A casa dos horrores

Quarta-feira. Dia quente. Ariadne chegou, às onze e meia, na sua casa, saltitando de felicidade, lindo sorriso a sublimar-lhe a beleza do rosto de traços suaves. Queria ir ao banheiro tomar um banho revigorante e, depois, almoçar; antes, porém, contaria para sua mãe, Carmem, as boas novas: 10, em História; e 9, em Biologia. Percorreu toda a casa à procura dela; não a encontrou. Contrariada, foi ao quarto. Deixou os cadernos e os livros sobre a escrivaninha, sentou-se na cama, e descalçou os pés; descalça, foi até o guarda-roupa, de cuja gaveta inferior retirou uma calcinha e um short, e uma camisa da gaveta superior. Ato contínuo, foi ao banheiro. Não trancou a porta. Pôs as roupas que retirara do guarda-roupa sobre a tampa do vaso sanitário. Despiu-se. Pôs-se sob o chuveiro. Abriu-o. Atingiu-lhe o corpo, que pedia um pouco de refresco, a água fria. Arrepiaram-se-lhe os finos pêlos dos braços. Ao acostumar-se com a temperatura da água, deixou-se molhar, deliciada.

Durante o banho, passeava as macias mãos pelo corpo sedoso. Feliz, elogiava-se, em pensamento, pelo seu desempenho nas provas de História e Biologia.

Ariadne queria seguir carreira de oftalmologista. Pretendia, no final do ano, prestar exame vestibular nas mais conceituadas universidades brasileiras. Como todos os jovens, construía suntuosos castelos no ar. Via-se, vergando o uniforme branco, em um consultório em cuja porta lia-se, em uma plaqueta: ‘Doutora Ariadne Almeida Vargas. Oftalmologista’.

A água escorria voluptuosamente pelo corpo exuberante de Ariadne, que empinava o busto e jogava a cabeça para trás, jogando, para as costas, os longos cabelos bem cuidados, permitindo, assim, que a água lhe atingisse o belo rosto. Com as pálpebras cerradas, abria a boca e a enchia com um pouco de água, soltando-a logo em seguida. Imersa no prazer que o banho permitia-lhe desfrutar, permaneceria sob o chuveiro por mais um bom tempo. De repente, ao golpear-lhe indefinível sensação de desconforto, abandonou os seus devaneios. Não saberia explicar, se alguém lha indagasse, o que a alertara para a ameaça que dela se aproximava. Descerrou as pálpebras. Voltada para a parede, de costas para a porta do banheiro, olhou por sobre o ombro esquerdo, e viu, a poucos centímetros de si, o corpo volumoso, nu, repulsivo, coberto de pêlos, de Clodoaldo, seu pai, cujos olhos, que transbordavam lascívia animalesca, miravam-na, e cuja fisionomia estampava rictus doentio, insano, crudelíssimo. Ariadne sentiu intenso calafrio percorrer-lhe o corpo e gelar-lhe a espinha. Era indisfarçável o estado de embriaguez de Clodoaldo, que exibia rosto inchado, avermelhado. O odor que ele exalava feriu o nariz de Ariadne, que, assustada, petrificada, encarou-o, olhos arregalados; ao abaixar o olhar, ela se assustou com o que viu, e, automaticamente, adivinhou as intenções de seu pai.

Clodoaldo segurou o pênis ereto e exibiu-o para Ariadne, que começou a tremer, a balbuciar palavras desconexas. Dos olhos dela escorreram lágrimas. Clodoaldo deu um passo para a frente. Ariadne preparou um berro. Clodoaldo precipitou-se sobre ela, cobriu-lhe a boca com a sua enorme mão áspera, impedindo-a de gritar, e sussurrou-lhe obscenidades, numa voz cavernosa – e de sua boca escapava hálito putrefato. Apertou-se nela. Esfregou-se nela. Buscou, com os lábios, os lábios de Ariadne, que tentou, em vão, com as mãos, afastá-lo de si. Ele a premiu à parede, enfiou-lhe as mãos entre as coxas, para forçá-la a afastar as pernas uma da outra. Ariadne resistia, mas nada podia fazer em sua defesa. Clodoaldo era corpulento, pesado, forte. Ariadne, de um pouco mais de um metro e sessenta centímetros de altura e sessenta quilos, não podia lhe opor resistência. Clodoaldo mordeu-lhe o lábio superior, ao mesmo tempo que, com a mão direita, puxava-lhe os pêlos pubianos e, com a mão esquerda segurando o pênis ereto, forçava a penetração. Os seus músculos estavam contraídos; os vasos sanguíneos, intumescidos. Ariadne não conseguiu protestar, nem clamar por socorro. Deu início a um grito sufocado, que Clodoaldo abafou cobrindo-lhe a boca com a mão direita.

Ariadne chorava, convulsivamente.

Clodoaldo, frustrado com as suas infrutíferas tentativas de violar Ariadne, emitiu um abafado urro de raiva e, ao mesmo tempo, com as coxas esforçava-se, em vão, para afastar as pernas de Ariadne uma da outra. Contrariado, surpreso com a resistência de Ariadne, retirou-a, apertando-lhe o pescoço com a mão direita e o braço direito com a mão esquerda, de sob o chuveiro. Ariadne quis resistir, mas não pôde impor resistência a um homem dez vezes mais forte do que ela.

Ariadne sentiu dor insuportável.

Clodoaldo, nervoso, irritado, impaciente, encaixou um potente soco no ventre de Ariadne, roubando-lhe o ar dos pulmões. Ariadne chorava, aterrorizada. Clodoaldo puxou-a pelos cabelos, jogou-a no chão, de costas, deitou-se sobre ela; com os lábios ardendo de bestialidade, sugou-lhe os lábios, mordeu-os, ao mesmo tempo que com a mão direita segurava o pênis ereto e forçava-o para dentro de Ariadne – enquanto com a mão esquerda puxava os cabelos dela, infligindo-lhe dores indescritíveis. A dor que Ariadne sentiu, no exato momento da penetração, quase lhe roubou a consciência. Ela sentiu o ventre rasgando-se. Clodoaldo, ávido, lascivo, desferiu estocadas violentas, indiferente à pungente dor que lhe infligia e ao seu choro convulsivo. Enquanto ejaculava, a intensa sensação de prazer que o invadiu fê-lo mais agressivo, mais bestial, mais rude, mais grosseiro, e impeliu-o a mover-se com estocadas mais furiosas, ferindo Ariadne mais profundamente. Ao sentir-se satisfeito, de Ariadne retirou-se e conservou-se, as pernas abertas e os joelhos no chão, sobre ela, exibindo-se-lhe, e ameaçando-a:

– Você, boneca deliciosa, nada contará para sua mãe. Belezinha! Gostosinha! Entendeu, brotinho? Docinho! Se você der um pio, cabacinha, matarei você. Se você abrir o bico, matarei você, boquinha lindinha do papai. Está vendo, menininha gostosinha, o que tenho nas mãos? – e esfregou-lhe o pênis flácido no rosto. – Você já experimentou o papai, peitudinha. Esta foi a primeira vez, cabacinha. E não será a última. Entendeu? Se você contar alguma coisa para sua mãe, arrebentarei você. Você é minha filha, fofurinha do papai. Com você, faço o que bem entender. Entrarei em você sempre que eu desejar. Belezinha. Filhinha do papai. Com você, faço o que quiser. O que quiser, entendeu? Se você abrir o bico, matarei você. Ai de você, vadiazinha do papaizão, vagabundinha deliciosa, se você contar para sua mãe. Sabe o que farei, se você der com a língua nos dentes, cabacinha? Arrombarei você e enfiarei uma faca no seu coração, entendeu, cabacinha? Arrombarei você. Belezurinha, entrarei pela porta dos fundos e pela porta da frente. Se você contar para alguém, cabacinha, matarei você. Terei o seu sangue nas minhas mãos. Belezinha. Cabacinha. Se você contar para sua mãe, ou para qualquer pessoa, matarei você. Matarei você! Não estou brincando, vadiazinha, depravadazinha. Não estou brincando. Arrombarei você, matarei você, farei picadinho de você, e lamberei os seus ossos, e jogarei os seus pedaços para os vira-latas. Entendeu, cabacinha? Se você contar para alguém, matarei você. Matarei você, uma, duas, três vezes. Matarei você quantas vezes eu quiser.

Ariadne, sem forças para se levantar, conservou-se deitada, a chorar convulsivamente. Todo o seu corpo doía-lhe. Vibrava-o dores insuportáveis. Ela nunca havia se sentido tão indefesa, tão impotente, tão frágil, tão desamparada, tão abandonada, tão só.

– Levante-se, bonequinha. Cabacinha do papai. Vista-se, fofurinha vadia – gritou Clodoaldo, ao mesmo tempo que puxava Ariadne pelos cabelos e jogava-lhe as roupas em cima. – Não quero que sua mãe veja você assim, nuazinha em pêlo, cabacinha. Pare de chorar, belezinha do papai. Levante-se! Enxugue as lágrimas, garotinha mimada. Levante-se! Você quer brincar mais um pouquinho com o papaizinho? – deu-lhe dois pontapés, apertou-lhe os braços e a pôs sentada, no chão, encostada à parede. O rosto de Ariadne, deformado pelo medo e pela dor, estava irreconhecível. – Pare de chorar, vagabundazinha! O mundo não desabará porque entrei em você, belezurazinha do papai. Não faça docinho, lindinha do papai. Não faça biquinho, pitéuzinho. Para o chuveiro, cabacinha! Limpe-se! Cabacinha, tire todo esse sangue daqui. Que sujeira você fez! Vagabundazinha vadia do papai! Você sujou o banheiro, cabacinha. Nunca vi tanto sangue em minha vida! Nem no açougue do Baião há tanto sangue!

Ariadne pôs-se sob o chuveiro, sentada, as pernas encolhidas. Abraçou-as. Enfiou a cabeça por entre os joelhos, mantendo-a presa entre eles. Chorava convulsivamente. Clodoaldo perdeu a pouca paciência que lhe restava, desligou o chuveiro, arrastou Ariadne, pelo braço, machucando-o, até o quarto, jogou-a sobre a cama, voltou ao banheiro, pegou uma toalha, regressou ao quarto, e pôs-se a enxugar Ariadne; admirava-lhe o corpo bem feito, apertava-lhe os peitos, sugava-lhe os mamilos e ameaçava violá-la mais uma vez.

*

Ariadne testemunhava, diariamente, discussões violentas entre seu pai e sua mãe – discussões que, infalivelmente, degeneravam em violência física. No quarto, deitada em posição fetal, chorava convulsivamente. Os seus sentimentos, confusos, indefiníveis, perturbavam-na. Certo dia, Clodoaldo surrou Carmen com tanta violência que lhe pôs hematomas em todo o corpo e quebrou-lhe o nariz e o braço esquerdo. Em outra ocasião, Clodoaldo quebrou uma vassoura nas costas de Carmen, e espancou-a, dias depois, a ponto de roubar-lhe a consciência. Ariadne ficou apavorada no dia em que viu Clodoaldo estuprar Carmen, e recolheu-se ao quarto. Não dormiu à noite. Não conseguiu afugentar de si as imagens terríveis que presenciara e as lembranças do dia em que foi estuprada. Temia que Clodoaldo invadisse o quarto, a atacasse e a violentasse.

*

A casa estava imunda. Era um antro de criaturas repulsivas. Ratos, baratas e outros animais peçonhentos circulavam, livremente, de um lado para o outro, por toda a casa, que, meses antes, brilhava de tão limpa. Ariadne, antes, caprichosa, era quem conservava o brilho da casa, com faxina diária; agora não se incomodava com a imundície.

Num certo dia, a voz embargada, durante uma conversa com sua mãe, assim que ela lhe perguntou porque estava tão triste, disse-lhe:

– Mãe, o pai me estuprou.

Carmen alterou-se de imediato; furiosa, fungando, desferiu um tapa no rosto de Ariadne, que ficou apavorada com tal reação. Carmem esbofeteou-a, cuspiu-lhe ofensas. Ariadne não reagiu; sentiu a consciência dissipar-se. Não recuou, no início, tão surpresa com a reação de sua mãe, pois acreditara que dela ouviria palavras de consolo, afinal, ela, Carmen, era sua mãe, e, além disso, Clodoaldo a havia estuprado. Como os tapas, os socos e os insultos sucederam-se, avassaladoramente, protegeu-se com os braços e os antebraços, e impôs débil resistência. Carmem puxou-lhe os cabelos, forçou-a a curvar-se, e deu-lhe tapas nas costas e no rosto.

– Você, filha… Fala de seu pai… – repreendeu-a Carmen. – Não o calunie, filha ingrata. Ele trata tão bem você. Seu pai é um homem amoroso. Ele é seu pai, cadela. Cadela! Vagabunda! Por que você fala isso de seu pai? Por que você inventa essas histórias? Por que, ingrata? Vadia! Cachorra! Não admitirei que você calunie seu pai, filha ingrata. Ele sempre tratou tão bem você! Ele sempre foi amoroso com você! Cadela vagabunda! Por que você inventou essa história?

– Não inventei história… – defendeu-se Ariadne, aos prantos. – Eu disse a verdade; você sabe que eu disse a verdade. Ele… Ele… Eu, no banheiro… Ele… Ele entrou… Ele me agarrou… Ele me deu um murro… Ele… Ele… Mãe… Ele me jogou no chão… Deu-me um murro… Ele me forçou… Mãe, ele… Eu… Ele me ameaçou… Ele me disse… Se eu contasse… Ele me disse… Ele me mataria… Ele me disse…

– Mentirosa! Vagabunda! – berrou Carmen, que, furiosa, deu um tapa em Ariadne, arremessando-a sobre uma cadeira.

– É verdade, mãe – retrucou Ariadne, aos prantos, mal conseguindo pronunciar as palavras. – Estou falando a verdade. Por que eu mentiria? Ele… Ele… – impediam-na de falar os soluços e o choro convulsionado. – Ele… Ele me ameaçou… Ele me estuprou… Ele…

– Cale a boca, vagabunda! – berrou-lhe Carmen, ao mesmo tempo que ameaçava dar-lhe um tapa. – Seu pai é um homem amoroso.

– Amoroso? Ele… Eu… Eu o vi batendo em você… – disse Ariadne, soluçando, gaguejando. – Ele deu murros na sua barriga, mãe… Com a vassoura… Ele quebrou seu nariz… Ele deu murros em você, mãe. Eu vi… Vi… Vi, um dia… na quarta-feira… ele… ele…  – mal podia falar; tremiam-lhe os lábios, convulsivamente. – Ele… Ele… Eu o vi… – Não pôde concluir a frase.

Carmen acertou-lhe, na cabeça, uma série de cinco socos. Ariadne, que já chorava, convulsivamente, agora, encolhida em posição fetal, no canto da cozinha, espremida entre a geladeira e a parede, a vibrar em espasmos de dor e de medo, chorava copiosamente, mal conseguindo respirar.

– Mentira! Mentira! Mentira! – esgoelava-se Carmen, enfurecida, enquanto esmurrava Ariadne. – Você nunca viu… Vagabunda! Nada aconteceu, filha ingrata! Cadela vagabunda! Seu pai nunca me bateu! Vagabunda! Suma da minha frente, filha ingrata! Seu pai é um homem amoroso! Pare de inventar essas histórias, vagabunda! Cadela! Vagabunda! Cadela! Piranha! Puta! Vagabunda! Você se ofereceu para seu pai, puta! Você o seduziu, vagabunda! Você se entregou para ele, puta! Puta! Você seduziu seu pai. Você se entregou para ele. Cadela! Vagabunda! Puta, suma da minha frente!

