Desencontros e encontros

– Esperarei por você, Valquíria, hoje, às nove horas, no restaurante Smith & Smith. Eu não seria nem um pouco cavalheiro se me atrasasse ao encontro e fizesse você me esperar.

– Irei com o meu melhor vestido, Cauã. Para uma ocasião tão especial, o melhor vestido e o melhor perfume. Passarei no cabeleireiro, e pedirei para ele caprichar no visual. Será uma noite inesquecível.

– Saiba: você não precisa se enfeitar para ficar bonita. Você é bonita; e dispensa os adornos. Você fica linda em qualquer vestido; até sem vestido, fica linda…

– Bobo. Não seja engraçadinho… Então, às nove horas, no Smith…

– Não quer uma carona até a sua casa?

– Não. Obrigada. Terei, antes de ir para a minha casa, de ir ao caixa eletrônico do banco X sacar alguns trocados e pagar duas contas, e à loja Lar comprar um conjunto de sofá, pois o de casa a Milu e a Mi o estraçalharam…

– Aqueles cachorrinhos são traquinas…

– Eles destróem tudo o que encontram pela frente… Vou virar à direita, Cauã. Tchau. Um beijo.

– Tchau, Valquíria. Às nove horas, no Smith.

– Estarei lá.

*

– E então, Valquíria, conte-me como foi o seu encontro com o Cauã, na sexta-feira. Conte-me. Quero saber de todos os detalhes. De todos os detalhes.

– Que avidez por notícias, Mônica. Nossa! Não é à toa que dizem que você é fofoqueira…

– Eu adoro fofocas. Não me farto de fofocas. Eu me alimento de fofocas. O que seria do mundo se não houvesse fofocas? O mundo seria um lugar muito chato para se viver. Você sabia que os fofoqueiros são as pessoas mais bem informadas sobre o que realmente interessa…

– Não me venha com mais uma de suas teses filosóficas, sociológicas e antropológicas para justificar os seus vícios…

– Que vícios… E você também adora fofocas…

– Não vou discutir com você porque hoje eu estou muito feliz. E ninguém, e nada, poderá destruir a minha felicidade…

– Você e o Cauã beijaram-se, apaixonadamente, e agarraram-se, e…?

– Não. E sabe por quê? Eu não fui ao encontro.

– O quê? Você não foi ao encontro?

– Foi isso o que eu disse, não foi? Foi isso o que você me ouviu dizer, não foi?

– Mas… Mas… Valquíria… O Cauã… Você…

– Quer saber, Mônica: Eu estava cheia do Cauã. Cheia! Eu já estava com ele pelo pescoço. Ele merecia um bolo; e eu lhe dei um. Você o conhece tão bem quanto eu o conheço. Ele insistia em sair comigo, há semanas. E ele agia como se eu fosse uma propriedade dele. Confesso: ele é bonito, e inteligente também; mas eu tinha de fazer alguma coisa para pô-lo no lugar dele e provar-lhe que nem toda mulher se curva perante ele e o trata como o deus do amor e da beleza. Ora, ele merecia uma lição. E eu lhe dei uma. Ele tem que aprender, Mônica, que ele não pode usar as, e tampouco abusar das, mulheres e tratá-las com desdém. Eu não sou um objeto. Assim que me encontrar com o Cauã, eu lhe direi que houve um imprevisto, que minha mãe adoeceu, e esqueci-me de telefonar para ele… Sei lá… Inventarei uma desculpa qualquer. E demonstrarei que não me sinto triste por não haver ido ao Smith. Tratarei do assunto como se fosse algo corriqueiro, para que ele entenda que não lamento o fato de eu não poder ir ao encontro. Quero ver a cara do Cauã… Assim que ele chegar e me vier falar… Quero ver a cara de defunto…

– Falando no capeta, Valquíria, apareceu o diabo. Ele não me parece triste. O sorriso dele vai de uma orelha à outra.

– Espere ele vir aqui.

– Ele não me parece triste; parece o homem mais feliz do mundo.

– Ele disfarça bem, Mônica; quero ver como ele vai se comportar ao me ouvir.

– Ele está vindo para cá. Devagar. Calmo. Bom dia, Cauã.

– Bom dia, Mônica. Bom dia, Valquíria.

– Bom, dia, Cauã. Lamento não ter isso ao Smith, Cauã. E lamento não ter telefonado para você. A minha irmã adoeceu, e eu tive de levá-la ao hospital; esqueci-me de telefonar para você para desmarcarmos o encontro.

– Não se preocupe, Valquíria.

– Poderemos marcar um outro encontro, Cauã, se você desejar, no restaurante que você escolher, e no dia que você quiser.

– Seria bom, mas não poderei marcar um encontro com você, e nem sair mais com você…

– Cauã, se você está com raiva de mim, entendo…

– Valquíria, não estou com raiva. Eu estou muito feliz. Fui ao Smith, e esperei por você. Depois de quase duas horas, certo de que você não iria ao Smith, chamei pelo garçom, e pedi a conta. Foi então que se me apresentou uma linda moreninha sorridente, de olhar peralta e meigo, de rosto bonito, rechonchudinho, rosado: Lidiane. Conversamos ela e eu. Ela me agradou. Eu a agradei. E conversa vai, e conversa vem… E ela e eu começamos a namorar. O amor é lindo, não? A Lidiane é a mulher da minha vida, é a minha alma gêmea, é a minha cara-metade. Será a mãe de meus filhos.

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