Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

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Ivã, o Terrível

Ele era um homem incomum, rebelde, encrenqueiro e desajustado. Viveu vinte e dois anos. Nasceu no dia 17 de novembro de 1993, e morreu no último dia vinte e dois. Uma perda lamentável. No velório, choraram sua mãe, seu pai, seu irmão – o gênio, o cérebro, futuro Einstein brasileiro, porventura o novo Einstein planetário – sua irmã – a primogênita, a Gustave Rodin, a Michelângelo, a Leonardo da Vinci da família, talvez do Brasil – familiares e amigos. Os familiares receberam as condolências, algumas sinceras; muitas polidas, por respeito e consideração à família; e não foram poucas as fingidas; e houve quem, insensível, não dissimulou a sua indiferença e insensibilidade, e desafeição ao falecido.

– Ele teve o que mereceu – comentou um homem, que aparentava quarenta anos, às pessoas ao seu redor. – Sempre se arriscou em aventuras amalucadas. Não nasceu para viver muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, era previsível, morreria em uma das suas aventuras arriscadas. – Depois, ofereceu as suas condolências aos familiares do falecido, beijou o rosto da mãe dele, e abraçou-a. Tal homem ignorava a causa da morte do homem de quem falava com tanta insensibilidade.

De quem estou a tratar, afinal? À minha mão uma edição do jornal de anteontem, que traz o obituário do homem que tão imprevistamente morreu; sua morte, uma fatalidade. Quem imaginaria que ele teria tal morte!? Os leitores do jornal sabem de quem trato aqui. De um amigo. O início da nossa amizade deu-se no jardim de infância. Tempos bons aqueles. Nostálgico, rememoro aquela época, e suspiro de saudades. Nossos atos, para nós, eram destituídos de conseqüências, brincadeiras inofensivas. Quem diz que o meu querido amigo, falecido no dia 22 último, e eu não tínhamos consciência dos nossos atos não tem consciência do que diz. As crianças não têm consciência dos seus atos, dizem. Se tal afirmação procedesse, todas as crianças escalariam os muros das suas casas, e se lançariam, e de cabeça, no chão, e as que vivem em um apartamento do quinto andar saltariam para a calçada, vinte metros abaixo; se fossem desprovidas da consciência de seus atos, jamais recusariam sugestões e conselhos de adultos inconseqüentes, que as estimulam a arriscarem-se em atividades perigosas; em muitos casos, as crianças se machucariam seriamente se acolhessem as “sensatas” sugestões de “experientes e prudentes” adultos; mas elas, sábias, as rejeitam, terminantemente.

Agora, evocando aquela época, a da minha infância, que não se perdeu nos escaninhos da minha memória, mas esvai-se-me, lentamente, com a passagem do tempo, o faço, nostálgico, sorriso a estampar-me, não o rosto, mas o espírito, que se diverte, repleto de saudades.

Minha vida é atribulada. Tenho de encará-la. Intimida-me as minhas lembranças. Não quero falar de mim. Não foi para falar de mim que principiei os registros destas memórias, que se me esvaem; foi para falar do amigo que perdi que debrucei-me sobre a folha de papel em branco à minha frente, a poucos centímetros de meus olhos e ao alcance de minhas mãos. Caneta em punho, registro fragmentos de episódios da vida do meu amigo falecido.

Principio a redação da biografia de uma pessoa que viveu intensamente a vida. Ela atendia pelo nome de Ivã, e pelo codinome O Terrível. Seu patronímico; seu apelido. Ivã, o Terrível. Sim, ele era terrível. Ele era o Ivã. Ele era o Terrível. A sua reputação fazia jus ao seu nome. Ivã, o Terrível. Se os pais dele soubessem que tal nome daria ao primogênito deles um temperamento tão, como diz a mãe dele, esquentado, com tal nome jamais o batizariam. Estou a pensar bobagens. Ivã é um nome, apenas um nome. Dona Elizabete! Seu Roberto! Eu gostaria de poder abraçá-los, oferecer-lhes as minhas condolências, e também aos queridos Eduardo, Dudu, o Einstein, e Beatriz, Bia, a Leonardo da Vinci. Hoje tive a notícia do falecimento e do enterro de Ivã, meu amigo.

No jardim de infância principiamos Ivã e eu uma amizade, que perdurou até a morte dele, embora não nos tenhamos visto nos dezoito meses que a antecederam. Falávamo-nos, no entanto, via telefone e via internet. Podíamos nos ouvir, nos ver – o meu monitor não é dos melhores, e eu não tinha imagem nítida do Ivã.

