambiente em que se percebia fragrância de inteligência, e muita inteligência, humana. Interessava-se por tudo o que via, e queria “ver com as mãos”; tudo ele tocava, maravilhado, como se se encontrasse em um outro universo. Formulava, inquieto, perguntas a respeito de tudo, e sempre pedia emprestado um livro para levar para casa e lê-lo. Nunca lhe recusaram tal pedido. De bom grado, os estudiosos esclareciam-lhe as dúvidas e o convidavam a participar de conferências e palestras. Ao ir-se embora, Mário deixava atrás de si um forte perfume de inteligência e simpatia. Participou de palestras, reuniões, debates, controvérsias científicas sobre assuntos complexos, que fugiam ao comum das gentes. E foi nessa época, em uma conferência, presidida por seu pai, sobre os rumos da engenharia genética e a escalada das ações extremistas de facões políticas, científicas e religiosas, que ele conheceu uma jovem desajeitada, de cabelos castanhos, que lhe prendeu a atenção. Daniele, a sua futura esposa. Ela vestia-se com certo desleixo. O sorriso travesso, que se lhe notava no rosto de traços bem definidos, os olhos vivazes, que irradiavam entusiasmo e euforia, e a sua espontânea, ingênua desinibição conquistaram o coração de Mário. O destino quis que eles fossem apresentados um para o outro, naquele dia. Os olhares que trocaram indicavam que entre eles havia muito mais do que atração recíproca. Mário e Daniele eram duas pessoas de gênios incompatíveis, dotados, todavia, de muitas afinidades. Foi ela quem deu os primeiros passos para um relacionamento mais íntimo. Convidou Mário para assistir a um jogo de futebol em um estádio de futebol. Durante o jogo, de um modo arrebatador, ela deu o pontapé inicial do namoro, ao comemorar um gol do seu time predileto, o São Paulo Futebol Clube, quando tascou, em Mário, um beijo ardente, caloroso, lábios nos lábios. Mário enrubesceu. Conservou-se paralisado durante todo o restante do jogo. O namoro era promissor. Daniele ingressou, no ano que completou dezoito anos de idade, na faculdade de odontologia da cidade de E… daquela megalópole, e Mário, no mesmo ano, matriculou-se na faculdade de medicina da cidade de D…, naquela mesma megalópole – e ele se especializaria em neurologia. A distância que os separava e o pouco tempo que tinham à disposição para se encontrarem não os impediram de namorarem.

Mário e Daniele casaram-se aos vinte e um anos. Dois anos depois, Daniele deu à luz Marcos Antonio. Transcorridos outros dois anos, ela deu à luz Aloísio.

Daniele tornou-se uma excelente odontologista. Tinha um grande número de pacientes. Mário engajou-se nos estudos, sempre manifestando extraordinário talento, jamais contestado, sempre louvado, pelo mundo científico, que admirava, dele, a seriedade invulgar, e veio a se tornar um respeitado neurologista, que aos vinte e oito anos começou a ganhar renome internacional.

O ano era um ano qualquer. O dia, 19 de dezembro. A cidade de A…, enfeitada, refletia alegria contagiante. Agitava-a espetáculo feérico. Nos prédios colossais, nos edifícios pequenos, nas casas, nos jardins, brilhavam milhares de lâmpadas dispostas de modo a representarem, umas, um pinheiro, outras, um Papai Noel, outras, a Santa Ceia.

Absorto, andando pela rua movimentada, acotovelando-se em um e em outro pedestre, Mário vivia em um mundo à parte: raciocinava, o cérebro a transbordar fórmulas matemáticas, em questões que o incomodavam. Não sentia as cotoveladas que lhe davam – algumas propositalmente lhas infligiam personagens enraivecidos e angustiados, que gozavam do pequeno prazer de lhe desferir um golpe sutil com o cotovelo, não excluindo a força e nem a intenção de provocar, dele, uma reação enraivecida; todos eles frustraram-se ao depararem-se com a indiferença de Mário, que, absorvido pelos seus pensamentos, não reagia, verborrágico, com virulência.

De repente, um homem roçou-lhe com o braço esquerdo o braço direito, provocando-lhe corrente de estranha e nunca experimentada sensação, que lhe percorreu a espinha, com o poder de emergi-lo das profundas águas de suas cismas. Mário voltou-se, os olhos perdidos, a fisionomia intrigada, incomodado com as sensações que lhe assolaram o corpo, e olhou para o homem que lhe resvalara o braço. E qual foi a sua surpresa ao vê-lo. Percorreu-lhe o espírito terrível calafrio. Gelou-se-lhe a alma. Congelou-se-lhe o corpo. Estupefato, o coração a bater mais acelerado, o sangue a abandonar-lhe a face, que se tornou lívida, cadavérica, postou-se, petrificado, boquiaberto, os olhos desmesuradamente arregalados, a respiração suspensa. Não conseguiu tirar do chão os pés. Perdeu o domínio de si. Ouviu o silêncio opressivo sob o ambiente ruidoso. Perguntou-se se viu o que pensou ter visto, ou se uma ilusão se lhe oferecera aos olhos, ou se alguém divertia-se à sua custa. Que bizarria era aquela? Mário, estacado, arregalados os olhos, escancarada a boca, caído o queixo, acompanhou, com os olhos, o indivíduo que nele resvalara, e que dele se afastava, calmamente, em meio ao ruidoso enxame de gente. Quem ele era? perguntava-se Mário, confuso e estupefato. Tentou seguir-lhe os passos. Não conseguiu, porém. Viu-o de relance. Era aquele homem uma ilusão – Mário quis acreditar, mas não pôde. Sabia que estava de posse de todas as suas faculdades mentais. Não delirava, sabia. No entanto, custou a acreditar no que viu. O que viu não era uma alucinação. Ou era? Tudo se passou em um piscar de olhos.

O homem em quem Mário esbarrara desapareceu no meio da multidão.

Mário, enfim, mexeu-se, mas não saiu do lugar. Pôs-se nas pontas dos pés. Viu o topo da cabeça do homem em quem esbarrara movendo-se em meio a centenas de outras cabeças. O penteado daquele homem era idêntico ao de Mário. Mário quis andar. Não conseguiu. Sua mente não coordenava os seus pensamentos e, pareceu-lhe, perdera a capacidade de comandar suas pernas. Com muito esforço, Mário andou vagarosamente. Ao recuperar o comando de seu corpo, acelerou os passos, e, a passos rápidos, roçando nas pessoas, seguiu o homem que nele esbarrara. Não ouviu os insultos que lhe atiravam as pessoas em quem esbarrava. Sem que o desejasse, chocou-se com um homem de cabelos brancos, magro, e derrubou-o, sem tomar conhecimento do que fez. O homem levantou-se, desajeitadamente, praguejando em tom enrouquecido. Toda a atenção de Mário estava concentrada no homem que perseguia. Uma vez e outra, perdendo-o de vista, parava de correr, punha-se nas pontas dos pés, e vasculhava a região à frente, procurando, entre as cabeças, a cabeça do homem que se lhe esbarrara, e, ao identificá-la, retomava a perseguição, ziguezagueando pela multidão alvoroçada.

Ansioso, respirando com dificuldade, ora andava, ora corria, roçando em muita gente, atrás do homem, que seguia, calmamente, o seu caminho, sem tomar conhecimento de Mário, mas dele não conseguia aproximar-se; dele distanciava-se cada vez mais. Como ele, Mário, mais rápido do que o homem a quem seguia, não conseguia alcançá-lo? Ou ele, Mário, tinha noção distorcida da sua velocidade e da do homem a quem seguia?

Mário reconheceu a cabeça do outro homem, o penteado dele, que tão bem conhecia; afinal, era o seu penteado; aliás, era um penteado idêntico ao seu; e a cabeça do outro homem era a sua cabeça, aliás, uma cabeça idêntica à sua. Arquejante, o coração a pulsar acelerado, o sangue a queimar, corroendo-lhe as entranhas, o corpo quente, as têmporas a latejarem, e a visão a se lhe escurecer, corria, acelerava a sua velocidade a cada passo, e não se aproximava um centímetro sequer do homem a quem seguia. Arfava, o peito prestes a explodir. Deteve-se, para recuperar o fôlego e a força que quase se lhe esgotaram. Suava em bicas. Passou as mãos pela fronte. Enxugou a testa. E retomou a corrida. Metros depois, deteve-se, e viu o homem a quem seguia afastando-se de si. Recompôs-se. E correu, e percorreu mais de cem metros. E o homem a quem seguia andava, calmo, e de Mário afastava-se. Mário afrouxou os passos, exausto. Curvou-se, e pousou as mãos nos joelhos. Tomou fôlego. Refeito, retomou a perseguição. Após contornar três esquinas, seguiu por uma rua na qual havia poucas pessoas. Viu um pouco mais do que a cabeça do homem a quem perseguia. Divisou-lhe o corpo, há cem metros, e reconheceu a identidade entre o andar dele e o seu. O homem a quem Mário seguia e Mário contornaram outra esquina, e seguiram por rua pela qual poucos veículos trafegavam, e poucas pessoas andavam pelas calçadas esburacadas, e na qual algumas crianças empinavam pipas, outras jogavam bolinhas de gude, outras discutiam a respeito de qualquer coisa, e outras brigavam, desferindo umas contra as outras socos e pontapés. Mário não ouviu a algazarra que os garotos promoviam. Observava a misteriosa personagem. Tinha a impressão de que uma vez ou outra nuvens acinzentadas colocavam-se à sua frente, impedindo-o de vê-la. A exaustão consumia-lhe as forças. Sentia-se como um doente em busca do único remédio capaz de debelar o mal que o debilitava. Encerrou a perseguição, enfim. Sucumbiu ao cansaço. Deteve-se, abaixou a cabeça, inclinou-se, fitou o chão, e pousou as mãos nos joelhos. Suava em bicas. As pernas se lhe afrouxavam, trêmulas. Não tinha forças para dar sequer um passo, sem que fosse arremessado ao chão, inanimado.

Um homem de setenta anos, esbelto, saudável, de pele tisnada, espessa cabeleira branca cobrindo-lhe a cabeça, acenava para os meninos que se divertiam, na rua, e estes lhe correspondiam aos acenos. Mário, que mal se sustentava em pé, atraiu-lhe, sem o saber, a atenção. Curioso, o velho de Mário aproximou-se, prestativo, inclinou-se, pousou-lhe a mão direita no ombro esquerdo, e perguntou-lhe, com voz suave, quase inaudível, se ele se sentia bem, se se achava indisposto, e ofereceu-se para ampará-lo e conduzi-lo até um bar próximo, onde ele beberia água, para reanimar-se, e comeria alguma coisa que lhe fornecesse ao corpo exausto energia, pois, caso contrário, ele iria ao chão, e estirar-se-ia, desacordado, tamanha a sua fraqueza, que se lhe refletia no semblante deformado, contorcido pela dor e pelo cansaço. Mário agradeceu, indicando-lhe, com sussurros inaudíveis, numa voz entrecortada pela respiração, que não necessitava de auxílio. O velho afastou-se, relutante; voltava-se para Mário, a cada passo, e observava-o. Pressentia que algo de ruim estava para aconteceu. Mário cambaleou ao dar os primeiros passos. Conseguiu, esforçando-se, manter-se de pé. O velho, que dele se distanciava, mas dele não tirava os olhos, deteve-se, e com passos vagarosos foi até ele, e ofereceu-lhe auxílio, o qual Mário recusou, polidamente. O velho, preocupado, insistiu. E Mário renovou os agradecimentos e disse-lhe que se sentia bem. O semblante de Mário já havia assumido ar agradável, e a voz dele era nítida; o velho, convencido de que ele se recompusera, retomou, vagarosamente, o seu rumo; voltava-se, porém, de tempos em tempos, para observar Mário, que andava, lentamente, arrastando os pés, sentindo as pernas pesadas como chumbo. Ao chegar ao cruzamento das ruas W… e H…, Mário entreviu o homem a quem seguia palestrando com uma bela mulher, cuja aparência dava-lhe trinta anos de idade, bronzeada, esguia, de longos cabelos castanhos e pretos. O homem encontrava-se a menos de vinte metros de Mário, que se animou. Mário alcançá-lo-ia se se apressasse e se o homem e a mulher prolongassem a conversa. De imediato, recuperou toda a energia consumida até então, mas não desapareceram de seu rosto a ansiedade, e a estupefaciente emoção, que o assaltara quando aquele homem esbarra-lhe e o atraíra como um imã. Enquanto dele aproximava-se, atentava para os gestos dele, que eram como os de Mário. O homem, quando ria, inclinava-se para trás, como Mário inclinava-se quando ria; o homem inclinava-se para a frente e levava os dedos indicador e polegar esquerdos ao nariz, quando sorria, como Mário o fazia. O homem e Mário eram idênticos. Um deles era a imagem do outro refletida no espelho. Mas qual deles era a imagem do espelho? Mário dele aproximava-se. Notou que ele era canhoto. Mário também era canhoto. Os cabelos do homem e os de Mário eram idênticos. O porte físico do homem e o de Mário também. E idênticos eram o penteado do homem e o de Mário, e os gestos de um e os de outro. E eram idênticas as gargalhadas e as risadas de Mário e as do homem que ele fitava. Mário dele não se encontrava muito distante quando ele se despediu da mulher com gestos que lembraram a Mário os seus gestos. O homem deu um passo para trás, flexionou o braço esquerdo, sorriu, moveu a cabeça, e deu dois beijos na mulher, o primeiro, na face esquerda, o segundo, na face direita, e dela afastou-se, de costas para Mário. E a mulher abriu a bolsa que carregava a tiracolo, e remexeu em seu interior. Mário dela se aproximava, e o corpo dela se lhe definia aos olhos, e sentiu chegar-lhe às narinas o agradável aroma do perfume suave que dela recendia. Quando Mário se encontrava a dois metros dela, ela ergueu a cabeça, olhou para ele, e soltou um grito seco e curto, abafado, de susto e surpresa, e arregalou, instantânea e involuntariamente, os olhos, levou as mãos ao peito, e largou a bolsa, colada ao seu corpo, a alça por sobre seu ombro direito. Mário não queria que ela não o visse; não lhe passou pela cabeça que ela, se o visse, teria aquela reação. Ela deteve seus olhos em Mário, emudecida, encabulando-o. Mário, não sabendo o que fazer, sorriu-lhe, constrangido, incomodado com aqueles olhos radiantes a fitarem-lo. Nos olhos dela, ele viu confusão tão grande quanto à dele, ou maior.

Mário passou pela mulher, que, suspensa e estupidificada, postada na calçada, acompanhou-o, com o olhar, durante um longo tempo. Olhava para o homem a quem seguia, que, distante mais de vinte metros, afastava-se. Notou que ele andava como ele, Mário, quando calmo: a olhar para o chão, a cabeça ligeiramente inclinada para a frente. Mário não entendia porque não se aproximava daquele homem. Dobraram outra esquina. O homem a quem Mário seguia em momento algum olhou para trás, tal como Mário, que nunca olhava para trás ao andar, onde quer que estivesse.

Metros à frente de Mário, um carro retirou-se de um estacionamento. Ao volante ia uma loira de cabelos curtos; no banco dianteiro, ao lado, uma garotinha loira e branca. O carro desacelerou, lentamente, e ia se encostando ao meio-fio do lado direito da rua pouco movimentada, próximo do homem a quem Mário seguia. O homem pressentiu o carro aproximando-se de si, e voltou-se para a esquerda. Sorriu ao ver a mulher, sua esposa, ao volante, e a garotinha, sua filha, no banco ao lado, e deteve-se, aproximou-se do carro, e levou a mão esquerda à tranca da porta, e abriu-a. A menina, que não chegava aos nove anos de idade, levantou-se do banco, saiu do carro, e abraçou seu pai, enlaçando-o, calorosamente, ao pescoço, e ele a abraçou, a enlaçou pela cintura, ergueu-a do chão, sustentou-a durante alguns instantes, beijou-a, no rosto, na testa e nos lábios, numa expansão de carinho e afeto, a menina a exibir um largo sorriso, e disse-lhe palavras afetuosas, e, reclinando-se, devolveu-a ao chão, passando-lhe, carinhosamente, a mão pela cabeça quando ela, de frente para ele, comunicou-lhe qualquer coisa, e, ao fazê-la virar de costas para si e entrar no carro, desceu a mão, sempre a esquerda, da cabeça dela ao ombro esquerdo, e do ombro à cintura como se a empurrasse para dentro do carro, fê-la passar ao banco de trás do carro, e sentou-se no banco que ela ocupava anteriormente, puxou a porta, fechou o carro, inclinou-se para a esquerda, e beijou os lábios de sua esposa.

Mário acompanhou o desenrolar de toda a cena. Não lhe escapou um pormenor sequer, microscópico que fosse. Os gestos do homem a quem Mário seguia, no trato com a menina, eram idênticos ao de Mário no trato com Marcos Antonio e Aloísio. Gestos idênticos. Movimentos idênticos. Atitudes idênticas. Sorrisos idênticos. Mário concluiu que o outro homem e ele, Mário, eram idênticos. O carro distanciou-se de Mário, que se postou, exausto, ofegante.

Cansado, Mário arriou. Seus músculos, até então tensos, afrouxaram-se. Precipitou-se para o chão, e sentou-se no paralelepípedo, os pés ao meio-fio. Enterrou os cotovelos nos joelhos e escondeu a cabeça nas palmas das mãos. Arfava. Perceptíveis a dilatação e a retração de seu tórax agitado. Suspirava, aspirava e expirava, violentamente. Aos poucos, acalmou-se; incomodava-o, no entanto, o que vira. Debilitado pelo cansaço, não se achava munido de defesas contra os monstros que o assediavam, que habitavam as profundezas dos seus pensamentos. Não sabia o que pensar. Teve vontade de estirar-se, de costas, na calçada, esperando a serenidade ir em seu socorro.

Vários garotos, em algazarra estrondosa, uns nus da cintura para cima, outros vestindo camisa suja pontilhada de furos, todos eles, descalços, falavam de futebol, animados. A discussão, acalorada. Um deles, um garoto que aparentava nove anos, sobraçando uma velha e gasta bola de futebol, falava sem parar, dava socos no ar, pulava sobre um outro garoto, e este, irritado, empurrava-o, e ele, ou afastava-se e pulava sobre outro garoto, ou pulava sobre o que o empurrara. Um outro garoto, um negrinho espevitado, aproximou-se do que sobraçava a bola, e arrebatou-lha das mãos. O garoto pediu-lhe que a devolvesse. O negrinho disse que não lha restituiria, e correu, e o garoto foi-lhe no encalço. Correram os dois pela rua. O garoto ameaçou o negrinho. Ao dele se aproximar, desferiu socos e pontapés, que acertaram o ar. Todos riram, zombaram dele. Irritado, ele cessou a perseguição ao negrinho que lhe arrebatara a bola das mãos, e, bufando de raiva, insultando a todos e berrando obscenidades, correu atrás de um dos garotos que dele zombavam. E elevavam-se as gargalhadas. O negrinho, a bola nas mãos, vendo-se livre do dono dela, jogou-a no chão, e chutou-a, e fez embaixadas, numa exibição de inegável habilitada futebolística. Um rapaz amulatado, aparentando treze anos, sem camisa, de bom porte físico, um pouco maior do que o negrinho, aproximou-se dele, e tirou-lhe dos pés a bola. E ficaram a chutá-la o rapaz e o negrinho um para o outro. E os garotos, com dezesseis tijolos, divididos em quatro pilhas de quatro, construíram as traves de dois gols de um campo-de-futebol-de-rua.

Numa balbúrdia sem limites, após discussão acalorada e empurrões, os garotos compuseram cinco times, cada um constituído de quatro jogadores, e escolheram, no dois-ou-um, os dois times que se enfrentariam no primeiro jogo; e os garotos dos outros três times, contrariados, sentaram-se, na calçada, uns sobre o paralelepípedo, outros encostados ao muro, e conservaram-se, outros, em pé, encostados ao muro.

Pouco tempo depois, deu o pontapé inicial do jogo um dos jogadores de um dos dois times que, no dois-ou-um, ganhara o direito de participar do jogo inaugural daquele campo-de-futebol-de-rua.

Mário, o cérebro a fervilhar, estava à parte do que ocorria ao seu redor. Um bêbado, cambaleando, arrastando-se pelas paredes, mal se aguentando em pé, aproximou-se dele, e lançou-lhe à face hálito de bebida alcoólica. Embaralhava tanto as palavras que era impossível sequer destacar uma delas. Enterrado em suas cismas, Mário ignorou-o, e não sentiu o perfume repulsivo que dele emanava. O bêbado, engrolando pragas e insultos, afastou-se de Mário, os braços agitados. Ao se aproximar dos garotos que jogavam futebol, eles o provocaram, insultaram-no, irritando-o, e ele avançou contra eles. O negrinho aproximou-se dele, pelas costas, e deu-lhe um pontapé nas nádegas. O bêbado voltou-se para ele, quase caiu, deu murros no ar e berrou palavras, mal as pronunciando, e ninguém as compreendeu, e, ao tentar dar um pontapé no negrinho, escorregou e quase foi ao chão. Espocaram as gargalhadas. O bêbado estacou, avermelhado o rosto, saltadas as veias da testa, das têmporas e do pescoço. Esbravejou, o rosto deformado. Cuspiu. Os garotos divertiam-se, provocando-o. Alguns dentre eles dele se aproximavam, pelas costas, e chutavam-no, e corriam – e ele intensificava os insultos. As palavras que ele, esgoelando-se, proferia, ninguém as entendia. Enfim, após dez minutos a incomodar os garotos e fazendo a diversão deles, afastou-se, praguejando, resmungando, arrastando-se pelas paredes, vinte metros, agachou-se, sentou-se, encostado à parede, deitou-se, cerrou as pálpebras, e dormiu.

O Sol estorricava. Os garotos, alanceados pelos raios do Sol, não os sentiam, parecia.

A algazarra que os garotos promoviam, de tão animada, atraiu a atenção de Mário, desviando-o dos seus pensamentos. Assaltou-lhe uma sensação estranha, que lhe percorreu a espinha. Para os garotos ele olhou, confuso, atrapalhado, sem saber o que lhe atraíra a atenção, intrigado não sabia com o quê. Pensou ter ouvido alguém falar dele ou dirigir-lhe a palavra. Dois garotos fitavam-no, insistentes, a ponto de encabulá-lo. Um deles, moreno, desembaraçado, tagarela, nu da cintura para cima, descalço, esfolados os joelhos, o antebraço esquerdo e os cotovelos, apontava-o e dizia qualquer coisa para outro garoto (bronzeado, de pele queimada de Sol, descascada nos ombros) que fitava Mário, intrigado e indiferente. Mário apurou os ouvidos, mas não pôde ouvir o que os garotos diziam. Incomodava-o a insistência com que eles o fitavam. Pensou em levantar-se, e retirar-se, mas faltaram-lhe forças. Foi então que percebeu o quão exausto estava. Os dois garotos, falando dele, produziam-lhe um efeito indefinível. E deles aproximou-se um outro garoto, de dez anos. E o moreno disse-lhe qualquer coisa. O garoto demonstrou interesse pela notícia, e, curioso, fitou Mário, cuja mente foi iluminada por um pensamento qualquer, que lhe foi inspirado por alguma palavra que ele pensou ter ouvido, proferida por um dos garotos que o fitavam, ao ler-lhe os lábios. Mário esbugalhou os olhos e apurou os ouvidos. Quando o garoto fitava-o, estudava-lhe os movimentos dos lábios. E perguntou-se se ficaria, lá, sentado, observando-o, ou se levantaria, iria até ele, e far-lhe-ia perguntas? Decidiu lá permanecer, calado, esperando que ele lhe fosse dizer alguma coisa.

E chegou a noite.

E os garotos jogavam futebol, brigavam, berravam palavrões e discutiam.

Os caminhões, os carros, os ônibus e as motos que trafegavam por aquela rua invadiam o campo, e os garotos interrompiam o jogo e insultavam os motoristas com as mais desbocadas obscenidades, e gargalhavam sempre que um deles respondia aos insultos com obscenidades e acenos despudorados.

Várias vezes, a bola, chutada, com muita força, por um dos garotos, ou espirrada numa dividida, foi parar aos pés de Mário, que, uma vez ou outra, tocava-a ou com os pés, ou com as mãos, lançando-a ao garoto que a ia buscar. O garoto que apontara para Mário e o indicara para os outros garotos e para eles dele falara, em nenhum momento aproximou-se de Mário, que esperava, ansiosamente, que ele lhe fosse falar qualquer coisa.

Noite alta, a bola, um pouco murcha, maltratada durante o dia por mais de vinte pares de pés, correu até os pés de Mário, que a pegou para entregá-la a quem a fosse buscar. Qual foi a sua surpresa ao deparar-se com o garoto moreno bem diante de si! O coração de Mário vibrou, acelerado, a ponto de explodir e fragmentar-se em milhões de pedaços microscópicos. Mário emudeceu. Secou-se-lhe a garganta. Seu sangue fervilhava. Cauterizaram-lhe o cérebro as sensações que o assaltavam. Mário esperou, ansiosamente, que o garoto lhe dissesse qualquer coisa. Aproximando-se de Mário, aos olhos dele o garoto converteu-se em um espectro colossal. Aquele garoto de corpo fino e desengonçado, que falava sem parar, desencadeando gargalhadas em todos que o ouviam, e promovia balbúrdia sem paralelo na história da humanidade; aquele garoto, descalço, com machucados nos joelhos, nos cotovelos e no antebraço direito e cicatrizes em inúmeros pontos do corpo; aquele garoto cuja fisionomia transparecia peraltice e irradiava malandragem embrionária e serenidade escalafobética; aquele garoto, um contraste em si, aos olhos de Mário converteu-se em uma criatura letal, que poderia vir a inocular-lhe veneno para o qual não se conhecia antídoto. O garoto agachou-se, os braços estendidos na direção de Mário – que o fitava – para pegar a bola que ele lhe oferecia. Incomodou-o a atitude de Mário. O garoto relutou em tirar-lhe das mãos a bola. Um grito seco e imperioso de um dos garotos que esperavam que ele regressasse, com a bola, ao campo, para que retomassem o jogo, fê-lo agir; e abandonadas as suas reservas, na bola o garoto pousou suas mãos, e atraiu-a para si, puxando-a para junto da barriga, como se a houvesse resgatado das mãos de um demônio oriundo das profundezas do inferno. Mário desejou dirigir-lhe a palavra, mas, sem o domínio de si, esforçando-se para recuperá-lo, não conseguiu articular uma sílaba sequer; e era-lhe impossível elaborar uma frase. Encarou o garoto com olhar que lhe emprestava aparência mórbida e estúpida. O garoto fitou Mário, o olhar estupidificado, ensimesmando-o; olhou para um lado e para o outro. Assim que Mário fez um movimento em sua direção, ele se afastou, correndo, e regressou ao campo, e reuniu-se aos outros garotos, que, impacientes, aguardavam-no, para darem sequência ao jogo.

Mário não sabia o que pensar, não tinha consciência das reais dimensões do que ocorria em seu espírito. A sua aparência não inspirava a incredulidade e a estupefaciência que ele leu no olhar e no semblante do garoto. Algo extraordinário fê-lo transmiti-las. O quê? perguntava-se. O garoto, antes de ver Mário, havia visto o homem idêntico a ele? Mário era unigênito. Mas havia um homem idêntico a ele, e o garoto o vira, daí ele ter fitado Mário com ar de espanto, Mário presumiu, tais pensamentos a lhe marretarem o cérebro.

Sabia que vira um homem idêntico a si, e o olhar do garoto provara-lhe que ele, Mário, não vivia sob um acesso alucinógeno. O garoto não tinha outra razão para o fitar como o fitou, Mário estava convicto; só uma coisa extraordinária inspirar-lhe-ia tal comportamento.

Patrulheiros Fique Em Casa – (versão 1)

João e José, irmãos, domingo, ao entardecer, após uma semana trancafiados em casa, saíram para esticar as canelas. Ao chegarem à esquina, uma viatura do Patrulheiros Fique Em Casa aproximou-se deles, e o patrulheiro lhes berrou, fungando de raiva:
– Voltem para casa. Têm de ficar de quarentena.
– E o que você está fazendo aqui, patrulheiro? – perguntou-lhe José, rindo. – Volte para a sua casa.
– Engraçadinho. Eu tenho de manter a ordem.
– Mas nós temos de trabalhar – mentiu João. – Tratalhamos, na Fábrica Monte e Desmonte, no turno da noite. Temos de ganhar o nosso ganha-pão. A frase ficou feia, né, José: “Ganhar ganha-pão”? Que falta de estilo.
– Não podem – replicou o patrulheiro. – Tem de obedecer a quarentena.
– Eu não a conheço – replicou José.
– Você não conhece quem!? – perguntou, intrigado, o patrulheiro.
– A sua patroa – respondeu João.
– A minha patroa!? – perguntou o patrullheiro, ainda mais intrigado.
– Sim – respondeu José. – Sim. A sua patroa: a Quarentena.
– Chega de palhaçada – bufou o patrulheiro, de raiva.
– Palhaçada ou palha assada? – divertia-se João com a confusão do patrulheiro.
– Basta! Engraçadinhos, basta! Voltem para a casa de vocês. Respeitem a quarentena.
– Senhor patrulheiro – disse José -, nós mentimos para o senhor. Pedimos-vos as nossas humildes desculpas. Na verdade eu e meu irmão não estamos indo trabalhar. Estamos apenas caminhando, para espairecer um pouco, desenferrujar os ossos…
– Não podem – berrou o patrulheiro. – É proibido aglomerações.
– Aglomerações!? – exclamaram, confusos, ao mesmo tempo, José e João, que se entreolharam, intrigados.
– Sim – respondeu o patrulheiro. – Vocês são dois. E dois é mais de um. Um é um só. Dois é mais de um. Se é mais de um não é singular; é plural. Se é plural, é aglomeração.
– E essa agora!? – exclamou João.
– Vixi Maria! – exclamou José.
– Tudo bem, senhor patrulheiro – disse João, ao vê-lo pegar de um cassetete. – Tudo bem, senhor, Perdoe-nos, pedimos humildemente. Mentimos para o senhor duas vezes. Perdoe-me. Respeitamos o senhor. Digo a verdade, agora, senhor patrulheiro: eu e meu irmão não vamos trabalhar; nem saímos de casa para passear. Serei sincero, senhor patrulheiro: Nós estamos indo até a biqueira. Somos viciados, drogados. Vamos comprar LSD, crack, maconha, cocaína, lá na boca do Carlão Tatu-Bola. Não queremos desampará-lo, neste momento tão difícil. Ele tem de ganhar a graninha dele, né?! E nós temos de nos divertir um pouco, né, senhor patrulheiro!? É só consumo recreativo. E lá tem funk; e novinhas… Se é que o senhor me entende… – piscou, rindo, cúmplice.
– Ah! – exclamou o patrulheiro, sorrindo. – Por que não me disseram assim que abordei vocês!? Teríam evitado atrito e constrangimento. Neste caso, fiquem à vontade. Não há lei que proíba as pessoas de se divertirem. Tenham uma boa noite de diversão, senhores.
– E tenha uma boa noite de trabalho, senhor patrulheiro.
E o patrulheiro Fique Em Casa entrou na viatura, acenou para João e José, e seguiu a patrulhar a cidade.
E João e José passearam tranquilamente.

A musa inspiradora

O homem encapuzado atravessou dois prédios, e caiu sobre um carro, cujos vidros estilhaçaram-se e cujos pneus estouraram. Uma mulher de longos cabelos brancos presos com uma tiara dourada, embrulhada em um colante prateado reluzente, surgiu do céu, desceu sobre o carro, e estudou o corpo que ali caíra uma fração de segundo antes.

Dentre as pessoas que compunham a multidão, uma se destacou, fascinada com a beleza da mulher, e clamou, eufórica:

– A Mulher de Prata!

Ouviu-se um prolongado “Oooh” misto de admiração e espanto.

A Mulher de Prata inclinou-se para a frente, segurou, pelo pescoço, o homem encapuzado, ergueu-o como se erguesse uma folha de papel, manteve-o suspenso, elevou-se no ar, como se flutuasse, e, como um raio, desapareceu, deixando atrás de si um rastro de luz prateada.

Dispersou-se a multidão.

Na manhã seguinte, os principais jornais do país estamparam, na primeira página, a foto da estupenda Mulher de Prata.

*

O relato que se leu nas linhas anteriores é a síntese da cena final de uma história em quadrinhos de super-heróis, cujo autor – também o criador dos personagens, o roteirista e o desenhista – era um jovem de vinte anos, Josué Souza de Lima e Silva, apaixonado por histórias em quadrinhos, sendo as de super-heróis americanos as suas prediletas. Ambicioso, almejava criar os mais famosos super-heróis do Brasil. Não carecia de talento. E todos os que conheciam o seu trabalho anteviam-lhe uma carreira bem-sucedida.

Josué desenha desde os cinco anos. Cursou escolas de artes e estudou as obras dos célebres mestres da pintura; com mais dedicação, as de Michelângelo, Leonardo da Vinci, Goya e Caravaggio, os gênios que ele mais admirava. Idolatrava-os. Reverenciava-os.

Gosta de desenhar corpos humanos. Não se interessa pela pintura moderna, concentrada, segundo Josué, em figuras geométricas, cenários esvaecidos, e obcecada por manchas e borrões. Reproduziu, a partir de fotos publicadas em revistas de arte, as pinturas: de Botticelli, A Primavera e O Nascimento de Vênus; de da Vinci, a Dama do Arminho; de Tiziano, Vênus de Urbino; de Rubens, O Rapto das Filhas de Leucipo, As Três Graças, Diana e Suas Ninfas Surpreendidas pelos Sátiros; de Rembrandt, A Lição de Anatomia do Doutor Tulp; de Boucher, Diana Saindo do Banho; de Murillo, Menino Despiolhando-se; de Goya, Maja Desnuda; de Ingres, O Banho Turco; e dezenas de outras pinturas.

A partir de fotos, reproduziu, em desenhos, de vários ângulos, as esculturas que mais o encantam: Poseidon do Cabo Artemision; Discóbolo; Apolo Sauróctono; Suicídio de Gálata; As três Graças; O Bom Pastor; Davi (o de Michelângelo e o de Bernini); Pietá; Moisés; O Gênio da Vitória; O Rapto das Sabinas; O Gigante dos Apeninos; Persepo; Êxtase de Santa Teresa; Apolo e Dafne; O Rapto de Perséfone; Cupido e Psiquis.

As mulheres representadas por alguns dos gênios da pintura não desagradam Josué; embora não correspondam ao seu ideal de beleza feminina, servem de contrapeso ao ideal de beleza feminina difundido pelos estilistas e pela mídia. O rosto da Dama do Arminho encanta-o sobremaneira. Deslumbra-o. Fascinam-no o seu sorriso cativante e o seu olhar celestial, mais, até, do que o sorriso enigmático de Gioconda. Transportaram-no para além da matéria a moça sorridente de Os Felizes Azares do Balouço e as duas meninas angelicais de As Filhas do Pintor Caçando Uma Borboleta. O rosto da Conceição do Escorial, o mais encantador, mais belo de quantos Josué jamais presenciou, fá-lo transcender aos céus, a crer nos poderes celestiais, e confere-lhe paz de espírito. Josué recortou uma reprodução desse belíssimo quadro de Murillo, emoldurou-o, e conserva-o, à parede, no seu estúdio, diante de seus olhos, e admira-o, todos os dias. Tal quadro tem o poder de inspirar-lhe belas personagens e histórias fascinantes.

O ideal de beleza feminina de Josué é um composto do rosto da Conceição do Escorial e do sorriso da Dama do Arminho. E o corpo? Os das mulheres de Goya, Ingres, Rubens, Honthorst, Tintoreto, Tiziano e Botticelli não correspondem ao seu ideal de beleza feminina, que não é o grego, nem o renascentista, tampouco o das passarelas dos desfiles de modas e o das capas de revistas e o das novelas e o do cinema.

Além de estudar os gênios da pintura, Josué estudou modelos vivos e os criativos traços de Will Eisner, Earl Norem, John Buscema, Neal Adams, Frank Cho, Milo Manara, Barry Windsor-Smith, Collonese, Alex Ross, John Byrne, Bryan Hitch, Hal Foster, Ivan Reis, Winsor McCay, Ed Benes e Serpieri. Possui vários gigabytes de memória com desenhos dos seus artistas e personagens prediletos.

Para criar a Mulher de Prata Josué buscou inspiração em modelos, atrizes, atletas e nas mulheres que conhece, mas nenhuma delas correspondeu ao seu ideal de beleza feminina. Das mulheres desenhadas pelos melhores desenhistas, Josué, para a concepção de Mulher de Prata, extraiu, das mulheres desenhadas por Manara, os lábios; das desenhadas por John Buscema, o busto; das desenhadas por John Byrne, as pernas; das desenhadas por Frank Cho, os quadris; das desenhadas por Collonese, os olhos; das desenhadas por Hitch, o nariz; das desenhadas por Ivan Reis, os cabelos. O conjunto, entretanto, não o agradou.

Josué acreditava que jamais encontraria uma mulher que correspondesse ao seu ideal de beleza feminina; para a sua surpresa, encontrou-a: Uma prodigiosa morena cor de jambo de pernas compridas, coxas firmes e busto bem feito. Atraído por tão extraordinária formosura, Josué andou na direção dela. Ela entrou em uma banca de jornais. Pouco depois, retirou-se, e passou por Josué, que andava em sua direção, e dele se afastou.

Josué desejava segui-la, queria falar-lhe, mas sua língua petrificou-se e seus pés enterraram-se no chão.

Recompôs-se assim que a lindíssima moça dobrou a esquina. Sua cabeça era um turbilhão caótico de pensamentos desordenados. Andou, lentamente, para a sua casa. Iria, no dia seguinte, andar pelas proximidades da banca de jornais, para, se a sorte o favorecesse, encontrar a  bela morena.

Em seu estúdio, eufórico, inspirado, concebeu dezenas de personagens para as suas estórias de super-heróis. Sem perceber, emprestou ao rosto da Mulher de Prata as feições da bela jovem que havia admirado.

Nos dias seguintes, caminhou pelas ruas próximas da qual encontrara a bela morena. Foi à banca comprar gibis. Assim que conquistou a simpatia da mulher que lá trabalha, perguntou-lhe da bela morena, mas ela não a conhecia.

*

Mulher de Prata, com uma rajada de energia cósmica, anulou o campo de força que protegia o Homem-Molécula, que, numa velocidade surpreendente, atacou-a pela retaguarda, e arremessou-a contra um prédio. Mulher de Prata atravessou-o, recompôs-se imediatamente e, antes que o Homem-Molécula percebesse o que se passava, envolveu-o em um estreito abraço, e disparou, pelas mãos, gás tóxico, que o pôs desacordado. Ato contínuo, conduziu-o à prisão especial para super-vilões, na ilha artificial AA-35 – na qual encarceraram em uma cela dotada de mecanismos que lhe anulavam os poderes -, e rumou para a sua casa. Pouco depois, desfazendo-se da vestimenta prateada e da tiara dourada, assumiu a sua identidade original, Karen Sylvia Rodrigues Lacerda, astrofísica de renome internacional.

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Os leitores da revista Mulher de Prata notaram que Karen Sylvia Rodrigues Lacerda e Mulher de Prata, nas duas edições mais recentes de Mulher de Prata, foi representada com características físicas distintas das originais, e de Josué exigiram explicações a respeito. Por que o cabelo de Karen não é mais branco? Por que ela está um pouco menor? Por que ela está mais esbelta? Por que suas sobrancelhas estão mais finas e menos arqueadas? Por que seu pescoço está mais curto? Por que suas coxas estão mais grossas? Por que sua cintura está mais fina? Por que seus lábios estão mais carnudos? Por que as maçãs de seu rosto estão maiores? Por que seu rosto está mais arredondado? Por que seus pés e suas mãos estão menores? Por que seus quadris estão mais largos? Por que seus cabelos estão mais compridos? Por que suas nádegas estão maiores? Por que seus peitos estão menores e mais empinados? Os leitores não admitiram tergiversações. Josué teve de dar as devidas explicações. Ele percebeu que não era coincidência que a elevação das vendas do gibi Mulher de Prata dava-se na proporção com que Karen (Mulher de Prata) assumia as feições e o tipo físico da bela morena que o fascinara. Ao perceber isso, insistiu nas mudanças da figura da personagem, e tais mudanças mereciam uma explicação plausível. E ele a deu, nas aventuras, e agradou aos leitores; os mais exigentes não a engoliram – desconfiavam que havia outras razões, inconfessadas, por trás das rápidas mudanças no aspecto físico de Karen (Mulher de Prata).

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Durante uma batalha com a Rainha das Trevas – feiticeira demoníaca que assolava, havia dias, com seu poder hipnótico, a cidade de São Paulo -, Mulher de Prata, acometida de uma síncope, retirou-se de São Paulo, e voou, por duas horas, até o laboratório do doutor Abdul, localizado em Hyderabad, Índia. Assim que o doutor Abdul saudou-a “Karen, que prazer em revê-la.”, ela se lhe largou aos braços. O doutor Abdul conduziu-a, imediatamente, à câmara tonificante. Ao recompor-se, Karen dele ouviu as explicações concernentes à síncope que a acometera: Karen sofrera modificações em sua estrutura genética, decorrentes, suspeitava o doutor Abdul, de alterações, provocadas por raios cósmicos, na composição da atmosfera terrestre.

– Norrin Radd nunca enfrentou problemas similares – comentou Karen, bem-humorada.

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Mulher de Prata fazia mais sucesso à medida que Josué modificava-lhe a figura. A sua nova aparência agradou ao público masculino, que correspondia a noventa e cinco por cento dos leitores da revista.

Certo dia, Josué vislumbrou a bela morena, em meio à multidão, na praça Central. Acelerou os passos. Controlando a ansiedade, que o avassalava, perguntou-lhe o nome: Jussara. Dias depois, convidou-a para trabalhar com ele, como modelo das personagens das suas revistas em quadrinhos. Jussara hesitou. Aceitaria ou não o convite? Ela conhecia o gibi da Mulher de Prata e admirava Josué, mas receava expor-se.

Josué, com sua lábia irresistível, convenceu-a a trabalhar para ele.

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Em Júpiter, Mulher de Prata entrou em colapso. Fragmentou-se em milhões de partículas minúsculas. Poucas horas depois, seu corpo recompôs-se, maior do que antes. Mulher de Prata sentia-se mais poderosa. Seus cabelos estavam pretos; sua pele, morena. Com fúria incontida, rumou, à velocidade da luz, à esquadra dos kxwys, povo guerreiro oriundo de Andrômeda, destroçou-a, e evitou a destruição da Terra.

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Esta saga, cujo título era A Fênix de Prata, estendeu-se por quatro edições da revista Mulher de Prata, que, ao final da saga, teve o seu título modificado para Fênix de Prata. O sucesso, estrondoso. E as comparações com Jean Grey e a Saga da Fênix foram inevitáveis, e as perguntas a respeito das semelhanças entre as duas sagas, incontornáveis. Josué, não podendo esquivar-se delas, apontou as dessemelhanças entre as duas personagens e as duas sagas. Karen Sylvia Rodrigues Lacerda não era uma mutante; não integrava nenhum grupo de super-heróis; os seus poderes provinham das forças cósmicas; não tinha poderes telecinéticos; e não morreu: seu corpo dissipou-se – os átomos que o compunham desagruparam-se e, ao reagruparem-se, deram-lhe outra forma. E, o mais relevante, Fênix de Prata não sucumbiu ao seu lado negro, que, aliás, não possuía.

Alguns leitores compararam Fênix de Prata, no que diz respeito a altivez, à Lara Croft. Outros diziam que Karen Sylvia é tão bela quanto Sara Pezzini. Não foram poucas as comparações feitas entre Karen e Druuna, Sonja, Ororo, Wanda Maximoff, Elektra, Diana Price, Jessica Drew, Jeniffer Walters, Dinah Laurel Lance, Felícia Hardy, Selina Kyle e Mary Jane. Qual delas é a mais bonita? O site ***.com promoveu concurso para eleger a mulher mais bonita dos quadrinhos. O resultado foi surpreendente: Karen Sylvia Rodrigues Lacerda e Fênix de Prata, o seu alter-ego, desbancaram as belíssimas Felícia Hardy, segunda colocada; Diana Price, terceira; Lara Croft, quarta; e Sara Pezzini, quinta.

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Amazonas.

Iaci, a moça-lua, embrenhou-se na floresta, no encalço de um contrabandista de animais, que, certo de que das garras dela não escaparia, deteve-se, revólver em punho, e virou-se para a direção da qual, acreditava ele, Iaci dele aproximava-se, premiu o gatilho, e disparou. O projétil riscou o ar, e foi alojar-se em uma sumaumeira. O estrondo ecoou pela floresta. Pássaros voaram, aterrorizados. O contrabandista, olhar assustado, olhos arregalados, coberto de suor, as mãos trêmulas, mal conseguindo segurar o revólver, olhava em todas as direções à procura de Iaci. Um vulto passou à sua direita, atraindo-lhe a atenção. O contrabandista premiu o gatilho. O projétil alojou-se em um galho de uma árvore pequena. Assustado, o contrabandista esgoelava-se. Descarregou o revólver. No momento em que premiu o gatilho, e ouviu-se um estalo surdo, Iaci apareceu à frente dele, como um espírito fantasmagórico, de olhar severo, cravou-lhe as unhas afiadas no peito esquerdo, e arrancou-lhe o coração. O contrabandista tombou, pesadamente, no chão juncado de folhas e de insetos. Os insetos devoraram-no. Iaci abraçou uma árvore, e desapareceu.

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Com o sucesso de Fênix de Prata, Josué criou outras personagens, todas inspiradas em Jussara, e lançou, com sucesso, outros títulos de revistas em quadrinhos. O número um de Iaci, a moça-lua, vendeu, em uma semana, cinquenta mil exemplares. E a primeira saga, concluída na edição 7, vendeu, em média, cada edição, duzentos e vinte mil exemplares.

Josué assinou contrato com um estúdio de animação para produzir dois longa-metragens, um protagonizado por Fênix de Prata; o outro, por Iaci, a moça-lua. Para cada longa, o estúdio comprometeu-se a investir vinte milhões de reais.

Os leitores de Fênix de Prata e Iaci, a moça-lua, perguntavam a Josué quem era a sua musa inspiradora. Josué sonegava-lhes informações. Com o lançamento de outros dois gibis, A Maravilha de Júpiter e Diamante, ambos de autoria de Josué, cujas protagonistas eram mulheres belíssimas, os leitores intensificaram o assédio. Quem era a musa inspiradora de Josué? A protagonista de A Maravilha de Júpiter, Diana, era uma jupiteriana de quatro metros de altura e cabelos avermelhados; e a de Diamante, Laurën, usava uma vestimenta ultra-resistente munida de armamentos dotados de inteligência artificial. Os leitores mais atentos notaram que Diana e Laurën tinham muitas semelhanças físicas com Iaci e Karen, e exigiram crossovers entre as personagens. Josué prometeu uma saga com as suas quatro principais personagens, mas não estabeleceu um prazo para a publicação. Mãos à obra, deu início à concepção da saga Matéria Escura, na qual apresentaria atuais conceitos sobre multiuniverso, viagem através do tempo, passagens interdimensionais, extravagantes concepções do nascimento e da morte e teorias sobre múltiplas personalidades. Nos quatro títulos de sua editora, Josué, como preâmbulo para Matéria Escura, criou uma trama extraordinariamente complexa na qual interligavam-se as aventuras de Iaci, Fênix de Prata, Diamante e Maravilha de Júpiter. Dezenas de outras personagens, todas concebidas por Josué, foram introduzidas neste universo. Uma delas, Superpoderosa, de coadjuvante logo passaria a protagonizar as suas próprias aventuras em sua própria revista.

*

Para a felicidade dos fãs, o primeiro número de Matéria Escura chegou às bancas de todo o país. Foram vendidos cinquenta mil exemplares em quatro horas. Três novas tiragens foram impressas nas duas semanas seguintes. Cada uma com cem mil exemplares. Em dois meses, esgotou-se a décima quinta tiragem, perfazendo dois milhões e quinhentos mil exemplares vendidos.

No número um, no primeiro capítulo, quatro vilões e Fênix de Prata digladiam-se; no segundo capítulo, Superpoderosa depara-se com distúrbios sociais provocados por um fanático religioso de talentos hipnóticos; no terceiro capítulo, Diamante enfrenta uma criatura incorpórea composta de matéria desconhecida; no quarto capítulo, Diana regressa a Júpiter para evitar o extermínio dos jupiterianos, cujas cidades estavam sendo arrasadas por fenômenos desconhecidos; e no quinto capítulo, Iaci enfrenta criaturas compostas de elementos desconhecidos, mas tão fabulosos, tão extraordinários, que passaram por sobrenaturais.

A saga Matéria Escura estendeu-se por quinze edições, cada uma com cento e cinquenta páginas; as dez primeiras edições estão divididas em cinco capítulos; da décima primeira edição em diante – todas as cinco personagens (Iaci, Maravilha de Júpiter, Fênix de Prata, Diamante, Superpoderosa) atuam em grupo -, cada edição compõe-se de um capítulo. Na edição final dá-se o derradeiro confronto entre super-heróis e super-vilões. Os leitores acompanharam, com interesse, encantados, o desenrolar da magnífica saga, e surpreenderam-se com as revelações, as reviravoltas, a violência explícita, o erotismo e a sensualidade intensas.

E Superpoderosa sobrepujou todas as outras personagens, assumiu o primeiro plano, e converteu-se na personagem central da trama.

O sucesso de Matéria Escura foi retumbante. A saga, revolucionária. Josué Souza de Lima e Silva amealhou todos os principais prêmios distribuídos pela Academia dos Quadrinistas: Melhor roteiro, melhor desenhista, melhor saga, melhor arco de estórias, melhor arte-finalista, melhor colorista, melhor capa, melhor super-herói, melhor super-heroína, melhor super-vilão, melhor super-vilã, melhor roteiro original, melhor concepção artística de personagens, melhor concepção de cenário original e melhor personagem coadjuvante.

Os leitores desejavam, agora mais do que nunca, conhecer a musa inspiradora de Josué.

– Vocês querem saber quem é a minha musa inspiradora? – perguntou Josué, em uma noite de autógrafos, no pátio da sua editora, para os seus fãs alvoroçados. – Vocês querem conversar com ela? Daqui uma semana darei a resposta para vocês.

Ouviram-se assobios altissonantes.

Assim que chegou na sua casa, Josué foi tratar do assunto com Jussara. Antes de lhe falar do desejo insaciável dos seus admiradores, admirou-a, alumbrado.