Ariadne mal conseguiu pôr-se de pé. Carmen, furiosa, olhos cheios de ódio, ergueu-a pelos cabelos, esbofeteou-a. Ariadne retirou-se da cozinha, cambaleando. Carmen arremessou-lhe um copo, acertando-lho nas costas. O copo estilhaçou-se. Ariadne, cambaleando, aos prantos, a chorar convulsivamente, andou pelo corredor até o seu quarto. Entrou. Fechou a porta, à chave. Deixou-se cair sobre a cama. Chorou, durante as seis horas seguintes, até adormecer. Do quarto retirou-se, com o rosto inchado, os olhos avermelhados, os cabelos despenteados, trajando camisa e calça amarfanhadas, ao amanhecer. Andou, sem rumo, pela cidade. Regressou, esfomeada, exausta, imunda, noite alta, entrou no quarto, trancou-o à chave, jogou-se na cama, e dormiu.

*

No seu quarto, sentada na cama, livro e caderno sobre as pernas cruzadas, um lápis na mão direita, Ariadne estudava para a prova de Matemática, marcada para o dia seguinte. Fazia alguns cálculos, recorria às explicações do livro, mordia a ponta do lápis, concentrada, de cenho franzido, nas questões propostas pela professora.

A porta abriu-se, de repente, com um golpe violento. Ariadne, assustada, os olhos esbugalhados, voltou-se para a porta, em cujo enquadramento viu, para o seu horror, Clodoaldo, que a fitava, bufando, ameaçador. Ondas de calafrio percorreram o corpo de Ariadne, que sentiu o sangue se lhe fugindo. Ariadne largou o lápis, encostou-se à cabeceira da cama, abraçou as pernas, enfiou a cabeça no espaço entre elas, e começou a gemer, a soluçar, a chorar, antecipando os eventos subseqüentes. Tremia, apavorada. Sabia o que lhe sucederia. Clodoaldo fechou a porta atrás de si, à chave, mirando Ariadne com olhos encolerizados, fisionomia carregada; andou até ela, e, num tom áspero, ameaçador, rilhando os dentes, disse-lhe:

– Cabacinha, você contou para sua mãe…

Ariadne tremia, balbuciava qualquer coisa, amedrontada.

– Cabacinha, você contou para sua mãe… – disse Clodoaldo, que se curvou sobre Ariadne, puxou-lhe, pelos cabelos, a cabeça. Dos olhos de Ariadne escorriam lágrimas copiosas, e seus lábios tremiam convulsivamente. – Não chore, queridinha do papai. Papai avisou você, fofinha, não avisou? Papai disse para você, vadiazinha, não contar para sua mãe, não disse? Papai está triste com a filhinha queridinha. Filhinha cabacinha é desobediente. Filhinha queridinha merece castigo. – Enquanto dizia-lhe isso, desabotoava-lhe a camisa. Ariadne estava paralisada pelo terror-pânico que a avassalava. Assim que, animada por alguma força oculta, principiou um grito, Clodoaldo, furioso, deu-lhe um soco na face esquerda, com tanta força, que Ariadne caiu, desacordada, o nariz a jorrar sangue. Clodoaldo, rilhando os dentes, resmungando maldições e obscenidades, rasgou-lhe as roupas, deitou-se sobre ela, e a estuprou. Após se satisfazer, não removeu o sangue que manchava os lençóis e o que enfeava Ariadne, abandonada, lá, como uma boneca imunda.

*

– Você… – gritou Carmen, com toda a força dos pulmões – … a Ariadne?

– Não – respondeu Clodoaldo, áspero. – Por quem você me toma? Sou um homem amoroso. Por que me pergunta se estuprei a Ariadne? Sou um homem amoroso, vadia.

Clodoaldo, fora de si, enraivecido, avançou para cima de Carmen, deu-lhe um forte tapa na face esquerda. Carmen caiu no chão. Não teve tempo nem de pensar em se levantar, pois Clodoaldo pulou sobre ela, surrou-a, rasgou-lhe as roupas, a pôs de bruços, e a sodomizou.

*

A casa estava imunda. Havia meses ninguém a varria, ninguém removia o pó que cobria os móveis e nem as teias de aranhas que se acumulavam em todo canto.

As aranhas criaram várias colônias, com dezenas de indivíduos em cada uma delas, em toda a casa. No chão, havia sujeiras de rato em todo lugar.

Insuportável o cheiro que empesteava a casa.

Eugênio, irmão de Ariadne, definhava a olhos vistos. Sofria nas mãos de sua mãe e nas de seu pai. Eles o surravam com freqüência, duas, três, quatro, cinco vezes ao dia. O seu corpo franzino não suportaria por muito tempo as surras que lhe eram aplicadas. Estava esquelético, cadavérico. O seu olhar, desprovido de vida. Vivia emudecido pelos cantos. Conversava e brincava com os ratos – os seus únicos amigos -, que lhe comiam nas mãos migalhas de pão, pequenos insetos mortos, legumes e verduras podres.

Ariadne não era mais aquela moça prendada que apreciava limpar a casa e conservá-la limpa para apresentá-la aos amigos. Vestia-se com desleixo. Não se aplicava nos estudos, como antes. Nas provas bimestrais, em Matemática, tirou 3,5; em Biologia, 2; em Língua Portuguesa, 1,5; Em História, 1; em Geografia, 1,5. A sua freqüência escolar, que era de 100% das aulas, despencou para 10%. Não se interessava, nem pelos estudos, nem pelos amigos – dos quais se afastou -, e não pensava mais na sua carreira, com a qual sonhava desde tenra infância. Perdeu a vontade de viver. Eugênio, três anos mais novo do que ela, tão estragado pelos castigos e pelos sofrimentos que seu pai e sua mãe infligiam-lhe, que aparentava oitenta anos mal vividos.

Ariadne não conversava com seu pai e nem com sua mãe – para eles nem olhava. Evitava-os. Provocava-lhe calafrios a  figura de seu pai; quando ele lhe descia o olhar, Ariadne tremia, incontrolavelmente, mesmo que não olhasse para ele. Era como se a sua pele queimasse, atingida pelas labaredas infernais que os olhos de Clodoaldo disparavam.

Indiferente ao estado deplorável da sua casa, Ariadne dela entrava e saía.

Ariadne abandonou os estudos. Não se interessava pelos livros. Desistiu dos seus sonhos. A oftalmologia era um assunto que não mais lhe despertava o interesse. Estabeleceu relações com ladrões, assassinos, traficantes de drogas. Envolveu-se com tráfico de drogas, estelionato, assaltos, seqüestros, contrabando de armas e prostituição. Vendia seu corpo para qualquer homem, para sustentar os seus vícios.

*

Eugênio vivia em meio às baratas, às lacraias, aos ratos, aos escorpiões e aos percevejos que infestavam o seu quarto, no qual ninguém, além dele e de Ariadne, entrava.

À noite de um sábado, após participar de um assalto a banco, consumir maconha, cocaína e crack, embebedar-se e protagonizar uma orgia sexual durante a qual estabeleceu o intercurso sexual com quatro homens, deles realizando todas as fantasias, Ariadne, vergando um vestido amarelo manchado de sangue, sêmen, bebidas, e salpicado de pós, entorpecida, andou, entrançando as pernas, tateando as paredes, pela casa, até o quarto de Eugênio, enquanto Eugênio dormia, abriu a porta, e entrou. Não se incomodou com as criaturas asquerosas que infestavam o quarto – já havia se familiarizado com elas. Aproximou-se da cama imunda em que Eugênio dormia profundamente, tendo ao lado duas ratazanas repulsivas e sobre o corpo aranhas grotescas e escorpiões, que se digladiavam.

– Eugênio – sussurrou Ariadne, curvada ao lado da cama, os joelhos pousados no chão.

Fitaram-na as ratazanas, as aranhas e os escorpiões.

Ariadne tocou Eugênio no ombro direito. Ele não acordou. Não se notava a sua respiração. A sua aparência, a de um cadáver. Eugênio exalava odor mefítico.

– Eugênio – disse Ariadne, ao mesmo tempo que o tocava no ombro.

Eugênio despertou, e voltou-se para Ariadne, que, antes que ele pronunciasse qualquer palavra, colou seus lábios carnudos, sensuais, nos lábios dele, frios e descoloridos.

Retiraram-se da cama, escalaram a parede e acomodaram-se no teto, ao canto, as aranhas e os escorpiões.

Recolheram-se ao guarda-roupas as ratazanas.

*

– Vagabunda! Ariadne, você é uma vadia! Pervertida! – ofendeu-a Carmen, e desferiu-lhe dois tapas. Ariadne não reagiu. – Puta! Puta! Suma da minha casa, vadia. Bandida! Puta!

Duas ratazanas, exibindo dentes afiados, entraram na cozinha imunda e correram na direção de Carmen, que, ao vê-las, assustou-se, e pulou sobre uma cadeira. Ariadne exibiu, num contido sorriso de satisfação, seus lindos dentes brancos. Uma ratazana, a maior delas, deu um salto sobre a cadeira em que Carmen estava, avançou à perna de Carmen, e mordeu-a. Do ponto atingido escoou sangue em profusão. A outra ratazana, no chão, olhava, detidamente, para Carmen, sem dela tirar os olhos.

Assustada, a berrar, enlouquecida, Carmen deu um pulo, caiu sobre a cadeira, desequilibrou-se, e estatelou-se no chão. A ratazana que estava no chão pulou no rosto dela, e mordeu-o na comissura direita dos lábios. Sangue escapou do ferimento.

Ao ouvirem um agudo e quase inaudível assobio, as ratazanas afastaram-se de Carmen, e retiraram-se da cozinha. Era Eugênio, que, do seu quarto, as chamava. O olhar aterrorizado de Carmen encontrou-se com o de satisfação de Ariadne, que girou nos calcanhares, e foi para o quarto de Eugênio, no qual entrou, e trancou a porta à chave.

*

Às quatro horas da tarde de um sábado, Ariadne entrou na sua casa. Não se incomodou com a imundície. Sua mãe estava na cozinha. Entreolharam-se. Carmen leu, nos olhos de Ariadne, desprezo e superioridade. Ariadne passou por ela, e foi ao quarto de Eugênio. Entrou. Trancou a porta à chave. Retirou-se do quarto, no domingo, às nove horas da manhã, trajando um vestido que lhe realçava a formosura do corpo.

*

Enormes aranhas peludas andavam pelas paredes e pelo teto da casa. Ninguém as incomodava. Havia muito lixo acumulado no quintal onde o mato e as ervas daninhas dominavam. Havia centenas de colônias de escorpiões, ratazanas, aranhas e lacraias no quintal e dentro da casa.

Clodoaldo, embriagado, chegou em casa. A sua fisionomia, de dar arrepios. Engrolava as palavras. Resmungava, ciciando, palavras impronunciáveis, obscenidades e vitupérios. Empesteou a casa com o miasma que exalava. Na cozinha, sentou-se à mesa, e segurou a cabeça com as mãos, os cotovelos fincados na mesa. Trinta minutos depois, Ariadne chegou e deteve-se ao batente da porta que dava acesso da sala à cozinha.

Detiveram-se, e fitaram Ariadne e Clodoaldo as aranhas que passeavam pela parede.

– Cabacinha vagabunda! – berrou Clodoaldo. – Cabacinha, você não é minha filha. Vagabunda! Cabacinha, você vai se arrepender! Você não é minha filha, cabacinha! Vou fazer você engolir o seu sangue. Farei picadinho de você, vadia!

Ariadne fitou Clodoaldo com olhar de desprezo, meneou a cabeça, esboçou sorriso escarninho; com andar firme, a coluna ereta, fitando-o, imperiosa, passou por ele e entrou no quarto de Eugênio.

– Aranhas malditas! Aranhas malditas! – berrou Clodoaldo, num tom enraivecido; de sua boca escorria saliva tinta de sangue. Cuspiu sobre uma aranha, que correu, e saltou para a parede, deixando atrás de si um rastro gosmento. Uma aranha seguiu-a. E ambas desapareceram atrás da geladeira.

Clodoaldo tirou do pé direito o sapato, e jogou-o contra uma aranha, que o fitava, esmagando-a na parede. A aranha caiu no chão, em contorções espasmódicas. Clodoaldo, ao levantar-se, empurrou a cadeira para trás, derrubando-a. Furioso, agarrou-a por duas pernas, e quebrou-a contra a parede. Empunhando as duas pernas da cadeira, mirou uma aranha que andava na porta da geladeira. A aranha esquivou-se dos golpes. Do nariz de Clodoaldo escorria sangue apretejado da consistência de manteiga. Quatro aranhas pularam sobre Clodoaldo, e morderam-no, no rosto, no braço esquerdo, no pescoço, e na cabeça, próximo da orelha direita. Clodoaldo caiu, escabujando. Soltou sangue pela boca, pelas narinas, pelas orelhas e pelos olhos. Pousou as mãos sobre o peito esquerdo, apertando-o num esforço para manter o coração dentro do peito. Seu corpo assumiu consistência rochosa. Carmen ouviu os gritos abafados de Clodoaldo, e correu a acudi-lo; dele afastou as aranhas. Estava transtornada, estupefata. Não acreditava no que via: o seu marido a escabujar, a expelir sangue por todos os orifícios do corpo, a cuspir jorros de sangue apretejado com saliva amarelo-esverdeada, a balbuciar palavras inaudíveis. Debruçou-se sobre ele, e pousou-lhe as mãos no rosto.

– Marido amoroso – sussurrou-lhe, apavorada.

Ariadne e Eugênio, no quarto de Eugênio, fingiam que nada ouviam. Extraíam prazer um do outro. E quanto mais elevados os lamentos de Carmen, mais prazer eles desfrutavam.

Os lamentos de Carmen e os gemidos de Clodoaldo eram afrodisíacos para Ariadne e Eugênio.

*

Clodoaldo ficou dois meses internado no hospital. Extraíram-lhe o veneno que as aranhas lhe haviam inoculado.

– Não entendo – disse o médico. – Não entendo, dona Carmen. As aranhas injetaram no seu marido veneno suficiente para matar vinte homens do tamanho dele. Não entendo. É estranho. O seu marido esteve em vias de partir desta para a melhor. Mas… Não sei o que dizer para a senhora… Confesso: este caso merece mais atenção; não posso explicá-lo. Todos os médicos os quais consultei ficaram, do mesmo modo que eu, estarrecidos; alguns deles, impressionados, embora habituados com fatos inexplicáveis, incrédulos, desconfiados, perguntaram-me se eu lhes pregava uma peça. Na mente deles associaram-se, para atormentá-los, a incredulidade e o fascínio. Não sei se me expresso com as palavras apropriadas. Peço desculpas, dona Carmen, se não me explico com clareza… Bem, dona Carmen, o seu marido convalesce. A senhora poderá levá-lo para casa… A senhora acredita em milagres? Na ausência de explicações… Não entendo… Não há explicações científicas para o caso do seu marido, dona Carmen. É inexplicável. Foi um milagre, posso dizer. Foi um milagre…

Carmen ouviu-o, em silêncio, mas não prestou atenção ao que ele lhe disse, pois olhava para uma minúscula aranha, que, do teto, a fitava, atentamente.

*

Assim que regressou à sua casa imunda infestada de criaturas repulsivas, que passeavam, livremente, pelo chão, pelo teto, pelas paredes, Carmen dirigiu-se ao seu quarto, no qual, embora imundo, nenhuma criatura entrava. Ela sabia que, se não incomodasse Ariadne e Eugênio, nenhum escorpião, nenhuma aranha, nenhuma ratazana, nenhuma lacraia a atacaria. Deitou-se na cama imunda. Exausta, o sono a surpreendeu. Berros ensurdecedores despertaram-na dez minutos depois. Sobressaltada, ouviu as obscenidades cuspidas por um homem. Sonolenta, a mente entorpecida pelo sono bruscamente interrompido, apurou os ouvidos. Chegaram-lhe aos ouvidos a voz cavernosa de um homem e a voz atrevida e provocadora de uma mulher, Ariadne.