Recordo-me do dia em que Ivã e eu nos conhecemos. O princípio da nossa história não foi alvissareiro. Como o episódio foi-me de grande impacto, recordo-me dele com clareza. Penetrou-me, profundamente, no cérebro. Há psicológicos que, porque leram apostilas, na faculdade, e repetem as patacoadas que leram, e as que ouviram, nas salas de aula, dos professores, autoridades demiúrgicas, declaram que as pessoas, involuntariamente, ocultam de si mesmas os episódios tristes, ou impactantes, que lhes amedrontaram, no fundo da mente (eles nunca se referem à alma, ou ao espírito; falam de ego, id, superego, e outros vocábulos que inventam para uso deles, atribuindo-se, ao usá-los, inteligência sapiencial), e de lá não os retiram – e tais episódios as influenciam por toda a vida, e unicamente sessões de hipnotismo e outros rituais inusitados podem fazê-los emergir, e se revelarem, para que os psicólogos, e não as pessoas que a ales recorrem, os interpretem e compreendam a influência deles no comportamento delas. Considerando os capítulos da minha vida, esta tese não procede, pois lembro-me dos eventos que me fizeram sofrer, e não me recordo dos dias rotineiros que vivi, durante os quais não houve um evento incomum, impactante. Para encerrar esta curta digressão, declaro que o preâmbulo da amizade minha e do Ivã não me causou sofrimento, mas foi-me de grande impacto, e quando eu e Ivã evocávamos a nossa infância, e eu relatava aquele dia em que nos conhecemos, ele dizia que não se lembrava, confirmando a minha tese: a de que eventos de grande impacto, na vida de uma pessoa, gravam-se na mente dela, e não ficam ocultas no seu subconsciente. E por que, então, alguém me perguntaria, tal episódio Ivã não o recordava? A resposta encontra-se nas linhas seguintes, mas antecipo-me, e dou-lha: O episódio não provocou grande impacto em Ivã; provocou-o em mim; daí eu lembrar-me dele, e o Ivã, não.

Foi no jardim-de-infância, à tarde. Na Escola de Educação Infantil Reino das Águas Claras. Tímido, sai do carro, e detive-me diante da escola. Petrifiquei-me. Olhei, de um lado para o outro, observando as crianças e os adultos que as acompanhavam. As crianças, todas elas, com o uniforme da escola, que trazia, na camisa, a estampa de peixinhos, da Emília e do Visconde de Sabugosa, e, na calça, a da Dona Benta. Ouvi choros, recordo-me. Uma menina, morena, de cabelos ondulados, agarrada às pernas de sua mãe, chorava aos cântaros. Lembro-me de seu olhar suplicante, de seu rosto contraído, de seus lábios trêmulos. Minha mãe, enfim, segurou-me a mão esquerda, e encaminhamo-nos à escola. Passei pelo enquadramento da porta, e, ao mesmo tempo fascinado, deslumbrado e assustado, olhos arregalados, segurando a mão de minha mãe, detive-me, e, os olhos a circunvagarem pelo pátio, vi um parque de diversões repleto de crianças, que promoviam balbúrdia infernal.

Andamos minha mãe e eu. Em um certo momento, ela soltou-me a mão, para cumprimentar uma sua amiga, e eu dei dois, ou três, passos para a frente, tropecei, e cai sobre um menino franzino, que, curvado, à minha frente, amarrava o cadarço do tênis. Levantei-me, assustado, e fite-o. Ele levantou-se, rapidamente, e voltou-se para mim, furioso, o braço erguido, o punho cerrado, pronto para desferir-me um soco. Tremi, olhos fixos nele. Eu era mais alto do que ele, mais encorpado; causaram-me, dele, profunda impressão o olhar, ameaçador, o cenho, carregado, e a agressividade, que se lhe transparecia no rosto.

– Ivã, não bata no menino. Tadinho dele – (Tadinho de mim? Eu era maior que o terrível, endiabrado Ivã. Quem o censurou foi a mãe dele, mulher alta, magra, de cabelos curtos). – Não faça mal para o menino. Deixe-o em paz.

– Ele bateu em mim – esbravejou Ivã, a devorar-me com um olhar que intimidou-me.

– Foi sem querer – disse-lhe a mãe.

– Não foi, não – rosnou Ivã.

– Ele tropeçou, Ivã. Foi sem querer… Não foi de propósito – persistiu dona Elizabete (Dona Elizabete é a mãe do Ivã).

– Foi, sim – replicou Ivã, a dardejar-me olhar de fúria. – Vou dar um murro nele. Na cara. Vou quebrar o nariz dele. E vou dar um chute nele.

– Não faça isso, Ivã – censurou-o dona Elizabete, o tom de voz elevado, emprestando-lhe autoridade. – Não seja malvado. Você é um menino bonzinho.

– Não sou, não. Sou mal. Sou Lex Luthor.

Hoje, ao evocar esta cena, divirto-me. Quando Ivã disse que ele era o Lex Luthor, assustei-me. Ora, como queriam que eu me comportasse? Eu sabia, aos meus seis anos, quem era Lex Luthor. Até o Super-Homem tinha medo dele (Se Ivã tivesse dito que era ou o Coringa, ou o Duende Verde, eu não sentiria tanto medo).