– Jussara, os admiradores da Superpoderosa, da Iaci, da Fênix de Prata, da Maravilha de Júpiter e da Diamante querem te conhecer – disse Josué, com voz suave, tímido, silabando as palavras. Ele vivia um drama inconcebível para o comum dos mortais. – Eles querem que eu te apresente para eles. Não podemos ignorá-los. Eles merecem te conhecer. Nosso sucesso se deve aos leitores dos gibis. Eles adoram a Fênix de Prata. Eles adoram a Maravilha de Júpiter. Eles adoram a Iaci. Eles adoram a Diamante. Eles adoram a Superpoderosa. A paixão dos leitores pela Superpoderosa é maior do que a que sentem pela Laurën, pela Iaci, pela Karen e pela Diana. A Superpoderosa é o teu retrato. Iaci, Karen, Diana e Laurën são inspiradas em ti. A Superpoderosa, não. A Superpoderosa és tu. E os admiradores dela desejam te conhecer. E merecem te conhecer, afinal eles fizeram a nossa fortuna. Hoje possuímos esta casa imensa, com todo o conforto que o mundo pode oferecer, porque nossos leitores te adoram. E eles querem te conhecer – coçou o nariz, e prosseguiu: – Estou pensando em uma entrevista coletiva. O que tu achas? Ou poderemos promover uma feira de quadrinhos – interrompeu-se, atraído pelo vôo de um beija-flor, e prosseguiu: – Para os leitores, tu és uma deusa. Os leitores te reverenciam. Tu és cultuada. Tu és reverenciada. Os leitores querem te conhecer. E eles merecem te conhecer. Ficamos assim: Tu responderás à vinte perguntas. Ficarás, durante duas horas, à disposição dos nossos admiradores. Na feira de quadrinhos haverá debates, palestras, apresentações de vídeos sobre os novos projetos da editora. E programarei a entrevista para o último dia do evento.

Na manhã seguinte, Josué reuniu promotores de eventos, comunicou as emissoras de televisão e editoras de jornais e revistas sobre a feira de quadrinhos e a entrevista coletiva que Jussara concederia, e deu a notícia no site oficial da sua editora.

Na inauguração, esgotaram-se os ingressos em quarenta minutos. O evento, concorrido, atraiu a atenção de profissionais da área artística, em especial de roteiristas e desenhistas de revistas em quadrinhos, e de apreciadores da nona arte. Os admiradores de Fênix de Prata, Iaci, Diamante, Maravilha de Júpiter e Superpoderosa lotaram a sala especialmente preparada para a entrevista com Jussara.

O organizador do evento, Silvio Ulisses Riachuelo, popular entre leitores de revistas em quadrinhos, apreciadores de games e rpg, fez, eufórico, o discurso de recepção a Jussara e a Josué Souza de Lima e Silva.

– Hoje é o grande dia! Hoje, o dia em que o mundo conhecerá a musa inspiradora de Josué. Jamais o mundo conheceu mulher tão bela. Nem os antigos gregos, gênios da beleza, nem os romanos, nem os nórdicos, nenhum povo antigo, jamais conheceu tão imensa maravilha. Esqueçam Angelina Jolie! Esqueçam Brigitte Bardot! Esqueçam Marylin Monroe! Esqueçam a garota de Ipanema! Esqueçam Cleópatra! Esqueçam Aishwarya Rai! Esqueçam Aki Ross! Esqueçam Jessica Rabbit! Esqueçam Jasmin! Esqueçam Betty Boop! Esqueçam as sereias! Esqueçam as deusas do Olimpo! Esqueçam as deusas de Asgard! Esqueçam Mary Jane! Esqueçam Lara Croft! Esqueçam Gong Li! Esqueçam as deusas de Hollywood! Esqueçam as deusas de Bollywood! Lembrem-se da deusa, a deusa suprema, a musa inspiradora de Josué.

Abafaram-lhe a voz ovações ensurdecedoras. Abalaram a estrutura do prédio os aplausos estrondosos. Silvio pediu silêncio; assim que o silêncio foi restabelecido, retomou o seu discurso inflamado:

– Meus amigos! Minhas amigas! Hoje teremos o prazer de conhecer a musa inspiradora de Josué, o nosso querido Josué, que nos ofereceu, com as suas brilhantes sagas quadrinísticas, horas e horas e horas de alegria e prazer. Pudemos sonhar com a Fênix de Prata, com Iaci, a moça-lua, com Diamante, com a Maravilha de Júpiter, e com a Superpoderosa. Daqui a pouco, conheceremos a musa inspiradora de Josué, nosso querido Josué, o gênio brasileiro dos quadrinhos. Paciência, amigos impacientes. Paciência. Tenham um pouco de paciência, meus amigos. Logo, logo, admiraremos a musa inspiradora de Josué.

O público berrava. Por mais de cinco intermináveis minutos, Silvio mal pôde proferir uma palavra, e as que proferiu ninguém as ouviu. Insistiu em pedir silêncio; enfim, teve êxito. E ele prosseguiu:

– Chegou, meus queridos amigos, o momento pelo qual todos ansiávamos. Com vocês, para a felicidade geral da nação, Josué e a sua musa inspiradora!

Elevaram-se à alturas que vozes humanas jamais alcançaram os gritos altissonantes. Apagaram-se as luzes, e um cone de luz foi projetado no centro do palco, iluminando Josué e a sua musa inspiradora. Silêncio opressivo tomou conta de todos, que, estupefatos, surpreendidos pela fascinante aparição, emudecidos, perguntavam-se:

– Por que Josué está abraçado a um bloco de mármore?

Os pioneiros – parte 3 de 3

A espaçonave exploratória A-1 deslocou-se sete mil quilômetros para o norte de A***, sobrevoando-o a trinta mil metros de altura. Os seus sensores detectaram milhares de criaturas aladas gigantes, que se deslocavam a duzentos e oitenta quilômetros por hora, e no encalço delas a espaçonave-mãe enviou dezenas de pequenos robôs exploradores. Cada criatura alada gigante tinha cinquenta metros de extensão, oitenta metros da ponta da asa esquerda à ponta da asa direita, três caudas, pele revestida de substância semelhante a vidro que vibrava consoante os movimentos das criaturas e refletia a luz das duas estrelas brancas que nela incidia criando um caleidoscópio indescritível, nove fileiras de dentes de quatro cabeças serrilhados afiadíssimos, três narinas localizadas entre os sete olhos dispostos aleatoriamente na face anterior da cabeça juncada de excrescências e cavidades cavernosas (as excrescências segregavam líquido fluídico amarelo-esverdeado, e as cavidades, líquido fluídico cinza-azulado, que, exposto à luz, inflava-se, e assumia a configuração de esferas e a constituição de espuma, e alguma criatura, voando, manobrava o corpo de modo a interceptá-las, abriam a boca, e as engoliam. Eram alimentos muito apreciados por algumas criaturas, que por eles se digladiavam, e só encerravam a briga quando a criatura que encabeçava o grupo emitia um assobio grave), emitiam assobios agudos, de infinitos timbres, e estalavam as quatro línguas bifurcadas, duas localizadas no céu da boca e duas no chão da boca, separadas por saliências de cinquenta centímetros de altura.

As criaturas aladas gigantes atravessaram nuvens carregadas, que disparavam raios violentíssimos, que as atingiam, e renovavam-lhes as energias, e elas agitavam-se e emitiam gritos estridentes.

A criatura alada gigante que comandava o grupo escancarava a boca, a curtos intervalos, e engolia os raios. E regozijava-se. Era ela a única criatura que engolia raios. E a sua pele vítrea vibrava, assumia colorações inusitadas, multicoloria-se – espetáculo que as outras criaturas aladas, embevecidas, admiravam. Além de engolir raios, ela sorvia nuvens, em haustos vigorosos. Assustador! Admirável! Boquiabriram-se os expedicionários que se encontravam na espaçonave exploratória A-1 e os que se encontravam na espaçonave-mãe, a três milhões e quinhentos mil quilômetros de distância, em órbita de A***.

As criaturas aladas gigantes voaram – e nada lhes estorvou a jornada, nem raios, nem tempestades, nem furacões, nem erupções vulcânicas, tampouco outras criaturas aladas – até uma cavidade imensa e profunda, localizada, a dois mil metros abaixo do topo de uma montanha íngreme de seis mil metros de altura, coberta de gelo e rocha, cujo topo era inacessível para criaturas que não voam, e nela entraram, e rumaram, por um túnel de cinquenta quilômetros de extensão, para as profundezas vulcânicas do solo da montanha, que não estavam dominadas por trevas eternas. Pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade refletiam a luz emitida pelas estrelas brancas, e pedras iridescentes refletoras localizadas na garganta da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade, e pedras iridescentes refletoras localizadas mais no interior da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas acima; e, de pedras iridescentes refletoras para pedras iridescentes refletoras, e para a pele vítrea das criaturas aladas gigantes, a luz penetrava nas profundezas da montanha, imensa residência das criaturas aladas gigantes, de mais de dois quilômetros do chão até o teto e de três mil quilômetros de área; lá viviam milhares de criaturas aladas gigantes, que se alimentavam de rochas ígneas, e banhavam-se na lava que escorria por um rio estreito e profundo; na lava imergiam, e, ao emergirem, eriçavam a pele vítrea, regozijadas. O banho lhes era salutar, prazeroso. Para elas, as profundezas da montanha eram uma moradia aprazível, confortável, aconchegante.

Robôs exploradores detectaram uma serpente de quatro mil metros de extensão, dormindo, despreocupada, no interior de uma nuvem amarela composta de substâncias desconhecidas e cuja temperatura interior era de mil e duzentos graus Célsius. Sua pele era maleável, preta em toda a sua extensão; possuía um olho em cada extremidade do corpo de oito metros de diâmetro; e irradiava energia nuclear. Uma criatura fabulosa! Robôs exploradores observaram-na durante vários dias. A serpente hibernava. Quando ela despertaria? Ela não possuía asas. Por sorte, pensaram os expedicionários, a serpente e as criaturas aladas gigantes não atacaram Osvaldo em sua excursão, e não contataram a espaçonave exploratória, não a abordaram, e não a atacaram. A serpente preta gigante podia, com o seu compridíssimo corpo, envolver a espaçonave exploratória. Todas as imagens seriam apresentadas para Osvaldo, para persuadi-lo a desistir de empreender nova expedição exploratória a A***, ou, se dela não desistir, a adiá-la. Ele ficaria contrariado, mas, chamado à razão, conter-se-ia em seu irrefreável ímpeto aventureiro, acolheria as sensatas exortações de Katsushiro e, com o ânimo serenado, planejaria a próxima expedição exploratória, e não se lançaria, imprevidentemente, em uma aventura desnecessariamente arriscada. Todas as aventuras exploratórias consistiam em riscos, todos os expedicionários sabiam, mas era possível mensurá-los, e providenciar a redução dos estragos, até mesmo anulá-los. As imagens acima elencadas não seriam as únicas que Katsushiro apresentaria a Osvaldo para chamá-lo à razão. Havia inúmeras outras, mais espetaculares.

Além de criaturas, os robôs exploradores detectaram fenômenos naturais inefáveis: Raios, a milhares de metros de altura, originados de nuvens alaranjadas e azuis celestes, serpenteavam pelo céu, em movimentos descendentes e ascendentes, atingiam o solo, abrindo-lhe sulcos – e ramificavam-se em dezenas de raios menores, que percorriam milhares de metros, até que a energia se lhes dissipasse. No céu de uma ilha, cujo solo estava juncado de ossos carbonizados, nuvens aglomeradas, que formavam camadas espessas de mais de dez quilômetros a partir de quinhentos metros de altura, dispararam centenas de milhares de raios, muitos dos quais atingiam a superfície do mar de águas esverdeadas violentas – que despencavam, em sucessivas ondas de trinta metros de altura, próximo da ilha -, dançavam por sobre a superfície da água e, ao atingirem a ilha, estrondejavam em um clarão enceguecedor, aquecendo o solo em um raio de dez metros, e o solo adquiria coloração amarelo-alaranjado e vermelho-alaranjado, e retomava, não muito tempo depois, a sua cor original. Quando dois ou mais raios colidiam-se no céu, uma gigantesca esfera de fogo formava-se, detinha-se no local em que ocorrera a colisão de raios, lentamente deslocava-se em direção à nuvem, e, ao atingi-la, explodia em uma descarga energética violentíssima, e um raio dourado rasgava o céu, do ponto em que a esfera de fogo atingira a nuvem até o solo (e, no outro lado do planeta há uma ilha da qual emergiam raios acobreados). Quando um raio atingia uma esfera de fogo formada da colisão e fusão de dois ou mais raios, a esfera de fogo despencava em direção ao solo, e, ao atingi-lo, desaparecia, em uma explosão termonuclear devastadora, e abria uma cavidade, que chuva de partículas de rochas e rochas que escorriam das bordas da cavidade enchiam, e, na cavidade, fundiam-se. A colisão de duas esferas formadas em decorrência da colisão de dois ou mais raios a fundiam, e produzia uma esfera vermelho rubra, que se expandia até um quilômetro de diâmetro, e, ao atingir o solo, provocava uma explosão devastadora. A colisão simultânea de três esferas de fogo as extinguia silenciosamente.

Nesta ilha havia oito criaturas de três metros de comprimento, dois metros de altura, corpo achatado, rígido, surpreendentemente maleável, revestido de couraça resistente às explosões mais devastadoras, e desprovidas de olhos, nariz, boca, orelhas, pêlos, unhas, dedos, mãos e pés.

No transcurso de vinte dias – cada dia de A*** correspondia a cinco dias terrestres; e cada ano, a oito anos e três quartos de um ano terrestre – os expedicionários recolheram inúmeras informações sobre A***.

Os expedicionários pretendiam empreender uma expedição exploratória ao solo de A***. Osvaldo, impaciente, contrariado, nem sempre com a urbanidade que lhe era exigida e a compostura que o seu cargo pedia e a sua maturidade conferia-lhe, manifestava o seu desejo de ir ao planeta. Katsushiro rejeitava-o, com firmeza.

Osvaldo arquitetou a sua fuga. Sabia que estudavam-lhe o comportamento. Rilhava os dentes toda vez que evocava a figura de Ricardo, aquele simulacro de humano, que ludibriava os outros expedicionários com a sua civilidade, a sua elegância no trato, conferindo a si mesmo a identidade de um humano ciente das suas responsabilidades e que se desincumbia dos seus afazeres com a competência peculiar, decorrente – acreditavam os parvos desprovidos de sagacidade intelectual equivalente à dele, Osvaldo – da sua inata personalidade e das suas virtudes anímicas. Prometeu, para si mesmo, que revelaria, para os toleirões, a verdadeira face de Ricardo, e eliminaria Katsushiro, sujeito ambíguo, cuja origem é desconhecida, e que ocultava os seus propósitos sob a máscara do seu rosto inexpressivo, enigmático, insondável, e sob o olhar penetrante de olhos sombreados pelas sobrancelhas as quais arqueava para se conferir um olhar petrificante, intimidador, e compor a sua figura venerável perante a qual todos se curvavam, obsequiosos.

Katsushiro criou de Osvaldo a reputação de homem intransigente, cujos atos acarretarão transtornos para os expedicionários, e esforçava-se para isolá-lo, e mantê-lo isolado, e excluí-lo do rol dos expedicionários de campo, embora dissesse, com ênfase, que o admirava e o considerava o melhor expedicionário que jamais conhecera, para, suspeitava Osvaldo, afastar as suspeitas que pairavam sobre a sua cabeça, e impedi-lo de principiar uma investigação, independentemente de qual fosse a postura de Katsushiro, e revelar a verdade, com o auxílio dos seus admiradores e expedicionários com os quais compartilhava idéias afins.

Ensimesmada, Jennifer refletia a respeito do comportamento arredio e introspectivo de Ricardo, e deitava-o sob o seu olhar escrutinador. Ricardo nunca se destacara pela extroversão e convivência amistosa com os outros expedicionários. Após as alcunhas que Osvaldo cuspira contra ele, Jennifer, sempre que com ele conversava, fitava-o, de outra perspectiva, e, em retrospectiva, evocava a discussão entre ele e Osvaldo. Em certa ocasião, imersa em suspeitas, não sabia se infundadas, mas com elas incomodadas, com o auxílio de um vídeo da reunião, que lhe exibia imagens nítidas, percebeu que Ricardo modulou a voz, conferiu-lhe timbre suave, e, associando-a com expressões faciais que lhe eram incomuns e gestos das mãos e movimentos dos dedos imperceptíveis, provocou Osvaldo com o propósito, era inegável, de induzi-lo a perder a compostura. As palavras que Ricardo proferiu não foram inapropriadas, concluiu Jennifer, que anotou, no seu caderno de expedição, as suas observações, mas os gestos dele, imperceptíveis, sim, foram inapropriados, insinuantes, provocativos. Na primeira vez que assistiu ao vídeo, não pôde avaliá-lo com a atenção necessária para obter as respostas que procurava. Outras tarefas exigiram-lhe a atenção, e adiou o estudo minucioso que do vídeo pretendia fazer. Na primeira oportunidade que lhe surgiu, dias depois, para escoimar os seus pensamentos das dúvidas que persistiam em se conservar intactas, analisou o vídeo da reunião. Não queria trocar os pés pelas mãos, e aventar suspeitas infundadas, sob a influência das palavras enérgicas, embora deselegantes, de Osvaldo. Perguntou-se se procedia a acusação de injeção de nanorrobôs em todos os expedicionários e se Ricardo era um autômato, e, se era, de quem ele estava sob comando. Ricardo injetou nanorrobôs em Osvaldo, e os nanorrobôs alteraram-lhe a postura? Era uma explicação plausível. Mas, e nela, Jennifer, Ricardo injetou nanorrobôs? Se nela Ricardo injetou nanorrobôs, então por que ela não agia de modo que não correspondia ao seu temperamento? Ou agia, mas ela não notava a mudança? Além disso, quem, além de Ricardo, tem acesso aos mecanismos que recolhem informações de A***? Jennifer arregalou os olhos ao perceber que adulteraram o vídeo. Alimentava suspeitas a respeito do que havia visto e ouvido na primeira vez que assistiu ao vídeo, mas sabia o que seus olhos e seus ouvidos haviam captado: os gestos, sutis, provocativos, de Ricardo, e o seu tom de voz, incomum. Agora, viu que do vídeo os gestos de Ricardo foram suprimidos, e o seu tom de voz, alterado. Jennifer não suspeitava dessa sua análise do vídeo. Estarrecida, recostou-se à cadeira, e cobriu com as mãos a boca, incrédula, e preocupada. Adulteraram o vídeo. Quem o adulterou, e com qual propósito? E a quem interessava a adulteração do vídeo? Quem estava envolvido com a manipulação do vídeo? Ricardo? Quais pessoas – ou quais instituições – financiavam o trabalho de Ricardo? Katsushiro? Às quais pessoas ele respondia? O que elas arquitetavam? Recostada à cadeira, Jennifer levou as mãos à nuca, para sustentar a cabeça, e cerrou as pálpebras, como se assim pudesse se concentrar nos seus pensamentos, e concebeu as mais inusitadas, absurdas, estupefacientes explicações – nenhuma delas lhe fazia sentido. Não se negou, no entanto, as elucubrações; talvez alguma delas lhe revelasse o que ocorria nas profundezas das salas cuja localização é desconhecida pelo comum dos mortais.

Os expedicionários planejaram nova expedição exploratória a A***, mas não a empreenderam. As razões para isso serão apresentadas nas próximas linhas.

A espaçonave-mãe registrou um fenômeno inédito: O núcleo de A*** aquecia-se e esfriava-se, em rápida sequência alternada. As conseqüências, imprevisíveis. Sucederam-se terremotos, em inúmeras regiões do planeta. Planícies foram rasgadas; montanhas, destruídas; onde havia mar, apareceram montanhas; onde havia montanhas, apareceram vales. O solo convulsionado transformou a figura de A***. Intensificaram-se os terremotos. O aquecimento e o esfriamento do núcleo de A*** alternavam-se, incessantes, a intervalos cada vez mais curtos. Nas primeiras alternâncias, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa era de trezentos e oitenta graus célsius; em pouco tempo, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa passou para três mil e trezentos e oitenta e quatro graus célsius. E a temperatura atingiu, no pico, sete mil graus célsius, e, no fundo, cento e vinte graus célsius abaixo de zero. A ininterrupta oscilação da temperatura do núcleo de A*** transformava a crosta planetária e afetava a atmosfera e o campo magnético do planeta.

A espaçonave exploratória A-1 afastou-se de A***, e rumou à espaçonave-mãe, que a recolheu. Os expedicionários ficaram de sobreaviso. O recrudescimento da alternância da temperatura do núcleo de A*** e as alterações do campo magnético do planeta persuadiram os expedicionários a se afastarem de A*** – o que fizeram, contrariados, incontinenti. Previram, uns, a explosão de A***; se isso se sucedesse, pela primeira vez na história olhos humanos testemunhariam a morte de um planeta. Tal evento afetaria aquele sistema estelar de duas estrelas brancas. Qual seria o impacto da explosão de A*** nos outros planetas e nas estrelas que compunham aquele sistema estelar?

Chegaram aos sensores da espaçonave-mãe imagens espetaculares, fabulosas, indescritíveis, de fenômenos que se sucediam na crosta planetária. Se os expedicionários não os testemunhassem, e alguém lhos descrevessem, eles não acreditariam, pois tais fenômenos transcendiam as leis da física. Raios viajavam pelas nuvens, que assumiam coloração incomum. Raios de milhares de quilômetros de extensão transpunham a atmosfera de A***; os mais extensos estendiam-se a mais de cinquenta mil quilômetros, e afetavam o campo magnético, que os afetava. As explosões que se seguiam liberavam energia suficiente para pulverizar a espaçonave exploratória e danificar, talvez destruir, a espaçonave-mãe. Nuvens vermelhas, amarelas, azuis e amarelo-alaranjadas ampliavam-se, aglomeravam-se, e constituíam nuvens pretas, que cobriam a metade da superfície de A***. Raios as rasgavam e liberavam energia imensurável. Serpentes gigantes viajavam entre as nuvens, delas se alimentavam, e cresciam. A maior serpente que os sensores da espaçonave-mãe detectaram tinha oito mil e setecentos quilômetros de extensão, e crescia. Quanto mais crescia, mais energia acumulava; como A*** liberava maior quantidade de energia com a intensificação da vibração do seu núcleo, mais energia a serpente gigante ingeria, mais energia armazenava, e mais crescia, e crescia, e crescia. O solo de A*** modificava-se a olhos vistos, sem cessar. A sua configuração foi alterada, tornado-a irreconhecível. A cada fração de segundo, assumia uma configuração. Um planeta não pode suportar tal convulsão sem se desintegrar, pensavam os expedicionários. Qual a origem da convulsão planetária?, perguntavam-se, intrigados, acompanhando, suspensos, o desenrolar de evento tão grandioso, inédito aos olhos humanos. Desapareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Apareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Criaturas corriam pelos continentes, mergulhavam nos mares de águas borbulhantes, caminhavam pelo gelo da superfície dos rios. A***, convulsionado, contraía-se e dilatava-se, frenético. Arremessava raios, esferas chamejantes e ondas de energia. Sugava energia das estrelas. Línguas de fogo partiam das estrelas rumo a A***. Um fenômeno surpreendente, mais surpreendente do que todos os fenômenos até então testemunhados pelos expedicionários, se manifestou. De cada estrela branca partiu uma faixa dourada. As duas faixas douradas rumaram, serpenteando, até A***, como se o planetas as atraíssem, cobriram-no, e eliminaram o seu campo gravitacional e o seu campo magnético. Nenhum raio, nenhuma esfera chamejante escapava de A***. Raios e esferas chamejantes atingiam as faixas douradas. Nem o som e nem a luz as atravessavam. Não se via a intensa luminosidade decorrente das explosões das esferas chamejantes e dos raios. De propriedade elástica, as faixas esticavam-se. Os expedicionários, expectantes, intrigados, perguntavam-se o que ocorria em A***, e procuravam uma explicação plausível para fenômeno tão fantástico, tão fabuloso, tão espetacular. Temendo que a energia oriunda da convulsão de A*** rompesse as faixas que o cobriam, os expedicionários afastaram-se do planeta até uma distância que, acreditavam, era segura. Os sensores dos robôs que se localizavam nas proximidades de A*** não detectavam os eventos que se sucediam no planeta. Os expedicionários pensaram em disparar um raio de energia para abrir uma fresta, nas faixas douradas, pela qual robôs pequenos pudessem atravessar. Deparavam-se com fenômeno que olhos humanos jamais presenciaram, fenômeno que a imaginação humana jamais poderia conceber. Diante do desconhecido, incapazes de antever a reação de A*** e das faixas que o cobriam, abandonaram a idéia tão logo a pensaram. A*** poderia explodir, as faixas poderiam disparar raios na direção da espaçonave-mãe, ou, Mariana aventou a hipótese, seres inteligentes que viviam nas estrelas brancas reagiriam ao disparo do rio, e disparariam raios e esferas flamejantes contra a espaçonave-mãe. Tal hipótese era implausível, fantástica demais, fantasiosa demais, fabulosa demais, extraordinária demais. Os expedicionários fitaram Mariana; nada disseram; com o olhar, indagaram-lhe de onde ela extraíra idéia tão estapafúrdia. Seres vivos vivendo em uma estrela! Seres vivos inteligentes, em uma estrela cuja temperatura, na superfície, era de duzentos mil graus célsius, e, no núcleo, calculavam os sensores da espaçonave-mãe, doze milhões de graus célsius! Nenhum ser vivo, inteligente ou não, viveria sob tão alta temperatura! Todavia, conquanto extraordinariamente fantasiosa tal hipótese, ninguém concluiu que ela fosse inverossímil, e não a desconsideraram.

Transcorreu quanto tempo? Os expedicionários não sabiam.

Cessaram as convulsões das faixas douradas que cobriam A***.

Os expedicionários, na expectativa, petrificados, apalermados, de sobreaviso, e curiosos, esvaziaram de pensamentos o cérebro. Aguardaram, expectantes, pelas revelações que, estavam certos, não demorariam para lhes serem apresentadas. Pareceu-lhes que o tempo cessara, como se o tempo não fosse um fenômeno cosmológico, como se fosse, unicamente, um fenômeno psicológico produzido pela mente humana. Nenhum expedicionário saberia dizer quantos dias transcorreram a partir do momento em que cessaram as convulsões até o momento em que as faixas se soltaram de A***, e rumaram, cada faixa, para uma estrela. E os expedicionários, embasbacados, boquiabertos, viram, diante de seus olhos, não um planeta, mas dois planetas, um, dourado, um, esverdeado. Ora o planeta dourado girava em torno do planeta esverdeado; ora o planeta esverdeado girava ao redor do planeta dourado. A velocidade de ambos os planetas modificava-se, constantemente, e os planetas mudavam de curso. Na letargia que tal fenômeno lançou-os os expedicionários conservaram-se por um bom tempo, obcecados por uma explicação; não tinham nenhuma, nem para a existência das criaturas rochosas que atacaram Osvaldo, nem para as criaturas aladas gigantes que se alimentavam de rochas ígneas e banhavam-se nos rios de lava nas profundezas de uma montanha, nem para as serpentes gigantes que dormiam nas nuvens, nem para todos os fenômenos maravilhosos que presenciaram.

Osvaldo se ofereceu para empreender uma expedição exploratória aos planetas gêmeos. Katsushiro e os comandantes da espaçonave-mãe decidiram autorizar expedições exploratórias não-tripuladas.

Os expedicionários não sabiam o que lhes estava reservado. Presenciaram a conversão de um planeta em dois planetas e outros fenômenos inexplicáveis – pela inteligência humana, compreende-se –, que lhes excitaram a curiosidade.

Os comandantes da espaçonave-mãe enviaram expedições exploratórias não-tripuladas aos dois planetas. As informações reunidas, extraordinárias, espetaculares, embasbacaram os incrédulos expedicionários, que acreditavam que nenhum outro fenômeno os surpreenderia. Enganaram-se. Os fenômenos que se manifestaram nos planetas gêmeos e as criaturas que neles encontraram os surpreenderam. Tomaram conhecimento de seres que viviam sob as condições mais desfavoráveis à vida, e reconsideraram todas as suas idéias a respeito da vida e todas as teorias da física, e as da astrofísica, e as da cosmologia.

Vieram a conhecer criaturas gigantes longílineas dotadas de duzentas asas constituídas de películas transparentes e de vinte filamentos na cabeça esférica, e criaturas rastejantes de cinquenta quilômetros de extensão e três cabeças, e criaturas de cinco mil olhos, e criaturas que disparavam, pela boca, líquido corrosivo, e criaturas que cuspiam fogo, e criaturas que se alimentavam de pedras, e criaturas de pele aderente, e criaturas metamórficas, e criaturas de duzentos metros de altura, duzentas pernas, duzentos braços e duzentas cabeças, e criaturas aquáticas que cuspiam substância corrosiva, e criaturas que saltavam mais de um quilômetro de altura e cinco quilômetros de distância, e criaturas que viviam nos pântanos de lava, e criaturas que cuspiam raios, e criaturas que se invisibilizavam na água, e criaturas que engoliam lava e cuspiam pequenas esferas aderentes por sobre as quais outras criaturas, minúsculas, passavam e assumiam dimensões corporais maiores.

Assistiram a embates fantásticos inenarráveis entre criaturas indescritíveis.

Não havia uma criatura que não os surpreendeu pelo que tinham de fantástico, extraordinariamente fantástico.

Transcorreram-se os dias. Enviaram-se dezenas de expedições exploratórias não-tripuladas aos planetas gêmeos. O presidente da espaçonave-mãe agendou uma reunião, à qual compareceram todos os comandantes e os diretores das espaçonaves expedicionárias. Da espaçonave exploratória A-1 compareceram Katsushiro, Jennifer e Ricardo. Katsushiro disse que Osvaldo não poderia empreender uma expedição exploratória pelas razões que ninguém ignorava. Jennifer contestou-o, disse que com Osvaldo conversara horas antes, e ele se mostrou pronto para empreender uma expedição exploratória, e não podiam impedi-lo de empreendê-la. Ricardo, antes de Jennifer encerrar a sua réplica, disse que eram escassas as informações sobre os planetas gêmeos, e considerou sensato realizar novas expedições exploratórias não-tripuladas, para recolhimento de informações, antes de empreenderem uma expedição exploratória tripulada por humanos. Katsushiro o secundou, mecanicamente, e teceu comentários desabonadores a Osvaldo. Jennifer defendeu Osvaldo, enfatizou a experiência dele, e disse que há coisas, em um planeta, que robôs não podem detectar, e apenas os humanos podem. Ricardo riu, sardônico, comparou a capacidade intelectual dos humanos com a dos robôs, apontou a superioridade destes – e Katsuhiro referendou a sua opinião -, que não se resumia na incontestável superioridade mnemônica. Jennifer estudou-lhe o comportamento, e o de Katsushiro, e evocou as acusações que Osvaldo proferiu, durante a discussão após a expedição exploratória a A***. As denúncias procediam?, perguntou-se. Contestou Ricardo, disse que os robôs, desprovidos de sensibilidade, sentimentos e pendores para a abstração – talentos que não podem ser catalogados -, não são detentores da capacidade, inerente aos humanos, e a eles exclusiva, de reunir informações, associá-las, organizá-las, e delas apresentar uma síntese. E disse, também, que os humanos talentosos e experientes são imprescindíveis na expedição exploratória que teriam, obrigatoriamente, de empreender, aos planetas gêmeos, e Osvaldo preenche todos os requisitos; e ele realizará trabalho que os robôs estão impossibilitados de executar, Jennifer salientou este ponto, e o enfatizou, e repetiu-o, com voz firme. Queria aguilhoar Ricardo e Katsushiro. Katsushiro contestou Jennifer, atribuiu a Osvaldo o fracasso da expedição exploratória a A***. Jennifer estranhou Katsushiro, cujos gestos, ela disse para si mesma, em pensamento, eram robóticos; e intrigaram-na o rosto inexpressivo de Ricardo e o seu o olhar fixo em Katsushiro.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou Jennifer, abismada.

– Eu sei, Jennifer – Osvaldo assomou à porta, apontando uma pistola para Ricardo.

Ricardo ergueu-se da cadeira, de imediato, inexpressivo, e ergueu o braço direito, e apontou o dedo indicador para Osvaldo.

*

Este é o encerramento de Os Pioneiros? – perguntar-me-ão os leitores. E eu responderei:

No dia seguinte àquele ao qual entregou-me a pasta com a novela, ao volante de um carro, Luis Amadeu envolveu-se em um acidente com um caminhão e outros dois carros; em decorrência dos ferimentos, veio a falecer no Hospital Municipal.

Li a novela Os Pioneiros, na minha casa, no dia em que Luis Amadeu ma entregou. Ao ler a última palavra, perguntei-me onde estava a sequência da novela. Na ocasião, pensei em procurar Luis Amadeu, no dia seguinte. Mas, o fim trágico… Duas semanas depois da morte de Luis Amadeu, falei da novela para a Susana, irmã dele, e entreguei-lha. Ela a leu, e disse-me que a sequência do relato, acreditava, achava-se no computador de seu irmão. Nos dias seguintes, acessou a pasta ‘Novelas’; encontrou, além de dezenas de outros arquivos, o que trazia o título Os pioneiros. O texto encerrava-se no ponto que reproduzi acima. Acreditando que Luis Amadeu pudesse, por engano, ter gravado a novela, com outro título, ou na pasta ‘Novelas’, ou na pasta ‘Contos’, ou na pasta ‘Romances’, abriu-as, e todos os arquivos que elas continham. Não encontrou a novela Os Pioneiros. Procurou-a nas pilhas de papéis. O seu trabalho, infrutífero. Conversamos, eu, Susana, familiares e amigos de Luis Amadeu, a respeito da novela e de Luis Amadeu, que, sabíamos, desejava que a novela Os Pioneiros fosse publicada em livro. Decidimos publicá-la, às nossas expensas. Não digo que Os pioneiros é uma novela inacabada. Inacabada ela não é. Sabemos que destino levou o trecho final de Os pioneiros: o túmulo em que jaz Luis Amadeu.

Os pioneiros – parte 2 de 3

Os Pioneiros

A criatura emitiu urros estrondejantes. Enorme, de quatro metros de altura, aproximava-se, rapidamente, de Osvaldo, que não a viu em suas reais dimensões porque a penumbra o impedia, até que, não muito tempo depois, distinguiu-lhe a figura, todavia dela não definiu a coloração da pele (ou do que lhe revestia o corpo), que era rígida como rocha. Antes que Osvaldo compreendesse o que ocorria, a criatura golpeou-lhe o braço, e arremessou-o a mais de vinte metros de distância. Osvaldo sentiu o golpe, atenuado pelo exoesqueleto. Caído, olhou para a criatura, e distinguiu-lhe o vulto; mas mal pôde ver-lhe a cabeça, e dela viu a cauda de uns cinco metros, e que se encompridava. A criatura urrou. Odor miasmático atingiu Osvaldo, que, protegido pelo capacete, não o sentiu, mas a pele de seus braços e antebraços expostos sentiu-o, e a reação foi instantânea: bolhas rubras de sangue manifestaram-se nos braços e antebraços de Osvaldo; parecia que a pele dele havia sido removida. Ele olhou para seus braços, neles fixou o olhar por uma fração de segundo, e voltou-se para a criatura, que, embora gigantesca, dele se aproximara sem que os sensores do exoesqueleto captassem-na, e tampouco detectassem os tremores de terra que ela, com seus vinte mil quilos, produzia. Levantou-se; recompôs-se; viu a criatura indo em sua direção, e tratou de correr. E hesitou. Para onde correria? Olhou, apavorado, em torno. O descampado não lhe oferecia abrigo. Não tinha para onde fugir. O único meio de escapar da criatura gigantesca era contatar a espaçonave exploratória, e solicitar-lhe o seu (dele, Osvaldo) imediato resgate. E a criatura avançava em sua direção. Com os mapas tridimensionais, que os sensores do exoesqueleto desenhavam, de um raio de cinquenta metros, Osvaldo ampliou o seu conhecimento da região inóspita, desértica, mas espessa camada de nuvem, cuja composição ele desconhecia, impedia-o de ver com clareza o que havia ao seu redor, e as câmeras do capacete não a penetravam, para ajudá-lo a se orientar, e a penumbra, tenebrosa, terrificante, enfatizava o opressivo ambiente da região. Nenhum abrigo havia nas proximidades. Osvaldo não sabia para onde correr, mas tratou de correr, sem rumo, para se afastar da criatura, que o ameaçava, pois não queria se lhe servir de repasto. Desejava, sim, empanturrar-se com um banquete republicano; mas não era desejo seu servir-se de banquete para a criatura que o perseguia. O encerramento da vida do Pioneiro, ensina a lenda, não era o que Osvaldo desejava para si – nunca sonhou acabar sua vida no estômago de uma criatura escatológica. Ofegante, olhou, na sua corrida desabalada, por sobre os ombros, e viu a criatura, que de si não se aproximava, e tampouco dela ele se distanciava. Voltou-se para a frente; percorreu uns cem metros, pulou por sobre uma saliência, e atingiu criatura, cujos urro, e hálito, que lhe queimou a pele, indicaram-lhe que se tratava de uma criatura como a que o perseguia. Uma criatura rochosa, ele concluiu. Viu-se cercado, presumiu, pelas duas criaturas. Para onde ele correria? Os sensores do seu exoesqueleto detectavam a presença de uma criatura rochosa, e não de duas. Seria, aquela criatura que ele tinha diante de si, a criatura que o perseguia? Como ela se deslocara tão rapidamente, tão silenciosamente, sem que os sensores do exoesqueleto a detectassem? Ou a criatura rochosa que o perseguia não ia mais no seu encalço, abandonara a perseguição, e outra criatura rochosa lhe surgira diante dos olhos? Osvaldo se via em apuros; a situação não lhe era favorável. E se outras criaturas rochosas o abordassem? Como delas ele se livraria? A cauda da criatura rochosa serpenteava, ia na direção de Osvaldo, que, desorientado, impelido pelos sensores do exoesqueleto, se esquivou, e resvalou-lhe o capacete. Não foi Osvaldo que se esquivou da cauda; foi o exoesqueleto que dela se esquivou, livrando Osvaldo da morte. A criatura rochosa poderia esmagá-lo com um golpe da cauda. O exoesqueleto não resistiria à pressão da cauda, se a criatura rochosa com ela o envolvesse. Naquele momento, afinaram-se as nuvens, e Osvaldo pôde ver alguns detalhes da criatura rochosa. A penumbra, em alguns momentos, não a envolvia inteiramente, e, na cabeça dela Osvaldo viu três olhos, cuja disposição indicava que ela possuía mais dois olhos. Osvaldo não viu uma boca, e nem um nariz na criatura. Como ela urrava? E o hálito dela, que o atingiu, queimando-lhe a pele? Como ela respirava? No topo da cabeça dela havia duas saliências – cada uma destacava-se de uma têmpora – compridas e de ponta arredondada – cada uma delas de um metro de comprimento e diâmetro de meio metro na base e vinte centímetros na extremidade – e, na região central da cabeça, saliências que se assemelhavam a uma linha de cornos pontudos de vinte centímetros de comprimento cada um, e nas laterais da cabeça filamentos segmentados repulsivos, cuja aparência assumiram, aos olhos de Osvaldo, a aparência de criaturas parasitas – cinquenta ou mais -, que vibravam-se, ininterruptamente, e emitiam, ao se tocarem, estalidos agudos penetrantes, que feririam os tímpanos de Osvaldo se o capacete não lhos protegesse. Visão horripilante! Quais as dimensões da cabeça da criatura rochosa? Ela era enorme, vinte vezes maior do que a cabeça de Osvaldo. Outros aspectos da criatura que Osvaldo distinguiu: Inexistência de pescoço; revestimento repleto de protuberâncias; vegetais de coloração azul-esverdeada e vermelho-alaranjado cobriam-na em alguns pontos; dois pés curtos e grossos.

A criatura rochosa avançou na direção de Osvaldo, que se esquivou, com um salto, e caiu, em pé, a três metros de distância, e, hesitante, voltou-se para olhá-la, mas ela havia desaparecido. Foi neste instante que a mão pétrea da criatura rochosa segurou-lhe o capacete. Os sensores do exoesqueleto não indicavam a presença da criatura rochosa próxima de Osvaldo, que, para dela se desvencilhar, desferiu-lhe uma sequência de golpes. A criatura rochosa arrastou-o. Osvaldo, apavorado, esgoelou-se, e dobrou as pernas, para um salto; dobrou o corpo; e desdobrou-o para livrar-se da mão da criatura rochosa, e redobrou os seus esforços. Desvencilhou-se, enfim, da mão da criatura rochosa, acionou a pistola, e disparou. A onda de energia viajou por quilômetros, até atingir uma montanha. A criatura rochosa havia desaparecido. Que mistério rondava Osvaldo? Como uma criatura – presumindo-se que fosse apenas uma criatura – aparecia e desaparecia – e os sensores do exoesqueleto não a captavam -, e não deixava sinais da sua presença? Nenhum vestígio havia da existência dela. Pegadas? Nenhuma. Ela desapareceu, sem deixar vestígios. Viera de onde? Para onde foi? Os mapas tridimensionais elaborados pelos sensores do exoesqueleto de Osvaldo não indicavam a presença de nenhuma criatura num raio de duzentos metros. Osvaldo não deu, no entanto, atenção aos sensores do exoesqueleto, pois estava persuadido de que de nada lhe valiam, pois eles não captavam a criatura rochosa; era como se ela não existisse. De sobreaviso, Osvaldo andou. Circunvagava os olhos. Detinha-se. Procurava pela criatura rochosa. Sabia que ela poderia atirar-se sobre ele de qualquer direção. Deparava-se, sabia, com uma criatura a respeito da qual tudo ignorava. Não sabia se poderia se antecipar a um ataque desfechado por ela. Aterrorizava-o tal situação. Petrificá-lo-iam as incertezas se o exoesqueleto não o conservasse alerta, com os olhos bem abertos, os ouvidos bem apurados, para, se necessário, reagir a qualquer ataque desfechado por uma criatura rochosa, ou por outra criatura qualquer. A tensão inspirava-lhe pensamentos caóticos, os de um derrotado, os de uma pessoa que desistia de viver, e estava na iminência de sucumbir ao destino que, acreditava, era o seu, e dele não poderia esquivar-se. O exoesqueleto, todavia, ao injetar-lhe ânimo, não permitiu que ele se curvasse ao destino que, acreditava ele, estava traçado para si, mas ele, no entanto, não abandonou os pensamentos lúgubres, que o atormentavam. Sabia que não podia negligenciar atenção. O exoesqueleto não o deixava esquecer disso. A passos curtos, firmes, andou, lentamente, desorientado, sem saber que direção seguir. Envolveu-o nuvem de partículas, que lhe rasgaram a pele dos braços e dos antebraços. Imprevidentemente, ele expusera-se ao desconhecido com um exoesqueleto que não reconstituía as partes danificadas – algo a havia danificado assim que ele deu os primeiros passos para fora da espaçonave exploratória, mas, ao invés de acolher as sensatas exortações de Mariana e Jennifer, à espaçonave regressar, e reconstituir o exoesqueleto, rejeitou-as, e insistiu na sua aventura exploratória, que quase lhe custou a vida, para registrar, unicamente, seu nome na história, o do primeiro humano a pisar no solo de A***, o planeta inóspito. A história registrará o nome de Osvaldo, e o associará à primeira aventura em solo de A***, o planeta inóspito, e não deixará de registrar a sua imprudência, as suas atitudes insensatas, de absoluto descompromisso com o seu companheiro de jornada. Os pioneiros eram os argonautas, e Osvaldo atribuía-se as virtudes de Ulisses, e se autocondecorara o líder incontestável da odisséia; no entanto, os eventos o desmentiam.

Enfim, a espaçonave exploratória A-1 resgatou Osvaldo.

Assim que Osvaldo removeu o capacete, Jennifer desferiu-lhe um tapa, ferindo-lhe o ego. De baixa estatura, leve, de mãos pequenas, sedosas, ela não é dotada de força para desferir um tapa que imprimisse marcas no rosto dele. O tapa era mais simbólico do que concreto. Não tinha as propriedades de um tapa. Ato contínuo, Jennifer, com palavras ferinas, desancou Osvaldo. Acutilou-o, feroz, com sua voz argentina, que, parecia, era amplificada por uma caixa de ressonância. Uma mulher tão pequena com uma voz tão poderosa! Contrariado, rilhando os dentes, Osvaldo ouviu-a. Dela desejava afastar-se, mas seus pés, enraizados no piso, não lhe permitiram dar um passo; diriam seus antepassados: “Osvaldo ouviu o sabão que a Jennifer lhe passou”; uma expressão antiga intraduzível. Jennifer repreendeu-o, vigorosamente, com autoridade, e não permitiu que ele lhe replicasse. Foi a primeira censura que ele ouviu, e não seria a última. Encerradas as censuras, Osvaldo encaminhou-se ao consultório médico, onde despiu-se do exoesqueleto, e reconstituiu suas células que o hálito da criatura rochosa destruíra. Em seguida, reuniu-se, na sala de conferências, com Jennifer, Mariana, Susana, Leonel, Ricardo, Washington e Katsushiro. O ambiente não lhe era favorável. Repreenderam-no todos os presentes. Após as censuras, concederam-lhe o direito de falar; e ele falou, e os seus interlocutores surpreenderam-se com o teor do seu relato. E Katsushiro, assim que Osvaldo encerrou o seu relato, pronunciou-se, antecipando-se a Jennifer e Susana, que haviam se movido, indicando que desejavam se pronunciar, mas, diante do gesto de Katsushiro, se recompuseram. Katsushiro, e não Osvaldo, era o Ulisses da expedição.

– Osvaldo, tu nos falaste de uma criatura rochosa. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe, todavia, não a captaram. Captaram, unicamente, numa vasta área em torno de ti, movimentos incomuns de partículas metálicas, e algumas destas partículas tinham propriedades ígneas, e foram elas, presumimos, que te queimaram a pele.

– Ouça, Katsushiro. Ouçais todos vós – pronunciou-se Osvaldo, contrariado, num tom de voz desafiador. – Vi uma criatura rochosa, de cujo corpo vos dei uma descrição; aliás, descrevi-lhes o que dela pude ver, pois não a vi toda, devido à penumbra e à densa nuvem. E ela atacou-me, e perseguiu-me, e feriu-me. Vi, repito, uma criatura de constituição rochosa, que me atacou, golpeou-me, agarrou-me, perseguiu-me…

– Reconheças, Osvaldo – disse Jennifer, com a autoridade que lhe era peculiar -, que estamos em um planeta inexplorado…

– Inexplorado por humanos – interrompeu-a Susana, cujo sorriso não ocultava os seus pensamentos e revelava a sua antipatia por Jennifer.

– Um planeta inexplorado, este planeta inóspito – prosseguiu Jennifer, elevando o tom de voz e conferindo-lhe firmeza dissuasiva. – De A***, um planeta inexplorado – escandiu as sílabas –, nada sabemos. Não sabemos quais fenômenos manifestam-se em A***. Os sensores do exoesqueleto de Osvaldo foram danificados, sabemos; mas os desta espaçonave exploratória, não, e tampouco os da espaçonave-mãe. E os desta espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nenhuma criatura semovente detectaram, Osvaldo, além de ti.

– Não sabemos o que tu viste – pronunciou-se Washington, no seu inconfundível tom contido. Osvaldo interrompeu-o, exaltado:

– Vi uma criatura rochosa, que me atacou.

Katsushiro observou-o, atentamente.

– Não digo que tu não a viste – interveio Ricardo, pacificador, ao notar que Osvaldo exaltava-se. – Tu nos disseste ter visto uma criatura rochosa. Acredito em ti.

– Tu dás mãos à palmatória – sentenciou Osvaldo.

– O quê? Não entendi – disse, confuso, Ricardo.

– Nada. É apenas uma expressão antiga – explicou Osvaldo, sem se estender em pormenores.

– Os sensores do teu exoesqueleto estavam danificados – prosseguiu Ricardo. – O teu exoesqueleto não detectou uma criatura rochosa, e nem as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas que te envolveram. Os sensores da espaçonave exploratória, todavia, como tu podes ver no holograma, detectaram as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas, mas não detectaram a criatura rochosa. Como podes ver, Osvaldo, a densidade e a espessura da nuvem eram maiores nas proximidades de ti. Não sabemos que fenômeno manifestou-se, lá, no solo…

– Não sejas tão amigável – interrompeu-o Osvaldo, com sorriso escarninho e gesto de impaciência. – Desejas desmerecer a minha conquista? Ora, para que tanta tagarelice?

– Queremos saber o que se passou no solo – disse Mariana.

– Eu já vos disse: Uma criatura rochosa atacou-me – replicou Osvaldo, alterado, mas contendo-se.

– Não é o que os sensores da espaçonave exploratória indicam – sentenciou Jennifer.

– O que vós quereis que eu vos diga? – desafiou-os Osvaldo. – Vi uma criatura rochosa, que me atacou. Quereis que eu vos confirme as informações que os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe vos forneceram? Não o farei. Sabeis as razões? Vi uma criatura rochosa, e ela não é uma criatura amigável. E não pretendo cruzar o caminho dela novamente – encostou-se ao espaldar da cadeira, e expulsou, com um expirar vigoroso, todo o ar dos pulmões.

– As áreas mais escuras do holograma – retomou a palavra Ricardo – indicam a maior densidade da nuvem. E elas, podemos ver, encontram-se próximas de Osvaldo, e deslocam-se, aleatoriamente. Não seguem os movimentos da nuvem. Osvaldo disse-nos que a criatura rochosa tinha em torno de quatro metros de altura, e, supôs, vinte toneladas. Os sensores da espaçonave exploratória não detectaram tremores de terra. Uma criatura de tais dimensões produziria, ao deslocar-se, tremores que os sensores da espaçonave exploratória poderiam captar, mas não os captaram. Esta informação é pertinente. Na imagem holográfica, vemos que as áreas escuras correspondem a pequenas áreas, e a maior delas não corresponde sequer à uma área de um metro cúbico. E é esta área, estou convencido, que segue no encalço de Osvaldo. Acredito que as partículas metálicas ígneas, atraídas pelo exoesqueleto, como imãs…

– O que tu insinuas, Ricardo? – perguntou-lhe, interrompendo-o, Osvaldo, com voz firme, hostil, encarando-o. – Insinuas que nenhuma criatura rochosa me atacou? Insinuas que nenhuma criatura rochosa me perseguiu? Insinuas que inventei tal história? Insinuas que enlouqueci?

