Declaração de Amor – parte 3 de 5

Dálton cursava o terceiro ano colegial, à noite, e trabalhava das oito horas ao meio dia e das quatorze às dezoito horas.

Dois eventos entristeceram-no sobremaneira: a morte de Celso, seu tio, um dos tios pelo qual nutria mais carinho e respeito; e, três dias depois, a morte de Adriano, um amigo que, ou foi enforcado, ou cometeu suicídio. Adriano, dois anos antes, envolvera-se com drogas, e, suspeitavam, traficava drogas e devia uma boa soma em dinheiro para traficantes; como não saldara a dívida, mataram-no, enforcado, simulando suicídio, diziam. Durante os cortejos fúnebres, Dálton conservou-se calado; a sua fisionomia transparecia a dor que o avassalava. De seus olhos, escorreram lágrimas abundantes, as quais ele removia com as mãos, ou Marta lhas removia, carinhosamente. Nas provas que se sucederam, na semana posterior às mortes de Celso e de Adriano, Dálton obteve notas baixas; e o seu desempenho no trabalho também diminuiu. A sua desatenção e a sua indiferença não passaram despercebidas das pessoas com as quais ele convivia.

Semanas depois, numa conversa com seus pais, disse-lhes que, indeciso, não sabia que faculdade cursaria. Decidiu-se, por fim, não cursar nenhuma faculdade. Seus pais insistiram; que ele cursasse alguma faculdade. Ele lhes disse que talvez se matriculasse em um curso técnico, ou em uma faculdade relacionada à administração e negócios, pois, na loja de aparelhos eletrônicos, tomara gosto pelo ofício de vendedor, e porque desejava conhecer o funcionamento de uma empresa; e, com argumentos consistentes, que teria mais a aprender na loja do que numa universidade. Ulisses disse-lhe que ele poderia cursar ou engenharia ou medicina. Dálton não se decidiu; pensaria no assunto, e, enquanto não tomasse uma decisão, trabalharia, na loja de aparelhos eletrônicos, ou em outra empresa. Vilma Helena falou de Claudionor, que se dedicava aos estudos e iniciara estágio em uma empresa de engenharia espacial, e disse que ele, Dálton, não poderia se contentar com emprego de vendedor em uma loja de aparelhos eletrônicos. Dálton franziu o cenho, expôs o seu descontentamento com a comparação, e perguntou-lhe, sem deixar de dirigir a pergunta para seu pai, se eles poderiam admitir que ele, Dálton, tomasse uma decisão independentemente de qual tenha sido a de Claudionor. Sua mãe desconversou, disse-lhe que tivera, unicamente, a intenção de mostrar-lhe, ao falar de Claudionor, que ele, Dálton, não teria futuro de sucesso sem instrução universitária.

– A emenda saiu pior do que o soneto – sentenciou Dálton.

Ao perceber que os ânimos acirravam-se, antecipando-se à Vilma Helena, Ulisses perguntou a Dálton se ele estava desempenhando bem o seu trabalho na loja de aparelhos eletrônicos. Vilma Helena calou-se, e engoliu a pergunta, provocativa, ela sabia, que pretendia fazer ao filho. Até o encerramento do almoço, ela não pronunciou nenhuma outra palavra; da conversa entre Ulisses e Dálton ouviu o início, e dela alheando-se, mergulhou nos seus pensamentos.

Num final de semana, Marta e Dálton foram à uma festa num clube alugado pelos alunos da universidade.

