Sob o domínio do desejo

Ludmila, jovem de olhar meigo e sorriso encantador, é uma das mulheres mais sedutoras que já pisou na face da Terra. Para seduzir o homem que deseja, ela não emprega nenhum artifício. Ela nasceu para seduzir. Sua beleza deslumbrante, seu sorriso cativante, seu corpo vistoso, seu olhar divino e seu pudor angelical seduzem todos os homens. Há mulheres mais belas e mais atraentes; nenhuma é tão sedutora.

Os homens, ao admirá-la, perdem a cabeça. As mulheres, principalmente as bonitas, invejam-na, e esforçam-se para entender a atração que ela exerce nos homens, e dela copiam as roupas, o penteado, o perfume, o timbre da voz, o sorriso, o andar, o olhar, mas não conseguem copiar-lhe o poder de sedução; algo, na postura de Ludmila, lhes escapa.

Certo dia, Ludmila conheceu um homem que resistiu ao seu poder de sedução, aos seus encantos.

Quem é o homem que resistiu aos encantos de Ludmila?

A história teve início numa quente manhã de segunda-feira.

Ludmila caminhava pela avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso. Usava um vestido decotado cujas orlas inferiores mal desciam até a metade de suas coxas; o decote generoso deixava à mostra a parte superior de seu busto esplêndido. Os homens embasbacavam-se, boquiabriam-se ao admirá-la. Não foram poucos os que assobiaram para Ludmila, expressando todo o desejo que ela lhes inspirava. Queixocaídos diante de tão esplendorosa maravilha, atoleimados, mergulhavam num abissal estado letárgico do qual emergiam muito tempo após Ludmila sair do campo visual deles, mas a imagem daquele corpo deslumbrante perdurava-lhes no espírito.

Em frente da loja Casa Futurística, Ludmila viu um homem de óculos, um pouco mais alto do que ela, bonito, atraente, esbelto, de cabelos castanhos penteados para trás. Ele atraía a atenção de todas as mulheres, que suspiravam ao admirá-lo. Uma vez ou outra, quando uma mulher encarava-o com insistência e indiscrição, provocando-o, ele sorria, deliciado, e exibia seus dentes brancos. Ludmila percebeu que ele a viu, fitou-a por uma fração de segundo, e por ela não deu mostra de interesse. Após passar por ele, Ludmila, depois de alguns passos, voltou-se para trás e, fingindo olhar para as vitrines da loja Perfumes, fitou-o, e viu, para seu desgosto, que ele não se voltou para trás, para admirá-la, como faziam todos os homens, e irritou-se. À noite, ela não conseguiu conciliar o sono, pois a indiferença daquele belo espécime incomodou-a.

Quem era aquele belo homem? Nos dias seguintes, Ludmila pensou nele, obcecada. À noite, com pálpebras cerradas, desperta, evocava-o, e usufruía de sensações que nunca experimentara.

Nos dias seguintes, sozinha, Ludmila caminhou pelas ruas do centro da cidade à procura do belo homem que abalara a sua confiança em si mesma. Transcorreram-se duas semanas. Ela não o encontrou. Por onde ele andaria? Seria ele um morador da cidade? Qual a idade dele? Qual o nome dele? O coração de Ludmila vibrava rápido sempre que o evocava em pensamentos, ao acordar, ao almoço, ao banhar-se, ao pentear os cabelos, enquanto trabalhava, enquanto atendia aos clientes.

*

Ludmila caminhava pela praça Gilberto Freyre. Usava saia curta e camisa decotada. Atraía todos os olhares. Os homens a admiravam. As mulheres a invejavam e suspiravam, não de desejo, como os homens, mas de raiva. Ludmila dava-se conta da atração que exercia sobre os homens. Viu, para sua surpresa, andando em sua direção, conversando com uma japonesa, o belo homem que a atraíra, que nela exercera irresistível atração, e que a ignorara, dezoito dias antes. Suspendeu a respiração, sentiu aperto no coração e falta de ar. Desacelerou os passos. Cravou os olhos no belo homem, que exibia, num sorriso encantador, que deixou Ludmila deslumbrada, belos dentes brancos. Encarou-o, indiscreta. Aproximou-se dele. Passeou as mãos pelos cabelos. Do belo homem não desviou os olhos. Um pouco antes de cruzar o caminho dele, os olhos dele e os seus encontraram-se. Ele sorriu. Ludmila abriu um sorriso tímido, intimidada. Poucos metros adiante, ela sentou em um banco da praça e, fingindo procurar qualquer coisa na bolsa, olhou para o belo homem e para a japonesa, que se afastavam. Ele não olhou para trás, nem uma vez, para olhar para Ludmila, que mordeu-se de raiva, ferida em seu orgulho.