– Osvaldo, contenha-se – pediu-lhe Katsushiro, em tom de ordem. – O Ricardo nos forneceu um breve resumo das informações acumuladas desde o instante em que tu principiaste a exploração do solo de A*** e as inferências óbvias. Ele, como todos nós, deseja entender o que se passou no solo de A***. Eliminou as incongruências, mas, ciente das suas responsabilidades, apresenta-nos as que não pôde eliminar. Um trabalho complexo, tu sabes, Osvaldo. Há discrepâncias nos dois relatos, isto é, no teu e no do Ricardo. O teu, originado da tua experiência em solo; o do Ricardo, das informações fornecidas pelos sensores da espaçonave exploratória e da espaçonave-mãe. Tu nos fala de uma criatura rochosa, que te atacaste. Te ouvimos atentamente. Ricardo nos fala de uma nuvem composta de partículas metálicas ígneas. Os dois relatos não combinam. Anulam-se. Não sabemos, Osvaldo, quais fenômenos manifestam-se em A***. Fomos imprudentes ao iniciarmos uma expedição exploratória antes de reunirmos informações mais consistentes, que nos propiciassem segurança; sem a mais remota idéia de quais informações nos são imprescindíveis, principiamos a expedição exploratória certos de que fenômenos e criaturas nos surpreenderiam. Não sabemos se há seres vivos inteligentes em A***. Não sabemos se há uma civilização em A***. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nada detectaram, e as espaçonaves exploratórias miniaturas não-tripuladas transmitem-nos informações do solo e dos fenômenos naturais, alguns incomuns, de A***, mas nada que indique a presença de seres vivos. O teu relato, Osvaldo, dá-nos notícias de uma criatura, inconcebível por nós, revestida de uma pele rochosa e de aparência grotesca. O relato de Ricardo dá-nos notícia de um fenômeno natural inusitado para o qual ele procura uma explicação plausível. Entendas, Osvaldo, que empreendemos uma expedição exploratória em um planeta que desconhecemos. Não sabemos o que nos espera. E o Ricardo tem de nos dar as informações colhidas e as interpretações apropriadas, na certeza de que não sabe se procedem. Como tu, ele tem de dar relatos fiéis dos eventos…

– Presumo tratar-se de partículas imantadas – prosseguiu Ricardo, assim que Katsushiro concedeu-lhe a palavra. – Partículas metálicas ígneas de propriedades de imã. Quando Osvaldo detinha-se, tais partículas detinham-se em torno dele, mas não cessavam os movimentos; rodeavam-no, como se o avaliassem. Não quero atribuir faculdades sensitivas às partículas metálicas ígneas, mas elas manifestavam características singulares. Elas, presumo, ao tocarem os braços de Osvaldo, feriram-no. Os movimentos delas eram aleatórios, mas, incrível!, seguiam um padrão. Sei que as minhas explicações são enigmáticas. Não esclareço nenhum ponto. Não sabemos o que Osvaldo enfrentou; e diante do desconhecido e da escassez de informações, temos de adiar outra expedição exploratória com humanos.

As últimas palavras ditas por Ricardo enraiveceram Osvaldo, que se exaltou, levantou-se da cadeira, pousou as mãos na mesa, encarou Ricardo, e disse, esbravejando:

– Tu não sabes o que enfrentei, humano artificial. Sei o que enfrentei, anomalia de laboratório. Enfrentei uma criatura rochosa, que me perseguiu, e agarrou-me, e agrediu-me. Autômato, tu não sabes o que diz. Tu detestas os humanos. Não sei porque tu fostes convidado para esta expedição. Tua raça é prejudicial à humana, parasita artificial. Por que te aturam? Tu injetaste nanorrobôs, filhos teus, no cérebro de todos aqui, replicante? Regresses ao teu ovo simbiótico. Regresses ao útero ectoplasmático de tua matrix!

Katsushiro e Jennifer pronunciaram-se com vigor. Inadmissível, a postura de Osvaldo. Katsushiro ordenou-lhe que se retirasse. Osvaldo recusou-se a atendê-lo. Dois robôs, então, ladearam-no, e Katsushiro ordenou a Osvaldo que os acompanhasse até o quarto, e lá permanecesse, incomunicável.

Osvaldo, bufando, retirou-se, ladeado pelos robôs, da sala de conferências.

Entreolharam-se Katsushiro e Jennifer.

Excetuando Katsushiro e Jennifer, os outros participantes da reunião retiraram-se da sala de conferências.

Com voz pausada, palavras calculadas, Jennifer disse:

– Não me agradou o comportamento do Osvaldo. O que ocorreu em A***? Não sabemos, Katsushiro, o que enfrentamos. Osvaldo, um homem pacífico, sereno, está tão suscetível às divergências…

– Conheço-o à décadas – disse Katsushiro. – Nunca o vi agir de tal modo. Não digo que é incomum a atitude de Osvaldo. Digo que é inédita. Não direi que é inexplicável, pois inexplicável não é. Algo afetou Osvaldo. Ele não pondera, não procura explicações racionais para o episódio. Há incongruências nos relatos. As análises feitas pela espaçonave exploratória e pela espaçonave-mãe contestam o relato que Osvaldo nos apresentou. Não sabemos o que inspirou a Osvaldo as, supomos, alucinações. É certo: Não o enviaremos para outra expedição exploratória a A***. Aliás, humanos não mais descerão em A***. Enviarei robôs, nas próximas expedições exploratórias. Osvaldo foi convidado a participar desta expedição intergaláctica devido à sua coragem singular, à extraordinária rapidez de seu raciocínio, à sua inigualável destreza manual, à sua irrivalizada inteligência prática. Raros humanos são dotados das virtudes imprescindíveis para o exercício apropriado de aventuras similares às que ele viveu. Tu sabes que temos de impedir que recrudesça os danos à mente de Osvaldo. Temos de preservá-lo, neste momento, dele mesmo. Tu viste como ele agiu, tão suscetível, tão contrariado quando Ricardo apresentou-nos as informações que a espaçonave exploratória e a espaçonave-mãe nos forneceram. Ricardo não aludiu ao estado mental alterado de Osvaldo, nenhuma insinuação mal intencionada ele fez. A sua postura, o seu vocabulário, o seu olhar, os seus gestos, indicaram que ele, ao notar que Osvaldo não estava em seu juízo perfeito, falava e, para não ferir suscetibilidades, pensava nas palavras que usava. Osvaldo, com os olhos esbugalhados, e os dedos a tamborilar a mesa, estava agitado, impaciente, irritado. O propósito de Ricardo era induzir Osvaldo a refletir no que aconteceu em A***, ponderar, e procurar por uma explicação racional. Foi mal sucedido, como vimos.

– Manteremos Osvaldo isolado?

– Por enquanto, sim… E pelo tempo necessário, para lhe avaliarmos o comportamento. Temos de saber o que ocorreu com ele, e o que com ele se passa. Ele, esteja certa, Jennifer, se oferecerá para empreender outra expedição exploratória, mas enviarei robôs para A***, e não ele.

– Chamou-me a atenção, Katsushiro, o vitupério que Osvaldo disparou contra Ricardo. Disse-lhe que regressasse ao ovo simbiótico. Alcunhou-o replicante, autômato, anomalia de laboratório. O Ricardo, não me passou despercebido, empalideceu; surpreso, pareceu-me, e, como direi?, admirado, ele fitou Osvaldo, e… Como direi? Ele, contrariado, à revelação de um segredo, que ele nos oculta, dele, e Osvaldo… Ricardo, estupefato, removida a sua máscara…

– Ricardo, que conhece a reputação de Osvaldo – interrompeu-a Katsushiro, abruptamente -, dele jamais esperou tal atitude, pois o admira, afinal, dele ouviu histórias enaltecedoras. E na primeira vez que com ele depara-se, dele ouve ofensas. E testemunha postura, tão irracional, que o surpreende, em uma pessoa de quem sempre lhe disseram tratar-se de uma cornucópia de paciência e ponderação. A frustração e a desilusão, instantâneas, conquanto saiba que Osvaldo está com a mente afetada, ou por uma bactéria, ou por um virus, ou… não sabemos o quê… Ricardo surpreendeu-se com a postura de Osvaldo, daí a sua palidez, a sua contrariedade…

– Não foi essa a impressão que tive – disse Jennifer, áspera, ao mesmo tempo que se levantava para se retirar da sala de conferências. – Fiquei com a impressão de que Ricardo surprendeeu-se, não com a reação violenta, injustificada, de Osvaldo, mas, sim, com as palavras que ele proferiu, com as alcunhas que ele lhe atirou.

Katsushiro observou-a ir até a porta, esquadrinhando-a com olhar penetrante, enviesado, ambíguo.

Os pioneiros – parte 1 de 3

Há seis meses, propus, durante uma tertúlia, na casa da Querosene – a Poliana, assim alcunhada devido ao seu pavio curto e ao seu sangue inflamável –, um tema para contos. Estávamos presentes, eu, Luis Amadeu, Poliana, Renata, Teresa, Gabriel e Rafael. A Poliana é a namorada do Rafael. A Renata é a minha namorada. A Teresa, uma semana antes, rompera o namoro com o Vinicius. O Gabriel havia dois dias brigara com a Adriana (Ele, não me resta dúvidas, compareceu à casa da Poliana porque, imprudente, involuntária e imprevidentemente o Luis Amadeu dissera-lhe que a Teresa iria lá. Qual foi a contribuição do Gabriel à assembléia literária? Nenhuma. Ele se limitou a beber o café-com-leite que a Poliana nos preparou e a degustar biscoitos de nata, bolachas, geléias e pudins, e a ouvir – e dar-se de desentendido – as insinuações, nem sempre sutis, que a Renata lhe lançou na cara).

A tertúlia foi proveitosa. Rafael, criativo, apresentou-nos as suas idéias para novelas de vários gêneros literários que pretendia escrever, leu-nos as anotações que havia feito desde a nossa última reunião (isto é, na reunião à qual ele compareceu, oito meses antes; entre a última participação dele numa tertúlia e a que promovemos no dia em questão, havíamos nos reunido cinco vezes. O Rafael não compareceu a esses cinco encontros devido ao seu trabalho, que lhe exigiu as vinte e quatro horas de cada dia), e as comentou, como, também, um conto que escrevera. Não sei o que ele tem no cérebro, que lhe permite produzir tantas idéias; muitas não são boas, é verdade, mas as que são boas são ótimas, e com elas o Rafael escreve novelas e contos empolgantes; o mesmo digo do Luis Amadeu, que, embora menos prolífico do que o Rafael, escreve histórias mesmerizantes. Ao dar início à leitura de um conto ou de uma novela de sua autoria, não consigo interrompê-la enquanto não a dou por encerrada. Já cheguei atrasado a compromissos por causa de contos e novelas escritas por Rafael e Luis Amadeu. E já ouvi muitos sermões da Renata. É impossível interromper a leitura de uma história escrita por eles. Quem já leu alguma obra deles, sabe do que estou falando, e concorda comigo, é certo.

De todos os que participavam do sarau, Teresa é a única vocacionada à análise crítica e dona de uma memória privilegiada. Ela sabe, puxando, sem esforço aparente, pela memória, o nome de todos os personagens de Guerra e Paz e todos os episódios de Dom Quixote de La Mancha. Contribuiu, para o enriquecimento da assembléia, com as comparações que apresentou de obras clássicas e modernas, e explicou-nos porque aquelas que ela reputava melhores eram as melhores. Confesso: perdi-me em alguns momentos durante os quais ela nos falava, prendendo-nos a atenção. Valiosa, a sua contribuição. Ela não nos deu idéias para contos e novelas, mas extraiu dos que leu a essência, e disse-nos porque todos os amantes da literatura têm de lê-los, se desejam conhecer literatura e escrever boas histórias. Rafael, com as suas dezenas de idéias, contrapôs-se à Teresa. Não é dotado de senso crítico equiparável ao dela. Tem um cérebro fantasioso. Converte a realidade numa fantasia eterna, duradoura, sem compromisso com o verossímil. Ele alheia-se do mundo, e deixa-se envolver pela nuvem da fantasia, que o transporta para outra dimensão, uma dimensão cuja localização raros humanos conhecem. Quanto à minha contribuição, à da Poliana e à da Renata, se não se equiparou à da Teresa, Rafael e Luis Amadeu, não foi inexistente como a do Gabriel.

Após o encerramento da tertúlia, saímos, eu e Luis Amadeu, da casa da Poliana, após nos despedirmos dos outros participantes. Andávamos pela rua São Francisco, quando o Luis Amadeu entregou-me uma pasta, e falou-me do seu teor; não proferiu vinte palavras, um acesso de tosse o dominou. Cessamos os passos. O rosto de Luis Amadeu tingiu-se de vermelho. Deu-me a impressão de que o sangue escapara-lhe dos vasos sanguíneos e, pelos poros, escapara-lhe para a pele, cobrindo-a inteiramente. Pouco depois, recomposto, Luis Amadeu reassumiu a sua aparência original. Durante o seu acesso de tosse e a sua recomposição, fitei a pasta que ele me entregara, em cuja capa havia, numa etiqueta, o título de uma novela: Os Pioneiros. Era mais uma das histórias repletas de criaturas extraordinárias que pululam da mente de Luis Amadeu, pensei comigo. Quantas histórias de sua autoria já li? Perdi a conta. Algumas, amalucadas, com extravagantes personagens pitorescos, que enfrentam criaturas fabulosas, em aventuras inusitadas, eu diria inenarráveis, em cenários extraordinariamente exuberantes, ocuparam o meu tempo por horas a fio, e induziram-me a desconectar a mente da realidade. Absorveram-me inteiramente. E aquele título, Os Pioneiros, fizeram-me evocar cenas de outros livros de autoria de Luis Amadeu. Fantásticas. Cativantes. Envolventes. Perguntei-me: Luis Amadeu, nesta novela, repete temas, cenas e episódios de outras histórias de sua autoria? Não que isso me desagradaria. A narrativa de Luis Amadeu é tão envolvente que leio uma história dele três vezes e acredito ter lido três histórias distintas. É um talento narrativo raro, o dele. Eu iria lhe perguntar o que havia naquela novela, e se ele reciclara idéias de outros livros, mas ele, antes que eu abrisse a boca, refeito do acesso de tosse, num tom pausado, porém animado – no início lentamente, escandindo as palavras e coordenando os pensamentos, depois, com seu tom peculiar, sua voz sonora, seu vocabulário, simultaneamente simples e sofisticado (a sofisticação está na simplicidade e a simplicidade na sofisticação) -, disse-me:

– Os Pioneiros contem relatos de uma expedição humana exploratória para um planeta que, segundo astrofísicos e exobiólogos, conserva semelhanças com a Terra. Baseei-me, para escrevê-los, nas mais recentes descobertas científicas; no entanto, a elas não me prendi. Não aprecio relatos que mais parecem tratados científicos, e não histórias de aventuras. Há escritores que dão relatos, realistas, dizem eles, e, portanto, superiores às aventuras fictícias, fantasiosas, sejam as de terror, as de espionagem, as políticas, as de ficção científica, as de fantasia à Tolkien. Realismo! Não há realismo na ficção. Ficção é ficção. A realidade não pode ser apreendida pelos humanos. Quero dizer: a realidade é apreendida pelos humanos, mas os humanos, ao usarmos de palavras para representá-la, não o fazemos com correção. Não sei se estou me fazendo entender. Corrijo-me… A emenda saiu pior do que o soneto? A argumentação filosófica não é um dos meus talentos. Digo, para me fazer entender: As palavras que empregamos para representar a realidade não são a realidade, são palavras; não representam a realidade, não a retratam. A linguagem humana não a traduz com correção. As palavras são palavras. Os tolos acreditam que as palavras retratam a realidade, reproduzem a realidade, são a realidade. As palavras não reproduzem a realidade, não a retratam, não são a realidade. As palavras são inexatas. Uma pessoa usa certas palavras para traduzir a realidade; outras pessoas usam outras palavras para traduzirem a realidade. Há uma realidade. E infinitas traduções dela. Não há duas pessoas com a mesma concepção do mundo, tampouco duas pessoas podem retratá-lo com as mesmas palavras. Estou me fazendo entender? A objetividade dos relatos, almejada por muitos escritores, é uma quimera, uma obsessão injustificada. Os que empreendem tal esforço despendem energia, que não é renovável. É uma tarefa infrutífera, um exercício infértil, fútil. Não desperdiço nem uma fração infinitesimal da minha inteligência num exercício que, como eu disse, é infrutífero. É impossível reproduzir, com palavras exatas, no papel, os eventos que presencio, pois sei que sou, como todas as pessoas, incapaz de fazê-lo, devido os limites da minha inteligência, que é a de um humano, e não a de um lunático, como muitas pessoas pensam. Não me canso de dizer, para as pessoas que se dispõem a me ouvir: Não há relatos realistas. Saiba que o realismo fantástico é um rótulo, apenas um rótulo, como outro rótulo qualquer, e nada quer dizer, absolutamente nada; é um rótulo sem pé nem cabeça, criado para identificar uma literatura que, dizem os pernósticos, é distinta da de outros continentes, criação singular dos povos sul-americanos. Bobagem! Estupidez sem paralelo na história da civilização! Típico de bárbaros presunçosos! Toda literatura é fantástica, em graus distintos. Difícil é saber qual é a mais fantástica e qual é a menos fantástica. Até agora ninguém me convenceu de que a literatura dita realista é realista, e as outras, não. Há mais realidade na Divina Comédia do que na Comédia Humana! As palavras, como eu disse, são palavras; não nos apresentam um retrato exato da realidade; representam, nunca com exatidão, o que as pessoas que as empregam captaram da realidade, pois tais pessoas as distorcem, involuntariamente, ou não. As palavras não são a realidade; não constróem a realidade. Reproduzem o que as pessoas acreditam ser a realidade. Estou sendo um pouco repetitivo, e, como não me é comum, estendo-me em reflexões filosóficas. Não sei o que a Teresa me faz sempre que com ela converso. Você já percebeu que, sempre que converso com a Teresa, e participo dos saraus nos quais ela participa, fico cheio de filosofias? Parece-me que ela me exerce uma influência, salutar, acredito. Ou não? Vivo com os meus desvarios fantásticos. Extrapolo, reconheço, o bom-senso, não raras vezes. Deixo minha mente espraiar-se por outros mundos, outros universos, outras dimensões. Não pelos mundos conhecidos. Quantos são? Dois mil? Não pelos universos presumidos. Nem pelas dimensões concebidas, nas teorias, pelos cosmólogos e pelos físicos teóricos; mas pelos mundos, universos e dimensões que se encontram, unicamente, na minha mente. As minhas idéias são corpóreas, ou constituem-se de ondas? São compostas de partículas? Preenchem um lugar no espaço? Como o cérebro, órgão físico, concebe coisas imateriais, os pensamentos, os sentimentos e as idéias? Espero não me encontrar com a Teresa nos próximos trinta dias. Não quero rechear as minhas narrativas com intermináveis elucubrações filosóficas. Que prolixidade! Você se lembra do que eu falava? Puxe pela memória, e ajude-me a restabelecer o fio da meada. Eu falava da história, que está nessa pasta, de uma aventura incrível num planeta inóspito. Puxa! A Teresa consegue inspirar o meu lado mal, o pior dos meus instintos racionais. O que ela possui? Qual o talento dela? Como posso definir a influência dos comentários da Teresa na minha mente? O que de meu cérebro a Teresa extraiu? E o que nele ela inseriu? Você acha que, para o meu bem-estar, tenho de me afastar da Teresa? Ela não me é uma boa influência. Ou é? Não sei mais no que estou pensando, e não sei a respeito do que eu falava. Qual era o assunto da nossa conversa? Você lembra qual era? Eu ainda me lembro. Vou tratar do tema de nosso interesse, antes que eu me estenda, com a minha tagarelice, e não me recorde mais do que falo, e retire essa pasta com a minha novela de suas mãos, não me recordando das razões que me levaram a entregá-la para você, e você não me pergunte porque eu a entreguei para você, e eu, com a pasta comigo, vá embora. Como não quero que isso aconteça, e você também não, estou certo, dou por encerradas, definitivamente encerradas, e que isso fique bem claro, estas minhas digressões, que nos afastam do assunto que pretendo tratar com você, e falo do que há nessa pasta. Você leu o título de uma novela que escrevi de três meses para cá: Os Pioneiros. Novela em que se narra uma aventura fantástica num planeta inóspito. Não me pergunte qual é o nome do planeta. Não me faça essa pergunta; se ma fizer, eu nenhuma resposta darei, e por uma razão bem simples, da qual você suspeita, você, um dos meus melhores leitores: Não escrevi o nome do planeta. Empreguei um recurso comum aos escritores que não desejam dar a localização da cidade, ou da região, ou do país: três asteriscos. Usei três asteriscos para identificar o planeta inóspito. Muitos escritores preferem o uso de três pontos após uma letra maiúscula. Qualquer letra. Uma letra e três pontos. O Claudemir emprega esse recurso, principalmente quando ambienta as suas histórias nesta cidade, e concebe personagens tendo como base as pessoas de seu relacionamento, inclusive familiares e amigos, alterando-lhes os nomes. Com tal recurso, ele não engana os leitores que o conhecem. Até eu ele já descreveu, o maldito! E duas vezes, uma no conto Vulgares, dando-me o nome de Celso, um dos coadjuvantes. Celso era… era, não; é; é o meu retrato, não exato, mas fiel, direi. E o outro ‘eu’ que o Claudemir descreveu encontra-se na novela Acessos e Retrocessos, novela herói cômica, assim a classificaria se eu apreciasse classificações; e o Claudemir me fez como um personagem que arquiteta as artimanhas mais extravagantes que se possa imaginar. Vinguei-me dele na novela Desencontros de Duas Almas que se Merecem. Retratei-o, como pude. O Claudemir se reconheceu, disse-me que dele fiz uma caricatura grotesca, e eu lhe agradeci o elogio. Se a caricatura é grotesca, e qual caricatura não o é?, então fui bem-sucedido no meu trabalho. Não foi em vão o meu esforço. Atingi um soco na boca do estômago do Claudemir, e ele me disse para eu me preparar para a revindita. Você leu Desencontros de Duas Almas que se Merecem? Leia-a. Você reconhecerá o Claudemir na caricatura. E leia Vulgares, e Acessos e Retrocessos. Você me reconhecerá no personagem Celso, e, digo agora, no Virgulino. Que nome para um personagem! Eu dizia: O Claudemir emprega a letra maiúscula seguida de três pontos quando não deseja identificar a cidade na qual a história se passa. Muitos escritores russos também empregaram tal recurso nos seus contos, novelas e romances. E eles também empregavam três estrelinhas; quero dizer, três asteriscos. Monteiro Lobato brincou com essa prática. E, dizia eu, na novela, há um planeta… Refiro-me, agora, à minha novela Os Pioneiros. O planeta eu o identifiquei com três asteriscos, e, antes dos três asteriscos, se eu ainda não disse, digo, a letra ‘A’ maiúscula. Pensei em conceber um nome para o planeta. Que nome eu lhe daria? Matutei. Dei-lhe dezenas, centenas, milhares de nomes. Por fim, após fundir a cuca, decidi pelo ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos. E é nesse planeta ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos que a história se passa. O planeta da novela… Novela? Do conto… Conto? A história é extensa para um conto, e tem muitos personagens, e detalhes e relatos que lhe dão uma dimensão que vai além do conto. Não é um conto. É uma novela. Quantos personagens participam da história? Uns quinze. Talvez mais de vinte. Uns trinta. Considerando-se a sua extensão e o número de personagens que se apresentam nas suas mais de cinquenta páginas, Os Pioneiros não é um conto; é uma novela. E eu quero que você a leia. Você será a primeira pessoa que a irá ler. Na verdade, a segunda.  A primeira pessoa que a leu fui eu. Tive esse privilégio. E eu, mesmo que desejasse concedê-lo a você, não poderia fazê-lo. Não se entristeça. Você terá o privilégio de ser a segunda pessoa a lê-la. E, depois de lê-la, me dirá o que achou dela. Depois, a entregarei para a Teresa. Talvez você esteja se perguntando porque não pedi para a Teresa ler Os Pioneiros. Tive as minhas razões. A Teresa iria dissecar a novela à procura de um defeito, um mísero defeito, de uma incoerência, de uma inconsistência, de um mísero erro gramatical, de uma discrepância, de uma deficiência no estilo, no vocabulário, e depois analisaria o tema, procuraria por sua relação com teorias científicas, psicológicas, filosóficas, ideológicas, as quais não tive em mente desenvolver, as quais nem sequer tangenciaram-me a cabeça, tampouco resvalaram-me o cérebro. A Teresa é obcecada por questões teológicas, sociológicas, filosóficas, psicológicas, praxeológicas, sociológicas, o diabo! Não reclamo. As observações da Teresa a respeito de alguns contos que lha apresentei e a respeito dos quais lhe pedi comentários, fizeram com que eu os modificasse, para melhor, os incrementasse com episódios que deixaram a trama mais sólida, e adicionasse personagens, ou excluísse personagens, conforme o caso, simplificando-os. Até mesmo com a adição de personagens e de episódios alguns enredos simplificaram-se porque se tornaram mais claros quando deles eliminei o desnecessário, que só servia para encher lingüiça. E também modifiquei o vocabulário de personagens, as suas expressões, sentenças, e a sua personalidade. A Teresa deu-me a sua contribuição, valiosa, para a redação de contos e novelas, e para um romance que escrevi há um ano: Amizade Eterna. Neste romance, por sugestão da Teresa, além de suprimir capítulos, e adicionar capítulos, suprimir personagens, e adicionar personagens, modifiquei o título, que ficou: Uma História Comum. O romance melhorou, depois de eu o modificar por sugestão da Teresa. Não acolhi todas as sugestões que ela me deu, é óbvio. Algumas não me agradavam. Atendiam ao gosto da Teresa; não ao meu; então, os descartei. Ora, sou o autor do romance; não a Teresa. Não posso escrever um romance, ou um conto, ou uma novela, que a Teresa gostaria de ler; e não eu. Escrevo ao meu gosto; sou escravo do meu gosto. Não rejeito sugestões que me agradam, que contribuem para melhorar as minhas histórias; acolho-as quando me convenço de que melhorarão as minhas idéias originais, mas não posso descaracterizar as minhas obras. Não quero dizer que a Teresa foi intransigente, e quis impor-me as suas idéias. Longe disso. Ela jamais faria isso. Pedi-lhe observações sobre o que escrevi porque ela é uma pessoa dotada de talento distinto do meu. O que ela vê do mundo é muito, mas muito, diferente do que vejo. Somos muito diferentes um do outro. Não sei se existe o pouco diferente e o muito diferente. Há o igual e o diferente. Há pouco igual e muito igual? Há pouco diferente e muito diferente? É absurdo falar assim, não é? Igual é igual. Diferente é diferente. Uma caneta é igual a outra caneta. Elas não são pouco iguais; elas não são muito iguais. Elas são iguais. Um lápis é diferente de outro lápis. Eles não são pouco diferentes. Eles não são muito diferentes. Eles são diferentes. Bastou-me evocar a Teresa, que comecei a filosofar. Depois desse tempo todo, depois de tudo o que falei a respeito de Os Pioneiros, pensei que a influência da Teresa sobre mim havia se dissipado. Enganei-me. A influência persiste. A sua força é imensurável, inexaurível. Persiste em mim. Não sei se isso é bom, ou se é ruim. Agora que já disse porque não pedi para a Teresa ler Os pioneiros, sabe o que farei? Direi que, ao entregar para você a minha obra-prima à qual me dediquei durante três meses, tive em mente pedir comentários sobre as idéias, as cenas de aventuras, se são empolgantes, emocionantes, ou não. Não quero comentários teológicos, filosóficos, e o raio que o parta! Quero saber se o leitor se encantou com as aventuras. Só isso. E isso a Teresa, mesmo que o desejasse, e mesmo que eu lhe pedisse encarecidamente, e lhe suplicasse, não poderia me oferecer. Iria contra a natureza dela. Ela não aprecia histórias fantásticas, ficção científica, fantasia. A fantasia, o gênero fantasia, segundo a Teresa, é fantasiosa demais para o gosto dela. E a ficção científica é muito fictícia, e pouco, ou nada, tem de científico. Quanto a isso, concordo com ela, com ressalvas. Quase não há ciência na ficção científica. Mas as boas histórias do gênero são boas obras de literatura; não são obras de ficção científica. São obras literárias. Não podemos negar valor literário à Fundação, A Guerra das Salamandras, Farenheit 451 e O homem ilustrado. Quatro dos melhores livros que li. Rivalizam-se com os clássicos da literatura. Exagero? Não. Ponho em pé de igualdade Moby Dick e Fundação; O vermelho e o negro e A guerra das salamandras; Viagens de Gulliver e Farenheit 451; A letra escarlate e O Homem ilustrado. As oito obras são importantes, de alto nível. Rivalizam-se. E não posso me esquecer de outro livro de ficção científica, um dos melhores que já li: O homem do castelo alto. Emblemático. Instigante. E Encontro com Rama é uma aventura empolgante. E não menciono outros livros do gênero porque não quero me estender mais do que já me estendi. Eu não me perdoaria se esquecesse de livros ótimos, como muitos que há. Não são poucos, não. E as obras de fantasia não são, também elas, obras de fantasia; são obras literárias. A Odisséia não é uma obra de fantasia? Ela não pode ser classificada no gênero fantasia? O Senhor dos Anéis não é uma odisséia? É uma odisséia. Fundação também é uma odisséia. A odisséia de uma civilização. Pinóquio é uma história de fantasia. A Chave do Tamanho também é uma história de fantasia, ou não? Gargântua e Pantagruel é obra de fantasia. E Dom Casmurro? E Dom Quixote? Não aprecio as classificações. São desnecessárias, e geram debates infindáveis, que a lugar nenhum nos levam, e produzem discriminações. E discordo da Teresa, quando ela diz que os romances são obras literárias, e os outros gêneros literários, não. E quando a Teresa diz romances, ela quer dizer os de cunho social, os realistas, referindo-se a Balzac, Proust, Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Mann, Dickens, Faulkner, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, e cuja classificação recebe a chancela de estudiosos, críticos literários e academias, que arregimentam o maior número de autoridades para fazer prevalecer as suas teses. Esses autores realistas, como a eles se referem os estudiosos, não são melhores do que os escritores de livros de fantasia e de ficção científica. A Teresa deixa-se levar pelos rótulos. Para uma pessoa inteligente, a Teresa é burra às vezes. E concordo com as pessoas que dizem que o termo ficção científica é inadequado. Esse assunto dá muito pano pra manga. Em outra ocasião, conversaremos a respeito. Você, estou certo, entendeu porque não pedi para a Teresa opiniões sobre Os Pioneiros. Entendeu, não entendeu? Ela dissecaria a novela, e me diria para nela eu incluir teses filosóficas, teológicas, psicológicas, sociológicas. Em resumo, ela me diria para rasgar todas essas folhas, ou me diria para jogá-las na lata de lixo, ou, então, para que eu nunca mais as lesse, me diria para queimá-las, para que elas não me inspirem outras idéias similares. Agora, com você, a história é diferente. Você não desmontará a minha novela, que me é muito valiosa, pois nela trabalhei durante três meses. Três meses de trabalho árduo. Perdi noites, que passei em branco. Refiz o texto inúmeras vezes. Quantas vezes o corrigi? Quinhentas vezes. Para dar consistência ao texto, fi-lo e refi-lo, incansavelmente. Quero dizer, cansavelmente. Exauri as minhas energias. E aí está, nas suas mãos, Os Pioneiros. Com você estão as aventuras de uma trupe de criaturas exóticas no planeta que nenhum humano são desejaria conhecer, no qual nenhum humano lúcido desejaria pôr os pés, e que todos, excluídos os insanos e os dotados de temperamentos afins, jamais se disporiam a conhecer, nem embaixo de porrete. Não espere por teorias científicas, descrições minuciosas de fenômenos cosmológicos, tampouco de espaçonaves, máquinas e equipamentos espaciais. Não procure por teorias das cordas, das supercordas, viagens espaço-temporais, travessia de uma galáxia para outra através de um buraco de minhoca. Alguns fenômenos previstos nas teorias cosmológicas estão considerados nessas folhas, mas neles não me detive. Eu os usei como um recurso para o andamento da narrativa, não de modo artificial, para encher lingüiça. Mais uma vez, lanço mão dessa linguagem, que não me agrada, mas que é clara, e serve, como uma luva, para o que tenho em mente. Divirta-se com a novela, e não negligencie a avaliação ponderada do que irá ler. Depois, se necessário, leia-a, novamente; na próxima vez que nos encontrarmos, pois não nos veremos por um bom tempo, porque estou de viagem marcada para o sul, e só regressarei daqui dois meses, se não depois de três meses, você me dirá, assim que eu regressar, o que pensou da novela. Quero uma análise, e quero saber o que você achou das criaturas e dos fenômenos naturais que se manifestam no planeta A***. Se são fantásticas as criaturas, extraordinariamente fantásticas, e se merecem figurar entre os seres fantásticos, fabulosos, as quimeras e os monstros descritos nos poemas épicos gregos, nórdicos, hindus, nas obras egípcias, e entre os da cultura popular que os viajantes e os aventureiros admitiram com eles terem se deparado. Frutos da imaginação! Imaginação fértil! E você me dirá qual foi o impacto da revelação final em você. Quais impressões provocaram em você. Se surpreendeu você, ou não. Se você previu a cena derradeira… Se você a prever, então fui mal-sucedido em meu propósito: prender a atenção do leitor até o momento das revelações, as quais, acredito, são imprevisíveis. A cena derradeira tem de pôr você em suspenso, boquiaberto, estupefato, e de olhos arregalados e de queixo caído. Nas cenas que a antecedem, você terá de suspender a respiração e temer pela sua vida. Se isso não se suceder a você durante a leitura, então, concluirei, fui mal sucedido em meu propósito, e terei de reescrever a novela. Mas não me diga que as revelações surpreenderam você, e você suou frio, e calafrio gelou a sua espinha, apenas para me poupar trabalho. Não faça isso, está bem? Não pense, nem por um segundo, em elogiar a minha obra-prima para me poupar trabalho e para não me desagradar. Assim que nós nos reencontrarmos, você me apresentará a sua avaliação do meu livro, e eu, se suspeitar de você, submeterei você a uma sabatina. Os meus critérios, saiba, são rigorosos, e eu empurrarei você contra a parede, e espremerei você até você me suplicar liberdade. Sou seu amigo, e você é meu amigo; você será sincero comigo; e não me poupará críticas severas, se eu as merecer. Confio em você, e você confia em mim. Sei que você não me faltará com a sinceridade, mas nada me custa salientar este ponto. Despedimo-nos aqui, e eu seguirei o meu rumo, e você o seu, e nossos caminhos se reencontrarão em breve. Boa leitura. Ah! Esquecia-me: Mande abraços meu para seu pai e sua mãe, abraços apertados, apertadíssimos. Tchau. Nos veremos daqui uns dois meses, ou dentro de três meses. Divirta-se com a leitura da minha obra-prima, que será um sucesso estrondoso. Tchau, e até breve.

Luis Amadeu afastou-se, a passos acelerados. Nunca o vi, quando só, a andar num ritmo vagaroso.

Voltei a minha atenção para a pasta. Li a etiqueta com o título da novela. Abri a pasta. Na primeira página, na primeira linha, o título da novela Os Pioneiros. E lá, na calçada, andando, cuidadoso, interrompendo a leitura, li as quatro primeiras páginas das aventuras concebidas por Luis Amadeu. Empolgantes! Acelerei os passos, no desejo de ler, tranquilamente, a novela, na minha casa, onde eu recomeçaria a leitura, desde o título. Encavernar-me-ia, no meu quarto, e não interromperia a leitura. Eu iria ler Os Pioneiros do começo ao fim. Empolgaram-me as primeiras páginas. As outras, eu acreditava, prenderiam a minha atenção. Eu só encerraria a leitura no ponto final derradeiro. A narrativa que li surpreendeu-me sobremaneira. Tal obra merece ser conhecida por todas as pessoas que amam a literatura.

O vulto

Segunda-feira. 23:00.

Sob a escuridão da noite, nuvens cinzentas anunciando violenta borrasca, eclipsando a lua, Ana Verônica andava, apreensiva, a bolsa abraçada ao peito. Os seus passos, pesados, firmes, apressados, ecoavam no silêncio das ruas mal iluminadas. Seus olhos, alertas. Olhava Ana Verônica de um lado para o outro. O ruído de uma folha seca caindo, e os ouvidos de Ana Verônica, aguçados pelo medo e pelo que se pode chamar de instinto de conservação, ou instinto de sobrevivência, captavam-no, e sobressaltava-se Ana Verônica, e crispavam-se-lhe os pêlos de todo o corpo, a prova do medo e da apreensão que a assaltavam.

Ana Verônica, mulher bonita, dedicada à família e aos estudos, sonhadora, vaidosa, estudiosa, almejava seguir carreira de arquiteta respeitada e bem-sucedida; dedicada aos estudos, sacrificava os seus dias de lazer, feriados e finais-de-semana. Superava obstáculos que detém muita gente menos perseverante. A sua beleza, incomparável. Atraente, seu corpo enfeitiçava qualquer homem. Andava, todas as noites, por ruas mal iluminadas, temendo a investida de um ladrão, de um assassino, de um estuprador. Rogava ao Senhor que nenhum facínora lhe cruzasse o caminho.

Naquela noite de calor insuportável, trajava um vestido florido, que lhe modelava as perfeitas formas femininas. Seu corpo, belo e atraente em vestes comuns, sublimou-se com tal vestido. A vaidade, sentimento tão natural, poderia vir a perdê-la. Seu corpo, puro, poderia vir a ser enxovalhado, profanado – e talvez conservasse a beleza, cuja pureza, no entanto, não mais possuiria.

Diários, a apreensão e o medo de ser agarrada por um estuprador, por um assassino. Na sua casa, seu pai e sua mãe preocupavam-se com ela; enquanto ela à casa não regressava, eles não se recolhiam, para dormir, ao quarto. Conservavam-se acordados à espera da filha, a única filha, que lhes era querida.

A lubricidade de muitos homens aguçava-se quando eles deparavam-se com Ana Verônica. Havia algum homem espreitando Ana Verônica de detrás dos postes, das árvores, dos automóveis, oculto pela escuridão, à espreita, para avançar contra ela, agarrá-la e, ardendo de desejo, arrastá-la, para algum lugar imundo, e violentá-la?

Ana Verônica estava apreensiva, naquela noite, que prenunciava, aziaga, torpezas. Corajosa, o coração a pinotear, dava passo após passo. Ecoava, lúgubre, o bater da sola dos seus sapatos de saltos altos nas calçadas e nas ruas esburacadas e com raízes de árvores expostas.

Atingiram-na golpes de vento de uma corrente de ar frio. Calafrio percorreu-lhe o corpo. À sua frente, um vulto atravessou a rua, da direita para a esquerda, e desapareceu atrás de uma árvore. Ana Verônica estacou, olhos fitos na árvore, aguçadas a visão e a audição. Distinguia o contorno da árvore, e nada mais. Seu coração cabriolava. Sua boca secou-se. A sua bela fisionomia, suspensa, deformada, refletia o medo que a invadira. O sangue abandonou-lhe a face. Abraçou-se, abraçando-se à bolsa ao seu colo, apertando-a contra si como se a protegesse e por ela fosse protegida.

Andou, lenta e cuidadosamente. Recriminou-se. Por que usou um vestido que lhe sublimava os atrativos e esparziu-se perfume tão aromático, tão sedutor?

Passou pela árvore atrás da qual escondera-se o vulto, que desapareceu.

Não abandonaram Ana Verônica o medo e a apreensão; recrudesceram, à presença do vulto, que se moveu atrás dela, correndo, pelo meio da rua e detendo-se atrás de um carro.

Ana Verônica acelerou os passos, o coração a saltar, as pernas a tremerem, o corpo a trepidar. Pela sua mente transcorreu a sua vida até o presente, e ela anteviu o que lhe aconteceria nas mãos do vulto ao qual ela deu uma constituição física, um corpo humano masculino; até então, o vulto era-lhe uma entidade etérea, que já a havia assombrado em outros dias; desta vez, assumiu-lhe a consistência de um homem. Em sua mente, convergiram o passado, o presente e o futuro, que se fundiram numa coisa só. Evocou seu pai e sua mãe. Invocou-os. Orou. Solicitou a ajuda dos anjos.

Sentiu respiração ofegante atrás de si. Agitou os cabelos. Seu coração, acelerado, a ponto de explodir. De seus olhos escorreram fiozinhos de lágrimas, que secaram, instantaneamente, no rosto lívido.

Agrediam-lhe os ouvidos os assustadores ruídos dos passos do vulto. Tensa, seu corpo enrijeceu-se.

Notou que o vulto afastou-se de si, e desapareceu. Não afugentou de si o medo. Não lhe aliviava o espírito a escuridão lúgubre. O medo acompanhou-a até uma rua movimentada bem iluminada. A tensão abandonou-a. Renovou-se-lhe a beleza. Afrouxou o abraço à bolsa. Os braços moveram-se-lhe às laterais do corpo, como um pêndulo. Os seus passos, lentos, calmos, tranqüilos. Sorriu, aliviada, e logo suprimiu do rosto o sorriso. Seu coração, no compasso de música melodiosa. Deu os últimos passos até a sua casa. Enfiou a chave na fechadura, e abriu a porta, e na sua casa entrou. Na sala, sorriu para seu pai e sua mãe. Sua mãe abraçou-a, beijou-a nas duas faces, disse-lhe que tomasse um banho, afagou-lhe as bochechas. Ana Verônica banhou-se. Na cozinha, ela, seu pai e sua mãe, à mesa, compartilharam da última refeição do dia. Desejou Ana Verônica boa-noite ao seu pai e à sua mãe. Pediu-lhes a benção, e foi ao quarto. Substituiu as roupas por uma camisola, enfiou-se sob o lençol, apagou as lâmpadas. E dormiu profundamente.

*

Terça-feira. 23:00 horas.

Sob a escuridão da noite, nuvens cinzentas…

NCIS – episódio 24 da temporada 16

No derradeiro episódio da temporada 16 de uma das séries mais populares da televisão americana – que já contou em sua galeria de personagens com os icônicos Anthony DiNozzo (Michael Weatherly), Abigail “Abby” Sciutto (Pauley Perrette) e Ziva David (Maria José de Pablo – Cote de Pablo), os três de tão grande popularidade que eclipsam as personagens que as substituíram, respectivamente Nick Torres (Wilmer Eduardo Valderrama), Kasie Hines (Diona Reasonover) e Eleanor Bishop (Emily Wickersham) -, Leroy Jethro Gibbs (Thomas Mark Harmon) e sua equipe, Nick Torres, Timothy McGee (Sean Murray) e Eleanor Bishop deparam-se com um caso que adquire um tom pessoal a Leroy Jethro Gibbs, que se vê obrigado a transgredir uma das suas proverbiais regras, a 10, que o dissuade de se envolver em seus casos, emprestando-lhe um caráter pessoal. Principia o episódio cena em que dois jovens, um moço e uma moça, em um carro, ele a dirigi-lo, rumam, em alta velocidade, para o hospital; apressam-los a iminência de uma tragédia: a morte de Emily Fornell (Juliette Angelo), filha de Tobias Fornell (Joseph Peter “Joe” Spano), ex-agente do FBI e investigador particular, e de Diane Sterling (uma das ex-esposas de Leroy Jethro Gibbs, já falecida, com cujo “fantasma” Gibbs conversa). Esta a razão de Leroy Jethro Gibbs atormentar-se em diálogos imaginários com Diane Sterling, que o repreende, e, praticamente, dá-lhe uma ordem: que ele desconsidere a regra 10, em cuja transgressão ele incorrera em outras situações, e investigue o caso que quase vitimou Emily Fornell. Leroy Jethro Gibbs, escudado pelo Doutor Donald “Ducky” Mallard (David Keith McCallum, Jr.) e autorizado pelo diretor Leon Vance (Roscoe “Rocky” Carroll), lidera a sua equipe. A trama é simples, de nenhuma complexidade artificial; as personagens executam suas respectivas tarefas, representam os papéis que lhes competem. O ponto nuclear do episódio não é o desenrolar da trama investigativa, quase inexistente, tampouco o seu desenlace, mas, sim, um flagelo que hoje em dia assola os Estados Unidos, aterrorizando os americanos: o do consumo de opioides pelos filhos do Tio Sam, uma enfermidade social sangrenta que ceifa, nos EUA, a vida de sessenta mil almas por ano.
Emily Fornell, descobre-se, sucumbira aos prazeres proporcionados pela substância, o opioide, e fica a ponto – é a cena representada no início do episódio – de partir desta para a melhor, separando-a da morte uma linha tênue, bem tênue, quase invisível. Sobrevive, milagrosamente, à overdose. Sabe-se, posteriormente, que ela está viciada em tal composto químico.
Chama a atenção um ponto: em nenhum momento, Emily Fornell é apresentada como uma criminosa; ao contrário, ela é exibida como uma vítima, que, jovem, deixara-se seduzir por uma cultura hedonista e inconsequente propagandeada como fornecedora de felicidade eterna que tantas alegrias promete – mas que entrega, unicamente, tristeza, sofrimento e miséria. Tobias Fornell trata sua filha com desvelo, carinho, dedicação de pai amoroso, devota-lhe todo o amor do mundo, conquanto ela, de comportamento alterado e fisionomia irreconhecível (e aqui os realizadores do episódio foram felizes ao emprestar-lhe um ar ensandecido, de uma pessoa possuída, não é exagero dizer, pelo demônio), lhe exiba desprezo e desdém. E entende que, mesmo protetor, não pôde impedi-la de ser atingida pelos perigos que o mundo oferece aos homens, o que dá-lhe sensação de impotência, obrigando-o a reconhecer que os pais não são onipotentes, onipresentes, oniscientes. Confrontado pela filha, que, desvairada, exibe-lhe desprezo, abre os braços, oferecendo-lhe amparo; e ela, então, se reconhece uma pessoa em desgraça, necessitada de ajuda, ajuda que ele lhe oferece ao acolhê-la aos braços.
O consumo de opioides, nos Estados Unidos, assumindo ares de epidemia, tão preocupante, recebe, da administração de Donald Trump, atenção especial. Dezenas de milhares de vidas se perdem todo ano. E neste episódio, que é o último da décima sexta temporada, toca-se em tal ferida social.
Os realizadores de NCIS foram felizes em tratar a questão com a seriedade e sensibilidade pedidas.

Buraco de minhoca

Do Diário de Daniel.

Texto extraído das páginas 1.212 até 1.234. Datado de 17 de abril de 2007, terça-feira. Início: 8:15. Fim: 9:55.

Estranha a aventura que vivi há dez anos. Não a contei para ninguém. Hoje, decidi registrá-la. O que me sucedeu, naquele dia, passados, já, dez anos, não me sai da cabeça. Foram em vão todos os meus esforços para esquecer aquele dia. Desejo, em vão, apagá-lo da memória. Decidi, incapaz de esquecê-lo, registrá-lo. Relutei em escrever o que me sucedeu. Não sei definir o que se passou comigo. Perguntei-me, não raras vezes, porque eu escreveria o que me aconteceu, naquele dia, se para ninguém eu mostraria o texto. Dir-me-iam louco, eu estava, e estou, certo, todos os que tomassem conhecimento deste texto. Meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meu irmão, todos eles, fitar-me-iam com o canto dos olhos, se tivessem acesso a este relato, e lamentariam a minha insanidade mental. Meu irmão, Aquiles, dotado de imaginação extraordinária – mas as coisas fantásticas, no entendimento dele, restringem-se ao mundo irreal da imaginação, e nenhum contato têm com a realidade que conhecemos – também não me acreditaria. Nenhum deles, repito, tratar-me-ia como um homem de posse das suas faculdades mentais. A minha timidez, que sempre me impediu de dizer tudo o que penso e de narrar as minhas aventuras, não me permitiu atrever-me a contar o que vivi há dez anos. Neste diário encontram-se os meus pensamentos e o relato da minha vida. E conservo-os comigo, e apenas comigo.

O principio da aventura, inusitada, similar ao início de contos fantásticos; no entanto, ao contrário dos contos, cujos enredos brotam do cérebro de pessoas criativas, a minha aventura foi real. Conservo comigo as lembranças do que me sucedeu e trago uma estranha marca, a qual de todos oculto, em meu joelho direito.

Não me recordo do dia da semana em que o evento se deu – sei que ocorreu há dez anos, um dia após eu comemorar o meu vigésimo aniversário, na minha casa, com meus familiares e amigos -, nem quanto tempo durou.

Foi de manhã. Lembro-me que, na noite anterior, exausto, eu me deitara antes das dez horas da noite. Eu trajava apenas um short. Cobria-me um lençol fino, que me protegia dos mosquitos e dos pernilongos que infestavam o quarto. Era uma terça-feira? Ou uma quarta-feira? Ou um domingo? Não sei. Não sei em que dia, naquele ano, caiu o meu aniversário. Este detalhe é irrelevante. Se foi em uma quinta-feira, se em um sábado, se em uma segunda-feira o teor da aventura que vivi será o mesmo. Foi em Junho, estou certo, pois nasci no dia quinze de Junho.

Eu dormia, profundamente, quando, na escuridão do quarto, luz incomodou-me os olhos. Não despertei, de imediato. Recordo-me de, ainda a dormir, sentir luz intensa atingir-me os olhos e calor atingir-me o corpo. Não despertei, estou certo. Não muito tempo depois, outro clarão iluminou o quarto, e eu, semidesperto, entrecerrei as pálpebras, e vi – a minha visão embaciada – diante de mim uma coisa a flutuar sobre a minha cama, próxima de meus pés. A coisa parecia gelatina de morango. Não dei-lhe atenção. Era como se eu ainda dormisse, e aquela gelatina flutuante fosse uma personagem do meu sonho. Com o lençol cobri-me a cabeça. E dormi. Não sei quanto tempo depois, senti algo a puxar-me o lençol; aliás, senti o lençol a deslizar-me por sobre o corpo. Descoberto, nem adormecido, nem acordado, resmunguei, remexi-me na cama, tateei o colchão à procura do lençol, e não o encontrei.

Senti uma corrente de ar frio invadindo o quarto. Tremi de frio. Procurei pelo lençol. Não o encontrando, descerrei as pálpebras, estiquei-me, e apertei o interruptor. Atingiu-me os olhos a luz, obrigando-me a cobri-los com os antebraços. Habituado à luz, descerrei as pálpebras. E qual foi a minha surpresa ao ver, diante de meus olhos, uma coisa esquisita a flutuar, uma massa gelatinosa, brilhante, avermelhada, que irradiava brilho bruxuleante!

– O quê!? – berrei, assustado, arregalados os olhos, escancarada a boca, acelerado o coração, trêmulo o esqueleto, a fitar aquela coisa gelatinosa.

Berrei uma interjeição de espanto, mas não me ouvi. O medo talvez tenha me assustado tanto que por algum motivo não consegui ouvir o meu berro. Em meu inconsciente, ouvi as palavras que berrei; meus ouvidos, todavia, não as ouviram. Articulei as palavras, mas não as proferi. Eu as ouvi, mas não com meus ouvidos; eu as ouvi com meu inconsciente. Minha voz sumira inexplicavelmente. Assustado, pulei da cama, pronto para, em disparada, se necessário, sair, correndo, do meu quarto. Eu não entendia o que me ocorria. De repente, perdi os movimentos de meu corpo. Eu não o sentia. Meu corpo, imobilizado, ficou, contra a minha vontade, de frente para aquela coisa gelatinosa vermelha e brilhante. E comecei a flutuar. Eu não sentia meu corpo. Era como se eu o houvesse perdido. Ouvi uma voz feminina, suave, dentro de minha cabeça. Eu estava nervoso; meu coração batia acelerado.

– Daniel – dizia-me a voz -, não tenhas medo de mim. Não te prejudicarei.

Eu olhava, ainda assustado, mas não tanto quanto quando eu me deparara, pela primeira vez, com aquela coisa gelatinosa vermelha a flutuar diante de mim.