Repreendeu-o dona Elizabete. Fitou-me Ivã, emburrado, como a querer moer-me de pancadas. Não sei se ele avançaria contra eu, e, se nos engalfinhássemos, eu o sobrepujaria. Eu era maior do que ele, e mais forte, mas ele era mais agressivo do que eu, estava muito irritado, e era dotado de temperamento briguento, que anularia, era certo, a vantagem que ma concederia o porte meu superior ao dele. Fica no campo das especulações o desenlace de uma luta entre Ivã e eu. Não brigamos, naquele dia. Não me recordo se, durante aquele dia, estranhamo-nos, no jardim-de-infância, um jardim com os seus ogros, monstros, ciclopes, bruxos, quimeras e alimárias, e princesas e rainhas, e príncipes e reis, e heróis e guerreiros. O mundo infantil é encantador, e assustador também.

Quem poderia prever que com tais preliminares seríamos amigos eu e Ivã? E quem adivinharia que a nossa amizade seria duradoura? Se dona Elizabete não contivesse o Ivã, eu e ele nos engalfinharíamos, naquele mesmo dia, e a nossa inimizade seria eterna. Talvez. Quem sabe?

Transcorreram-se os dias.

Não sei identificar quais fenômenos naturais e sobrenaturais aproximaram-me de Ivã, e ele de mim. Éramos de temperamentos tão distintos! Não éramos unha e carne. Éramos água e óleo; eu, a água; ele, o óleo. E nos entendemos. Há coisas que só a filosofia explica, ou Freud explica, ou Shakespeare explica, ou Cervantes, ou Conan Doyle, ou Daniel Defoe. Como entenderam-se Dom Quixote e Sancho Pança? Como entenderam-se Sherlock Holmes e Watson? Como entenderam-se Robinson Crusoé e Sexta-feira? Há mais entre o céu e a terra…

Brincávamos, no jardim-de-infância, todos os dias, Ivã e eu. E Paulo e Denise, meu pai e minha mãe, e Roberto e Elizabete, pai e mãe de Ivã, notaram a amizade. E eles principiaram amizades, que se perpetuam.

Eu frequentava a casa de Ivã; e ele a minha.

E assim, com alguns desentendimentos, com brigas corpo-a-corpo, alimentamos Ivã e eu a nossa amizade.

Ele era muito briguento, mas franzino; às vezes, apanhava algumas surras, e, depois, urdia, em conluio, ou comigo, ou com outros meninos, a vingança. Eu nunca fugia da briga. Ora, Ivã era meu amigo. Para que existem os amigos!? Para se apoiarem nas horas difíceis. E por quantas horas difíceis Ivã passou!

Estudamos o primário na escola Mário Bulcão Giudice. A professora de matemática, Bianca, vesga, era o nosso alvo de chacotas. Meu Deus! Ivã não lhe dava sossego. Bianca, o Monstro Vesgo, chamava-a Ivã. O defeito ocular foi a maldição dela. Que Deus a guarde. Ela morreu, no ano passado, em junho, de ataque cardíaco fulminante. Devo, para ser fiel aos acontecimentos, dizer que todos os professores eram alvos da maldade de Ivã. Ele não os perdoava. Para ele, os professores o impediam de andar de skate, de bicicleta, jogar vôlei, e brigar com outros meninos, e, também, com algumas meninas, tão briguentas quanto ele. E Júlia, com quem ele discutia, na sala-de-aula, todos os dias, e puxava-lhe os cabelos, e ela o unhava, e durante o recreio engalfinhavam-se não raras vezes, e provocavam-se, e corriam um em perseguição ao outro quase que todos os dias, era a sua amiga inseparável. Gostavam-se um do outro, e muito, e discutiam, e brigavam, e quando um deles não ia à escola, o outro sentia-lhe a falta. Há mais entre o céu…

Rememoro inúmeros episódios sucedidos no capítulo jardim-de-infância. Se eu os relatasse com os pormenores dos quais me recordo, debruçar-me-ia sobre o papel, dez lápis sobre a mesa, uma pilha de folhas de sulfite ao lado, e escreveria, durante dez horas por dia, pelos próximos dois anos, um romance que superaria em extensão a obra-prima de Marcel Proust. Como me concederam apenas algumas linhas, terei de me concentrar naqueles episódios da vida de Ivã, os quais, segundo eu, são os mais significativos. Escrevi que eu teria de ser sucinto; risquei este trecho do meu testemunho, pois sucinto não serei; e tampouco serei prolixo. A leitura deste texto não exigirá muito tempo do leitor, e tampouco o enfadará. Desejo, com palavras precisas, relatar apenas os eventos memoráveis, que são muitos; não poderei, entretanto, tratar de todos eles. Tenho de selecionar dentre todos os episódios os mais significativos. É um trabalho exaustivo, penoso, o de resumir a vida de personagem de biografia tão rica.

Com um salto no tempo, escrevo: Aos onze anos, Ivã transferiu-se, com a sua família, para o bairro Campo Alegre, e seus pais matricularam-no na escola João Pedro Cardoso. Conservamos a amizade Ivã e eu. Não morávamos no mesmo bairro, e não estudávamos na mesma escola, mas conversávamos quase que todos os dias – quando eu não ia à casa dele, ele ia à minha casa.

