Shazam! – (2019) – com Zachary Levi

É Shazam! um acrônimo. Cada uma das letras que o constituem corresponde à inicial do nome de um personagem lendário ou mitológico: S, de Salomão; H, de Hércules; A, de Atlas; Z, de Zeus; A, de Aquiles; e, M, de Mercúrio. Para a pessoa merecer possuir os poderes de tais personagens tem ela de ser pura de coração, abnegada, nobre de espírito.
Nas revistas em quadrinhos recebe o personagem o nome Capitão Marvel.
No princípio do filme, numa estrada: no interior de um carro estão, ao volante, Mr. Silvana (John Gloover); à sua direita, seu filho primogênito; e, no banco traseiro, Thaddeuz Silvana (Ethan Pugotto), seu segundo filho, alvo de constantes chacotas de seu irmão e de desprezo de seu pai. Um fenômeno inexplicável surpreende o menino – que poucas décadas depois se tornaria o arqui-inimigo de Shazam, o maquiavélico Doutor Thaddeuz Silvana (Mark Strong), êmulo de Lex Luthor -, que é transportado para um universo mítico; e ele se vê na presença do Mago (Djimon Hounsou), guardião do cajado cuja posse apenas o merecedor dos poderes de Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio, terá. E o menino Thaddeuz Silvana revela-se deles imerecedor.
Transcorrem-se os anos. Conhecemos, agora, a desventura de Billy Batson (Asher Angel), que, depois de abandonado por sua mãe (Caroline Palmer), vive uma vida errática até ser acolhido, num orfanato, pelos proprietários deste, o casal Vasquez, ambos egressos de orfanatos, Victor (Cooper Andrews) e Rosa (Marta Milans). E no orfanato estreita Billy Batson laços de amizade com Pedro Peña (Jovan Armand), Darla Dudley (Faithe Herman), Eugene Choi (Ian Chen), Mary Bromfield (Grace Fulton), e Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que viria a ser dos cinco internos o seu amigo mais próximo.
Após algumas peripécias juvenis, Billy Batson é transportado, por vias misteriosas, para o reino do Mago, este debilitado e envelhecido. Antes o doutor Thaddeuz Silvana, diante do Mago, não tendo a posse do cajado místico, incorporara os poderes dos demônios que representam os sete pecados capitais. O Mago, apreensivo, não se dedica a, com percuciência, paciente, avaliar os candidatos aos poderes dos seis heróis; vai de atropelo, agora que Silvana libertara e incorporara os dons dos demônios, e cede o cajado a Billy Batson, um garoto.
Ao saber possuidor de super-poderes, com ajuda de Freddy Freeman, Billy Batson, agora com o corpo de Shazam (Zachary Levi), seu alter-ego adulto, conservando sua mentalidade de garoto de quatorze anos, aprende, aos poucos, e aos trancos e barrancos, a conhecê-los, a usá-los. Os dias de aprendizado de Billy Batson, Freddy Freeman a ladeá-lo, e as rugas entre os dois garotos, rendem cenas hilárias. E em tais cenas estão uns dos poucos atrativos do filme.

É inevitável o confronto entre o herói, Shazam, e o vilão, Doutor Silvana. O universo traçou o destino de cada um deles, e os pôs em rota de colisão. E lutam herói e vilão. Mas Shazam não era páreo para os sete demônios que o seu oponente incorporara.
Ao fim, de posse do cajado místico, Shazam pede aos seus cinco amigos de orfanato que eles toquem o cajado e pronunciem a palavra de invocação dos heróis míticos, Shazam. E assim todos eles convertem-se em super-heróis de poderes equivalentes aos de Billy Batson. E ao final da aventura são vitoriosos os super-heróis e derrotado o Doutor Theddeuz Silvana.
Faço questão de registrar, nesta resenha, um comentário acerca do discurso progressista – subjacente à trama – que não muito sutilmente o filme vende. Quem não se deixou seduzir pelas cenas engraçadas e atentou para os tipos das personagens captou as mensagens razoavelmente discretas. Pensei em dizer que são as mensagens subliminares. E eu poderia declarar que elas são explícitas, escancaradamente explícitas.
São o pai e o irmão de Thaddeuz Silvana desrespeitosos com ele, e o maltratam; o pai e a mãe de Billy Batson não constituem uma família, não são a mãe e o pai dele exemplares, a mãe dele o abandonou, num parque de diversões, quando ele ainda era uma criança, e o pai dele é um criminoso; os donos do orfanato e os cinco internos são de famílias desestruturadas. Dos cinco internos, um é gordo, latino, Pedro Peña, um, menina, negra, Darla Duddley, um, oriental, Eugene Choi, um, aleijado, Freddy Freeman, e um, mulher entrando na idade adulta, Mary Bromfield. E o casal Vasquez e os internos constituem, assim se diz, uma família, uma família harmoniosa, perfeita, ideal, conclui-se.
Estas são as mensagens, duas, que o filme transmite:
Primeira: A família tradicional, constituída de pai, mãe e filhos, laços de sangue os unindo, é prejudicial, nefasta, opressora, enquanto o modelo de família propagandeada pelos progressistas é o ideal, o da reunião de pessoas de inúmeras origens e sem laços de sangue.
Segunda: Os cinco internos do orfanato são cada um deles o símbolo de uma classe oprimida pelo homem branco, ou, tambêm pode-se dizer, o de uma minoria (a dos gordos, a dos negros, a dos orientais, a dos aleijados – ou, melhor, dos portadores de necessidades especiais, para não ferir suscetibilidades – e a das mulheres), todas as cinco vítimas da sociedade arcaica, ocidental, cristã.
É Shazam! um filme razoável. E um panfleto ideológico.

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