– Daniel – disse-me a gelatina flutuante (criatura desprovida de boca, nariz, de todos os órgãos que compõem um corpo) dentro de meu cérebro -, eu vim de um planeta distante, localizado em um sistema estelar longínquo – prosseguiu, após uma curta pausa -, situado em uma galáxia que os humanos desconhecem, e na qual há seres inteligentes mais evoluídos do que os humanos. Tal galáxia dista dois bilhões de anos-luz da Via-Láctea. Os humanos só a visitarão daqui doze mil e duzentos anos, quando desenvolverão tecnologia que lhes permitirá viajar através do tempo e teletransportarem-se através do espaço. Sei o que digo, pois viajo através do tempo por meio de um fenômeno que os humanos denominam Buraco de Minhoca, o mais comum meio de transporte empregado pela minha espécie. Empregamo-lo há muito tempo, no passado e no futuro. Descobri-mo-lo como controlá-lo, em um tempo que ainda não chegou para os humanos, e nunca chegará, um tempo que não está no futuro, nem no passado, nem no presente. Está em um instante; instante que não se localiza no passado, nem no presente, tampouco no futuro. Vim de uma galáxia na qual são inaplicáveis todas as leis da física que os humanos conceberam. Encarregaram-me os governantes do meu planeta de contatar um humano e para ele mostrar o que podemos fazer, e provar-lhe, de modo incontestável, que os humanos não são os únicos seres inteligentes no universo, muito menos os mais inteligentes. Os humanos desconhecem bilhões de universos, que compõem aglomerações de universos, que compreendem megauniversos, cuja concepção os seres dotados de inteligência inferior não podem compreender. Escolhi-te para transmitir-te o conhecimento do meu povo. Nenhum motivo especial eu tive para escolher-te. Detive-me no teu quarto, te vi a dormir, e decidi apresentar-te o meu mundo, os outros planetas do sistema estelar ao qual meu mundo pertence, e outras galáxias. O meu objetivo: mostrar-te que os humanos não são os únicos seres inteligentes do universo, e nem os mais inteligentes. Depois, tu difundirás, na Terra, para todos os humanos, os conhecimentos que te transmitirei, e todos os humanos conhecerão o que há no universo, e tomarão conhecimento da nossa existência e da existência de muitas outras espécies de seres inteligentes que vivem em outros planetas, em outras galáxias, em outros universos.

A criatura gelatinosa tentava traduzir para a linguagem humana as idéias que desejava me transmitir. As palavras dela não são as que escrevi; o teor do que ela me disse, no entanto, é, acho, o que registrei. Sou o mais fiel possível ao conteúdo do que ela me disse. Dez anos separam-me daquele dia; não posso me recordar de todas as palavras que a criatura gelatinosa disse-me.

Não sei como definir aquela criatura, a não ser chamando-a de criatura. Uma criatura estranha, uma criatura esquisita. Não sei a qual espécie ela pertence, e em qual galáxia situa-se o planeta no qual ela vive. Tais informações ela não mas passou; se mas passou, delas não me recordo. Talvez ela tenha me dito de qual galáxia ela é originária, mas eu, dominado pelo medo, mal lhe ouvi o relato da viagem que ela empreendera até à Terra dentro de um túnel espaço-tempo e sob influência de outros fenômenos que apenas Einstein, John Wheeler, Chandrasekhar, Roger Penrose, Alexander Starobinsky, Friedmann, Niels Bohr, e outros cientistas da mesma estirpe seriam capazes de entender.

Pouco pude entender do que a criatura disse-me. Aquela criatura estranha, a criatura mais estranha que já vi, mais estranha do que ornitorrinco, do que equidna e do que os animais que habitam os abismos dos oceanos, disse-me que não estava no tempo que eu percebia, ou algo assim; que não estava, nem no presente, nem no passado, nem no futuro. Ela simplesmente estava. Foi isso o que entendi do que ela me disse. Ela também me disse que o universo não foi criado, porque sempre esteve. Não disse que sempre existiu; disse-me que o universo sempre esteve. Não entendi o que ela quis me dizer, e não quero saber o que ela quis dizer-me, e não pensarei mais nisso. Não queimarei meus neurônios. Restam-me poucos, depois de tantos anos a queimá-los em trabalhos árduos e infrutíferos, e não quero desperdiçá-los com mistérios que não posso desvendar.

Encerro a minha tentativa de relatar o que a criatura disse-me, não sei em quanto tempo, pois de tudo o que ela me disse de quase nada me recordo – e nada compreendi do que ela me relatou durante horas (Horas? Posso mensurar, em horas, o tempo quando o tempo sofria não sei quais efeitos com a presença da criatura?).

Não me esforçarei para recapitular o que se passou, no meu quarto, e tampouco pretenderei – pois sei que é-me impossível – reconstituir o discurso da criatura. Não entendi patavinas do que ela me disse; se a minha memória não me engana, ela demorou para perceber que eu não a entendia; para infelicidade dela, ela não entabulou conversa com um indivíduo humano mais inteligente do que eu e com conhecimento em cosmologia; com a sua inteligência inigualável, ela não teve paciência para examinar os humanos e selecionar um que fosse dotado de intelecto vigoroso, e, ousado, não temesse inteirar o mundo de sua história. Se tivesse paciência – o tempo inexiste para ela, segundo entendi -, ela selecionaria um indivíduo humano intelectualmente bem dotado e para ele transmitiria as suas idéias – suspeito que tal humano, tanto quanto eu, intimidar-se-ia com toda a história, recusar-se-ia a contar para outras pessoas o que lhe ocorreu, e conservaria consigo a história, como eu o fiz.

Ao notar que eu não a compreendia, ela disse-me dentro da minha mente:

– Tu, com a tua inteligência inferior – o seu tom de voz, arrogante -, não entendes o que te digo. Creio que nenhum individuo humano é capaz de entender-me – inspirou-me a mente a vontade de encaixar-lhe um soco no nariz. Ela leu-me a mente. – Não te desesperes. Não te enerves. Não dominarei os humanos. Se a minha espécie desejasse dominar-lhe, vós não poderias impor-nos resistência. Não vos dominarei. Estou, neste planeta, para apresentar para um individuo humano os conhecimentos e a tecnologia da minha espécie e o universo. Prepara-te para a viagem.

– Viagem? – perguntei, sem articular a palavra.

– Sim – respondeu-me a criatura. – Viajaremos através de um Buraco de Minhoca.

Expressei confusão de pensamentos. A criatura replicou. Encetamos discussão, eu, nervoso e enfezado, ela, calma e serena. Enfim, ela fez sair de dentro de seu corpo um aparelho menor do que meu polegar, e disse-me que era o controlador do Buraco de Minhoca. O aparelho emitiu um brilho alaranjado, e diante de mim apareceu um círculo. Olhei para o seu interior, que não tinha dimensões, e arregalei meus olhos, assustado.

– O que é isso? – perguntei, tolamente.

– O Buraco de Minhoca.

– Aonde tu me levarás?

– Tu verás – respondeu-me a gelatina flutuante. Tive a impressão de haver visto sorriso escarninho em seu rosto (a criatura é desprovida de rosto).

Em pé, flutuei até o Buraco de Minhoca, que se alargou para que eu nele entrasse, e a criatura posicionou-se à minha direita.

Não sei descrever o que senti quando meu corpo foi puxado para dentro do túnel sem fim. Eu, parecia-me, não me mexia. Mas eu me mexia. Não muito tempo depois (é incômodo falar em tempo, neste caso), me vi diante de uma esfera chamejante. A criatura disse-me tratar-se da Terra em formação. Um espetáculo fabuloso. Vi a Terra a formar-se em ritmo acelerado. Vi dinossauros a caminharem pelos continentes. Vi asteróides atingirem a Terra. E os dinossauros foram dizimados. Diante de meus olhos sucederam-se, num ritmo alucinante, as eras glaciais, erupções vulcânicas, o surgimento da civilização, a construção de grandes cidades. Reconheci os jardins suspensos da Babilônia, as pirâmides do Egito, Macchu Picchu, o Colosso de Rodes, o Farol de Alexandria, a Grande Muralha, o Taj Mahal, o templo de Angkor Vat, e muitas outras maravilhas que os humanos construímos. A história humana desenrolou-se diante de meus olhos. Vi as ruínas de todas as grandes construções. Vi os humanos a esfacelarem-se em guerras sangrentas. Chegamos ao tempo presente: o ano de mil, novecentos e noventa e sete. Não se encerrou a viagem através do tempo. Vi o futuro dos humanos. As viagens espaciais. A construção de colônias humanas na Lua, em Marte, em Titã. As viagens interestelares. A espécie humana a modificar-se diante de meus olhos. Transcorreram-se séculos, milênios, dezenas de milênios. E a espécie humana a transformar-se. Os humanos converteram-se em seres irreconhecíveis. Vi, fascinado, a espécie humana a transformar-se. Se a criatura não me dissesse que aquelas criaturas que eu tinha diante de meus olhos eram humanas, melhor, seres que evoluíram do homo sapiens, eu não saberia que se tratavam de seres nos quais nossos descendentes se transformariam, num futuro distante; para a criatura, disse-me ela, tudo aquilo já havia acontecido. E vi Sol a expandir-se, e a engolir Mercúrio, Vênus e a Terra. E o Sol explodiu. E fez-se as trevas.

Após a viagem através do tempo, na Terra, a acompanhar o progresso da civilização até o seu desaparecimento, que se deu com a transformação da espécie humana em outra espécie, que vivia, além da Terra, em outros planetas acolhedores de outros sistemas estelares, a criatura disse-me que iríamos para a galáxia em que se situa o planeta em que ela vive.

Eu era incapaz de compreender tudo o que vi. A criatura e eu rumamos para planetas nos quais viviam criaturas estranhíssimas, que fundaram civilizações detentoras de tecnologia inigualável.

Detivemo-nos em um planeta em que os indivíduos, como a criatura, comunicavam-se por intermédio da mente, ou de um órgão similar. Eram criaturas de mais de cinco metros de altura, dotadas de três pernas, seis braços, cinco olhos, e desprovidas de boca e de ouvidos. Procriavam-se com o pensamento. Quando uma criatura desejava conceber um descendente, pensava na concepção, e o descendente brotava de um de seus pés e, pouco tempo depois, caminhava, e atingia o tamanho de um indivíduo adulto da sua espécie sem que tivesse ingerido alimento. Possuíam extraordinário vigor intelectual. O planeta que habitavam, mil vezes maior do que a Terra, estava coberto de cidades grandiosas. Quase nada entendi do que eles faziam; os seus gestos e a sua tecnologia estavam longe da minha compreensão.

Daquele planeta rumamos para outro planeta, habitado por estranhas criaturas inteligentes de cultura avançadíssima (não sei se o que vi se passou no tempo presente, isto é, no ano terrestre de mil, novecentos e noventa e sete, ou se a dezenas de milhões de anos no futuro, ou no passado).

Criaturas estranhas e inconcebíveis pela imaginação humana, dotadas de alto grau de conhecimento tecnológico, dominavam alguns fenômenos universais e tinham amplo conhecimento das forças que atuam no universo; construíam naves espaciais que viajavam através do tempo e através do espaço.

A criatura falava-me do que me mostrava, dos planetas, das espécies de criaturas que viviam em cada um deles, das maravilhas que me apresentava – e quase nada me lembro do que ela me disse -, e quase nada entendi, pois, na linguagem humana não há vocábulos para defini-las.

Visitei o planeta da criatura gelatinosa. Era o planeta maior do que a Terra. Presumo, é-me impossível afirmar, que é do tamanho de Júpiter. Centenas de bilhões de criaturas gelatinosas avermelhadas flutuavam no céu do planeta. Entramos em uma construção, na qual havia, instalada, uma máquina de seiscentos metros de altura e que se estendia até o infinito. A criatura disse-me que era uma máquina que criaria um Buraco de Minhoca gigantesco, pelo qual o planeta viajaria através do espaço e através do tempo. Em vão, tentei conceber o que ela me disse.

Durante a viagem, cai, e resvalei meu joelho direito em uma substância segregada por uma criatura. Em meu joelho direito ferido apareceu uma estranha marca, e trago-a comigo, marca que ora emite brilho avermelhado, ora brilho multicolorido, ora abre-se, e em seu interior vejo as galáxias, como se me descortinassem os portões do universo – talvez a existência da marca em meu joelho direito explique porque pude esconder, a partir daquele momento, da criatura gelatinosa os meus pensamentos.

A criatura guiou-me pelo seu planeta, e apresentou-me todos os seus aspectos. Depois de eu haver ganhado, se posso assim dizer, a marca em meu joelho direito, passei, não a entender o que a criatura explicava-me, mas a ver tudo sem a confusão inicial. Se meu consciente não entendia todos os fenômenos dos quais a criatura dava-me explicações minuciosas, meu inconsciente apreendia-os; todavia, não posso explicá-los com a linguagem humana; consigo entendê-los apenas com a linguagem da espécie da criatura gelatinosa flutuante.

As aventuras posteriores foram interessantes, mais interessantes, até, do que as primeiras, pois eu pude, como eu já disse, apreender os fenômenos à medida que eu me familiarizava com a linguagem da criatura gelatinosa. Pude, até, entender o diálogo dela com outros indivíduos da sua espécie. Os humanos do meu tempo estão muito distantes, no que diz respeito à inteligência, daquelas estranhas criaturas; e apenas daqui dezenas de milhares de anos a elas se igualarão, e poderão compreender os mais fantásticos fenômenos do universo.

A criatura não sabia que eu podia entendê-la, e tampouco sabia que eu podia compreender os fenômenos universais que ela e os da sua espécie compreendiam e controlavam. As criaturas gelatinosas falavam de todas as suas tecnologias, fabulosas tecnologias. Controlam forças muito mais poderosas do que as que os humanos controlamos. Forças inconcebíveis para a nossa minúscula capacidade cerebral.

Mal controlo o que escrevo. Descarrego, na minha agenda, todas as palavras que me vem à mente. Mesmo que eu tenha adquirido uma parcela da inteligência das criaturas, eu ainda penso, na Terra, como humano.

Enfim, sem aviso, a criatura gelatinosa encerrou a jornada através do tempo e através do espaço, e devolveu-me à Terra, em uma manhã, ao meu quarto, cuja janela estava fechada, e pelas suas frestas réstias de luz o invadiam, e despediu-se de mim com palavras amigáveis, nas quais não li nem vaidade, nem desejos similares aos dos humanos. Retirei-me do quarto. Em casa, todos dormiam. Não me dei ao trabalho de olhar para um relógio, e verificar as horas. Também não olhei para o calendário na porta do meu guarda-roupa.

Fim do texto extraído do Diário de Daniel

*

Chamo-me Aquiles. Sou irmão do Daniel. O texto acima foi publicado, originalmente, pela Editora E***r** B*a***i. Hoje é o dia 21 de dezembro de 2028, quinta-feira, dez anos após a morte de meu irmão. Este conto fantástico eu o encontrei em meio a vários rascunhos de aventuras fantásticas que meu irmão adorava escrever. Publicado o conto há seis anos, meu irmão recebeu, postumamente, mais de vinte prêmios literários. Vertido para o cinema, o filme conquistou grande público em vários países. Lendo-se o texto tem-se a impressão de que Daniel viveu a aventura narrada no conto, mas ela é, unicamente, fruto da sua poderosa imaginação. Meu irmão fascina-me. Não consigo entendê-lo. Como ele podia tomar como verdadeiras as estórias que brotavam da sua criatividade prodigiosa?

*

Ano: 2097. 03 de março. Domingo. 5:15 da manhã. Meu irmão morreu há trinta e quatro anos, sete meses e oito dias. Infelizmente, a sua incredulidade impediu-o de tomar como verdadeira a história, que ele toma como estória, que extraiu do meu diário. Leu-a – e a todas as outras – apenas como uma aventura fantástica criada pela minha imaginação.

A criatura, se regressasse à Terra para conhecer o que fiz, isto é, o que não fiz, porque para ninguém contei a minha experiência, saberia que os humanos nada sabem da sua passagem pela Terra, e frustrar-se-ia, porque, primeiro, guardei comigo a história da minha aventura durante dez anos, até registrá-la no meu diário; depois, ao vir ao conhecimento do público, por intermédio de meu irmão, transformou-se a história em um sucesso literário, depois cinematográfico – e não é nada mais do que uma aventura de ficção científica como milhões de outras; e atualmente dela ninguém mais se lembra.

O maior prêmio que recebi, que não dividi com ninguém, foi o aparelho que me permite viajar através do tempo e através do espaço, e que controla o fenômeno universal chamado Buraco de Minhoca. Estou fazendo bom uso dele. Furtei-o, sorrateiro, do interior de um aparelho, quando as criaturas gelatinosas, desatentas, conversavam. As criaturas, desprovidas de mãos, não conhecem o talento humano para a prática do furto. Para a minha felicidade, pude ocultar os meus pensamentos da criatura gelatinosa que me guiava através do tempo e através do espaço, talento que desenvolvi durante a viagem, e que decorria da marca que trago comigo em meu joelho direito. De todos a ocultei. Ela me permitiu – depois do meu regresso à Terra – realizar aventuras inimagináveis pelos confins do universo e de outros universos e dialogar com outras criaturas inteligentes, muitas delas mais inteligentes do que os seres humanos. Ela faz parte de meu corpo, como o fazem minha cabeça, meus braços, minhas pernas, e todas as minhas outras partes.

A incrível história do homem que se dissipou

Antenor morreu. Morreu. Sem eufemismo. Eu não disse, e não direi, que ele bateu as botas, abotoou o paletó, partiu desta para a melhor, dorme sete palmas abaixo da terra, conquistou o seu lote no céu, está junto de Deus, não vive mais entre nós. Antenor não vive mais entre nós, é verdade. Mas viveu entre nós. Ele viveu entre nós? Ele viveu? Quem disse que ele viveu? Eu o conheci… Eu o conheci? Quem disse que eu o conheci? Mal me conheço! Desde o tempo de Pitágoras os homens ouvem o conselho: “Conheça-te a ti mesmo.” É a exortação que os sábios mais repetem, e a que, presumo, ninguém, até hoje, conseguiu respeitar. Quem conhece a si mesmo? E exultantes, declaramos que conhecemos outras pessoas. Se uma pessoa mal se conhece, o que dirá de conhecer outra pessoa? Sou presunçoso ao declarar que conheci o Antenor. Mal me conheço! Muitas vezes vejo-me em apuros porque eu disse algo que não devia ter dito e faço coisas das quais arrependo-me. Há alguém que, nesse quesito, distingue-se de mim? Não sou igual a ninguém. Há certos fenômenos que fazem de todas as pessoas uma só. Na morte, todas as pessoas fundem-se umas às outras, principalmente as que se encontram enterradas bem próximas. Para escapar, após a morte, à influência deletéria de outros cadáveres há quem, no testamento, estabelece o material do seu caixão, no qual não entra nem sai um virus, uma bactéria. Os miliardários constróem templos tumulares; e os seus familiares, herdeiros e amigos os cultuam. Isolados dos outros cadáveres, acreditam, os átomos que compõem seus corpos com os deles não se misturarão. Há mais sob o céu e a Terra do que sonha a sua filosofia, que não é vã – há quem diga que é -, escreveu um homem sábio, homem que, muita gente acredita, nunca existiu e é a personificação amalgamada de vários homens, ou a de um filósofo renomado, mais inteligente, até, do que a personagem (Macbeth ou Hamlet? Sempre os confundo) que disse a famosa frase, frase que muita gente diz não ser dele, mas de outra pessoa, pessoa que ninguém conhece. Neste curto trecho citei Pitágoras, Hamlet e Macbeth. Este texto não é um tratado acadêmico repleto de citações e alusões. É um relato dos últimos dias da vida de Antenor, o homem que se dissipou. Incrível é a história dele. Eu quase escrevi que Antenor era incrível. Ele não o era. Incrível foi a história dos seus últimos dias de vida. “Que absurdo é esse?”, “Que homem se dissipou?”, perguntem-me. Ora, acabei de dizer: o Antenor. Testemunhei a sua degeneração. Presenciei a sua dissipação. E é da sua degeneração que trato neste texto em cujo final apresentarei a sua morte. Morte? Ele morreu? Ele viveu? A respeito do Antenor não escreverei um livro de mil páginas, tampouco um de quarenta páginas. Escrevo estas palavras porque desejo expulsar de mim as imagens que me atormentam o espírito. Acredito que ao registrar o que me ocupa a mente, as imagens de tão estranho fenômeno não mais me atormentarão. Como pode um tipo tão insignificante dar título a uma história tão incrível? Não tenho a resposta. Não a desejo. É salutar para mim e para todos os humanos existentes no universo que ninguém a possua. Por que eu a desejaria? Por que alguém a desejaria? A resposta a ninguém traria benefício. Chega de conversa fiada. Vamos à incrível história do Antenor, um homem que não conheci; acredito que ninguém o conheceu, nem mesmo ele, apesar de Pitágoras. O Antenor conhecia a filosofia do Pitágoras, a do Sócrates e a de Shakespeare? Neste país abençoado por Deus, Antenor foi um dos poucos brasileiros que leram alguma coisa deles. Os brasileiros da gema conhecemo-los de ouvido, o que não é a mesma coisa, embora muita gente diga que é. O nosso jeitinho, tão decantado nas músicas populares, que tecem loas aos marginais… Não estou escrevendo um tratado antropológico, pois nada sei de antropologia, tampouco da cultura brasileira. Sou um brasileiro, mas não me identifico com a maioria dos aspectos da cultura pátria, os quais, dizem os intelectuais, compõem a identidade do brasileiro legítimo. Chega de embromação. Vamos ao Antenor. Escreverei, em poucas linhas, a incrível história do Antenor, o homem que se dissipou. Ele se dissipou há duas horas. A morte do Antenor… Um cientista poderia explicar, com palavras exatas, o processo de dissipação do Antenor. Não irei, nem tentarei, desenvolver, aqui, uma explicação de tal processo, que se precipitou na morte do Antenor. Deixarei essa história pra lá. Irei falar do Antenor, do que aconteceu com ele, de como ele era; melhor, de como eu acho que ele era. Direi aquilo que dele acredito ter conhecido durante o nosso curto relacionamento. Não trocamos muitas palavras. Ele falava pouco, quando falava. Era lacônico, e enervava-me. Os loquazes também não se dão a conhecer. A tagarelice deles, penumbra que os envolve, e visualizamos deles unicamente imagens difusas. Antenor não se abria com ninguém e nunca falava da própria vida. Se ele tivesse se aberto comigo, eu o conheceria? Todos que com ele travamos relações, conhecê-lo-íamos se ele falasse mais de si mesmo? Não escreverei o que dele outras pessoas disseram-me – se elas não se conhecem, quanto mais conhecer o Antenor. Se Antenor não se conhecia, e pouco dele conheci… Melhor, dele nada conheci. Não me conheço. Não considero, aqui, o que ouvi a respeito do Antenor; dele trato apenas do que conheci; melhor, do que acredito haver conhecido. Preencherei algumas linhas, que atrairão a atenção de alguém… Esta história é tão estranha, tão incrível, tão absurda… É real… Este relato não é uma história de Poe, nem de Stoker, nem de Shelley, nem de Stevenson. Ela não é minha! É do Antenor. Este relato, para meu desgosto, acumula digressões, e não sai do lugar. Como posso concentrar-me no que escrevo, com tantas imagens desconexas na cabeça? A minha mente está um caco. Tenho de concentrar-me, e tratar do Antenor, e dele apenas, sem citar Pitágoras, Poe, Shakespeare, Stoker, criaturas que não têm relação com a história dele. Por que as evoco? Meu Deus! E o Antenor? Ah! Sim. O Antenor. Antenor… Evoco-o. Invoco-o. Quero expurgar todas estas imagens que me atormentam. Antenor… Conheci o Antenor… Quem disse que eu o conheci? Não o conheci. Ninguém o conheceu. Ele não se conheceu. Como uma pessoa como o Antenor pode se conhecer? Quem se conhece e quem conhece outra pessoa? Não desejo resposta para esta pergunta. Por que eu a quereria? Ela de nada me serviria. Por que temos sede de saber, se do que sabemos fazemos mal uso? Destruímos o nosso mundo; dizem que ele é de Deus. Por que neste mundo ocorrem tragédias? Este mundo está um caos! Um caco! Deus, se Ele realmente existe, não estima Suas criações. Guerras. Terrorismo. Dengue. Febre amarela. Malária. Aids. Quantos flagelos nos infligem sofrimentos sem fim? Vulcões. Enchentes. Avalanches. Genocídios. Epidemias. Quantos flagelos? Rejeito as teorias místicas. Afinal, do que trato aqui? E o Antenor? Ah! O Antenor morreu. Não é da sua morte que desejo escrever; desejo escrever de um processo que se estendeu desde quando não sei e culminou na morte dele – e isso é incontestável. O Antenor morreu. Ele não vive mais entre nós. Suspeito que ele nunca viveu entre nós. Desconfio que ele nunca viveu. Como o Antenor dissipou-se? Tenho de tratar do Antenor? Tenho. Não posso me furtar a fazê-lo. Narrarei a história desde o início. Apresentarei, no relato, o dia em que o conheci; melhor, o dia em que nele esbarrei-me, em algum lugar, nesta cidade, não faz muito tempo. Não me recordo, mesmo que eu puxe pela memória, onde nele esbarrei, e quando. Nele esbarrei, em algum lugar, não sei onde. Sabendo isso, já se sabe muita coisa. O Antenor morreu de modo tão… Como direi? Singular. O que pretendo dizer com isso? Quero eliminar de mim as imagens que me atormentam. Acredito que, se eu as registrar, as esquecerei. Não quero me lembrar mais delas. Nunca mais. Como eu escrevia, esbarrei no Antenor. Esbarrei nele, e de leve. O contato, frio. O que quero dizer com isso? Provavelmente, nada. Estou apenas eliminando de mim o que me incomoda. Pois, não é que esbarrei no Antenor! Ainda não saí disso! Esbarrei no Antenor. Trocamos olhares o Antenor e eu; falamos de qualquer coisa. Do quê? Ora, como saberei? Já se passaram mais de dois anos. Ou mais de três anos? O Antenor pediu-me desculpas. Desculpas pelo quê? Antenor era, assim o interpretei: um sujeito tímido, acanhado, ensimesmado. Essas as impressões que ele me deixou logo de início. Curvado diante das pessoas, sempre a lamentar-se, a recolher-se em si mesmo. Antenor era assim, ou assim pensei que ele fosse. Antenor e eu tomamos conhecimento um do outro. Tomamos conhecimento um do outro? Quem disse tal sandice? Eu? Retiro o que eu disse. Não! Não retiro o que eu disse. Conservo o que eu disse. E o Antenor? Ah! Antenor. O Antenor era único e não era único. Era autêntico e não era autêntico. Confundia-se o tempo todo a respeito de si mesmo e não sabia quem era e ninguém o ajudou a se conhecer. As pessoas não se conhecem cada qual a si mesma. Se elas não se conhecem cada qual a si mesma, como ajudariam Antenor a se conhecer a si mesmo? Elas o impediram de se conhecer. O Antenor não se entendia com seu irmão, um sujeito que sempre ia de encontro a ele. O irmão do Antenor nunca ia ao encontro do Antenor – ia, sempre, de encontro a ele. Eles não se entendiam. Antenor não se entendia com seu pai, sua irmã, sua mãe e seu irmão. Eles o sufocavam. Eles o desprezavam. Antenor sempre recolhia-se, nunca protestava. Assim ele vivia a sua vida. Incomodava as pessoas; as pessoas o incomodavam. Eu fui uma das pessoas incômodas que ele incomodou. Vi como o irmão dele o tratava. “Maricas”, gritava-lhe, em público, e Antenor recolhia-se. Por que Antenor não revidava? Por que ele não protestava? Por que ele se resignava? Antenor era alvo de chacotas, na sua casa, na escola, nas ruas, aqui no escritório. Faziam dele gato sapato. Era um fracassado, na vida, no trabalho, no amor. Todos o desprezavam. Antenor sempre evitava o confronto. Conquanto ciente de que as pessoas tinham a intenção de derrubá-lo, ele não se protegia; deixava-se jogar quando não conseguia esquivar-se a tempo de evitar a colisão. “Ele não fez por mal. Ele não fez por mal”, dizia Antenor, acovardado. Ele recuava, sempre. Nunca protestava. A cada colisão, ia para o chão. E assim ele viveu a sua vida. Ele sempre caía. Aqueles que o jogavam para o chão e nele pisavam eram mais fortes do que ele. “Ele não fez por mal”, desculpava-se Antenor. “Ele não fez por mal”. Encolhia-se. Evitava o confronto. Quando as pessoas que o hostilizavam e por ele nutriam repulsa visceral – e a acídia de Antenor lhas insuflava – fitavam-no com olhos injetados de ódio, Antenor desculpava-se por ter-se deixado agredir. “Não foi de propósito”, defendia-se. Havia pessoas que o hostilizavam. Havia pessoas que, embora estranhando-o, buscavam entendê-lo. E uma dessas pessoas fui eu. Desde que o conheci – melhor: desde que penso tê-lo conhecido -, senti-me atraído pelo seu tipo calado, ensimesmado. Presumo que ele era inteligente, pois a sua aparência era a de uma pessoa inteligente. Ele era dotado de sensibilidade artística incomum – falava de literatura, em especial da italiana, com conhecimento. Ele não ostentava erudição que não possuía. Ele gostava de falar, além de literatura italiana, da pintura renascentista. Seus ídolos: Leonardo da Vinci e Miguelângelo. E que não se falasse dos modernistas para ele. “Os modernistas são vigaristas”, dizia ele. E tampouco dos cubistas. “Os cubistas são embusteiros”, dizia ele. Antenor era lacônico. E sensato, presumo. Não sei se ele ostentava sensatez. Possuía as suas palavras de efeito e as suas frases penetrantes. Gravei algumas delas fundo na memória: “Apenas os estúpidos ostentam sabedoria”, “Apenas os ignorantes ostentam erudição”. Pergunto-me se, ao dizê-las, ele não ostentava sabedoria. Muitas dentre as frases de sábios célebres não foram proferidas por sábios, mas, em algum lugar, por ilustres desconhecidos. Quantas frases ‘de sabedoria profunda’ foram ditas por ignorantes e estúpidos? Muitas frases correntes ditas por estúpidos e insensatos são atribuídas aos sábios; aliás, às pessoas às quais se atribui sabedoria. Não sei porque incluí estes pensamentos aqui. Não é de sabedoria que trato aqui. Aqui trato do Antenor. Antenor era um tipo inteligente e criativo – presumo -, recolhido em si, e dele ninguém se aproximava. Silencioso, persuadia-nos a não nos atrever a puxar conversa com ele, pois, se o fizéssemos, atrapalhá-lo-íamos em suas meditações. Antenor, na maior parte do tempo – presumo – apenas devaneava a respeito de qualquer coisa. Mas aquele olhar! Acreditávamos que ele pensava questões imprescindíveis ao entendimento das coisas deste mundo. Ele meditava? Ele devaneava? É impossível falar de Antenor sem presumir muitas coisas a respeito dele. Ele era dotado de sensibilidade literária e artística, mas não persistiu nos estudos de literatura e de arte (estudou literatura na Universidade *, por um ano, e artes, na Universidade Y, durante três meses). Ele nunca me disse o que o levou a abandonar os estudos. Ele vivia concentrado nos seus pensamentos. Ninguém desejava atrapalhá-lo. Mas ele realmente pensava a respeito de qualquer assunto, ou apenas devaneava? Não sei. Atiçados pela curiosidade, perguntávamo-nos os que acreditávamos conhecer o Antenor no que ele pensava. No escritório, alguns dentre nós o hostilizavam abertamente, e o humilhavam, e nele pisavam, sem pena nem dó. E Antenor não reagia. Ouvi pessoas a exortá-lo a mudar de comportamento. “O que você ganhará com os livros e com a arte?”, interrogavam-no reprovando-o. “O mundo pertence às pessoas de ação. Abandone os livros. Esqueça a Monalisa. Arte e literatura são ocupações de maricas”, e casquinavam. Antenor disse-me, certa vez, que todas as pessoas o desprezavam e que se sentia deslocado em nosso meio. Antenor gostava de pintura e de literatura. Era desastrado para as coisas práticas. Ninguém o respeitava. Quando ele expunha os seus gostos e as suas preferências o fazia sem energia e não as defendia das críticas acerbas que infalivelmente ouvia. Negava-se a apresentar argumentos favoráveis às suas idéias e às suas preferências artísticas; ia ao cúmulo de negar-se a si mesmo, rejeitar as próprias idéias e, para evitar atrito, a concordar com o que lhe diziam. Arrumava muitos pretextos para não se defender e para justificar as violências que sofria. Sempre que eu lhe dizia que ele tinha de se manifestar em sua defesa, erguer o tom de voz, ele desconversava, e justificava a sua prostração. Tenho de reconhecer: Antenor era muito persuasivo ao justificar a sua covardia. Ele recuava, sempre que o agrediam. Escondia-se dentro de si, numa concha impenetrável, e lá ficava, longe do mundo, caricatura patética de O Pensador. Mas ele pensava, ou devaneava? Como as aparências enganam! E eu tinha a impressão de que alguma coisa, nele, ia, com o passar do tempo, desaparecendo. De início, não atentei para o fenômeno, que não me chamou a atenção. Com o passar dos dias, passei a notar o que acontecia. Fiquei horrorizado ao ver Antenor, certo dia. A sua aparência, repulsiva. Ele foi um mistério para todas as pessoas. Antenor era um mistério para Antenor. E ele ficava diferente à medida que transcorriam os dias, as semanas, os meses. “O que está acontecendo com você, Antenor?”, perguntei-lhe, em algumas ocasiões. Ele não sabia ao que eu me referia. E era sincero; não se fazia de desentendido. Se ele não sabia o que lhe acontecia, o que eu poderia saber? Eu ignorava o que acontecia com ele, do mesmo modo que ele ignorava o que acontecia consigo. Transcorreram-se os dias. Transcorreram-se as semanas. Transcorreram-se os meses. Um dia, fitei Antenor, e notei que ele estava menor e faltava-lhe um pedaço do nariz e das orelhas, e os cabelos dele estavam mais curtos. Quanto aos cabelos, ele poderia tê-los cortado. E quanto às orelhas e ao nariz? Cortara-os também? Pareceu-me que ele estava uns dois centímetros mais baixo e uns dez quilos mais leve. E ele exalava um odor indefinível, que nos incomodou a todos nós. O que estava acontecendo com Antenor? Entreolhávamo-nos. Um dia, criei coragem e disse-lhe: “Antenor, o que se passa com você? Ultimamente de você está escapando um odor que nos dá engulhos”. “Explique-me o que você quer dizer”, pediu-me ele. Calei-me. O que eu lhe diria? Tentei desconversar, mas não pude. Ele me olhava com aquele olhar ao mesmo tempo penetrante e vago. Tive de me explicar para ele. Eu não desejava desentender-me com ele. Ele era meu amigo – assim eu o considerava. Não sei se ele me tinha na conta de seu amigo. É verdade: nós mal nos conhecíamos. Mas, e daí? Ele era meu amigo. O que ele pensava de mim eu nunca soube – ele nunca me disse o que pensava de mim, nem de si, nem de ninguém. Ele me ouviu, calado. Acabei com as dúvidas, presumo, que ele tinha a respeito do que eu pensava dele. Não sei se a minha peroração foi elucidativa. Acredito que o tenha sido. Antenor nada me disse depois que a encerrei. O que lhe sucedia? Antenor não sabia o que se passava com ele. Deduzi que ele iria verificar o que eu lhe dissera. Acredito que ele nunca notara o que se passava com ele. As pessoas à volta dele notávamos que ele modificava-se. E hoje ele chegou ao escritório quase sem cabelo! E ele notara a calvície; tentara disfarçá-la. De repente, ele começou a transformar-se à nossa frente. Partículas escapavam-lhe do corpo. Ele berrava. Debatia-se. Nós – quem eram as outras pessoas presentes? – testemunhamos o fenômeno. Antenor dissipava-se. Desfazia-se em partículas. Todos ficamos horrorizados. Foi horrível! Horrível! Que horror! Um homem a dissipar-se! Enfim, ele se dissipou. No chão, os vestígios de Antenor: a cueca, a calça, as meias, a camisa, os sapatos. E nada mais. Permaneci petrificado durante não sei quanto tempo. Até que me vi, aqui, a escrever este relato. E dou-o por encerrado.

Intermundos

Não eram sete horas da manhã daquele domingo ensolarado, quente, de verão, quando João, após uma prolongada noite de sono, acordou, sobressaltado, atormentando-o um pesadelo, animado por uma criatura extraordinariamente horripilante, e cujo teor emergiu-o das profundezas desconhecidas da alma, na superfície tranquila, no fundo agitada, e ergueu-se, sem se retirar de sob o fino lençol que o cobria durante a noite, protegendo-o do assédio de pernilongos irritantes, todos a lhe cantarem aos ouvidos canções que lhe feriam os tímpanos e atormentavam-lhe o espírito não o permitindo conciliar o sono, ao qual sucumbiu devido o cansaço que lhe roubara, no dia anterior, uma parcela significativa de suas energias, e sentado, agitado o coração, arregalados os olhos, nada podendo ver, pois reinava, no quarto, escuridão absoluta, perguntou-se, confuso, se acordara, ou se ainda vivia em um universo onírico, cuja realidade, fantástica, envolvia-o, perturbando-o, e procurou, circunvagando o olhar pela escuridão reinante, à procura de uma explicação aos eventos que em sonho vivera durante ou segundos, ou minutos, ou horas, os quais ele suspeitava reais, mas acreditava fictícios, uma resposta que o norteasse, certo de que encontraria, nas trevas que o envolviam, o monstro que lhe ia no encalço, numa região lúgubre, mas, reconheceu, tinha em torno de si apenas a escuridão, e, superando a linha tênue que separava do sonho a realidade, pôde tomar consciência de que se encontrava, nu, no seu quarto, sobre a cama, sentado, sob um lençol, o coração alvoroçado em decorrência do terror que o assaltara durante o sono, e refeito do susto, o qual lho inspirou um ser fantástico, organizou os seus pensamentos, e, recuperando o governo de seu corpo, controlou os batimentos de seu coração, retirou-se de sob o lençol, e andou, passos firmes, até o interruptor, localizado à direita da porta, premiu-o, e dominou o quarto a luz proveniente da única lâmpada que lá havia, no teto, enceguecendo-o a ele, João, que, então habituado à escuridão que no quarto reinava, levou, de imediato, a mão esquerda aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras, e assim que as descerrou, os olhos ainda sob a sombra projetada pela mão, e à luz se acostumando, viu, diante de si, uma criatura extraordinariamente horripilante, que abriu a bocarra, engoliu-o antes de ele atirar o grito que o terror lhe inspirara, e premiu o interruptor… e as trevas reconquistaram o seu reino.

Demônios

Abel premiu o gatilho do revólver. O projétil riscou o ar e alvejou um demônio enorme, alojando-se-lhe entre os dois olhos, um pouco acima do focinho. O demônio, cujas cerdas grossas cobriam-lhe o corpo volumoso, nenhum gemido emitiu. Tiro certeiro. Morte instantânea. Do buraco aberto pelo projétil escorreu sangue em profusão. O corpo sem vida tombou no piso do corredor do oitavo andar do prédio no qual Abel morava com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos, Cláudio e Gustavo.
– Enfim, morto – balbuciou Abel, respirando com dificuldade, acocorado ao lado do corpo gigantesco. – Você nunca mais me assustará, demônio dos infernos – e bateu-lhe, na cabeça, o revólver; embora recomposto, seu peito ardia, febricitado, e seu cérebro fervilhava, num turbilhão indomável de pensamentos e sentimentos.
Recuperou o governo de si, levantou-se, e olhou ao redor. Pisou, involuntariamente, na poça de sangue. Onde estavam os outros três demônios? Nenhum ruído chegou-lhe aos ouvidos. Os demônios, ou se invisibilizaram, ou ocultaram-se nas sombras. Com o revólver em punho, Abel arrastou-se à parede salpicada de sangue, andou pelo corredor, braço esquerdo retesado, o dedo indicador no gatilho, revólver apontado para a frente, olhos arregalados, braços firmes, à procura dos outros demônios.
– Não me escaparão – disse para si, encorajando-se.
Chegou ao fim do corredor. Ouviu ruídos atrás de si. Voltou-se, rapidamente. Divisou a silhueta indistinta de um demônio acocorado ao lado do cadáver do que matara.
– Pare! – gritou Abel, assustado, com o revólver apontado para o demônio, que, ao voltar-se para ele, emitiu um grunhido cavernoso, mais de tristeza que de fúria, misto de sofrimento e ira.
O demônio pôs-se de pé, e arreganhou a bocarra. Exibiu dentes afiadíssimos, e urrou, ameaçador, os olhos abrasados de cólera.
Arrepiaram-se os cabelos de Abel. Crisparam-se-lhe os pêlos.
Abel, petrificado, apontava, com as mãos trêmulas, o revólver para o demônio, que correu em sua direção, urrando de fúria.
Abel premiu o gatilho.
Reboou o disparo. O projétil alvejou o demônio no peito esquerdo, na altura do coração. O demônio tombou, arrastou-se, sob convulsões espasmódicas. Guinchava, estridente, frenético. Sangue ensopou-lhe a pelagem. Cessaram as convulsões. Abel conservou-se, o revólver apontado para o demônio, onde estava. Ao averiguar que os movimentos do demônio cessaram – ele estava morto, persuadiu-se Abel -, andou, cauteloso, até ele, os ouvidos e os olhos apurados, pronto para reagir a ataque de outro demônio. Curvou-se diante do corpo inerte. Para averiguar se ele estava morto, encostou-lhe no peito o cano do revólver. O demônio descerrou as pálpebras. Abel prorrompeu em maldições. Ergueu-se. Encarou o demônio. Apontou-lhe o revólver à cabeça.
Encontraram-se os olhos do demônio e os de Abel. O demônio cuspia sangue e berrava de dor. Os olhos de Abel irradiavam ódio.
Com a arma apontada para a cabeça do demônio e a fisionomia deformada pelo ódio que lhe corroia o espírito, Abel esbravejou:
– Demônio dos infernos! Volte para o inferno, demônio maldito!
O demônio esboçou um gesto, entreabriu os lábios, estendeu o braço e a mão direitas, emitiu um grunhido inaudível. Abel premiu o gatilho. Um projétil cravou-se na testa do demônio, que morreu, instantaneamente.
No mesmo instante, Abel divisou um demônio, que corria em sua direção, apontou-lhe o revólver para o peito esquerdo, e premiu o gatilho. O demônio esquivou-se, com agilidade insuspeita, do projétil, que se lhe resvalou o ombro esquerdo. Levou a mão direita ao ferimento, e deteve-se; e voltou a palma da mão para si, e viu-a manchada de sangue. Olhou para Abel, que lhe apontava o revólver; antes que ele premisse, mais uma vez, o gatilho, correu em disparada. Abel pulou por sobre os cadáveres dos demônios que jaziam na poça de sangue, e correu atrás dele. Seguiu o rastro de sangue, até a segunda porta à direita de cujo enquadramento deteve-se um pouco antes. Cauteloso, encostado à parede, olhou para a sala, para os móveis. Passou, cauteloso, pelo enquadramento da porta. Ouviu barulho atrás de si, vindo do corredor. Voltou-se, e deparou-se com um demônio. Arregalou os olhos, rilhou os dentes. O demônio, antecipando-se-lhe, vibrou o braço esquerdo, e desferiu-lhe um soco, na cabeça, arremessando-o para trás. Abel caiu, o nariz a sangrar. Apossou-se-lhe do espírito terror-pânico. Sentiu a consciência a se lhe desvanecer. Levou a mão esquerda ao nariz, e cobriu-o. Gemia de dor. Cuspiu sangue. O demônio aproximou-se de Abel, deu-lhe um pontapé na ilharga, pulou sobre ele, e fincou-lhe, no pescoço, as garras afiadas. Esvanecia-se a consciência de Abel. Com a visão embaciada, Abel viu diante de si um vulto indistinto. A sua audição falhava. Captava sons, distorcia-os, fundia-os, contraía-os, dilatava-os. Contraiu-se-lhe de dor o rosto. O demônio abriu a bocarra; exibiu seus dentes enormes, afiados. Exalava hálito nauseante. Seus olhos, injetados de cólera, penetraram a alma de Abel, sugando-lhe as escassas energias que lhe restavam. Abel, num esforço hercúleo, encostou, na têmpora esquerda do demônio, o cano do revólver, no mesmo instante em que ele lhe acertou, na face, um potente soco, roubando-lhe a consciência, e premiu o gatilho. O projétil atravessou a cabeça do demônio, e foi alojar-se na parede. O demônio tombou para a direita, morto.
Com as mãos no pescoço, tossindo, convulsivamente, Abel recuperava as cores naturais do rosto deformado por dores aflitivas. Restava, agora, um demônio. Quatro demônios haviam se instalado no oitavo andar. Abel despachou três deles para as entranhas do inferno. O remanescente, ferido, não lhe imporia dificuldades, previa. Não se desacautelou, todavia. Sabia que enfrentava uma criatura demoníaca, que poderia matá-lo com seu hálito venenoso e suas unhas e dentes afiados.
Descerrou as pálpebras. Olhou para o demônio caído ao lado. Ondas de calafrio percorreu-lhe a espinha.
Levantou-se com dificuldade visível. Massageou a ilharga. Removeu, com as costas das mãos, o sangue do nariz. Mordeu o lábio inferior, para conter os gemidos decorrentes da dor que o afligia. Sentia dores na perna esquerda. Amparou-se na parede. Tateando-a, foi na direção para a qual o demônio correra, ferido. Seguiu o rastro de sangue, pela sala, entre os móveis, até uma porta cujos maçaneta e batente estavam manchados de sangue. Cauteloso, apurou os ouvidos. Moveu, lentamente, a maçaneta. Abriu a porta, cuidadosamente. Na mão direita, o indispensável revólver, que, em menos de cinco minutos, aniquilou três demônios. Naquele compartimento reinava a escuridão. Abel mal podia ver o que havia diante de si. Via os objetos que estavam até a dois metros à sua frente; além disso, distinguia os contornos de alguns móveis; os outros estavam ocultos sob espessa penumbra e as trevas predominantes. Ao enquadramento da porta, preparado para atacar, ou para revidar a um ataque, premiu o interruptor. Acenderam-se as duas lâmpadas fluorescentes.
O tapete estava salpicado de sangue.
Abel abriu um sorriso tímido e contido.
Empunhava o revólver com mãos firmes e músculos retesados. Apurou os ouvidos. Enveredou pela sala, pé ante pé, seguindo o rastro de sangue no tapete.
Ouviu ruídos inaudíveis, de passos, indo, até ele, do compartimento contíguo, para o qual o rastro de sangue o conduzia. Cuidadoso, passos medidos, curtos, chegou ao enquadramento da porta, e relanceou os olhos pela sala. Nada viu. Ouviu ruídos. Recuou. Assim que cessaram os ruídos, olhou para a sala. Divisou, levantando-se, três metros à sua frente, de costas para si, o demônio, que se virou ao pressentir Abel, que premiu o gatilho quatro vezes. Um projétil alvejou o demônio, no peito esquerdo; um cravou-se-lhe na testa; um, no pescoço, e um no nariz. O demônio tombou pesadamente, morto.
Encostado à parede, ofegando, com o coração descompassado, os olhos esbugalhados, os braços estendidos, as mãos com os dedos retesados segurando o revólver fumegante, Abel fitava o cadáver repulsivo.
– Vá para os infernos, demônio – bradou, triunfante.
Abel abaixou a cabeça, e encostou o queixo no peito. Cerrou as pálpebras, largou os braços; segurava o revólver com a mão esquerda. Levou a mão direita aos olhos, e massageou-os com o polegar e o índice. Encheu os pulmões de ar, e esvaziou-os. Descerrou as pálpebras, fitou o cadáver do demônio. Regozijou-se. Triunfou. Matou quatro demônios. Era um vitorioso.
Enfim, após verificar que o demônio estava morto, retirou-se do apartamento. Qual foi a sua surpresa ao deparar-se com demônios que, à espreita, no enquadramento da porta de outros apartamentos, berravam, ameaçadores. Abel regressou ao apartamento. Ouviu passos, que lhe chegaram do compartimento no qual matou o último dos quatro demônios. O demônio ressuscitara? Os quatro demônios haviam ressuscitado? Um demônio apareceu ao enquadramento da porta. Abel premiu o gatilho. O projétil alojou-se na parede, atrás do demônio, que, com um salto, foi para trás de um sofá. Abel premiu o gatilho três vezes. Na terceira vez, ouviu um estalo. Acabaram-se os projéteis. Agora teria Abel de enfrentar os demônios em lutas corpo-a-corpo. O demônio que pulara para trás do sofá levantou-se e avançou contra Abel, que, petrificado, viu-o indo em sua direção. Outros quatro demônios entraram pela porta que dava ao corredor, e correram na direção de Abel. Eram altos, fortes, maiores do que os quatro que Abel matara. Eles o agarraram, imobilizaram-no, arremessaram-no ao chão, puseram-no deitado de barriga para baixo, e torceram-lhe os braços às costas.
Um demônio, com o joelho esquerdo prensando Abel no chão, rosnava e rilhava os dentes. Outro, apertava-lhe, com um pé, o pescoço. E um demônio sentenciou:
– Abel, você está preso pelos assassinatos de seu pai, sua mãe e seus irmãos.

A rua do terror

Noite alta. Não havia viv’alma naquela rua mal iluminada, deserta. Júlio vagava, devaneava. Ao dar-se conta de onde estava, ficou apavorado. Seu coração bateu descompassado. Ouvia as palpitações, tão intensas, que ele acreditava que o coração romper-lhe-ia o tórax. Olhou em redor. Que rua era aquela, perguntou-se. Obnubilou-se-lhe a consciência. Como ele foi parar naquela rua? Lembrava-se de que caminhava, tranquilamente, por uma avenida atulhada de gente, vibrante de vida, e agora via-se naquela rua lúgubre, apavorante.

Sem se dar conta, enveredara por aquela rua, que lhe inspirou o mais terrível pavor. Uma rua que, devido ao seu aspecto sinistro, excitou-lhe os instintos que a natureza conservou ao longo de milhares de anos de evolução. Humano numa sociedade científica, conservava, latente, os instintos dos seus antepassados nômades.

Que rua era aquela? Nos postes, as lâmpadas bruxuleavam. Cones de luz fraca mal iluminavam os pés dos postes. Além dessa luz, as trevas reinavam absolutas. O silêncio, ensurdecedor. Era impossível – pensou Júlio – a existência, numa metrópole de vinte milhões de habitantes, de uma rua tão extensa e tão larga deserta àquela hora da noite. De repente, ventos frios fenderam o ar; iguais lâminas, cortaram-lhe a pele; e assobios tenebrosos chegaram-lhe aos ouvidos. Júlio pensou ouvir vozes cavernosas. Assustado, procurou pela direção da qual chegaram-lhe os ventos e os assobios. Ouviu ruídos indistintos. Aceleraram-se-lhe as palpitações do coração. Seus nervos estavam à flor da pele.

Surpreendendo-o, chegou-lhe, pelas costas, um barulho, que lhe feriu os tímpanos. Seus instintos o alertaram para o perigo que se lhe avizinhava, mas não o definiram, não lhe informaram a origem. O mistério que envolvia fenômenos tão estranhos assustou-o sobremaneira. Júlio não sabia o que pensar; não sabia como agir. Petrificou-se. Que rumo tomaria? Olhou para um lado. Não viu, no horizonte, o final da rua. Olhou para o outro lado. Qual a extensão da rua? Dois quilômetros? Dez quilômetros? Não logrou mensurar-lhe a extensão. Não viu nenhuma interseção daquela rua com outras ruas. A rua era demasiadamente extensa; não tinham fim as quadras que a circunscreviam.