O homem, um sujeito de má catadura, facínora, que atendia pela alcunha de Tigre, cuspia obscenidades, e empunhava uma faca cuja extremidade, afiadíssima, encostava à ilharga direita de Ariadne, ferindo-a. Tigre não atentou para a imundície e as criaturas repulsivas que infestavam a casa. Lambeu a orelha direita de Ariadne. Apalpou-lhe a nádega esquerda, apertou-a e nela cravou as grossas unhas sujas. Mordeu-lhe o lóbulo da orelha direita, puxando-o, ao mesmo tempo que lhe passeou, por entre as nádegas, o índex e o médio, e enfiou-lhe, na ilharga, a faca, extraindo-lhe sangue, que lhe escorreu pelo corpo e manchou-lhe o vestido. Ameaçou violentá-la e matá-la.

No seu quarto, Carmen ouvia o que se passava entre Ariadne e Tigre. Percorreram-lhe o corpo ondas de calafrio. A porta do quarto estava entreaberta. Carmen viu Tigre desferir, com o dorso da mão esquerda, um tapa no rosto de Ariadne, e, com as duas mãos e o peso do próprio corpo, empurrá-la sobre o sofá. Apavorada, recolheu-se ao canto do quarto, e conservou-se em completo silêncio.

Tigre esmagou, involuntariamente, dois escorpiões.

Aranhas, escorpiões, lacraias, baratas, ratazanas, acompanharam, atentamente, todos os movimentos de Tigre e Ariadne. Prepararam-se para saltar sobre Tigre, que esbofeteava Ariadne, cuspia-lhe obscenidades e ameaçava matá-la, se ela resistisse. Com Ariadne de costas para si, Tigre mordeu-lhe o pescoço; com a mão esquerda, ergueu-lhe o vestido, e, com a direita, apertou-lhe o peito. Ariadne não reagiu. Havia visto as criaturas repulsivas na sala; sabia que, bastaria um sinal seu, que todas elas saltariam sobre Tigre.

Tigre desafivelou o cinto, desceu o zíper, e abaixou a calça e a cueca.

Ariadne cerrou as pálpebras.

Dez escorpiões saltaram às pernas de Tigre, que se empinou, olhou para baixo, e os viu. Antes que pudesse emitir um grito de pavor, um escorpião cravou-lhe o ferrão no pênis. Tigre afastou-se de Ariadne. Quis gritar. Não conseguiu, tão insuportável lhe era a dor. Brandiu a faca, e soltou-a no chão. Movia-se com gestos bruscos. Soltava saliva gosmenta pela boca escancarada. Urinou sangue. Defecou fezes inconsistentes, que lhe borraram as pernas peludas. Ariadne recompôs-se. Aranhas cobriram-lhe o ferimento, estancando-lhe o sangue. Ratazanas lamberam-lhe o sangue que escorria pelas pernas e o que lhe manchava o vestido. Um escorpião feriu a mão direita de Tigre. Outro saltou-lhe à perna, escalou-a, e forçou-se para dentro do ânus dele. Tigre, imóvel, a boca escancarada, circunvagou os olhos pela sala; viu centenas de escorpiões, aranhas, ratazanas, lacraias e serpentes avançando em sua direção. Ariadne, serena, impassível, deliciava-se com o cenário, lambia os beiços, a desfrutar de prazer inconcebível.

Aranhas atiraram teias sobre Tigre, que se debatia. Escorpiões o escalaram. Ratazanas, lacraias, baratas e serpentes morderam-lhe as pernas. Aranhas pularam sobre Tigre. Serpentes enrodilharam-se-lhe às pernas, e afastaram uma da outra. Tigre perdeu o equilíbrio. Ratazanas atacaram-no e morderam-lhe o rosto, os braços, as pernas, as nádegas, a barriga. Tigre caiu. As criaturas repulsivas cobriram-no e abafaram-lhe os berros. Penetraram-lhe o corpo por todos os orifícios, e começaram a devorar-lhe a língua, os lábios, os olhos, os pés e as mãos.

Ariadne, inexpressiva, assistiu ao horripilante espetáculo.

As criaturas devoraram Tigre, de quem não sobrou nem os ossos, em menos de dez minutos, e retiraram-se da sala.

Escorpiões carregaram o revólver, a faca, a fivela da cinta, os dois anéis de ouro que Tigre trazia no dedo médio da mão direita e a pulseira reluzente até Ariadne, que os pegou, e, duas horas depois, deles se desfez por um bom preço.

Ninguém nunca mais ouviu falar de Tigre. As pessoas que o viram entrando na casa de Ariadne e não o viram de lá se retirar nada disseram a respeito.

*

Carmen perdeu a sanidade. Errava pelas ruas. Esbravejava. Relatava histórias absurdas – muitas delas verdadeiras. Falava da sua casa, de sua filha, de seu filho, do seu marido, dos ratos, escorpiões, baratas e aranhas que infestavam a sua casa. Relatou, com pormenores, o ataque das aranhas a Clodoaldo e a morte de Tigre. As pessoas que a ouviram não lhe deram atenção. Para elas, Carmem era uma louca e tinha de ser internada num hospício. Dela zombavam, ridicularizavam-na; dela espalharam histórias estapafúrdias. Certo dia, Carmen desapareceu, e dela ninguém nunca mais ouviu uma notícia.

*

Clodoaldo regressou à sua casa. Com passos pesados, cenho carregado, foi até a cozinha, onde Ariadne e Eugênio, à mesa, conversavam, animadamente, e deteve-se a dois metros de Ariadne, estupidificado com o que viu: Sobre a mesa, três ratazanas; nas paredes e no teto, escorpiões e aranhas a caminhar livremente; no chão, centenas de baratas e lacraias; ao colo de Ariadne, uma aranha peluda, e Ariadne a acariciá-la e a osculá-la carinhosamente; ratazanas grotescas nos braços e nos ombros de Eugênio e na sua cabeça cadavérica de olhos projetados para fora das órbitas.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo. Ariadne ignorou-o.

Um escorpião escalou as costas de Ariadne, e subiu-lhe à cabeça. Clodoaldo arregalou os olhos.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, enraivecido, fitando-a com olhos sinistros.

Ariadne não lhe deu atenção; ignorou-o como se não o visse, como se não o ouvisse. Gargalhava. Brincava com as aranhas, que a acariciavam.

Clodoaldo deu dois passos na direção de Ariadne. Puxou-lhe o vestido de tecido fino, que não resistiu ao puxão, e rasgou-se. A aranha que estava nas mãos de Ariadne atirou teia sobre a mão direita de Clodoaldo. As ratazanas que brincavam com Eugênio e o escorpião que se encontrava sobre a cabeça de Ariadne encararam Clodoaldo. Eugênio rilhou os dentes e, com seus olhos sinistros, fitou Clodoaldo, que não lhe deu atenção.

– Você é surda, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, aos berros, para Ariadne. – Cabacinha, perguntei onde está sua mãe – e puxou-lhe o vestido. Ariadne levantou-se, altiva. Clodoaldo puxou-lhe, novamente, o vestido, desnudando-a, e agarrou-a pelo pescoço, com a mão direita, enquanto apertava-lhe, com a mão esquerda, o peito esquerdo. – Você não quer me contar, cabacinha vadia, onde está sua mãe? Vagabunda, você não quer me contar onde está sua mãe? Então, vou arrancar as suas entranhas – e empurrou-a sobre a mesa, e debruçou-se sobre ela. De seus olhos chispavam labaredas de ódio; de sua boca escapavam perdigotos, que queimavam o corpo de Ariadne, ao atingi-lo. Clodoaldo assemelhava-se a mitológicos monstros flamívomos que aterrorizavam os povos antigos.

Milhares de escorpiões, aranhas, baratas, lacraias e ratazanas pularam sobre Clodoaldo, o cobriram, e, antes de ele esboçar um protesto, o devoraram.

*

Ariadne e Eugênio viviam com os escorpiões, as aranhas, as lacraias, as ratazanas e as baratas.

Na casa imperava a imundície.

*

No teto do quarto de Ariadne, ao canto, uma imensa bola de teia de aranha. No chão da cozinha, um enorme ninho de rato.

Numa noite de frio rigoroso, Ariadne rompeu o envoltório de teia e, nua, desceu do teto para o chão.

Na cozinha, Eugênio despertou e, nu, saiu, guinchando, do ninho.

Ariadne foi até Eugênio, envolveu-o com uma bola de teia e, com voracidade, o devorou.

De Eugênio não sobrou nem uma gota de sangue.

 

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A travessia

Era uma segunda-feira do mês de fevereiro. E na loja de materiais de construções Moreira & Moreira, José Luiz desincumbiu-se das suas tarefas não sem dificuldades; para o exercício de algumas delas não pôde dispensar o auxílio de outros funcionários.

Não foi um dia de trabalho muito proveitoso. O proprietário da loja, Roberto Moreira, nervoso – raros, nele, o nervosismo e, dizia José Luiz, a brabeza -, distribuiu broncas para todos os funcionários. Muitos dentre eles desejavam que ele os esquecesse, ou que deles não se lembrasse, mas ele conhecia-os todos, chamava-os pelos nomes, e sabia qual era a função de cada um deles. Os funcionários perguntavam-se a razão do nervosismo, da braveza, da rudeza no trato, da sequidão da voz, que não admitia réplicas, do olhar compenetrado, da fisionomia carregada, rígida, pétrea, de Roberto Moreira. Aventaram inúmeras hipóteses; algumas, sérias; outras, jocosas; raras as maledicentes – estas as aventaram os desafetos de Roberto Moreira, os que o detestavam. José Luiz, que conhecia Marcelo, um dos filhos de Roberto Moreira, soubera, contou-lhe Marcelo, que, no domingo, Cláudia, tia dele, irmã de Roberto, fora atropelada, e essa seria, estava certo, declarou José Luiz, a razão da brabeza do chefe, como a Roberto Moreira referiam-se os funcionários da Moreira & Moreira. Discordou Amauri, que, conhecedor da história do atropelamento de Cláudia, disse que ela passava bem, dissera-lhe Vinicius, marido dela. A razão da postura taciturna e carrancuda de Roberto Moreira e da sua rudeza no trato devia-se, portanto, a outro motivo, que não o aventado por José Luiz.

O trabalho, desgastante. Foi um dia incomum. José Luiz não se recordava de, em outro dia, desde que começou a trabalhar naquela loja, um ano e sete meses antes, haver tantos clientes a comprar materiais de construções. Desdobrou-se para executar todas as tarefas para as quais o encarregavam. Desgastou-se de manhã, durante quatro horas ininterruptas de trabalho, sob sol inclemente – atenuou o desgaste com um copo de água a cada hora. No momento em que cessou o seu trabalho, para almoçar de uma marmita e de um copo de refrigerante que a loja forneceu-lhe, suava, em bicas, a camisa encharcada de suor. Ele dela despiu-se, e abandonou-a sobre os tijolos, para secá-la. A marmita continha uma boa porção de arroz e feijão, bife e batatas, verduras e legumes. Era um almoço reforçado. Encerrado o almoço, José Luiz deitou-se sob um caminhão, e puxou uma palha durante vinte minutos – a soneca foi-lhe salutar. Levantou-se. À pia próxima do monte de areia lavou o rosto, para despertar de vez; vestiu a camisa, e tornou ao batente.

No período da tarde, o trabalho foi mais estafante do que no período da manhã. O sol exauriu-lhe as forças. Se José Luiz não fosse dotado de vontade férrea, músculos resistentes e organismo apropriado para as tarefas que lhe exigia Roberto Moreira, sucumbiria ao esforço. Desempenhava as suas incumbências com desenvoltura; ao final de um dia de expediente a carregar tijolos, vigas, telhas, areia, pedras, sem cessar, ia para a sua casa, banhava-se, degustava de alguns minutos na companhia de Camila, sua esposa, grávida de seis meses, e Paulo Renato, seu filho, menino de dois anos, que, diziam os familiares e os amigos, tinha a cara da mãe e o focinho do pai; e antes das dezenove horas, rumava para a Escola Técnica Nikola Tesla, para assistir às aulas do curso de eletroeletrônica; e regressava à sua casa as onze horas e trinta minutos da noite. E acordava, na manhã seguinte, as cinco horas.

Naquela segunda-feira de fevereiro, José Luiz desgastou-se além do habitual, e, uma hora antes de encerrado o expediente, acreditava, não conseguiria prosseguir com o trabalho até dali uma hora, ao crepúsculo, às dezoito horas, mas agüentou o tranco, disse, assim que se retirou da loja, exausto, mas em pé, e disposto a enfrentar quatro horas de aula, na Escola Técnica Nikola Tesla. Despediu-se dos seus colegas de trabalho. Na companhia de Gustavo, o Gordo, de Maurício, o Pernambuco, de Nelson, o Lagarto, e de Daniel, o Dejota, foi até o cruzamento das ruas José de Anchieta e Dom João VI, onde deles despediu-se, e seguiu, só, rumo à sua casa, distante da loja três quilômetros. Intensificava-se o trânsito. Veículos iam e veículos vinham, rápidos, apressados os motoristas, ou José Luiz tinha a sensação de que todos eles estavam apressados, e também os ciclistas, e os pedestres, menos ele, que seguia no ritmo habitual. E um caminhão a descarregar fumaça apretejada obrigou José Luiz a tampar o nariz com os dedos indicador e polegar da mão esquerda, prender a respiração, cerrar as pálpebras, e mover a cabeça para o lado oposto ao pelo qual passou o caminhão. Em pensamento praguejou José Luiz, e desacelerou os passos. Segundos depois, recomposto, retomou o seu passo na velocidade que lhe era habitual, para, logo em seguida, cobrir os olhos com a mão esquerda em pala, protegendo-os do reflexo dos raios solares, que lhos feriam, no vidro posterior de um carro estacionado poucos metros à sua frente. Ao passar pelo carro, abaixou o braço. Contornou a esquina à direita, e seguiu por cem metros; deteve-se em frente da casa lotérica, e preparou-se, sobre a calçada, parado, a olhar de um lado para o outro, aguardando os carros passarem, para atravessar a rua. Era a hora do rush. Passou um carro. E outro carro. E uma caminhonete. E outro carro. E uma moto. E outra moto. E um caminhão. E um carro. E outro carro. Todos iam no sentido bairro-centro – enquanto, na pista contrária nenhum veículo passava. Assim que viu que na faixa sentido bairro-centro apenas um veículo, um carro, aproximava-se, José Luiz pôs o pé esquerdo na rua, e logo da rua o retirou assim que viu uma fileira de carros se lhe aproximando no sentido centro-bairro, em velocidade considerável – setenta quilômetros por hora, mensurou José Luiz. Um carro passou por ele. Vermelho. E outro carro passou por ele. Prateado. E outro carro prateado. E outro carro prateado. E passou por ele uma caminhonete. E outra caminhonete. E três motos – a primeira, preta; a segunda, azul; e verde, a terceira. E outro carro. Alaranjado. E aproximaram-se dele duas motos, ambas pretas, e atrás delas nenhum veículo. José Luiz desceu o pé esquerdo na rua, e olhou para à sua esquerda, para a faixa sentido bairro-centro, e viu próximo de si, e deslocando-se rapidamente, uma fileira de veículos, e recuou o pé esquerdo, e afastou-se do paralelepípedo à aproximação de um caminhão branco, imenso, que, pareceu-lhe, iria engoli-lo. O caminhão passou por ele, e seguiam-no, como que atraídos pela sua força gravitacional, dezenas de veículos, entre carros e motos. E agora as duas faixas da rua estavam tomadas por veículos. E José Luiz resmungou, e esbravejou, discretamente. Pressionou as mandíbulas uma contra a outra, e cerrou o punho esquerdo, dobrando o cotovelo, como que ameaçando esmurrar alguém, e executou gestos involuntários que dele revelavam a irritação. Olhou de um lado para o outro. E viu carros e mais carros, caminhões e mais caminhões. E ônibus. E caminhonetes, e mais caminhonetes. E motos, muitas motos. E um tanque-de-guerra, que rumava, acreditava José Luiz, do Batalhão Borba Gato para o Batalhão de Engenharia e Combate. E a terra tremeu-lhe sob os pés à passagem do encouraçado, um rinoceronte de metal, como aos tanques-de-guerra referiam-se José Luiz e os soldados que com ele conviveram durante um ano de serviço militar – conquanto a conscrição fosse obrigatória, José Luis e muitos outros recrutas alistaram-se por vontade própria, no desejo, sincero, de prestar uma contribuição ao Brasil, e sacrificar-se pelo país, se necessário.