Depois do almoço, Ludmila foi ao banco, na rua do Encilhamento. Na fila, o belo homem, para quem, percebeu Ludmila, três mulheres olhavam, apaixonadas. Ludmila deteve-se atrás dele. Esperava que ele voltasse para trás e a olhasse, a admirasse, e se encantasse com ela. Ele, em certo momento, voltou-se para trás, e viu Ludmila. Nela deteve o olhar por uns poucos segundos, o suficiente para estudar-lhe o rosto e o busto. Ludmila sentiu o sangue ferver. Moveu a cabeça, jogou os cabelos para trás, puxou-os para a frente, e empinou o busto. O belo homem, contrariando as expectativas de Ludmila, não se interessou por ela, e voltou a sua atenção para uma mulher que passava por ele.

Cinco minutos depois, uma loira aproximou-se do belo homem.

– Lauro – disse-lhe ela -, aqui está o troco da conta que paguei no banco A**.

– Obrigado, Tereza. Aonde você vai?

– À loja Íntima e Decente. Tenho de pagar uma conta.

– Irei ao restaurante Bom Almoço, assim que eu me retirar daqui.

– Você ainda não almoçou?

– Não. E você?

– Já. Mas farei companhia para você. Até mais.

– Tchau. Não demorarei aqui.

– Não conte com isso.

Despediram-se.

Ludmila não perdeu nenhuma palavra deste diálogo. Esperou por uma oportunidade para puxar conversa com Lauro. Aproveitou a primeira que se lhe ofereceu assim que Lauro se virou para trás.

– Que calor! – comentou Ludmila. – O banco, lotado, parece um forno.

– Já enfrentei uma fila, hoje, pela manhã – comentou Lauro. – Um inferno!

– Infelizmente, os bancos não contratam caixas. Veja, há apenas dois.

– Sairemos daqui às três da tarde.

– Se tivermos sorte – Ludmila sorriu.

– Talvez tenhamos sorte, hoje. Detesto bancos.

– Além dos banqueiros, quem gosta de bancos?

A conversa prosseguiu, descontraída, até vinte e oito minutos depois, quando Lauro foi atendido por um caixa. Durante esse tempo, Ludmila esperou que ele lhe pedisse o nome, mas ele não lho pediu, para seu desgosto, e, para seu maior desgosto, Lauro não se mostrou seduzido pela sua beleza.

Ludmila foi atendida pelo outro caixa. Ela pagou uma conta, e retirou-se do banco antes de Lauro, e esperou-o à porta. Para que ele não soubesse que o esperava, fingiu procurar alguma coisa na bolsa que trazia a tiracolo.

Lauro saiu. À porta do banco, encontrou-se com Ludmila e com ela encetou conversa. Em nenhum momento perguntou-lhe o nome, nem demonstrou-se por ela seduzido. A sua postura, ao mesmo tempo que irritou Ludmila, ao feri-la na vaidade de mulher atraente e sedutora, fê-la admirá-lo.

– Vou comer um lanche – disse Ludmila. – Estou com fome.

– Em qual restaurante? – perguntou Lauro.

– No Bom Almoço.

– Que coincidência. Vou me encontrar, lá, com a Tereza. Se você quiser, faça-nos companhia.

Dirigiram-se ao restaurante Bom Almoço. Tereza aguardava Lauro. Lauro apresentou Ludmila para Tereza e Tereza para Ludmila. Sentaram-se à mesa. Lauro almoçou. Tereza e Ludmila comeram, cada uma, um lanche, e beberam, Tereza, laranjada, Ludmila, suco de uva. Os três conversaram, descontraidamente. Em nenhum momento Lauro agiu como se Ludmila o houvesse seduzido. E ela notou que ele era muito atencioso com Tereza, que não era bonita.

O telefone celular de Tereza vibrou. Ela o atendeu; ao fim da conversa, anunciou a sua retirada do restaurante.

– Terei de ir, Lauro. O dever me chama. Deixarei vocês aqui. Comportem-se, hein. Tchau, Lauro. Tchau, Ludmila. Gostei de conhecer você. Você é muito simpática.

– Você também – saudou-a Ludmila, que se levantou, ao mesmo tempo que Tereza curvava-se um pouco para a frente, e despediu-se dela com dois beijos, um em cada face (sem encostar os lábios no rosto e estalando os lábios ao descolá-los) – Nos veremos, qualquer dia.

– Tchau, Tereza – despediu-se Lauro. – Passarei na sua casa, à noite.

– Esperarei por você. Tchau – e Tereza beijou-o no rosto.

Assim que Tereza retirou-se, Ludmila comentou:

– Simpática, a Tereza.

– Conheço-a desde o pré-primário. Tivemos um namorico aos quinze anos. E hoje somos bons amigos.