Na idade de doze anos, Ivã pediu Valquíria em namoro, e disse-me, o namorador precoce, certo dia, quando me inteirou do seu namoro com ela, constrangendo-me:

– Arrume uma namorada para você. Por que você ficou vermelho, idiota? Bestão – e deu-me um tapa na testa. Era esse o seu jeito de ser amigável. Eu não me incomodava com as suas atitudes bruscas, os seus rompantes de bravura.

Foi naquele dia que ele me confidenciou os seus desejos íntimos. Falou-me, lascivo e brincalhão, de Valquíria, e do beijo que lhe dera. E na boca! E de mais de cinco minutos! Acreditei na história. Era bravata de Ivã, eu soube, dias depois, contou-me a Valquíria. Foi apenas um selinho. Desejei perguntar para a Valquíria o que ela sentira; ela, que gosta de falar, disse-me, antecipando-se-me, que o beijo tinha sido esquisito, sem graça.

Valquíria e Ivã namoraram durante seis meses. Ele rompeu o namoro com ela, e principiou namoro com a Verônica. Foi um rompimento unilateral, brusco e seco, vi com meus olhos e ouvi com meus ouvidos. Eis as palavras de Ivã:

– Val, nosso namoro acabou. Não quero namorar com você. Tchau. Vou para a casa da Verônica – virou-lhe as costas, dela afastou-se, e rumou à casa da Verônica.

Valquíria ouviu-o, boquiaberta. Vi-lhe os olhos dela a encherem-se de lágrimas. Não suportei olhá-la… Virei-me, e dela afastei-me, entristecido, constrangido.

Dois meses depois, Ivã rompeu, via telefone, o namoro com a Verônica. Eu não estava presente quando Ivã teve o atrevimento de romper o namoro com ela do modo que o fez. Ouvi comentários. Disseram-me que Ivã foi terrível, cruel. E por que ele rompeu o seu namoro com a Verônica?

– A Verônica é muito chata – disse-me Ivã. – É quadrada.

– Ela é bonita – comentei, constrangido. – É inteligente. De boa família…

– E daí? – interrompeu-me Ivã, bruscamente. – Qual homem deseja mulher bonita, inteligente e de boa família? A Verônica é uma santa! – disse, sarcástico. – Verônica, a santa… Que chatice… – ele não falou dos seus pensamentos, dos seus sentimentos. Eu o conhecia, e bem. Verônica não lhe cedera aos impulsos.

Um mês depois, Ivã principiou namoro com a Veruska.

– Você só namora garotas com nomes que começam com “v”- dizia Beatriz, irmã do Ivã. – Você é viciado na letra “v”. Quais garotas você namorará, após dar fim ao namoro com a Veruska, daqui uma semana, ou daqui um mês? A Vitória, a Vanessa, a Vera, a Valeska, a Valéria, a Vilma, a Valentina, a Vicentina, a Veridiana e a Virgínia?

Enveredávamos pela puberdade, e pela juventude. Sensações novas, garotas, hormônios…

Para Ivã, a juventude foi-lhe difícil. O seu temperamento ardoroso, agitado, impaciente e contestador, não raras vezes sem razão, fê-lo desentender-se com pessoas que lhe queriam bem, e trouxe-lhe inúmeros contratempos e dissabores, os quais evitaria se não fosse, como dizia seu pai, tão cabeça dura. Além disso, arriscava-se em aventuras perigosas e esportes radicais.

– Quero sentir a adrenalina entupindo-me a cabeça – sentenciava Ivã, ao dar início à uma aventura, que nem sempre encerrava-se bem.

Se Ivã vivesse, na Grécia, mil anos antes de Cristo, ou em era anterior, seria ele um êmulo de Perseu, Teseu, Hércules, Odisseu e Aquiles. Conquanto não fosse nem um semi-deus, nem um herói, arrostaria vagalhões, mares revoltos, tempestades diluvianas; e apresentar-se-ia para a guerra contra os troianos, ou se alistaria no exército troiano e lutaria contra os gregos. E iria ao Peloponeso, às Termópilas, à Maratona. E arrostaria o Ciclope e o Minotauro. E singraria os mares a bordo do Argos. E iria em busca do Velocino de Ouro. Se vivesse na era mongol, combateria Genghis Khan, ou, o que seria mais provável, aliado dos mongóis, ajudaria Genghis Khan a devastar a Europa. Se vivesse na era heróica da Grã-Bretanha, seria ele um dos cavaleiros da Távola Redonda. Se vivesse, na Espanha, no início do século XVII, acompanharia Dom Quixote em suas perambulações disparatadas. Se vivesse, no século XIX, nos Estados Unidos, iria à caça de Moby Dick. Ivã, em qualquer outra época, lançar-se-ia em aventuras inusitadas, almejando a realização de façanhas extraordinárias e proezas épicas. Uma coisa era certa: ele jamais se enfurnaria em uma biblioteca.

Ivã falava muitas gírias e muitos palavrões. Enraivecido, irritado, ele chutava o balde, distribuía socos, pontapés e obscenidades para todas as pessoas que se encontravam ao alcance de suas mãos e de seus pés, e de seu campo visual. Ao tecer comentários sobre qualquer assunto, disparava exclamações explosivas entremeadas de palavrões. E dá-lhe palavrões! Palavrões eram-lhe como o sangue que lhe corria nas veias.