Há mais de cinco minutos parado na calçada, José Luiz, preparado para atravessar a rua, sempre que nela punha um pé, certo de que poderia atravessá-la, veículos aproximavam-se dele, em alta velocidade, e até bicicletas, de todas as direções, impedindo-o de atravessá-la, irritando-o. Cerrava os punhos, tensionava todos os músculos do corpo, abria os braços num gesto de impaciência. Em certo momento, os veículos como que havendo desaparecidos por encanto, preparou-se José Luiz para atravessar a rua; desceu o pé esquerdo na rua; e ao pôr, nela, o pé direito, ouviu uma buzina, e recuou. Era a buzina de uma cadeira-de-rodas motorizada. Pilotava-a Tião Pé-de-Cabra, encastelado no assento de couro, e um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça achatada, e cujas sobrancelhas – de coruja, diziam – de tão espessas podiam ser entrevistas a um quilômetro de distância.

– Tarde, seu menino – Tião Pé-de-Cabra saudou José Luiz. – Mande um abraço meu para o senhor vosso pai, o velho Moreno, e acenda uma vela pela alma de vosso avô, o velho Marcondes – e seguiu o seu caminho, sem se deter.

José Luiz acenou-lhe, e prometeu-lhe dar o recado para o destinatário dele e acender a vela.

E sorriu José Luiz, atenuada a sua irritação, e relaxados seus músculos. E abanou a cabeça. E olhou de um lado para o outro. Carros, motos, caminhonetes, caminhões e ônibus passavam, em ambos os sentidos da rua. Mordeu José Luiz a língua, para não amaldiçoar Tião Pé-de-Cabra.

José Luiz, pouco tempo depois, certo de que nenhum carro aproximava-se de si, olhou para a direita, e, ao pôr o pé esquerdo na rua, viu, para a sua surpresa, um carro, em alta velocidade, indo em sua direção, e recuou, para a calçada, abrindo os braços, as mãos espalmadas, e as bateu nas coxas, com força, ao mesmo tempo que proferiu uma obscenidade. Contrariado, esperou o carro passar, após o qual passaram duas motos e um ônibus. Quando da sua direita nenhum carro ia em sua direção, olhou para a esquerda, pôs um dos pés na rua, preparou-se para atravessá-la, e recuou ao ver um carro a aproximar-se de si.

Impacientava-se José Luiz. Levantava os braços, irritado, todas as vezes que lhe frustravam a tentativa de atravessar a rua. Irritava-se. Executava movimentos bruscos com os braços, e, as mãos espalmadas, batia-as, enraivecido, nas coxas. E evocava a figura inconfundível de Tião Pé-de-Cabra e a sua cadeira-de-rodas, e o amaldiçoava. Antes não tivesse recuado à calçada quando ele buzinou. Parecia-lhe a ele, José Luiz, que, transcorrendo o tempo, mais difícil tornava-se atravessar a rua. Da direita e da esquerda iam os veículos, dezenas deles. Não havia intervalo de tempo entre dois veículos que lhe permitisse atravessar a rua. José Luiz punha um pé, ou os dois pés, na rua, certo de que poderia atravessá-la, e recuava, logo em seguida, ao ouvir o soar de uma buzina, ou um grito, e tornava à calçada, irritado, contrariado.

E passavam-se os minutos. E José Luiz consultava o relógio no mostrador do telefone celular. E praguejava. Se não atravessasse, e logo, a rua, se atrasaria para as aulas do curso de eletroeletrônica.

Sob o sol, que já ia se pondo, José Luiz viu, há cinquenta metros de distância, na mesma calçada, da sua direita, indo em sua direção, um homem, que – José Luiz concluiu ao atentar para os gestos e os passos dele, vacilantes – estava bêbado. O homem, tipo acaboclado, baixo, troncudo, barrigudo, as pálpebras semi-cerradas, de roupas amarfanhadas, imundas, cabelos desgrenhados, barba por fazer, olhos avermelhados, fundos, órbitas dos olhos apretejadas, pés embrulhados em sapatos surrados – o esquerdo com uma falha que lhe deixava expostos três dedos -, a coçar, incessantemente, a cabeça, andava trançando as pernas e arrastando-se pelas paredes, e ora detinha-se, perdido, a olhar de um lado para o outro, e para o céu, e para o chão à sua frente, e quase ia ao chão; para surpresa de todas as pessoas que assistiam a espetáculo tão deplorável, antecipando, em pensamento, a queda do ébrio, e preparando a gargalhada, que explodiria tão logo ele desse com o nariz no chão, ele não caia, indo contra todas as leis da natureza; conservou-se ele, contra todos os prognósticos, em pé, tão firme quanto um prego fincado na areia – incrédulos, os curiosos não acreditavam que ele conseguia em pé manter-se por muito tempo. E ele não caia, para frustração daqueles que o acompanhavam com os olhos. Ele perdia o equilíbrio, mas não caia. Tinha-se a impressão de que ele cairia, mas ele não caía; ora ele encostava-se à parede de alguma casa, para manter-se em pé; ora ele detinha-se, e, não se sabe como, dava um passo, ou para a frente, ou para trás, ou para a direita, ou para a esquerda, e conservava-se em pé. O seu estado, deplorável. José Luiz lamentava-o. O bêbado ia em direção de José Luiz. Resmungou qualquer coisa ao perder o equilíbrio, e bater com a cabeça na parede. No outro lado da rua, dois garotos, ambos de bicicleta, cada um deles em uma bicicleta, gritaram-lhe, provocando-o. Conheciam-no. E ele esbravejou. Proferiu maldições e obscenidades de ruborizar até o diabo. Incompreensível o que ele disse assim que abaixou o tom de voz. Engrolava as palavras. José Luiz dividia a sua atenção entre o trânsito e o bêbado, esperando que ele de si não se aproximasse. José Luiz detestava bêbados. Os bêbados irritavam-no; havia um alcoólatra na sua família, seu tio, Mauro, irmão de seu pai. Mauro, sóbrio, era gentil, amigável, bem-humorado, espirituoso, cativante; ébrio, era indiscreto, inconveniente, inconsequente, e dele José Luiz não se aproximava; evitava-o; dele fugia como o diabo foge da cruz.

O bêbado não foi até José Luiz, como que lhe atendendo as preces. Deteve-se, de repente, próximo do paralelepípedo, para alívio de José Luiz, a trinta metros de distância dele, e com gestos de mãos caóticos, alheio à realidade, acenou para os motoristas dos veículos que passavam pela rua, e na rua desceu, quase vindo a cair – para surpresa de todos, conservou-se em pé -, e, passo após passo, empreendia a travessia da rua. José Luiz anteviu o atropelamento. Algum veículo atropelaria o bêbado. Para a surpresa de José Luiz, os carros, as motos, os caminhões, as caminhonetes, os ônibus, ou paravam, e deixavam o bêbado passar, ou desviavam-se dele. E ele, com passos incertos, indo e vindo, dois passos para a frente, mas não em linha reta, e um passo para trás, seguia rumo à calçada oposta à da qual partira. E os carros, e as motos, e os caminhões, e os outros veículos, e um tanque-de-guerra, que seguia, do Batalhão de Engenharia e Combate para o Batalhão Borba Gato, e Tião Pé-de-Cabra, a cederem-lhe passagem. E o bêbado, enfim, chegou, são e salvo, ao outro lado da rua.

José Luiz, boquiaberto e queixocaído, olhos arregalados, dedos a coçarem-lhe a cabeça, perguntava-se… Na verdade, incrédulo, nenhuma pergunta se fazia; limitava-se a fitar o bêbado, que, no outro lado da rua, rumava… Para onde? E José Luiz, na calçada, a querer atravessar a rua. Pensou em simular embriaguez. Afugentou de si tal pensamento. Sóbrio, não poderia ignorar o perigo que os veículos representavam-lhe. E o bêbado, no outro lado da rua; e José Luiz, irritado, vendo passarem diante de seus olhos carros, motos, ônibus, caminhonetes, bicicletas e caminhões. E um tanque-de-guerra. E Tião Pé-de-Cabra.

O tiro

Testemunhei, ontem, ao entardecer, um dos mais horrendos espetáculos que a vida poderia me proporcionar. Indescritível. Inenarrável. Inominável. Não encontro as palavras adequadas para dar a dimensão das profundas impressões que o evento me deixou no espírito de homem pacato que nunca testemunhara cena tão horripilante e que não deseja testemunhar outra igual. Digo, na ausência de uma expressão que traduza melhor os meus sentimentos: carregarei para o túmulo imagens, tão impactantes, que dissolveram meu espírito. Eu gostaria de jamais haver testemunhado tão… Como eu direi? Estranho? Inusitado? Grotesco? Horripilante? Nenhum desses adjetivos dá a dimensão do que testemunhei. Eu gostaria de poder me expressar com palavras que reproduzissem com exatidão as impressões que o evento me gravou na memória, no espírito, na alma.

Por que não intervi… O que eu, assustado, impressionado, estupefato, poderia fazer? Não sou clarividente. Eu não sabia como o evento se desenrolaria, e tampouco como se encerraria. Encerramento tão… Inusitado? Imprevisível? Absurdo? Eu, um observador petrificado diante de uma cena inédita, mantive-me distante dos dois protagonistas desta história, desde o início do evento, que transcorreu num ritmo vertiginoso. Aproximei-me deles, curioso, na expectativa, sem ter consciência de que deles eu me aproximava. O que eu poderia fazer contra um homem que empunhava um revólver? Telefonei para a polícia. Naquelas circunstâncias, na companhia da Laura, a minha namorada, esta era a única providência que eu poderia tomar. Passou-me pela cabeça o desejo de bancar o herói. Tal pensamento foi-se embora tão logo se me aflorou ao cérebro. Não sou um herói. Seria uma rematada tolice interferir na discussão daqueles dois homens, que prodigalizaram um espetáculo que não está no gibi. Um deles empunhava um revólver. Eu, a Laura e não sei quantas outras pessoas assistimos à cena entorpecente. Nenhum filme nos proporciona cena tão impactante.

Após relatar o horrendo evento para o Ulisses, a Zulmira, o Júlio César, respectivamente, pai, mãe e irmão da Laura, e, depois, para a Adriana, a Zuleica, o Milton e o Osvaldo, amigos meus e da Laura, despedi-me da Laura, e vim para a minha casa. Aqui, narrei o ocorrido ao meu pai, à minha mãe e às minhas irmãs. Curiosos, ouviram-me atentamente. Prendi a atenção deles porque lhes narrei uma tragédia, gênero narrativo mesmerizante. Todas as atenções convergiram para mim durante o jantar, e depois. Meu pai não assistiu ao noticiário, e minha mãe e minhas irmãs não assistiram à novela. Sou um jovem extraordinariamente poderoso: fiz com que minha mãe e minhas irmãs perdessem um capítulo da novela. Esta é a explicação para a borrasca que despencou, ontem, em todo o estado. Pediram-me a repetição da cena derradeira. Não me fiz de rogado. Narrei-a. E a comentei. Perguntaram-me o que fiz, se fiquei nervoso, com medo. Perguntaram-me da Laura, se ela tremeu de medo (medrosa do jeito que ela é, disseram), se ela correu, e se escondeu dentro de uma loja. A Jéssica quis que eu lhe dissesse porque o protagonista deste episódio agiu como agiu, e exigiu-me explicações. Não lhas dei, obviamente. Se eu as tivesse! Ela não se satisfez com o meu silêncio a respeito. Minha mãe e meu pai vieram em meu socorro, chamando-a à razão; perguntaram-lhe como eu poderia saber o que se passava dentro da cabeça de um desmiolado. Depois de ouvir as minhas ponderações sensatas, as de papai e as de mamãe, a Jéssica insistiu em querer me extrair uma explicação plausível para a conduta do indivíduo ao qual minha mãe se referiu como um desmiolado. Não lha forneci, mas não me furtei a conjecturar algumas hipóteses – cinco ou seis, todas erradas, certamente. Não satisfiz a curiosidade intelectual de minha irmã – ela será uma psicóloga, pois tem o hábito de fazer perguntas para as quais ninguém conhece a resposta certa; melhor, ela faz perguntas para as quais não se deve perder tempo procurando por uma resposta, pois há mais entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia. Após minha mãe pôr a Jéssica para dormir, e a Tábata sair com a Luciana e a Rafaela, recolhi-me ao quarto. Pouco depois, banhei-me. Comi torradas, uma fatia de bolo de laranja, uvas, e bebi leite com baunilha em pó. Conversei com meu pai, durante uns dez minutos, sobre futebol, e despedi-me dele. Voltei para o quarto, bocejando, sonolento, exausto. Exauriram-me as energias a tensão, a apreensão e o medo de horas antes. Deitei-me, na cama. Pressionei o interruptor à cabeceira da cama – e apagou-se a luz. Fez-se a escuridão. Ajeitei o travesseiro. Aconchegado, no esforço de suprimir da mente as horrendas imagens que testemunhei, pensei na Laura, no desenho animado e nos vídeos de mulheres aos quais assisti, na internet. Nem as mulheres conseguiram afugentar de minha cabeça as cenas que testemunhei à tarde. Virei-me, na cama, de um lado para o outro. Deitei-me com o lado direito para cima. Deitei-me com o lado direito para baixo. Deitei-me de barriga para cima. Deitei-me de barriga para baixo, e enfiei a cara no travesseiro. Não consegui respirar, e ergui a cabeça. Não recomendo esta prática, para se buscar o sono, a ninguém. É sufocante. De nada me adiantou contar carneirinhos. Não sou um pastor. Muitos carneirinhos desgarraram-se do bando, e os lobos os devoraram. E a cerca por sobre a qual eles pulavam era eletrificada. Tempos modernos. Eletrificada para dissuadir ladrões, lobos e raposas de invadir a minha fazenda, mas acabou por matar, carbonizados, alguns carneirinhos. Resumindo: revirei-me na cama e não consegui pregar o olho. E para dormir não me injetei na veia a substância que Leonardo de Caprio se injeta, naquele filme do Christopher Nolan. Tentei sonhar que sonhava – para fazer isso eu teria de dormir. E quem disse que eu conseguia dormir! Morfeu não me visitou nesta noite. Não entrei no País das Maravilhas. Neste reino onírico eu entrava quando era criança, e protagonizava aventuras para lá de fantásticas. Notabilizei-me como rei e monarca e faraó e gênio nestas aventuras oníricas. Mas, nesta noite, o sono não me veio. Passei a noite em claro. As terríveis cenas que testemunhei, ontem, à tarde, repetiam-se, incessantemente, em meu cérebro. Sobrepunham-se as imagens. Intercalavam-se, entrecortadas. Imbricavam-se. Justapunham-se. Fundiam-se. Não pude afastá-las de minha mente. Era como se elas estivessem incrustadas em todos meus neurônios, dos quais não poderiam ser removidas sem que, com a remoção, não destruíssem minha mente. Agora, com a esferográfica à mão, debruçado sobre a mesa, sustentando a cabeça com a mão direita, escrevo, sonolento, bocejando a intervalos curtos, esta narrativa. As imagens afluem, incessantes, à minha mente, avassalam-me a alma, preenchem todos os interstícios de meu cérebro, este órgão de aparência tão repulsiva. Parece nozes. Mas não é comestível. Quem dirá isto para Hannibal Lecter? E as imagens afluem à minha mente, em profusão. Repetem-se. E repetem-se. Decidi relatar o evento da véspera, para que, assim, penso, registrando-o, eu o esqueça, e ele não me atormente mais, e eu possa dormir, na noite de hoje, tranquilamente, e sonhar sonhos idílicos. O impulso de escrever, irrefreável. Encerrarei a redação após narrar o horrendo episódio que testemunhei, ontem, na companhia da Laura. Até agora limitei-me a aludir ao evento, desordenadamente. Afinal, a qual evento referi-me desde o início deste manuscrito? Terei de conter-me no meu ímpeto de escrever, e organizar meus pensamentos. Principiarei do começo a narrativa, como, zombeteiramente, declaramos, antes de iniciar o relato de uma aventura que protagonizamos.