– Ela é muito animada.

– Ela sempre foi assim, de bem com a vida.

– Gosto de gente assim.

– Ela é esperta, brincalhona, divertida. Para ela, não há tempo ruim. Faça chuva, faça sol, ela está sempre com um sorriso no rosto, a despeito de todas as tragédias que viveu.

Lauro falou da vida de Tereza, atribulada, repleta de tragédias: a morte do irmão caçula e a da irmã; o acidente sucedido com sua mãe, que ficou paraplégica; as aventuras extraconjugais de Mário, de quem divorciou-se e quem a infectou com o virus HIV. Ludmila, admirada e surpresa ao ouvir tais relatos, disse que entendia porque ele, Lauro, admirava a Tereza, e se convenceu de que, para conquistar Lauro, teria de, além de usar de sua beleza, de seu natural poder de sedução, empregar artifícios para atraí-lo, pois ele não dava valor à beleza física, mas, sim, ao caráter e à força de vontade, e perguntou-se o que tinha a oferecer-lhe além de um belo corpo.

Retiraram-se do restaurante após as cinco horas da tarde. Andaram pela rua dos Expedicionários e pela avenida Dom João VI, e entraram na rua José de Anchieta, e andaram até a casa de Lauro, detiveram-se diante do portão, e Ludmila levou sua mão direita ao rosto de Lauro, puxou-o para si, e beijou-o, ardentemente, apaixonadamente.

Três horas depois, encontraram-se na casa de Ludmila, onde passaram uma noite de intensa paixão.

*

– Garanhão, conte-me o que ocorreu, ontem, à noite – exigiu Tereza, ávida por revelações indiscretas, na tarde do dia seguinte, na praça Gilberto Freyre. – Conte-me, bandido. O que aconteceu? Conte-me a história, tintim por tintim. Não quero perder nenhum detalhe.

– Por que tanta animação?

– Ajudei você a ir para a cama com a Ludmila. Tenho o direito de saber o que aconteceu.

– Você e a japinha.

– É verdade. A Maura também. Ela merece a sua gratidão. Conte-me: A diaba cedeu aos seus desejos, às suas fantasias?

– Realizei todas as minhas fantasias.

– Quando você diz “todas as minhas fantasias” você quer dizer todas as suas fantasias?

– Exatamente. “Todas as minhas fantasias” é todas as minhas fantasias.

– A Ludmila não reconheceu você?

– Não.

– Também pudera! Você era tão feio! O tempo passa… Nenhuma mulher, nunca, iria namorar você, se você continuasse feio do jeito que era.

– Você me anima, Tereza.

– Mas agora você é muito bonito. E deu uma lição na Ludmila. Você seduziu a sedutora. Um dia é da caça; o outro, da caçadora. A Ludmila, tão cheia de si, desde que a conheço… Ela não nos reconheceu. Ela não me reconheceu.

– Ela nunca reconheceria você, Tereza. Nunca. Ela não conversava com ninguém, lembra-se? Tão cheia de si, a Ludmila, que se bastava a si mesma. Com quem ela conversava, na escola? Com a Míriam e com a Larissa, as duas mulheres mais chatas e arrogantes que conheci. A Ludmila, lembra-se?, disse-me, no colegial, quando a pedi em namoro, que não namoraria comigo porque eu era feio e pobre. E ela também me disse que nunca iria para a cama comigo, porque sentia nojo de mim.

– O que aconteceu depois… Hoje, pela manhã… Conte-me.

– Ela me disse que me conquistara, e estava muito feliz com isso.

– Ela conquistou você? Foi isso o que ela disse?

– Foi. Ela inverteu os papéis. Ela ficou caidinha por mim. Quando cruzei o caminho dela, perto da loja Casa Futurística, ela me viu, e eu a ignorei. Ontem, quando eu e a Maura passamos por ela, ela não tirou os olhos de mim. Depois, no banco, enquanto eu e você conversávamos, ela nos ouviu falar do restaurante Bom Almoço, e, esperta, não perdeu a oportunidade… Caiu nas garras do gostosão.

– Você está se achando o maior conquistador do mundo.

– Que nada! Sem as suas dicas, eu não teria êxito. Você me disse para eu desprezar a Ludmila, que ela cairia na minha rede. Dito e feito. Tereza, contei para a Ludmila que não me chamo Lauro, mas Gumercindo, e perguntei-lhe se ela se lembrava desse nome. Ela fez cara de espanto. Aí, evoquei o dia em que a pedi em namoro, e perguntei-lhe se ela se lembrava do que disse sentir por mim. Ela arregalou os olhos, Tereza. Você tinha de estar lá para ver. Ela me disse: “Você! Gumercindo! Você está tão diferente!” E eu lhe disse que cresci, melhorei minha aparência, e fiquei bonito, e rico, e coisa, e tal, e disse-lhe que eu a atraíra e a seduzira. Ela não me quis acreditar, e expliquei-lhe o que aconteceu desde o primeiro momento em que eu e ela cruzamos um o caminho do outro. E disse-lhe que eu desejava uma noite de prazer com ela. E a conseguira. Perguntei-lhe se ela sentia nojo de mim, ou dela. Ela ficou fula da vida! Conteve-se, para não fazer escândalo. Estou certo de que ela deseja devorar-me vivo.