E o tempo passou.

Os esportes prediletos de Ivã: skate, canoagem, montanhismo, balonismo, paraquedismo e surf. Esportes autênticos, dizia Ivã, que também dedicava-se às suas paixões esportivas clandestinas: rachas com carros e motos, na via expressa. Antes de ele se dedicar aos rachas, nos finais-de-semana, à noite, ele teve de aprender a dirigir, e aprendeu, com seu primo, Rogério, filho de sua tia materna, Maria Vitória. Ambos, no carro do pai de Rogério, Vinicius (Uma nota: O pai e a mãe de Rogério são divorciados), circulavam, pelas ruas dos bairros periféricos, para fugir dos meganhas, diziam eles, desdenhosos e debochados, ao referirem-se aos policiais, ecoando vozes soturnas, cínicas, de intelectuais anarquistas e de transgressores.

Deu-se em um sábado um episódio, que não posso sonegar ao mundo, e que narrarei nas linhas que se seguem à esta. Não me estenderei e não serei superficial. Deter-me-ei em tal episódio, e dedicar-me-ei à narração durante algumas linhas.

Em um sábado, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, Ivã e Rogério, na ausência dos pais de Ivã, decidiram dar um rolê, não no carro do pai de Rogério, Vinicius, mas no jeep de seu Roberto, sem o consentimento deste – seu Roberto seria inteirado, não muitas horas depois, da aventura de seu filho e de seu sobrinho.

Ivã e Rogério foram à garagem, viram o jeep, e aflorou-lhes à mente uma idéia brilhante: dirigir o jeep. Onde estava a chave? Ivã sabia onde seu pai a guardava: Na primeira gaveta do criado-mudo. Sem hesitar, foi ao quarto de seus pais, abriu a gaveta do criado-mudo, pegou a chave do jeep, regressou à varanda, e entregou à chave a Rogério. Minutos depois, estavam, na rua, Rogério ao volante do jeep, e Ivã, agitado e impaciente, querendo dirigir o jeep, contrariado, esperando Rogério ceder-lhe a direção. E Rogério, tão animado, tão entusiasmado, não lha cedia. Havia muito tempo ele sonhava em dirigir o jeep do seu tio; agora que o conseguiu, não o entregaria para ninguém. Ivã, no entanto, persistente, contrariado, reclamou, e Rogério irritou-se, e prometeu ceder-lhe o volante, não nas ruas do centro da cidade, mas no bairro do Campo Feliz. E Ivã cobrou-lhe a promessa, irritantemente, exasperando Rogério, que, enraivecido, ceder-lhe-ia o volante, mas o faria ao seu modo, com a concordância de Ivã, que o achou excitantemente perigoso.

Rogério, então, ao volante do jeep, rumou ao bairro Campo Feliz, e à ladeira Getúlio Vargas.

– Ivã, prepare-se – disse Rogério, assim que avistou o princípio da ladeira, e adiante deles o vazio. – Estamos quase lá. Vou pular para o banco de trás, e você tomará o volante. Prepare-se.

Ivã não teve tempo de preparar-se. Rogério, ao encerrar a frase, saltou para o banco de trás, e Ivã, açodado e desajeitado, sentou-se, no banco do motorista, praguejando, olhos arregalados, proferindo palavrões como uma metralhadora, o jeep a descer a ladeira, descontrolado, e Rogério a gargalhar, divertindo-se com o medo estampado no rosto de seu primo, e a gritar:

– Segure o volante, idiota! Segure o volante, imbecil! Segure o volante, besta!

Ivã a muito custo segurou o volante, que parecia dotado de vontade própria e esquivava-se-lhe das mãos, e Rogério a gritar:

– Segure o volante! Pise no freio! Pise no freio! Olhe o poste! Olhe o poste! – e o jeep a ziguezaguear de um lado para o outro, e a descer a ladeira.

Confundiam-se os gritos de Rogério e os de Ivã.

Controlado o jeep, Ivã freou, e, esbravejando, disparou uma saraivada de palavrões contra Rogério – que gargalhava – e, punhos cerrados, ameaçando socá-lo até reduzi-lo a pó, subiu, incontinenti, no banco traseiro, e lançou-se contra Rogério, que, gargalhando, desceu do jeep, e Ivã foi-lhe no encalço ladeira acima. A perseguição estendeu-se, pela rua transversal, por duzentos metros. Ao desistir da perseguição, Ivã iniciou os passos de regresso ao jeep. Ao chegar à esquina, deteve-se, e gritou:

– Rogério, o jeep sumiu!

Rogério não acreditou no que lhe disse Ivã, pois suspeitava que ele queria engabelá-lo para dele aproximar-se.

– Idiota, você acha que irei engolir a mentira? – perguntou-lhe Rogério, a rir.

– Não é mentira, não, Rogério – disse Ivã, voltando-se para Rogério, distante dele uns cinco metros. – O jeep sumiu.