À beira da piscina, Marta, Dálton e Mariana conversavam, sentados; Marta entre Dálton, à sua direita, e Mariana, à sua esquerda. Wesley e Carlos Roberto, visivelmente embriagados, aproximaram-se deles, e seguraram Marta, Wesley, pelos calcanhares, Carlos Roberto, pelas axilas, e levantaram-na. Ela protestou. Eles gargalharam e provocaram-na, desdenhosos. Dálton observou-os. Ao cruzar o seu olhar com o de Marta, levantou-se, e pediu, com gentileza incomum, a Wesley e Carlos Roberto que a soltassem. Eles gargalharam, zombaram dele e de Marta. Wesley perguntou para ela porque ela havia levado o namorado à festa e disse-lhe que ela era mais simpática e engraçada quando ele não estava por perto. Dálton encarou-o, engrossou a voz, e, num tom imperioso, com o punho direito cerrado, disse-lhe que soltasse Marta. Zombeteiro, Wesley soltou-a, e disse-lhe que ele era muito nervoso, e, voltando-se para Marta, disse-lhe que ela merecia um namorado que sabia curtir a vida. Dálton empurrou-o, sem aplicar toda a sua força. Wesley recuou, ergueu os braços, mantendo os cotovelos dobrados, e, num tom ao mesmo tempo zombeteiro e intimidado, pediu-lhe calma. Carlos Roberto soltou Marta. Ao contínuo, ele e Wesley aproximaram-se de Mariana, ameaçaram agarrá-la e jogá-la na piscina. Ela deu um tapa inofensivo em Carlos Roberto, e este e Wesley provocaram-na, afastaram-se dela, e aproximavam-se de Bianca e Jéssica, que conversavam, sentadas, no outro lado da piscina. Agarraram Jéssica, que não imprimiu resistência e limitou-se a apresentar-lhes protestos débeis, ergueram-na, e arremessaram-na na piscina. Wesley, ato contínuo, jogou-se na piscina. Jéssica emergiu. Ele emergiu. Carlos Roberto puxou Bianca pelo calcanhar. Ela resistiu, e deu-lhe uma unhada. Ele recuou, massageou o ponto atingido, voltou-se para ela e desferiu-lhe obscenidades; e ao chamado de Wesley, pulou na piscina. E acercaram-se Carlos Roberto e Wesley de Jéssica, que protestou. Wesley agarrou-a pelos cabelos. Bianca pediu a Wesley e Carlos Roberto que a deixassem em paz. Carlos Roberto proferiu um palavrão. Dálton disse para Mariana e Marta que aquela brincadeira não teria um final feliz. Jéssica protestou, ofendeu Wesley, e, com olhos suplicantes, pediu-lhe que a largasse. As gargalhadas e os comentários de Wesley e Carlos Roberto incomodaram Marta, Dálton, Mariana, Bianca e outras pessoas. Dálton, então, preparou-se para ir em socorro a Jéssica; deteve-se ao ver dois rapazes e Bianca se lhe antecipando e pulando na piscina. E os três nadaram até Wesley, Carlos Roberto e Jéssica; esta, ao se ver livre e na companhia de Bianca, nadou até a borda da piscina, chorando, enquanto os dois rapazes discutiam com Wesley e Carlos Roberto. À beira da piscina, Bianca e duas moças ampararam Jéssica, visivelmente nervosa, cuja respiração o choro dificultava, e uma delas cobriu-a com uma toalha; Bianca, envolvendo-a pelos ombros, conduziu-a até uma cadeira. Enquanto isso, os dois rapazes que pularam na piscina em socorro a Jéssica, e outros rapazes, obrigaram Wesley e Carlos Roberto a se retirarem da piscina à cuja beira Wanderley, um grandalhão loiro de cabelos compridos, deu um tapa na cara de Carlos Roberto e pôs-lhe o dedo em riste ao nariz e encostou o punho esquerdo cerrado na testa de Wesley, dirigindo-lhes a palavra num tom de voz ameaçador. Wesley e Carlos Roberto, intimidados, escudaram o rosto com as mãos, encolheram os ombros e viraram a cabeça quando Wanderley, que sopesava o seu desejo de expulsá-los do clube aos socos e pontapés, ameaçou dar-lhes um soco. E afastaram-se. E a namorada de Wanderley puxou-o pelo braço ao mesmo tempo que, atônita, dava, para Wesley e Carlos Roberto, que se recolheram sob apupos impublicáveis e olhares de repreensão de todos os presentes, a sugestão de recomporem-se e irem-se embora.