Fui à casa da Laura às quatro horas da tarde. Conversamos, não sei durante quanto tempo, com a tia da Laura, Maria Elizabeth, que viera, dois dias antes, do Rio Grande do Sul, onde mora, para visitar os familiares. Ela nos deu muitas notícias que nos alegraram e algumas entristecedoras: a morte de um primo e a de uma sobrinha, cujos nomes não me recordo. Josias e Jennifer, se não me engano. Ou Nicole? Não me recordo. Jennifer e Nicole são irmãs. Uma delas foi assassinada. Notícia entristecedora. Lágrimas vieram aos olhos de Maria Elizabeth. Os outros que a ouvíamos nos silenciamos. Não eram seis horas da tarde quando eu e a Laura nos despedimos de sua mãe e de sua tia. Não tínhamos outro objetivo além do de andar pelas calçadas do centro da cidade, olhar para as roupas, os calçados, os computadores, os chocolates, expostos nas vitrines das lojas, e, se nos desse vontade, determo-nos em uma sorveteria, para chuparmos sorvetes; picolés, não; não os aprecio, e Laura também não.

Andávamos, tranquilamente, em meio ao azáfama reinante. Crianças com uniforme escolar, acompanhadas de um adulto, e jovens sobraçando cadernos, iam de um lado para o outro. O trânsito, caótico. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de calçados. Laura apontou os calçados que desejava comprar, todos inacessíveis ao seu pai e à sua mãe. Na loja vizinha, à direita, quatro manequins exibiam vestidos deslumbrantes pelos quais Laura, disse ela, apaixonou-se. Ela também disse que pediria para sua mãe comprar-lhe um vestido; não o pediria ao seu pai, pois dona Zulmira é, nas palavras da Laura, mão aberta, e seu Ulisses, mão fechada, mão de vaca, unha de fome. O Ulisses não é mão de vaca, como diz a Laura. Ele é parcimonioso, diria meu tio Washington, sempre mergulhado nos livros, com o nariz, como diz tia Luiza, esposa dele, enfiado entre as linhas, os olhos grudados nas folhas, e os ouvidos a ouvir a voz interior enquanto decifra os indecifráveis segredos daqueles misteriosos livros de filosofia. À direita da loja de vestidos femininos, há uma loja de calçados à frente da qual detivemo-nos eu e Laura. Alguns calçados eram, direi, atraentes; outros, de um mal gosto de provocar engulhos até no diabo. E a Laura, mais uma vez, para não perder o costume, disse que pediria para sua mãe, mulher generosa, comprar-lhe este e aquele par de sapatos pelo qual se apaixonou, e não os pediria ao seu pai, porque ele não abre a mão nem para dar tchau. Andamos alguns metros. Expostas à vitrine de uma loja, roupas íntimas femininas. Arregalei os olhos. Expressei uma interjeição. Não escondi da Laura o meu interesse por aqueles sutiãs e aquelas calcinhas (obviamente, interessei-me pelas roupas íntimas femininas não para eu as usar, mas para a Laura cobrir-se com elas. Cobrir-se com roupas tão minúsculas!?). Detive-me. Laura puxou-me pela mão, a passos pesados. Esbocei resistência. Laura beliscou-me, e ameaçou dar-me um tapa. Deixei-me levar por ela, sorrindo, divertidíssimo. Laura irritou-se, franziu o cenho, disse-me que me quebraria o nariz com um soco se eu me detivesse diante daquela loja, e mandou-me suprimir o sorriso do rosto. Andamos alguns metros. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de roupas femininas. Dos quatro vestidos expostos, a Laura apaixonou-se por três; pediria, disse, para sua mãe, mulher generosa e mão aberta, comprar-lhos. Informo: O mais barato dos três vestidos estava à venda por R$ 250,00. Diante da vitrine desta loja permanecemos por mais tempo do que diante da das outras lojas. Laura amou – disse ela – os vestidos, que lhe inspiraram aventuras mais comuns aos contos de fadas do que à realidade. Disse que queria entrar na loja para ver quais outros vestidos haviam lá, mas queria vê-los ‘com as mãos’, e puxou-me pelo braço. Foi neste momento que nos chegou aos ouvidos barulho de pneus cantando no asfalto. Viramo-nos, simultaneamente, para a nossa esquerda, a tempo de assistir à colisão de dois carros, um vermelho e um prateado. Laura exclamou: “Nossa!”, arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão esquerda, e, soltando-me o braço, com a mão direita cobriu a mão esquerda. Arregalei os olhos. Vi várias pessoas, todas com o olhar convergindo para os dois carros que se envolveram no acidente. Por sorte, ambos os motoristas frearam a tempo de impedir uma colisão destruidora. Nenhum dos dois carros teve danos significativos. Do carro prateado ficou quebrado o farol dianteiro; do carro vermelho, a porta ficou amassada. Ajuntou uma pequena multidão de curiosos nas proximidades. Ninguém, no entanto, aproximou-se dos dois carros. Os curiosos, expectantes, aguardamos o desenrolar do evento. O que haveria a seguir? Os dois motoristas se insultariam, se engalfinhariam, se arrancariam sangue um do outro? Do carro vermelho retirou-se um homem robusto, de um metro e oitenta de altura, barba rapada, cabelos curtos, queixo quadrado, sobrancelhas espessas, lábios finos, descoloridos, quase indiscerníveis. Trajava uma calça jeans e uma camisa de um time espanhol de futebol. Com o olhar assustado, deteve-se; coçou a cabeça, e olhou, apalermado, para o motorista do carro prateado. A colisão roubara-lhe o governo de si. Presumo que foi a primeira vez que ele se envolveu em um acidente de carro, daí a sua imobilidade. Ele não sabia quais providências tomar, o que dizer, nem para o motorista do carro prateado, nem para si mesmo. Estava constrangido. Sorriu, acanhado. Indisfarçável, o seu constrangimento. Coçou o nariz com a ponta do dedo indicador direito, premiu as narinas, e olhou ao redor. O motorista do carro prateado, nesse meio tempo, ao desvencilhar-se do cinto de segurança, abriu a porta do carro, e do carro retirou-se, bufando de raiva, rilhando os dentes. Fitou o motorista do carro vermelho, bateu a porta do carro, fungando, furioso. Visível a raiva contida em seu rosto. Era um homem de estatura mediana. De um metro e sessenta, se muito. De trinta anos de idade, presumo. Trajava uma bermuda verde-abacate e camisa regata; nos pés, tênis azul com faixas brancas e amarelas. Era magro, mas não era desprovido de músculos salientes; os vasos sanguíneos destacavam-se. De lábios grossos, queixo pontudo. Tinha, na orelha direita, dois brincos (um, argola; o outro, uma estrela azul); na narina esquerda, um piercing; e um piercing na extremidade externa da sobranceira direita. Carregava cabelos compridos pretos, presos, num rabo-de-cabelo, com elásticos; no ombro, no braço e no antebraço esquerdos tinha uma tatuagem, ou várias tatuagens; não pude distinguir a figura (ou figuras) representada. Ele andou, a passos pesados, na direção do motorista do carro vermelho. Não o agrediu, no entanto, como, presumo, desejava fazer, pois o motorista do carro vermelho era maior e mais forte do que ele. Irritado, enraivecido, com os punhos cerrados, esbravejou e ofendeu o motorista do carro vermelho, mantendo dele a distância de dois metros. Os curiosos, expectantes, antevíamos uma briga corpo-a-corpo entre os dois motoristas. Ansiávamos por uma briga. Queríamos assistir à luta do século, ao vivo, e em cores, entre aqueles dois homens. Quais regras eles respeitariam? Nenhuma. Ninguém arbitraria a luta. Eles, previ, prodigalizariam uma luta inesquecível. O motorista do carro vermelho e o motorista do carro prateado entrariam para a história universal como os protagonistas da luta do século. Perguntei-me, em silêncio, porque o motorista do carro vermelho, com os seus um metro e oitenta de altura e punhos de aço não cerrava os punhos e não nocauteava o baixinho do carro prateado. Por que ele o ouvia, calado, constrangido, e olhava de um lado para o outro, enquanto o motorista do carro prateado intensificava os insultos, e punha-lhe o dedo indicador em riste diante do nariz? Vários curiosos atiçavam o motorista do carro vermelho contra o motorista do carro prateado; diziam-lhe que lhe quebrasse o nariz; que não levasse desaforos para casa; que o golpeasse com um soco. Exclamaram “Quebre ele!”, “Esmague o nariz dele!”, “Não deixe barato, não, cara. Arrebente ele!”. Mas o motorista do carro vermelho não lhes deu ouvidos. Ao contrário, buscou entender-se com o motorista do carro prateado, pedia-lhe que se acalmasse. Seus gestos, serenos, indicavam que ele desejava o entendimento, por meios pacíficos, mas o motorista do carro prateado queria proporcionar ao público um espetáculo inesquecível que seria narrado em prosa e verso por todas as testemunhas repetidas vezes e perpetuar-se-ia por gerações. Enquanto assistia à agressão verbal do motorista do carro prateado contra o motorista do carro vermelho, perguntei-me qual deles causara a colisão.

A multidão acercou-se dos dois motoristas, aproximou-se deles. Eu e a Laura a acompanhamos; conservamo-nos mais perto do motorista do carro prateado, dele distando três metros. Eu estava com a mão direita pousada no ombro direito da Laura, que me enlaçava, pela cintura, com o braço esquerdo, a mão esquerda na minha ilharga esquerda. Assistíamos, curiosos, expectantes, ao desenrolar do episódio. O motorista do carro prateado, olhos esbugalhados, punhos cerrados, esbravejava, esgoelando-se, insultava o motorista do carro vermelho, que, era visível, estava constrangido. Após uma sequência de obscenidades, numa série que, parecia, seria interminável, sucedeu-se o imprevisível. Eu poderia reproduzir as obscenidades que o motorista do carro prateado cuspiu sobre o motorista do carro vermelho. Todavia, não o farei. O pudor mo impede. Quero, no entanto, reproduzi-las. Não o farei, entretanto. Elas são impublicáveis. Eu as substituirei por eufemismos. Ei-los: “Imbecil! Idiota! Você é débil mental, asno retardado? Não viu o sinal vermelho, mocorongo? Idiota! Olhe para o meu carro! Olhe! Viu o que você fez, burro filho-de-uma-égua!? Viu o que você fez!? Anta! Você tem titica de galinha na cabeça, cérebro de ameba!? Você tem inteligência de lombriga! Idiota! Filho-de-uma-égua! Você tem cérebro de ameba. Quantos neurônios você tem na cabeça!? Dois. Apenas dois. Um estava com a data de validade vencida no dia que você foi concebido e um queimou-se no dia que você nasceu. Asno! Débil mental! Filho-da-polícia! Filho-de-uma-égua!” Ato contínuo, cuspiu no motorista do carro vermelho, que se enfezou, e deu dois passos firmes e decididos na sua direção. O motorista do carro prateado recuou três passos, e, para surpresa de todos, principalmente do seu antagonista, retirou, de sob a camisa e do cós da calça, um revólver calibre 38, e apontou-lho, o braço estendido, para a cabeça. O motorista do carro vermelho arregalou os olhos, escancarou a boca, e recuou. Todas as testemunhas suspendemos a respiração. Eu não quis acreditar no que meus olhos viam: Um homem, com uma arma apontada para a cabeça de outro homem, ameaçava apertar o gatilho, e estourar-lhe os miolos. Até ontem, vi cenas assim apenas nos filmes. Antevi a tragédia: O motorista do carro prateado aperta o gatilho, e o motorista do carro vermelho cai, morto, com uma bala alojada na cabeça, na testa, entre os olhos, e o cadáver do motorista do carro vermelho a esvair-se em sangue, e os curiosos, apavorados, aterrorizados, a correr, em disparada, e o caos instalado no centro da cidade. Não pensei duas vezes: tirei, com as mãos trêmulas, o meu telefone celular do bolso da minha camisa, e telefonei para a delegacia de polícia. Despi-me do medo que me avassalava. A Laura puxou-me, para nos afastarmos dos dois motoristas; eu, imóvel, não a percebi me puxar, mas senti sua mão pressionando-me o braço e o antebraço direitos. O motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu três passos – ou quatro, ou cinco, não sei – na direção do motorista do carro vermelho, que recuou. Muitos dentre os curiosos afastaram-se, muitos agacharam-se. Alguns procuraram chamar o motorista do carro prateado à razão. O motorista do carro vermelho, assustado, olhos arregalados, recuava e pedia, mãos erguidas, calma ao motorista do carro prateado, que, fora de si e surdo aos rogos dele, ameaçava matá-lo. Ao policial que me atendeu à ligação relatei, em poucas palavras, o que eu via, e dei-lhe a nossa localização, e desliguei o telefone. Não desviei do motorista do carro prateado e do do carro vermelho o meu olhar. Nem piscar, pisquei. O revólver mesmerizava-me. Prendiam-me a atenção os berros do motorista do carro prateado. A Laura rogava-me afastarmo-nos dos motoristas. Não a atendi, e aproximei-me deles. A minha curiosidade, atiçada; e eu desejava saciá-la; eu queria assistir ao desenlace da história. O motorista do carro vermelho recuou até encostar-se no seu carro, mãos espalmadas à frente de si, palmas voltadas para o motorista do carro prateado, rogando-lhe que abaixasse a mão que empunhava o revólver. Dobrou-se para trás, sobre o carro. O motorista do carro prateado renovou as ameaças, elevou a voz, que ricochetou no interior de meus ouvidos, que a amplificou, aterrorizando-me. O motorista do carro vermelho meneava a cabeça, balbuciava palavras que não ouvi; a sua fisionomia transparecia o pavor que o revólver e a voz ameaçadora do motorista do carro prateado infundiam-lhe. Aproximei-me do motorista do carro prateado. Eu queria ver-lhe o rosto. A Laura puxava-me para trás e pedia-me que eu me afastasse. Não a ouvi. E ela aplicou mais força em meu braço e antebraço direitos. E o motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu um berro ensurdecedor, que abafou todos os outros sons, todas as outras vozes, e apontou o revólver para si, encostou-o em sua têmpora, e apertou o gatilho. Ouviu-se o detonar do revólver. O motorista do carro prateado caiu, pesadamente. O seu olhar encontrou-se com o meu. Após espasmos, sob dores excruciantes, esvaiu-se-lhe a consciência, cessaram-lhe os batimentos cardíacos. Morreu.