Rogério sabia que Ivã, péssimo ator, dizia-lhe a verdade; acelerou os passos; chegando-se a Ivã, olhou para a ladeira. O jeep não estava onde Ivã o deixara. E agora, o que fariam? Foram até onde o jeep havia sido deixado, à procura de um sinal que lhes indicasse aonde o jeep teria ido.

– O jeep foi abduzido por alienígenas – comentou Rogério. Censurou-o Ivã.

– Roubaram o jeep – sentenciou Ivã. – Agora, sim, estamos ferrados.

– Assinamos a nossa sentença de morte – sentenciou Rogério.

– O que faremos?

– Iremos à delegacia.

E rumaram à delegacia.

Quarenta minutos depois, principiaram o depoimento, alterando os papéis que protagonizaram. Rogério disse, e Ivã secundou-o, que ele, Rogério, dirigia o jeep, e Ivã, provocando-o, dizendo-lhe palavrões, ofendendo-o porque ele não lhe cedia o volante, irritou-o a ponto de, em um certo momento, levá-lo a, nervoso, frear o jeep e ameaçar dar em Ivã uma surra, e do jeep Ivã desceu, no que foi por Rogério seguido. E deu Rogério inicio à perseguição a ele. Correram uns duzentos metros, e, regressando à ladeira, viram, para surpresa deles, que lá o jeep não estava. O policial que colheu o depoimento ficou com uma pulga atrás da orelha: suspeitava que Rogério e Ivã haviam vendido o jeep e inventaram aquela história sem pé nem cabeça. O interrogatório de Ivã e Rogério não havia se encerrado quando na delegacia entraram seu Roberto, pai de Ivã, e Marcos, irmão de seu Roberto, e com eles um homem algemado ladeado por dois policiais. Seu Roberto, ao ver Ivã e Rogério, surpreendeu-se, e foi até eles. E nos trinta minutos seguintes foi inteirado de como se deu o roubo do jeep pelo ladrão.

– E eu – disse seu Roberto, na delegacia, na frente de Ivã, Rogério, Marcos e do policial que colhera os depoimentos de Ivã e Rogério – chamei o ladrão de mentiroso quando ele me disse que encontrou o jeep abandonado na ladeira Getúlio Vargas! O ladrão é ladrão, mas é honesto. Falou-me a verdade, o maldito! Merece ouvir de mim um pedido de desculpas. E o meu filho e o meu sobrinho… Ah! Dois vagabundos… Pegaram-me o jeep… Que foi de meu pai… A única herança que ele me deixou… E estes dois pestes…

O policial pediu-lhe moderação nas palavras, e seu Roberto, que rilhava os dentes de fúria, mordeu a língua. E Ivã e Rogério dobraram-se, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, às censuras de seu Roberto, dona Elizabete, dona Maria Vitória e seu Vinicius.

Mas como seu Roberto soube do roubo do jeep? É preciso retroceder alguns minutos para se conhecer este capítulo simultâneo à ida de Rogério e Ivã à delegacia e ao depoimento deles ao policial.

No bairro XV de Novembro, Marcos, marceneiro, em visita a um cliente, para quem levaria quatro cadeiras, ao deter-se, no semáforo, no cruzamento das ruas Gonçalves Dias e Guimarães Rosa, avistou, na rua perpendicular, parado, atrás de um carro prateado, esperando o sinal abrir, o jeep de seu Roberto, e, ao volante, um homem que ele jamais tinha visto mais gordo; ensimesmado, certo de que seu irmão não permitiria que nenhuma outra pessoa dirigisse o jeep, tirou do bolso da calça o telefone celular, e discou para ele. Enquanto o esperava atender a ligação, seguiu o jeep. Ligação atendida, inteirou seu irmão do que vira. Contataram a polícia, e Marcos seguiu o jeep, até o motorista com ele entrar em uma casa, e à casa dois policiais chegaram minutos depois, e não muito tempo depois chegou seu Roberto. E os quatro homens ouviram do ladrão a história, e nele ninguém acreditou.

Encerrado o caso, Marcos retomou o seu trabalho. O ladrão foi preso, e Ivã e Rogério, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, ouviram o sermão…

E encerro, aqui, este episódio.

Não haviam se passado três meses do episódio relatado linhas acima, Ivã empreendeu outra aventura memorável.

Certa noite, ele apossou-se da chave do carro de seu pai, e foi, com os amigos, para um racha. Com os amigos! Quero esconder a verdade? Tenho de contar a verdade: Participei desta aventura. Sou fiel aos fatos: Fui cúmplice do Ivã. Eu, ele, outros dois amigos nossos, Fernando e Cauã, participamos da sandice. Fomos irresponsáveis, inconseqüentes, estúpidos.