Como, pensava Júlio, chegara àquela rua? De qual direção chegara? E agora, o que faria? Ficaria, lá, parado, a olhar de um lado para o outro? Ladeavam a rua extensos muros de sete metros de altura. E os prédios, e as lanchonetes, e os bares, e as agências bancárias, e as discotecas, e os teatros, e as livrarias, e as farmácias, e as bancas de jornais, e as pizzarias, e as doçarias, e as padarias, e as joalherias, e os consultórios médicos, e as lotéricas?

Transcorreram minutos. O coração de Júlio vibrava, descompassado. Júlio mal podia respirar. Suava em demasia. Sentiu esvanecer-se-lhe a mente. Esmorecia-lhe o ânimo. Imobilizado, não dava um passo. Seus pés, pareceu-lhe, enraizaram-se no asfalto.

Chegou-lhe aos ouvidos, não soube dizer de qual direção, ruído sinistro, tenebroso.

Voltou-se para a direção da qual acreditava que o ruído lhe chegara.

Arregalou os olhos. Aguçou os ouvidos. Viu trevas no horizonte e além dos muros.

Estava amedrontado, terrivelmente assustado. Suas pernas não respondiam à sua vontade. Dava-lhes ordens, em pensamento: “Mexam-se, pernas. Mexam-se, pernas”. Elas não se mexiam. O medo fê-las insubordinadas. Se o medo que afligia Júlio se exacerbasse, e Júlio se prostrasse, as pernas correriam, e abandonariam Júlio, lá, naquela rua tétrica. O tempo passava. Júlio imergia num estado letárgico, transido de medo. Seu corpo assumia a constituição de uma rocha inquebrável. Júlio a anteviu a sua morte. Veio-lhe à mente a imagem de seu coração pulsando nas mãos de uma criatura monstruosa. De sobreaviso, sentiu a aproximação de perigo. Uma ameaça rondava-o, sentia. Atormentava-o tal situação.

Olhou em redor.

As luzes bruxuleantes das lâmpadas.

Os muros.

Pareceu-lhe que a rua estreitava-se; que os muros encontravam-se no horizonte, e cercavam-no.

Silêncio. Nenhum ruído tétrico. Nenhum assobio sinistro.

Assustado, olhou em redor.

A rua, os muros, os postes cujas lâmpadas bruxuleavam.

Nenhuma alma viva. Nem a de um rato, nem a de um cachorro vadio, nem a de um mendigo esfarrapado, nem a de um bêbado maltrapilho, nem a de um transeunte desempregado.

Intrigante! Não há, nas metrópoles, uma rua deserta. Júlio não pôde dizer para si que não estava em uma rua deserta.

Que mistério era esse?

Que enigma Júlio teria de decifrar?

Júlio deu um passo, olhou em redor, coração aos pulos. Deteve-se. Estudou, os ouvidos apurados, os olhos penetrantes, o trecho da rua que seus olhos abrangiam. Ouviu apenas a sua respiração ofegante e as palpitações de seu coração.

Deu um passo. Nenhum ruído ouviu, e nenhuma voz.

Deu um passo.

O intervalo de tempo entre o terceiro e o quarto passos foi consideravelmente menor do que o intervalo entre o segundo e o terceiro e o entre o primeiro e o segundo. Esquadrinhou a rua à procura de uma criatura à espreita. Manteve-se afastado dos muros. Uma aparição sobrenatural, um fantasma, um monstro de sete cabeças, um animal feroz, uma pessoa feroz, um inumano, um homicida frio e calculista, imaginou Júlio, saltaria, não sabia de onde, sobre ele, e o mataria, faria picadinho dele, e o devoraria.

Deu passos, confiante e inseguro.

Deteve-se ao ouvir ruídos sinistros. Sussurros. Vozes humanas, pensou. De várias pessoas. O que havia lá? O que acontecia? De onde lhe chegaram os sussurros? Eram vozes humanas? Paralisado, seus olhos fixaram-se num ponto à sua frente. Viu o vazio. A tensão acelerou-lhe os batimentos cardíacos. Os sussurros chegaram-lhe aos ouvidos, não sabia de qual direção. Pareceu-lhe que se originavam de detrás do muro. De qual? Do da direita, ou do da esquerda?

Não sabia que direção tomar. E se desse um passo, e as pessoas – pessoas? – o atacassem? Para onde correria? O que havia atrás do muro à sua direita? O que havia atrás do muro à sua esquerda? O que havia nos bueiros? Os bueiros! – nesse momento Júlio atentou para os bueiros. Os bueiros! Havia um bueiro diante dele, silencioso, escuro, tétrico. Do bueiro saíam os sussurros que ouvira? Vivia gente no subterrâneo da metrópole? Humanos? Inumanos? Entes sobrenaturais? Fantasmas? Monstros? Entes malignos? Quais criaturas sondavam-no? Seguiam-lhe os passos? Preparavam-lhe um ataque? Os ruídos – sussurros, vozes humanas, acreditava Júlio – desapareceram.

Silêncio tétrico reinou.

Viu-se às portas da morte, na iminência de se deparar com o agente que lhe suprimiria a vida. Vieram-lhe reminiscências de épocas felizes. Relembrou as suas conquistas, os desafios que enfrentou, estudante, no vestibular, a sua classificação, os primeiros dias de aula na faculdade de engenharia eletrônica. Evocou a sua namorada, Beatriz, belíssima loira de um metro e sessenta. Romperam o namoro quando ela se transferiu, com o pai, a mãe e a irmã, para Belo Horizonte. Tinham dezenove anos. Foi a sua primeira experiência amorosa; a sua primeira desilusão. Pensava casar com ela, e com ela constituir uma família. Amava-a. Trocaram juras de amor eterno durante um ano, por telefone e cartas. A distância física, no entanto, afastou-os. Beatriz conheceu outro rapaz, com quem namorou. Júlio conheceu Alice, apaixonou-se por ela, e eles namoraram durante três meses – a incompatibilidade de gênios fê-los romperem o namoro. No terceiro ano na faculdade, estagiário em uma empresa de informática, Júlio conheceu Margharete. Namoraram durante dois anos. O namoro, que havia começado com juras de amor eterno, degenerou em brigas intensas, até que, enfim, decidiram seguir cada um deles o seu rumo. Evocou as desavenças com seus irmãos, seu pai e sua mãe, e os desentendimentos com alguns dos seus amigos, e os dois anos que se manteve distante de sua família, após brigar com seu pai. Evocou a sua vida vadia de três anos, perdido, nos prostíbulos, nos botecos, embriagado, caindo pelas ruas escuras da cidade, e o dia em que jovens vadios o agrediram. Assomaram-lhe à mente, numa golfada avassaladora, reminiscências do dia em que foi hospitalizado por consumo excessivo de maconha e o da sua prisão. Recapitulou o seu regresso à família, os sucessivos desentendimentos com seu pai, sua mãe e seus irmãos. Irromperam-lhe à mente imagens do seu retorno aos estudos, da sua reconciliação com seus familiares e amigos, do seu novo emprego, do sucesso obtido, da fortuna amealhada, das novas amizades. Assomaram-lhe à mente a figura de Marco Antonio, filho seu e de Fátima, garoto bonito, saudável, vistoso, que, duas semanas antes, completara um ano de vida.

Olhou em torno. Fixou a sua atenção no bueiro à sua frente. Dos bueiros saíram os ruídos, os sussurros?

Deu um passo. Deu outro passo. Deteve-se. Deu um passo. Manteve-se no meio da rua. Andou três metros. No horizonte encontravam-se os dois muros. Assustou-a ilusão.

Olhou em redor.

Andou, lentamente, poucos metros. Fixou o olhar nos bueiros pelos quais passou. Deteve-se. Olhou para a frente; não viu o fim da rua, não viu o fim dos muros.

Reinava a escuridão.

Pensou em correr. Deu dois passos. Deteve-se. Olhou para a frente. A rua não tinha fim. Andou. Quantos metros? Decidiu correr. Deteve-se. Mais uma vez, tentou correr. Deu alguns passos, largos, sempre na mesma direção. Não imprimiu velocidade. Com esforço, percorreu vários metros. Aos poucos, adquiriu confiança. Não ouvia nem um som, nem um ruído, nem uma voz. Acelerou os passos. Não suava, não respirava com dificuldade, não se sentia estrangulado, nem afobado, nem sufocado. Comandava seu corpo. Andou, com passos lentos; depois, com passos acelerados.

Correu um metro… Correu dez metros… Correu vinte metros… Cem metros… Duzentos metros… Quinhentos metros… Mil metros.

Os muros não tinham fim. Não chegou ao fim da rua. Ficou tenso, apavorado. Expandiam-se os muros. Não via o fim da rua e dos muros. Seu coração pulsou mais forte. Sentiu-se estrangulado, sufocado. Afligiam-no fortes dores de cabeça. Doíam-lhe músculos. Deteve-se. Sentiu-se desfalecer. Exausto, ofegante, curvou-se, com a mão direita ao peito esquerdo. Encolheu-se. Dobrou os joelhos. Pôs a mão esquerda no asfalto. Cuspiu. Tossiu repetidas vezes. Arrastou-se. Cerrou as pálpebras. Deitou sobre o lado esquerdo do corpo. Não tinha forças para se levantar, nem para levantar a cabeça, pousada sobre o braço esquerdo. Encolheu as pernas. Anteviu a sua morte. Tremia da ponta dos dedos dos pés até o topo da cabeça. Doía-lhe o corpo.

Adormeceu.

Despertou.

Aos seus olhos revelou-se a rua sinistra. Confuso e cansado, perguntou-se o que lhe aconteceu. Permaneceu deitado. Cerrou as pálpebras. Respirou fundo. Ouviu um grito estridente de mulher terrivelmente assustada. Deu um pulo, e preparou-se para defender-se de um ataque iminente. De qual direção chegara-lhe o grito? Olhou em redor. Pensou ter visto um vulto. Do bueiro saía uma criatura rastejante, disforme. Não lhe deu uma feição. Seu coração vibrou, descompassado. Recuou, tenso, assustado. Que coisa era aquela mancha escura disforme terrivelmente assustadora que assumiu a figura de uma criatura encapuzada, arrastava as bordas das vestes no asfalto, emitia voz sinistra, e cujos pés não se viam, e ia na direção de Júlio, que, assustado, o coração a vibrar descompassado, andava para trás, olhos fixos nela? Júlio ofegava, suava em bicas, chorava; corrente de calafrio percorreu-lhe a espinha. Eriçaram-se-lhe os pêlos. Virou-se nos calcanhares. Correu, desembestado. Tropeçou nas pernas. Caiu. Escalavrou o joelho e o cotovelo esquerdos. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, e bateu com o queixo no asfalto. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, dobrou-se sobre o seu corpo, esfolou o braço direito e torceu o pulso direito. Levantou-se. Correu. Sentiu a respiração da criatura encapuzada, que ia no seu encalço. Caiu. Agarraram-no, pelos tornozelos, mãos de unhas enormes e grossas. Gritou. Sangue escorreu-lhe dos tornozelos. Afligiram-no dores pungentes. A criatura encapuzada arrastou-o para um bueiro, cuja tampa Júlio agarrou. Outra criatura encapuzada saiu de um bueiro, do outro lado da rua, foi até Júlio, e pisou-lhe nas mãos. Júlio soltou a tampa do bueiro, e caiu às profundezas.

De um bueiro, um homem foi arremessado para a rua: Júlio. Ele estava cadavérico, e mal pôde pôr-se de pé, mal pôde abrir os olhos. Ao dar-se conta de onde estava, viu-se à esquina de um cruzamento de duas avenidas iluminadas repletas de gente. Voltou-se para trás. Atrás de si, um muro de quatro metros de altura. Voltou-se para a avenida iluminada. Andou, cambaleando, em meio à multidão alvoroçada. Ombros caídos, braços pendendo pelas laterais do corpo, respirando com dificuldade, foi para a sua casa.

Obsessão

07 de janeiro de 2…. Uma linda moça, a morena cuja formosura encantou-me. Sua pele é de um tom claro que brilha à luz do sol. Seus lábios vermelhos, realçados pelo batom, e seu nariz, seus olhos, seu queixo, suas sobrancelhas e suas maçãs do rosto compõem um conjunto perfeito. Se Fídias a admirasse, esculpiria a mais bela de todas as estátuas. Infelizmente, nem ele, nem Michelângelo, a conheceram. Vênus Calipígia! Seus cabelos pretos brilham ao sol, deslizam-lhe pelas costas, espraiam-se-lhe pelos ombros. Seu busto, esplendoroso! Suas pernas, sublimes! Seu andar, suave. Ela caminhava sobre as nuvens. Trajava um longo vestido vermelho decotado, que lhe modelava o corpo bem feito. Dela não tirei os olhos até ela entrar em um carro de vidros escuros. Fugiram-me as palavras. Encantado com tão linda moça…

08 de janeiro. Pensando na linda moça que ontem me encantou, dormi. Sonhei com ela. No sonho, ela, vergando vestes diáfanas, passeava por um jardim edênico. Seu corpo esplendoroso brilhava, cegando-me, sempre que dela eu me aproximava. Na mesma hora em que, ontem, passei pela rua *, passei hoje. O meu propósito: cruzar o caminho da linda moça de vestido vermelho. Andei vagarosamente. Olhei, atentamente, de um lado para o outro, na esperança de vislumbrar a Vênus rediviva. Não a encontrei, para meu desgosto. Mas a encontrarei, se não hoje, amanhã, ou depois. Aquela moça celestial cuja beleza esplêndida transfigurou-se, aos meus olhos, num espectro divino… Olhei de um lado para o outro. Não encontrei a linda moça. Contrariado, exausto, regressei à minha casa, três horas depois. Ao me olhar ao espelho, deparei-me com um rosto irreconhecível, disforme, repulsivo.

09 de janeiro. Não consigo tirar de minha cabeça a imagem da linda moça de vestido vermelho. Pelo meu corpo correu indescritível sensação de prazer, à noite. Raras vezes senti tão prazerosa sensação! Na cama, virei-me de um lado para o outro. Acordado, imaginei fantasias lúbricas, concebi sensacionais aventuras amorosas com a linda moça cujo nome desconheço e cuja beleza fascinou-me.

15 de janeiro. Ao acordar, hoje de manhã, banhei-me, e fui à cozinha. Na prateleira, não havia pães; na geladeira, não havia leite. Peguei da carteira, a abri, vi que nela havia dinheiro, e fui ao supermercado. Não eram dez horas quando lá cheguei. Fazia muito calor. Para a minha felicidade, não havia muitas pessoas no supermercado. Ao passar por entre as estantes do setor com produtos de limpeza, vi, de relance, para minha surpresa e alegria, a linda moça, que, com uma cestinha pendurada à junta do cotovelo, olhava para os frascos de detergente. Meu coração vibrou, acelerado. Arregalei os olhos. Mordi o lábio inferior. Lambi o lábio superior. Fitei a linda moça. Estudei-lhe o porte. Embevecido, alumbrado, admirei-a, fascinado com tão deslumbrante beleza. Andei por aquele corredor, na direção da moça que há dias eu procurava. Ela trajava uma saia azul marinho translúcida, que lhe modelava as coxas e as nádegas estonteantes, e uma camisa branca decotada. Seus olhos, azuis; suas sobrancelhas, finas, acastanhadas, arqueadas; seus cílios, compridos; seus lábios, carnudos, escarlates; seus cabelos, compridíssimos, pretíssimos, volumosos, penteados para trás, emolduravam-lhe o rosto de traços perfeitos. Detive-me três metros à sua esquerda. Puxei da prateleira uma caixa de sabão em pó, cuja data de validade fingi procurar e cujo preço fingi avaliar. Devolvi a caixa de sabão em pó ao seu lugar de origem, e dei ou dois, ou três, passos na direção da linda moça. Eu dela distava uns dois metros quando ela se curvou para a frente, de frente para mim, exibiu-me o tesouro fabuloso que entrevi no decote, e, com a sedosa mão esquerda de dedos melindrosos adornados de unhas compridas de esmalte violeta, puxou os cabelos, que lhe haviam caído ao rosto, para trás, e acocorou-se. Meu coração vibrou, acelerado. Meu corpo pulsou de desejo. A linda moça, ignorando-me, puxou da prateleira um frasco de água sanitária, devolveu-o à prateleira, pouco depois, e retirou outro frasco de água sanitária o qual restituiu ao local de origem, e pousou a cestinha no chão, e de dentro da cestinha retirou uma tiara transparente, e ajeitou-a na cabeça, com a mão direita, enquanto ajeitava, com a mão esquerda, os cabelos para trás. Ato contínuo, ajeitou a saia, passando, suavemente, as mãos por ela, olhou para a prateleira, enquanto puxava, com a mão direita para cima, a alça direita da camisa, que lhe escorrera do ombro. Ela segurou as alças da cestinha, e ergueu-se. Desviei dela o olhar. Dois homens passaram pelo corredor, conversando; ao verem a linda moça, cessaram a conversa, e fitaram-na, maravilhados; passaram por ela, e voltaram-se para trás, e fitaram-na, devorando-a com os olhos. Enciumado, pensei em esmurrá-los. Que direito têm eles de olhar para moça tão linda, tão pura? Eles a enodoavam, ao admirá-la. Rilhei os dentes. Sujeitos atrevidos! Eles se afastaram, e retiraram-se daquele corredor, para sorte deles.

A linda moça, que ignorou os dois sujeitos repulsivos, andou até os frascos de sabão líquido. Andei na sua direção. Fingi interesse por detergentes, numa prateleira de um lado do corredor; ela, no outro lado do corredor, de costas para mim, distando de mim um pouco mais de um metro, curvou-se, e eu, involuntariamente, sem pensar no que fazia, agachei-me; acocorado, tirei da prateleira um frasco – do que, não sei – enquanto eu olhava, a ponto de perder a consciência, para a linda moça, cujas coxas eram estonteantes, e pude ver-lhe a parte inferior das nádegas. Senti-me desfalecer. O tempo parou. Suspendi a respiração. Eu iria me beliscar, para me despertar daquela realidade onírica. Era como se eu participasse de um conto de fadas, e interpretasse o papel do ogro, do monstro das profundezas do oceano, dos subterrâneos das montanhas, um habitante dos reinos infernais, à espreita, para me lançar sobre as fadas, as princesas, as dríades, as hamadríades, e a linda moça interpretasse a inocente, ingênua, bela, celestial, indefesa vítima dos meus caprichos hediondos, dos meus desejos lúbricos animalescos; ela era a princesa, que, expulsa, pela madrasta sórdida, repulsiva, de um castelo suntuoso, perambulava pela lúgubre floresta habitada por criaturas demoníacas, monstros asquerosos e ciclopes antropófagos. Contive-me. Não me lancei sobre a linda moça. Minha mente, entorpecida, inebriada, eliminou de meu cérebro a faculdade de pensar. Meu corpo não atendia aos meus desejos. Meus braços e mãos, minhas pernas e pés não me obedeciam.

Embora eu tenha admirado a beleza exuberante da linda moça durante uma fração de segundo, a sua imagem perpetuar-se-á, na minha mente, no meu espírito, na minha alma, pela eternidade. Ao pôr na cestinha um frasco de sabão líquido, ela se recompôs, e, de costas para mim, andou até o final do corredor. Despertei, quando ela, ao desaparecer atrás da prateleira, retirou-se do meu campo de visão.

Restitui à prateleira o frasco; levantei-me; passos acelerados, andei até o fim do corredor, receando perder de visa a linda moça. Eu a entrevi, de cabeça abaixada, no setor de doces, bolachas, chocolates, balas e chicletes, atrás de uma gorda desgraciosa que empurrava um carrinho-de-compras cheio de frascos, caixas e pacotes dos mais variados produtos. Desacelerei os passos. A linda moça andou por quatro setores – o de bebidas, o de produtos dietéticos, o de perfumaria e o de artigos para animais. Eu a segui, dela conservando distância de cinco metros.

Enfim, ela se dirigiu ao caixa. Acelerei os passos. Fui ao refrigerador, e peguei um litro de leite. Voltei-me. Olhei para o caixa. Na fila estava a linda moça. Ato contínuo, fui ao balcão da padaria, e pedi quatro pães à moça que me atendeu. No desejo de não perder de vista a linda moça, eu olhava, a cada dois segundos, para a fila na qual ela estava. Tão logo recebi o pacote com quatro pães, virei-me, e andei, a passos acelerados, até a fila na qual estava a linda moça. Duas mulheres, mãe e filha, entraram na fila, à minha frente. Pouco depois, a filha disse à mãe que haviam se esquecido de comprar açúcar e trigo, e ambas retiraram-se da fila. E me vi atrás da linda moça, inebriado com a fragrância sedutora que ela recendia e com a exuberância do seu talhe. O pacote com os quatro pães se me escapou das mãos. Agachei-me para pegá-lo, e olhei para as pernas esplendorosas da linda moça. Um homem fitou-me, e olhou para ela. Senti meu rosto ferver.

Uma lâmpada vermelha acendeu-se próximo da moça do caixa, e ouviu-se um apito estridente. A linda moça andou até a caixa, e ficou de frente para mim. Admirei-lhe, fascinado, o busto esplêndido. Ela curvou-se para pôr a cestinha, agora vazia, no chão, próximo de mim, e ofereceu-me aos olhos seus peitos fartos. A caixa passou as mercadorias pelo leitor de código de barras. A linda moça entregou-lhe uma nota de vinte reais, recebeu da caixa o troco, e andou um pouco para a frente. Ansioso, antes de a caixa premir um botão sob a caixa registradora, para acionar o apito estridente e acender a lâmpada vermelha, andei, e entreguei-lhe o pacote com os pães, e a caixa de leite. Ela os passou pelo leitor de código de barras. Paguei-lhe os R$ 3,25 que eu já havia separado.

A linda moça pegou as duas sacolinhas de plástico com os produtos que comprara, e retirou-se. Eu, rapidamente, pus o pacote com os pães, e a caixa de leite, numa sacolinha de plástico, e a segui, a certa distância. Ela se deteve, na esquina; esperou os carros e as motos passarem. Aproximei-me. Detive-me à sua direita. Começamos a travessia da rua.

Uma das sacolas que ela carregava rasgou-se nos fundos, e dela caíram um tablete de chocolate, uma lata de doce de leite, e um pacote de bolachas de maisena. Curvei-me, e peguei o tablete de chocolate, a lata de doce de leite e o pacote de bolachas. Ao erguer-me, eu os entreguei à linda moça, que me agradeceu. E ela andou até um carro prateado; para minha surpresa, pediu-me que eu segurasse os produtos. Eu a atendi, prontamente. Ela remexeu na bolsinha que trazia na mão, e dela tirou a chave do carro. Assim que abriu a porta do carro, pediu-me os produtos. Entreguei-lhos. Sorrindo, exibindo-me seus dentes brilhantes, agradeceu-me a ajuda, e despediu-se. Embasbacado, acompanhei-a entrar no carro, pôr a chave na ignição, e dar a partida. Andei, com as pernas bambas e o coração aos pinotes. Eu mal raciocinava. Dei-me um tapa na testa. Censurei-me: “Imbecil! Idiota! Por que você não perguntou o nome àquela beldade celestial? Imbecil! Tolo!”

Eu andava, cabisbaixo, quando ouvi buzina a estrondear. Olhei para a direção da qual chegaram-me as buzinadas. Ao meu lado, um carro prateado com o vidro abaixado. A linda moça, inclinada sobre o banco do carona, chamava-me. Curvei-me para poder vê-la. Sorri. Ela sorriu. Disse-me que iria ao bairro *, onde mora, e perguntou-me para onde eu iria. Eu lhe disse que moro no mesmo bairro. Ela me disse a rua em que se localiza a sua casa. Eu lhe dei a localização da minha casa – na verdade o endereço da casa de um amigo meu -, uns duzentos metros adiante. Ela me perguntou se eu desejava uma carona. Eu, controlando a ansiedade e a excitação que me atormentavam, agradeci, e disse-lhe que aceitaria a carona, se não fosse inconveniência aceitá-la. Ela me disse para entrar no carro. Não me fiz de rogado. Entrei no carro, e sentei-me no banco, um pouco sem jeito.

Ela dirigia bem. Para ser sincero, não posso avaliar a sua destreza ao volante – não atentei para isso. Eu dela admirava a beleza. Ela disse que sentia muito calor. Eu lhe disse que hoje, durante o dia, faria mais calor do que o calor de todos os outros dias do ano, até hoje. Ela me disse que, talvez, fosse ao litoral. Imaginei-a, na praia, de biquíni fio-dental, banhando-se ao sol. Em certo momento, ela puxou, com a mão direita, a alça do sutiã e a alça da camisa para cima, pôs a mão esquerda sob o peito direito, e empurrou-o para cima. Agiu com naturalidade, como se eu não estivesse ao seu lado.

Viramos uma esquina, e outra, e outra, e seguimos por uma rua sinuosa. Ao contornarmos à direita, e, em seguida, à esquerda, e à esquerda, chegamos à rua da sua casa. Com um controle, ela acionou o portão eletrônico da casa. Eu lhe disse que iria embora, agradeci-lhe pela carona, e sai do carro, mas não fui embora. Esperei a linda moça guardar o carro na garagem. Ela saiu do carro, e acenou para mim, pedindo-me que eu a esperasse. Esperei-a. Ela carregou a sacolinha de plástico com os produtos que comprara no supermercado até uma mesinha, no jardim, e andou, suavemente, em minha direção. Eu a admirava, embevecido. Ela, próxima do portão, curvou-se para a frente, e do chão apanhou um envelope. Arregalei os olhos, diante daquela esplendorosa maravilha que o decote revelou-me. Ao erguer-se, ela avaliou o envelope, e disse-me tratar-se de uma propaganda de uma empresa que ela detesta. Ao encerrar os comentários, sorrindo, perguntou-me qual é o meu nome. Disse-lho: Roberto. E ela me disse o dela: Júlia.

Conversamos durante um bom tempo. Para encerrar a conversa, ela me disse que teria de desincumbir-se de algumas tarefas.

Despedimo-nos.

Andei mais de cinco quilômetros até a minha casa.

29 de janeiro – Passei de bicicleta em frente à casa da Júlia.

Júlia, de short branco com estampas de flores vermelhas e amarelas, e uma camisa branca sem estampas, empunhando uma mangueira de borracha, espirrava água no chão da varanda. Detive-me. Atravessei a rua. Júlia olhou para mim. Sorriu. Ela, curvada para a frente, fechou a torneira. Admirei-lhe, maravilhado, os peitos cobertos por uma película. Júlia abriu a porta. Conversamos durante alguns minutos. Enfim, eu lhe disse que iria embora, que a visitaria em momento apropriado. Ela me pediu que não me fosse. E eu lhe disse que, para não ser inconveniente, eu a ajudaria a lavar a varanda. Ela aceitou a minha oferta de ajuda, e à varanda ofereceu-me acesso.

Enquanto lavávamos a varanda, conversávamos, animadamente.

Eu não sabia o que admirar na Júlia, mulher tão pródiga de atrativos! De repente, ouvimos um barulho. Era a mãe da Júlia, Lúcia, que chegava. Ela abriu a porta, saudou a filha, e cumprimentou-me. Aí eu soube de quem Júlia herdou a estonteante beleza. Mulher de uns quarenta anos, Lúcia está muito bem conservada, e é muito atraente. Linda, como a filha. Ela entrou na casa, após pedir licença para mim e para Júlia.

Encerrada a limpeza da varanda, Júlia convidou-me para um café. Não me fiz de rogado. Eu, ela e Lúcia conversamos durante muitas horas. Retirei-me antes de o sol se pôr. À porta, eu e Júlia cruzamos o caminho de Pedro, seu pai, homem tímido e simpático, que me saudou, sorridente. Dele Júlia herdou o sorriso espontâneo e os gestos suaves. Ele nos disse que estava com pressa, pois tinha de se arrumar para comparecer à uma reunião dali uma hora. Pediu-me compreensão, lamentou não poder conversar comigo por mais alguns minutos, e disse-me que, em outra ocasião, conversaríamos e conhecer-nos-íamos melhor, e entrou na casa. Simpatizei-me com ele. Educado, polido, de poucas palavras, cativou-me. Júlia e eu nos entreolhamos. Ela me disse que seu pai era um estudioso incansável, profissional rigoroso, trabalhador infatigável. Perguntei-lhe qual a profissão dele. Arquiteto, disse-me Júlia, que me perguntou, sorrindo, como se soubesse a resposta que eu lhe daria, qual era o prédio desta cidade cujo desenho arquitetônico mais me atrai a atenção. Eu lho disse. E Júlia, sorrindo, perguntou-me: “E tu, Roberto, sabes de quem é a assinatura do desenho arquitetônico?” Sorri, fitei-a. Seus olhos irradiavam felicidade. Seu sorriso transparecia orgulho. “Eu sempre me perguntei quem desenhou aquele prédio”, eu lhe disse. “Nunca imaginei que um dia o conheceria, tampouco que um dia eu conheceria a filha dele”. Júlia não cabia em si de felicidade. Seu sorriso ia de orelha à orelha. Exibia-me duas fileiras de dentes branquíssimos. Eu lhe ia perguntar o que ela faria à noite, mas a voz não me saiu nítida. Júlia, com um gracioso movimento das sobrancelhas, indicou-me que não me ouvira. Sorri. Levei, involuntariamente, a mão direita ao pescoço, como que para desentravar as palavras. Desviei o olhar. Pouco depois, eu, certo de que recuperara o governo dos meus pensamentos e da minha voz, fitei-a, para lhe falar, mas emudeci ao deparar-me com aquele sorriso gracioso. Ela me perguntou o que eu lhe desejava falar. Eu lhe disse que me faltava voz. Ela não suprimiu do rosto o sorriso, que me enfeitiçou, e perguntou-me, zombeteiramente graciosa: “Se te falta voz, como me disseste que te falta voz?” Encabulado, num tom de voz tímido – intimidado, eu diria – perguntei-lhe se ela iria ficar na casa dela, naquela noite, ou se iria sair com seu pai e sua mãe, ou com amigos e amigas. Ela me disse que não iria a nenhum lugar, naquela noite; aliás, ela me disse que não pretendia sair da sua casa, nem com seu pai, nem com sua mãe, nem com amigos e amigas, porque não tinha para onde ir – e deu-me a entender que, se alguém a convidasse para ir ou ao cinema, ou à pizzaria, ou ao restaurante, ela aceitaria o convite. Sorri. Perguntei-lhe se ela desejava ir ao cinema. Ela me perguntou quais filmes estão em cartaz. Eu lhos disse: Um filme de ação; um de terror; uma comédia romântica; dois filmes de aventuras; e um filme brasileiro. Ela aceitou o convite. De imediato, excluiu da lista o filme brasileiro, o de terror e a comédia romântica. Indecisa, não sabia se escolheria ou o de ação, ou um dos de aventuras. Eu lhe disse que o de ação, segundo comentários de amigos e de críticos de cinema, era péssimo, e eu não perderia o meu tempo assistindo-o, e tampouco desperdiçaria o meu dinheiro, e um dos filmes de aventura, misto de ficção científica e espionagem, era ótimo, e a respeito dele nenhum comentário negativo eu ouvira, apenas ressalvas quanto aos efeitos especiais e à interpretação de dois atores, aquém do exigido para um filme com aquela produção. Do outro filme – uma aventura com toques de comédia -, eu soubera que era uma aventura hilária de uma trupe atrapalhada, repleta de cenas de ação irrealizáveis em cenários fantásticos. Júlia disse-me que Samantha e Raquel, suas amigas, haviam assistido a este filme, e o elogiaram. Então, decidimos: iríamos assisti-lo. Combinamos a hora do encontro. Eu iria à sua casa, às dezenove horas. Assistiríamos ao filme da sessão das vinte horas. E despedimo-nos.

Eram dezenove horas e dez minutos quando premi a campainha da casa da Júlia. Ninguém atendeu à porta. Premi a campainha uma vez mais. Não transcorreu um minuto, Júlia apareceu na varanda. Ela trajava saia preta comprida e camisa multicolorida com decote discreto. Estava com os cabelos soltos. Seus lábios, realçados com batom vermelho framboesa. Nas orelhas, trazia brincos dourados de motivos angelicais. Eu a elogiei. Ela, envaidecida, fez um muxoxo, disse que sou bobo, e deu-me um tapa carinhoso no ombro. Entramos no carro. Rumamos para o cinema. O filme superou as nossas expectativas. Os atores, ótimos; o figurino, impecável; os efeitos especiais, primorosos; os personagens, cativantes; o roteiro, bem escrito; o desenrolar da história, no ritmo adequado, com cenas de ação espetaculares entremeadas de cenas cômicas irresistíveis, diálogos inteligentes e engraçadíssimos. Ao encerramento do filme, na lanchonete, enquanto comíamos, Júlia, um bauru, e eu, um beirute, e bebíamos, eu, refrigerante de uva, e Júlia, refrigerante de guaraná, conversavamos a respeito do filme. Elegemos a melhor personagem, a cena mais engraçada, a mais emocionante, a mais tensa. Não chegamos a um consenso. Satisfeitos com a refeição, retiramo-nos da lanchonete, e fomos à casa da Júlia. Despedimo-nos com um beijo no rosto. Ela abriu a porta, e entrou. Trancou-a por dentro, mandou-me um beijo com a mão direita, e virou-me às costas; na varanda, voltou-se para mim, sorriu, acenou, e entrou na casa. Suspirei. Enfiei as mãos nos bolsos da calça. Permaneci, imóvel, na frente da casa da Júlia. Rememorei o passeio, até que, enfim, andei até o carro, e vim pra casa.

15 de março – Enfim, eu e Júlia nos estreitamos num abraço caloroso. Unimos os lábios. Nossas línguas dançaram, lúbricas. Senti o calor do belo e irresistível corpo de Júlia. Passeei minhas mãos pelo seu belo corpo, e as desci pelo seu traseiro. Ela as ergueu. Ao sentir minha mão direita sobre seu peito esquerdo, ela dele a removeu, afastou-me de si, e disse-me: “Acalme-se, Roberto. Vamos com calma.” Sorri. Pedi-lhe desculpas. Disse-lhe que eu não pretendia desrespeitá-la. Ela aceitou os pedidos de desculpas.

22 de abril – Diante da minha insistência irrefreável, Júlia disse-me, sem meias palavras, num tom firme, que me inibiu (enquanto ela me falava, esbocei um sorriso; e ela me fitou com olhar severo; e suprimi, de imediato, o sorriso do rosto, e pedi-lhe desculpas), que iria se resguardar para o casamento; que as minhas investidas não surtiriam os efeitos que eu desejava, e exigiu-me respeito e compreensão. Confesso: Fiquei contrariado. Respeitei-a, todavia. Não desejo ferir-lhe suscetibilidades. Desejo a Júlia, com todo o ardor de meu corpo e de meu espírito.

07 de junho – Nos casamos, eu e Júlia, na Igreja Nossa Senhora de Aparecida.

09 de junho – A lua de mel, maravilhosa, apesar do início tenso. Eu e Júlia nos entendemos maravilhosamente bem. Desfrutamos de prazer inexprimível. Que corpo lindo, o da Júlia! Pródigo de encantos. Júlia, recatada, não admitiu participar das minhas fantasias lúbricas. Ficou horrorizada ao ouvir-me descrever as mais ousadas. Perguntou-me como pode haver pessoas, se há – ela duvidou do que eu lhe disse -, que fazem o que lhe propus. Repudiou as minhas propostas. Não insisti.

17 de outubro – De recatada e resguardada, que desejava conservar-se pura para o enlace matrimonial, Júlia tornou-se uma ninfomaníaca insaciável. Chego na nossa casa, e Júlia, voluptuosa, insinuante, provoca-me; com desenvoltura de uma felina, pula em cima de mim, agarra-me, desembaraça-me das roupas, e desembaraça-se das roupas (caso esteja vestida). E nos saciamos um com o corpo do outro. Deleitamo-nos até nos saciarmos, todos os dias.

22 de outubro – Minhas mãos lascivas avaliaram o corpo da Júlia, enquanto ela sonhava com os anjos.

29 de outubro – Durante o sexo, Júlia geme, sussurra palavras excitantes e obscenidades. Seu corpo é muito flexível. Ela se põe nas posições mais extravagantes, mais bizarras.

07 de novembro – Não posso acompanhar o ritmo da Júlia. Ela é insaciável. Para atenuar a tensão que a consome, e para não se privar da sua vontade, ela aplaca o desejo com brinquedinhos que comprou, sem o meu consentimento, em um sex-shop. Ela me disse, enraivecida, hoje, ao entardecer, durante uma discussão: “Tu não me satisfaz!” Berrou-me, fora de si: “Quero um homem!”. E deu-me um tapa, que suportei, resignado. Ela era tão doce! Tão meiga! O que se passa com ela? Uma metamorfose inexplicável, surpreendente! Seu corpo me atrai, agrada-me, mas a Júlia por quem me apaixonei, atraído pelo seu corpo esplêndido… O que está acontecendo com ela? Ouvi muitas ofensas. Júlia humilhou-me, nestes últimos dias.

12 de novembro – Júlia conversava, animadamente, com o Carlos, tocava-o nos braços, e gargalhava, hoje à tarde. Abordei-os. Carlos despediu-se de nós, e retirou-se. Em casa, eu e Júlia discutimos. Encerramos a discussão, de costas um para o outro.

20 de novembro – Surpreendi Júlia saciando-se com um brinquedinho fálico movido à pilha.

27 de novembro – Eu e Júlia tivemos um ótimo dia. Nos amamos três vezes. Nos reconciliamos da briga de ontem, quando dormi no sofá da sala.

04 de dezembro – Ciúme corrói-me a alma. Júlia almoçou com o Lúcio. Eu e Júlia discutimos. Brigamos. Nos reconciliamos, na cama.

14 de dezembro – Júlia, indiscreta, revelou a nossa intimidade para a Carla, sua amiga, que espalhou a notícia, dada por Júlia, de que não me encontro sempre disponível. Ouvi insinuações maldosas. Mateus, rindo, zombeteiro, perguntou-me se eu precisava de ajuda, na minha casa, e ofereceu-se para se encarregar das tarefas domésticas as quais Júlia exigia-me mas eu não as conseguia cumprir adequadamente. Se as tarefas, perguntou-me Mateus, me eram demasiadas, ele, disse-me, com sorriso escarninho estampado no rosto, encarregar-se-ia, e de muito boa-vontade, e sem remuneração, de uma parte delas, aliviando-me de tão exaustivo encargo. Esmaguei seu nariz com um soco. Se não me segurassem, não sei o que eu faria com ele. Matá-lo-ia com uma cadeira, ou com uma faca. Fatiá-lo-ia, e jogaria as fatias para os cães vadios que infestam a cidade.

02 de janeiro de 2…. – Segui a Júlia. Nada de comprometedor. Outra discussão. Ela me deu um tapa. Revidei.

07 de janeiro – Eu e Júlia nos reconciliamos, após dias durante os quais nem sequer nos olhamos um nos olhos do outro. Nos expandimos em excitantes modalidades sexuais. A imaginação, excitada pelo desejo, impeliu-nos a deixar o pudor de lado, e a extravasarmos. Uma das melhores noites que eu e Júlia passamos juntos. Realizei todas as minhas fantasias; e a Júlia, as dela. E como ela é criativa…

16 de janeiro – Ouvi comentários depreciativos sobre a reputação da Júlia. Perturbado, imaginei-a nos braços de Mateus, nos de Carlos, nos de Lúcio, nos de todos os homens.

22 de janeiro – Eu e Júlia passeamos pelo parque. Ela, com roupa provocante, atraía a atenção de todos os homens. Meu sangue ferveu ao deparar-me com um homem que, atrevido, encarava-a, lambia os beiços e babava de desejo. O seu olhar, tão lúbrico! A sua postura, tão lasciva! Pensei ter ouvido os seus pensamentos. Fui até ele, e o esmurrei. Rolamos pelo chão aos socos e pontapés. Ambos fomos conduzidos à delegacia. Na nossa casa, eu e Júlia discutimos durante duas horas. Ela me disse que não me aturaria mais, e iria embora. Retive-a. Disse-lhe que ela não podia ir-se embora, falei-lhe do meu medo de perdê-la, de ser privado da sua companhia. Eu a atraí, com voz suave, macia, arrependido. Dormimos, eu, na sala, ela, no quarto.

15 de fevereiro – Agredi a Júlia. Ela revidou. Rasguei a sua camisola. Júlia arranhou-me. Eu a quis possuir à força. Se era homem forte que Júlia desejava, ela me teria. “É um homem forte que você quer, Júlia? Eu sou o seu homem forte.” Agarrei-a pelos braços. Ela tentou se desvencilhar. Empurrei-a sobre a cama. Ela me deu pontapés, arranhou-me, deu-me tapas, em vão. Arranquei-lhe a camisola. Possuí Júlia à força. Eu a submeti à minha vontade. Ela gritou de dor. Com as mãos, abafei-lhe os berros. Ao recompor-se, ela ameaçou ir-se embora. Arrependido, pedi-lhe perdão. Ela não quis ouvir-me, e retirou-se. Cai no chão do corredor, encolhido, e chorei, sinceramente arrependido. Dormi. Despertei, hoje, na cama. Como fui até lá?

21 de fevereiro – Não posso viver sem a Júlia. Telefonei-lhe, todos os dias. Ela não retornou as ligações. Abordei-a, nas ruas, nas lojas, em todo lugar. Eu soube que o Mateus deseja namorar com ela. Pressionei-o contra a parede, e encostei-lhe o cano de um revólver na têmpora. “A Júlia é minha!”, eu lhe disse, “Atreva-se a encostar um dedo nela, que estourarei os seus miolos. Afaste-se dela! Afaste-se dela!”. Mateus obedeceu-me. Depois, ameacei o Carlos. Ele não me obedeceu.

08 de março – Matei o Carlos. Dois tiros, um entre os olhos, outro no peito esquerdo.

09 de março – Fui ao enterro do Carlos. A Júlia chorava aos cântaros. Ela me viu, e fingiu não me ver. À primeira oportunidade, aproximei-me dela. Abri os braços, para abraçá-la. Ela recuou, de frente para mim; ao afastar-se uns quatro metros, virou-se nos calcanhares, e correu.

22 de março – Encontrei-me com a Júlia. Abordei-a. Eu lhe disse que desejava me reconciliar com ela. Ela me pediu que eu me fosse embora. Não me movi. Ela me perguntou se eu sabia quem matou o Carlos. Fulminei-a com os olhos. Ela tremeu, aterrorizada. Empalideceu. Seus lábios, trêmulos. De seus olhos escorreram lágrimas em abundância.

09 de abril – Minha! A Júlia é minha. Minha! Ninguém mais a terá! Ninguém! Ela me pertence! Seu corpo me pertence! É meu! Meu! Pertence-me! Seu corpo existe para a satisfação dos meus desejos! Seu corpo é meu! Eu o terei sempre que o desejar! É meu! O corpo da Júlia é meu! Eu o adoro! Adoro a Júlia! A Júlia é a única mulher que adoro! Devoto-lhe minha vida! O corpo da Júlia é meu! Pertence-me! Só eu tenho a posse do corpo dela! Só eu! Eu! Eu!

Triste notícia

Manhã de sábado. Às nove horas, um pouco depois do café-da-manhã, Natália despediu-se de Alfredo, e foi, de carro, ao supermercado; depois, iria à farmácia e à feira. Alfredo esperaria, na sua casa, Roberto, seu irmão, e com ele iria para Taubaté à lojas de materiais de construção pesquisar preços de tijolos, cimento, areia, ripas de madeira, outros materiais e utensílios de pedreiro. Enquanto o esperava, trocou a água da vasilha dos cachorros (dois pastores, um alemão, Thor, e um belga, Aquiles. Alfredo diz que o belga é ortodoxo, mas é o alemão que mete medo) e a da vasilha do gato. Certa vez, perguntaram-lhe porque ele escolhia para os seus cachorros (Alfredo tivera dois vira-latas, Odin e Odisseu – Odisseu era o mais astuto; Odin, o manda-chuva – e três cadelas – uma rotweiller, Medusa, e não havia cristão que não se petrificava ao se deparar com ela; uma dálmata, Deméter; e uma colie, Afrodite) nomes de heróis, deuses e semideuses da mitologia grega, romana e nórdica (Ah! Esquecia-me, o gato chamava-se Esfinge), e não nomes de personagens folclóricos e mitos indígenas brasileiros; ele não deixou tal pergunta sem resposta, que estava na ponta de sua língua:

– Cães com nomes de origem brasileira não metem medo em ninguém. Imagine um pastor alemão chamado Saci. Conceba tal monstruosidade. O pastor é manco?, perguntar-me-iam. Ou ele é trípede?, zombariam. Quem o respeitaria? Agora, imagine uma rotweiller chamada Iara. Quem a respeitaria? Ninguém. Todos a achariam bonita, elegante e charmosa, e torceriam o nariz para ela, mas não a temeriam. Não quero cães que sejam alvos de chacotas. Quero cães que metam medo em todo mundo. E o nome tem de inspirar respeito, medo. A mitologia grega e a nórdica os possuem aos punhados. A hebraica também. Imagine um cão chamado Salomão. Você imagina um cãozinho frágil de latido estridente, ou um portentoso espécime de uma raça nobre, altivo, a transpirar sapiência? Agora, imagine um cão chamado Curupira. É para rir, não é?

Quando alguém lhe expunha os aspectos ridículos da sua argumentação, ele não desconversava; para surpresa de todos, defendia, com argumentos inconsistentes, as suas preferências pelos nomes de deuses, semideuses, heróis e monstros da mitologia grega, da nórdica e da romana; na maioria das vezes, não convencia ninguém de suas razões, as quais eram sem pé nem cabeça, mas todos calavam-se, para não perderem amigo tão querido. Certa vez, um amigo, descendente de indianos, apresentou-lhe nomes de deuses, semideuses e heróis hindus, muitos deles extraídos dos poemas épicos Mahabarata e Ramayana. Alfredo rejeitou, terminantemente, as sugestões, alegando que tais nomes são impronunciáveis.

Thor e Aquiles beberam da água, sedentos. Alfredo chamou por Esfinge, que não deu as caras.

– Caiu na farra, o maldito gato, na casa do vizinho – exclamou Alfredo, a sorrir, jocoso. – Também pudera! A gatinha que há lá! Um petisco.

Alfredo distribuiu a ração dos cachorros, em partes iguais, em duas vasilhas, uma vermelha, a de Thor, e uma verde, a de Aquiles, e as manteve afastadas uma da outra uns cinco metros, como também manteve afastadas as duas vasilhas de água – e eu ia sonegando esta informação, imprescindível, acredito, não para a compreensão deste relato, mas para o conhecimento da inimizade latente entre o deus nórdico e o herói grego. Ambos, conquanto trabalhassem, unidos, na proteção dos seus mantenedores, Alfredo, Natália, e os filhos deles, Gustavo, Denise e Fabiana, desentendem-se, às vezes – mantê-los distantes um do outro durante as refeições é uma providência sensata. Alfredo não desejava oferecer-lhes pretexto para eles se engalfinharem, cravarem os dentes um no outro, e ferirem-se. Não queria gastar o seu dinheiro com consultas ao veterinário e compra de medicamentos.

Assim que Thor e Aquiles beberam da água e comeram da ração, Alfredo conduziu-os ao canil. Não é correto dizer que Alfredo os conduziu ao canil. Habituados a, todos os dias, após beberem da água e comerem da ração, encaminharem-se ao canil, nesta manhã de sábado, eles foram ao canil, antecipando-se a Alfredo, que encheu de água as duas vasilhas que estavam no canil, trancou a porta com um cadeado, pendurou a chave num prego à viga de madeira, despediu-se de Thor e Aquiles, e rumou à varanda, onde consultou o relógio. Eram quase nove e meia. Roberto estava atrasado quase trinta minutos. Alfredo se chateou. Detestava atrasos. Era pontual e exigia pontualidade das pessoas com as quais marcava horário para um compromisso. Andou pelo jardim. Avaliou as flores. Procurou por ervas daninhas. Bem-te-vis, colibris e pombas-rolas desviaram-lhe a atenção. Um colibri azul, amarelo e verde osculava bicos-de-papagaio e tamancos-judeus. Alfredo observou-o até ele voar, por sobre o muro, à casa do vizinho.

A campainha soou.

– Até que enfim! – exclamou Alfredo, que foi até à porta, certo de que Roberto premira a campainha. Ao abrir a porta, para a sua surpresa, deparou-se com Vanessa, prima de Natália. Alfredo esboçou um sorriso, que logo suprimiu do rosto ao deparar-se com o rosto doído de Vanessa e ao vê-la remover lágrimas que escorriam do olho esquerdo. Fitou-a. Aguardou a notícia; triste, previu. Vanessa, sem dizer uma palavra, abraçou Alfredo e, enquanto removia de si as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, perguntou se Natália encontrava-se na casa. Alfredo disse-lhe que ela fora à feira, ao supermercado, e perguntou-lhe por que chorava. Vanessa não lhe respondeu, de imediato; engoliu o choro; inspirou, soluçou, pigarreou, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e as que se lhe acumulou nos olhos. Alfredo observou-a, em silêncio. Enfim, Vanessa disse:

– Uma notícia triste, Alfredo.

– Entre, Vanessa. Vamos à sala.

– Não…

– Você quer beber um pouco de água?

– Não, Alfredo, obrigada. Vim falar com você e com a Natália. Notícia triste, e vou… Tenho de ir à casa do Pedro…

– Vanessa…

– Não sei como falar… Ainda bem que encontrei você… Se eu tivesse encontrado a Natália… Não sei como eu lhe contaria… Como eu lhe daria a notícia… Com você, Alfredo, posso ser direto: O tio morreu.

– Tio?

– Sim, o tio… O tio Cirilo.

– O quê? – exclamou Alfredo, estupefato, e arregalou os olhos, e boquiabriu-se, incrédulo. – Mas… Como é possível? Ontem à noite, ele e eu conversamos, tão animados… Ele estava tão bem, tão alegre…

Diante da triste notícia, Alfredo proferiu tais comentários, e não atentou para o absurdo neles contido. Ele pediu que Vanessa entrasse. Ela lhe disse que iria à casa de Pedro e à de outros familiares e amigos transmitir a triste notícia, e não entrou. Em poucas palavras, resumiu o que sucedera durante a madrugada: o telefonema desesperado de Maria José às três horas da madrugada; a correria, dela, Vanessa, e de seu marido, Paulo Roberto, à casa do tio Cirilo e tia Maria José; a chegada da ambulância; a ida ao hospital; e a notícia do falecimento do tio Cirilo; o regresso à casa de Maria José; o medo que sentiu ao ver Maria José, inconsolável, aos prantos; as providências que tomou para consolá-la e para avisar os familiares. Alfredo ouviu-a, compungido, atentamente; lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos. Assim que Vanessa encerrou o relato comovente, estreitou-a num abraço carinhoso, beijou-lhe a testa, ajeitou-lhe os cabelos que lhe caíam à testa, e removeu, com o dorso do dedo indicador direito, as lágrimas que lhe escorriam pela face esquerda. Despediram-se. Alfredo, com o olhar, acompanhou-a afastando-se de si com passos lentos. Assim que ela dobrou a esquina, ele, cabisbaixo, regressou à casa, e trancou a porta; não havia da porta se distanciado dois metros quando a campainha soou. Deu meia-volta, e foi até a porta. Abriu-a. Era Roberto.