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Dois tiros

Quarta-feira. Temperatura amena.

Celso, imerso em seus pensamentos, andava, tranquilamente, pela avenida Dom Pedro II.

– Entregue-me a carteira – ameaçou-o um jovem alto, espadaúdo, moreno, de cabelos desgrenhados, que lhe encostou a ponta de uma faca na ilharga direita.

Celso sentiu a ponta afiada da faca, e, automaticamente – com movimentos robóticos, dir-se-ia -, retirou a carteira do bolso posterior direito da calça, e entregou-a ao jovem, que arrancou-lha da mão, com violência, e correu, e o seu comparsa, jovem magro, loiro, branco, de um metro e setenta de altura, o acompanhou. Desapareceram no meio da multidão. Celso levou a mão direita ao peito, e sentiu o coração bater descompassado. Aos poucos, recuperou o controle de si. Demorou para entender o que ocorrera; e suspirou, aliviado. Uma mulher, que testemunhou o assalto, de Celso aproximou-se, e aconselhou-o a ir à delegacia de polícia.

Na delegacia, vinte minutos depois, Celso descreveu aos policiais os dois assaltantes.

Transcorreram-se os dias. Em frente à loja Novidades, Celso e um seu amigo, Edson, conversavam quando aquele entreviu, indo em direção a eles, os dois jovens que lhe roubaram a carteira, e empalideceu, e aceleraram-se-lhe os batimentos cardíacos. Os dois jovens seguravam, cada um, uma corrente pela alça; um dos jovens trazia consigo um rottweiller; o outro, um pitt-bull.

– O que houve? – perguntou Edson a Celso, ao surpreender-lhe a brusca mudança de voz e a palidez repentina.

Um dos jovens, o loiro, gritou o nome de Edson. Edson voltou-se, saudou-o. Os dois jovens aproximaram-se. Reconheceram Celso. Sorriram. Saudaram, com apertos de mãos, Edson, e Celso, que, pálido, trêmulo, saudou-os, constrangido, intimidado. Conversaram com Edson, durante cinco minutos, a respeito dos cachorros que levavam com eles. Despediram-se. Fitaram Celso, sorridentes, desejaram-lhe felicidades, e afastaram-se.

– Eles me assaltaram, na semana passada – disse Celso, assim que os dois jovens distavam cinquenta metros.

– O Osvaldo e o Ricardo? – perguntou Edson, surpreso.

– Sim – respondeu Celso. – Eles roubaram a minha carteira. Você sabe onde eles moram?

Edson forneceu-lhe o endereço de Osvaldo.

No dia seguinte, Celso pegou o revólver de seu pai.

– Aqueles vagabundos me pagarão caro – rosnou Celso. – Vou enviá-los para o inferno – e rumou para a casa de Osvaldo.

Quinze minutos depois, chegou ao seu destino. Premiu a campainha. Ouviu os latidos dos cachorros. Ricardo atendeu à porta, reconheceu Celso, encarou-o, e sibilou:

– O que você quer, idiota?

Celso franziu o cenho.

Os cachorros intensificaram os latidos.

Celso apontou o revólver para a cabeça de Ricardo, que, de imediato, emudecido, surpreso, arregalou os olhos, e recuou dois passos.

Celso, com voz cavernosa, ameaçadora, deu-lhe a ordem:

– Entre!

Ricardo obedeceu-o, prontamente, mesmerizado pelo revólver apontado à sua cabeça.

Recrudesceram os latidos do rottweiller e do pitt-bull.

No interior da casa estava Osvaldo, que, ao ver Ricardo e Celso, não esboçou nenhum gesto. Fitou-os, em silêncio.

Celso pôs os dois à mira do revólver.

– Vim buscar a minha carteira – sentenciou Celso.

O rottweiller e o pitt-bull latiam, infatigáveis.

Osvaldo entregou a carteira para Celso, que, com brusquidão, retirou-lha da mão, e perguntou-lhe, ríspido:

– E o dinheiro?

– Gastamos… – respondeu, voz trêmula, Osvaldo.

– Malditos cães! – esgoelou-se Celso, que apertou o gatilho duas vezes. Com o primeiro tiro, matou o rottweiller; com o segundo, o pitt-bull.

E correu, célere.