Dói-me o peito ao recordar aquele dia… Ivã, ao volante do carro, aos 16 anos… Onde eu estava com a cabeça quando concordei com aquela idéia estúpida? Ivã, que mal sabia dirigir, ao volante de um carro, num racha, à noite. Ele dirigiu o carro da casa de seus pais até a Via Expressa, uma rua de quase um quilômetro de extensão, onde, reunidos com outros amigos e pessoas as quais nunca havíamos visto mais gordas, os “pilotos” chegaram a um acordo quanto às regras das corridas. Seriam quatro desafios, dizíamos. Ivã participaria do terceiro. Ele assistiu aos dois primeiros desafios, impaciente, inquieto, e, antes de lhe anunciarem a participação dele no terceiro, ele já havia entrado no carro. Eu, Cauã, Fernando, e outras pessoas, antecipamo-nos aos dois participantes do desafio, e rumamos para o final da Via Expressa, onde eles teriam de executar manobras, em grande estilo, para agradar ao público, e iniciar o percurso de regresso ao ponto de partida. Não precisamos esperar muito tempo para conhecermos o encerramento do episódio, que aterrorizou-nos. Em pé sobre um carro, vi os dois carros aproximando-se, o carro preto e, metros atrás, o carro de Ivã. O carro preto deu um cavalo-de-pau, e principiou a jornada de regresso ao ponto de partida. E Ivã… Meu Deus! Ao executar o cavalo-de-pau, ele perdeu o controle do carro. Meu coração ficou a ponto de explodir. Vi o cadáver de Ivã, quando o carro deu cambalhotas. O tempo parou. Suspendi a respiração. Corremos para acudir Ivã, que perdera os sentidos. Em que enrascada nos metemos! Ivã despertou, e gritou de dor. Dele estavam quebradas as pernas, um braço, três costelas, o nariz e vários dedos, e na sua testa havia um corte. Pode-se conceber o que ocorreu nas horas seguintes, no hospital, na casa de seu Roberto e dona Elizabete. Meu pai e minha mãe, ao mesmo tempo decepcionados, irritados, preocupados, repreenderam-me, e condoeram-se de mim… Nos dias seguintes, Ivã viveu confinado à cama e à cadeira de rodas. Enfim, meses depois, recomposto, ele retomou a sua vida. Aliás, não é correto dizer que ele “retomou a sua vida”. Ele viveu um capítulo da vida dele naqueles meses de confinamento, capítulo que o desagradara, mas teve ele de resignar-se. Recomposto, sim, ele viveu a vida dele, conforme o seu temperamento, a vida que desejava para si, uma vida de prazeres e dores. E ele não se acertou, como muitos previram, contrariando o desejo de sua mãe. Ivã era o Ivã, o Terrível. E jamais deixaria de sê-lo. Jamais.

Ivã, diziam dele, “não tomou jeito”, “não ganhou juízo”. A experiência desagradável fê-lo mais inconsequente, mais irresponsável, conquanto mais amadurecido e cauteloso. Quê!? Se aprendêssemos com a nossa própria experiência, seríamos sábios, impecáveis, infalíveis, antes dos quarenta anos de idade.

Recuperado, o que fez Ivã? Encerrado o seu namoro com Veruska, namorou Vanessa e Vera. Um ano depois do acidente de carro que quase o matou, ele foi para Minas Gerais. Ao pular de pára-quedas, caiu de mal jeito, e quebrou as pernas. E em quantas brigas envolveu-se Ivã? E em quantas brigas ele me envolveu? Ele se desentendeu com seu pai e sua mãe, e foi, em duas ocasiões, morar na casa de seus avós paternos. Da escola ele foi expulso duas vezes. Feriu-se, várias vezes, ao executar manobras de skate. Fraturou ossos das pernas e dos braços, três vezes, recordo-me, uma vez, na pista de skate da cidade; outra, na rua, ao manobrar para executar uma curva; e a outra, na praça Carlos Chagas.

– Ivã, não brinque com o skate – exortavam-no sua mãe, seu pai, seus avós, seus tios. Da família, apenas os primos de temperamento similar ao dele o apoiavam.

– Sou dono do meu nariz – replicava-lhes Ivã. – Não tenho de ouvir baboseiras.

E Ivã quase morreu afogado, em Ubatuba, na Praia Grande. E em outra ocasião, bêbado, ao volante de um carro que um amigo emprestara-lhe, colidiu contra um poste, e quebrou o nariz.

Paralelamente aos namoros sérios, oficiais, Ivã aventurava-se com mulheres com iniciais em A, B, C, D e todas as outras letras do abecedário.

Um dia, chegou aos ouvidos de dona Elizabete notícias das aventuras de Ivã com mulheres ditas fáceis. A conduta dele ia contra todos os princípios dela. E dona Elizabete falou a respeito com Ivã, que lhe disse que não se preocupasse: ele sabia cuidar de si mesmo. Sabia… Naquele mesmo dia, dois policiais, à uma hora da madrugada, premiram a campainha da casa de seu Roberto e dona Elizabete. Seu Roberto atendeu à porta. Os policiais pediram-lhe que os acompanhasse até à delegacia. Ivã envolvera-se em uma briga. Seu estado, deplorável. Trazia, quebrado, o nariz, roxo, o olho esquerdo, e vários hematomas no corpo. Eu tentara apartar os briguentos. Conto a história pela metade. Tenho que retroceder algumas horas. Desde a manhã daquele dia, Ivã dizia que iria cobrir o Murilo de socos e pontapés, e quebrar-lhe-ia o nariz, os braços, as pernas, e furar-lhe-ia os olhos, e rachar-lhe-ia a cabeça, no meio, com uma barra de ferro, e abrir-lhe-ia o crânio, e arrancar-lhe-ia o cérebro, e o jogaria de alimento para o Mancada, um vira-latas medroso, lerdo e desengonçado de uma orelha quebrada que costumava andar com apenas três pés no chão, conservando uma perna erguida.