– Você já recebeu a notícia? – perguntou Roberto, ao fitá-lo.

Alfredo confirmou com o franzir do cenho, sem piscar, e com movimentos ligeiros dos músculos da face.

– A Natália… – reticenciou Roberto.

– Ela ainda não sabe. Ela está, ou no supermercado, ou na feira…

– Quem a contou para você?

– A Vanessa.

– Como você dará a notícia para a Natália?

– Estou pensando… Entre, Roberto – assim que ambos entraram, Alfredo trancou a porta, mas deixou a chave na fechadura. – Como darei a notícia para a Natália? Não posso lhe dizer, assim, de supetão… Você sabe… A Natália é tão melindrosa… Terei de dar-lhe a notícia. Não posso me furtar a fazê-lo.

Conversaram durante uma hora. Não falaram de materiais de construção, de pesquisa de preços. Falaram de Cirilo. Ao despedirem-se, Roberto renovou os seus votos de condolências.

Sozinho na sua casa, andando de um lado para o outro, perguntava-se Alfredo como daria à Natália a notícia do falecimento do pai dela. Foi ao banheiro; à pia, abriu a torneira, e jogou um pouco de água no rosto. Enxugou-se com uma pequena toalha azul. Fechou a torneira. Abriu a torneira, e molhou, pela segunda vez, o rosto, e não o enxugou. Fechou a torneira. Passou as mãos pelo rosto, removendo a água. E retirou-se do banheiro. Ao andar pela sala, Esfinge dele se aproximou. Alfredo nada lhe disse. Esfinge esfregou-se-lhe às pernas, na calça. Alfredo ignorou-o, alheado. Sentou-se no sofá, ao canto, pousou o braço esquerdo no braço do sofá, cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda, largou-se ao encosto do sofá, cerrou as pálpebras, e esfregou-as com os nós dos dedos da mão direita. Passeou as mãos pelos olhos, e removeu as lágrimas que neles se acumulavam. Estava triste e preocupado. Como daria a notícia à Natália? Teria de ministrar-lha em doses homeopáticas. Teria de preparar Natália para receber a triste notícia, de modo a não sobressaltá-la. Mas, como fazê-lo? Desejou que ela não se encontrasse com ninguém que lhe desse a notícia. Natália, tão melindrosa, se recebesse a notícia, sofreria um ataque cardíaco fulminante. Desejou que ela chegasse em casa, e logo, antes que alguém lhe perguntasse: “Que horas será o enterro de seu falecido pai?”, ou, então: “O traslado do corpo de seu pai começará no velório, ou na casa dele?”, ou: “Quero dar ao seu falecido pai os meus votos de despedidas. Ele será velado onde? Na casa dele, ou no velório?”, ou, então, lhe fizesse comentários sobre a honra e a nobreza de caráter de Cirilo, lhe dissesse que ele era um homem generoso, trabalhador, um dos raros homens confiáveis que havia no mundo, e que não se forjam homens de tal têmpera nos fornos modernos, dos quais só saem molengas, que não enfrentam sol a pino e adoecem ao primeiro golpe de vento, jamais empunham a enxada para carpir a terra, não sabem preparar a refeição que comem e não têm pulso firme para educar os filhos.

Com os pés, Alfredo empurrou Esfinge, que se deteve e fitou-o com seus olhos enigmáticos.

– Bandido… – sussurrou Alfredo; a voz travou-se-lhe no esôfago. – Por onde você andou? Você foi à farra, malandro? – ato contínuo, levantou-se do sofá. Esfinge o seguiu. Foram até onde encontrava-se a vasilha de Esfinge. Alfredo pegou do saco de ração, abriu-o, despejou uma boa quantidade de ração na vasilha. Esfinge curvou-se sobre a vasilha, e pôs-se a comer da ração, enquanto Alfredo pegou da vasilha com água, despejou a água num canteiro de samambaias, foi à torneira, abriu-a, encheu a vasilha com água, fechou a torneira, e carregou a vasilha até Esfinge, deixando-a ao lado da vasilha com ração. Executou mecanicamente essas tarefas. Pensava em Natália. Como dar-lhe-ia a notícia do falecimento do pai dela? Em sua mente, vórtices devastadores de pensamentos entrechocavam-se a ponto de petrificá-lo. Pensou o que sucederia à Natália se lhe dissesse: “Natália, seu pai morreu”, assim, de supetão. Seria o mesmo que matá-la, concluiu. Se desejasse matá-la, dar-lhe-ia desse modo a notícia. Mas não desejava matá-la. Perguntou-se se não estava sendo insensível ao pensar, exclusivamente, em Natália, e em ignorar Cirilo, que faleceu. Concluiu, para o seu conforto, mas tal pensamento não o agradava, que tinha de se preocupar, não com os mortos, mas com os vivos: Natália, sua esposa; Denise e Fabiana, suas filhas; e Gustavo, seu filho. Denise, Fabiana e Gustavo chorariam ao ouvirem a notícia. Fabiana seria quem mais sofreria (dos três era a mais apegada ao avô, com quem apreciava manter intermináveis colóquios sobre literatura e filosofia e a quem acompanhava às tertúlias promovidas por academias). Denise talvez não sofresse, pois nunca foi muito próxima do avô, mas por ele nutria respeito e carinho. Alfredo pensou nas duas filhas e no filho, mas concentrou os seus pensamentos em Natália. Denise, Fabiana e Gustavo suportariam o impacto da triste notícia. Eram jovens, saudáveis, fortes, mas Natália, não. Ela sofria de diabetes, tinha enxaquecas, passara por um período de dois anos de depressão profunda, e implantara um marcapasso dois anos antes. Não era uma mulher na plenitude da sua saúde. Era uma mulher que requeria cuidados, melindrosa. Alfredo não sabia como lhe daria a triste notícia. Pensou em pedir para outra pessoa transmitir-lha. Abandonou esta idéia ao concluir que ele, Alfredo, marido de Natália, é quem teria de dar-lha. Mas como o faria? Como lhe daria a notícia do falecimento do querido pai? Não poderia lhe dizer: “Querida, seu pai morreu”. Era o mesmo que assinar o atestado de óbito dela, o que ele não desejava. “Que outro o assine”, pensou, e sorriu, e meneou a cabeça, para expulsar de sua mente pensamento tão reprovável. Como daria para Natália a notícia do falecimento do pai dela? Desdobrou-se, para encontrar uma resposta. Teria de encontrá-la antes que Natália regressasse. “Eu, assim que Natália chegar – pensava Alfredo consigo, andando pela varanda e entrando e saindo da sala -, a saudarei como o faço todos os dias. Ela, é certo, me pedirá que eu tire do carro as compras. Atenderei ao pedido. Assim que ela entrar no quarto para vestir roupas mais leves, como, é certo, ela irá fazer, pois está um calor de rachar os miolos hoje, entrarei no quarto, e lhe direi para sentar-se na cama, e lhe darei a notícia. Primeiro, lhe direi que não fui, com o Roberto, para Taubaté porque, minutos antes, Vanessa esteve aqui em casa, para lhe dar a ela, Natália, uma notícia importante. Assim, sem ir direto ao assunto, reticente, manterei Natália em suspenso, e despertarei a sua curiosidade. Farei uma pausa, expressarei um ar compungido, fitá-la-ei bem fundo nos olhos… Não dará certo. Ao olhar para mim, ela saberá que lhe darei uma péssima notícia. Ela desconfiará… Terei de dar-lhe a notícia. Então, no quarto, sentados, na cama, de frente um para o outro… Tem de ser no quarto? Sim. É o local mais apropriado. Darei a notícia para a Natália. Começarei assim: ‘Natália, não fui, com o Roberto, para Taubaté. Um pequeno imprevisto…’ Pequeno imprevisto!? Que tolice é esta que me vem à cabeça!? Falta-me um parafuso na cabeça. O pai da minha esposa morre, e eu digo que isso é um pequeno imprevisto! A Natália, se eu lhe disser isso, terá um ótimo motivo para pedir o divórcio. Que sensibilidade! Além disso, por que eu usaria de um tom formal? Não transmitirei uma mensagem para um estranho. Eu irei falar para a minha esposa, mãe de meu filho e minhas filhas, da morte do pai dela. E farei, assim, sem lhe expressar, ao transmitir-lhe a notícia, os meus sentimentos… O que sou? Uma máquina? Um robô? Um andróide? Um replicante? Um sintético? Até os sintéticos têm sentimentos. Sou um homem, triste, agora, com o falecimento do Cirilo, meu sogro, que, desde o instante em que o conheci, foi generoso e respeitoso comigo. Ele foi para mim meu pai… Após o falecimento de meu… Não tenho de ocultar a minha tristeza… Não tenho de esconder da Natália os meus sentimentos… Não tenho de ocultar-lhos. Estou certo que Natália, ao chegar, assim que olhar para mim, perguntar-me-á: ‘O que houve, Alfredo? Por que você está triste?’. Ela possui o sexto sentido. E o sétimo e o oitavo. Não poderei lhe ocultar a minha tristeza. Não me desgastarei tentando exibir-lhe um rosto inexpressivo. É certo que eu, ao olhá-la nos olhos, traga lágrimas aos meus olhos. Melhor, é certo que as lágrimas me venham aos olhos sem que eu as chame, e que meus lábios tremam. Não conseguirei controlar-me. Irei segurar as mãos da Natália, abaixarei a cabeça, me curvarei, e chorarei, o rosto sobre seu colo, convulsivamente. Talvez Natália, ao me ver tão triste, sofrendo tanto, condoa-se de mim, e abrace-me, e, assim que eu lhe der a notícia do falecimento de seu pai, envolva-me com um abraço caloroso, estreite-me a si, e chore. Talvez isso se dê. Estou, aqui, a pensar, preocupado, em tudo isso, certo de que saberei como agir; o mais certo, no entanto, é que os eventos se sucedam, e surpreendam-me. Talvez venha a se suceder o que agora não me passa pela cabeça. A Natália, ao ouvir a notícia, talvez não se perturbe; talvez a receba com serenidade e resignação, afinal Cirilo sofreu muito nos últimos anos, e os remédios, conquanto o conservassem lúcido e animado, como ele se mostrou ontem à noite, fizeram-no sofrer imensamente, embora ele não deixasse que o sofrimento que o afligia lhe transparecesse na fisionomia, que ele conservava animada, como se vivesse no melhor dos mundos possíveis. O testemunho de Maria José me foi revelador: Cirilo sofria muito. Os seus momentos de alegria foram interlúdios entre dois momentos de sofrimento indescritível. E ele os passava com Fabiana e Henrique. Os três adoram livros de literatura e de política; as animadas conversas faziam bem a Cirilo. E ele sofria muito. Talvez Natália se resigne. Talvez ela acolha a notícia e não sofra tanto quanto imagino que ela sofrerá. Talvez o impacto da notícia não seja tão devastador quanto eu o esteja concebendo. Mas, e depois? E depois? A Natália poderá, calada, ouvir-me dar-lhe a notícia, mas, e depois? A Natália me dará a entender que estará bem, não necessitará de maiores cuidados… Mas, e depois?”.

O soar da campainha interrompeu-lhe o fluxo dos pensamentos. Foi à porta. Abriu-a. Era um funcionário dos correios, que lhe entregou uma encomenda feita por Natália uma semana antes, uma caneta e um papel, no qual, num espaço reservado com indicação do nome de Natália e do seu endereço, Alfredo assinou, e escreveu o número do seu RG e o do seu CPF. Assim que os escreveu, entregou o papel e a caneta ao funcionário dos correios, despediu-se dele, desejando-lhe um bom dia de trabalho e um ótimo final de semana, e recolheu-se à casa, com a caixa, a qual deixou sobre a mesa da sala-de-estar. Ato contínuo, foi à cozinha, pegou de um copo de vidro transparente, levou-o ao filtro, encheu-o de água, bebeu da água, e deixou o copo na pia. Retirou-se da cozinha, e foi ao quarto. Sentou-se na cama. O telefone soou. Atendeu-o. Era Maria José, sua sogra. Ela lhe falou do falecimento do marido. Alfredo ouviu-a, atentamente; não lhe disse que Vanessa já lhe dera a triste notícia. Quis consolá-la, mas se convenceu, ao ouvi-la, que ela, mais do que ele, suportava a triste notícia com coragem, e era ele, e não ela, que precisava ser consolado. No tom de voz dela misturavam-se resignação e sofrimento; ela disse que havia sido feita a vontade de Deus, e que Cirilo descansaria, após muitos anos de sofrimento decorrente da doença que o acometera, e que o prostrara, na cama, durante cinco longos anos, e que o privara dos prazeres da vida. Lágrimas abundantes encheram as órbitas dos olhos de Alfredo. Maria José perguntou-lhe de Natália. Alfredo disse que ela fora ao supermercado, à feira e à farmácia. Maria José aconselhou-o a dar-lhe a notícia com cautela, para não feri-la, pois Natália era muito melindrosa; em seguida, disse-lhe que teria de desligar o telefone porque Carlos Roberto, seu irmão, a chamava. Despediram-se, e desligaram o telefone.

Sentado na cama, Alfredo pensava no que diria para Natália. Não poderia abordá-la com circunlóquios, pois, sabia, se o fizesse, despertar-lhe-ia os sentidos, indefiníveis, que ela possuía, tão agudos, tão potentes, que, de imediato, antes de ele dar-lhe a notícia, ela chegaria, ou pelo instinto, ou pela intuição, ou pela razão, ao fitá-lo, à explicação correta para a atitude dele.

Alfredo não poderia lhe dar a notícia de supetão; também não poderia abordá-la com floreios oratórios para transportar-lhe o espírito para uma região serena e tranquila, para, depois, vir com a triste notícia.

Não sabia como teria de proceder. Consultou o relógio. Eram onze e meia. Natália regressaria dali poucos minutos, pois ela ainda teria de preparar o almoço. Alfredo ficou apreensivo. Levantou-se da cama. Retirou-se do quarto. Pensou ter ouvido o barulho do portão sendo fechado. Acelerou os passos. Foi à varanda. Não viu Natália. Concluiu que o portão da casa dos vizinhos da direita, Vinicius e Úrsula, fôra fechado. Passeou as mãos pelo rosto. Um bem-te-vi distraiu-o. Pássaros, ao longe, digladiando-se em pleno vôo, prendeu-lhe a atenção durante um bom tempo. Um pássaro pequeno e um pássaro grande com o triplo do tamanho do pássaro pequeno. Pareceram a Alfredo um pardal e um sabiá-laranjeira, mas ele não estava certo disso. Talvez não fosse um pardal, mas uma noivinha, ou um colibri de penas de cores foscas, e o outro pássaro talvez fosse um bem-te-vi. Não soube dizer quais eram as espécies dos dois pássaros. Não se prendeu à essa questão. Logo mergulhou nos seus pensamentos. O que diria para Natália, que chegaria à casa antes do meio-dia? Enfiou as mãos no bolso da calça. Pensativo, andou de um lado para o outro do jardim e da varanda. Latidos de Thor e Aquiles chegaram-lhe aos ouvidos, numa série que lhe indicava que eles avançavam contra alguma pessoa ou contra algum animal. Alfredo sabia quando os cães latiam para estranhos, fossem pessoas, fossem animais. A entonação dos latidos assumia características singulares. Foi ao quintal. Não havia se aproximado do canil quando obteve a explicação para as detonações dos latidos de Aquiles e Thor. Sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia havia um homem, que mexia na antena. Alfredo não se deteve. Aproximou-se dos cães, que diminuíram a ênfase dos latidos à sua presença.

– Cachorros bravos, hein? – comentou o homem sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia; era ele magro, esquelético, de barba rapada, baixo (um metro e sessenta, se muito), e na altura dos cinquenta anos. – Eles não gostaram de mim.

Aquiles e Thor conservaram-se vigilantes.

– São dois machos? – perguntou o homem sobre o telhado, referindo-se a Aquiles e Thor. – Um pastor alemão e um pastor belga?

– São – respondeu Alfredo. – São dois machos. Um belga e um alemão. Como você pode ver, eles estão com fome.

– Não quero me servir de almoço para eles – e sorriu o homem sobre o telhado, enquanto mexia, com um alicate, no cano de sustentação da antena. – Ferozes, os dois. Treinou-os?

– Sim. Em uma escola para cães.

– Essas duas feras impõem respeito.

– Não há dúvidas.

– Esses dois cães de guarda mantêm os ladrões afastados. Há muitos ladrões na cidade. Ontem, perto da minha casa, dois ladrões… Dois ou três, ninguém sabe… Entraram na casa do Juliano, à noite… Não eram nem dez horas da noite… Entraram na casa e a depenaram. Carregaram o computador, o dvd, o rádio e a televisão. Um computador, sabe?, que parece uma pasta. Não sei como se diz. Ora, um ladrão, sozinho, não poderia fazer o serviço. Foram dois, ou três. E o engraçado: Ninguém, na vizinhança, os viu. Foram sorrateiros, os filhos-da-polícia. Entraram e saíram da casa do Juliano, e ninguém os viu.

– Eles sabiam que não haveria ninguém na casa, na hora do roubo.

– Foi o que eu disse para o Juliano. Não foram ladrões-de-galinha que assaltaram a casa dele. As portas e as janelas não foram arrombadas. Como os ladrões entraram na casa? Teletransportaram-se para dentro dela? E como eles saíram da casa? Teletransportaram-se para fora dela? A Carlinha, minha irmã, disse que os ladrões entraram na casa do Juliano pela casa da Guiomar, que dá fundos para a casa do Juliano. Mas a Guiomar disse que, à noite, naquele dia, ela, o Lindomar, marido dela, e o Neymar, filho dela com Reinaldo, o seu primeiro marido, que faleceu em um acidente de carro há dez anos, estavam, no quintal, arrumando as quinquilharia. Ferros-velhos, papéis, papelões, os quais iriam vender, no ferro-velho, hoje. Ninguém além deles estava naquela casa. E a Guiomar, mulher honesta, decente, trabalhadora, jamais mentiria. Todos os do bairro gostamos dela. A Guiomar é uma cozinheira de mão cheia, mulher forte, vigorosa, sabe? Ela não é gorda; é forte; um mulherão. Ela é baixa, tem um metro e cinquenta; e de um vozeirão que impõe respeito e mete medo até no Papa, que Deus o guarde. Quem manda, na casa dela, é ela, não o Lindomar, homem trabalhador e decente, pau para toda obra. A Guiomar, o Neymar e o Lindomar não ouviram sequer um ruído na casa do Juliano. A Luciana, minha vizinha, disse que os ladrões conhecem o Juliano. São, ela acha, amigos dele.

– Uma hipótese que não se pode descartar.

– O Juliano não a descartou.

– Ele chamou a polícia?

– Não. Não telefonou para a delegacia. Ele jamais iria telefonar para a polícia. Um passarinho contou-me que o Juliano trafica maconha. Não sei se é verdade. Eu nunca o vi fumando um cigarro. Nunca me haviam dito que ele traficava maconha. Depois que assaltaram a casa dele, começaram a espalhar esta história. Por que ele não telefonou para a polícia? Muitas pessoas procuraram uma resposta para esta pergunta. Por que o Juliano não chamou a polícia? A melhor resposta que encontraram: ele não quer os policiais dentro da casa dele porque eles, ao procurarem por evidências que os levem aos ladrões, poderiam encontrar a maconha que ele tem escondida em algum lugar da casa, muito bem escondida, mas não tão bem escondida que os policiais, à procura de evidências que os levem aos ladrões, não possam encontrar. Muita gente está contando esta história pelo bairro. Como não sei se isso é verdade, ou não, calo-me a respeito. Não quero levantar falso testemunho. Aprendi a manter a língua dentro da boca. O padre Carlos, dia destes, disse-me que um dos dez sacramentos, não sei se o quinto, se o oitavo, nos ensina a não levantarmos falso testemunho. É um dos sacramentos que Deus riscou, no monte das Oliveiras, em uma das duas tábuas que Ele entregou para Moisés. Essa história está na Bíblia, numa das primeiras páginas do Novo Testamento, que é a segunda parte da Bíblia, e foi escrito depois do Velho Testamento. E um advogado, Luciano, amigo meu, disse-me, certa vez, que ao acusador cabe o ônus da prova, e que todas as pessoas são inocentes até prova em contrário, excluindo-se, obviamente, os nossos inimigos, pois todos eles nasceram culpados.

A tagarelice do homem que estava sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia distraiu Alfredo, que, enquanto o ouvia, sorria consigo diante dos equívocos nos quais ele incorria, os quais não foram poucos. Menos de vinte minutos depois, o homem, enquanto descia do telhado, despediu-se de Alfredo, que iria à cozinha, mas deteve-se à porta ao ouvir barulho na varanda. “Natália”, pensou. Seu coração vibrou, acelerado. Imóvel, procurou controlar os seus pensamentos e conservar consigo o governo do corpo. Respirou fundo. Expeliu todo o ar dos pulmões. Andou, lentamente, controlando os passos e a respiração, até a varanda. Deteve-se ao batente da porta que dava acesso do corredor à varanda. Entreviu Natália, atrás do carro, cujo bagaceiro estava com a porta levantada.

– Querida – disse, e andou na direção dela, e dela ouviu:

– Fredo, ajude-me com as compras.

– Nossa! Quanta coisa você comprou – exclamou Alfredo, ao se deparar com o bagageiro cheio.

– No banco há mais – disse Natália, sorrindo; ao voltar-se para Alfredo, fitou-o nos olhos. – Você esqueceu que dia será amanhã? Você está ficando velho. Comprei tudo isto para a festa de aniversário de papai. Amanhã ele fará oitenta anos.

Alfredo havia se esquecido.

– Comprarei para você um quilo de cérebro de elefante, Fredo. Agora, ajude-me com esses pacotes – e, carregando duas sacolas, uma em cada mão, afastou-se do carro. – Vou tirar estes sapatos, que estão moendo meus pés, triturando meus ossos, e, depois, vou para a cozinha preparar o almoço. Já é meio-dia. Como as horas passaram rápido, hoje – e retirou-se da varanda.

Alfredo ficou imóvel atrás do carro. Coçou o queixo. Passeou as mãos pelo rosto. Encheu os pulmões de ar – com as mãos aos quadris -, e os esvaziou. Lágrimas vieram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras e abaixou a cabeça. Removeu das órbitas dos olhos as lágrimas. Atormentava-o a ausência de uma resposta para a pergunta que se fazia: “Como vou contar para ela?” – referia-se à Natália e à morte de Cirilo. Conservou-se imóvel, atrás do carro, durante um bom tempo, até que resolveu retirar as sacolas e os pacotes do bagageiro do carro. Deteve-se, na primeira vez que entrou na sala-de-estar, e deixou pacotes e sacolas sobre a mesa. Mais uma vez, lágrimas vieram-lhe aos olhos. Alfredo removeu-as. Curvou-se sobre o encosto de uma das seis cadeiras que ladeavam a mesa, e nele pousou os cotovelos. Cerrou as pálpebras. Cobriu os olhos com as mãos, e pensou: “Como contarei para a Natália?”, referindo-se à morte de Cirilo. “Direi ‘Natália, seu pai morreu’? Não! O que desejo? Desejo a morte da minha esposa? Direi ‘A Vanessa disse-me que seu pai, Natália, morreu’? Diabos! Como eu lhe falarei da morte do Cirilo? Direi ‘Querida, hoje, não fui para Taubaté com o Roberto porque, minutos antes, atendi à campainha. Era a Vanessa, sua prima, que a tocara. Ela me disse, Natália, que seu pai morreu’? No que estou pensando? Não importa o que eu diga, a notícia cairá como uma bomba. Não saberei com quais palavras dar a notícia para a Natália. Cairei aos prantos. Talvez eu não caia aos prantos. Talvez as lágrimas se me sequem, não me venham aos olhos, e eu perca a voz, e eu fique paralisado. Talvez eu perca a consciência, e, parado, comporte-me como um tolo diante da Natália, que me perguntará: ‘O que houve, Alfredo? Você quer me dizer alguma coisa?’, e eu perderei a voz, e faltar-me-ão as palavras. ‘Querida – eu direi – sente-se, por favor. Hoje, a Vanessa, sua prima, esteve aqui, e, depois, o Roberto, e há uma hora, mais ou menos, sua mãe telefonou-me. Os três disseram-me que seu pai, de madrugada, enquanto dormia, faleceu’. Como a Natália reagirá à notícia? Seria como lhe cravar uma faca no peito, e empurrá-la até transpassar-lhe o coração. Terei de lançar mão de outro expediente. Como eu lhe darei à notícia? Eu lhe direi: ‘Querida, sente-se, por favor – se ela não estiver sentada. – Quero conversar com você. Sua mãe telefonou-me há uma hora e meia, e disse-me que seu pai morreu, na noite de hoje, e…’. Não. A Natália… Oh! Inferno! Como direi à Natália?”. Neste momento recompôs-se, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, tirou um lenço do bolso esquerdo traseiro da calça, e com ele enxugou os olhos, suspirou, e andou, pelo corredor, em direção ao quarto. Deteve-se ao enquadramento da porta. Dentro do quarto, Natália, sentada na cama, retirava da orelha esquerda o brinco. Alfredo restituiu o lenço ao bolso da calça, encheu os pulmões de ar, e os esvaziou, lentamente. Com os ânimos serenos – assim ele acreditava -, entrou no quarto. Natália voltou-lhe a atenção, enquanto curvava, ligeiramente, a cabeça para a direita e removia da orelha direita o brinco, o qual guardou num porta-jóias, enquanto Alfredo sentava-se à cama.

– O que aconteceu, Alfredo? – perguntou-lhe Natália. – Você está com um olhar estranho.

Assim que Natália abaixou a tampa do porta-jóias, Alfredo, em silêncio, estendeu-lhe as mãos, com as palmas para cima, pedindo-lhe as mãos. Natália pousou sobre as mãos dele suas mãos, intrigada e expectante. Seu olhar penetrava, profundamente, os olhos de Alfredo, como se lhe sondasse a alma, como se lhe esquadrinhasse o espírito à procura de uma resposta para o estranho comportamento dele. Natália intuiu que algo de triste se sucedera, mas não atinava com as razões do olhar alheado de Alfredo. Aguçou o olhar. Ativou todos os seus neurônios à procura de uma resposta.

Alfredo quebrou o silêncio:

– Natália, não fui, hoje, para Taubaté…

Natália franziu o cenho, fez ar de quem nada compreendia. Não viu correspondência entre a atitude e as palavras de Alfredo. Algo de estranho, pensou, sucedia-se. Não havia sentido, intuiu, Alfredo fazer ar de mistério, fisionomia sofrida, manter o silêncio e dar-lhe tal notícia.

– É só isso o que você quer me dizer, Alfredo?

– Não. Não, Natália. Sua mãe telefonou, há uma hora, mais ou menos.

– O que ela queria?

– Ela queria falar com você.

– A respeito de quê?

Alfredo não deu uma resposta. Natália conservou-se calada. Esperou que ele lhe dissesse o que desejava lhe dizer.

Alfredo, enfim, após alguns minutos de silêncio opressivo, disse, com voz entrecortada:

– Natália… Querida, meu sogro morreu.

 

A casa dos horrores

Quarta-feira. Dia quente. Ariadne chegou, às onze e meia, na sua casa, saltitando de felicidade, lindo sorriso a sublimar-lhe a beleza do rosto de traços suaves. Queria ir ao banheiro tomar um banho revigorante e, depois, almoçar; antes, porém, contaria para sua mãe, Carmem, as boas novas: 10, em História; e 9, em Biologia. Percorreu toda a casa à procura dela; não a encontrou. Contrariada, foi ao quarto. Deixou os cadernos e os livros sobre a escrivaninha, sentou-se na cama, e descalçou os pés; descalça, foi até o guarda-roupa, de cuja gaveta inferior retirou uma calcinha e um short, e uma camisa da gaveta superior. Ato contínuo, foi ao banheiro. Não trancou a porta. Pôs as roupas que retirara do guarda-roupa sobre a tampa do vaso sanitário. Despiu-se. Pôs-se sob o chuveiro. Abriu-o. Atingiu-lhe o corpo, que pedia um pouco de refresco, a água fria. Arrepiaram-se-lhe os finos pêlos dos braços. Ao acostumar-se com a temperatura da água, deixou-se molhar, deliciada.

Durante o banho, passeava as macias mãos pelo corpo sedoso. Feliz, elogiava-se, em pensamento, pelo seu desempenho nas provas de História e Biologia.

Ariadne queria seguir carreira de oftalmologista. Pretendia, no final do ano, prestar exame vestibular nas mais conceituadas universidades brasileiras. Como todos os jovens, construía suntuosos castelos no ar. Via-se, vergando o uniforme branco, em um consultório em cuja porta lia-se, em uma plaqueta: ‘Doutora Ariadne Almeida Vargas. Oftalmologista’.

A água escorria voluptuosamente pelo corpo exuberante de Ariadne, que empinava o busto e jogava a cabeça para trás, jogando, para as costas, os longos cabelos bem cuidados, permitindo, assim, que a água lhe atingisse o belo rosto. Com as pálpebras cerradas, abria a boca e a enchia com um pouco de água, soltando-a logo em seguida. Imersa no prazer que o banho permitia-lhe desfrutar, permaneceria sob o chuveiro por mais um bom tempo. De repente, ao golpear-lhe indefinível sensação de desconforto, abandonou os seus devaneios. Não saberia explicar, se alguém lha indagasse, o que a alertara para a ameaça que dela se aproximava. Descerrou as pálpebras. Voltada para a parede, de costas para a porta do banheiro, olhou por sobre o ombro esquerdo, e viu, a poucos centímetros de si, o corpo volumoso, nu, repulsivo, coberto de pêlos, de Clodoaldo, seu pai, cujos olhos, que transbordavam lascívia animalesca, miravam-na, e cuja fisionomia estampava rictus doentio, insano, crudelíssimo. Ariadne sentiu intenso calafrio percorrer-lhe o corpo e gelar-lhe a espinha. Era indisfarçável o estado de embriaguez de Clodoaldo, que exibia rosto inchado, avermelhado. O odor que ele exalava feriu o nariz de Ariadne, que, assustada, petrificada, encarou-o, olhos arregalados; ao abaixar o olhar, ela se assustou com o que viu, e, automaticamente, adivinhou as intenções de seu pai.

Clodoaldo segurou o pênis ereto e exibiu-o para Ariadne, que começou a tremer, a balbuciar palavras desconexas. Dos olhos dela escorreram lágrimas. Clodoaldo deu um passo para a frente. Ariadne preparou um berro. Clodoaldo precipitou-se sobre ela, cobriu-lhe a boca com a sua enorme mão áspera, impedindo-a de gritar, e sussurrou-lhe obscenidades, numa voz cavernosa – e de sua boca escapava hálito putrefato. Apertou-se nela. Esfregou-se nela. Buscou, com os lábios, os lábios de Ariadne, que tentou, em vão, com as mãos, afastá-lo de si. Ele a premiu à parede, enfiou-lhe as mãos entre as coxas, para forçá-la a afastar as pernas uma da outra. Ariadne resistia, mas nada podia fazer em sua defesa. Clodoaldo era corpulento, pesado, forte. Ariadne, de um pouco mais de um metro e sessenta centímetros de altura e sessenta quilos, não podia lhe opor resistência. Clodoaldo mordeu-lhe o lábio superior, ao mesmo tempo que, com a mão direita, puxava-lhe os pêlos pubianos e, com a mão esquerda segurando o pênis ereto, forçava a penetração. Os seus músculos estavam contraídos; os vasos sanguíneos, intumescidos. Ariadne não conseguiu protestar, nem clamar por socorro. Deu início a um grito sufocado, que Clodoaldo abafou cobrindo-lhe a boca com a mão direita.

Ariadne chorava, convulsivamente.

Clodoaldo, frustrado com as suas infrutíferas tentativas de violar Ariadne, emitiu um abafado urro de raiva e, ao mesmo tempo, com as coxas esforçava-se, em vão, para afastar as pernas de Ariadne uma da outra. Contrariado, surpreso com a resistência de Ariadne, retirou-a, apertando-lhe o pescoço com a mão direita e o braço direito com a mão esquerda, de sob o chuveiro. Ariadne quis resistir, mas não pôde impor resistência a um homem dez vezes mais forte do que ela.

Ariadne sentiu dor insuportável.

Clodoaldo, nervoso, irritado, impaciente, encaixou um potente soco no ventre de Ariadne, roubando-lhe o ar dos pulmões. Ariadne chorava, aterrorizada. Clodoaldo puxou-a pelos cabelos, jogou-a no chão, de costas, deitou-se sobre ela; com os lábios ardendo de bestialidade, sugou-lhe os lábios, mordeu-os, ao mesmo tempo que com a mão direita segurava o pênis ereto e forçava-o para dentro de Ariadne – enquanto com a mão esquerda puxava os cabelos dela, infligindo-lhe dores indescritíveis. A dor que Ariadne sentiu, no exato momento da penetração, quase lhe roubou a consciência. Ela sentiu o ventre rasgando-se. Clodoaldo, ávido, lascivo, desferiu estocadas violentas, indiferente à pungente dor que lhe infligia e ao seu choro convulsivo. Enquanto ejaculava, a intensa sensação de prazer que o invadiu fê-lo mais agressivo, mais bestial, mais rude, mais grosseiro, e impeliu-o a mover-se com estocadas mais furiosas, ferindo Ariadne mais profundamente. Ao sentir-se satisfeito, de Ariadne retirou-se e conservou-se, as pernas abertas e os joelhos no chão, sobre ela, exibindo-se-lhe, e ameaçando-a:

– Você, boneca deliciosa, nada contará para sua mãe. Belezinha! Gostosinha! Entendeu, brotinho? Docinho! Se você der um pio, cabacinha, matarei você. Se você abrir o bico, matarei você, boquinha lindinha do papai. Está vendo, menininha gostosinha, o que tenho nas mãos? – e esfregou-lhe o pênis flácido no rosto. – Você já experimentou o papai, peitudinha. Esta foi a primeira vez, cabacinha. E não será a última. Entendeu? Se você contar alguma coisa para sua mãe, arrebentarei você. Você é minha filha, fofurinha do papai. Com você, faço o que bem entender. Entrarei em você sempre que eu desejar. Belezinha. Filhinha do papai. Com você, faço o que quiser. O que quiser, entendeu? Se você abrir o bico, matarei você. Ai de você, vadiazinha do papaizão, vagabundinha deliciosa, se você contar para sua mãe. Sabe o que farei, se você der com a língua nos dentes, cabacinha? Arrombarei você e enfiarei uma faca no seu coração, entendeu, cabacinha? Arrombarei você. Belezurinha, entrarei pela porta dos fundos e pela porta da frente. Se você contar para alguém, cabacinha, matarei você. Terei o seu sangue nas minhas mãos. Belezinha. Cabacinha. Se você contar para sua mãe, ou para qualquer pessoa, matarei você. Matarei você! Não estou brincando, vadiazinha, depravadazinha. Não estou brincando. Arrombarei você, matarei você, farei picadinho de você, e lamberei os seus ossos, e jogarei os seus pedaços para os vira-latas. Entendeu, cabacinha? Se você contar para alguém, matarei você. Matarei você, uma, duas, três vezes. Matarei você quantas vezes eu quiser.

Ariadne, sem forças para se levantar, conservou-se deitada, a chorar convulsivamente. Todo o seu corpo doía-lhe. Vibrava-o dores insuportáveis. Ela nunca havia se sentido tão indefesa, tão impotente, tão frágil, tão desamparada, tão abandonada, tão só.

– Levante-se, bonequinha. Cabacinha do papai. Vista-se, fofurinha vadia – gritou Clodoaldo, ao mesmo tempo que puxava Ariadne pelos cabelos e jogava-lhe as roupas em cima. – Não quero que sua mãe veja você assim, nuazinha em pêlo, cabacinha. Pare de chorar, belezinha do papai. Levante-se! Enxugue as lágrimas, garotinha mimada. Levante-se! Você quer brincar mais um pouquinho com o papaizinho? – deu-lhe dois pontapés, apertou-lhe os braços e a pôs sentada, no chão, encostada à parede. O rosto de Ariadne, deformado pelo medo e pela dor, estava irreconhecível. – Pare de chorar, vagabundazinha! O mundo não desabará porque entrei em você, belezurazinha do papai. Não faça docinho, lindinha do papai. Não faça biquinho, pitéuzinho. Para o chuveiro, cabacinha! Limpe-se! Cabacinha, tire todo esse sangue daqui. Que sujeira você fez! Vagabundazinha vadia do papai! Você sujou o banheiro, cabacinha. Nunca vi tanto sangue em minha vida! Nem no açougue do Baião há tanto sangue!

Ariadne pôs-se sob o chuveiro, sentada, as pernas encolhidas. Abraçou-as. Enfiou a cabeça por entre os joelhos, mantendo-a presa entre eles. Chorava convulsivamente. Clodoaldo perdeu a pouca paciência que lhe restava, desligou o chuveiro, arrastou Ariadne, pelo braço, machucando-o, até o quarto, jogou-a sobre a cama, voltou ao banheiro, pegou uma toalha, regressou ao quarto, e pôs-se a enxugar Ariadne; admirava-lhe o corpo bem feito, apertava-lhe os peitos, sugava-lhe os mamilos e ameaçava violá-la mais uma vez.

*

Ariadne testemunhava, diariamente, discussões violentas entre seu pai e sua mãe – discussões que, infalivelmente, degeneravam em violência física. No quarto, deitada em posição fetal, chorava convulsivamente. Os seus sentimentos, confusos, indefiníveis, perturbavam-na. Certo dia, Clodoaldo surrou Carmen com tanta violência que lhe pôs hematomas em todo o corpo e quebrou-lhe o nariz e o braço esquerdo. Em outra ocasião, Clodoaldo quebrou uma vassoura nas costas de Carmen, e espancou-a, dias depois, a ponto de roubar-lhe a consciência. Ariadne ficou apavorada no dia em que viu Clodoaldo estuprar Carmen, e recolheu-se ao quarto. Não dormiu à noite. Não conseguiu afugentar de si as imagens terríveis que presenciara e as lembranças do dia em que foi estuprada. Temia que Clodoaldo invadisse o quarto, a atacasse e a violentasse.

*

A casa estava imunda. Era um antro de criaturas repulsivas. Ratos, baratas e outros animais peçonhentos circulavam, livremente, de um lado para o outro, por toda a casa, que, meses antes, brilhava de tão limpa. Ariadne, antes, caprichosa, era quem conservava o brilho da casa, com faxina diária; agora não se incomodava com a imundície.

Num certo dia, a voz embargada, durante uma conversa com sua mãe, assim que ela lhe perguntou porque estava tão triste, disse-lhe:

– Mãe, o pai me estuprou.

Carmen alterou-se de imediato; furiosa, fungando, desferiu um tapa no rosto de Ariadne, que ficou apavorada com tal reação. Carmem esbofeteou-a, cuspiu-lhe ofensas. Ariadne não reagiu; sentiu a consciência dissipar-se. Não recuou, no início, tão surpresa com a reação de sua mãe, pois acreditara que dela ouviria palavras de consolo, afinal, ela, Carmen, era sua mãe, e, além disso, Clodoaldo a havia estuprado. Como os tapas, os socos e os insultos sucederam-se, avassaladoramente, protegeu-se com os braços e os antebraços, e impôs débil resistência. Carmem puxou-lhe os cabelos, forçou-a a curvar-se, e deu-lhe tapas nas costas e no rosto.

– Você, filha… Fala de seu pai… – repreendeu-a Carmen. – Não o calunie, filha ingrata. Ele trata tão bem você. Seu pai é um homem amoroso. Ele é seu pai, cadela. Cadela! Vagabunda! Por que você fala isso de seu pai? Por que você inventa essas histórias? Por que, ingrata? Vadia! Cachorra! Não admitirei que você calunie seu pai, filha ingrata. Ele sempre tratou tão bem você! Ele sempre foi amoroso com você! Cadela vagabunda! Por que você inventou essa história?

– Não inventei história… – defendeu-se Ariadne, aos prantos. – Eu disse a verdade; você sabe que eu disse a verdade. Ele… Ele… Eu, no banheiro… Ele… Ele entrou… Ele me agarrou… Ele me deu um murro… Ele… Ele… Mãe… Ele me jogou no chão… Deu-me um murro… Ele me forçou… Mãe, ele… Eu… Ele me ameaçou… Ele me disse… Se eu contasse… Ele me disse… Ele me mataria… Ele me disse…

– Mentirosa! Vagabunda! – berrou Carmen, que, furiosa, deu um tapa em Ariadne, arremessando-a sobre uma cadeira.

– É verdade, mãe – retrucou Ariadne, aos prantos, mal conseguindo pronunciar as palavras. – Estou falando a verdade. Por que eu mentiria? Ele… Ele… – impediam-na de falar os soluços e o choro convulsionado. – Ele… Ele me ameaçou… Ele me estuprou… Ele…

– Cale a boca, vagabunda! – berrou-lhe Carmen, ao mesmo tempo que ameaçava dar-lhe um tapa. – Seu pai é um homem amoroso.

– Amoroso? Ele… Eu… Eu o vi batendo em você… – disse Ariadne, soluçando, gaguejando. – Ele deu murros na sua barriga, mãe… Com a vassoura… Ele quebrou seu nariz… Ele deu murros em você, mãe. Eu vi… Vi… Vi, um dia… na quarta-feira… ele… ele…  – mal podia falar; tremiam-lhe os lábios, convulsivamente. – Ele… Ele… Eu o vi… – Não pôde concluir a frase.

Carmen acertou-lhe, na cabeça, uma série de cinco socos. Ariadne, que já chorava, convulsivamente, agora, encolhida em posição fetal, no canto da cozinha, espremida entre a geladeira e a parede, a vibrar em espasmos de dor e de medo, chorava copiosamente, mal conseguindo respirar.

– Mentira! Mentira! Mentira! – esgoelava-se Carmen, enfurecida, enquanto esmurrava Ariadne. – Você nunca viu… Vagabunda! Nada aconteceu, filha ingrata! Cadela vagabunda! Seu pai nunca me bateu! Vagabunda! Suma da minha frente, filha ingrata! Seu pai é um homem amoroso! Pare de inventar essas histórias, vagabunda! Cadela! Vagabunda! Cadela! Piranha! Puta! Vagabunda! Você se ofereceu para seu pai, puta! Você o seduziu, vagabunda! Você se entregou para ele, puta! Puta! Você seduziu seu pai. Você se entregou para ele. Cadela! Vagabunda! Puta, suma da minha frente!

Ariadne mal conseguiu pôr-se de pé. Carmen, furiosa, olhos cheios de ódio, ergueu-a pelos cabelos, esbofeteou-a. Ariadne retirou-se da cozinha, cambaleando. Carmen arremessou-lhe um copo, acertando-lho nas costas. O copo estilhaçou-se. Ariadne, cambaleando, aos prantos, a chorar convulsivamente, andou pelo corredor até o seu quarto. Entrou. Fechou a porta, à chave. Deixou-se cair sobre a cama. Chorou, durante as seis horas seguintes, até adormecer. Do quarto retirou-se, com o rosto inchado, os olhos avermelhados, os cabelos despenteados, trajando camisa e calça amarfanhadas, ao amanhecer. Andou, sem rumo, pela cidade. Regressou, esfomeada, exausta, imunda, noite alta, entrou no quarto, trancou-o à chave, jogou-se na cama, e dormiu.

*

No seu quarto, sentada na cama, livro e caderno sobre as pernas cruzadas, um lápis na mão direita, Ariadne estudava para a prova de Matemática, marcada para o dia seguinte. Fazia alguns cálculos, recorria às explicações do livro, mordia a ponta do lápis, concentrada, de cenho franzido, nas questões propostas pela professora.

A porta abriu-se, de repente, com um golpe violento. Ariadne, assustada, os olhos esbugalhados, voltou-se para a porta, em cujo enquadramento viu, para o seu horror, Clodoaldo, que a fitava, bufando, ameaçador. Ondas de calafrio percorreram o corpo de Ariadne, que sentiu o sangue se lhe fugindo. Ariadne largou o lápis, encostou-se à cabeceira da cama, abraçou as pernas, enfiou a cabeça no espaço entre elas, e começou a gemer, a soluçar, a chorar, antecipando os eventos subseqüentes. Tremia, apavorada. Sabia o que lhe sucederia. Clodoaldo fechou a porta atrás de si, à chave, mirando Ariadne com olhos encolerizados, fisionomia carregada; andou até ela, e, num tom áspero, ameaçador, rilhando os dentes, disse-lhe:

– Cabacinha, você contou para sua mãe…

Ariadne tremia, balbuciava qualquer coisa, amedrontada.

– Cabacinha, você contou para sua mãe… – disse Clodoaldo, que se curvou sobre Ariadne, puxou-lhe, pelos cabelos, a cabeça. Dos olhos de Ariadne escorriam lágrimas copiosas, e seus lábios tremiam convulsivamente. – Não chore, queridinha do papai. Papai avisou você, fofinha, não avisou? Papai disse para você, vadiazinha, não contar para sua mãe, não disse? Papai está triste com a filhinha queridinha. Filhinha cabacinha é desobediente. Filhinha queridinha merece castigo. – Enquanto dizia-lhe isso, desabotoava-lhe a camisa. Ariadne estava paralisada pelo terror-pânico que a avassalava. Assim que, animada por alguma força oculta, principiou um grito, Clodoaldo, furioso, deu-lhe um soco na face esquerda, com tanta força, que Ariadne caiu, desacordada, o nariz a jorrar sangue. Clodoaldo, rilhando os dentes, resmungando maldições e obscenidades, rasgou-lhe as roupas, deitou-se sobre ela, e a estuprou. Após se satisfazer, não removeu o sangue que manchava os lençóis e o que enfeava Ariadne, abandonada, lá, como uma boneca imunda.

*

– Você… – gritou Carmen, com toda a força dos pulmões – … a Ariadne?

– Não – respondeu Clodoaldo, áspero. – Por quem você me toma? Sou um homem amoroso. Por que me pergunta se estuprei a Ariadne? Sou um homem amoroso, vadia.

Clodoaldo, fora de si, enraivecido, avançou para cima de Carmen, deu-lhe um forte tapa na face esquerda. Carmen caiu no chão. Não teve tempo nem de pensar em se levantar, pois Clodoaldo pulou sobre ela, surrou-a, rasgou-lhe as roupas, a pôs de bruços, e a sodomizou.

*

A casa estava imunda. Havia meses ninguém a varria, ninguém removia o pó que cobria os móveis e nem as teias de aranhas que se acumulavam em todo canto.

As aranhas criaram várias colônias, com dezenas de indivíduos em cada uma delas, em toda a casa. No chão, havia sujeiras de rato em todo lugar.

Insuportável o cheiro que empesteava a casa.

Eugênio, irmão de Ariadne, definhava a olhos vistos. Sofria nas mãos de sua mãe e nas de seu pai. Eles o surravam com freqüência, duas, três, quatro, cinco vezes ao dia. O seu corpo franzino não suportaria por muito tempo as surras que lhe eram aplicadas. Estava esquelético, cadavérico. O seu olhar, desprovido de vida. Vivia emudecido pelos cantos. Conversava e brincava com os ratos – os seus únicos amigos -, que lhe comiam nas mãos migalhas de pão, pequenos insetos mortos, legumes e verduras podres.

Ariadne não era mais aquela moça prendada que apreciava limpar a casa e conservá-la limpa para apresentá-la aos amigos. Vestia-se com desleixo. Não se aplicava nos estudos, como antes. Nas provas bimestrais, em Matemática, tirou 3,5; em Biologia, 2; em Língua Portuguesa, 1,5; Em História, 1; em Geografia, 1,5. A sua freqüência escolar, que era de 100% das aulas, despencou para 10%. Não se interessava, nem pelos estudos, nem pelos amigos – dos quais se afastou -, e não pensava mais na sua carreira, com a qual sonhava desde tenra infância. Perdeu a vontade de viver. Eugênio, três anos mais novo do que ela, tão estragado pelos castigos e pelos sofrimentos que seu pai e sua mãe infligiam-lhe, que aparentava oitenta anos mal vividos.

Ariadne não conversava com seu pai e nem com sua mãe – para eles nem olhava. Evitava-os. Provocava-lhe calafrios a  figura de seu pai; quando ele lhe descia o olhar, Ariadne tremia, incontrolavelmente, mesmo que não olhasse para ele. Era como se a sua pele queimasse, atingida pelas labaredas infernais que os olhos de Clodoaldo disparavam.

Indiferente ao estado deplorável da sua casa, Ariadne dela entrava e saía.

Ariadne abandonou os estudos. Não se interessava pelos livros. Desistiu dos seus sonhos. A oftalmologia era um assunto que não mais lhe despertava o interesse. Estabeleceu relações com ladrões, assassinos, traficantes de drogas. Envolveu-se com tráfico de drogas, estelionato, assaltos, seqüestros, contrabando de armas e prostituição. Vendia seu corpo para qualquer homem, para sustentar os seus vícios.

*

Eugênio vivia em meio às baratas, às lacraias, aos ratos, aos escorpiões e aos percevejos que infestavam o seu quarto, no qual ninguém, além dele e de Ariadne, entrava.

À noite de um sábado, após participar de um assalto a banco, consumir maconha, cocaína e crack, embebedar-se e protagonizar uma orgia sexual durante a qual estabeleceu o intercurso sexual com quatro homens, deles realizando todas as fantasias, Ariadne, vergando um vestido amarelo manchado de sangue, sêmen, bebidas, e salpicado de pós, entorpecida, andou, entrançando as pernas, tateando as paredes, pela casa, até o quarto de Eugênio, enquanto Eugênio dormia, abriu a porta, e entrou. Não se incomodou com as criaturas asquerosas que infestavam o quarto – já havia se familiarizado com elas. Aproximou-se da cama imunda em que Eugênio dormia profundamente, tendo ao lado duas ratazanas repulsivas e sobre o corpo aranhas grotescas e escorpiões, que se digladiavam.

– Eugênio – sussurrou Ariadne, curvada ao lado da cama, os joelhos pousados no chão.

Fitaram-na as ratazanas, as aranhas e os escorpiões.

Ariadne tocou Eugênio no ombro direito. Ele não acordou. Não se notava a sua respiração. A sua aparência, a de um cadáver. Eugênio exalava odor mefítico.

– Eugênio – disse Ariadne, ao mesmo tempo que o tocava no ombro.

Eugênio despertou, e voltou-se para Ariadne, que, antes que ele pronunciasse qualquer palavra, colou seus lábios carnudos, sensuais, nos lábios dele, frios e descoloridos.

Retiraram-se da cama, escalaram a parede e acomodaram-se no teto, ao canto, as aranhas e os escorpiões.

Recolheram-se ao guarda-roupas as ratazanas.