 

Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

Relatos de um correspondente de guerra

 – Chamai-me Emanuel. Na semana passada, Rodolfo, o meu empregador, solicitou à Kátia, a sua secretária, que me transmitisse uma mensagem sua: um convite para um almoço. Enquanto ouvia a Kátia da mensagem inteirar-me, estudei-lhe, com uma pulga atrás da orelha, a fisionomia. Esbocei um interrogatório, que encerrei ao dela ouvir a resposta para a primeira pergunta que lhe fiz. E ela perguntou-me se eu aceitaria o convite. E eu o recusaria? Rodolfo me pediria uma tarefa, que eu não me disporia a empreender. Ele, todavia, presumi, e eu estava certo, tinha bons argumentos para convencer-me a empreendê-la. Ele não me inflaria o ego, pois sabe que sou infenso aos elogios e às bajulações. E não me ofereceria dinheiro. E também não me ofereceria privilégios. Pensativo, perguntei-me, durante aquele dia e à noite, na cama, antes de conciliar o sono, quais surpresas ele me preparara. Fui ao escritório dele, no dia seguinte, na hora aprazada. A Kátia acompanhou-me até dois metros da mesa. Rodolfo, que falava ao telefone, despediu-se do seu interlocutor, desligou o telefone, saudou-me com a reserva que lhe é comum, pediu-me que eu puxasse a cadeira, e apontou-ma, e me sentasse. Descontraído, falou-me da empresa. Enquanto o ouvia, eu seguia-lhe os pensamentos. Desconfiei de qual era a proposta que ele me faria assim que ele fez referências aos recentes conflitos bélicos que estouraram em alguns países. Com o preâmbulo, deu-me a entender que desejava que um jornalista fosse para um campo de batalha. Mas para qual campo de batalha? Rodolfo estudava as minhas reações. Eu lhe estudava as palavras, no desejo de antecipar-me ao que ele me diria, para que ele não me surpreendesse. Falei-lhe, em duas ocasiões, do que eu pensava dos conflitos que ele comentava, mas não lhe perguntei se ele desejava enviar-me para um dos países conflagrados, e tampouco ofereci-lhe os meus serviços. Dele eu queria ouvir as propostas. Enfim, ele se deteve no cruento conflito entre os A… e os B…, que, há dois meses, assola C…. Eu sabia que nenhum jornalista, eu inclusive, se ofereceria para documentar tão cruento conflito. Como, então, Rodolfo me convenceria a empreender trabalho tão arriscado? Esperei, e não por muito tempo, que ele me falasse das suas intenções. Ele me disse que obtinha informações diárias sobre o estado de coisas em C…, e temia o recrudescimento da conflagração, que poderia vir a ultrapassar as fronteiras do país, e, ao avançar aos países limítrofes, assumir proporções imprevisíveis. Intensificava-se a guerra. Vacilavam as potências mundiais. Os líderes das organizações internacionais, sempre que se pronunciavam a respeito da conflagração, acirravam os ânimos dos beligerantes, e o conflito recrudescia. Rodolfo estendeu-se ao tratar das notícias da antevéspera e da véspera. E eu o ouvi, certo de que ele me queria em C…. Falou-me dos riscos inerentes à tarefa de registro dos combates e da realidade do campo de batalha. E eu, enquanto o ouvia, perguntava-me se eu era provido de coragem para encarar tal desafio, inédito para mim. Malgrado o meu desejo de não me envolver neste crudelíssimo episódio da história humana e preservar minha vida, o desejo de empreender tão árdua tarefa enviou-me para cá, para registrar eventos que me propiciarão emoções inéditas. Não me ofereci para a tarefa. Rodolfo, todavia, munido de um arsenal de argumentos, persuadiu-me a vir para C…, de onde apresento este relato, registrar, arriscando minha vida, os embates entre os A… e os B…, e mostrar para o mundo a realidade deste país, a existência de milhares de humanos vitimados pela crueldade de governantes crudelíssimos. Estou numa das poucas áreas que bombardeios não devastaram. Metros à minha frente, ruas rubras de sangue. Os beligerantes abandonaram um rastro de destruição e miséria, desesperança e ódio. Aqui não há, além de mim, jornalistas. A imprensa mundial não os envia para cá. E os jornalistas independentes que arrumaram as malas para vir para esta área conflagrada, as desfizeram ao receberem a notícia da morte de vinte e dois jornalistas nos seis primeiros dias de conflitos. Muitos dentre eles foram alvejados pelos beligerantes, que tinham o propósito de dissuadirem outros jornalistas de vir para este país devastado. Muitas pessoas não desejam que os eventos que se sucedem aqui sejam do conhecimento do mundo. Há muitos interesses envolvidos, muitos deles inconfessados. Os donos da guerra não desejam que as suas identidades sejam reveladas. Logram os seus intentos, os malditos carniceiros! Os medrosos e covardes ocidentais (como dizem os combatentes e os que os instigam aos combates) carecem de coragem guerreira, e temem a morte, e malgrado os esforços para evitá-la, um dia defrontar-se-ão com ela num campo de batalha. E aqui estou, nas proximidades de um campo de batalha da mais feroz guerra moderna. Hordas de guerreiros sanguinários, personagens de lendas clássicas, oriundos de plagas desconhecidas, situadas em regiões inacessíveis, distantes da civilização, devastaram os impérios da antiguidade; asselvajados combatentes, rudes, ignorantes, amantes da guerra, bebedores de sangue, grotescos, incivis, bárbaros, promovem este conflito, para repetir, hoje, as ações de seus ancestrais bárbaros. Seres saídos das trevas, agourentos, vaticinam a aniquilação da civilização. Das trevas para a luz, não para usufruir dos prazeres que a luz nos oferece, mas para eliminar o que à luz dá origem. Os selvagens bárbaros modernos têm à disposição armamentos que seus antepassados jamais imaginaram. Com a fusão inconcebível da arte bélica antiga e dos artefatos bélicos modernos engendram carnificina sem precedentes… Abandono a digressão, e inicio o relato do que ocorre ao meu redor. Dou os primeiros passos, firmes. Ouço estrondos. Nuvens escuras no horizonte. Chegam-me aos ouvidos berros indistintos. Detenho-me. Atrai-me a atenção um ponto no céu, não sei a quantos quilômetros de distância, ao noroeste. Um avião rasga o horizonte, executa uma curva para o sudoeste, e desaparece atrás de uma nuvem. Chega-me aos olhos uma nuvem preto-acinzentada, que eleva-se e encorpa-se, de detrás de uma colina, há uns dez quilômetros de distância. Aos ouvidos chega-me o estrondo de uma detonação. Da minha esquerda, vejo uma nuvem de fumaça a uns cinco quilômetros de distância. Chega-me, aos ouvidos, não sei de qual direção, outro estrondo. Olho de um lado para o outro. Mísseis atingem áreas urbanas, vejo com o binóculo. Sobressaem-se, por sobre as colinas, os prédios mais altos. Não posso ver as dimensões da devastação. Rumo, sem vacilar, em direção à explosão à minha esquerda a uns cinco quilômetros de mim. Desloco-me mais de cem metros. Os sinais da devastação: carros de cabeça para baixo, queimados, casas destruídas, paredes de prédios esburacadas, ruínas em toda a extensão da rua, árvores carbonizadas. Dois cachorros famintos, ossudos, de olhos esgazeados, correm, e detêm-se, e fuçam qualquer coisa atrás de pilhas de tijolos, e, ganindo, correm, e o que vai na frente dá um ganido mais elevado do que o que emitia até então, e pula, e cai, e desaparece do meu campo de visão, atrás de um tronco de árvore carbonizado. O outro cachorro, assustado, de pelagem preta, com inúmeras falhas, a orelha machucada, a pele do flanco direito exposta, acelera a corrida, e muda a direção que segue. Cauteloso, ando, com passos firmes, na direção do cachorro que pulou e caiu. Não atino com a razão que o levou a pular e cair e o outro a disparar, assustado. A minha curiosidade, excitada, e o meu desejo de conhecer a resposta para o evento impelem-me até o cachorro que pulou e caiu. Não negligencio cuidados. Agi com imprudência, reconheço, agora, ao me deparar com o cadáver ensangüentado do cachorro escanifrado, um esqueleto banhado em sangue. Examino-o à procura da causa da sua morte. Com uma pedra cilíndrica coberta de saliências e cavidades, mexo-lhe a cabeça. Seus olhos, esgazeados; sua boca, entreaberta; sua língua, para fora. Mexo-lhe mais um pouco. Viro-lhe a barriga para cima; suas vísceras se lhe escorrem, numa poça de sangue, e esparramam-se no chão. O animal, grotesco. Uma quimera; não um cachorro. Falta-lhe uma perna. O que lha arrancou? As vísceras escorrem do corpo sem vida. A causa da morte do cachorro está próxima do cadáver: Um projétil, alojado numa pedra. Dou-me conta de que me expus, inadvertidamente, à morte. Fui imprudente. Não sei se o cachorro ficara sob a mira de um revólver, ou se o projétil, por obra do acaso, o alvejara. Olho em torno de mim. A disposição da pedra e a do cachorro não me orientam. O cachorro, atingido, dera um salto de um metro de altura, e a pedra, é certo, antes de o projétil atingi-la, não estava onde a encontrei. Fico com as minhas interrogações. Estou certo de que não me precavi como deveria ter feito. Expus-me ao perigo. Sei dos riscos que corro aqui. Eu deveria me precaver, e não me lançar, em busca da glória, com tal ímpeto inconsequente, suicida. Serei mais cauteloso. Não quero abreviar minha vida. Não quero que me abreviem a vida. Sou jovem, conquanto os esparsos cabelos grisalhos e as rugas exibam a figura de um homem de seus quarenta anos. Não quero ir para o inferno. Os seres das profundezas rejubilar-se-iam com a minha majestosa presença. Pretendo viver mais alguns anos neste inferno. Aqui, diante de mim, o cadáver de um cachorro. Abandono-o, em respeito à sua alma. Curvado, ando, com passos firmes, até uma pilha de pedras, que, acredito, me servirá de escudo. Onde estou com a cabeça? Atrás desta pilha de pedras. Minha cabeça ainda está sobre meu pescoço. Um míssil ou uma rajada de metralhadora pode pulverizar estas pedras e minha cabeça. Não tenho opções. Retiro-me de detrás desta pilha de pedras. Ouço um barulho. Detenho-me, curvado, com as pontas dos dedos da mão direita pousadas no chão. Vejo um avião, a mais de mil quilômetros por hora, sobrevoando o céu a uns duzentos metros à minha frente, a cem metros de altura, da minha direita para a minha esquerda. Os ruídos dos motores ofendem-me os ouvidos, que eu cubro com as mãos. O avião aos meus olhos reduz-se às dimensões de um ponto preto insignificante, a não sei quantos metros de distância e a quantos metros de altura. Uma explosão. Bombas atingiram um prédio a duzentos metros à minha direita. Duas pessoas saltaram do prédio, ou do prédio foram arremessadas, de uma altura de vinte metros. Seguem-se quatro explosões. Não vi de que direção partiram os disparos, e se de aviões, se de tanques de guerra, se de carros de combate. Agora, o silêncio é ensurdecedor. Ao longe, na mesma linha de visão, uma explosão de um avião, a não sei quantos metros de altura e a quantos metros de distância, e o rastro de fogo e fumaça que o avião abandona, na curva descencional rumo ao solo. O estrondo da explosão não me chega aos ouvidos. Eleva-se no céu a nuvem de fogo e fumaça. Nas proximidades do ponto em que o avião caiu, rasgam o céu dois aviões, vindos não sei de onde, e rumam em minha direção. As suas dimensões ampliam-se aos meus olhos enquanto de mim se aproximam. Deito-me. Dos aviões não desvio meu olhar. Os aviões executam uma curva; passam, a uns quinhentos metros de altura, a mais de mil metros de distância; deslocam-se a mais de mil quilômetros por hora. Ouço o rugido dos seus motores. Segue-se a calmaria. Acocorado, desloco-me, desajeitadamente, uns vinte metros. Precipita-se o crepúsculo. Anuncia-se a noite. Parece-me que o tempo se acelerou, como se um mecanismo planetário afetasse os ponteiros de um relógio cósmico com força suficiente para movê-los com velocidade superior à normal. Não consulto o relógio porque algo me chama a atenção: sapatos, atrás de um carro. Considerando a disposição dos sapatos, há pés dentro deles. Olho ao redor. Nenhum avião. Perscruto os arredores à procura de combatentes. Não os vejo. Vou, corpo arqueado, passos acelerados, até o par de sapatos. Como presumi, há pés dentro deles. Vejo os calcanhares, os tornozelos, as pernas, os joelhos, as coxas, e um corpo de homem. Foi-lhe rasgado o ventre e retalhado o rosto. Examino-o. Do corpo desviscerado foi extraído o coração. Os homicidas, crudelíssimos, tiveram o desplante de, com as vísceras, escreverem uma palavra à direita do corpo. Que desumanidade! Quem perpetrou tão horrendo crime? Tento desenhar, na minha mente, a figura original do rosto deste cadáver desfigurado. O sangue que corre pelas veias e artérias do perpetrador de tal crime é da constituição do gelo glacial, e seu rosto, da de um sujeito animalesco de expressão malévola. O homem, aqui, a desfazer-se em sangue. Vermes deslocam-se em meio às suas vísceras. Este homem não foi alvejado por projéteis; mataram-no mãos humanas, que o agarraram, cortaram-lhe o pescoço e o braço direito, e o desvisceraram, e extraíram-lhe o coração. É o corpo de um homem robusto de um metro e oitenta de altura e oitenta quilos. Era ele um dos combatentes? Ou ele era um civil, que entrou, inadvertidamente, no caminho dos combatentes das hordas inimigas? Nada, nele, indica tratar-se de um combatente. Ele não verga uniforme, e tampouco ostenta insígnias militares. Não concluo, no entanto, tratar-se ele de um civil. Os combatentes, muitos deles mercenários financiados por estados patrocinadores de organizações terroristas, não vergam uniformes militares. Sucedem-se explosões, não muito distantes de mim. Olho em torno. Devastação. Não há viv’alma no campo que meus olhos alcançam. Cães correm, ao longe, aos bandos. São oito, ou dez, todos doentios. Desaparecem dentro de uma casa em ruínas. Observo, pela última vez, o cadáver à minha frente. Curvado, afasto-me; cauteloso, desloco-me, contornando escombros e carros carbonizados. O cenário devastado parece um mural de um pintor moderno. Contorno uma casa em ruínas da qual restam pedaços das paredes. Vejo, a poucos passos de mim, um túmulo coletivo a céu aberto. Aproximo-me. Olho ao redor. Dois aviões passam ao longe. Uma explosão à minha direita, a mais de um quilômetro de distância. À minha frente, à esquerda, veículos deslocam-se, a mais de quinhentos metros, num ponto mais elevado do que o no qual me encontro, e afastam-se, rapidamente. Aproximo-me dos cadáveres. A disposição dos corpos indica que foram fuzilados à queima-roupa. São doze cadáveres, todos nus. Cinco homens. Quatro mulheres. Três crianças. Todos com olhar terrivelmente aterrorizado. Uma das mulheres, além do tiro na cabeça, foi alvejada no ventre. Piso num mar de sangue e massa encefálica. Aproximo-me dos cadáveres. Examino-os, detidamente. Não são de combatentes; são de civis. Combatentes os capturaram, e os espancaram. As mulheres e as crianças eles as estupraram. Os homens eles os espancaram até esmigalharem-lhes os ossos das mãos. Hematomas cobrem-lhes o corpo de ébano. Gritos atraem-me a atenção. Olho para a direção da qual chegaram-me aos ouvidos. Quatro homens correm; todos eles empunham rifles. São homens enormes. Correm para a mesma direção. Aproximam-se de mim. Deito-me na sujeira, no sangue, nas vísceras, na massa encefálica. Elevam-se os gritos. Aproximam-se de mim os quatro homens. Empunho a pistola que trago a tiracolo. Não sei se as aulas de tiro me serão de alguma utilidade. Uma série de detonações provoca a reação imediata dos quatro homens, que se abrigam atrás de escombros e, com saraivada de tiros, revidam ao ataque. Prendo a respiração. Não quero atrair-lhes a atenção. Aceleram-se os meus batimentos cardíacos. As explosões os abafam. Cessam os tiros. Apuro os ouvidos. Não mexo nem um dedo, nem as pálpebras. Predomina o silêncio. De repente, gritos e tiros. Enfim, cessam os gritos e os tiros. Predomina o silêncio sufocante, opressivo. Nenhum ruído chega-me aos ouvidos. Olho para a minha direita. Olho para a minha esquerda. Cauteloso, levanto-me, lentamente, Não quero que um projétil atinja-me a cabeça. Afasto-me, curvado, ziguezagueando por entre pilhas de escombros, dos doze cadáveres. Desloco-me, por entre os escombros, por uns cem metros. Recuo dois passos ao divisar uma cabeça movendo-se lentamente, e ponho-me, acocorado, atrás de um carro carbonizado. Ouço sussurros, resmungos, gemidos de dor. Olho para o homem que, à minha frente, chapinha numa poça de água estagnada numa cratera escavada, por uma bomba, presumo, no asfalto de uma ampla avenida. O homem retira-se da cavidade, e arrasta-se, fazendo das mãos pés, pois seus pés estão imobilizados e deles escorre sangue em profusão. Ele se detêm. Seu olho direito está rubro de sangue; acredito que não há olho na sua cavidade ocular esquerda, mas pasta de sangue, sujeira, pele e ossos. Ao dar um passo, emito, ao pisar num objeto de metal, ruídos, que atraem a atenção do homem que se arrasta. Ele me encara. Encaro-o. Sua figura, repulsiva, a de uma alimária, não conserva semelhanças com a figura humana. Ele se desloca, arrastando-se, como os répteis. Seu rosto, o de um ciclope desprovido de simetria. Uma figura destituída de peculiaridades humanas. Kafkiana. A guerra extraiu-lhe todas as características humanas. É um animal rastejante. Não desceu à condição de inseto, mas à de um réptil. Seu olhar, petrificante, vazio de vida, de humanidade. O que ele pensa, se pensa? Ele conserva a capacidade de pensar, ou a perdeu? Fita-me, como se olhasse para uma criatura fantasmagórica que se corporificou diante de seus olhos. A minha presença extraiu-lhe o que lhe restava de sopro divino. A face dele adquiriu consistência pétrea; ele perdeu os traços de ser vivo (não direi os de um humano), que ainda conservava, e cedeu ao peso de sua cabeça. Deteve em mim seu olho bom. Esvaiu-se o sangue daquele corpo sem vida. Andei até ele. Este cadáver não pertencia a um homem, pertencia a um macho de uma outra espécie de vida, de vida rastejante, primitiva. Diante de mais este espetáculo de horror, pergunto o que esta guerra reserva-me. Dou-me conta, agora, da noite, que se precipita. Entretido com os eventos até aqui relatados, não notei que o tempo seguiu, sem cessar, a sua jornada. Sei que, chegada a noite, os conflitos recrudescerão. Os combatentes intensificarão os bombardeios. Estou muito exposto, aqui. Tenho de encontrar um abrigo. À minha volta, ninguém. No céu, nenhum avião. Chegam-me aos ouvidos cantos de pássaros, que se destacam, e destoam do ambiente. Inusitados. Incomuns. Singulares. Surrealistas. Os pássaros são as excrescências deste cenário de horror. São as pústulas deste corpo perfeitamente tétrico. Procuro por um abrigo. Olho de um lado para outro. Diviso escombros. Ao longe, espocam luzes, de explosões, no céu e na terra. Riscos luminosos rasgam o céu. São de disparos, não sei de quais armamentos. Sucedem-se as explosões. Arrasto-me, com o coração aos pulos, bombeando, com vigor, o sangue, a ponto de estourar-me a caixa torácica. Envolve-me a escuridão; tão de repente, que me surpreende. Detenho-me. Olho em redor. Nada vejo. Não vislumbro nem meus pés, nem minhas mãos. Tateando os escombros, acocorado, desloco-me não sei para onde. A insegurança me consome. Sinto que não posso permanecer aqui. Retiro do bolso a lanterna. Ouço vozes, que me chegam da minha direita. Agacho-me. Com a lanterna na mão, detenho-me, ouvidos atentos e olhos apurados; nada vejo, entretanto. Não vejo nem a ponta de meu nariz. As vozes que me chegam aos ouvidos pertencem a três homens, que falam um idioma que desconheço. São vozes graves, cavernosas. Sussurro, agora. Os três homens aproximam-se de mim. Calo-me… Os três homens distanciam-se… Não me viram, para a minha felicidade. Afastam-se. Cauteloso, desloco-me, tateando os escombros. Não quero provocar ruídos. Duas detonações, não muito longe de mim. Ouço berros ensurdecedores. Vejo cilindros de luz cem metros à minha frente. Ouço detonações, uma, duas, três, quatro… Uma rajada de detonações, de duas ou mais armas. Sucessivas e simultâneas. De armas de modelos diferentes. Deito-me, de barriga para baixo, e pouso as mãos sobre a nuca, para me proteger. Não sei de que direção são dados os tiros. Os disparos não me são dirigidos. Não sou o alvo dos atiradores. Nenhum projétil assobia aos meus ouvidos, nem atinge os escombros próximos de mim. Nada vejo. Escuto detonações, que se sucedem de diversas direções. Sinto-me exausto, debilitado. Procuro controlar meus batimentos cardíacos. Sucedem-se explosões ensurdecedoras. Não são de disparos de revólveres, pistolas, rifles, metralhadoras. São disparos de mísseis. A terra treme sob meu corpo. Pedras atingem-me os braços, as costas, as pernas. Cerro as pálpebras. Mordo os lábios. Entrelaço os dedos das mãos e os comprimo uns contra os outros e contra a cabeça. Retesados, todos meus músculos. Segue-se silêncio lúgubre, que ruídos de motores de veículos interrompem. Afrouxo os dedos das mãos. Nenhum ruído. Nenhuma voz. Aviões sobrevoam a região não sei há quantos metros de altura. Desentrelaço os dedos das mãos. Passo as mãos, da nuca para o queixo. Deito sobre as mãos a cabeça. Ouço vozes de homens, de mulheres e de crianças. Homens, mulheres e crianças conversam, sussurrando, num idioma que desconheço; e afastam-se de mim. Não me movo. Penso em me levantar, em acionar a luz da lanterna. Empunho a lanterna. Não sei se a aciono. E se combatentes virem a luz da lanterna? As pessoas que estão próximas de mim estão armadas? Elas me ajudarão? Ou me matarão? Elas são combatentes? Dirão aos combatentes, ou aos A…, ou aos B…, de mim? Prefiro conservar-me, aqui, deitado, e, sussurrando, registrar este relato… Despertam-me detonações. Dormi não sei durante quantas horas. O céu, claro. A luz do sol atinge-me da cintura para baixo. Sucedem-se explosões. Um avião passa ao longe, a dois quilômetros de distância e oitocentos metros de altura. Alvejam-no projéteis. O avião explode. Com a consciência um tanto lenta, debilitada, afetada pelo resquício do sono que me dominou, e conservou-me no seu domínio não sei durante quanto tempo, ergo-me, e ponho-me sobre os joelhos. Olho ao redor. Diviso escombros, e escombros, e prédios fumegantes, e veículos dos quais escapam línguas de fogo. O que se sucedeu à noite? Consulto o relógio. Dormi durante mais de dez horas. À minha esquerda, cadáveres. Não estavam lá, ontem, antes de eu pregar as pálpebras. São quatro cadáveres, três, de homens, um, de mulher. Os quatro vergam trajes civis dos A…. A mulher, de cabelos compridos, jaz estirada numa poça de sangue, sob um homem deitado de bruços, de través, com um rombo no crânio, e de cuja testa escorre massa encefálica. Os outros dois cadáveres são, um, de um homem na idade de aproximadamente trinta anos, e o outro, de um homem de uns quarenta anos de idade, de barbas e bigodes espessos. Os quatro foram alvejados, cada um deles, por dois ou mais tiros. Não vejo cápsulas próximas deles. Concluo que os tiros partiram de longe. Chegam-me vozes aos ouvidos. Agacho-me. Vozes aproximam-se de mim. Os homens que as pronunciam não elevam o tom de voz. Aproximam-se de mim, lentamente. Acocorado, afasto-me dos cadáveres. À minha frente, um carro. Contorno-o. Ouço vozes de regozijo. Olho através do vidro do carro. São três homens. Não. Quatro. Cinco. Entrevejo armas. Rifles. Um homem carrega, a tiracolo, uma pistola. São seis homens. Dois deles, magros. Um, alto e musculoso, de voz roufenha, aparência tourina e músculos bem definidos. Seu tom de voz, de comando; os outros parlamentam com ele. Com um binóculo, ele esquadrinha o horizonte, e diz qualquer coisa. Um deles, magro, sobe em escombros e, com as mãos em pala, vasculha o horizonte. Dois homens andam na minha direção. Agacho-me. Arrasto-me para trás de escombros. Enfio-me por entre tijolos e vigas de ferro. Réstia de luz penetra nesta caverna, e revela-me o cadáver de uma criança decapitada, cujos olhos fitam-me, como se me repreendessem e suplicassem-me uma explicação ao que se sucede em C… Vejo, por uma frincha, o carro, e dois homens, que se detêm e remexem no carro. Aproxima-se deles um homem barbudo, que lhes exibe, ostentando-os com orgulho, os despojos que suprimiu, presumo, dos quatro cadáveres: dois relógios, um cinto, pulseiras e outros objetos. Aproximam-se do carro outros três homens. Riem. Gargalham. O grandalhão verga uma jaqueta preta, a qual retirou de um dos cadáveres, e exibe dois pares de sapatos e óculos de lentes pretas, e sorri, exibindo-se aos outros homens, que gargalham. A detonação de um projétil. Um dos homens que se acercaram do carro cai, alvejado por um projétil, presumo. Os outros homens põem-se de sobreaviso. Dois deles correm em minha direção, e abrigam-se nos escombros sob os quais estou. Seguem-se estrondos. Ouço gritos. Seguem-se estrondos. Sucedem-se gritos mistos de medo, raiva e dor. Explosões. Saraivadas de tiros. Aviões sobrevoam a região. Disparos. Gritos. Explosões. Estrondos. Passos acelerados. Várias pessoas correm, aos berros, próximas de mim. Vejo pés descalços ensangüentados passando por mim, rapidamente. Gritos. Choros. Gritos de desespero. Gritos de raiva. Gritos ameaçadores. Gritos de súplica. Entrevejo um homem carregando ao colo uma criança ensangüentada. Uma mulher ampara uma velha. Uma explosão. Nuvem de fumaça ganha o céu. Detritos invadem esta caverna. Cerro as pálpebras. Cubro o nariz, comprimindo as abas, para não aspirar detritos… Assentaram-se os detritos. Recupero a respiração. Descerro as pálpebras. Dissipou-se a nuvem. Não sei quanto tempo permaneci de pálpebras cerradas. Não ouço vozes. Não ouço ruídos. Nenhum som me chega aos ouvidos. Hesito. Quero retirar-me de sob estes escombros, que me protegeram, mas é uma armadilha. Por sorte, não ruíram, e não me soterraram. Apuro os ouvidos. Nenhuma voz, nenhum ruído, chega-me aos ouvidos. Lentamente, cauteloso, arrasto-me, evitando gestos bruscos, os ouvidos apurados para captar todo e qualquer ruído que me indique a presença de pessoas nas proximidades. Nada ouço. Movo-me, lentamente. Detenho-me. Ouvi ruídos de pedras caindo de grande altura. Segue-se o silêncio. Movo-me, lentamente, para me retirar deste abrigo, que poderá vir a se converter numa guilhotina e ceifar-me a vida. Censuram-me os olhos da criança decapitada. Fito-a pela última vez, e retiro-me de sob estes escombros. Olho em torno de mim. A paisagem foi enormemente modificada. O carro foi reduzido a ferro retorcido; mal há vestígios da sua forma original. Cadáveres juncam o chão a dez metros de mim. Há partes de corpos espalhados nos arredores. Braços. Pernas. Cabeças. Uma cabeça de mulher numa cavidade cheia de sangue. Ossos. Um mar de sangue. Quantos cadáveres há num raio de cinquenta metros que meu olhar alcança? Não sei para onde andar. Para onde me viro, vejo destruição e cadáveres. Sigo em direção às colinas, mais para o coração de C…, de onde chegam-me línguas de fogo e torres de fumaça, que se vergam ao sabor dos ventos, de mais de duzentos metros de altura. A batalha, lá, é mais intensa, encarniçada, do que aqui. Desloquei-me mais de vinte metros. Passei por cadáveres e escombros. Sigo em frente. Um veículo atrás de mim. Agacho-me. O veículo passa ao largo. Ergo-me. Neste terreno acidentado, repleto de obstáculos, corro, contornando-os, até um prédio em ruínas. Enveredo-me pelos seus domínios. Atravesso-o. Deparo-me com um cenário mais devastado do que o com o qual deparei-me antes de entrar neste prédio, que deixo para trás. Que… O que… O que é isto… O que é isto no meu braço direito? Um pernilongo. Criaturazinha maldita! Suga-me o sangue, a maldita! Sua barriga, repleta de sangue. Sangue! Sangue! Meu sangue! Criatura maldita! Enerva-me. Não me sugarás o sangue, maldita! Dou-te um tapa! Esmaguei-te, criatura maldita! Oh! Meu sangue! Mancha-me o braço meu sangue. Meu sangue! Oh! Meu sangue! Meu…