– Dizem que cérebro tem bastante mocotó – dizia Ivã, naquele dia -, que é bom pra saúde. Tem proteínas, vitaminas, fibras e carboidratos. O cérebro do Murilo, se não estiver estragado, fará bem para o Mancada.

À noite, nos bares, bebeu Ivã cerveja, caipirinha, whisky e cachaça. E no bar do João Portugal, viu, ao passar pelo enquadramento da porta, Murilo e dois amigos dele, e não hesitou: foi até ele, a rosnar, empurrou-o, e encaixou-lhe um soco no nariz.

E atracaram-se Ivã e Murilo.

Durante o dia, eu fizera de tudo, e mais um pouco, para impedir que Ivã encontrasse Murilo, e desdobrei-me para acalmá-lo e fazê-lo esquecer Murilo – não me lembro o que Murilo lhe fizera que o irritara tanto.

Enquanto Ivã desancava Murilo, não intervi na briga; mas Ivã estava embriagado, e Murilo, após conseguir recompor-se da surpresa do ataque que Ivã lhe desferira, sobrepujou-o, e foi então que decidi, para meu prejuízo, apartar os briguentos. A minha interferência foi desastrada e desastrosa. O Ivã acertou-me um soco no nariz. Ouvi gargalhadas. Vi Ivã, encostado à parede, e Murilo a esmurrá-lo, levantei-me, fui até eles, agarrei Murilo, e afastei-o de Ivã. Neste momento, alguém empurrou-me e deu-me um pontapé. A partir daí, o caos.

Quatro policiais chegaram ao bar do João Portugal não sei quantos minutos depois, e encaminharam-nos, eu, Ivã, Murilo, e mais uns três ou quatro homens, não me recordo, à delegacia. A sequência deste episódio eu a registrei, em poucas palavras, linhas acima. Dona Elizabete, seu Roberto, meu pai e minha mãe repreenderam-nos durante horas. Foi uma lição inesquecível. E o que Ivã aprendeu com ela? Nada. A lição entrou-lhe por uma orelha, e saiu-lhe pela outra. No dia seguinte, domingo, ele gargalhava ao narrar-nos o episódio.

Contra todas as expectativas, Ivã, concluído o colegial, decidiu cursar advocacia. Alegou querer melhorar o Brasil, defender a Justiça.

– Tenho de me arrumar na vida – disse, certo dia, durante o almoço. – Tenho dezoito anos. A Bia, a Leonarda da Vinci, está com o futuro feito; o Dudu, o crânio da família, é o Einstein redivivo. E eu? O que fiz da minha vida? Arruaças, brigas, mentiras, traições. Viverei a mentir e a brigar durante quanto tempo mais? Além deste maluco – e deu-me um tapa na nuca -, quem mais me atura? Tenho de me arrumar na vida.

Para surpresa de todos, Ivã aplicou-se nos estudos, namorou Valeska, arrumou emprego, numa loja de telefones, de vendedor, para custear os estudos, e prestou o vestibular. Classificou-se entre os melhores. No ano seguinte, ele e Valeska rumaram para São Paulo, e lá instalaram-se em um apartamento, que alugaram com o dinheiro obtido do trabalho dela e dele. Sagaz, versátil, inteligente, de raciocínio rápido, muito acima da média, Ivã foi bem-sucedido. A sua ascensão, meteórica. Admiravam-no, e respeitavam-no. Nas férias, ia às aventuras: Montanhismo, paraquedismo, balonismo, esquiagem. Viajou para Pernambuco, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, para a África, a Ásia e à Europa. Foi, duas vezes, aos Estados Unidos. Escalou os Alpes, o Himalaia, os Andes.

– Ivã, você se arrisca demais. – comentou sua mãe, em diversas ocasiões. Ivã tranqüilizava-a com palavras carinhosas, inteirando-a dos cuidados que tomava, sob orientações de instrutores, na véspera e durante as aventuras, arriscadas, ele sabia, e emocionantes.

Há quatro dias, Ivã veio em visita à sua família e aos seus amigos. Há três dias, eu, meus pais, meu irmão, minhas irmãs, a minha cunhada, meu cunhado e meu sobrinho, e Ivã, Valeska, seu Roberto, dona Elizabete, Eduardo e Beatriz, almoçamos, na minha casa. Conversamos e brincamos das dez horas às vinte horas.

Anteontem, pela manhã, Ivã, descontraído, retirou-se, de bicicleta, da casa de seus pais. Ao chegar à esquina, duas crianças, a brincar de pega-pega, atravessaram, correndo, a rua, à frente de Ivã, que freou a bicicleta, perdeu o equilíbrio, caiu, e bateu com a cabeça num paralelepípedo. E morreu.

Que a alma de Ivã descanse em paz.