*

– Vagabunda! Ariadne, você é uma vadia! Pervertida! – ofendeu-a Carmen, e desferiu-lhe dois tapas. Ariadne não reagiu. – Puta! Puta! Suma da minha casa, vadia. Bandida! Puta!

Duas ratazanas, exibindo dentes afiados, entraram na cozinha imunda e correram na direção de Carmen, que, ao vê-las, assustou-se, e pulou sobre uma cadeira. Ariadne exibiu, num contido sorriso de satisfação, seus lindos dentes brancos. Uma ratazana, a maior delas, deu um salto sobre a cadeira em que Carmen estava, avançou à perna de Carmen, e mordeu-a. Do ponto atingido escoou sangue em profusão. A outra ratazana, no chão, olhava, detidamente, para Carmen, sem dela tirar os olhos.

Assustada, a berrar, enlouquecida, Carmen deu um pulo, caiu sobre a cadeira, desequilibrou-se, e estatelou-se no chão. A ratazana que estava no chão pulou no rosto dela, e mordeu-o na comissura direita dos lábios. Sangue escapou do ferimento.

Ao ouvirem um agudo e quase inaudível assobio, as ratazanas afastaram-se de Carmen, e retiraram-se da cozinha. Era Eugênio, que, do seu quarto, as chamava. O olhar aterrorizado de Carmen encontrou-se com o de satisfação de Ariadne, que girou nos calcanhares, e foi para o quarto de Eugênio, no qual entrou, e trancou a porta à chave.

*

Às quatro horas da tarde de um sábado, Ariadne entrou na sua casa. Não se incomodou com a imundície. Sua mãe estava na cozinha. Entreolharam-se. Carmen leu, nos olhos de Ariadne, desprezo e superioridade. Ariadne passou por ela, e foi ao quarto de Eugênio. Entrou. Trancou a porta à chave. Retirou-se do quarto, no domingo, às nove horas da manhã, trajando um vestido que lhe realçava a formosura do corpo.

*

Enormes aranhas peludas andavam pelas paredes e pelo teto da casa. Ninguém as incomodava. Havia muito lixo acumulado no quintal onde o mato e as ervas daninhas dominavam. Havia centenas de colônias de escorpiões, ratazanas, aranhas e lacraias no quintal e dentro da casa.

Clodoaldo, embriagado, chegou em casa. A sua fisionomia, de dar arrepios. Engrolava as palavras. Resmungava, ciciando, palavras impronunciáveis, obscenidades e vitupérios. Empesteou a casa com o miasma que exalava. Na cozinha, sentou-se à mesa, e segurou a cabeça com as mãos, os cotovelos fincados na mesa. Trinta minutos depois, Ariadne chegou e deteve-se ao batente da porta que dava acesso da sala à cozinha.

Detiveram-se, e fitaram Ariadne e Clodoaldo as aranhas que passeavam pela parede.

– Cabacinha vagabunda! – berrou Clodoaldo. – Cabacinha, você não é minha filha. Vagabunda! Cabacinha, você vai se arrepender! Você não é minha filha, cabacinha! Vou fazer você engolir o seu sangue. Farei picadinho de você, vadia!

Ariadne fitou Clodoaldo com olhar de desprezo, meneou a cabeça, esboçou sorriso escarninho; com andar firme, a coluna ereta, fitando-o, imperiosa, passou por ele e entrou no quarto de Eugênio.

– Aranhas malditas! Aranhas malditas! – berrou Clodoaldo, num tom enraivecido; de sua boca escorria saliva tinta de sangue. Cuspiu sobre uma aranha, que correu, e saltou para a parede, deixando atrás de si um rastro gosmento. Uma aranha seguiu-a. E ambas desapareceram atrás da geladeira.

Clodoaldo tirou do pé direito o sapato, e jogou-o contra uma aranha, que o fitava, esmagando-a na parede. A aranha caiu no chão, em contorções espasmódicas. Clodoaldo, ao levantar-se, empurrou a cadeira para trás, derrubando-a. Furioso, agarrou-a por duas pernas, e quebrou-a contra a parede. Empunhando as duas pernas da cadeira, mirou uma aranha que andava na porta da geladeira. A aranha esquivou-se dos golpes. Do nariz de Clodoaldo escorria sangue apretejado da consistência de manteiga. Quatro aranhas pularam sobre Clodoaldo, e morderam-no, no rosto, no braço esquerdo, no pescoço, e na cabeça, próximo da orelha direita. Clodoaldo caiu, escabujando. Soltou sangue pela boca, pelas narinas, pelas orelhas e pelos olhos. Pousou as mãos sobre o peito esquerdo, apertando-o num esforço para manter o coração dentro do peito. Seu corpo assumiu consistência rochosa. Carmen ouviu os gritos abafados de Clodoaldo, e correu a acudi-lo; dele afastou as aranhas. Estava transtornada, estupefata. Não acreditava no que via: o seu marido a escabujar, a expelir sangue por todos os orifícios do corpo, a cuspir jorros de sangue apretejado com saliva amarelo-esverdeada, a balbuciar palavras inaudíveis. Debruçou-se sobre ele, e pousou-lhe as mãos no rosto.

– Marido amoroso – sussurrou-lhe, apavorada.

Ariadne e Eugênio, no quarto de Eugênio, fingiam que nada ouviam. Extraíam prazer um do outro. E quanto mais elevados os lamentos de Carmen, mais prazer eles desfrutavam.

Os lamentos de Carmen e os gemidos de Clodoaldo eram afrodisíacos para Ariadne e Eugênio.

*

Clodoaldo ficou dois meses internado no hospital. Extraíram-lhe o veneno que as aranhas lhe haviam inoculado.

– Não entendo – disse o médico. – Não entendo, dona Carmen. As aranhas injetaram no seu marido veneno suficiente para matar vinte homens do tamanho dele. Não entendo. É estranho. O seu marido esteve em vias de partir desta para a melhor. Mas… Não sei o que dizer para a senhora… Confesso: este caso merece mais atenção; não posso explicá-lo. Todos os médicos os quais consultei ficaram, do mesmo modo que eu, estarrecidos; alguns deles, impressionados, embora habituados com fatos inexplicáveis, incrédulos, desconfiados, perguntaram-me se eu lhes pregava uma peça. Na mente deles associaram-se, para atormentá-los, a incredulidade e o fascínio. Não sei se me expresso com as palavras apropriadas. Peço desculpas, dona Carmen, se não me explico com clareza… Bem, dona Carmen, o seu marido convalesce. A senhora poderá levá-lo para casa… A senhora acredita em milagres? Na ausência de explicações… Não entendo… Não há explicações científicas para o caso do seu marido, dona Carmen. É inexplicável. Foi um milagre, posso dizer. Foi um milagre…

Carmen ouviu-o, em silêncio, mas não prestou atenção ao que ele lhe disse, pois olhava para uma minúscula aranha, que, do teto, a fitava, atentamente.

*

Assim que regressou à sua casa imunda infestada de criaturas repulsivas, que passeavam, livremente, pelo chão, pelo teto, pelas paredes, Carmen dirigiu-se ao seu quarto, no qual, embora imundo, nenhuma criatura entrava. Ela sabia que, se não incomodasse Ariadne e Eugênio, nenhum escorpião, nenhuma aranha, nenhuma ratazana, nenhuma lacraia a atacaria. Deitou-se na cama imunda. Exausta, o sono a surpreendeu. Berros ensurdecedores despertaram-na dez minutos depois. Sobressaltada, ouviu as obscenidades cuspidas por um homem. Sonolenta, a mente entorpecida pelo sono bruscamente interrompido, apurou os ouvidos. Chegaram-lhe aos ouvidos a voz cavernosa de um homem e a voz atrevida e provocadora de uma mulher, Ariadne.

O homem, um sujeito de má catadura, facínora, que atendia pela alcunha de Tigre, cuspia obscenidades, e empunhava uma faca cuja extremidade, afiadíssima, encostava à ilharga direita de Ariadne, ferindo-a. Tigre não atentou para a imundície e as criaturas repulsivas que infestavam a casa. Lambeu a orelha direita de Ariadne. Apalpou-lhe a nádega esquerda, apertou-a e nela cravou as grossas unhas sujas. Mordeu-lhe o lóbulo da orelha direita, puxando-o, ao mesmo tempo que lhe passeou, por entre as nádegas, o índex e o médio, e enfiou-lhe, na ilharga, a faca, extraindo-lhe sangue, que lhe escorreu pelo corpo e manchou-lhe o vestido. Ameaçou violentá-la e matá-la.

No seu quarto, Carmen ouvia o que se passava entre Ariadne e Tigre. Percorreram-lhe o corpo ondas de calafrio. A porta do quarto estava entreaberta. Carmen viu Tigre desferir, com o dorso da mão esquerda, um tapa no rosto de Ariadne, e, com as duas mãos e o peso do próprio corpo, empurrá-la sobre o sofá. Apavorada, recolheu-se ao canto do quarto, e conservou-se em completo silêncio.

Tigre esmagou, involuntariamente, dois escorpiões.

Aranhas, escorpiões, lacraias, baratas, ratazanas, acompanharam, atentamente, todos os movimentos de Tigre e Ariadne. Prepararam-se para saltar sobre Tigre, que esbofeteava Ariadne, cuspia-lhe obscenidades e ameaçava matá-la, se ela resistisse. Com Ariadne de costas para si, Tigre mordeu-lhe o pescoço; com a mão esquerda, ergueu-lhe o vestido, e, com a direita, apertou-lhe o peito. Ariadne não reagiu. Havia visto as criaturas repulsivas na sala; sabia que, bastaria um sinal seu, que todas elas saltariam sobre Tigre.

Tigre desafivelou o cinto, desceu o zíper, e abaixou a calça e a cueca.

Ariadne cerrou as pálpebras.

Dez escorpiões saltaram às pernas de Tigre, que se empinou, olhou para baixo, e os viu. Antes que pudesse emitir um grito de pavor, um escorpião cravou-lhe o ferrão no pênis. Tigre afastou-se de Ariadne. Quis gritar. Não conseguiu, tão insuportável lhe era a dor. Brandiu a faca, e soltou-a no chão. Movia-se com gestos bruscos. Soltava saliva gosmenta pela boca escancarada. Urinou sangue. Defecou fezes inconsistentes, que lhe borraram as pernas peludas. Ariadne recompôs-se. Aranhas cobriram-lhe o ferimento, estancando-lhe o sangue. Ratazanas lamberam-lhe o sangue que escorria pelas pernas e o que lhe manchava o vestido. Um escorpião feriu a mão direita de Tigre. Outro saltou-lhe à perna, escalou-a, e forçou-se para dentro do ânus dele. Tigre, imóvel, a boca escancarada, circunvagou os olhos pela sala; viu centenas de escorpiões, aranhas, ratazanas, lacraias e serpentes avançando em sua direção. Ariadne, serena, impassível, deliciava-se com o cenário, lambia os beiços, a desfrutar de prazer inconcebível.

Aranhas atiraram teias sobre Tigre, que se debatia. Escorpiões o escalaram. Ratazanas, lacraias, baratas e serpentes morderam-lhe as pernas. Aranhas pularam sobre Tigre. Serpentes enrodilharam-se-lhe às pernas, e afastaram uma da outra. Tigre perdeu o equilíbrio. Ratazanas atacaram-no e morderam-lhe o rosto, os braços, as pernas, as nádegas, a barriga. Tigre caiu. As criaturas repulsivas cobriram-no e abafaram-lhe os berros. Penetraram-lhe o corpo por todos os orifícios, e começaram a devorar-lhe a língua, os lábios, os olhos, os pés e as mãos.

Ariadne, inexpressiva, assistiu ao horripilante espetáculo.

As criaturas devoraram Tigre, de quem não sobrou nem os ossos, em menos de dez minutos, e retiraram-se da sala.

Escorpiões carregaram o revólver, a faca, a fivela da cinta, os dois anéis de ouro que Tigre trazia no dedo médio da mão direita e a pulseira reluzente até Ariadne, que os pegou, e, duas horas depois, deles se desfez por um bom preço.

Ninguém nunca mais ouviu falar de Tigre. As pessoas que o viram entrando na casa de Ariadne e não o viram de lá se retirar nada disseram a respeito.

*

Carmen perdeu a sanidade. Errava pelas ruas. Esbravejava. Relatava histórias absurdas – muitas delas verdadeiras. Falava da sua casa, de sua filha, de seu filho, do seu marido, dos ratos, escorpiões, baratas e aranhas que infestavam a sua casa. Relatou, com pormenores, o ataque das aranhas a Clodoaldo e a morte de Tigre. As pessoas que a ouviram não lhe deram atenção. Para elas, Carmem era uma louca e tinha de ser internada num hospício. Dela zombavam, ridicularizavam-na; dela espalharam histórias estapafúrdias. Certo dia, Carmen desapareceu, e dela ninguém nunca mais ouviu uma notícia.

*

Clodoaldo regressou à sua casa. Com passos pesados, cenho carregado, foi até a cozinha, onde Ariadne e Eugênio, à mesa, conversavam, animadamente, e deteve-se a dois metros de Ariadne, estupidificado com o que viu: Sobre a mesa, três ratazanas; nas paredes e no teto, escorpiões e aranhas a caminhar livremente; no chão, centenas de baratas e lacraias; ao colo de Ariadne, uma aranha peluda, e Ariadne a acariciá-la e a osculá-la carinhosamente; ratazanas grotescas nos braços e nos ombros de Eugênio e na sua cabeça cadavérica de olhos projetados para fora das órbitas.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo. Ariadne ignorou-o.

Um escorpião escalou as costas de Ariadne, e subiu-lhe à cabeça. Clodoaldo arregalou os olhos.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, enraivecido, fitando-a com olhos sinistros.

Ariadne não lhe deu atenção; ignorou-o como se não o visse, como se não o ouvisse. Gargalhava. Brincava com as aranhas, que a acariciavam.

Clodoaldo deu dois passos na direção de Ariadne. Puxou-lhe o vestido de tecido fino, que não resistiu ao puxão, e rasgou-se. A aranha que estava nas mãos de Ariadne atirou teia sobre a mão direita de Clodoaldo. As ratazanas que brincavam com Eugênio e o escorpião que se encontrava sobre a cabeça de Ariadne encararam Clodoaldo. Eugênio rilhou os dentes e, com seus olhos sinistros, fitou Clodoaldo, que não lhe deu atenção.

– Você é surda, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, aos berros, para Ariadne. – Cabacinha, perguntei onde está sua mãe – e puxou-lhe o vestido. Ariadne levantou-se, altiva. Clodoaldo puxou-lhe, novamente, o vestido, desnudando-a, e agarrou-a pelo pescoço, com a mão direita, enquanto apertava-lhe, com a mão esquerda, o peito esquerdo. – Você não quer me contar, cabacinha vadia, onde está sua mãe? Vagabunda, você não quer me contar onde está sua mãe? Então, vou arrancar as suas entranhas – e empurrou-a sobre a mesa, e debruçou-se sobre ela. De seus olhos chispavam labaredas de ódio; de sua boca escapavam perdigotos, que queimavam o corpo de Ariadne, ao atingi-lo. Clodoaldo assemelhava-se a mitológicos monstros flamívomos que aterrorizavam os povos antigos.

Milhares de escorpiões, aranhas, baratas, lacraias e ratazanas pularam sobre Clodoaldo, o cobriram, e, antes de ele esboçar um protesto, o devoraram.

*

Ariadne e Eugênio viviam com os escorpiões, as aranhas, as lacraias, as ratazanas e as baratas.

Na casa imperava a imundície.

*

No teto do quarto de Ariadne, ao canto, uma imensa bola de teia de aranha. No chão da cozinha, um enorme ninho de rato.

Numa noite de frio rigoroso, Ariadne rompeu o envoltório de teia e, nua, desceu do teto para o chão.

Na cozinha, Eugênio despertou e, nu, saiu, guinchando, do ninho.

Ariadne foi até Eugênio, envolveu-o com uma bola de teia e, com voracidade, o devorou.

De Eugênio não sobrou nem uma gota de sangue.

 

A travessia

Era uma segunda-feira do mês de fevereiro. E na loja de materiais de construções Moreira & Moreira, José Luiz desincumbiu-se das suas tarefas não sem dificuldades; para o exercício de algumas delas não pôde dispensar o auxílio de outros funcionários.

Não foi um dia de trabalho muito proveitoso. O proprietário da loja, Roberto Moreira, nervoso – raros, nele, o nervosismo e, dizia José Luiz, a brabeza -, distribuiu broncas para todos os funcionários. Muitos dentre eles desejavam que ele os esquecesse, ou que deles não se lembrasse, mas ele conhecia-os todos, chamava-os pelos nomes, e sabia qual era a função de cada um deles. Os funcionários perguntavam-se a razão do nervosismo, da braveza, da rudeza no trato, da sequidão da voz, que não admitia réplicas, do olhar compenetrado, da fisionomia carregada, rígida, pétrea, de Roberto Moreira. Aventaram inúmeras hipóteses; algumas, sérias; outras, jocosas; raras as maledicentes – estas as aventaram os desafetos de Roberto Moreira, os que o detestavam. José Luiz, que conhecia Marcelo, um dos filhos de Roberto Moreira, soubera, contou-lhe Marcelo, que, no domingo, Cláudia, tia dele, irmã de Roberto, fora atropelada, e essa seria, estava certo, declarou José Luiz, a razão da brabeza do chefe, como a Roberto Moreira referiam-se os funcionários da Moreira & Moreira. Discordou Amauri, que, conhecedor da história do atropelamento de Cláudia, disse que ela passava bem, dissera-lhe Vinicius, marido dela. A razão da postura taciturna e carrancuda de Roberto Moreira e da sua rudeza no trato devia-se, portanto, a outro motivo, que não o aventado por José Luiz.

O trabalho, desgastante. Foi um dia incomum. José Luiz não se recordava de, em outro dia, desde que começou a trabalhar naquela loja, um ano e sete meses antes, haver tantos clientes a comprar materiais de construções. Desdobrou-se para executar todas as tarefas para as quais o encarregavam. Desgastou-se de manhã, durante quatro horas ininterruptas de trabalho, sob sol inclemente – atenuou o desgaste com um copo de água a cada hora. No momento em que cessou o seu trabalho, para almoçar de uma marmita e de um copo de refrigerante que a loja forneceu-lhe, suava, em bicas, a camisa encharcada de suor. Ele dela despiu-se, e abandonou-a sobre os tijolos, para secá-la. A marmita continha uma boa porção de arroz e feijão, bife e batatas, verduras e legumes. Era um almoço reforçado. Encerrado o almoço, José Luiz deitou-se sob um caminhão, e puxou uma palha durante vinte minutos – a soneca foi-lhe salutar. Levantou-se. À pia próxima do monte de areia lavou o rosto, para despertar de vez; vestiu a camisa, e tornou ao batente.

No período da tarde, o trabalho foi mais estafante do que no período da manhã. O sol exauriu-lhe as forças. Se José Luiz não fosse dotado de vontade férrea, músculos resistentes e organismo apropriado para as tarefas que lhe exigia Roberto Moreira, sucumbiria ao esforço. Desempenhava as suas incumbências com desenvoltura; ao final de um dia de expediente a carregar tijolos, vigas, telhas, areia, pedras, sem cessar, ia para a sua casa, banhava-se, degustava de alguns minutos na companhia de Camila, sua esposa, grávida de seis meses, e Paulo Renato, seu filho, menino de dois anos, que, diziam os familiares e os amigos, tinha a cara da mãe e o focinho do pai; e antes das dezenove horas, rumava para a Escola Técnica Nikola Tesla, para assistir às aulas do curso de eletroeletrônica; e regressava à sua casa as onze horas e trinta minutos da noite. E acordava, na manhã seguinte, as cinco horas.

Naquela segunda-feira de fevereiro, José Luiz desgastou-se além do habitual, e, uma hora antes de encerrado o expediente, acreditava, não conseguiria prosseguir com o trabalho até dali uma hora, ao crepúsculo, às dezoito horas, mas agüentou o tranco, disse, assim que se retirou da loja, exausto, mas em pé, e disposto a enfrentar quatro horas de aula, na Escola Técnica Nikola Tesla. Despediu-se dos seus colegas de trabalho. Na companhia de Gustavo, o Gordo, de Maurício, o Pernambuco, de Nelson, o Lagarto, e de Daniel, o Dejota, foi até o cruzamento das ruas José de Anchieta e Dom João VI, onde deles despediu-se, e seguiu, só, rumo à sua casa, distante da loja três quilômetros. Intensificava-se o trânsito. Veículos iam e veículos vinham, rápidos, apressados os motoristas, ou José Luiz tinha a sensação de que todos eles estavam apressados, e também os ciclistas, e os pedestres, menos ele, que seguia no ritmo habitual. E um caminhão a descarregar fumaça apretejada obrigou José Luiz a tampar o nariz com os dedos indicador e polegar da mão esquerda, prender a respiração, cerrar as pálpebras, e mover a cabeça para o lado oposto ao pelo qual passou o caminhão. Em pensamento praguejou José Luiz, e desacelerou os passos. Segundos depois, recomposto, retomou o seu passo na velocidade que lhe era habitual, para, logo em seguida, cobrir os olhos com a mão esquerda em pala, protegendo-os do reflexo dos raios solares, que lhos feriam, no vidro posterior de um carro estacionado poucos metros à sua frente. Ao passar pelo carro, abaixou o braço. Contornou a esquina à direita, e seguiu por cem metros; deteve-se em frente da casa lotérica, e preparou-se, sobre a calçada, parado, a olhar de um lado para o outro, aguardando os carros passarem, para atravessar a rua. Era a hora do rush. Passou um carro. E outro carro. E uma caminhonete. E outro carro. E uma moto. E outra moto. E um caminhão. E um carro. E outro carro. Todos iam no sentido bairro-centro – enquanto, na pista contrária nenhum veículo passava. Assim que viu que na faixa sentido bairro-centro apenas um veículo, um carro, aproximava-se, José Luiz pôs o pé esquerdo na rua, e logo da rua o retirou assim que viu uma fileira de carros se lhe aproximando no sentido centro-bairro, em velocidade considerável – setenta quilômetros por hora, mensurou José Luiz. Um carro passou por ele. Vermelho. E outro carro passou por ele. Prateado. E outro carro prateado. E outro carro prateado. E passou por ele uma caminhonete. E outra caminhonete. E três motos – a primeira, preta; a segunda, azul; e verde, a terceira. E outro carro. Alaranjado. E aproximaram-se dele duas motos, ambas pretas, e atrás delas nenhum veículo. José Luiz desceu o pé esquerdo na rua, e olhou para à sua esquerda, para a faixa sentido bairro-centro, e viu próximo de si, e deslocando-se rapidamente, uma fileira de veículos, e recuou o pé esquerdo, e afastou-se do paralelepípedo à aproximação de um caminhão branco, imenso, que, pareceu-lhe, iria engoli-lo. O caminhão passou por ele, e seguiam-no, como que atraídos pela sua força gravitacional, dezenas de veículos, entre carros e motos. E agora as duas faixas da rua estavam tomadas por veículos. E José Luiz resmungou, e esbravejou, discretamente. Pressionou as mandíbulas uma contra a outra, e cerrou o punho esquerdo, dobrando o cotovelo, como que ameaçando esmurrar alguém, e executou gestos involuntários que dele revelavam a irritação. Olhou de um lado para o outro. E viu carros e mais carros, caminhões e mais caminhões. E ônibus. E caminhonetes, e mais caminhonetes. E motos, muitas motos. E um tanque-de-guerra, que rumava, acreditava José Luiz, do Batalhão Borba Gato para o Batalhão de Engenharia e Combate. E a terra tremeu-lhe sob os pés à passagem do encouraçado, um rinoceronte de metal, como aos tanques-de-guerra referiam-se José Luiz e os soldados que com ele conviveram durante um ano de serviço militar – conquanto a conscrição fosse obrigatória, José Luis e muitos outros recrutas alistaram-se por vontade própria, no desejo, sincero, de prestar uma contribuição ao Brasil, e sacrificar-se pelo país, se necessário.

Há mais de cinco minutos parado na calçada, José Luiz, preparado para atravessar a rua, sempre que nela punha um pé, certo de que poderia atravessá-la, veículos aproximavam-se dele, em alta velocidade, e até bicicletas, de todas as direções, impedindo-o de atravessá-la, irritando-o. Cerrava os punhos, tensionava todos os músculos do corpo, abria os braços num gesto de impaciência. Em certo momento, os veículos como que havendo desaparecidos por encanto, preparou-se José Luiz para atravessar a rua; desceu o pé esquerdo na rua; e ao pôr, nela, o pé direito, ouviu uma buzina, e recuou. Era a buzina de uma cadeira-de-rodas motorizada. Pilotava-a Tião Pé-de-Cabra, encastelado no assento de couro, e um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça achatada, e cujas sobrancelhas – de coruja, diziam – de tão espessas podiam ser entrevistas a um quilômetro de distância.

– Tarde, seu menino – Tião Pé-de-Cabra saudou José Luiz. – Mande um abraço meu para o senhor vosso pai, o velho Moreno, e acenda uma vela pela alma de vosso avô, o velho Marcondes – e seguiu o seu caminho, sem se deter.

José Luiz acenou-lhe, e prometeu-lhe dar o recado para o destinatário dele e acender a vela.

E sorriu José Luiz, atenuada a sua irritação, e relaxados seus músculos. E abanou a cabeça. E olhou de um lado para o outro. Carros, motos, caminhonetes, caminhões e ônibus passavam, em ambos os sentidos da rua. Mordeu José Luiz a língua, para não amaldiçoar Tião Pé-de-Cabra.

José Luiz, pouco tempo depois, certo de que nenhum carro aproximava-se de si, olhou para a direita, e, ao pôr o pé esquerdo na rua, viu, para a sua surpresa, um carro, em alta velocidade, indo em sua direção, e recuou, para a calçada, abrindo os braços, as mãos espalmadas, e as bateu nas coxas, com força, ao mesmo tempo que proferiu uma obscenidade. Contrariado, esperou o carro passar, após o qual passaram duas motos e um ônibus. Quando da sua direita nenhum carro ia em sua direção, olhou para a esquerda, pôs um dos pés na rua, preparou-se para atravessá-la, e recuou ao ver um carro a aproximar-se de si.

Impacientava-se José Luiz. Levantava os braços, irritado, todas as vezes que lhe frustravam a tentativa de atravessar a rua. Irritava-se. Executava movimentos bruscos com os braços, e, as mãos espalmadas, batia-as, enraivecido, nas coxas. E evocava a figura inconfundível de Tião Pé-de-Cabra e a sua cadeira-de-rodas, e o amaldiçoava. Antes não tivesse recuado à calçada quando ele buzinou. Parecia-lhe a ele, José Luiz, que, transcorrendo o tempo, mais difícil tornava-se atravessar a rua. Da direita e da esquerda iam os veículos, dezenas deles. Não havia intervalo de tempo entre dois veículos que lhe permitisse atravessar a rua. José Luiz punha um pé, ou os dois pés, na rua, certo de que poderia atravessá-la, e recuava, logo em seguida, ao ouvir o soar de uma buzina, ou um grito, e tornava à calçada, irritado, contrariado.

E passavam-se os minutos. E José Luiz consultava o relógio no mostrador do telefone celular. E praguejava. Se não atravessasse, e logo, a rua, se atrasaria para as aulas do curso de eletroeletrônica.

Sob o sol, que já ia se pondo, José Luiz viu, há cinquenta metros de distância, na mesma calçada, da sua direita, indo em sua direção, um homem, que – José Luiz concluiu ao atentar para os gestos e os passos dele, vacilantes – estava bêbado. O homem, tipo acaboclado, baixo, troncudo, barrigudo, as pálpebras semi-cerradas, de roupas amarfanhadas, imundas, cabelos desgrenhados, barba por fazer, olhos avermelhados, fundos, órbitas dos olhos apretejadas, pés embrulhados em sapatos surrados – o esquerdo com uma falha que lhe deixava expostos três dedos -, a coçar, incessantemente, a cabeça, andava trançando as pernas e arrastando-se pelas paredes, e ora detinha-se, perdido, a olhar de um lado para o outro, e para o céu, e para o chão à sua frente, e quase ia ao chão; para surpresa de todas as pessoas que assistiam a espetáculo tão deplorável, antecipando, em pensamento, a queda do ébrio, e preparando a gargalhada, que explodiria tão logo ele desse com o nariz no chão, ele não caia, indo contra todas as leis da natureza; conservou-se ele, contra todos os prognósticos, em pé, tão firme quanto um prego fincado na areia – incrédulos, os curiosos não acreditavam que ele conseguia em pé manter-se por muito tempo. E ele não caia, para frustração daqueles que o acompanhavam com os olhos. Ele perdia o equilíbrio, mas não caia. Tinha-se a impressão de que ele cairia, mas ele não caía; ora ele encostava-se à parede de alguma casa, para manter-se em pé; ora ele detinha-se, e, não se sabe como, dava um passo, ou para a frente, ou para trás, ou para a direita, ou para a esquerda, e conservava-se em pé. O seu estado, deplorável. José Luiz lamentava-o. O bêbado ia em direção de José Luiz. Resmungou qualquer coisa ao perder o equilíbrio, e bater com a cabeça na parede. No outro lado da rua, dois garotos, ambos de bicicleta, cada um deles em uma bicicleta, gritaram-lhe, provocando-o. Conheciam-no. E ele esbravejou. Proferiu maldições e obscenidades de ruborizar até o diabo. Incompreensível o que ele disse assim que abaixou o tom de voz. Engrolava as palavras. José Luiz dividia a sua atenção entre o trânsito e o bêbado, esperando que ele de si não se aproximasse. José Luiz detestava bêbados. Os bêbados irritavam-no; havia um alcoólatra na sua família, seu tio, Mauro, irmão de seu pai. Mauro, sóbrio, era gentil, amigável, bem-humorado, espirituoso, cativante; ébrio, era indiscreto, inconveniente, inconsequente, e dele José Luiz não se aproximava; evitava-o; dele fugia como o diabo foge da cruz.

O bêbado não foi até José Luiz, como que lhe atendendo as preces. Deteve-se, de repente, próximo do paralelepípedo, para alívio de José Luiz, a trinta metros de distância dele, e com gestos de mãos caóticos, alheio à realidade, acenou para os motoristas dos veículos que passavam pela rua, e na rua desceu, quase vindo a cair – para surpresa de todos, conservou-se em pé -, e, passo após passo, empreendia a travessia da rua. José Luiz anteviu o atropelamento. Algum veículo atropelaria o bêbado. Para a surpresa de José Luiz, os carros, as motos, os caminhões, as caminhonetes, os ônibus, ou paravam, e deixavam o bêbado passar, ou desviavam-se dele. E ele, com passos incertos, indo e vindo, dois passos para a frente, mas não em linha reta, e um passo para trás, seguia rumo à calçada oposta à da qual partira. E os carros, e as motos, e os caminhões, e os outros veículos, e um tanque-de-guerra, que seguia, do Batalhão de Engenharia e Combate para o Batalhão Borba Gato, e Tião Pé-de-Cabra, a cederem-lhe passagem. E o bêbado, enfim, chegou, são e salvo, ao outro lado da rua.

José Luiz, boquiaberto e queixocaído, olhos arregalados, dedos a coçarem-lhe a cabeça, perguntava-se… Na verdade, incrédulo, nenhuma pergunta se fazia; limitava-se a fitar o bêbado, que, no outro lado da rua, rumava… Para onde? E José Luiz, na calçada, a querer atravessar a rua. Pensou em simular embriaguez. Afugentou de si tal pensamento. Sóbrio, não poderia ignorar o perigo que os veículos representavam-lhe. E o bêbado, no outro lado da rua; e José Luiz, irritado, vendo passarem diante de seus olhos carros, motos, ônibus, caminhonetes, bicicletas e caminhões. E um tanque-de-guerra. E Tião Pé-de-Cabra.

O tiro

Testemunhei, ontem, ao entardecer, um dos mais horrendos espetáculos que a vida poderia me proporcionar. Indescritível. Inenarrável. Inominável. Não encontro as palavras adequadas para dar a dimensão das profundas impressões que o evento me deixou no espírito de homem pacato que nunca testemunhara cena tão horripilante e que não deseja testemunhar outra igual. Digo, na ausência de uma expressão que traduza melhor os meus sentimentos: carregarei para o túmulo imagens, tão impactantes, que dissolveram meu espírito. Eu gostaria de jamais haver testemunhado tão… Como eu direi? Estranho? Inusitado? Grotesco? Horripilante? Nenhum desses adjetivos dá a dimensão do que testemunhei. Eu gostaria de poder me expressar com palavras que reproduzissem com exatidão as impressões que o evento me gravou na memória, no espírito, na alma.

Por que não intervi… O que eu, assustado, impressionado, estupefato, poderia fazer? Não sou clarividente. Eu não sabia como o evento se desenrolaria, e tampouco como se encerraria. Encerramento tão… Inusitado? Imprevisível? Absurdo? Eu, um observador petrificado diante de uma cena inédita, mantive-me distante dos dois protagonistas desta história, desde o início do evento, que transcorreu num ritmo vertiginoso. Aproximei-me deles, curioso, na expectativa, sem ter consciência de que deles eu me aproximava. O que eu poderia fazer contra um homem que empunhava um revólver? Telefonei para a polícia. Naquelas circunstâncias, na companhia da Laura, a minha namorada, esta era a única providência que eu poderia tomar. Passou-me pela cabeça o desejo de bancar o herói. Tal pensamento foi-se embora tão logo se me aflorou ao cérebro. Não sou um herói. Seria uma rematada tolice interferir na discussão daqueles dois homens, que prodigalizaram um espetáculo que não está no gibi. Um deles empunhava um revólver. Eu, a Laura e não sei quantas outras pessoas assistimos à cena entorpecente. Nenhum filme nos proporciona cena tão impactante.

Após relatar o horrendo evento para o Ulisses, a Zulmira, o Júlio César, respectivamente, pai, mãe e irmão da Laura, e, depois, para a Adriana, a Zuleica, o Milton e o Osvaldo, amigos meus e da Laura, despedi-me da Laura, e vim para a minha casa. Aqui, narrei o ocorrido ao meu pai, à minha mãe e às minhas irmãs. Curiosos, ouviram-me atentamente. Prendi a atenção deles porque lhes narrei uma tragédia, gênero narrativo mesmerizante. Todas as atenções convergiram para mim durante o jantar, e depois. Meu pai não assistiu ao noticiário, e minha mãe e minhas irmãs não assistiram à novela. Sou um jovem extraordinariamente poderoso: fiz com que minha mãe e minhas irmãs perdessem um capítulo da novela. Esta é a explicação para a borrasca que despencou, ontem, em todo o estado. Pediram-me a repetição da cena derradeira. Não me fiz de rogado. Narrei-a. E a comentei. Perguntaram-me o que fiz, se fiquei nervoso, com medo. Perguntaram-me da Laura, se ela tremeu de medo (medrosa do jeito que ela é, disseram), se ela correu, e se escondeu dentro de uma loja. A Jéssica quis que eu lhe dissesse porque o protagonista deste episódio agiu como agiu, e exigiu-me explicações. Não lhas dei, obviamente. Se eu as tivesse! Ela não se satisfez com o meu silêncio a respeito. Minha mãe e meu pai vieram em meu socorro, chamando-a à razão; perguntaram-lhe como eu poderia saber o que se passava dentro da cabeça de um desmiolado. Depois de ouvir as minhas ponderações sensatas, as de papai e as de mamãe, a Jéssica insistiu em querer me extrair uma explicação plausível para a conduta do indivíduo ao qual minha mãe se referiu como um desmiolado. Não lha forneci, mas não me furtei a conjecturar algumas hipóteses – cinco ou seis, todas erradas, certamente. Não satisfiz a curiosidade intelectual de minha irmã – ela será uma psicóloga, pois tem o hábito de fazer perguntas para as quais ninguém conhece a resposta certa; melhor, ela faz perguntas para as quais não se deve perder tempo procurando por uma resposta, pois há mais entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia. Após minha mãe pôr a Jéssica para dormir, e a Tábata sair com a Luciana e a Rafaela, recolhi-me ao quarto. Pouco depois, banhei-me. Comi torradas, uma fatia de bolo de laranja, uvas, e bebi leite com baunilha em pó. Conversei com meu pai, durante uns dez minutos, sobre futebol, e despedi-me dele. Voltei para o quarto, bocejando, sonolento, exausto. Exauriram-me as energias a tensão, a apreensão e o medo de horas antes. Deitei-me, na cama. Pressionei o interruptor à cabeceira da cama – e apagou-se a luz. Fez-se a escuridão. Ajeitei o travesseiro. Aconchegado, no esforço de suprimir da mente as horrendas imagens que testemunhei, pensei na Laura, no desenho animado e nos vídeos de mulheres aos quais assisti, na internet. Nem as mulheres conseguiram afugentar de minha cabeça as cenas que testemunhei à tarde. Virei-me, na cama, de um lado para o outro. Deitei-me com o lado direito para cima. Deitei-me com o lado direito para baixo. Deitei-me de barriga para cima. Deitei-me de barriga para baixo, e enfiei a cara no travesseiro. Não consegui respirar, e ergui a cabeça. Não recomendo esta prática, para se buscar o sono, a ninguém. É sufocante. De nada me adiantou contar carneirinhos. Não sou um pastor. Muitos carneirinhos desgarraram-se do bando, e os lobos os devoraram. E a cerca por sobre a qual eles pulavam era eletrificada. Tempos modernos. Eletrificada para dissuadir ladrões, lobos e raposas de invadir a minha fazenda, mas acabou por matar, carbonizados, alguns carneirinhos. Resumindo: revirei-me na cama e não consegui pregar o olho. E para dormir não me injetei na veia a substância que Leonardo de Caprio se injeta, naquele filme do Christopher Nolan. Tentei sonhar que sonhava – para fazer isso eu teria de dormir. E quem disse que eu conseguia dormir! Morfeu não me visitou nesta noite. Não entrei no País das Maravilhas. Neste reino onírico eu entrava quando era criança, e protagonizava aventuras para lá de fantásticas. Notabilizei-me como rei e monarca e faraó e gênio nestas aventuras oníricas. Mas, nesta noite, o sono não me veio. Passei a noite em claro. As terríveis cenas que testemunhei, ontem, à tarde, repetiam-se, incessantemente, em meu cérebro. Sobrepunham-se as imagens. Intercalavam-se, entrecortadas. Imbricavam-se. Justapunham-se. Fundiam-se. Não pude afastá-las de minha mente. Era como se elas estivessem incrustadas em todos meus neurônios, dos quais não poderiam ser removidas sem que, com a remoção, não destruíssem minha mente. Agora, com a esferográfica à mão, debruçado sobre a mesa, sustentando a cabeça com a mão direita, escrevo, sonolento, bocejando a intervalos curtos, esta narrativa. As imagens afluem, incessantes, à minha mente, avassalam-me a alma, preenchem todos os interstícios de meu cérebro, este órgão de aparência tão repulsiva. Parece nozes. Mas não é comestível. Quem dirá isto para Hannibal Lecter? E as imagens afluem à minha mente, em profusão. Repetem-se. E repetem-se. Decidi relatar o evento da véspera, para que, assim, penso, registrando-o, eu o esqueça, e ele não me atormente mais, e eu possa dormir, na noite de hoje, tranquilamente, e sonhar sonhos idílicos. O impulso de escrever, irrefreável. Encerrarei a redação após narrar o horrendo episódio que testemunhei, ontem, na companhia da Laura. Até agora limitei-me a aludir ao evento, desordenadamente. Afinal, a qual evento referi-me desde o início deste manuscrito? Terei de conter-me no meu ímpeto de escrever, e organizar meus pensamentos. Principiarei do começo a narrativa, como, zombeteiramente, declaramos, antes de iniciar o relato de uma aventura que protagonizamos.

Fui à casa da Laura às quatro horas da tarde. Conversamos, não sei durante quanto tempo, com a tia da Laura, Maria Elizabeth, que viera, dois dias antes, do Rio Grande do Sul, onde mora, para visitar os familiares. Ela nos deu muitas notícias que nos alegraram e algumas entristecedoras: a morte de um primo e a de uma sobrinha, cujos nomes não me recordo. Josias e Jennifer, se não me engano. Ou Nicole? Não me recordo. Jennifer e Nicole são irmãs. Uma delas foi assassinada. Notícia entristecedora. Lágrimas vieram aos olhos de Maria Elizabeth. Os outros que a ouvíamos nos silenciamos. Não eram seis horas da tarde quando eu e a Laura nos despedimos de sua mãe e de sua tia. Não tínhamos outro objetivo além do de andar pelas calçadas do centro da cidade, olhar para as roupas, os calçados, os computadores, os chocolates, expostos nas vitrines das lojas, e, se nos desse vontade, determo-nos em uma sorveteria, para chuparmos sorvetes; picolés, não; não os aprecio, e Laura também não.

Andávamos, tranquilamente, em meio ao azáfama reinante. Crianças com uniforme escolar, acompanhadas de um adulto, e jovens sobraçando cadernos, iam de um lado para o outro. O trânsito, caótico. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de calçados. Laura apontou os calçados que desejava comprar, todos inacessíveis ao seu pai e à sua mãe. Na loja vizinha, à direita, quatro manequins exibiam vestidos deslumbrantes pelos quais Laura, disse ela, apaixonou-se. Ela também disse que pediria para sua mãe comprar-lhe um vestido; não o pediria ao seu pai, pois dona Zulmira é, nas palavras da Laura, mão aberta, e seu Ulisses, mão fechada, mão de vaca, unha de fome. O Ulisses não é mão de vaca, como diz a Laura. Ele é parcimonioso, diria meu tio Washington, sempre mergulhado nos livros, com o nariz, como diz tia Luiza, esposa dele, enfiado entre as linhas, os olhos grudados nas folhas, e os ouvidos a ouvir a voz interior enquanto decifra os indecifráveis segredos daqueles misteriosos livros de filosofia. À direita da loja de vestidos femininos, há uma loja de calçados à frente da qual detivemo-nos eu e Laura. Alguns calçados eram, direi, atraentes; outros, de um mal gosto de provocar engulhos até no diabo. E a Laura, mais uma vez, para não perder o costume, disse que pediria para sua mãe, mulher generosa, comprar-lhe este e aquele par de sapatos pelo qual se apaixonou, e não os pediria ao seu pai, porque ele não abre a mão nem para dar tchau. Andamos alguns metros. Expostas à vitrine de uma loja, roupas íntimas femininas. Arregalei os olhos. Expressei uma interjeição. Não escondi da Laura o meu interesse por aqueles sutiãs e aquelas calcinhas (obviamente, interessei-me pelas roupas íntimas femininas não para eu as usar, mas para a Laura cobrir-se com elas. Cobrir-se com roupas tão minúsculas!?). Detive-me. Laura puxou-me pela mão, a passos pesados. Esbocei resistência. Laura beliscou-me, e ameaçou dar-me um tapa. Deixei-me levar por ela, sorrindo, divertidíssimo. Laura irritou-se, franziu o cenho, disse-me que me quebraria o nariz com um soco se eu me detivesse diante daquela loja, e mandou-me suprimir o sorriso do rosto. Andamos alguns metros. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de roupas femininas. Dos quatro vestidos expostos, a Laura apaixonou-se por três; pediria, disse, para sua mãe, mulher generosa e mão aberta, comprar-lhos. Informo: O mais barato dos três vestidos estava à venda por R$ 250,00. Diante da vitrine desta loja permanecemos por mais tempo do que diante da das outras lojas. Laura amou – disse ela – os vestidos, que lhe inspiraram aventuras mais comuns aos contos de fadas do que à realidade. Disse que queria entrar na loja para ver quais outros vestidos haviam lá, mas queria vê-los ‘com as mãos’, e puxou-me pelo braço. Foi neste momento que nos chegou aos ouvidos barulho de pneus cantando no asfalto. Viramo-nos, simultaneamente, para a nossa esquerda, a tempo de assistir à colisão de dois carros, um vermelho e um prateado. Laura exclamou: “Nossa!”, arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão esquerda, e, soltando-me o braço, com a mão direita cobriu a mão esquerda. Arregalei os olhos. Vi várias pessoas, todas com o olhar convergindo para os dois carros que se envolveram no acidente. Por sorte, ambos os motoristas frearam a tempo de impedir uma colisão destruidora. Nenhum dos dois carros teve danos significativos. Do carro prateado ficou quebrado o farol dianteiro; do carro vermelho, a porta ficou amassada. Ajuntou uma pequena multidão de curiosos nas proximidades. Ninguém, no entanto, aproximou-se dos dois carros. Os curiosos, expectantes, aguardamos o desenrolar do evento. O que haveria a seguir? Os dois motoristas se insultariam, se engalfinhariam, se arrancariam sangue um do outro? Do carro vermelho retirou-se um homem robusto, de um metro e oitenta de altura, barba rapada, cabelos curtos, queixo quadrado, sobrancelhas espessas, lábios finos, descoloridos, quase indiscerníveis. Trajava uma calça jeans e uma camisa de um time espanhol de futebol. Com o olhar assustado, deteve-se; coçou a cabeça, e olhou, apalermado, para o motorista do carro prateado. A colisão roubara-lhe o governo de si. Presumo que foi a primeira vez que ele se envolveu em um acidente de carro, daí a sua imobilidade. Ele não sabia quais providências tomar, o que dizer, nem para o motorista do carro prateado, nem para si mesmo. Estava constrangido. Sorriu, acanhado. Indisfarçável, o seu constrangimento. Coçou o nariz com a ponta do dedo indicador direito, premiu as narinas, e olhou ao redor. O motorista do carro prateado, nesse meio tempo, ao desvencilhar-se do cinto de segurança, abriu a porta do carro, e do carro retirou-se, bufando de raiva, rilhando os dentes. Fitou o motorista do carro vermelho, bateu a porta do carro, fungando, furioso. Visível a raiva contida em seu rosto. Era um homem de estatura mediana. De um metro e sessenta, se muito. De trinta anos de idade, presumo. Trajava uma bermuda verde-abacate e camisa regata; nos pés, tênis azul com faixas brancas e amarelas. Era magro, mas não era desprovido de músculos salientes; os vasos sanguíneos destacavam-se. De lábios grossos, queixo pontudo. Tinha, na orelha direita, dois brincos (um, argola; o outro, uma estrela azul); na narina esquerda, um piercing; e um piercing na extremidade externa da sobranceira direita. Carregava cabelos compridos pretos, presos, num rabo-de-cabelo, com elásticos; no ombro, no braço e no antebraço esquerdos tinha uma tatuagem, ou várias tatuagens; não pude distinguir a figura (ou figuras) representada. Ele andou, a passos pesados, na direção do motorista do carro vermelho. Não o agrediu, no entanto, como, presumo, desejava fazer, pois o motorista do carro vermelho era maior e mais forte do que ele. Irritado, enraivecido, com os punhos cerrados, esbravejou e ofendeu o motorista do carro vermelho, mantendo dele a distância de dois metros. Os curiosos, expectantes, antevíamos uma briga corpo-a-corpo entre os dois motoristas. Ansiávamos por uma briga. Queríamos assistir à luta do século, ao vivo, e em cores, entre aqueles dois homens. Quais regras eles respeitariam? Nenhuma. Ninguém arbitraria a luta. Eles, previ, prodigalizariam uma luta inesquecível. O motorista do carro vermelho e o motorista do carro prateado entrariam para a história universal como os protagonistas da luta do século. Perguntei-me, em silêncio, porque o motorista do carro vermelho, com os seus um metro e oitenta de altura e punhos de aço não cerrava os punhos e não nocauteava o baixinho do carro prateado. Por que ele o ouvia, calado, constrangido, e olhava de um lado para o outro, enquanto o motorista do carro prateado intensificava os insultos, e punha-lhe o dedo indicador em riste diante do nariz? Vários curiosos atiçavam o motorista do carro vermelho contra o motorista do carro prateado; diziam-lhe que lhe quebrasse o nariz; que não levasse desaforos para casa; que o golpeasse com um soco. Exclamaram “Quebre ele!”, “Esmague o nariz dele!”, “Não deixe barato, não, cara. Arrebente ele!”. Mas o motorista do carro vermelho não lhes deu ouvidos. Ao contrário, buscou entender-se com o motorista do carro prateado, pedia-lhe que se acalmasse. Seus gestos, serenos, indicavam que ele desejava o entendimento, por meios pacíficos, mas o motorista do carro prateado queria proporcionar ao público um espetáculo inesquecível que seria narrado em prosa e verso por todas as testemunhas repetidas vezes e perpetuar-se-ia por gerações. Enquanto assistia à agressão verbal do motorista do carro prateado contra o motorista do carro vermelho, perguntei-me qual deles causara a colisão.