Duas pessoas justificaram a atitude de Wesley e Carlos Roberto.

– Eles estão bêbados – disse uma delas. – Eles não têm controle dos próprios atos.

– O que fizemos? – replicou um aluno. – Acabamos com a ebriedade deles. Os palavrões que lhes dissemos e os tapas que o Wanderley lhes deu os trouxeram à realidade.

– Eles apenas se divertiam – disse a outra. – A Jéssica perdeu o controle. O Wesley e o Carlos Roberto nada lhe fariam, aqui, na piscina, na frente de todo mundo.

– Eles se divertiam? – retrucou uma aluna, indignada. – A Jéssica não se divertia. Cabia a eles respeitá-la. Se ela não queria participar da brincadeira, eles não poderiam obrigá-la a participar. E quem disse que eles não iriam fazer nada!? Estão bêbados aqueles dois imbecis. Eles tiraram a parte de cima do biquíni da Jéssica. O Wesley e o Carlos Roberto puxaram-lhe o biquíni de baixo, para desatá-lo. Se a Jéssica não o segurasse, eles lho removeriam – e acrescentou, após um curto intervalo. – E tu me dizes que aqueles dois idiotas nada fariam contra a Jéssica!

Minutos depois, Dálton, ao entrar no banheiro, sentiu a emanação peculiar de maconha e ouviu vozes de três pessoas – duas vozes masculinas e uma voz feminina – dentro de um compartimento isolado. Assim que ouviram os passos de Dálton, tais pessoas calaram-se; sempre que uma delas fazia algum barulho, ouvia-se, na sequência, um “chiu” ciciado ou um “Quieto” sussurrado. Dálton pensou em Marta. Imaginou-a na companhia de Wesley e Carlos Roberto. Perguntou-se o que Wesley quis dizer quando dissera para Marta que ela era mais simpática e engraçada quando estava desacompanhada dele, Dálton, e imaginou-a, num banheiro reservado aos homens, fumando maconha, na companhia de dois homens – tais pensamentos e tais imagens rodopiaram no seu cérebro, desnorteando-o. Retirou-se do banheiro, em menos de dois minutos após nele entrar, e foi, sem se deter, até a piscina, e sentou-se à direita de Marta. À sua mente, os pensamentos a lhe avassalarem o espírito. Ao olhar ao redor, divisou, ao longe, num terreno um pouco abaixo, encostado à árvore, um homem, e uma mulher, ele a enlaçá-la. O homem trajava uma sunga. A mulher, um biquíni azul. Riam. Beijavam-se. Ela lhe passeava as mãos pelos cabelos compridos. Ele lhe apertava as nádegas. Ela, sorrindo, ora dava-lhe um tapa no ombro, ora beliscava-lhe o braço, ora apertava-lhe as bochechas, ora segurava-lhe as mãos. Um rapaz aproximou-se deles. O homem e a mulher voltaram-se para ele, e riram. O rapaz, com esgares lascivos, gestos obscenos, enlaçou, por trás, a mulher, encostou-se nela, puxou-lhe os cabelos e lambeu-lhe a orelha direita. A mulher e o homem gargalharam. O rapaz deslizou as mãos pelas ilhargas, quadris e pernas da mulher, apertou-lhe as nádegas, e estreitou-se nela ainda mais; ao receber do homem um empurrão amigável, afastou-se; ato contínuo, ameaçou aproximar-se da mulher, mas o homem, sorrindo, ameaçou dar-lhe pontapés; com gestos lascivos da língua, afastou-se, às gargalhadas estrondosas, as quais ecoaram pelo clube e chegaram aos ouvidos de Marta, de Mariana, e aos de Dálton, cuja mente imagens nas quais a mulher era substituída por Marta a avassalavam.