Emanuel desmaia. Aqui encerra-se o relato do correspondente de guerra.

O estranho mundo de Djidhikalji

São Paulo, Brasil. 17 de maio de 2134.

Instituto de Estudos de Vida Extraterrena.

Há dez anos Amanda Siqueira Martinez, cientista chefe do Departamento de Estudos de Civilização Extraterrena, estuda a presumível existência de vida inteligente em outra região do universo. Com afinco e perseverança, confiante, em nenhum momento pensou em desistir do seu propósito, nem nos momentos mais difíceis, naqueles em que ouviu a zombaria de colegas de trabalho. Encontraria vida inteligente, ou em outro planeta da Via-Láctea, ou em outro local do universo, ou além. Era sonhadora e visionária. Estava além do seu tempo, e não a compreendiam os seus contemporâneos. Desprezaram-la os amigos. Três pessoas, apenas três pessoas, a apoiavam.

Amanda acreditava que as noções de tempo e espaço concebidas pelos humanos mal representavam as forças que atuam no universo. As teorias científicas não concebem os aspectos mais complexos do cosmos – ou a sua simplicidade, inconcebível pelos humanos. Para a construção de um aparelho de transporte de indivíduos através do tempo e através do espaço são indispensáveis a descoberta das forças que atuam no universo e a compreensão de como elas interagem entre si e a invenção de tecnologia apropriada. Para muita gente, viagem através do espaço e através do tempo são fantasias de escritores providos de imaginação apurada, que se eleva às raias do absurdo; para alguns cosmólogos, viagens através do espaço e através do tempo são possíveis (Há cientistas, filósofos, teólogos que não acreditam na existência do tempo, considerando-o em termos cosmológicos; o tempo é, para eles, uma ilusão da mente humana – ainda há, pensam, muito o que se descobrir a respeito da existência da vida em si, da realidade e das forças que mantêm o universo coeso, impedindo-o de se encolher e de se desintegrar, causando uma singularidade, que venha a destruí-lo, ou a transformá-lo em algo que impede a existência de vida similar à humana).

Susana, Natacha e Everaldo eram os três cientistas que apoiavam Amanda, incondicionalmente. Contribuíam, com suas inteligências, sua sensível aptidão para a abstração e com amplos conhecimentos em matemática avançada para a formulação da ciência que permitiria viajar através do tempo e através do espaço. Dos três, Natacha, descendente de ucranianos, dotada de extraordinária e inigualável capacidade mnemônica – alcunharam-na os amigos Computador de Última Geração -, era a que estava imbuída de maiores conhecimentos em matemática aplicada e cosmologia. Na idade de vinte e seis anos, era uma das mais renomadas cientistas do mundo. Desde criança, dedica-se à ciência astronômica e à matemática, sob influência de seu pai, Fiódor, um gênio da física quântica, e de sua mãe, Mônica, uma bela italiana que, aos quarenta e seis anos de idade conservava a beleza da juventude, eminente cosmóloga, autora de seis livros, sendo um deles interessante relato, mescla de ficção e as mais recentes teorias sobre a criação do mundo, e um outro, escrito para leigos, que contêm a história da astronomia desde as mais antigas civilizações.

Natacha era o braço direito de Amanda. Tinha armazenada em seu cérebro incalculável quantidade de informações; era capaz de citar milhares de nomes de galáxias, de estrelas, de planetas, descrever-lhes as características, e localizá-las no espaço.

Everaldo e Susana, não tão excepcionais quanto Natacha, eram indispensáveis para o empreendimento; sem eles, Amanda não daria sequência às suas experiências, à construção das máquinas que criou e as quais aperfeiçoava.

