Brasil, paraíso dos machistas. Um conto politicamente correto.

Dou a público, hoje, uma história horripilante, comum hoje em dia, mas oculta do povo indiferente.
Após esperar vinte minutos, durante a chuva torrencial que despencou nesta cidade a partir das 18,00 horas, no ponto de parada de ônibus, Jaqueline, vendo um ônibus aproximar-se, acenou; o ônibus parou, para que ela nele subisse. No ônibus, então lotado, ela, em pé, se espremeu entre os passageiros; não havia o ônibus percorrido quinhentos metros, abordou-a um homem esbelto, de um metro e setenta de altura, de barba rapada, calvo nas têmporas, trajando calça jeans, camisa azul e sapatos pretos. Ele, assim que se levantou do banco, ofereceu-o à Jaqueline, para que ela nele se sentasse. Ela, de imediato, rejeitou a oferta, e, diante da insistência dele, solicitou ao motorista que, ou mandasse o homem que lhe oferecera a ela Jaqueline o banco para nele ela se sentar retirar-se do ônibus, ou desviasse do trajeto original e rumasse à delegacia de polícia. O motorista recusou-se a atender-lhe às sugestões; e inúmeros passageiros esbravejaram. Diante da intransigência do motorista e da chusma dos passageiros, ela protestou, veementemente, tirou da bolsa que trazia a tiracolo um telefone celular, discou o número do telefone da delegacia de polícia, e, em altos brados, ora se queixava à telefonista que a atendera, ora tripudiava contra os passageiros e o motorista. A celeuma assumiu proporções inabarcáveis. Jaqueline ameaçou processar todos os que se encontravam no ônibus. Mulheres disparavam-lhe ofensas. Jaqueline estapeou um homem, unhou outro, desferiu duas joelhadas em um terceiro, e ameaçou arrancar os cabelos de um outro. A turbamulta ia, como um vagalhão, ameaçando derrubar o ônibus, o que obrigou o motorista a estacioná-lo, e telefonar para a delegacia de polícia. Para conservar o auto-controle, o motorista retirou-se  do ônibus; lá fora, alternava sua atenção entre sua conversa, ao telefone, com a sua interlocutora, as queixas que os passageiros lhe faziam e as reclamações de Jaqueline.
Não tardou cinco minutos, quando uma viatura policial chegou ao local, trazendo dois policiais, um homem e uma mulher, que trataram de tranquilizar todos os envolvidos no imbróglio, sucesso que só obtiveram a duras penas. De todas as personagens envolvidas, Jaqueline era a mais agitada, e justificadamente, afinal ela fora a ofendida; ela transparecia, em gestos ostensivos, em expressões fortes, as suas indignação e raiva compreensíveis; intempestiva, esbravejou, esgoelou-se, e firme, convencida da razão de seus propósitos, incansável, declarou-se, corretamente, desrespeitada e, corajosamente, disposta a ir aos tribunais denunciar todas as pessoas que a conspurcaram ao lhe arremessarem epítetos insultuosos.
“Aquele machista… – disse Jaqueline, indignada, referindo-se ao homem, que, levantando-se do banco, oferecera-lhe o lugar que deixara vago – aquele machista… Quem ele pensa que eu sou!? Quem ele pensa que ele é!? Que direito ele tem de me oferecer um lugar para eu me sentar!? Quem ele pensa que ele é!? Que desrespeito! Aquele machista… Eu não preciso que homem nenhum me ofereça um banco para eu me sentar. Só porque eu sou mulher, aquele machista me tem como um pessoa inferior, fraca, incapaz! Que absurdo! Vivemos em uma sociedade machista, patriarcal, preconceituosa. Os homens se acham superiores às mulheres”. Tais palavras são de uma mulher poderosa, de brios, que sabe qual é o seu lugar na sociedade. De uma mulher insubmissa, altiva.
Era visível o desarranjo emocional de Jaqueline,  compreensível e justificável diante de tal violência que lhe promoveram, produzido pela ação desrespeitosa do homem que lhe oferecera o lugar no banco. E assim que lhe amainou o espírito, Jaqueline prosseguiu: “E o motorista, outro machista, em vez de atender-me, destratou-me. Fez de conta que o assunto não lhe dizia respeito, e seguiu viagem. Aquele machista! Todos os passageiros do ônibus são machistas, inclusive as mulheres, que, ao invés de irem em meu favor, ofenderam-me. Aquelas bruacas! Aquelas megeras! Todas servis à cultura patriarcal, machista”.
Neste momento, uma das passageiras interrompeu Jaqueline, e, destrambelhada, pôs-se a desancá-la com termos ofensivos e epítetos insultantes. E vários passageiros, açulados por ela, avançaram, ameaçadores, na direção de Jaqueline, que se abrigou às costas dos policiais, que, não sendo bem-sucedidos em chamar todos à razão, solicitaram reforço policial, que não tardou a chegar.
Contornada a situação, todos os envolvidos no entrevero os policiais os conduziram à delegacia de polícia, onde quase se engalfinharam Jaqueline e alguns passageiros e se deu tal distribuição de ofensas que até o Marquês de Sade, se as ouvisse, se constrangeria. Enfim, arrefecidos os ânimos, na presença de advogados e policiais, Jaqueline e os outros passageiros acordaram entregar o caso aos tribunais. Muitos dentre os envolvidos, já no exterior da delegacia, bufaram de raiva, e foram-se embora. Todos os passageiros e o motorista do ônibus, certos de que, de tão absurda a queixa de Jaqueline, ela, Jaqueline, perderia o processo. Enganaram-se. O veredicto, favorável a ela, os obrigava a cada um deles o pagamento de indenização por danos morais à vítima, Jaqueline. Eles esbravejaram. Espernearam. Recorreram da decisão. Jaqueline saiu vitoriosa de tal litígio. E a justiça foi feita. E a sociedade machista perdeu.
Não muito tempo depois, num ônibus que ia do bairro Campo Belo ao Campo Limpo, Jaqueline embarcou num ônibus lotado de passageiros, e espremeu-se como sardinha numa lata, deslocou-se alguns metros, e deteve-se ao lado de um banco, ocupado, então, por um homem cuja aparência lhe dava trinta anos e cuja indumentária lhe emprestava ar solene, venerável. No entra e sai de pessoas no ônibus, durante os quarenta minutos de duração da viagem, Jaqueline foi arremessada de um lado para o outro, só não indo, desequilibrada, ao chão porque outros passageiros serviam-lhe de escora. O desconforto, insuportável. Ao fim da viagem, na rodoviária, assim que, após descer do ônibus, encontrou-se com Marcela, sua amiga, que a aguardava, disse-lhe, queixando-se: “Os homens são muito mal-educados. Deus me livre! Num ônibus lotado, o calor de matar, obrigaram-me os machistas a permanecer em pé durante a viagem. E nenhum homem se dignou a ceder-me o banco. E o que estava na minha frente, machista dos infernos!, fez que nem me viu. Aquele machista! Se soubessem o apuro que as mulheres passamos, todos os dias, no transporte coletivo, os homens jamais iriam desejar ser mulheres. Temos as mulheres de aturar cada desaforo! Que falta de civilidade, a dos homens! Quero nascer homem na próxima encarnação. Assim, eu não sofrerei o que as mulheres sofrem”. E Marcela subscreveu-lhe as queixas.
Esta é uma, apenas uma, das incontáveis histórias que retratam a difícil vida da mulher na sociedade moderna, patriarcal e machista.

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