À noite, Dálton e Marta passearam pela praça Joaquim Nabuco. Ele lhe relatou o que presenciara no clube, e expôs os seus pensamentos a respeito, as impressões que o episódio provocara em si, perguntou-lhe se, em todas as festas que os universitários promoviam, havia tais depravações, e disse-lhe que ela não iria, desacompanhada dele, a outras festas, pois os universitários, sentenciou, são depravados. Marta discordou. Disse que alguns deles eram irresponsáveis, desrespeitosos e preguiçosos, e muitos eram responsáveis, estudiosos e trabalhadores, e evocou as pessoas que reprovaram Wesley e Carlos Roberto. Dálton replicou: uma delas era a moça cuja voz ouvira no banheiro, e outra, o homem que, encostado à árvore, enlaçava a mulher, namorada dele, presumia. Eles eram imorais, sentenciou. E perguntou para Marta a respeito dos comentários de Wesley, que disse que era ela mais simpática e engraçada quando ele, Dálton, não a acompanhava. Ela aconselhou-o a não dar atenção para o que Wesley dizia. Dálton ensaiou uma réplica, mas calou-se, ensimesmado, nutrindo suspeitas; disse para si mesmo, em pensamento, que usaria de expedientes dos quais Marta não suspeitaria para saber o que se passava na faculdade. As desconfianças empanaram-lhe a consciência; o torvelinho de idéias embotou-lhe o raciocínio. Ele evocou os eventos sucedidos no clube, lembrou da sua curiosidade mórbida sobre o desenrolar e o desenlace do caso que Wesley e Carlos Roberto protagonizaram e visualizou a moça e os dois homens no banheiro. Fustigaram-lhe a mente pensamentos desconcertantes a respeito de Marta, para cujo comportamento conjecturou explicações.

Dálton exasperou-se ao não confirmar as suas suspeitas. Acreditava que Marta esquivava-se das perguntas que ele lhe fazia com o propósito de sondar-lhe a mente, mas sem revelar-lhe as suas intenções, as quais, pensava, delas Marta desconfiava mas simulava ignorância.

Em novembro, pediu Marta em casamento. Deram ambos a notícia aos familiares. Casariam em julho do ano seguinte. Reuniram-se, numa festa comemorativa, na casa de Floriano e Lucrécia. Alguns familiares maledicentes disseram que Marta estava grávida de um aluno da faculdade; houve quem declarasse que o filho dela fôra concebido durante uma festa, e que Marta não sabia quem era o pai da criança que ela daria à luz dali seis meses, caso não a abortasse, como ela e Dálton pensavam fazer. Resumo do enredo aventado aos quatro cantos do mundo: Marta bebeu whisky, vodka, fumou maconha e cheirou cocaína; com o cérebro em frangalhos, participou de uma orgia, manteve o intercurso carnal com quatro homens, todos eles alunos da faculdade, bêbados e drogados. Os maledicentes, com voz sibilina, não se limitaram a espalhar tal história durante a festa. Disseminaram-na, nos dias seguintes, por toda a cidade. Tal história alcançou os ouvidos de Marta e Dálton, e os dos pais dele e os dos pais dela. O autor de tais boatos não foi identificado, mas, tinham certeza Dálton e Marta, e os pais deles, que ele era um dos convidados à festa na casa de Floriano e Lucrécia.

Nos finais de semana e nos dias de folga, Dálton e Marta foram às imobiliárias, e às lojas pesquisar preços de cama, guarda-roupas, mesas, e às empresas de materiais de construção. Floriano e Lucrécia os presentearam com um terreno de quinhentos metros quadrados que possuíam no Bairro Jardim das Oliveiras e disseram-lhes que os ajudariam, com dinheiro, na construção da casa.