Os recursos que Amanda obtinha para empreender os seus estudos vinham de sonhadores como ela, muitos deles milionários excêntricos que desejavam viajar através do tempo e através do espaço, conhecer o universo, e sonhavam com seus nomes inscritos entre os humanos mais importantes do seu tempo, e, quem sabe, da história da civilização; queriam legar à posteridade conhecimentos imprescindíveis para a compreensão da vida. Sem o dinheiro deles o projeto Viajante Espaço-Temporal jamais seria concretizado.

A máquina Viajante Espaço-Temporal era o mais sofisticado equipamento – dir-se-ia um veículo – construído para empreender viagens através do espaço e do tempo. A invenção de Amanda, Natacha, Susana e Everaldo superaram as dos cientistas rivais. Patentearam a máquina e todos os outros equipamentos. E ninguém além deles conhecia o projeto Viajante Espaço-Temporal. Conservaram-no oculto das outras instituições científicas, longe dos olhos dos espiões, que proliferavam nos institutos de pesquisa. Flagraram, em duas ocasiões, no laboratório, pessoas desautorizadas; eram elas espiões, um, de uma empresa rival, australiana, outra, de uma empresa canadense.

*

Sozinha, às três horas da madrugada, no laboratório 1-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, Amanda fazia testes com o Viajante Espaço-Temporal. Imperava silêncio absoluto. Amanda trajava um vestido azul claro decotado cuja borda inferior descia até à metade de suas cochas, usava uma tiara à cabeça, contendo os cabelos lisos, compridos e finos, que, se soltos, escorregar-se-lhe-iam pela testa e pelas laterais da cabeça, e incomodá-la-iam, obrigando-a a, de tempos em tempos, passar por eles as mãos e recolhê-los à cabeça. Apesar da fadiga, das noites em claro, da energia gasta nos anos anteriores, das chacotas que ouviu e do desprezo dos seus pares, conservava a sua beleza amorenada. Seu rosto, de traços suaves, e seus belos olhos irradiavam beleza tão profunda que encantava a todos.

Naquele dia, Susana, adoentada, não foi ao laboratório, e Everaldo socorreu sua mãe, que, acometida de dores no peito, teve de ser hospitalizada.

Eram quatro horas da madrugada, quando Natacha apresentou-se à Amanda.

– Oi, Natacha – saudou-a Amanda, que mexia, na ocasião, em alguns fios, e avaliava os dados que apareciam em um dos cento e vinte monitores. – Demoraste.

– Desculpe-me, Amanda. Choveu demais hoje. O trânsito, caótico. Nunca me acostumarei… Na Ucrânia não é diferente. Em Kiev, em Kharkiv, em Odesa, em Dnipropetrovs’k e em Donets’k enfrenta-se transtornos também.

Não eram ainda seis horas da manhã quando Amanda e Natacha, olhos fundos, puseram uma maçã no Viajante Espaço-Temporal, para um teste. A maçã viajou através do tempo e através do espaço; ao regressar, trouxe consigo a marca de uma dentada, que não se assemelhava a de nenhum animal terreno. Minutos depois, enviaram um coelho para um planeta distante, numa distante galáxia; ao regressar à Terra, ao Viajante Espaço-Temporal, o coelho trazia consigo uma mancha azul na cabeça – tratava-se de fluído segregado por algum animal -, e uma pequena criatura acompanhava-o.

Natacha e Amanda isolaram a maçã, o coelho e a criatura em compartimentos herméticos.

Poucos minutos depois do meio-dia, Amanda e Natacha, com fome, após vinte e quatro horas sem ingerir nem um grão de arroz, interromperam os testes, para uma refeição.

Amanda e Natacha não se continham de alegria. Os dois testes foram bem-sucedidos. Elas desejavam entrar no Viajante Espaço-Temporal, e viajar através do tempo e através do espaço. Seriam os primeiros humanos, sonhavam, a realizarem tal proeza.

– Quem irá primeiro, eu ou tu? – perguntou Natacha, radiante.

– Iremos as duas, Natacha – respondeu Amanda – Nenhuma de nós terá o privilégio do pioneirismo. Não correremos risco de morte. O Viajante Espaço-Temporal está pronto. Estou plenamente confiante no nosso sucesso.

– Iremos para onde? – perguntou Natacha, sorridente e animada.

– Escolha o nosso destino – disse-lhe Amanda. – Tu, melhor do que eu, apontarás um planeta qualquer em uma galáxia qualquer, sem acorrer aos dados do computador.

Natacha mencionou um planeta e em qual galáxia se situa.

Amanda e Natacha programaram o Viajante Espaço-Temporal, e nele entraram. No início, nada sentiram; minutos depois, sentiram náuseas e fraqueza, e desmaiaram, e recuperaram os sentidos minutos depois.

Luzes multicoloridas cruzaram o espaço. Amanda e Natacha viram estrelas, galáxias, aglomerados estelares, aglomerados galácticos, até que, enfim, chegaram ao destino. O Viajante Espaço-Temporal, sem sair do laboratório I-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, chegou ao distante planeta Djidhikalji.

Os detectores da nave avaliaram o ambiente. A atmosfera de Djidhikalji não representava perigo para Amanda e Natacha. O ar, respirável. O planeta, acolhedor. Os radares não captaram a presença de nenhuma criatura num raio de cem quilômetros. Amanda e Natacha, porta do Viajante Espaço-Temporal aberta, dele não saíram. Imobilizaram-las o medo, a apreensão, a ansiedade. Recuperavam-se das enfermidades que a atingiram durante a viagem. Recompostas, admiraram, deslumbradas, o panorama que se lhes descortinava.

Permaneceram, caladas, durante um bom tempo, no interior da nave, a olhar, fascinadas, a beleza esplendorosa dos arredores.

Entreolharam-se.

Amanda e Natacha, passos lentos, retiraram-se da nave.

O solo, macio. Tinham elas a sensação de pisar sobre um colchão macio, que se lhes cedia ao peso. Seus pés não afundavam no solo. Tiveram dificuldades para se manterem em pé. Olharam para trás, e viram o Viajante Espaço-Temporal afundado, no solo, que se curvava sob o seu peso, mas não afundava a ponto de desaparecer. Adiante, uma cachoeira. Notaram que nela a água não descia a encosta da montanha, mas a subia. Deram os primeiros passos, com dificuldade. Deslocaram-se cem metros. Acostumadas, já, com o solo, confiantes, caminharam, seguras de si. A sensação, agradável. Riam à toa, como se participassem de uma brincadeira infantil. Esqueceram-se – por pouco tempo – de que estavam em um planeta desconhecido.

De repente, uma imensa sombra envolveu a região. Natacha e Amanda viram-se mergulhadas nas trevas. Não sorriam mais, não se divertiam mais. Ensombreceram-se-lhes os semblantes. Vasculharam o céu à procura da causa de tal sombra tenebrosa e funesta, que logo dissipou-se. Não souberam explicar o fenômeno. Como a sombra apareceu sem que um corpo se interpusesse entre o planeta e a estrela que o iluminava? Entreolharam-se Amanda e Natacha, o coração aos pulos.

Refeitas do medo, andaram. De repente, surpreendeu-as uma criatura estranha de corpo segmentado, filamentos a destacarem-se-lhe da cabeça em forma de cubo, e três olhos cuja disposição formavam um triângulo isósceles, com um círculo no seu núcleo, a adornarem-lhe a face anterior, e duas saliências, que se aparentavam com orelhas de elefantes, a destacarem-se-lhe das faces laterais. A cabeça era ligada ao pescoço, que não tinha mais do que a grossura de um dedo mindinho de um recém-nascido e a extensão de cinquenta centímetros. Cada olho era composto de quatro círculos concêntricos, sendo branco o interno, e roxo o externo, e os dois intermediários eram, o maior, de uma cor que se assemelhava ao azul, e o menor, alaranjado. Tal criatura surgiu do solo – de algum modo o atravessara. De onde saíra nenhuma cavidade havia. Era como se se constituísse da substância que compunha o solo. E ele começou a flutuar. Fitou, com seus olhos estranhos, Amanda e Natacha, e provocou-lhes calafrio. Elas se imobilizaram, esbugalharam os olhos e escancararam a boca. A criatura, os olhos fixos nelas, elevou-se, no céu, até que, inexplicavelmente, desapareceu, sem deixar vestígios. Entreolharam-se Amanda e Natacha. Logo depois, uma criatura surgiu nas proximidades do Viajante Espaço-Temporal. Emitia um ruído estranho, que se parecia com o de motor de um carro pipocando. Amanda e Natacha a compararam com um jacaré; não sabiam de onde ela havia surgido. O “jacaré”, desprovido de cauda, tinha asas que alcançavam, cada uma delas, mais de três metros de comprimento. Do mesmo modo que a criatura de cabeça de cubo, flutuou, e desapareceu, inexplicavelmente, sem deixar vestígios.

Amanda e Natacha inspecionaram a região, o ânimo recomposto, certas de que eram pacíficas as criaturas daquele mundo estranho. Poucos metros à frente de Amanda e Natacha, o solo era vermelho escuro.

Detiveram-se Amanda e Natacha.

Do solo vermelho escuro minava água, que ia para cima, como se o solo fosse nuvem e chovesse em sentido contrário. Viram Amanda e Natacha, ao se voltarem para a cachoeira, que a água, nela, ia de baixo para cima, escalava a montanha, em cujo topo desembocava. E concluíram que o rio nascia no oceano, se algum oceano havia no planeta, e morria no alto das montanhas. Atentaram para o solo vermelho escuro, e decidiram nele pisar. No solo pisaram, e afundaram.

Caíam Amanda e Natacha. A sensação de queda, indescritível. Tinham a sensação de que subiam. Tentaram se equilibrar. Conseguiram. E continuaram a cair. Caiam? Olharam para cima – ou para baixo? – sobre suas cabeças – ou para baixo delas? Viram que no céu havia “peixes” e outros animais, que “nadavam”. Os “peixes” tinham caudas de mais de dez metros de comprimento e eram desprovidos de olhos; os animais parecidos com serpentes tinham duas cabeças e três caudas; e havia animais parecidos com tartarugas, de três cabeças, duas caudas e seis pés.

Enfim, Amanda e Natacha pousaram, suavemente, no solo. Olharam para o solo sob seus pés: era água; e nela elas não afundaram. Amanda agachou-se e, de cócoras, enfiou o dedo indicador da mão direita no solo; o dedo afundou; da abertura que fez, saiu um líquido espesso. Assustada, Amanda retirou do solo o dedo, e o líquido, cessando de escoar, formou uma “bolha”, que se desprendeu do solo e flutuou para a região de onde Amanda e Natacha desceram (ou subiram?). Natacha apontou, assustada e maravilhada, para algo que se mexia sob o solo aquoso; era reluzente, e assemelhava-se a uma redoma, e em seu interior, pareceu-lhe, havia seres e naves voadoras. A redoma, imensa. No interior dela, deduziu Natacha, havia uma megalópole. Expressou Natacha a sua vontade de ir até lá. Como? perguntou-se e perguntou para Amanda.

Natacha disse para Amanda que, quando ela, Amanda, enfiara o dedo no solo, abriu-se uma cavidade; talvez enfiando um dedo, e, depois, a mão, e os braços, e, por fim, o corpo, elas pudessem passar para o outro lado do solo. Amanda e Natacha, mãos dadas, enfiaram as mãos no solo aquoso, e nele enfiaram-se, e o atravessaram. Mergulhadas no solo, viram algumas criaturas estranhas desprovidas de olhos. A substância que compunha o solo era clara e, parecia, irradiava luz. Elas não precisavam mover os membros e nem se esforçar para mergulhar (mergulhar?) até a megalópole a vários metros de profundidade (profundidade?). À medida que dela se aproximavam, tomavam conhecimento da sua amplitude. Era maior do que todas as megalópoles humanas. Enfim, tocaram em algo sólido. Era a barreira que separava a megalópole do mundo exterior aquoso. Uma redoma transparente, que se abriu. Amanda e Natacha entraram. Assustaram-se, abismadas, com o que viram. A “megalópole” não tinha mais de cem metros de raio. As criaturas que nela viviam eram um pouco maiores do que gatos, tinham cinco patas, duas cabeças e três caudas de cinquenta centímetros de comprimento cada. Amanda e Natacha caminharam, as criaturas a darem-lhes passagem, por ruas estreitas, e chegaram ao outro lado da cidade, e caminharam pelas ruas.

Entreolharam-se Amanda e Natacha, maravilhadas e assustadas. Haviam presumido, enquanto aproximavam-se da cidade, que chegariam à uma megalópole; depararam-se, no entanto, com uma cidade minúscula, que não tinha nem mil habitantes. Detiveram-se no centro da cidade, onde havia um orifício no solo, por onde saíam e entravam criaturas estranhas, todas idênticas. Amanda disse que pelo orifício elas Amanda e Natacha, poderiam sair da cidade. Natacha disse que não sabia onde sairiam, e perguntou para Amanda e para si mesma que teriam de sair de lá, mas não sabiam como; além disso, elas teriam de se retirar daquele planeta. Não tinham outra alternativa, ou se arriscavam por aquele orifício, ou viveriam naquele mundo indiferente à presença delas.

Pularam, abraçadas, dentro do orifício. Não desejavam saírem, cada uma delas, em um lugar. Envolveu-as a escuridão. Os corações a baterem acelerados, os corpos trêmulos, a respiração ofegante, choraram, imaginando que a vida delas dissipava-se. Estreitaram-se, num abraço apertado. Encerrada a travessia pelo orifício, apenas um corpo surgiu; não era nem o de Amanda, nem o de Natacha. Era um corpo de mulher, e dentro dele havia duas mentes, a de Amanda e a de Natacha. Um corpo, duas mentes. Amanda e Natacha dialogavam, confusas, sem saberem o que lhes ocorrera. Transcorreram-se vários minutos antes de elas perceberem que habitavam um corpo, que resultou da fusão dos corpos delas. Fundiram-se os corpos; as mentes, não.

De repente, o corpo atravessou uma parede escura, e chegou ao Viajante Espaço-Temporal.

– A nave – disse Natacha.

– Natacha, nós permanecemos dentro do mesmo corpo – comentou Amanda.

Amanda-Natacha foi até o Viajante Espaço-Temporal. Perguntavam-se cada uma para si mesma e uma para a outra durante quanto tempo compartilhariam o mesmo corpo.

– Quando nos retirarmos deste planeta – presumiu Amanda -, recuperaremos, eu, o meu corpo, tu, o teu.

Amanda-Natacha entrou na nave, e acionou os comandos, e rumou à Terra. Na Terra, do veículo retirou-se uma mulher, Amanda-Natacha.

*

Amanda-Natacha, que se apresentou como Amanda, mostrou o disco, no qual havia gravadas cenas da viagem, para outros cientistas, que lhe indagaram porque ela mudou de aparência. Amanda disse que o planeta provocara-lhe mudanças no seu aspecto físico. Perguntaram-lhe de Natacha. Com as mãos ao rosto, Amanda chorou convulsivamente. Olharam-la, enternecidos. Dias depois, celebraram o enterro simbólico de Natacha. Amanda relatou a sua aventura e de Natacha para platéias de todo o mundo. Todas as leis da física, da química, da biologia os cientistas as reconsideraram à luz das imagens da viagem de Amanda e Natacha ao planeja Djidhikalji.

Nas viagens subseqüentes do Viajante Espaço-Temporal, Amanda-Natacha não foi a Djidhikalji, planeta que, acreditavam Amanda e Natacha, havia desaparecido, pois dias depois de seu regresso à Terra, elas programaram o Viajante Espaço-Temporal com as coordenadas de Djidhikaji, e não o encontraram. Ou o planeta desaparecera, ou deixara de existir, ou, então, se vivo, dotado de consciência, deslocara-se para outra galáxia, ou para outro universo, ou para outra dimensão, para que os humanos não o encontrassem.