A multidão acercou-se dos dois motoristas, aproximou-se deles. Eu e a Laura a acompanhamos; conservamo-nos mais perto do motorista do carro prateado, dele distando três metros. Eu estava com a mão direita pousada no ombro direito da Laura, que me enlaçava, pela cintura, com o braço esquerdo, a mão esquerda na minha ilharga esquerda. Assistíamos, curiosos, expectantes, ao desenrolar do episódio. O motorista do carro prateado, olhos esbugalhados, punhos cerrados, esbravejava, esgoelando-se, insultava o motorista do carro vermelho, que, era visível, estava constrangido. Após uma sequência de obscenidades, numa série que, parecia, seria interminável, sucedeu-se o imprevisível. Eu poderia reproduzir as obscenidades que o motorista do carro prateado cuspiu sobre o motorista do carro vermelho. Todavia, não o farei. O pudor mo impede. Quero, no entanto, reproduzi-las. Não o farei, entretanto. Elas são impublicáveis. Eu as substituirei por eufemismos. Ei-los: “Imbecil! Idiota! Você é débil mental, asno retardado? Não viu o sinal vermelho, mocorongo? Idiota! Olhe para o meu carro! Olhe! Viu o que você fez, burro filho-de-uma-égua!? Viu o que você fez!? Anta! Você tem titica de galinha na cabeça, cérebro de ameba!? Você tem inteligência de lombriga! Idiota! Filho-de-uma-égua! Você tem cérebro de ameba. Quantos neurônios você tem na cabeça!? Dois. Apenas dois. Um estava com a data de validade vencida no dia que você foi concebido e um queimou-se no dia que você nasceu. Asno! Débil mental! Filho-da-polícia! Filho-de-uma-égua!” Ato contínuo, cuspiu no motorista do carro vermelho, que se enfezou, e deu dois passos firmes e decididos na sua direção. O motorista do carro prateado recuou três passos, e, para surpresa de todos, principalmente do seu antagonista, retirou, de sob a camisa e do cós da calça, um revólver calibre 38, e apontou-lho, o braço estendido, para a cabeça. O motorista do carro vermelho arregalou os olhos, escancarou a boca, e recuou. Todas as testemunhas suspendemos a respiração. Eu não quis acreditar no que meus olhos viam: Um homem, com uma arma apontada para a cabeça de outro homem, ameaçava apertar o gatilho, e estourar-lhe os miolos. Até ontem, vi cenas assim apenas nos filmes. Antevi a tragédia: O motorista do carro prateado aperta o gatilho, e o motorista do carro vermelho cai, morto, com uma bala alojada na cabeça, na testa, entre os olhos, e o cadáver do motorista do carro vermelho a esvair-se em sangue, e os curiosos, apavorados, aterrorizados, a correr, em disparada, e o caos instalado no centro da cidade. Não pensei duas vezes: tirei, com as mãos trêmulas, o meu telefone celular do bolso da minha camisa, e telefonei para a delegacia de polícia. Despi-me do medo que me avassalava. A Laura puxou-me, para nos afastarmos dos dois motoristas; eu, imóvel, não a percebi me puxar, mas senti sua mão pressionando-me o braço e o antebraço direitos. O motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu três passos – ou quatro, ou cinco, não sei – na direção do motorista do carro vermelho, que recuou. Muitos dentre os curiosos afastaram-se, muitos agacharam-se. Alguns procuraram chamar o motorista do carro prateado à razão. O motorista do carro vermelho, assustado, olhos arregalados, recuava e pedia, mãos erguidas, calma ao motorista do carro prateado, que, fora de si e surdo aos rogos dele, ameaçava matá-lo. Ao policial que me atendeu à ligação relatei, em poucas palavras, o que eu via, e dei-lhe a nossa localização, e desliguei o telefone. Não desviei do motorista do carro prateado e do do carro vermelho o meu olhar. Nem piscar, pisquei. O revólver mesmerizava-me. Prendiam-me a atenção os berros do motorista do carro prateado. A Laura rogava-me afastarmo-nos dos motoristas. Não a atendi, e aproximei-me deles. A minha curiosidade, atiçada; e eu desejava saciá-la; eu queria assistir ao desenlace da história. O motorista do carro vermelho recuou até encostar-se no seu carro, mãos espalmadas à frente de si, palmas voltadas para o motorista do carro prateado, rogando-lhe que abaixasse a mão que empunhava o revólver. Dobrou-se para trás, sobre o carro. O motorista do carro prateado renovou as ameaças, elevou a voz, que ricochetou no interior de meus ouvidos, que a amplificou, aterrorizando-me. O motorista do carro vermelho meneava a cabeça, balbuciava palavras que não ouvi; a sua fisionomia transparecia o pavor que o revólver e a voz ameaçadora do motorista do carro prateado infundiam-lhe. Aproximei-me do motorista do carro prateado. Eu queria ver-lhe o rosto. A Laura puxava-me para trás e pedia-me que eu me afastasse. Não a ouvi. E ela aplicou mais força em meu braço e antebraço direitos. E o motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu um berro ensurdecedor, que abafou todos os outros sons, todas as outras vozes, e apontou o revólver para si, encostou-o em sua têmpora, e apertou o gatilho. Ouviu-se o detonar do revólver. O motorista do carro prateado caiu, pesadamente. O seu olhar encontrou-se com o meu. Após espasmos, sob dores excruciantes, esvaiu-se-lhe a consciência, cessaram-lhe os batimentos cardíacos. Morreu.

 

Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

Relatos de um correspondente de guerra

 – Chamai-me Emanuel. Na semana passada, Rodolfo, o meu empregador, solicitou à Kátia, a sua secretária, que me transmitisse uma mensagem sua: um convite para um almoço. Enquanto ouvia a Kátia da mensagem inteirar-me, estudei-lhe, com uma pulga atrás da orelha, a fisionomia. Esbocei um interrogatório, que encerrei ao dela ouvir a resposta para a primeira pergunta que lhe fiz. E ela perguntou-me se eu aceitaria o convite. E eu o recusaria? Rodolfo me pediria uma tarefa, que eu não me disporia a empreender. Ele, todavia, presumi, e eu estava certo, tinha bons argumentos para convencer-me a empreendê-la. Ele não me inflaria o ego, pois sabe que sou infenso aos elogios e às bajulações. E não me ofereceria dinheiro. E também não me ofereceria privilégios. Pensativo, perguntei-me, durante aquele dia e à noite, na cama, antes de conciliar o sono, quais surpresas ele me preparara. Fui ao escritório dele, no dia seguinte, na hora aprazada. A Kátia acompanhou-me até dois metros da mesa. Rodolfo, que falava ao telefone, despediu-se do seu interlocutor, desligou o telefone, saudou-me com a reserva que lhe é comum, pediu-me que eu puxasse a cadeira, e apontou-ma, e me sentasse. Descontraído, falou-me da empresa. Enquanto o ouvia, eu seguia-lhe os pensamentos. Desconfiei de qual era a proposta que ele me faria assim que ele fez referências aos recentes conflitos bélicos que estouraram em alguns países. Com o preâmbulo, deu-me a entender que desejava que um jornalista fosse para um campo de batalha. Mas para qual campo de batalha? Rodolfo estudava as minhas reações. Eu lhe estudava as palavras, no desejo de antecipar-me ao que ele me diria, para que ele não me surpreendesse. Falei-lhe, em duas ocasiões, do que eu pensava dos conflitos que ele comentava, mas não lhe perguntei se ele desejava enviar-me para um dos países conflagrados, e tampouco ofereci-lhe os meus serviços. Dele eu queria ouvir as propostas. Enfim, ele se deteve no cruento conflito entre os A… e os B…, que, há dois meses, assola C…. Eu sabia que nenhum jornalista, eu inclusive, se ofereceria para documentar tão cruento conflito. Como, então, Rodolfo me convenceria a empreender trabalho tão arriscado? Esperei, e não por muito tempo, que ele me falasse das suas intenções. Ele me disse que obtinha informações diárias sobre o estado de coisas em C…, e temia o recrudescimento da conflagração, que poderia vir a ultrapassar as fronteiras do país, e, ao avançar aos países limítrofes, assumir proporções imprevisíveis. Intensificava-se a guerra. Vacilavam as potências mundiais. Os líderes das organizações internacionais, sempre que se pronunciavam a respeito da conflagração, acirravam os ânimos dos beligerantes, e o conflito recrudescia. Rodolfo estendeu-se ao tratar das notícias da antevéspera e da véspera. E eu o ouvi, certo de que ele me queria em C…. Falou-me dos riscos inerentes à tarefa de registro dos combates e da realidade do campo de batalha. E eu, enquanto o ouvia, perguntava-me se eu era provido de coragem para encarar tal desafio, inédito para mim. Malgrado o meu desejo de não me envolver neste crudelíssimo episódio da história humana e preservar minha vida, o desejo de empreender tão árdua tarefa enviou-me para cá, para registrar eventos que me propiciarão emoções inéditas. Não me ofereci para a tarefa. Rodolfo, todavia, munido de um arsenal de argumentos, persuadiu-me a vir para C…, de onde apresento este relato, registrar, arriscando minha vida, os embates entre os A… e os B…, e mostrar para o mundo a realidade deste país, a existência de milhares de humanos vitimados pela crueldade de governantes crudelíssimos. Estou numa das poucas áreas que bombardeios não devastaram. Metros à minha frente, ruas rubras de sangue. Os beligerantes abandonaram um rastro de destruição e miséria, desesperança e ódio. Aqui não há, além de mim, jornalistas. A imprensa mundial não os envia para cá. E os jornalistas independentes que arrumaram as malas para vir para esta área conflagrada, as desfizeram ao receberem a notícia da morte de vinte e dois jornalistas nos seis primeiros dias de conflitos. Muitos dentre eles foram alvejados pelos beligerantes, que tinham o propósito de dissuadirem outros jornalistas de vir para este país devastado. Muitas pessoas não desejam que os eventos que se sucedem aqui sejam do conhecimento do mundo. Há muitos interesses envolvidos, muitos deles inconfessados. Os donos da guerra não desejam que as suas identidades sejam reveladas. Logram os seus intentos, os malditos carniceiros! Os medrosos e covardes ocidentais (como dizem os combatentes e os que os instigam aos combates) carecem de coragem guerreira, e temem a morte, e malgrado os esforços para evitá-la, um dia defrontar-se-ão com ela num campo de batalha. E aqui estou, nas proximidades de um campo de batalha da mais feroz guerra moderna. Hordas de guerreiros sanguinários, personagens de lendas clássicas, oriundos de plagas desconhecidas, situadas em regiões inacessíveis, distantes da civilização, devastaram os impérios da antiguidade; asselvajados combatentes, rudes, ignorantes, amantes da guerra, bebedores de sangue, grotescos, incivis, bárbaros, promovem este conflito, para repetir, hoje, as ações de seus ancestrais bárbaros. Seres saídos das trevas, agourentos, vaticinam a aniquilação da civilização. Das trevas para a luz, não para usufruir dos prazeres que a luz nos oferece, mas para eliminar o que à luz dá origem. Os selvagens bárbaros modernos têm à disposição armamentos que seus antepassados jamais imaginaram. Com a fusão inconcebível da arte bélica antiga e dos artefatos bélicos modernos engendram carnificina sem precedentes… Abandono a digressão, e inicio o relato do que ocorre ao meu redor. Dou os primeiros passos, firmes. Ouço estrondos. Nuvens escuras no horizonte. Chegam-me aos ouvidos berros indistintos. Detenho-me. Atrai-me a atenção um ponto no céu, não sei a quantos quilômetros de distância, ao noroeste. Um avião rasga o horizonte, executa uma curva para o sudoeste, e desaparece atrás de uma nuvem. Chega-me aos olhos uma nuvem preto-acinzentada, que eleva-se e encorpa-se, de detrás de uma colina, há uns dez quilômetros de distância. Aos ouvidos chega-me o estrondo de uma detonação. Da minha esquerda, vejo uma nuvem de fumaça a uns cinco quilômetros de distância. Chega-me, aos ouvidos, não sei de qual direção, outro estrondo. Olho de um lado para o outro. Mísseis atingem áreas urbanas, vejo com o binóculo. Sobressaem-se, por sobre as colinas, os prédios mais altos. Não posso ver as dimensões da devastação. Rumo, sem vacilar, em direção à explosão à minha esquerda a uns cinco quilômetros de mim. Desloco-me mais de cem metros. Os sinais da devastação: carros de cabeça para baixo, queimados, casas destruídas, paredes de prédios esburacadas, ruínas em toda a extensão da rua, árvores carbonizadas. Dois cachorros famintos, ossudos, de olhos esgazeados, correm, e detêm-se, e fuçam qualquer coisa atrás de pilhas de tijolos, e, ganindo, correm, e o que vai na frente dá um ganido mais elevado do que o que emitia até então, e pula, e cai, e desaparece do meu campo de visão, atrás de um tronco de árvore carbonizado. O outro cachorro, assustado, de pelagem preta, com inúmeras falhas, a orelha machucada, a pele do flanco direito exposta, acelera a corrida, e muda a direção que segue. Cauteloso, ando, com passos firmes, na direção do cachorro que pulou e caiu. Não atino com a razão que o levou a pular e cair e o outro a disparar, assustado. A minha curiosidade, excitada, e o meu desejo de conhecer a resposta para o evento impelem-me até o cachorro que pulou e caiu. Não negligencio cuidados. Agi com imprudência, reconheço, agora, ao me deparar com o cadáver ensangüentado do cachorro escanifrado, um esqueleto banhado em sangue. Examino-o à procura da causa da sua morte. Com uma pedra cilíndrica coberta de saliências e cavidades, mexo-lhe a cabeça. Seus olhos, esgazeados; sua boca, entreaberta; sua língua, para fora. Mexo-lhe mais um pouco. Viro-lhe a barriga para cima; suas vísceras se lhe escorrem, numa poça de sangue, e esparramam-se no chão. O animal, grotesco. Uma quimera; não um cachorro. Falta-lhe uma perna. O que lha arrancou? As vísceras escorrem do corpo sem vida. A causa da morte do cachorro está próxima do cadáver: Um projétil, alojado numa pedra. Dou-me conta de que me expus, inadvertidamente, à morte. Fui imprudente. Não sei se o cachorro ficara sob a mira de um revólver, ou se o projétil, por obra do acaso, o alvejara. Olho em torno de mim. A disposição da pedra e a do cachorro não me orientam. O cachorro, atingido, dera um salto de um metro de altura, e a pedra, é certo, antes de o projétil atingi-la, não estava onde a encontrei. Fico com as minhas interrogações. Estou certo de que não me precavi como deveria ter feito. Expus-me ao perigo. Sei dos riscos que corro aqui. Eu deveria me precaver, e não me lançar, em busca da glória, com tal ímpeto inconsequente, suicida. Serei mais cauteloso. Não quero abreviar minha vida. Não quero que me abreviem a vida. Sou jovem, conquanto os esparsos cabelos grisalhos e as rugas exibam a figura de um homem de seus quarenta anos. Não quero ir para o inferno. Os seres das profundezas rejubilar-se-iam com a minha majestosa presença. Pretendo viver mais alguns anos neste inferno. Aqui, diante de mim, o cadáver de um cachorro. Abandono-o, em respeito à sua alma. Curvado, ando, com passos firmes, até uma pilha de pedras, que, acredito, me servirá de escudo. Onde estou com a cabeça? Atrás desta pilha de pedras. Minha cabeça ainda está sobre meu pescoço. Um míssil ou uma rajada de metralhadora pode pulverizar estas pedras e minha cabeça. Não tenho opções. Retiro-me de detrás desta pilha de pedras. Ouço um barulho. Detenho-me, curvado, com as pontas dos dedos da mão direita pousadas no chão. Vejo um avião, a mais de mil quilômetros por hora, sobrevoando o céu a uns duzentos metros à minha frente, a cem metros de altura, da minha direita para a minha esquerda. Os ruídos dos motores ofendem-me os ouvidos, que eu cubro com as mãos. O avião aos meus olhos reduz-se às dimensões de um ponto preto insignificante, a não sei quantos metros de distância e a quantos metros de altura. Uma explosão. Bombas atingiram um prédio a duzentos metros à minha direita. Duas pessoas saltaram do prédio, ou do prédio foram arremessadas, de uma altura de vinte metros. Seguem-se quatro explosões. Não vi de que direção partiram os disparos, e se de aviões, se de tanques de guerra, se de carros de combate. Agora, o silêncio é ensurdecedor. Ao longe, na mesma linha de visão, uma explosão de um avião, a não sei quantos metros de altura e a quantos metros de distância, e o rastro de fogo e fumaça que o avião abandona, na curva descencional rumo ao solo. O estrondo da explosão não me chega aos ouvidos. Eleva-se no céu a nuvem de fogo e fumaça. Nas proximidades do ponto em que o avião caiu, rasgam o céu dois aviões, vindos não sei de onde, e rumam em minha direção. As suas dimensões ampliam-se aos meus olhos enquanto de mim se aproximam. Deito-me. Dos aviões não desvio meu olhar. Os aviões executam uma curva; passam, a uns quinhentos metros de altura, a mais de mil metros de distância; deslocam-se a mais de mil quilômetros por hora. Ouço o rugido dos seus motores. Segue-se a calmaria. Acocorado, desloco-me, desajeitadamente, uns vinte metros. Precipita-se o crepúsculo. Anuncia-se a noite. Parece-me que o tempo se acelerou, como se um mecanismo planetário afetasse os ponteiros de um relógio cósmico com força suficiente para movê-los com velocidade superior à normal. Não consulto o relógio porque algo me chama a atenção: sapatos, atrás de um carro. Considerando a disposição dos sapatos, há pés dentro deles. Olho ao redor. Nenhum avião. Perscruto os arredores à procura de combatentes. Não os vejo. Vou, corpo arqueado, passos acelerados, até o par de sapatos. Como presumi, há pés dentro deles. Vejo os calcanhares, os tornozelos, as pernas, os joelhos, as coxas, e um corpo de homem. Foi-lhe rasgado o ventre e retalhado o rosto. Examino-o. Do corpo desviscerado foi extraído o coração. Os homicidas, crudelíssimos, tiveram o desplante de, com as vísceras, escreverem uma palavra à direita do corpo. Que desumanidade! Quem perpetrou tão horrendo crime? Tento desenhar, na minha mente, a figura original do rosto deste cadáver desfigurado. O sangue que corre pelas veias e artérias do perpetrador de tal crime é da constituição do gelo glacial, e seu rosto, da de um sujeito animalesco de expressão malévola. O homem, aqui, a desfazer-se em sangue. Vermes deslocam-se em meio às suas vísceras. Este homem não foi alvejado por projéteis; mataram-no mãos humanas, que o agarraram, cortaram-lhe o pescoço e o braço direito, e o desvisceraram, e extraíram-lhe o coração. É o corpo de um homem robusto de um metro e oitenta de altura e oitenta quilos. Era ele um dos combatentes? Ou ele era um civil, que entrou, inadvertidamente, no caminho dos combatentes das hordas inimigas? Nada, nele, indica tratar-se de um combatente. Ele não verga uniforme, e tampouco ostenta insígnias militares. Não concluo, no entanto, tratar-se ele de um civil. Os combatentes, muitos deles mercenários financiados por estados patrocinadores de organizações terroristas, não vergam uniformes militares. Sucedem-se explosões, não muito distantes de mim. Olho em torno. Devastação. Não há viv’alma no campo que meus olhos alcançam. Cães correm, ao longe, aos bandos. São oito, ou dez, todos doentios. Desaparecem dentro de uma casa em ruínas. Observo, pela última vez, o cadáver à minha frente. Curvado, afasto-me; cauteloso, desloco-me, contornando escombros e carros carbonizados. O cenário devastado parece um mural de um pintor moderno. Contorno uma casa em ruínas da qual restam pedaços das paredes. Vejo, a poucos passos de mim, um túmulo coletivo a céu aberto. Aproximo-me. Olho ao redor. Dois aviões passam ao longe. Uma explosão à minha direita, a mais de um quilômetro de distância. À minha frente, à esquerda, veículos deslocam-se, a mais de quinhentos metros, num ponto mais elevado do que o no qual me encontro, e afastam-se, rapidamente. Aproximo-me dos cadáveres. A disposição dos corpos indica que foram fuzilados à queima-roupa. São doze cadáveres, todos nus. Cinco homens. Quatro mulheres. Três crianças. Todos com olhar terrivelmente aterrorizado. Uma das mulheres, além do tiro na cabeça, foi alvejada no ventre. Piso num mar de sangue e massa encefálica. Aproximo-me dos cadáveres. Examino-os, detidamente. Não são de combatentes; são de civis. Combatentes os capturaram, e os espancaram. As mulheres e as crianças eles as estupraram. Os homens eles os espancaram até esmigalharem-lhes os ossos das mãos. Hematomas cobrem-lhes o corpo de ébano. Gritos atraem-me a atenção. Olho para a direção da qual chegaram-me aos ouvidos. Quatro homens correm; todos eles empunham rifles. São homens enormes. Correm para a mesma direção. Aproximam-se de mim. Deito-me na sujeira, no sangue, nas vísceras, na massa encefálica. Elevam-se os gritos. Aproximam-se de mim os quatro homens. Empunho a pistola que trago a tiracolo. Não sei se as aulas de tiro me serão de alguma utilidade. Uma série de detonações provoca a reação imediata dos quatro homens, que se abrigam atrás de escombros e, com saraivada de tiros, revidam ao ataque. Prendo a respiração. Não quero atrair-lhes a atenção. Aceleram-se os meus batimentos cardíacos. As explosões os abafam. Cessam os tiros. Apuro os ouvidos. Não mexo nem um dedo, nem as pálpebras. Predomina o silêncio. De repente, gritos e tiros. Enfim, cessam os gritos e os tiros. Predomina o silêncio sufocante, opressivo. Nenhum ruído chega-me aos ouvidos. Olho para a minha direita. Olho para a minha esquerda. Cauteloso, levanto-me, lentamente, Não quero que um projétil atinja-me a cabeça. Afasto-me, curvado, ziguezagueando por entre pilhas de escombros, dos doze cadáveres. Desloco-me, por entre os escombros, por uns cem metros. Recuo dois passos ao divisar uma cabeça movendo-se lentamente, e ponho-me, acocorado, atrás de um carro carbonizado. Ouço sussurros, resmungos, gemidos de dor. Olho para o homem que, à minha frente, chapinha numa poça de água estagnada numa cratera escavada, por uma bomba, presumo, no asfalto de uma ampla avenida. O homem retira-se da cavidade, e arrasta-se, fazendo das mãos pés, pois seus pés estão imobilizados e deles escorre sangue em profusão. Ele se detêm. Seu olho direito está rubro de sangue; acredito que não há olho na sua cavidade ocular esquerda, mas pasta de sangue, sujeira, pele e ossos. Ao dar um passo, emito, ao pisar num objeto de metal, ruídos, que atraem a atenção do homem que se arrasta. Ele me encara. Encaro-o. Sua figura, repulsiva, a de uma alimária, não conserva semelhanças com a figura humana. Ele se desloca, arrastando-se, como os répteis. Seu rosto, o de um ciclope desprovido de simetria. Uma figura destituída de peculiaridades humanas. Kafkiana. A guerra extraiu-lhe todas as características humanas. É um animal rastejante. Não desceu à condição de inseto, mas à de um réptil. Seu olhar, petrificante, vazio de vida, de humanidade. O que ele pensa, se pensa? Ele conserva a capacidade de pensar, ou a perdeu? Fita-me, como se olhasse para uma criatura fantasmagórica que se corporificou diante de seus olhos. A minha presença extraiu-lhe o que lhe restava de sopro divino. A face dele adquiriu consistência pétrea; ele perdeu os traços de ser vivo (não direi os de um humano), que ainda conservava, e cedeu ao peso de sua cabeça. Deteve em mim seu olho bom. Esvaiu-se o sangue daquele corpo sem vida. Andei até ele. Este cadáver não pertencia a um homem, pertencia a um macho de uma outra espécie de vida, de vida rastejante, primitiva. Diante de mais este espetáculo de horror, pergunto o que esta guerra reserva-me. Dou-me conta, agora, da noite, que se precipita. Entretido com os eventos até aqui relatados, não notei que o tempo seguiu, sem cessar, a sua jornada. Sei que, chegada a noite, os conflitos recrudescerão. Os combatentes intensificarão os bombardeios. Estou muito exposto, aqui. Tenho de encontrar um abrigo. À minha volta, ninguém. No céu, nenhum avião. Chegam-me aos ouvidos cantos de pássaros, que se destacam, e destoam do ambiente. Inusitados. Incomuns. Singulares. Surrealistas. Os pássaros são as excrescências deste cenário de horror. São as pústulas deste corpo perfeitamente tétrico. Procuro por um abrigo. Olho de um lado para outro. Diviso escombros. Ao longe, espocam luzes, de explosões, no céu e na terra. Riscos luminosos rasgam o céu. São de disparos, não sei de quais armamentos. Sucedem-se as explosões. Arrasto-me, com o coração aos pulos, bombeando, com vigor, o sangue, a ponto de estourar-me a caixa torácica. Envolve-me a escuridão; tão de repente, que me surpreende. Detenho-me. Olho em redor. Nada vejo. Não vislumbro nem meus pés, nem minhas mãos. Tateando os escombros, acocorado, desloco-me não sei para onde. A insegurança me consome. Sinto que não posso permanecer aqui. Retiro do bolso a lanterna. Ouço vozes, que me chegam da minha direita. Agacho-me. Com a lanterna na mão, detenho-me, ouvidos atentos e olhos apurados; nada vejo, entretanto. Não vejo nem a ponta de meu nariz. As vozes que me chegam aos ouvidos pertencem a três homens, que falam um idioma que desconheço. São vozes graves, cavernosas. Sussurro, agora. Os três homens aproximam-se de mim. Calo-me… Os três homens distanciam-se… Não me viram, para a minha felicidade. Afastam-se. Cauteloso, desloco-me, tateando os escombros. Não quero provocar ruídos. Duas detonações, não muito longe de mim. Ouço berros ensurdecedores. Vejo cilindros de luz cem metros à minha frente. Ouço detonações, uma, duas, três, quatro… Uma rajada de detonações, de duas ou mais armas. Sucessivas e simultâneas. De armas de modelos diferentes. Deito-me, de barriga para baixo, e pouso as mãos sobre a nuca, para me proteger. Não sei de que direção são dados os tiros. Os disparos não me são dirigidos. Não sou o alvo dos atiradores. Nenhum projétil assobia aos meus ouvidos, nem atinge os escombros próximos de mim. Nada vejo. Escuto detonações, que se sucedem de diversas direções. Sinto-me exausto, debilitado. Procuro controlar meus batimentos cardíacos. Sucedem-se explosões ensurdecedoras. Não são de disparos de revólveres, pistolas, rifles, metralhadoras. São disparos de mísseis. A terra treme sob meu corpo. Pedras atingem-me os braços, as costas, as pernas. Cerro as pálpebras. Mordo os lábios. Entrelaço os dedos das mãos e os comprimo uns contra os outros e contra a cabeça. Retesados, todos meus músculos. Segue-se silêncio lúgubre, que ruídos de motores de veículos interrompem. Afrouxo os dedos das mãos. Nenhum ruído. Nenhuma voz. Aviões sobrevoam a região não sei há quantos metros de altura. Desentrelaço os dedos das mãos. Passo as mãos, da nuca para o queixo. Deito sobre as mãos a cabeça. Ouço vozes de homens, de mulheres e de crianças. Homens, mulheres e crianças conversam, sussurrando, num idioma que desconheço; e afastam-se de mim. Não me movo. Penso em me levantar, em acionar a luz da lanterna. Empunho a lanterna. Não sei se a aciono. E se combatentes virem a luz da lanterna? As pessoas que estão próximas de mim estão armadas? Elas me ajudarão? Ou me matarão? Elas são combatentes? Dirão aos combatentes, ou aos A…, ou aos B…, de mim? Prefiro conservar-me, aqui, deitado, e, sussurrando, registrar este relato… Despertam-me detonações. Dormi não sei durante quantas horas. O céu, claro. A luz do sol atinge-me da cintura para baixo. Sucedem-se explosões. Um avião passa ao longe, a dois quilômetros de distância e oitocentos metros de altura. Alvejam-no projéteis. O avião explode. Com a consciência um tanto lenta, debilitada, afetada pelo resquício do sono que me dominou, e conservou-me no seu domínio não sei durante quanto tempo, ergo-me, e ponho-me sobre os joelhos. Olho ao redor. Diviso escombros, e escombros, e prédios fumegantes, e veículos dos quais escapam línguas de fogo. O que se sucedeu à noite? Consulto o relógio. Dormi durante mais de dez horas. À minha esquerda, cadáveres. Não estavam lá, ontem, antes de eu pregar as pálpebras. São quatro cadáveres, três, de homens, um, de mulher. Os quatro vergam trajes civis dos A…. A mulher, de cabelos compridos, jaz estirada numa poça de sangue, sob um homem deitado de bruços, de través, com um rombo no crânio, e de cuja testa escorre massa encefálica. Os outros dois cadáveres são, um, de um homem na idade de aproximadamente trinta anos, e o outro, de um homem de uns quarenta anos de idade, de barbas e bigodes espessos. Os quatro foram alvejados, cada um deles, por dois ou mais tiros. Não vejo cápsulas próximas deles. Concluo que os tiros partiram de longe. Chegam-me vozes aos ouvidos. Agacho-me. Vozes aproximam-se de mim. Os homens que as pronunciam não elevam o tom de voz. Aproximam-se de mim, lentamente. Acocorado, afasto-me dos cadáveres. À minha frente, um carro. Contorno-o. Ouço vozes de regozijo. Olho através do vidro do carro. São três homens. Não. Quatro. Cinco. Entrevejo armas. Rifles. Um homem carrega, a tiracolo, uma pistola. São seis homens. Dois deles, magros. Um, alto e musculoso, de voz roufenha, aparência tourina e músculos bem definidos. Seu tom de voz, de comando; os outros parlamentam com ele. Com um binóculo, ele esquadrinha o horizonte, e diz qualquer coisa. Um deles, magro, sobe em escombros e, com as mãos em pala, vasculha o horizonte. Dois homens andam na minha direção. Agacho-me. Arrasto-me para trás de escombros. Enfio-me por entre tijolos e vigas de ferro. Réstia de luz penetra nesta caverna, e revela-me o cadáver de uma criança decapitada, cujos olhos fitam-me, como se me repreendessem e suplicassem-me uma explicação ao que se sucede em C… Vejo, por uma frincha, o carro, e dois homens, que se detêm e remexem no carro. Aproxima-se deles um homem barbudo, que lhes exibe, ostentando-os com orgulho, os despojos que suprimiu, presumo, dos quatro cadáveres: dois relógios, um cinto, pulseiras e outros objetos. Aproximam-se do carro outros três homens. Riem. Gargalham. O grandalhão verga uma jaqueta preta, a qual retirou de um dos cadáveres, e exibe dois pares de sapatos e óculos de lentes pretas, e sorri, exibindo-se aos outros homens, que gargalham. A detonação de um projétil. Um dos homens que se acercaram do carro cai, alvejado por um projétil, presumo. Os outros homens põem-se de sobreaviso. Dois deles correm em minha direção, e abrigam-se nos escombros sob os quais estou. Seguem-se estrondos. Ouço gritos. Seguem-se estrondos. Sucedem-se gritos mistos de medo, raiva e dor. Explosões. Saraivadas de tiros. Aviões sobrevoam a região. Disparos. Gritos. Explosões. Estrondos. Passos acelerados. Várias pessoas correm, aos berros, próximas de mim. Vejo pés descalços ensangüentados passando por mim, rapidamente. Gritos. Choros. Gritos de desespero. Gritos de raiva. Gritos ameaçadores. Gritos de súplica. Entrevejo um homem carregando ao colo uma criança ensangüentada. Uma mulher ampara uma velha. Uma explosão. Nuvem de fumaça ganha o céu. Detritos invadem esta caverna. Cerro as pálpebras. Cubro o nariz, comprimindo as abas, para não aspirar detritos… Assentaram-se os detritos. Recupero a respiração. Descerro as pálpebras. Dissipou-se a nuvem. Não sei quanto tempo permaneci de pálpebras cerradas. Não ouço vozes. Não ouço ruídos. Nenhum som me chega aos ouvidos. Hesito. Quero retirar-me de sob estes escombros, que me protegeram, mas é uma armadilha. Por sorte, não ruíram, e não me soterraram. Apuro os ouvidos. Nenhuma voz, nenhum ruído, chega-me aos ouvidos. Lentamente, cauteloso, arrasto-me, evitando gestos bruscos, os ouvidos apurados para captar todo e qualquer ruído que me indique a presença de pessoas nas proximidades. Nada ouço. Movo-me, lentamente. Detenho-me. Ouvi ruídos de pedras caindo de grande altura. Segue-se o silêncio. Movo-me, lentamente, para me retirar deste abrigo, que poderá vir a se converter numa guilhotina e ceifar-me a vida. Censuram-me os olhos da criança decapitada. Fito-a pela última vez, e retiro-me de sob estes escombros. Olho em torno de mim. A paisagem foi enormemente modificada. O carro foi reduzido a ferro retorcido; mal há vestígios da sua forma original. Cadáveres juncam o chão a dez metros de mim. Há partes de corpos espalhados nos arredores. Braços. Pernas. Cabeças. Uma cabeça de mulher numa cavidade cheia de sangue. Ossos. Um mar de sangue. Quantos cadáveres há num raio de cinquenta metros que meu olhar alcança? Não sei para onde andar. Para onde me viro, vejo destruição e cadáveres. Sigo em direção às colinas, mais para o coração de C…, de onde chegam-me línguas de fogo e torres de fumaça, que se vergam ao sabor dos ventos, de mais de duzentos metros de altura. A batalha, lá, é mais intensa, encarniçada, do que aqui. Desloquei-me mais de vinte metros. Passei por cadáveres e escombros. Sigo em frente. Um veículo atrás de mim. Agacho-me. O veículo passa ao largo. Ergo-me. Neste terreno acidentado, repleto de obstáculos, corro, contornando-os, até um prédio em ruínas. Enveredo-me pelos seus domínios. Atravesso-o. Deparo-me com um cenário mais devastado do que o com o qual deparei-me antes de entrar neste prédio, que deixo para trás. Que… O que… O que é isto… O que é isto no meu braço direito? Um pernilongo. Criaturazinha maldita! Suga-me o sangue, a maldita! Sua barriga, repleta de sangue. Sangue! Sangue! Meu sangue! Criatura maldita! Enerva-me. Não me sugarás o sangue, maldita! Dou-te um tapa! Esmaguei-te, criatura maldita! Oh! Meu sangue! Mancha-me o braço meu sangue. Meu sangue! Oh! Meu sangue! Meu…

Emanuel desmaia. Aqui encerra-se o relato do correspondente de guerra.

O estranho mundo de Djidhikalji

São Paulo, Brasil. 17 de maio de 2134.

Instituto de Estudos de Vida Extraterrena.

Há dez anos Amanda Siqueira Martinez, cientista chefe do Departamento de Estudos de Civilização Extraterrena, estuda a presumível existência de vida inteligente em outra região do universo. Com afinco e perseverança, confiante, em nenhum momento pensou em desistir do seu propósito, nem nos momentos mais difíceis, naqueles em que ouviu a zombaria de colegas de trabalho. Encontraria vida inteligente, ou em outro planeta da Via-Láctea, ou em outro local do universo, ou além. Era sonhadora e visionária. Estava além do seu tempo, e não a compreendiam os seus contemporâneos. Desprezaram-la os amigos. Três pessoas, apenas três pessoas, a apoiavam.

Amanda acreditava que as noções de tempo e espaço concebidas pelos humanos mal representavam as forças que atuam no universo. As teorias científicas não concebem os aspectos mais complexos do cosmos – ou a sua simplicidade, inconcebível pelos humanos. Para a construção de um aparelho de transporte de indivíduos através do tempo e através do espaço são indispensáveis a descoberta das forças que atuam no universo e a compreensão de como elas interagem entre si e a invenção de tecnologia apropriada. Para muita gente, viagem através do espaço e através do tempo são fantasias de escritores providos de imaginação apurada, que se eleva às raias do absurdo; para alguns cosmólogos, viagens através do espaço e através do tempo são possíveis (Há cientistas, filósofos, teólogos que não acreditam na existência do tempo, considerando-o em termos cosmológicos; o tempo é, para eles, uma ilusão da mente humana – ainda há, pensam, muito o que se descobrir a respeito da existência da vida em si, da realidade e das forças que mantêm o universo coeso, impedindo-o de se encolher e de se desintegrar, causando uma singularidade, que venha a destruí-lo, ou a transformá-lo em algo que impede a existência de vida similar à humana).

Susana, Natacha e Everaldo eram os três cientistas que apoiavam Amanda, incondicionalmente. Contribuíam, com suas inteligências, sua sensível aptidão para a abstração e com amplos conhecimentos em matemática avançada para a formulação da ciência que permitiria viajar através do tempo e através do espaço. Dos três, Natacha, descendente de ucranianos, dotada de extraordinária e inigualável capacidade mnemônica – alcunharam-na os amigos Computador de Última Geração -, era a que estava imbuída de maiores conhecimentos em matemática aplicada e cosmologia. Na idade de vinte e seis anos, era uma das mais renomadas cientistas do mundo. Desde criança, dedica-se à ciência astronômica e à matemática, sob influência de seu pai, Fiódor, um gênio da física quântica, e de sua mãe, Mônica, uma bela italiana que, aos quarenta e seis anos de idade conservava a beleza da juventude, eminente cosmóloga, autora de seis livros, sendo um deles interessante relato, mescla de ficção e as mais recentes teorias sobre a criação do mundo, e um outro, escrito para leigos, que contêm a história da astronomia desde as mais antigas civilizações.

Natacha era o braço direito de Amanda. Tinha armazenada em seu cérebro incalculável quantidade de informações; era capaz de citar milhares de nomes de galáxias, de estrelas, de planetas, descrever-lhes as características, e localizá-las no espaço.

Everaldo e Susana, não tão excepcionais quanto Natacha, eram indispensáveis para o empreendimento; sem eles, Amanda não daria sequência às suas experiências, à construção das máquinas que criou e as quais aperfeiçoava.

Os recursos que Amanda obtinha para empreender os seus estudos vinham de sonhadores como ela, muitos deles milionários excêntricos que desejavam viajar através do tempo e através do espaço, conhecer o universo, e sonhavam com seus nomes inscritos entre os humanos mais importantes do seu tempo, e, quem sabe, da história da civilização; queriam legar à posteridade conhecimentos imprescindíveis para a compreensão da vida. Sem o dinheiro deles o projeto Viajante Espaço-Temporal jamais seria concretizado.

A máquina Viajante Espaço-Temporal era o mais sofisticado equipamento – dir-se-ia um veículo – construído para empreender viagens através do espaço e do tempo. A invenção de Amanda, Natacha, Susana e Everaldo superaram as dos cientistas rivais. Patentearam a máquina e todos os outros equipamentos. E ninguém além deles conhecia o projeto Viajante Espaço-Temporal. Conservaram-no oculto das outras instituições científicas, longe dos olhos dos espiões, que proliferavam nos institutos de pesquisa. Flagraram, em duas ocasiões, no laboratório, pessoas desautorizadas; eram elas espiões, um, de uma empresa rival, australiana, outra, de uma empresa canadense.

*

Sozinha, às três horas da madrugada, no laboratório 1-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, Amanda fazia testes com o Viajante Espaço-Temporal. Imperava silêncio absoluto. Amanda trajava um vestido azul claro decotado cuja borda inferior descia até à metade de suas cochas, usava uma tiara à cabeça, contendo os cabelos lisos, compridos e finos, que, se soltos, escorregar-se-lhe-iam pela testa e pelas laterais da cabeça, e incomodá-la-iam, obrigando-a a, de tempos em tempos, passar por eles as mãos e recolhê-los à cabeça. Apesar da fadiga, das noites em claro, da energia gasta nos anos anteriores, das chacotas que ouviu e do desprezo dos seus pares, conservava a sua beleza amorenada. Seu rosto, de traços suaves, e seus belos olhos irradiavam beleza tão profunda que encantava a todos.

Naquele dia, Susana, adoentada, não foi ao laboratório, e Everaldo socorreu sua mãe, que, acometida de dores no peito, teve de ser hospitalizada.

Eram quatro horas da madrugada, quando Natacha apresentou-se à Amanda.

– Oi, Natacha – saudou-a Amanda, que mexia, na ocasião, em alguns fios, e avaliava os dados que apareciam em um dos cento e vinte monitores. – Demoraste.

– Desculpe-me, Amanda. Choveu demais hoje. O trânsito, caótico. Nunca me acostumarei… Na Ucrânia não é diferente. Em Kiev, em Kharkiv, em Odesa, em Dnipropetrovs’k e em Donets’k enfrenta-se transtornos também.

Não eram ainda seis horas da manhã quando Amanda e Natacha, olhos fundos, puseram uma maçã no Viajante Espaço-Temporal, para um teste. A maçã viajou através do tempo e através do espaço; ao regressar, trouxe consigo a marca de uma dentada, que não se assemelhava a de nenhum animal terreno. Minutos depois, enviaram um coelho para um planeta distante, numa distante galáxia; ao regressar à Terra, ao Viajante Espaço-Temporal, o coelho trazia consigo uma mancha azul na cabeça – tratava-se de fluído segregado por algum animal -, e uma pequena criatura acompanhava-o.

Natacha e Amanda isolaram a maçã, o coelho e a criatura em compartimentos herméticos.

Poucos minutos depois do meio-dia, Amanda e Natacha, com fome, após vinte e quatro horas sem ingerir nem um grão de arroz, interromperam os testes, para uma refeição.

Amanda e Natacha não se continham de alegria. Os dois testes foram bem-sucedidos. Elas desejavam entrar no Viajante Espaço-Temporal, e viajar através do tempo e através do espaço. Seriam os primeiros humanos, sonhavam, a realizarem tal proeza.

– Quem irá primeiro, eu ou tu? – perguntou Natacha, radiante.

– Iremos as duas, Natacha – respondeu Amanda – Nenhuma de nós terá o privilégio do pioneirismo. Não correremos risco de morte. O Viajante Espaço-Temporal está pronto. Estou plenamente confiante no nosso sucesso.

– Iremos para onde? – perguntou Natacha, sorridente e animada.

– Escolha o nosso destino – disse-lhe Amanda. – Tu, melhor do que eu, apontarás um planeta qualquer em uma galáxia qualquer, sem acorrer aos dados do computador.

Natacha mencionou um planeta e em qual galáxia se situa.

Amanda e Natacha programaram o Viajante Espaço-Temporal, e nele entraram. No início, nada sentiram; minutos depois, sentiram náuseas e fraqueza, e desmaiaram, e recuperaram os sentidos minutos depois.

Luzes multicoloridas cruzaram o espaço. Amanda e Natacha viram estrelas, galáxias, aglomerados estelares, aglomerados galácticos, até que, enfim, chegaram ao destino. O Viajante Espaço-Temporal, sem sair do laboratório I-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, chegou ao distante planeta Djidhikalji.

Os detectores da nave avaliaram o ambiente. A atmosfera de Djidhikalji não representava perigo para Amanda e Natacha. O ar, respirável. O planeta, acolhedor. Os radares não captaram a presença de nenhuma criatura num raio de cem quilômetros. Amanda e Natacha, porta do Viajante Espaço-Temporal aberta, dele não saíram. Imobilizaram-las o medo, a apreensão, a ansiedade. Recuperavam-se das enfermidades que a atingiram durante a viagem. Recompostas, admiraram, deslumbradas, o panorama que se lhes descortinava.

Permaneceram, caladas, durante um bom tempo, no interior da nave, a olhar, fascinadas, a beleza esplendorosa dos arredores.

Entreolharam-se.

Amanda e Natacha, passos lentos, retiraram-se da nave.

O solo, macio. Tinham elas a sensação de pisar sobre um colchão macio, que se lhes cedia ao peso. Seus pés não afundavam no solo. Tiveram dificuldades para se manterem em pé. Olharam para trás, e viram o Viajante Espaço-Temporal afundado, no solo, que se curvava sob o seu peso, mas não afundava a ponto de desaparecer. Adiante, uma cachoeira. Notaram que nela a água não descia a encosta da montanha, mas a subia. Deram os primeiros passos, com dificuldade. Deslocaram-se cem metros. Acostumadas, já, com o solo, confiantes, caminharam, seguras de si. A sensação, agradável. Riam à toa, como se participassem de uma brincadeira infantil. Esqueceram-se – por pouco tempo – de que estavam em um planeta desconhecido.

De repente, uma imensa sombra envolveu a região. Natacha e Amanda viram-se mergulhadas nas trevas. Não sorriam mais, não se divertiam mais. Ensombreceram-se-lhes os semblantes. Vasculharam o céu à procura da causa de tal sombra tenebrosa e funesta, que logo dissipou-se. Não souberam explicar o fenômeno. Como a sombra apareceu sem que um corpo se interpusesse entre o planeta e a estrela que o iluminava? Entreolharam-se Amanda e Natacha, o coração aos pulos.

Refeitas do medo, andaram. De repente, surpreendeu-as uma criatura estranha de corpo segmentado, filamentos a destacarem-se-lhe da cabeça em forma de cubo, e três olhos cuja disposição formavam um triângulo isósceles, com um círculo no seu núcleo, a adornarem-lhe a face anterior, e duas saliências, que se aparentavam com orelhas de elefantes, a destacarem-se-lhe das faces laterais. A cabeça era ligada ao pescoço, que não tinha mais do que a grossura de um dedo mindinho de um recém-nascido e a extensão de cinquenta centímetros. Cada olho era composto de quatro círculos concêntricos, sendo branco o interno, e roxo o externo, e os dois intermediários eram, o maior, de uma cor que se assemelhava ao azul, e o menor, alaranjado. Tal criatura surgiu do solo – de algum modo o atravessara. De onde saíra nenhuma cavidade havia. Era como se se constituísse da substância que compunha o solo. E ele começou a flutuar. Fitou, com seus olhos estranhos, Amanda e Natacha, e provocou-lhes calafrio. Elas se imobilizaram, esbugalharam os olhos e escancararam a boca. A criatura, os olhos fixos nelas, elevou-se, no céu, até que, inexplicavelmente, desapareceu, sem deixar vestígios. Entreolharam-se Amanda e Natacha. Logo depois, uma criatura surgiu nas proximidades do Viajante Espaço-Temporal. Emitia um ruído estranho, que se parecia com o de motor de um carro pipocando. Amanda e Natacha a compararam com um jacaré; não sabiam de onde ela havia surgido. O “jacaré”, desprovido de cauda, tinha asas que alcançavam, cada uma delas, mais de três metros de comprimento. Do mesmo modo que a criatura de cabeça de cubo, flutuou, e desapareceu, inexplicavelmente, sem deixar vestígios.

Amanda e Natacha inspecionaram a região, o ânimo recomposto, certas de que eram pacíficas as criaturas daquele mundo estranho. Poucos metros à frente de Amanda e Natacha, o solo era vermelho escuro.

Detiveram-se Amanda e Natacha.

Do solo vermelho escuro minava água, que ia para cima, como se o solo fosse nuvem e chovesse em sentido contrário. Viram Amanda e Natacha, ao se voltarem para a cachoeira, que a água, nela, ia de baixo para cima, escalava a montanha, em cujo topo desembocava. E concluíram que o rio nascia no oceano, se algum oceano havia no planeta, e morria no alto das montanhas. Atentaram para o solo vermelho escuro, e decidiram nele pisar. No solo pisaram, e afundaram.

Caíam Amanda e Natacha. A sensação de queda, indescritível. Tinham a sensação de que subiam. Tentaram se equilibrar. Conseguiram. E continuaram a cair. Caiam? Olharam para cima – ou para baixo? – sobre suas cabeças – ou para baixo delas? Viram que no céu havia “peixes” e outros animais, que “nadavam”. Os “peixes” tinham caudas de mais de dez metros de comprimento e eram desprovidos de olhos; os animais parecidos com serpentes tinham duas cabeças e três caudas; e havia animais parecidos com tartarugas, de três cabeças, duas caudas e seis pés.

Enfim, Amanda e Natacha pousaram, suavemente, no solo. Olharam para o solo sob seus pés: era água; e nela elas não afundaram. Amanda agachou-se e, de cócoras, enfiou o dedo indicador da mão direita no solo; o dedo afundou; da abertura que fez, saiu um líquido espesso. Assustada, Amanda retirou do solo o dedo, e o líquido, cessando de escoar, formou uma “bolha”, que se desprendeu do solo e flutuou para a região de onde Amanda e Natacha desceram (ou subiram?). Natacha apontou, assustada e maravilhada, para algo que se mexia sob o solo aquoso; era reluzente, e assemelhava-se a uma redoma, e em seu interior, pareceu-lhe, havia seres e naves voadoras. A redoma, imensa. No interior dela, deduziu Natacha, havia uma megalópole. Expressou Natacha a sua vontade de ir até lá. Como? perguntou-se e perguntou para Amanda.

Natacha disse para Amanda que, quando ela, Amanda, enfiara o dedo no solo, abriu-se uma cavidade; talvez enfiando um dedo, e, depois, a mão, e os braços, e, por fim, o corpo, elas pudessem passar para o outro lado do solo. Amanda e Natacha, mãos dadas, enfiaram as mãos no solo aquoso, e nele enfiaram-se, e o atravessaram. Mergulhadas no solo, viram algumas criaturas estranhas desprovidas de olhos. A substância que compunha o solo era clara e, parecia, irradiava luz. Elas não precisavam mover os membros e nem se esforçar para mergulhar (mergulhar?) até a megalópole a vários metros de profundidade (profundidade?). À medida que dela se aproximavam, tomavam conhecimento da sua amplitude. Era maior do que todas as megalópoles humanas. Enfim, tocaram em algo sólido. Era a barreira que separava a megalópole do mundo exterior aquoso. Uma redoma transparente, que se abriu. Amanda e Natacha entraram. Assustaram-se, abismadas, com o que viram. A “megalópole” não tinha mais de cem metros de raio. As criaturas que nela viviam eram um pouco maiores do que gatos, tinham cinco patas, duas cabeças e três caudas de cinquenta centímetros de comprimento cada. Amanda e Natacha caminharam, as criaturas a darem-lhes passagem, por ruas estreitas, e chegaram ao outro lado da cidade, e caminharam pelas ruas.

Entreolharam-se Amanda e Natacha, maravilhadas e assustadas. Haviam presumido, enquanto aproximavam-se da cidade, que chegariam à uma megalópole; depararam-se, no entanto, com uma cidade minúscula, que não tinha nem mil habitantes. Detiveram-se no centro da cidade, onde havia um orifício no solo, por onde saíam e entravam criaturas estranhas, todas idênticas. Amanda disse que pelo orifício elas Amanda e Natacha, poderiam sair da cidade. Natacha disse que não sabia onde sairiam, e perguntou para Amanda e para si mesma que teriam de sair de lá, mas não sabiam como; além disso, elas teriam de se retirar daquele planeta. Não tinham outra alternativa, ou se arriscavam por aquele orifício, ou viveriam naquele mundo indiferente à presença delas.

Pularam, abraçadas, dentro do orifício. Não desejavam saírem, cada uma delas, em um lugar. Envolveu-as a escuridão. Os corações a baterem acelerados, os corpos trêmulos, a respiração ofegante, choraram, imaginando que a vida delas dissipava-se. Estreitaram-se, num abraço apertado. Encerrada a travessia pelo orifício, apenas um corpo surgiu; não era nem o de Amanda, nem o de Natacha. Era um corpo de mulher, e dentro dele havia duas mentes, a de Amanda e a de Natacha. Um corpo, duas mentes. Amanda e Natacha dialogavam, confusas, sem saberem o que lhes ocorrera. Transcorreram-se vários minutos antes de elas perceberem que habitavam um corpo, que resultou da fusão dos corpos delas. Fundiram-se os corpos; as mentes, não.

De repente, o corpo atravessou uma parede escura, e chegou ao Viajante Espaço-Temporal.

– A nave – disse Natacha.

– Natacha, nós permanecemos dentro do mesmo corpo – comentou Amanda.

Amanda-Natacha foi até o Viajante Espaço-Temporal. Perguntavam-se cada uma para si mesma e uma para a outra durante quanto tempo compartilhariam o mesmo corpo.

– Quando nos retirarmos deste planeta – presumiu Amanda -, recuperaremos, eu, o meu corpo, tu, o teu.

Amanda-Natacha entrou na nave, e acionou os comandos, e rumou à Terra. Na Terra, do veículo retirou-se uma mulher, Amanda-Natacha.

*

Amanda-Natacha, que se apresentou como Amanda, mostrou o disco, no qual havia gravadas cenas da viagem, para outros cientistas, que lhe indagaram porque ela mudou de aparência. Amanda disse que o planeta provocara-lhe mudanças no seu aspecto físico. Perguntaram-lhe de Natacha. Com as mãos ao rosto, Amanda chorou convulsivamente. Olharam-la, enternecidos. Dias depois, celebraram o enterro simbólico de Natacha. Amanda relatou a sua aventura e de Natacha para platéias de todo o mundo. Todas as leis da física, da química, da biologia os cientistas as reconsideraram à luz das imagens da viagem de Amanda e Natacha ao planeja Djidhikalji.

Nas viagens subseqüentes do Viajante Espaço-Temporal, Amanda-Natacha não foi a Djidhikalji, planeta que, acreditavam Amanda e Natacha, havia desaparecido, pois dias depois de seu regresso à Terra, elas programaram o Viajante Espaço-Temporal com as coordenadas de Djidhikaji, e não o encontraram. Ou o planeta desaparecera, ou deixara de existir, ou, então, se vivo, dotado de consciência, deslocara-se para outra galáxia, ou para outro universo, ou para outra dimensão, para que os humanos não o encontrassem.