Dálton comprou um carro seminovo. No trabalho, desincumbia-se, à perfeição, das suas funções. O gerente da loja, Vinicius, promoveu-o, e transferiu-o para uma filial, localizada na cidade vizinha, cujo gerente, Durval, em reconhecimento dos méritos de Dálton, aumentou-lhe o salário e a porcentagem da comissão. Alguns vendedores fitavam Dálton com olhares enviesados; dentre eles, havia os que lhe arquitetavam a queda. Outros vendedores, sinceros, teciam-lhe elogios, saudavam-no, respeitosos, e reconheciam-lhe as excepcionais faculdades de vendedor. A dedicação de Dálton ao trabalho e aos estudos era o assunto principal das conversas de Ulisses e Vilma Helena, ambos convencidos de que Marta inspirava nobres sentimentos a Dálton, que não andava mais na companhia daqueles sujeitos pelos quais nutriam repulsa figadal. Ele, diziam, mudou da água para o vinho. Na loja, difamadores e desafetos dele o hostilizavam, abertamente uns, pelas costas outros. No início, ele estranhou a atitude de alguns vendedores, a hostilidade deles, as insinuações que eles lhe apresentavam, as ambigüidades que proferiam; não precisou de muito tempo para se convencer de que, dentre os vendedores, muitos eram seus rivais, e muitos seus inimigos viscerais.

Dálton e Marta foram à festa de final de ano que a loja promoveu. À mesa em que estavam havia outros funcionários da loja, uns, acompanhados da namorada, outros, da esposa, e funcionárias acompanhadas, umas, do esposo, outras, dos filhos e do esposo. Dálton, após reconhecer um amigo, Matheus, que estava no outro lado do salão, em pé, saudando duas pessoas, levantou-se, e andou na direção dele. Ao passar por uma mesa, deteve-se para dar passagem para duas mulheres, que iam em sentido contrário. Foi então que ouviu o nome de Marta mencionado num tom que não o agradou. Reconheceu a voz que o pronunciou; era a de Lúcio, um dos vendedores que trabalhava na loja; e, em seguida, reconheceu a voz de Ricardo, outro vendedor. Ouviu Lúcio referir-se, num tom seco, à Marta. Ele disse que ela, extraordinariamente persuasiva, extraía favores da gerência, para beneficiar Dálton. Dálton ouviu uma voz indignada, de mulher. Não se voltou para Lúcio e Ricardo. Sabia que eles queriam que ele se voltasse e os fitasse. Afastou-se deles, assim que pôde, mas não antes de ouvir uma das duas mulheres que conversavam com eles perguntar se Dálton não sabia que recebia privilégios devido aos favores que Marta prestava ao gerente, ou não desconfiava das facilidades na obtenção de vantagens, e Lúcio declarar que suspeitava que ele ou sabia de tudo, mas por conveniência e covardia calava-se, pois recebia muitos benefícios, ou, mancomunado com a namorada, chantageava o gerente, que era casado.

Dálton saudou Matheus, a namorada dele, Sabrina, o pai dela, Renato, que era um funcionário da loja, e a mãe dela, Ana Beatriz. Eles pediram a Dálton que se sentasse, e lhes fizesse companhia; ele lhes disse que estava com Marta. Conversaram durante alguns minutos. Dálton soube que Matheus trabalhava em uma montadora de automóveis, localizada em São José dos Campos. Parabenizou-o. Desejou-lhe sucesso. Falou-lhe de Marta, do noivado, do casamento, do terreno que ganhara dos futuros sogros, da casa que pretendiam construir, e disse-lhe que lhe enviaria o convite de casamento. Matheus, que havia um ano não o via, desde que se mudara, com o pai e a mãe, de cidade, disse que desejava conhecer Marta. Dálton pediu-lhe que o acompanhasse, que lha apresentaria. Matheus e Sabrina o acompanharam até à mesa à qual estava Marta. Ao passar próximo à mesa à qual estavam Lúcio e Ricardo, Dálton viu, com o canto dos olhos, as duas mulheres fitando-o com olhar misto de indignação e pena, como se o vissem, ou como um tolo, ou como um ser repulsivo, fez que nada viu, e seguiu até Marta.

Minutos depois da meia-noite, quando quase todos os convidados já haviam se retirado do clube, Dálton e Marta despediram-se dos amigos e de Durval. À porta do salão, Lúcio abordou-os, sorridente, saudou Dálton, e deu-lhe tapinhas nas costas. Em seguida, ele saudou Marta, que lhe retribuiu a gentileza. Assim que Fátima, esposa de Lúcio, e Andréia, esposa de Ricardo, e Ricardo deles se aproximaram, Lúcio apresentou Dálton para Fátima:

– Ele é o Dálton de quem te falei.

Fátima exibiu sorriso acanhado, e ofereceu a mão direita a Dálton, de quem não passou despercebido a lividez do rosto dela e o constrangimento.

Em seguida, Lúcio apresentou Fátima para Marta. Elas se cumprimentaram, com débil aperto de mãos, que mal se tocaram. Na sequência, ele apresentou Andréia para Marta – elas se cumprimentaram – e para Dálton – e Dálton e ela saudaram-se. Lúcio elogiou Dálton; sorrindo, disse-lhe que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher, e disse para Marta que Dálton, sem o apoio dela, não seria um vendedor tão bem-sucedido. Ela acolheu os elogios. Dálton compreendeu as insinuações, e sorriu; era seu desejo cerrar os punhos e esmigalhar o nariz de Lúcio com socos, mas, para a sua surpresa, conteve-se. A sua postura, fria, contrastava com o sangue, que lhe fervia nos vasos sanguíneos, e com os pensamentos, que lhe queimavam a mente.

Enfim, após muitos sorrisos forçados, elogios falsos, Lúcio e Fátima e Ricardo e Andréia despediram-se de Dálton e de Marta.

No carro, Marta perguntou para Dálton porque ele, na presença de Lúcio, Fátima, Ricardo e Andréia, estava tenso, e dele ouviu:

– Amanhã te contarei a história. Tu conhecerás a verdadeira face do Lúcio e a do Ricardo.

Na manhã seguinte, Dálton cumpriu o prometido. Marta ouviu-o atentamente, meneando a cabeça, indignada, enraivecida. Condenou a postura dissimulada de Lúcio e a de Ricardo. Dálton disse-lhe que tinha de lidar com eles, todos os dias – e se controlar para não perder a compostura e não os moer de socos -, e com outros vendedores do mesmo naipe. Ela lhe disse que tais vendedores mereciam uma surra inesquecível. Lúcio, disse Dálton, era, de todos os seus desafetos, o mais sórdido; era persuasivo, capaz de, com lábia sedutora – como Marta tivera a oportunidade de conhecer -, embotar, com seus floreios retóricos, a consciência das pessoas, que acabavam por acreditar em idéias estapafúrdias e a praticar atos condenáveis; e fazia inimigos viscerais dois amigos filiais. Tal faculdade ele empregou contra os seus desafetos e os seus fiéis escudeiros, caso de Ricardo, sujeito passivo, desprovido de vontade própria, inapto, que se sente seguro e forte à sombra dele. Ricardo era um vendedor promissor antes de cair nas garras de Lúcio, que o reduziu a um bonequinho de ventríloquo. Inteirada do tipo de Lúcio e do de Ricardo, nas outras ocasiões em que entabulou conversa com eles, Marta compreendeu as insinuações que eles lhe faziam; com sutileza, disparou-lhes farpas, e eles esforçavam-se por exibir indiferença e rosto inexpressivo, mas um ligeiro esgar, o rumor de um sorriso, com a comissura dos lábios, o franzir das sobrancelhas deles revelavam o incômodo – detalhes minúsculos, imperceptíveis, que Marta, meticulosa, detectava, e usava contra eles, logrando irritá-los. Lúcio tentava fustigá-la com comentários ambíguos nos quais estavam implícitos os seus propósitos maldosos, e os quais revelavam, dele, o ponto fraco, o qual ela acreditou haver descoberto.

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